MEV em 2026: as estratégias de extração e defesa on-chain
O MEV tornou-se uma indústria com searchers, builders e leilões em milissegundos. Explicamos as estratégias de extração, da arbitragem ao sandwich, e as defesas que devolvem valor ao utilizador.
No dia 30 de abril de 2026, um dos endereços mais vigiados da Ethereum fez uma operação insignificante: Vitalik Buterin trocou cerca de quatro dólares de um token por ether. Um bot conhecido como jaredfromsubway.eth detetou a ordem no mempool público, colocou uma transação imediatamente antes e outra imediatamente depois, movimentou perto de 1,14 milhões de dólares em WETH e ficou com a diferença. Buterin perdeu poucos cêntimos, mas o simbolismo foi enorme: o homem que passou anos a combater o chamado «MEV tóxico» acabou apanhado num sandwich pelo bot mais notório da rede, como noticiou a CoinDesk.
O episódio resume, em ponto pequeno, uma das economias menos visíveis e mais lucrativas da DeFi. O MEV deixou de ser uma anomalia técnica para se tornar uma indústria completa, com a sua própria cadeia de fornecimento, empresas especializadas, leilões que decorrem em milissegundos e uma corrida ao armamento entre quem extrai valor e quem tenta defendê-lo. Este artigo mapeia as estratégias reais: como o valor é extraído, quem paga a conta, quem fica com o lucro e que ferramentas existem em 2026 para reduzir os danos.
Vamos começar pela definição e pela escala do fenómeno, passar pelo mempool onde tudo nasce, percorrer as estratégias uma a uma, dissecar a cadeia que liga searchers a validadores e terminar nas defesas, do RPC protegido à reforma que o próprio Ethereum prepara para este ano. Pelo caminho, os preços aparecem em euros e a moldura regulatória é a portuguesa.
O que é MEV, afinal, e porque mudou de nome
MEV é a sigla de Maximal Extractable Value, ou valor máximo extraível. Segundo a documentação da ethereum.org, designa o valor que pode ser retirado da produção de um bloco para além da recompensa normal e das taxas de gas, através do poder de decidir a ordem, a inclusão ou a exclusão de transações dentro desse bloco. Por outras palavras: quem monta o bloco escolhe a sequência das operações, e essa sequência vale dinheiro.
O termo nasceu em 2019, no artigo académico Flash Boys 2.0, de Philip Daian e coautores, apresentado no IEEE Symposium on Security and Privacy de 2020. Na altura, a sigla significava Miner Extractable Value, porque eram os mineradores da prova de trabalho que ordenavam as transações. Depois da transição do Ethereum para prova de participação (o Merge, em 2022), esse papel passou para os validadores, e a comunidade rebatizou o conceito como Maximal Extractable Value, mantendo a sigla.
A escala é difícil de medir com precisão, mas as estimativas não deixam dúvidas quanto à ordem de grandeza. Um guia da DEXTools de 2026 aponta para mais de 1,2 mil milhões de dólares extraídos de forma acumulada só na Ethereum, com mais de metade a vir de ataques sandwich. Não se trata de uma taxa cobrada pela rede, mas de uma transferência: dinheiro que sai do bolso de uns utilizadores e entra no de outros, muitas vezes sem que a vítima perceba.
Vale a pena insistir neste ponto, porque é onde muita gente se engana: o MEV não é, na maioria dos casos, dinheiro criado do nada nem uma taxa que financia a segurança da rede. É valor que muda de mãos. Numa arbitragem, sai de fornecedores de liquidez mal posicionados; num sandwich, sai diretamente do bolso de quem negoceia. Perceber quem está do lado errado de cada estratégia é o primeiro passo para saber se vale a pena preocupar-se com ela.
O artigo original de Daian foi mais longe do que uma simples descrição. Avisava que os lucros dependentes da ordenação das transações podem, no limite, ameaçar a própria estabilidade do consenso, incentivando atores a reorganizar ou a reescrever blocos para capturar valor já confirmado. Sete anos depois, esse aviso continua a orientar boa parte da investigação sobre o tema.
