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● Culture & Long-reads

Governação comunitária: quem manda mesmo nas DAO em 2026?

Voto por tokens, baleias, subornos e ataques via flash loan: a governação das DAO promete poder ao utilizador, mas quem decide mesmo? Um mapa das promessas, dos falhanços e das regras que aí vêm.

A promessa é sedutora: em vez de um conselho de administração à porta fechada, uma comunidade inteira decide o rumo de um protocolo, carteira a carteira, voto a voto. Chama-se governação comunitária e é o coração cultural da cripto desde que a primeira grande DAO tentou provar que o código podia substituir a chefia. Quase dez anos depois, o veredicto é bem mais complicado do que os manifestos deixavam adivinhar.

Em 2026, as maiores organizações autónomas descentralizadas (DAO, na sigla inglesa) gerem tesourarias na ordem dos milhares de milhões de euros e, mesmo assim, a maioria das propostas passa com uma fração ínfima dos votos possíveis. Pelo caminho houve ataques que transformaram a própria governação em arma, mercados abertos de compra de votos, fundações apanhadas a mexer no dinheiro antes de o pedir e reguladores, incluindo a CMVM em Portugal, a chegar com regras que ninguém desenhou a pensar em coletivos anónimos. Este texto é um mapa do que a governação comunitária promete, do que falha e do que está prestes a mudar.

O que significa governação comunitária na cripto

Uma DAO é, no essencial, um cofre coletivo governado por regras públicas. Quem detém o token de governação pode propor alterações e votar nelas; se a votação passar, o próprio contrato inteligente executa a decisão, seja libertar fundos da tesouraria, alterar uma taxa ou aprovar uma parceria. Não há um administrador com poder de veto informal: há um processo, escrito em código, que qualquer pessoa pode ler e, em teoria, contestar.

Na prática, convém distinguir dois planos. Há a votação fora da cadeia (off-chain), feita em plataformas como a Snapshot, onde os detentores sinalizam a sua posição sem pagar comissões de rede e sem que o voto execute nada por si; e há a votação na cadeia (on-chain), em contratos como o Governor da Compound, em que o resultado dispara automaticamente a ação aprovada. A primeira é barata e serve para medir o ambiente; a segunda é vinculativa e é onde o dinheiro se move de facto.

Entre um extremo e outro vivem os conceitos que vão reaparecer ao longo deste texto:

  • Quórum: a participação mínima para uma decisão ser válida.
  • Delegação: entregar o poder de voto a outra carteira, sem transferir os tokens.
  • Timelock: o atraso obrigatório entre aprovar e executar, pensado para dar tempo a reagir a uma decisão perigosa.
  • Tesouraria: o cofre coletivo que torna tudo isto apetecível e, também, perigoso.

Uma constituição escrita em código: a herança de The DAO

A ideia não nasceu em 2020. Nasceu em 2016, com The DAO, um fundo de investimento comunitário na Ethereum que angariou uma quantia colossal de ether e prometeu decidir tudo por voto dos participantes. Semanas depois, um atacante explorou uma falha no contrato e drenou uma fatia enorme do fundo, o equivalente a dezenas de milhões de dólares da época. A comunidade viu-se perante uma escolha impossível: aceitar o roubo em nome do princípio de que o código é lei, ou reverter a história com uma bifurcação da rede.

A Ethereum acabou por fazer o hard fork que devolveu os fundos, e a minoria que recusou mudar as regras manteve a cadeia original, hoje conhecida como Ethereum Classic. Ficou a lição que ainda assombra a governação comunitária: o código executa aquilo que está escrito, incluindo os erros, e a constituição só é imutável até ao dia em que uma maioria decide que não é.

Depois do verão da DeFi, em 2020, as DAO multiplicaram-se. Protocolos de empréstimo, bolsas descentralizadas, jogos, colecionáveis e até clubes de investimento adotaram o modelo. A promessa manteve-se intacta: substituir a hierarquia por participação. O que mudou foi a escala do que estava em jogo e, com ela, a criatividade de quem quis capturar o processo em benefício próprio.

Um token, um voto: a plutocracia por desenho

O modelo dominante é simples até ser incómodo: cada token equivale a um voto. Quem tem mais tokens tem mais poder, exatamente como numa sociedade por ações. O problema é que a maioria destes protocolos se apresenta com a linguagem da democracia enquanto opera com a mecânica da plutocracia. As mesmas carteiras que aparecem nos alertas de baleias quando movem fundos são, muitas vezes, as que decidem sozinhas o destino de uma tesouraria.

