Segurança das bridges: o elo mais fraco da DeFi em 2026
As bridges movem milhares de milhões entre blockchains e continuam a ser o alvo preferido dos atacantes. Explicamos porque partem, quem paga a conta e como a indústria reage.
As bridges (ou pontes cross-chain) são a canalização invisível da cripto. Sempre que alguém move USDC de Ethereum para Solana, leva Bitcoin para um layer 2 ou usa rsETH como colateral numa rede diferente daquela onde o token foi cunhado, há quase sempre uma bridge no meio. Movem o equivalente a milhares de milhões de euros por semana e, ano após ano, continuam a ser o alvo mais rentável de todo o setor.
2026 não foi exceção. Em abril, o exploit da KelpDAO drenou cerca de 292 milhões de dólares (à volta de 253 milhões de euros ao câmbio de referência do BCE, perto de 1,15 dólares por euro) da maior infraestrutura de restaking, tornando-se o maior roubo DeFi do ano. No verão seguiu-se uma vaga: Taiko, Allbridge, Wanchain, AFX Trade, BSquared e a VerusCoin, esta atacada duas vezes em nove semanas. O padrão repete-se com uma regularidade quase entediante e, quase sempre, o problema não está no código Solidity da bridge.
Este artigo explica o que é uma bridge, porque é o elo mais fraco da DeFi, o que falha de facto (as chaves e a infraestrutura, não os contratos), como o dinheiro roubado desaparece, o que a indústria está a fazer para travar o problema e onde é que o regulador europeu, incluindo a CMVM em Portugal, entra e onde não entra. No fim, deixamos uma checklist para avaliar o risco de uma bridge antes de a usar.
O que é uma bridge e porque a cripto não vive sem elas
Cada blockchain é um sistema fechado. O Ethereum não sabe, por si só, o que acontece na Solana; a Solana não lê o estado do Bitcoin. Uma bridge é o software que liga estes silos, permitindo mover ativos ou mensagens de uma rede para outra. Sem elas, o mundo multi-chain de hoje, com dezenas de layer 1 e layer 2 a competir pela mesma liquidez, seria um arquipélago de ilhas incomunicáveis.
O modelo mais comum chama-se lock-and-mint (bloquear e cunhar). O utilizador deposita, por exemplo, 1 ETH num contrato na rede de origem; esse ETH fica bloqueado e a bridge cunha um token equivalente (wrapped ETH) na rede de destino. Para regressar, o token wrapped é queimado (burn) e o ETH original é libertado. Enquanto o ETH bloqueado corresponder exatamente ao wrapped em circulação, o sistema mantém a paridade. O problema é óbvio: alguém tem de guardar o colateral bloqueado, e esse cofre concentra o valor de tudo o que foi cunhado do outro lado.
Existem variantes. As redes de liquidez (liquidity networks), como a Across ou a Hop, não cunham tokens wrapped; usam pools nos dois lados e um relayer adianta os fundos ao utilizador, sendo reembolsado depois. Outras bridges limitam-se a transportar mensagens, por exemplo uma instrução de governação de uma rede para outra, sem mover ativos. Em todos os casos, a bridge tem de responder a uma pergunta difícil: como é que a rede de destino sabe, com certeza, o que aconteceu na rede de origem?
Porque a bridge é o elo mais fraco da DeFi
A resposta a essa pergunta é a raiz de quase todos os desastres. Uma blockchain valida internamente cada transação através dos seus próprios validadores ou mineradores. Uma bridge, por definição, opera entre duas redes que não confiam uma na outra e não conseguem ler o estado uma da outra de forma nativa. Alguém, ou alguma coisa, tem de atestar: sim, este depósito aconteceu mesmo na rede de origem. Esse atestado é o ponto de ataque.
Como observou Ben Fisch, presidente executivo da Espresso Systems, a propósito do caso KelpDAO, «a maioria das bridges não verifica realmente o que aconteceu noutra cadeia; em vez disso, confia num sistema mais pequeno para o reportar». E rematou com uma frase que devia estar escrita à entrada de qualquer equipa que constrói pontes: «A bridge funcionou como foi desenhada. Só acreditou na informação errada.»