O mempool público: o palco onde tudo começa
Para perceber as estratégias, é preciso perceber o mempool. Quando um utilizador assina uma transação numa rede como a Ethereum, ela não entra logo num bloco. Fica primeiro numa sala de espera pública, o mempool, onde qualquer pessoa com um nó pode observá-la antes de ser confirmada. É aqui que reside a matéria-prima do MEV: a intenção do utilizador torna-se visível, com o token que quer comprar, o montante e a tolerância a derrapagem (slippage), antes de o negócio se concretizar.
Foi esta paisagem que dois investigadores, Dan Robinson e Georgios Konstantopoulos, apelidaram em 2020 de «floresta escura»: um espaço onde qualquer transação exposta é imediatamente vista e devorada por predadores automáticos, e onde publicar uma operação sem proteção equivale a acender uma fogueira numa noite sem luar. A imagem colou-se ao imaginário da DeFi porque descreve com precisão a experiência de quem tenta mover fundos de forma ingénua.
Os bots que exploram esta janela competem em duas frentes: latência (chegar primeiro) e taxa de gas (pagar mais para ser ordenado à frente). Durante anos, o mempool foi uma guerra de gas aberta, em que os concorrentes leiloavam publicamente a prioridade, subindo o preço até ao limite do lucro. Essa disputa deu lugar a mecanismos privados mais sofisticados, mas a lógica de base permanece: ver a ordem de outra pessoa antes de ela ser executada é uma vantagem que vale dinheiro.
Nem todas as cadeias funcionam assim. A Solana, por exemplo, não tem um mempool global, o que muda por completo a forma como o MEV é capturado nessa rede, um ponto a que voltaremos mais à frente.
As estratégias de extração, uma a uma
Nem todo o MEV é igual. Alguns tipos mantêm o mercado eficiente e são vistos como benignos; outros são puramente predatórios. A tabela seguinte resume as principais famílias de estratégias, se são consideradas produtivas ou tóxicas, se são atómicas (executadas de uma só vez, sem risco de falhar a meio) e quem acaba por pagar a conta.
| Estratégia | Tipo | Atómica? | Quem paga |
|---|---|---|---|
| Arbitragem entre DEX | Benigna, produtiva | Sim | O pool com o preço desatualizado (os LP) |
| Liquidações | Benigna, produtiva | Sim | O mutuário sub-colateralizado |
| Ataque sandwich | Tóxica | Não | O utilizador que negoceia (via derrapagem) |
| Front-running genérico | Tóxica | Depende | A vítima cuja ideia é copiada |
| Back-running | Neutra a benigna | Sim | Muitas vezes ninguém em concreto |
| JIT liquidity | Ambígua | Sim | Os LP passivos do pool |
| Mints e long-tail | Variável | Não | Quem competia pela mesma oportunidade |
| MEV entre domínios (cross-domain) | Fronteira | Não | Arbitrado entre cadeias ou L2 |
Arbitragem e liquidações: o MEV que mantém os preços alinhados
A forma mais antiga e mais defensável de MEV é a arbitragem entre exchanges descentralizadas. Se o mesmo par de tokens está mais barato num pool do que noutro, um searcher compra no primeiro e vende no segundo dentro da mesma transação atómica, embolsando a diferença e, no processo, alinhando os preços. A própria ethereum.org dá o exemplo de um searcher que transformou 1000 ETH em 1045 ETH numa única operação de arbitragem.
Este tipo de extração tem um custo real para quem fornece liquidez. Cada vez que um arbitragista corrige o preço de um pool, fá-lo às custas dos fornecedores de liquidez, que ficam a segurar o lado errado do movimento. É a razão pela qual desenhar taxas e mecanismos que protejam os LP se tornou uma das grandes batalhas do design de AMM.