A concentração não é anedótica. Um estudo publicado na ScienceDirect sobre poder de voto em governação descentralizada concluiu que, em muitas DAO, um punhado de carteiras controla a maioria efetiva dos votos, tornando o resultado previsível antes mesmo de a votação abrir (a análise está em ScienceDirect). Quando isso acontece, o voto deixa de ser deliberação e passa a ser ratificação. Pior: como qualquer detentor pode pedir tokens emprestados durante o tempo suficiente para votar e devolvê-los a seguir, o poder de decisão passa a estar à venda ao câmbio do dia.

Ninguém articulou o problema com mais autoridade do que Vitalik Buterin. No ensaio Moving beyond coin voting governance, o cofundador da Ethereum avisou que o voto por moeda é intrinsecamente vulnerável à compra de votos e a ataques diretos, precisamente porque quem tem capital pode alugar poder de voto de forma temporária (o argumento completo está em vitalik.eth.limo). A alternativa que ele defende passa por sistemas onde a identidade, e não a carteira, pesa: uma pessoa, um voto, com todas as dificuldades práticas que isso traz.

O votante fantasma: delegação, quórum e apatia

Se o token dá poder, seria de esperar que os detentores o usassem. Não usam. A delegação nasceu precisamente para resolver a apatia: em vez de votar em cada proposta, o detentor entrega o seu poder a um delegado, muitas vezes um colaborador ativo ou uma equipa de investigação, que passa a votar em seu nome. Modelos como o da Compound e o da Uniswap assentam nisto, e há hoje delegados quase profissionais que vivem de representar milhares de carteiras silenciosas.

O remédio, porém, não curou a doença. A investigação académica é impiedosa: enquanto uma empresa cotada mobiliza 70% a 80% do capital nas assembleias de acionistas, a participação típica numa DAO de grande dimensão fica-se por uma fração disso. Um trabalho recente publicado na revista Frontiers descreve a apatia do votante como um risco estrutural para a legitimidade das decisões (ver Frontiers), com várias amostras a apontarem médias de participação abaixo dos 7%.

ContextoParticipação típicaO que revela
Empresa cotada (assembleia de acionistas)70% a 80%voto por procuração institucional consolidado
DAO de grande dimensão (mediana)5% a 30%decisões concentradas em poucas carteiras
Média reportada em várias DAOcerca de 6%apatia estrutural do votante
Amostra de 50 DAO num estudoperto de 2%quórum sustentado por um núcleo mínimo

O resultado é paradoxal: propostas que passam com maiorias esmagadoras e, ao mesmo tempo, participação minúscula. Uma maioria de 99% não significa consenso quando 99% dos votos vieram de três carteiras. É este vazio de participação que abre a porta aos capítulos seguintes, porque um sistema onde quase ninguém aparece é um sistema fácil de capturar.

Quando a governação vira arma: Beanstalk, Mango e Tornado Cash

A governação deixa de ser um debate quando se torna um vetor de ataque. O caso escola é o da Beanstalk, um protocolo de stablecoin na Ethereum. Em abril de 2022, um atacante recorreu a um flash loan (empréstimo relâmpago que se contrai e paga na mesma transação) para adquirir, por instantes, poder de voto suficiente para aprovar e executar uma proposta maliciosa que transferia os fundos para si. Drenou cerca de 182 milhões de dólares, à volta de 155 milhões de euros, ficando com dezenas de milhões depois de pagar o empréstimo, como noticiou a CoinDesk. Como a votação e a execução aconteceram na mesma transação, não houve timelock que desse à comunidade tempo de reagir.

Meses depois, em outubro de 2022, Avraham Eisenberg manipulou o preço de um ativo na Mango Markets, extraiu cerca de 110 milhões de dólares (uns 95 milhões de euros) e, num requinte quase provocador, usou os tokens de governação obtidos para votar a favor de uma proposta que legitimava o resgate. O caso arrastou-se pelos tribunais e, em maio de 2025, um juiz federal anulou as condenações por fraude e manipulação, por questões de foro e de prova, um desfecho que a CoinDesk descreveu como um alerta jurídico para todo o setor.

E há o caso que mais parece um conto. Em maio de 2023, um atacante submeteu à Tornado Cash uma proposta que imitava outra, legítima, mas que escondia código para se autoconceder 1,2 milhões de votos, acima dos cerca de 700 mil votos legítimos em circulação. Aprovada a proposta, ganhou controlo total da governação, como relatou o The Block. Dias depois devolveu o controlo através de nova votação, deixando no ar a dúvida sobre se tinha sido um ataque, uma demonstração de fragilidade ou uma manobra de mercado.