Há ainda o problema do mel. Uma bridge popular acumula centenas de milhões em colateral bloqueado, tudo num punhado de contratos ou carteiras. É o alvo mais concentrado da cripto: um único ponto onde partir a fechadura vale mais do que atacar mil utilizadores individuais. Vitalik Buterin avisou para isto ainda em 2022, argumentando que «há limites fundamentais para a segurança de bridges que saltam entre múltiplas zonas de soberania». A tese dele, muito citada desde então, é que o futuro é multi-chain, mas não cross-chain: quanto mais uma ponte liga, mais suposições de confiança acumula, e cada suposição é uma superfície de ataque nova.
Vale a pena perceber porque é que isto é económico, e não apenas técnico. Numa blockchain normal, atacar a rede exige controlar uma fração enorme do poder de validação, algo caríssimo. Numa bridge, o custo do ataque desacopla-se do valor em jogo: comprometer um portátil, uma chave ou um servidor pode custar quase nada e dar acesso a centenas de milhões. É a pior relação possível entre custo de ataque e recompensa, e explica por que os grupos mais sofisticados, incluindo os patrocinados por Estados, se especializaram precisamente neste alvo.
Os modelos de confiança (e onde cada um parte)
Nem todas as bridges confiam da mesma maneira, e o modelo de confiança determina como é que partem. Simplificando uma categorização que a indústria usa há anos, há cinco grandes famílias, ordenadas grosso modo da mais frágil para a mais robusta.
| Modelo de confiança | Como valida | Exemplos | Onde parte |
|---|---|---|---|
| Multisig federado | Um grupo fixo de signatários aprova por limiar (ex.: 5 de 9) | Ronin, Harmony, Multichain inicial | Chaves roubadas ou limiar baixo demais |
| Rede de validadores externa | Uma rede separada de verificadores atesta cada mensagem | Wormhole (19 guardiões), LayerZero (DVN), Axelar | A rede externa é comprometida ou mal configurada |
| Otimista / prova de fraude | Assume-se válido salvo contestação numa janela de tempo | Nomad, Across | Bug na raiz de confiança; janela curta demais |
| Light client / validade ZK | A rede de destino verifica criptograficamente uma prova do estado de origem | IBC (Cosmos), zkBridge | Complexidade de implementação; ainda pouco disseminado |
| Rede de liquidez | Pools nos dois lados, sem cunhagem de wrapped | Across, Hop | Manipulação de pools via flash loan |
A regra prática é simples: quanto mais a validação depende de um grupo pequeno de humanos ou de uma única infraestrutura, mais frágil é a ponte. Quanto mais a validação é criptográfica e verificada pela própria rede de destino, mais robusta, e mais difícil de construir. Quase toda a inovação séria em segurança de bridges nos últimos dois anos consistiu em empurrar as pontes para baixo nesta tabela, dos multisigs para as provas.
A galeria de desastres: os hacks que definiram a categoria
A história das bridges é uma sucessão de recordes de roubo. Vale a pena percorrer os casos que definiram a categoria, porque quase todos ilustram uma falha diferente do mesmo problema de fundo.
A escala é difícil de exagerar: só em 2022, a Chainalysis contabilizou cerca de 2 mil milhões de dólares (à volta de 1,7 mil milhões de euros) roubados em 13 ataques a bridges, o equivalente a perto de 69% de todo o valor furtado à cripto nesse ano. As bridges não são um risco entre muitos; durante anos foram, isoladamente, o maior.
O maior roubo de sempre continua a ser a Ronin Bridge, a sidechain do jogo Axie Infinity que continua a marcar o recorde absoluto: em março de 2022, atacantes ligados ao grupo Lazarus levaram cerca de 625 milhões de dólares (perto de 542 milhões de euros) depois de comprometerem as chaves de validação através de uma falsa oferta de emprego enviada a um engenheiro sénior. A configuração exigia 5 de 9 assinaturas, mas a Sky Mavis controlava diretamente quatro validadores e um quinto (a Axie DAO) tinha delegado a assinatura de emergência à Sky Mavis durante um pico de tráfego em 2021 e nunca a revogou. Comprometer uma única entidade bastava.