As liquidações são o segundo pilar do MEV produtivo. Nos protocolos de crédito como o Aave ou o Morpho, um empréstimo cujo colateral cai abaixo do limite tem de ser liquidado para manter o sistema solvente. Os searchers competem para ser os primeiros a executar essa liquidação e a receber o prémio associado. É um serviço necessário: sem estes bots, os protocolos de empréstimo acumulariam dívida incobrável.
Entre estes dois extremos vivem estratégias mais ambíguas, como a chamada JIT liquidity (liquidez just-in-time). Aqui, um bot deteta uma grande ordem prestes a ser executada, injeta liquidez concentrada no pool imediatamente antes para capturar a maior parte da comissão dessa operação e retira-a logo a seguir. Do ponto de vista do utilizador, a execução até pode melhorar; do ponto de vista dos fornecedores de liquidez passivos, é valor que lhes é surripiado por quem só aparece no instante certo.
Boa parte deste MEV benigno acaba, aliás, a alimentar o rendimento de quem faz staking, uma peça do puzzle que analisámos no artigo sobre o rendimento real e a compressão da DeFi para a taxa base. Ao preço atual de cerca de 1.643 euros por ether, segundo a CoinGecko, cada ponto de rendimento adicional pesa nas contas de milhões de validadores.
O ataque sandwich: a face tóxica do MEV
Se a arbitragem é o lado aceitável do MEV, o ataque sandwich é o seu rosto predatório. O esquema tem três fatias. Primeiro, o bot vê no mempool uma ordem de compra grande o suficiente para mexer no preço. Compra o mesmo token imediatamente antes, empurrando a cotação para cima. Depois deixa a vítima executar a sua compra, agora a um preço pior. Por fim, vende logo a seguir, realizando o lucro. A vítima não é roubada de forma óbvia; simplesmente recebe menos tokens do que receberia, e a diferença fica com o atacante. É por isso que a tolerância a derrapagem que definimos numa DEX é, na prática, o limite máximo que autorizamos um sandwich a extrair.
Ao contrário da arbitragem, o sandwich não é atómico: entre a compra e a venda do atacante há o risco de o mercado se mover contra ele. É uma aposta, não um lucro garantido, e é também por isso que estes bots investem tanto em infraestrutura para reduzir a incerteza.
A escala do problema é considerável. Os ataques sandwich representam, segundo as estimativas citadas atrás, mais de metade de todo o MEV extraído na Ethereum, e concentram-se precisamente nos tokens mais negociados e nos momentos de maior volatilidade, quando as ordens são grandes e a derrapagem tolerada tende a ser generosa. Definir uma tolerância de 0,5% em vez de 3% pode ser a diferença entre uma execução limpa e um convite ao ataque.
O caso de Buterin, com que abrimos este artigo, é o exemplo perfeito de que ninguém é imune. E a história teve um epílogo irónico: em junho de 2026, o próprio jaredfromsubway.eth foi drenado em cerca de 7,5 milhões de dólares por um exploit que o enganou, como relatou a CoinDesk. No mundo do MEV, até os predadores têm predadores.
A cadeia de fornecimento: searchers, builders, relays e proposers
O MEV moderno não é obra de um único bot solitário. É uma cadeia de fornecimento com papéis especializados, resultado de uma separação deliberada entre quem constrói o bloco e quem o propõe, conhecida por proposer-builder separation (PBS). A tabela seguinte descreve cada papel.
| Papel | Função | Como ganha |
|---|---|---|
| Searcher | Procura oportunidades e monta bundles de transações | Fica com o lucro da estratégia, menos o que paga ao builder |
| Builder | Junta bundles e transações num bloco completo e otimizado | Recebe uma parte do valor e licita para que o bloco seja escolhido |
| Relay | Intermedia entre builder e validador e valida o conteúdo | Papel de confiança, historicamente sem fins lucrativos |
| Proposer (validador) | Escolhe o bloco mais valioso e propõe-no à rede | Recebe a licitação mais alta, além da recompensa e das taxas |
O elo que une tudo isto no Ethereum chama-se MEV-Boost, um software criado pela Flashbots que permite ao validador comprar, num leilão, o bloco mais rentável construído por terceiros, em vez de o montar sozinho. O validador vê apenas licitações seladas e escolhe a mais alta, o que aumenta significativamente as suas recompensas. Este mercado é hoje a espinha dorsal da economia de MEV.
