Depois dos blobs: a Glamsterdam e a próxima descida das taxas L2
A grande descida das taxas L2 veio dos blobs, mas essa alavanca esgotou-se. A próxima fase de compressão chega com a Glamsterdam, que baixa o custo de execução da Ethereum.
Para quem envia uma transação numa rede Layer 2 da Ethereum, o preço já é quase invisível: uma transferência simples na Base, na Arbitrum ou na Optimism custa hoje uma fração de cêntimo. A grande descida já aconteceu, e aconteceu por causa dos blobs, o espaço de dados barato que a atualização Dencun introduziu em março de 2024 e que a Fusaka alargou no final de 2025. O problema, para quem tenta prever o próximo capítulo, é que essa alavanca está quase esgotada. Os blobs, por si só, já não vão fazer as taxas cair muito mais.
A próxima fase da compressão não vem dos dados; vem da execução. E tem nome e calendário: chama-se Glamsterdam, a próxima grande atualização da Ethereum, cuja bateria de testes públicos arrancou na testnet Sepolia a 3 de agosto de 2026 e continua na Hoodi a 17 de agosto. Se a Fusaka baixou o custo de publicar dados, a Glamsterdam quer baixar o custo de os processar, triplicando o limite de gas da camada base e reprecificando o que cada operação paga. Este artigo explica porque é que essa mudança de camada importa para a previsão das taxas L2 até 2027, o que dizem os modelos, e o que pode correr mal.
A grande descida já aconteceu (e porquê)
Vale a pena começar pelo fim da história anterior, porque é ele que define o ponto de partida. Entre o início de 2024 e o início de 2026, a taxa média das três maiores L2 da Ethereum (Arbitrum, Base e Optimism) caiu 99,16%, de cerca de 0,18 dólares (perto de 0,16 euros) para cerca de 0,0015 dólares (à volta de 0,0013 euros), segundo dados agregados pela Token Terminal. Não foi um acaso nem uma guerra de preços entre operadores: foi uma consequência quase mecânica de uma decisão de engenharia.
Essa decisão foi a introdução dos blobs. Até março de 2024, uma L2 publicava os seus dados na Ethereum usando o mesmo espaço caro que qualquer outra transação (o chamado calldata). A atualização Dencun, através da EIP-4844, criou um espaço separado e temporário, o blob, feito à medida para dados que só precisam de estar disponíveis durante alguns dias. Com oferta dedicada e um mercado de taxas próprio, o custo de publicar dados desabou mais de 90% da noite para o dia.
Depois foi sobretudo alargar a torneira. A Pectra (maio de 2025) subiu o alvo de blobs de 3 para 6. A Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, trouxe a amostragem de disponibilidade de dados (PeerDAS) e abriu caminho a duas escaladas rápidas: a BPO1, a 9 de dezembro, levou os blobs para 10/15, e a BPO2, a 7 de janeiro de 2026, para 14/21. No conjunto, o espaço de blobs ficou cerca de 2,3 vezes maior do que antes da Fusaka.
| Atualização | Data | O que mudou | Efeito nas taxas L2 |
|---|---|---|---|
| Dencun (EIP-4844) | Mar 2024 | Introduziu os blobs (alvo 3 / máx 6) | Custo de dados L2 caiu mais de 90% |
| Pectra (EIP-7691) | Mai 2025 | Blobs 6/9 | Mais espaço de dados, taxas continuam a descer |
| Fusaka (EIP-7594, PeerDAS) | 3 dez 2025 | Amostragem de disponibilidade de dados | Prepara a escalada dos blobs |
| BPO1 | 9 dez 2025 | Blobs 10/15 | Mais capacidade de dados |
| BPO2 | 7 jan 2026 | Blobs 14/21 | ~2,3x o espaço de blobs vs pré-Fusaka |
| Glamsterdam (EIP-7773) | H2 2026 (previsto) | Execução: ePBS, execução paralela, limite de gas 60M para 200M | Próxima fase: compressão pela execução |
O resultado é o que os utilizadores veem hoje: transferências que custam cêntimos partidos em pedaços. Mas é precisamente aqui que a previsão fica interessante, porque a lógica que produziu esta descida está a esbarrar num limite técnico. Acrescentar mais blobs deixou de ser a alavanca óbvia.