Meses antes, a Poly Network perdera mais de 610 milhões de dólares (cerca de 529 milhões de euros) quando um atacante conseguiu registar a própria chave como «guardião» do protocolo e autorizar levantamentos; o caso ficou famoso pelo final feliz, com quase tudo devolvido depois de a equipa tratar o atacante por «Mr. White Hat» e lhe oferecer um lugar de conselheiro de segurança. A Wormhole, ponte entre Solana e Ethereum, perdeu cerca de 325 milhões de dólares em fevereiro de 2022 quando um atacante forjou uma assinatura que contornava o requisito de 13 dos 19 guardiões; a Jump Crypto repôs os 120.000 ETH em cerca de um dia, absorvendo a perda para manter a paridade.
Os outros grandes casos seguem o mesmo guião com variações. A Harmony Horizon caiu por um limiar ridiculamente baixo de 2 de 5 assinaturas (cerca de 100 milhões de dólares, junho de 2022). A Nomad transformou-se num «assalto descentralizado», na expressão da Mandiant, quando uma atualização deixou a raiz de confiança a zero e centenas de carteiras copiaram a transação do primeiro atacante (cerca de 190 milhões). A BNB Bridge viu serem cunhados dois milhões de BNB através de uma prova de Merkle forjada, com valor de face à volta de 570 milhões de dólares, embora a rede tenha sido interrompida a tempo de congelar a maior parte. E a Multichain não foi sequer um exploit de código, mas o colapso de um operador cujo CEO, detido na China, levou consigo o acesso à infraestrutura de chaves que só ele controlava.
O caso mais recente e mais instrutivo é o da KelpDAO, em abril de 2026. Não houve bug no contrato: os atacantes comprometeram a infraestrutura RPC interna que alimentava a rede de verificação (DVN) da LayerZero para o token rsETH, ao mesmo tempo que lançavam um ataque de negação de serviço contra os fornecedores externos, e assim conseguiram forjar uma mensagem cross-chain. A configuração usava um único verificador (1 de 1). Foram 116.500 rsETH, cerca de 292 milhões de dólares. A recuperação, essa, foi rara: uma coligação de protocolos DeFi reconstruiu o lastro do rsETH ao longo de cinco semanas, sem passar perdas aos utilizadores.
| Bridge | Data | Perda aprox. | Causa-raiz |
|---|---|---|---|
| Poly Network | Ago 2021 | ~610M USD / ~529M EUR | Registo de chave maliciosa com privilégios |
| Ronin | Mar 2022 | ~625M USD / ~542M EUR | Chaves de validação roubadas (engenharia social) |
| Wormhole | Fev 2022 | ~325M USD / ~282M EUR | Assinatura forjada, verificação falhada |
| Harmony Horizon | Jun 2022 | ~100M USD / ~87M EUR | Limiar multisig de apenas 2 de 5 |
| Nomad | Ago 2022 | ~190M USD / ~165M EUR | Raiz de confiança a zero (bug de atualização) |
| BNB Bridge | Out 2022 | ~570M USD cunhados | Prova de Merkle forjada |
| Multichain | Jul 2023 | ~130M+ USD / ~113M EUR | Colapso do operador (chaves centralizadas) |
| KelpDAO | Abr 2026 | ~292M USD / ~253M EUR | Infra RPC/DVN comprometida (1 de 1) |
2026: o ano em que as bridges voltaram a partir
Depois da KelpDAO, o verão de 2026 trouxe uma vaga de incidentes mais pequenos mas reveladores, agrupados sobretudo entre junho e julho. Segundo a PeckShield, os ataques a bridges já tinham ultrapassado os 328 milhões de dólares (cerca de 285 milhões de euros) em maio, dominando as perdas do setor; somados os casos individuais do verão, o total de 2026 passou folgadamente essa marca.