A razão para esta divisão de trabalho é económica. Construir o bloco mais rentável possível exige capital, algoritmos sofisticados e infraestrutura de baixa latência que um validador individual, muitas vezes um simples aforrador com 32 ETH em staking, não tem como manter. Ao separar os papéis, o pequeno validador continua a receber quase todo o valor do MEV através do leilão, sem precisar de competir na corrida técnica. O reverso, como veremos, é que essa competição se concentra em pouquíssimas mãos.
A lógica de leiloar a ordenação não é exclusiva da DeFi de spot. Nas plataformas de derivados, a forma como as ordens são sequenciadas é igualmente decisiva, um tema que explorámos na análise sobre a guerra dos perp DEX que a Hyperliquid está a vencer.
MEV-Boost e o problema da concentração de builders
A adoção do MEV-Boost é quase total: mais de 90% dos blocos do Ethereum são hoje produzidos por esta via. O problema é o que essa dependência trouxe consigo. O mercado de builders concentrou-se de forma extrema, ao ponto de, em vários períodos recentes, apenas dois builders (a Beaverbuild e a Titan) terem construído cerca de 88% de todos os blocos, segundo dados citados pela The Block.
Uma concentração destas levanta duas preocupações. A primeira é a censura: se meia dúzia de entidades decide o que entra nos blocos, transações associadas a certos endereços podem ser sistematicamente excluídas. A segunda é a resiliência: um mercado tão concentrado é frágil e fácil de capturar por interesses particulares.
Há ainda um risco mais subtil, precisamente aquele que o artigo Flash Boys 2.0 antecipava: o dos time-bandit attacks, em que um produtor de blocos poderoso é tentado a reorganizar a cadeia para capturar o MEV de blocos já passados, em vez de avançar. Numa rede saudável, o custo e o risco de o fazer são proibitivos; mas quanto mais concentrada estiver a produção, menor é a barreira, e é por isso que a descentralização dos builders é tratada como uma questão de segurança, não apenas de justiça.
A resposta da própria Flashbots foi a BuilderNet, lançada no final de 2024 em conjunto com a Beaverbuild e a Nethermind. Trata-se de uma rede descentralizada de construção de blocos que corre dentro de ambientes de execução confiáveis (TEE) e que partilha o MEV e as taxas com os utilizadores, em vez de as concentrar num único operador. É uma tentativa de resolver, do lado da infraestrutura, o problema que o próprio mercado criou.
A camada de relays e de garantias que sustenta este mercado sobrepõe-se, aliás, ao universo do restaking, onde protocolos como a EigenLayer tentaram oferecer segurança adicional. As tensões desse modelo ficaram claras quando a ether.fi recuou e abandonou a EigenLayer, um sinal de que a infraestrutura de MEV e de segurança partilhada ainda está longe de estabilizar.
Primeira linha de defesa: mempools privados e RPC protegidos
Se o mempool público é o campo de batalha, a defesa mais direta é simplesmente não entrar nele. Serviços como o Flashbots Protect ou o RPC do MEV Blocker permitem enviar a transação por um canal privado, que a entrega diretamente a builders sem a expor previamente aos bots. Aquilo que ninguém vê, ninguém pode fazer front-run.
A troca não é gratuita. Ao usar um RPC privado, o utilizador passa a confiar no operador desse canal para não abusar da informação e para não o censurar. Concentrar o fluxo de ordens em poucos canais privados resolve o sandwich, mas cria um novo ponto de centralização, precisamente o dilema que a BuilderNet tenta atenuar.
Leilões de fluxo de ordens e a devolução do MEV ao utilizador
A geração seguinte de defesas não se limita a esconder a ordem; tenta capturar o MEV que ela gera e devolvê-lo a quem lhe deu origem. É a ideia dos leilões de fluxo de ordens (order flow auctions).