O piso que os blobs não conseguem furar
A razão tem um número de EIP: a EIP-7918, incluída na Fusaka. Antes dela, quando havia poucos blobs a competir por espaço, a taxa base dos blobs podia cair para valores absurdamente baixos e lá ficar. O investigador Kydo (0xkydo) documentou que, em longos períodos, essa taxa esteve colada a 0,000000001 Gwei, um valor efetivamente nulo.
A EIP-7918 pôs fim a isso ao criar um piso. A regra é simples de enunciar: a taxa base de um blob não pode ser inferior a 1/16 da taxa base de execução da própria L1. Ou seja, ancora o preço dos dados ao custo de processar a camada base. Assim que essa regra entrou em vigor, o efeito foi dramático: a taxa base dos blobs subiu cerca de 15 milhões de vezes face aos mínimos anteriores, como Kydo fez notar. Não porque os blobs tenham ficado caros (continuam baratíssimos), mas porque deixaram de poder ser praticamente grátis.
A implicação para qualquer previsão é enorme e costuma ser mal contada. A ideia de «taxas L2 a caminho do zero» está errada. Enquanto a EIP-7918 existir, o preço dos dados na L2 tem um chão, e esse chão sobe e desce com o custo de execução da Ethereum. Por outras palavras, a partir de agora, para as taxas L2 caírem mais, não basta acrescentar blobs: é preciso baixar o custo de execução da própria camada base. E é exatamente isso que a Glamsterdam se propõe fazer.
Glamsterdam: a compressão muda de camada
A Glamsterdam (o nome combina Gloas, do lado da camada de consenso, e Amsterdam, do lado da execução) é a próxima grande atualização da Ethereum, agrupada sob a meta-especificação EIP-7773. Ao contrário da Fusaka, que foi sobretudo sobre dados, a Glamsterdam é sobretudo sobre execução, o trabalho de calcular e validar o que cada transação faz.
O calendário já saiu do papel. Depois de a devnet de interoperabilidade Soldogn ter concluído a 2 de maio de 2026, a atualização entrou na fase de testes públicos: a testnet Sepolia bifurcou a 3 de agosto de 2026 e a Hoodi está marcada para 17 de agosto. A ativação na mainnet está prevista para o segundo semestre de 2026. Os programadores têm sido cautelosos: falam numa janela «realista» entre setembro e dezembro, sublinhando que não há data fechada e que tudo depende de os testes correrem bem em vários clientes, como noticiou a The Defiant.
Porque é que isto interessa às taxas L2? Porque, como vimos, o piso da EIP-7918 está ancorado ao custo de execução da L1. Baixar esse custo baixa o piso. E a Glamsterdam ataca a execução por três frentes ao mesmo tempo.
Os três motores: ePBS, listas de acesso e reprecificação do gas
A primeira frente é a EIP-7732, que inscreve no protocolo a separação entre quem propõe um bloco e quem o constrói (enshrined proposer-builder separation, ou ePBS). Na prática, formaliza um mercado de construção de blocos que hoje vive em software externo, e abre a porta a pré-confirmações mais rápidas, um ingrediente importante para as L2 que dependem da camada base para dar garantias aos utilizadores.
A segunda frente é a EIP-7928, as listas de acesso ao nível do bloco (block-level access lists). Ao declarar antecipadamente que partes do estado cada transação vai tocar, permite que o cliente execute várias transações em paralelo, em vez de uma a uma. É esta mudança que sustenta o número mais chamativo da atualização: um alvo de limite de gas de 200 milhões por bloco, cerca de 3,3 vezes os aproximadamente 60 milhões atuais, o que a The Defiant descreve como podendo aproximar-se de 10.000 transações por segundo em cargas realistas.