A Taiko, um layer 2 de Ethereum, perdeu cerca de 1,7 milhões de dólares em junho quando uma chave de assinatura SGX foi exposta por acidente no GitHub; a equipa corrigiu, repôs as reservas a 1:1 e reabriu em dez dias, com o token a subir 136% com a notícia da recuperação. A Allbridge Core perdeu cerca de 1,65 milhões através da manipulação de um pool com um flash loan, o segundo ataque quase idêntico desde 2023 (voltaremos a isto). A Wanchain viu drenados cerca de 515 milhões de tokens NIGHT (o valor em dólares foi reportado de forma inconsistente, algures entre 9 e 13 milhões) por um bug de serialização; ofereceu ao atacante um acordo white-hat (devolver 90%, ficar com 10%) com prazo até 6 de agosto, que passou sem confirmação pública de devolução.
O maior do verão foi a AFX Trade, uma plataforma de perpétuos em Arbitrum: 24,15 milhões de USDC (cerca de 21 milhões de euros) depois de as chaves de assinatura dos validadores serem comprometidas. O cofundador da Arbitrum, Steven Goldfeder, fez questão de esclarecer que a bridge nativa da Arbitrum «não foi hackeada nem explorada de forma alguma»; a falha estava na camada própria da AFX, construída por cima. A BSquared, um layer 2 de Bitcoin, perdeu 8,59 milhões de tokens B2 (cerca de 3,86 milhões de dólares) por uma chave de administração comprometida. E a VerusCoin foi atacada duas vezes, como veremos.
| Alvo | Data | Perda aprox. | Vetor | Desfecho |
|---|---|---|---|---|
| Taiko | Jun 2026 | ~1,7M USD | Chave SGX exposta no GitHub | Reaberta em 10 dias, reservas repostas |
| Allbridge Core | Jul 2026 | ~1,65M USD | Manipulação de pool via flash loan | Segundo ataque desde 2023; Core encerrado |
| Wanchain (Cardano) | Jul 2026 | ~9 a 13M USD | Bug de serialização (colisão de assinaturas) | Bounty até 6 Ago; corretoras congelaram fundos |
| AFX Trade | Jul 2026 | ~24,15M USD | Chaves de validadores comprometidas | Fundos convertidos em ETH; bridge nativa da Arbitrum intacta |
| BSquared | Jul 2026 | ~3,86M USD | Chave de administração comprometida | Staking suspenso; imunidade legal oferecida |
| VerusCoin | Mai e Jul 2026 | ~11,58M + ~7,54M USD | Verificação contornada (mesma classe, 9 semanas) | Parte devolvida em maio; sem declaração em julho |
Não é o código, são as chaves
Se percorrermos as duas tabelas, salta à vista um padrão que contraria a intuição de quem acha que o problema da cripto são bugs em contratos inteligentes. A maior parte do valor roubado em bridges não vem de erros de Solidity; vem de chaves privadas roubadas, infraestrutura comprometida e verificação de assinaturas contornada. Ronin foram chaves. KelpDAO foi infraestrutura RPC. AFX foram chaves de validadores. Taiko foi uma chave esquecida num repositório público. Multichain foi um operador. Wormhole foi uma assinatura forjada. Em quase todos os grandes casos, o contrato fez exatamente aquilo para que foi programado; o que falhou foi a informação que lhe foi dada, ou quem tinha autorização para lha dar.
Sergej Kunz, cofundador da 1inch, disse-o sem rodeios sobre a vaga de ataques: «A segurança muitas vezes não é a prioridade. As equipas concentram-se em lançar depressa, aumentar utilizadores e o total value locked.» E, sobre a natureza dos ataques: «Vê-se vulnerabilidades de código, problemas de centralização, engenharia social, até ataques económicos. Normalmente é uma mistura.»
Os números anuais das empresas forenses contam a mesma história por outro ângulo: os bugs de contrato inteligente são responsáveis pela maioria dos incidentes em contagem, mas por uma fatia pequena do valor perdido; o grosso do dinheiro sai por chaves, infraestrutura e comprometimento operacional. Traduzido: os erros de código são frequentes mas baratos, e as falhas de chaves são raras mas catastróficas. Uma bridge que só se defende contra a primeira categoria está preparada para o problema errado.