Em abril de 2023, a Flashbots lançou o MEV-Share, um protocolo que deixa o utilizador partilhar seletivamente alguns dados da sua transação com searchers, que depois licitam para a acompanhar (fazer back-run). Parte do valor extraído é devolvida ao utilizador, em vez de desaparecer por completo.
O MEV Blocker, desenvolvido pela CoW e por parceiros, leva a lógica mais longe: obriga os builders a devolver cerca de 90% do valor da licitação vencedora ao utilizador, deixando os restantes 10% para o validador, segundo a documentação do projeto. Na prática, transforma o back-run de uma perda numa fonte de reembolso.
A própria CoW Protocol vai além do reembolso com os seus leilões em lote (batch auctions): agrupa várias ordens e liquida-as todas ao mesmo preço uniforme, deixando que solvers concorram para encontrar a melhor execução. Se todas as ordens do lote fecham ao mesmo preço, deixa de existir uma ordem interna que se possa explorar, o que elimina de raiz o sandwich e reduz o custo que os arbitragistas impõem aos LP.
Estas três abordagens (esconder, reembolsar e agrupar) não são mutuamente exclusivas e, na prática, muitas carteiras já combinam mais do que uma por defeito. O denominador comum é uma mudança de filosofia: em vez de tratar o MEV como um imposto inevitável, passa a tratá-lo como uma receita que pertence, em boa parte, a quem gera o fluxo de ordens. É uma lógica que faz lembrar o velho debate do payment for order flow nos mercados tradicionais, agora transposto para on-chain.
Sequenciação ao nível da aplicação: quando o protocolo se defende sozinho
Uma terceira família de defesas desloca o problema para dentro da própria aplicação. Em vez de esperar que a infraestrutura da rede se comporte bem, alguns protocolos assumem o controlo da ordenação das suas transações.
O Uniswap V4, com os seus hooks, abriu a porta a este tipo de desenho. Um exemplo é o Angstrom, da Sorella Labs, uma DEX construída sobre o V4 que implementa um sequenciador específico da aplicação: controla a ordem das transações para impedir o front-running e leiloa os direitos de ordenação, devolvendo esse valor aos fornecedores de liquidez, como descreve uma análise da Sei.
Ao nível dos rollups, a Unichain foi mais longe: aplica regras de ordenação por prioridade dentro de um TEE e produz blocos muito rápidos, encolhendo a janela em que um preço desatualizado pode ser explorado. É o primeiro L2 em que a própria ordenação é auditável por terceiros.
E há ainda a via da governação. A proposta de UNIfication do Uniswap inclui um mecanismo de leilão que vende descontos temporários de taxa e queima as receitas, redirecionando para os LP e para os detentores de UNI parte do MEV que antes fugia para searchers e validadores. Quem decide ligar ou desligar estes mecanismos é, no fim, a comunidade, um poder cujos limites discutimos no artigo sobre quem decide mesmo nas DAO em 2026.
O plano do Ethereum: ePBS, FOCIL e mempools encriptados
A resposta mais estrutural está a ser cozinhada no próprio protocolo. A próxima grande atualização do Ethereum, batizada Glamsterdam e prevista para o segundo semestre de 2026, tem como cabeça de cartaz a EIP-7732, que consagra a proposer-builder separation dentro do protocolo (o chamado ePBS), acompanhada da EIP-7928 (block-level access lists), segundo a EtherWorld. A ideia é reduzir a dependência dos relays externos e das entidades de confiança que hoje sustentam o MEV-Boost.
O próprio Vitalik Buterin tem avisado que o ePBS, sozinho, não resolve a concentração de builders. Num plano que apresentou em março de 2026 e que a CoinDesk detalhou, Buterin defende que o valor central do Ethereum, o estado partilhado e síncrono em que qualquer transação pode depender de qualquer outra, obriga a construção de blocos a manter-se centralizada até certo ponto. Por isso propõe camadas adicionais.