A terceira frente é a mais direta para as taxas: a reprecificação do gas, discutida na proposta de repricings associada à EIP-7904. A ideia é realinhar o custo em gas de cada operação com o custo computacional real que ela impõe aos nós. Algumas operações ficam mais caras (sobretudo as que fazem crescer o estado), mas a maioria fica mais barata. As projeções apontam para transferências e chamadas de contrato cerca de 70% a 78% mais baratas, embora convenha tratar estes números como estimativas de projeto, não como factos consolidados.
| EIP | Função | Relevância para as taxas |
|---|---|---|
| EIP-7732 (ePBS) | Separação proposer-builder inscrita no protocolo | Mercado de construção de blocos mais eficiente; base para pré-confirmações |
| EIP-7928 (BALs) | Listas de acesso ao nível do bloco | Permite execução paralela; sustenta o salto do limite de gas |
| EIP-7904 (reprecificação) | Realinha o custo do gas ao custo computacional real | Projeção de ~70% a 78% mais barato em transferências e chamadas |
| EIP-8037 | Aumenta o custo de criação de estado | Trava o crescimento do estado que a execução paralela poderia acelerar |
| Limite de gas | Alvo de 200 milhões (vs ~60M) | ~3,3x mais capacidade de execução na L1 |
Há ainda travões deliberados no pacote. A EIP-8037, por exemplo, encarece a criação de estado precisamente para que o salto no limite de gas não faça o tamanho da cadeia crescer sem controlo. É um lembrete de que a Glamsterdam não é «gas grátis»: é uma reafinação cuidadosa do que custa o quê.
Porque é que triplicar o gas faz descer as taxas L2
O elo entre um limite de gas maior na Ethereum e uma taxa menor na Base ou na Arbitrum não é óbvio, por isso vale a pena segui-lo passo a passo.
Primeiro, o efeito direto no piso. A taxa de uma L2 tem duas grandes componentes: o custo de publicar dados (blobs) e a margem de execução e operação do próprio rollup. Depois da EIP-7918, a componente de dados tem um chão igual a 1/16 do custo de execução da L1. Se a Glamsterdam baixa o custo de execução da L1 (via reprecificação e mais capacidade), então baixa também esse chão. O piso desce.
Segundo, o efeito na congestão. Quando a camada base fica congestionada, o custo de execução sobe, e com ele sobe o piso dos blobs e o custo de qualquer operação que uma L2 tenha de fazer na L1 (provas, atualizações de estado, levantamentos forçados). Triplicar o limite de gas dá muito mais folga antes de a congestão aparecer, o que mantém o piso baixo com mais frequência.
Terceiro, o efeito na execução paralela. Ao permitir processar transações em paralelo, a EIP-7928 aumenta o débito sem exigir hardware proibitivo, o que reduz o prémio que os utilizadores pagam em momentos de pico. Para as próprias L2, muitas das quais correm software derivado da Ethereum, os mesmos ganhos de eficiência aplicam-se dentro do rollup. Nada disto é magia: continua a haver um piso, e continua a haver margem do operador. Mas a direção é clara. Depois da Glamsterdam, a pergunta deixa de ser «quantos blobs cabem num bloco» e passa a ser «quão barato é executar a Ethereum».
A outra metade da taxa: a margem do sequenciador
Até aqui falámos do custo que a L2 paga à Ethereum. Mas a taxa que o utilizador vê tem uma segunda componente, muitas vezes esquecida: a margem do sequenciador, o operador que ordena as transações e as publica na camada base. Enquanto o custo dos dados esteve em queda livre, essa margem foi quase irrelevante para a conta final. À medida que o custo dos dados se aproxima do piso da EIP-7918, porém, a margem do operador passa a ser o fator que mais mexe no preço.