A implicação é incómoda: auditar o código de uma bridge, por muito rigorosa que seja a auditoria, cobre apenas uma fatia do risco. Uma auditoria de contrato não impede que um engenheiro caia numa oferta de emprego falsa, não deteta uma chave SGX colada no GitHub e não reconfigura sozinha um verificador único para exigir vários. É por isso que os post-mortems de bridges se parecem tanto uns com os outros, década após década, e por que tantas vezes terminam sem um único responsável claro, o mesmo padrão de um post-mortem sem réu que já analisámos noutros contextos de segurança.
O contágio: quando o ativo em ponte vira colateral
O que torna as bridges perigosas para lá do valor que guardam é o efeito de contágio. Um token cunhado por uma bridge, seja rsETH, wrapped BTC ou uma stablecoin em ponte, raramente fica parado. É depositado como colateral em protocolos de empréstimo, usado em pools de liquidez, integrado noutras aplicações. No momento em que uma bridge é comprometida e cunha tokens sem lastro, esses tokens já se espalharam por meia DeFi.
Foi exatamente o que aconteceu com a KelpDAO. O rsETH afetado estava a ser usado como colateral noutros mercados, e o mercado de rsETH da Aave absorveu dívida incobrável estimada, consoante a fonte, entre 177 e 190 milhões de dólares. Kunz descreveu o mecanismo com precisão: «Outras plataformas podem tratar um ativo hackeado como legítimo. É assim que o contágio acontece.» Um problema numa única ponte transforma-se numa cascata de dívida por todo o ecossistema de crédito on-chain.
O mecanismo tem um efeito de alavanca perverso. Um ativo em ponte pode ser depositado, usado para pedir emprestado outro ativo, e esse por sua vez voltar a servir de colateral, de modo que cada dólar comprometido na origem se multiplica em exposição pelo caminho. Quando o mercado percebe que o lastro desapareceu, a corrida para sair é simultânea, e a liquidez para o fazer, que parecia abundante em dias calmos, evapora-se exatamente no momento em que é precisa. É a diferença entre volume e profundidade real, e é aqui que um hack técnico se transforma numa crise de confiança.
Esta dinâmica é a mesma que temos analisado a propósito do crédito on-chain e do risco dos curadores: quando um ativo com preço fixado por defeito continua a valer «1» nos livros de um protocolo depois de já não valer nada no mercado, a diferença é dívida que alguém vai ter de comer. Para o investidor, a lição é que a exposição a uma bridge raramente é direta; entra pela porta das traseiras, através dos ativos em ponte que sustentam posições aparentemente sem relação com a ponte que partiu.
Repetir os erros: os reincidentes
Se há coisa mais desanimadora do que um hack de bridge, é o mesmo hack a repetir-se. A Allbridge Core já tinha sido atingida em 2023, na BNB Chain, pela mesma técnica de manipulação de pools com flash loan; a equipa recuperou parte dos fundos, publicou um post-mortem e prometeu uma correção estrutural (um único pool por cadeia, o que bloqueia a manipulação na mesma transação). Essa correção nunca chegou a ser aplicada à instalação em Solana, que continuou a correr pools lado a lado, exatamente a configuração que o post-mortem de 2023 dizia ter eliminado. Em julho de 2026, foi atacada da mesma maneira.
A VerusCoin foi ainda mais rápida: a sua bridge para Ethereum foi explorada em maio de 2026 (cerca de 11,58 milhões de dólares, com boa parte devolvida por um acordo white-hat) e de novo a 23 de julho (cerca de 7,54 milhões), pela mesma classe de vulnerabilidade, com nove semanas de intervalo e, desta vez, sem qualquer declaração pública da equipa. Lições documentadas, lições não aplicadas: é um tema recorrente na cripto, e a razão pela qual um bom post-mortem só vale alguma coisa se alguém agir sobre ele.
Para onde vai o dinheiro roubado
Roubar é a parte fácil; sair com o dinheiro é o verdadeiro desafio, e é aí que a cripto se tornou surpreendentemente hostil aos atacantes. Durante anos, o destino quase automático dos fundos de bridges foi o Tornado Cash, o mixer de Ethereum. O Tesouro dos EUA sancionou-o em agosto de 2022, citando explicitamente a lavagem de fundos da Ronin, da Harmony e da Nomad.