A primeira é o FOCIL, um mecanismo de listas de inclusão em que um pequeno grupo de participantes escolhidos aleatoriamente indica transações que têm obrigatoriamente de entrar no bloco; se faltarem, o bloco é rejeitado. Assim, nem um builder hostil que controle toda a produção consegue censurar um utilizador. A segunda é a encriptação do mempool: cifrar as transações até estarem finalizadas, de modo que ninguém possa fazer front-run daquilo que não consegue ler. Buterin aponta ainda para os riscos na camada de rede, onde as transações podem ser observadas antes sequer de chegarem a um bloco, e sugere sistemas de encaminhamento anónimo.
Em paralelo, a Flashbots tem trabalhado num projeto mais ambicioso, o SUAVE, uma espécie de camada de leilão unificada que separaria a expressão das preferências dos utilizadores da execução propriamente dita, com o objetivo de descentralizar a construção de blocos em várias cadeias ao mesmo tempo. É um plano de longo prazo, ainda longe de estar concluído, mas ilustra a direção pretendida: transformar o MEV de uma extração opaca numa infraestrutura pública e transparente.
Esta atualização é a mesma que traz a próxima descida das taxas nos L2, um tema que tratámos em detalhe no artigo sobre a Glamsterdam e o que vem depois dos blobs. MEV e escalabilidade viajam, cada vez mais, no mesmo comboio.
MEV noutras cadeias: Solana, Jito e o dilema dos validadores
O MEV não é exclusivo do Ethereum, mas assume formas diferentes consoante a arquitetura. A Solana não tem um mempool global à espera; as transações são enviadas diretamente ao validador que lidera naquele instante. Isso não elimina o MEV, apenas muda quem o controla.
Na prática, quase toda a rede passou a girar em torno da Jito. O cliente Jito-Solana, que otimiza a captura de MEV através de bundles e tips (gorjetas que os searchers pagam para garantir posição), corre em mais de 90% do stake da rede, segundo a Chainstack. Como a Jito também opera um pool de staking líquido (o JitoSOL), parte dessas gorjetas regressa aos utilizadores comuns que depositaram SOL. Ao preço atual de cerca de 65,84 euros por SOL, segundo a CoinGecko, esse fluxo representa uma fatia relevante do rendimento dos stakers.
A Solana também mostrou que a governação pode agir de forma mais musculada do que no Ethereum. Depois de uma onda de ataques sandwich contra investidores de retalho, a Solana Foundation expulsou mais de trinta operadores do seu programa de delegação, retirando-lhes o stake que lhes atribuía. O responsável de relações com validadores, Tim Garcia, classificou as decisões como «finais», como noticiou o CryptoSlate. Foi um recado claro: numa rede permissionless, ninguém pode ser proibido de validar, mas pode perder o apoio da fundação.
A fronteira seguinte é o MEV entre domínios (cross-domain), em que a oportunidade nasce da diferença de preços entre cadeias ou entre L2 diferentes. À medida que a liquidez se fragmenta por dezenas de redes, este tipo de extração, mais difícil de coordenar e de defender, tende a crescer.
MEV, manipulação de mercado e a CMVM
Do ponto de vista de um regulador tradicional, muitas destas práticas soam a crime. O front-running é ilegal nos mercados financeiros clássicos, onde um intermediário que negoceie à frente de um cliente responde perante a lei. On-chain, a realidade é mais nebulosa: os bots são anónimos, autónomos e operam numa rede sem dono.
Na União Europeia, o regulamento MiCA já está em vigor e o período de transição para os prestadores portugueses (VASP) termina a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025. O MiCA supervisiona os prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e inclui regras de abuso de mercado, como a proibição de manipulação e da utilização de informação privilegiada nas plataformas de negociação. Em Portugal, a supervisão de conduta cabe à CMVM.
O problema é o alcance. Um CASP registado que fizesse front-run às ordens dos seus clientes estaria claramente dentro do perímetro da CMVM e do MiCA. Já um bot anónimo que faz sandwich numa DEX permissionless escapa, na prática, a esse enquadramento: não há entidade licenciada para responsabilizar, nem plataforma central para multar. É uma das lacunas mais evidentes entre a regulação desenhada para o mundo dos intermediários e a realidade de um mercado que funciona sem eles.