Isto muda a natureza da previsão. Depois da Glamsterdam, prever a taxa de uma L2 será menos uma questão de engenharia de protocolo e mais uma questão de estratégia comercial: quanto é que cada operador decide cobrar acima do custo. Alguns, como a Base, tratam a taxa como um centro de lucro (a Coinbase descreve a receita do sequenciador nos seus documentos regulatórios); outros competem agressivamente no preço para ganhar volume e quota de mercado.
E aqui entra uma questão ainda por resolver: a do valor para os detentores de tokens de L2. Uma rede pode ter receita de sequenciador robusta sem que um único cêntimo chegue a quem detém o seu token de governação, como acontece hoje com a maioria das grandes L2. Para o investidor, isto significa que taxas mais baixas não são automaticamente más para o token (o volume pode compensar), mas também que a receita de sequenciador não é automaticamente boa (pode nunca ser distribuída). É um dos debates mais quentes da tese de investimento em L2 para 2027.
Um último ponto técnico fecha o círculo: as pré-confirmações que a ePBS ajuda a viabilizar podem reduzir a incerteza que os sequenciadores enfrentam ao publicar, apertando ainda mais as margens de quem opera com eficiência e penalizando quem não moderniza. A compressão, por outras palavras, não vai atingir todos os operadores da mesma forma.
Quanto podem cair: o que dizem os modelos
Há uma tentativa académica de pôr números nisto. Um artigo publicado no arXiv (Transaction Costs and Speed in the Ethereum Ecosystem) usa regressão sobre a tendência histórica para projetar o futuro das taxas. As duas conclusões mais citadas: com a expansão continuada dos blobs, as L2 deverão ter taxas medianas mais baixas do que a Solana já a partir de outubro de 2026, e ultrapassar a Solana em transações por segundo por volta de março de 2029.
Convém ler estes modelos com a humildade que os próprios autores recomendam. São extrapolações de tendência: assumem que o que baixou as taxas continua a baixá-las ao mesmo ritmo. O problema, como vimos, é que a alavanca dos blobs está a esbarrar no piso da EIP-7918, por isso a continuação da tendência depende cada vez mais de fatores de execução, que é precisamente o que a Glamsterdam traz. Ou seja, o modelo pode até acertar no destino, mas por uma razão diferente da que assume.
Em termos concretos, e convertendo para euros à taxa atual (cerca de 1 euro por 1,15 dólares), a taxa mediana de uma transferência nas três maiores L2 anda hoje à volta de 0,0013 euros, pouco mais de um décimo de cêntimo. Para efeito de comparação, no primeiro trimestre de 2024 essa mesma taxa mediana rondava os 0,16 euros. A escala da descida já ocorrida é o melhor argumento para não exagerar na descida que falta: partindo de uma fração de cêntimo, mesmo cortes de 70% ou 80% no custo de execução traduzem-se em poupanças minúsculas em termos absolutos, ainda que relevantes para casos de utilização de altíssimo volume, como micropagamentos, jogos on-chain ou agentes de software automáticos.
Três cenários até 2027
Em vez de fingir uma precisão que os dados não permitem, é mais honesto trabalhar por cenários. A tabela abaixo resume três trajetórias plausíveis para a taxa mediana de uma transferência simples nas maiores L2, até ao final de 2027. São estimativas, não promessas.
| Cenário | Pressupostos | Taxa mediana estimada | Leitura |
|---|---|---|---|
| Otimista | Glamsterdam na mainnet no 3.º trimestre; limite de gas sobe depressa para 150M+; BPO3 marcada | Abaixo de 0,0005 euros (menos de meio milésimo) | L2 abaixo dos custos da Solana de forma consistente |
| Base | Glamsterdam no 4.º trimestre; limite sobe de forma gradual; BPO3 ainda sem data | Entre 0,0008 e 0,0015 euros | Compressão continua, mas mais lenta; piso da EIP-7918 desce pouco |
| Pessimista | Glamsterdam adiada para 2027; EIP contestada removida; procura migra para DA alternativa | Estável perto de 0,0015 euros, com picos ocasionais | Compressão estagna; taxa dominada pela margem do sequenciador |
O fator que separa os cenários não é a tecnologia (a Glamsterdam vai quase de certeza chegar), mas o ritmo e a coordenação: a rapidez com que os validadores sobem o limite de gas depois da ativação, se e quando é marcada a próxima escalada de blobs (a BPO3), e se a procura por espaço de dados se mantém na Ethereum ou migra para alternativas mais baratas. Para uma leitura mais ampla das forças que moldam o resto do ano, vale a pena cruzar com a nossa análise das cinco forças e três cenários até dezembro.