CasoDataMecanismoPerda aproximada
BeanstalkAbril de 2022flash loan compra maioria momentânea e executa proposta maliciosacerca de 182 milhões de dólares (155 milhões de euros)
Mango MarketsOutubro de 2022manipulação de oráculo e voto para aprovar o resgatecerca de 110 milhões de dólares (95 milhões de euros)
Tornado CashMaio de 2023proposta com código oculto concede 1,2 milhões de votoscontrolo total da governação (devolvido depois)
Compound (Golden Boys)Julho de 2024compra de tokens no mercado para aprovar desvio de tesouraria499 mil COMP, cerca de 24 milhões de dólares (21 milhões de euros)

Depois de cada episódio destes vem o inevitável ajuste de contas, e é aí que a comunidade se divide. Como já mostrámos noutro contexto, o post-mortem cripto costuma virar um duelo de narrativas sobre quem falhou: o programador que não protegeu o contrato contra flash loans, o auditor que não viu a falha ou a comunidade que não apareceu para votar.

Comprar o voto: das Curve wars ao caso Compound

Nem toda a captura é ilegal. Algumas foram elevadas a mercado. As chamadas Curve wars são o exemplo perfeito: na Curve Finance, quem bloqueia tokens CRV ganha veCRV e, com ele, o poder de direcionar as recompensas de emissão para determinados pools de liquidez. Rapidamente surgiram plataformas, como a Votium e a Hidden Hand, onde os projetos pagam abertamente a quem votar a favor dos seus pools. Chamaram-lhe subornos, sem ironia, e a Convex chegou a controlar perto de metade do veCRV em circulação, como descreve a CoinGecko.

A pergunta desconfortável é se isto é corrupção ou apenas um mercado eficiente de incentivos. Para quem defende os mercados, pagar a quem detém votos é só uma forma transparente de alinhar interesses, e mais honesta do que os acordos de bastidores das empresas tradicionais. Para quem se preocupa com a legitimidade, é a prova de que o voto tem preço e de que quem tiver o maior orçamento compra a política de emissão de um protocolo inteiro. As duas leituras estão certas ao mesmo tempo, e é esse o desconforto.

O caso Compound levou a lógica para a luz do dia, sem sequer o disfarce de um mercado de subornos. Em julho de 2024, um grupo apelidado de Golden Boys comprou COMP no mercado aberto até reunir votos suficientes para aprovar a proposta 289, que canalizava 499 mil COMP, cerca de 24 milhões de dólares (21 milhões de euros), para um cofre de rendimento por eles controlado. A votação passou por uma margem estreita, 682 mil votos contra 634 mil, contra a vontade de boa parte da comunidade, segundo o The Block. Perante a acusação de ataque de governação, os proponentes acabaram por retirar a proposta, mas a demonstração ficou feita: com dinheiro suficiente, compra-se a decisão.

Arbitrum e o teatro da ratificação

Às vezes o problema não é um atacante externo; é a própria fundação. Em março de 2023, a recém-nascida Arbitrum DAO recebeu a sua primeira grande proposta, a AIP-1, que atribuía 750 milhões de tokens ARB à Arbitrum Foundation. A comunidade descobriu, com desagrado, que a fundação já tinha transferido esses tokens para uma carteira administrativa e já tinha começado a vender parte deles, tudo antes de a votação estar concluída.

A gota de água foi a moldura escolhida. Um responsável da fundação escreveu que a AIP-1 era uma ratificação, não um pedido, como se o voto servisse apenas para carimbar uma decisão já tomada. A reação foi feroz. Cerca de três em cada quatro votos rejeitaram a proposta e a fundação viu-se obrigada a recuar, prometendo dividir o plano em partes, com limites de despesa e um calendário de desbloqueio ao longo de quatro anos, como relatou a CoinDesk.

O episódio é um bom lembrete de que, quando uma equipa fala em nome de um protocolo, cada palavra fica registada e pode ser usada contra ela. É a mesma lógica que já explorámos a propósito da entrevista ao fundador, esse momento em que o microfone se transforma em prova. Numa DAO, o fórum público faz o papel do microfone, e a comunidade não esquece.

Duas câmaras: a aposta da Optimism no bem público

Perante o problema da plutocracia, alguns projetos decidiram redesenhar a casa. A Optimism Collective é o exemplo mais citado. Em vez de uma só assembleia, criou duas: a Token House, onde os detentores de OP votam pela lógica clássica de um token, um voto, sobre incentivos e parâmetros; e a Citizens House, uma câmara de cidadãos onde vale o princípio de uma pessoa, um voto, deliberadamente desenhada para dar mais peso à cauda longa de contribuidores do que às baleias.

A Citizens House ficou encarregue do financiamento retroativo de bens públicos (RetroPGF), a ideia de que é mais fácil concordar sobre o que foi útil no passado do que adivinhar o que será útil no futuro. Em vez de financiar promessas, a comunidade recompensa impacto já entregue. O programa arrancou com uma dotação inicial de 10 milhões de OP para bens públicos, como a própria Optimism anunciou, e transformou-se numa das experiências de governação mais observadas do setor.