Mais recentemente, os atacantes migraram para outras vias: mixers e redes de privacidade, com o Zcash e serviços como o NEAR Intents a aparecerem cada vez mais nas análises forenses. Ao mesmo tempo, a resposta das corretoras endureceu. No caso Wanchain, sete corretoras (Binance, OKX, Kraken, KuCoin, Bybit, Gate e MEXC) congelaram contas e suspenderam depósitos do token em horas, travando parte da liquidação.
Nada disto é invisível. Cada movimento fica registado na blockchain, e é por isso que seguir o rasto das carteiras se tornou uma disciplina própria. Quem acompanha os alertas de baleias e os grandes movimentos on-chain sabe que o difícil não é ver o dinheiro mexer-se, é distinguir o sinal do ruído; no caso de fundos roubados, o rasto costuma ser claro, o problema é a jurisdição do outro lado do ecrã.
Quem controla as chaves controla a ponte
Se o valor roubado vem sobretudo de chaves e configurações, então a pergunta certa sobre qualquer bridge não é «o código foi auditado?», mas «quem controla as chaves, e o que é preciso comprometer para as usar?». A Ronin caiu porque uma delegação de emergência nunca foi revogada. A Harmony caiu porque bastavam duas assinaturas em cinco. A KelpDAO caiu porque um único verificador era suficiente. Em todos os casos, a governação das chaves, e não a criptografia, foi o elo que partiu.
Isto liga a bridge a um debate mais vasto sobre quem manda mesmo nas DAO e nos protocolos: uma ponte pode anunciar-se como descentralizada e, na prática, depender de um multisig controlado por meia dúzia de pessoas, ou de uma configuração que a equipa pode alterar unilateralmente e sem timelock. Descentralização de fachada é um risco de segurança, não apenas uma questão de princípios. Uma bridge honesta diz quantos signatários independentes existem, quem são, que limiar é preciso e quem pode mudar essa configuração, e em quanto tempo.
A resposta da indústria: defesa em profundidade
A boa notícia é que a categoria está a mudar, e depressa. Depois da KelpDAO, a LayerZero eliminou o suporte a configurações de verificador único (1 de 1) e passou a empurrar a maioria das rotas para esquemas mais exigentes, com vários verificadores independentes a terem de concordar antes de uma mensagem ser aceite. Um único ponto de falha deixou de ser uma opção por defeito.
A mudança mais visível foi um êxodo. Nas semanas seguintes ao hack, protocolos e emissores começaram a migrar ativos em ponte para a CCIP da Chainlink, que assegura cada rota com dezenas de operadores independentes em vez de um verificador configurável. Em maio, a saída rondava os 4 mil milhões de dólares, com a Lombard a juntar-se; em julho, com a Mantle, ultrapassou os 7,2 mil milhões; e a 4 de agosto de 2026 a BitGo moveu 7,4 mil milhões de dólares em Wrapped Bitcoin (WBTC), empurrando o total anunciado para perto de 15 mil milhões de dólares (cerca de 13 mil milhões de euros).
O presidente executivo da BitGo, Mike Belshe, justificou a escolha com uma frase que resume a nova prioridade do setor: a segurança vem primeiro, e a CCIP oferece «um padrão de interoperabilidade comprovado e adotado por instituições, alinhado com os controlos, a fiabilidade e a gestão de risco que os nossos clientes esperam». A filosofia por detrás desta arquitetura foi resumida pelo cofundador da Chainlink, Sergey Nazarov, numa expressão que virou lema, «defesa em profundidade, não confiança cega»: em vez de reduzir a segurança a um único ponto, empilham-se camadas, vários verificadores, uma rede de gestão de risco que pode travar transações anómalas e limites de taxa por rota.
Nem toda a resposta passa por mais verificadores. Uma linha de defesa complementar é reduzir a superfície: as redes de liquidez, como a Across, entregam ao utilizador ativos nativos que já existem do outro lado, sem cunhar wrapped nem manter um cofre gigante de colateral. O modelo tem os seus próprios riscos (depende de relayers e de capital disponível), mas elimina o alvo mais apetecível, o cofre único onde tudo está bloqueado.