A Ethereum ganha ou perde com taxas mais baixas?
Há uma tensão no coração desta história que a previsão das taxas não pode ignorar: cada cêntimo que uma L2 não paga é um cêntimo que a Ethereum não arrecada. E como a Ethereum queima parte das taxas (o mecanismo da EIP-1559), menos taxas significam menos ETH destruído, o que alimenta o debate sobre se as L2 estão a «drenar» a camada base.
Os números da Fidelity Digital Assets dão dimensão ao problema. No espaço de um ano, a Base pagou à Ethereum cerca de 5 milhões de dólares (perto de 4,5 milhões de euros) em taxas de blob, enquanto arrecadava dos seus utilizadores cerca de 94 milhões (perto de 81 milhões de euros). A mesma análise nota que, só com a Base, a EIP-7918 teria adicionado cerca de 30,6 milhões de dólares (à volta de 26,5 milhões de euros) ao valor devolvido aos detentores de ETH, precisamente por impor um piso ao preço dos blobs. Ou seja, a EIP-7918 não é só um travão à queda das taxas: é também um instrumento de captura de valor para a Ethereum.
Do lado dos operadores, a leitura é a de quem quer defender margem. Steven Goldfeder, cofundador da Offchain Labs (a empresa por trás da Arbitrum), resumiu a estratégia ao comentar a entrada de parceiros empresariais: «à medida que a adoção empresarial acelera, a Arbitrum está pronta para capturar receita». Traduzindo: com a taxa por transação a tender para zero, o jogo passa a ser o volume e os serviços, não o preço unitário. Quem quiser perceber como este dinheiro institucional está a entrar na cadeia pode ler a nossa peça sobre crédito on-chain institucional.
Há ainda a concorrência pela disponibilidade de dados. Fornecedores como a Celestia e a EigenDA oferecem espaço de dados fora da Ethereum a preços historicamente muito mais baixos do que os blobs. Se muitas L2 optarem por publicar dados nesses sistemas, a procura por blobs cai, o burn de ETH cai, e o argumento de captura de valor enfraquece. É uma alavanca de dois gumes sobre as taxas e sobre o próprio ETH, cuja evolução de preço (à volta de 1.629 euros à data desta análise) os investidores seguem também através dos fluxos dos ETF.
BPO3, BPO4 e a aposta da «Lean Ethereum»
Se a Glamsterdam é o próximo passo, qual é o horizonte? Do lado dos dados, os programadores mantêm a ambição de chegar a 128 blobs por bloco sob danksharding pleno, através de novas escaladas de parâmetros (as BPO3 e BPO4). Mas, e este é um ponto importante para qualquer previsão, essas escaladas não têm data marcada. Os programadores decidiram esperar pela telemetria da BPO1 e da BPO2 antes de subir mais, tratando os 128 blobs como um destino, não como um calendário. A marcação de uma data para a BPO3 será, por isso, um dos sinais mais fiáveis de que a compressão dos dados ainda tem gás.
Do lado da execução, o horizonte tem um nome mais radical. Em julho de 2026, Vitalik Buterin apresentou o que chamou de «Lean Ethereum», um plano de reformulação profunda do protocolo ao longo de, nas suas palavras, «aproximadamente os próximos cinco anos». Buterin descreveu-o como «a terceira grande iteração da Ethereum», acrescentando que «o Merge foi a segunda» e que «quase todas as peças importantes do protocolo vão ser substituídas», como reportou a The Defiant. Uma das ideias, um redesenho dos tokens ERC-20 ao estilo UTXO, poderia, segundo ele, «cortar as taxas de transação em mais de 10 vezes».