A tendência regulatória europeia aponta, ainda assim, para uma supervisão mais apertada dos grandes CASP, com a CMVM e as suas congéneres a defenderem poderes reforçados ao nível da ESMA. Mesmo que os bots continuem fora de alcance, os pontos de contacto entre o mundo on-chain e o sistema regulado (as exchanges licenciadas, os emitentes de stablecoins, os prestadores de custódia) são precisamente onde a lei consegue morder. É aí que qualquer futura resposta ao MEV tóxico terá de começar.
O que muda para o investidor e para o utilizador comum
Longe da teoria, há gestos concretos que reduzem a exposição de qualquer pessoa ao MEV tóxico.
- Para operações grandes, usar um RPC protegido (como o do MEV Blocker) ou uma DEX de leilão em lote reduz drasticamente o risco de sandwich.
- Definir uma tolerância a derrapagem apertada limita o valor máximo que um atacante pode extrair de uma ordem.
- Fracionar ordens muito grandes e evitar horas de baixa liquidez torna o ataque menos rentável.
- Perceber que parte do rendimento do staking vem, indiretamente, do MEV ajuda a avaliar de forma mais realista as promessas de yield.
O MEV não vai desaparecer. Enquanto a ordem das transações valer dinheiro, haverá quem a queira controlar. O que está a mudar é a distribuição: as ferramentas de 2026, dos leilões de fluxo de ordens à sequenciação ao nível da aplicação, passando pela reforma do próprio protocolo, procuram devolver ao utilizador uma parte do valor que durante anos escapou para os bots. A guerra continua; o que muda é quem fica com o produto do saque.
Para o investidor europeu, a lição é dupla: por um lado, exigir das plataformas que usa proteção real contra MEV; por outro, olhar com ceticismo para rendimentos que dependem, no fundo, de uma economia de extração que ainda mal começou a ser regulada.
Perguntas frequentes
O que é MEV em cripto?
MEV significa Maximal Extractable Value, o valor máximo que quem produz um bloco consegue extrair para além das recompensas e das taxas normais, ao escolher a ordem, a inclusão ou a exclusão das transações. Inclui práticas benignas, como a arbitragem, e práticas predatórias, como os ataques sandwich.
O que é um ataque sandwich e como me posso proteger?
É quando um bot coloca uma transação antes e outra depois da sua, manipulando o preço para lhe vender mais caro e comprar mais barato, ficando com a diferença. Para se proteger, use um RPC protegido (como o do MEV Blocker), defina uma tolerância a derrapagem apertada, prefira DEX com leilões em lote e evite ordens enormes em pools de baixa liquidez.
O MEV é ilegal?
Depende de quem o faz. Um intermediário licenciado que negoceie à frente dos clientes viola as regras de abuso de mercado, supervisionadas em Portugal pela CMVM e, ao nível europeu, pelo MiCA. Já os bots anónimos que operam em protocolos permissionless escapam, na prática, a esse enquadramento, o que constitui uma das grandes lacunas regulatórias do setor.
O que é o MEV-Boost?
É um software da Flashbots que permite aos validadores do Ethereum comprar, num leilão, o bloco mais rentável construído por terceiros, em vez de o montarem sozinhos. Mais de 90% dos blocos do Ethereum são hoje produzidos por esta via, o que aumentou as recompensas dos validadores mas também concentrou o mercado de construção de blocos.
A atualização Glamsterdam vai acabar com o MEV?
Não. A Glamsterdam, prevista para o segundo semestre de 2026, consagra a proposer-builder separation no protocolo (ePBS) e reduz a dependência de intermediários, mas o próprio Vitalik Buterin admite que não elimina a concentração nem o MEV tóxico. Faz parte de um plano faseado que inclui listas de inclusão (FOCIL) e mempools encriptados.
Por Mariana Osório, editora sénior de mercados na HOGE Wire.