Há também um movimento para eliminar de vez a cunhagem de wrapped. Rotas de liquidez nativa, como a cunhagem nativa de USDC via CCTP da Circle, evitam o cofre de colateral que faz das bridges clássicas um alvo. E a mesma lógica de verificar em vez de confiar está a moldar áreas vizinhas, do restaking à computação verificável, onde o objetivo é provar criptograficamente que algo aconteceu em vez de pedir a alguém que jure que sim.
Zero-knowledge e a promessa de não confiar em ninguém
O passo seguinte, para muitos, é remover a confiança por completo. Em vez de pedir a um grupo de verificadores que ateste o que aconteceu na rede de origem, uma bridge de light client verifica criptograficamente uma prova do estado dessa rede, algo que a rede de destino pode confirmar por si mesma. As provas de conhecimento-zero (zero-knowledge) permitem fazê-lo de forma compacta e barata, e é esta a direção de projetos como o zkBridge e, no mundo Cosmos, do protocolo IBC, que valida cabeçalhos de bloco em vez de confiar em signatários.
Charles Hoskinson, fundador da Cardano e da IOG, foi um dos que puxou por esta ideia depois do ataque à Wanchain. Argumentou que confiar em operadores e multisigs é uma aposta perdida a longo prazo: «todo o software está sob um ataque enorme», disse, com a descoberta de vulnerabilidades cada vez mais automatizada, e comparou a segurança parcial a estar «90% resistente a uma doença mortal: se te expuseres o suficiente, acabas por apanhá-la». A conclusão dele é que só a verificação criptográfica, e não a confiança em intermediários, resolve o problema de fundo.
A tecnologia ainda é jovem e difícil de implementar bem, o que explica por que a maioria das bridges continua a usar modelos de validadores. Mas a direção de viagem é clara: menos confiança, mais prova. Provavelmente teremos menos pontes no futuro, mas maiores, mais escrutinadas e assentes em garantias criptográficas em vez de promessas.
MiCA, CMVM e os limites da supervisão
E o regulador, onde entra? A resposta curta, para quem usa bridges na Europa, é: menos do que se poderia pensar. O MiCA, o regulamento europeu para os criptoativos, regula os prestadores de serviços (CASP) e os emissores, não os protocolos autónomos. Uma bridge verdadeiramente descentralizada, sem uma empresa a operá-la, cai numa zona cinzenta: não há uma entidade licenciável a quem exigir capital, seguros ou planos de resiliência.
Em Portugal, o enquadramento chegou com a Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro (e a Lei n.º 70/2025), que transpõe o MiCA e reforça o combate ao branqueamento; entrou em vigor a 27 de dezembro de 2025. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e o abuso de mercado (Títulos II e VI do MiCA), enquanto o Banco de Portugal trata do registo e das stablecoins. O período transitório para os prestadores que já operavam terminou a 1 de julho de 2026: quem não obteve autorização MiCA teve de cessar a atividade de forma ordenada. As coimas podem chegar aos 5 milhões de euros.
A par da Lei n.º 69/2025, a Lei n.º 70/2025 reforça as obrigações de combate ao branqueamento de capitais, incluindo a chamada travel rule, que obriga os prestadores a recolher e transmitir informação sobre quem envia e quem recebe transferências de criptoativos. Para os fundos que saem de uma bridge comprometida, é precisamente este perímetro regulado, as corretoras e os custódios, que se tornou o ponto onde o dinheiro roubado encontra atrito. O protocolo pode não ter dono, mas a rampa de saída para euros tem.
Para quem gere ativos há ainda o DORA, o regulamento de resiliência operacional digital, que impõe às entidades financeiras reguladas requisitos de gestão de risco tecnológico, precisamente o tipo de falha (infraestrutura, chaves) que derruba bridges. Mas o DORA aplica-se ao CASP regulado, não à ponte autónoma que ele integra. Uma corretora portuguesa que ofereça acesso a uma bridge responde perante a CMVM pela sua própria resiliência; a bridge em si, não.
Há aqui uma ironia que vale a pena reter. A mesma propriedade que torna uma bridge difícil de proteger, não ter um operador com controlo depois de implementada, torna-a difícil de regular ou sancionar depois do facto. O Tesouro dos EUA sancionou o Tornado Cash em 2022, mas um tribunal federal decidiu em 2024 que tinha excedido a sua autoridade (um contrato imutável não é «propriedade» de ninguém) e o mixer foi retirado da lista de sanções em março de 2025. Regular um protocolo sem dono é tão difícil como protegê-lo.