O que a «Lean Ethereum» revela é uma mudança de filosofia relevante para as taxas: depois de anos a empurrar a atividade para as L2, a Ethereum quer voltar a reclamar parte da execução para a camada base, tornando-a barata o suficiente para competir. Se isso acontecer, a fronteira entre «usar a L1» e «usar uma L2» esbate-se, e a previsão das taxas L2 passa a ser inseparável da previsão das taxas da própria Ethereum.
O que muda para quem usa L2 a partir de Portugal
Para o utilizador comum em Portugal, a mensagem prática é quase anticlimática: as taxas já são tão baixas que a Glamsterdam não vai mudar a experiência do dia a dia de forma percetível. Enviar stablecoins numa L2 já custa uma fração de cêntimo, e continuará a custar. Onde a compressão importa de verdade é na margem: casos de utilização que só fazem sentido a custo quase nulo, como micropagamentos, distribuição de recompensas, jogos on-chain ou agentes de software que fazem milhares de transações.
Há, no entanto, um detalhe que a compressão das taxas não resolve e que os utilizadores devem continuar a ter presente: o tempo e o risco de sair de uma L2. Nos rollups otimistas (como a Arbitrum e a Optimism), o levantamento nativo para a Ethereum implica um período de contestação que ronda os sete dias; nos rollups de validade (zk), a saída é tipicamente muito mais rápida, de minutos a poucas horas, porque a prova criptográfica confirma o estado quase de imediato. Muitos utilizadores contornam a espera usando pontes de terceiros, mas essas pontes são historicamente o elo mais fraco da segurança, como explicámos na análise sobre segurança das bridges. Taxas mais baixas não tornam uma ponte insegura mais segura.
CMVM, Banco de Portugal e o enquadramento MiCA
A camada técnica não vive num vácuo regulatório. Em Portugal, o quadro relevante é o do regulamento europeu MiCA, cujo regime transitório terminou a 1 de julho de 2026, sem prorrogações. A lei nacional que o operacionaliza é a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. Na prática, as plataformas que dão acesso a estas redes (as exchanges e os custodiantes, tecnicamente prestadores de serviços de criptoativos ou CASP) passaram a precisar de autorização para operar.
A repartição de competências é útil de conhecer. A CMVM é a autoridade de conduta de mercado e supervisiona, entre outras matérias, o abuso de mercado e a negociação; o Banco de Portugal trata da vertente prudencial e das stablecoins reguladas (as fichas de moeda eletrónica e as fichas referenciadas a ativos). Para o tema das taxas, o ângulo regulatório mais direto é o das stablecoins: grande parte da atividade de baixo custo nas L2 é feita em stablecoins, e só as que cumprem o MiCA (como a USDC e a EURC) podem circular livremente junto de utilizadores europeus. Ou seja, a compressão das taxas torna as L2 uma infraestrutura de pagamentos cada vez mais credível, mas o que se pode efetivamente mover por elas, e através de que plataformas, é decidido em Bruxelas, em Lisboa e no Banco de Portugal, não no protocolo.
Os riscos da previsão
Nenhuma previsão sobrevive ao contacto com o calendário sem cicatrizes. Vale a pena nomear o que pode desviar esta.
O primeiro risco é o mais banal: atraso. A Glamsterdam não tem data de mainnet fechada, e a história das atualizações da Ethereum é feita de adiamentos. Uma janela que escorregue de setembro para dezembro, ou de dezembro para 2027, empurra toda a compressão de execução para a frente.
O segundo risco é político-técnico. Pacotes grandes tendem a perder EIP pelo caminho quando surge desacordo. Se uma peça central, como a reprecificação do gas, for aligeirada ou removida por falta de consenso, o corte projetado de 70% a 78% no custo de execução encolhe. A própria ePBS levanta questões de centralização: ao formalizar o papel dos construtores de blocos, pode concentrar poder num punhado de operadores sofisticados, um risco que a comunidade debate abertamente.