Como avaliar o risco de uma bridge antes de a usar
Não há bridges sem risco, mas há bridges melhores e piores, e a diferença é observável antes de mover fundos. Uma checklist prática:
- Modelo de confiança: é validada por light client ou prova ZK, por uma rede grande de verificadores independentes, ou por um multisig pequeno? Quanto mais criptográfica a validação, melhor.
- Número e identidade dos verificadores: quantas assinaturas independentes são precisas? Uma configuração de 1 de 1 ou de 2 de 5 é um sinal de alarme.
- Controlo das chaves: quem pode alterar a configuração? Existe um timelock nas mudanças? Há alguma delegação de emergência que possa ter ficado esquecida, como na Ronin?
- Histórico: a bridge já foi atacada? Se sim, a correção prometida foi mesmo aplicada em todas as instalações, ou só na que foi atingida, como no caso da Allbridge?
- Auditorias e bug bounty: há auditorias recentes e um programa de recompensas ativo? Lembre-se de que a auditoria cobre o código, não as chaves nem a infraestrutura.
- Concentração de valor: quanto está bloqueado? Um cofre enorme é um alvo maior e um seguro pior.
- Transparência do incidente: quando algo corre mal, a equipa comunica depressa e com detalhe, ou desaparece, como fez a Verus em julho?
Para movimentos grandes, a regra mais segura continua a ser a mais aborrecida: minimizar o tempo que os fundos passam «em ponte», preferir rotas com liquidez nativa (como a cunhagem nativa de USDC) e dividir montantes grandes em vez de os concentrar numa única transferência. A ponte mais segura é, muitas vezes, a que não se usa.
A categoria está mais segura do que há dois anos, com a validação a migrar de multisigs para redes grandes e, aos poucos, para provas criptográficas. Mas o problema de fundo não desaparece: enquanto houver valor a saltar entre cadeias que não confiam umas nas outras, haverá quem tente enganar o mensageiro. Tratar cada bridge como uma exposição temporária, e não como um cofre onde estacionar capital, continua a ser a decisão mais sensata para quem investe.
Perguntas frequentes
O que é uma bridge cross-chain?
É o software que liga blockchains diferentes, permitindo mover ativos ou mensagens de uma rede para outra. No modelo mais comum, bloqueia um ativo na rede de origem e cunha um equivalente na de destino, mantendo a paridade enquanto o colateral bloqueado corresponder ao que circula do outro lado.
Porque é que as bridges são tão hackeadas?
Porque concentram muito valor num único ponto e têm de confiar em algo externo para saber o que aconteceu noutra cadeia. A maioria dos grandes roubos não veio de bugs no código, mas de chaves privadas roubadas, infraestrutura comprometida ou configurações de verificação demasiado frágeis, como um único verificador a aprovar mensagens.
Qual foi o maior hack de bridge de sempre?
A Ronin Bridge, em março de 2022, com cerca de 625 milhões de dólares (perto de 542 milhões de euros), continua a ser o maior roubo de criptomoedas de sempre. Os atacantes, associados ao grupo Lazarus, comprometeram as chaves de validação através de engenharia social, não de uma falha no contrato.
As bridges estão reguladas em Portugal pela MiCA?
Só parcialmente. O MiCA e a Lei n.º 69/2025 regulam os prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e os emissores, supervisionados pela CMVM e pelo Banco de Portugal, mas não os protocolos verdadeiramente autónomos. Uma bridge sem operador cai numa zona cinzenta, sem uma entidade licenciável a quem exigir garantias.
Como posso reduzir o risco ao usar uma bridge?
Prefira bridges com validação criptográfica ou muitos verificadores independentes, evite configurações de verificador único, verifique o histórico e se as correções foram aplicadas, minimize o tempo com fundos em ponte e, para montantes grandes, use rotas com liquidez nativa e divida as transferências em vez de as concentrar.
Mateus Andrade cobre segurança e DeFi na HOGE Wire.