O terceiro risco é de procura e de descentralização. Se a disponibilidade de dados migrar em massa para a Celestia ou a EigenDA, a Ethereum perde procura por blobs e receita de burn, e o argumento de captura de valor que sustenta a EIP-7918 enfraquece. E há o reverso: um limite de gas de 200 milhões exige mais dos nós; se os requisitos de hardware subirem demasiado, a rede pode perder validadores independentes, sacrificando descentralização por débito. O crescimento do estado, que a EIP-8037 tenta travar, é a versão de longo prazo do mesmo problema.
Sinais a vigiar até dezembro
Para acompanhar a previsão sem depender de opiniões, há um punhado de sinais objetivos que valem mais do que qualquer narrativa:
- A bifurcação da testnet Hoodi, marcada para 17 de agosto de 2026, e o comportamento dos clientes nos testes seguintes.
- O anúncio (ou não) de uma data de mainnet para a Glamsterdam; uma janela concreta antes de dezembro seria o sinal mais forte.
- A marcação de uma data para a BPO3, que indicaria que a escalada de blobs ainda tem margem para além do piso da EIP-7918.
- A velocidade a que os validadores sobem o limite de gas depois da ativação; 200 milhões é um alvo de design, não um interruptor.
- A quota dos blobs no total de ETH queimado, um indicador direto de se a captura de valor está a acompanhar a compressão.
- O preço do ETH e os fluxos de capital, que dão o pano de fundo macro; para calibrar expectativas de preço, veja os nossos alvos de preço para 2026.
Quando estes sinais apontarem todos na mesma direção, a previsão deixa de ser especulação e passa a ser contabilidade. Até lá, a única certeza é a de que a história das taxas L2 mudou de camada: já não se joga nos dados, joga-se na execução.
Perguntas frequentes
Quando é que a Glamsterdam entra em funcionamento?
A Glamsterdam está em fase de testes públicos: a testnet Sepolia ativou-a a 3 de agosto de 2026 e a Hoodi a 17 de agosto. A ativação na mainnet está prevista para o segundo semestre de 2026, com uma janela realista entre setembro e dezembro, mas ainda não há data confirmada.
A Glamsterdam vai tornar as taxas das L2 grátis?
Não. A EIP-7918 criou um piso técnico que impede a taxa dos dados de chegar a zero. A Glamsterdam faz descer esse piso ao baixar o custo de execução da camada base, mas as taxas continuarão a ter um valor mínimo, ainda que muito pequeno, na ordem de uma fração de cêntimo.
Qual é a diferença entre a Fusaka e a Glamsterdam para as taxas?
A Fusaka baixou o custo de publicar dados (blobs), que era a principal componente da taxa L2. A Glamsterdam ataca a outra componente, o custo de execução, triplicando o limite de gas da camada base e reprecificando as operações. É uma mudança de alavanca: dos dados para a execução.
Quanto custa hoje uma transferência numa L2 e quanto pode custar em 2027?
Uma transferência simples nas maiores L2 custa hoje cerca de 0,0013 euros, uma fração de cêntimo. Num cenário otimista, com a Glamsterdam na mainnet e o limite de gas a subir depressa, pode descer para menos de meio milésimo de euro até ao final de 2027; num cenário pessimista, estabiliza perto do valor atual.
O que muda para os utilizadores em Portugal e qual o papel da CMVM?
Para o utilizador, muda pouco no imediato: as taxas já são muito baixas. O enquadramento é dado pelo MiCA, cujo regime transitório terminou a 1 de julho de 2026; em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal trata da vertente prudencial e das stablecoins. As plataformas (CASP) precisam de autorização para operar.
Priya Reddy é editora de mercados na HOGE Wire e acompanha a economia das redes Layer 2 e a infraestrutura da Ethereum.