Não é uma panaceia. Escolher quem é cidadão reintroduz um problema de identidade e de porteiro, e distribuir dinheiro por mérito passado convida à formação de lóbis. Mas a Optimism prova algo importante: o voto por token não é uma lei da física, é uma escolha de arquitetura, e há quem esteja a testar alternativas a sério, em vez de se resignar à concentração.

Endgame: a MakerDAO transforma-se em Sky

Se a Optimism escolheu somar câmaras, a MakerDAO escolheu partir-se em pedaços. Sob o plano Endgame de Rune Christensen, o protocolo por trás da stablecoin DAI, um credor com milhares de milhões em ativos, converteu-se em Sky em agosto de 2024. Cada MKR passou a valer 24 mil tokens SKY e a DAI ganhou um sucessor opcional, a USDS, trocável um para um, como noticiou a CoinDesk.

O coração do plano é a modularização. Em vez de um monólito onde tudo passa por um só voto, o Endgame criou unidades semiautónomas, primeiro chamadas SubDAO e depois rebatizadas de Stars, cada uma com o seu foco, o seu token e a sua tesouraria, ligadas ao núcleo por reservas partilhadas. A ideia é reduzir a superfície de captura: um voto que corra mal numa unidade não contamina todo o sistema.

A modularização, contudo, empurra o risco para outro sítio. Quando cada peça tem os seus curadores e os seus parâmetros, a pergunta deixa de ser quem controla o voto central e passa a ser em que curador confio. É exatamente a tensão que descrevemos a propósito do crédito on-chain e do risco dos curadores: descentralizar a decisão não elimina o risco, apenas o distribui por mais mãos, algumas delas anónimas.

O interruptor de taxas da Uniswap: quando a governação finalmente paga

Durante anos, a maior crítica ao token de governação foi a de que não servia para nada: dava direito a votar, mas não a receber. A Uniswap foi o símbolo dessa frustração, com o seu célebre fee switch desligado, o interruptor de taxas que, uma vez ligado, encaminharia parte das comissões de negociação para o protocolo e, potencialmente, para os detentores de UNI.

No final de dezembro de 2025, a governação da Uniswap aprovou finalmente a proposta UNIfication. Segundo o blogue oficial da Uniswap, o plano liga a captura de comissões em pools selecionados e cria um mecanismo que queima UNI à medida que o protocolo gera receita, com a destruição de 100 milhões de tokens da tesouraria. Em teoria, o valor gerado pelo uso passa a reduzir a oferta do token, aproximando a UNI da lógica de recompra que temos descrito na era dos buybacks e do rendimento real.

O detalhe que raramente aparece nas manchetes é quem decidiu. A proposta passou com uma maioria quase unânime, mas sustentada por um punhado de carteiras gigantes, algumas a votar com milhões de UNI de uma só vez. Ou seja: a governação que finalmente faz o token pagar foi decidida, na prática, pelos mesmos grandes detentores cuja concentração tanto se critica. É a contradição no seu estado mais puro: o resultado agrada à maioria, mas a maioria não decidiu nada.

O muro legal: Ooki, a DUNA e quem paga a conta

Há uma pergunta que a cultura cripto adiou durante anos: se uma DAO faz algo ilegal, quem responde? Nos Estados Unidos, a resposta chegou de forma dura. Em junho de 2023, a CFTC obteve uma sentença por revelia contra a Ooki DAO, com uma coima de 645 542 dólares (cerca de 560 mil euros) e a ordem de encerrar o serviço. Mais importante do que o valor foi o princípio: o tribunal tratou a DAO como uma pessoa e como uma associação não incorporada, o que significa que os seus membros podem responder pelas dívidas do coletivo.

Ian McGinley, diretor de Enforcement da CFTC, foi explícito ao afirmar que a decisão deixava claro que as DAO não estão imunes à lei só por serem descentralizadas (a posição oficial está na CFTC). Para milhares de pessoas que votavam em fóruns achando que o anonimato as protegia, foi um balde de água fria: participar na governação pode, em certas jurisdições, equivaler a ser sócio de responsabilidade ilimitada.

A indústria respondeu com engenharia jurídica. Em 2024, o Wyoming aprovou a DUNA, sigla para associação não incorporada descentralizada e sem fins lucrativos, um invólucro legal pensado para dar às DAO três coisas que lhes faltavam: existência jurídica para assinar contratos e comparecer em tribunal, capacidade de pagar impostos e, sobretudo, responsabilidade limitada para os membros. Miles Jennings, o principal jurista da a16z crypto, defendeu-a como uma peça em falta para a maturidade do setor (o argumento está detalhado na a16z crypto). O contraste é claro: sem invólucro, a Ooki; com invólucro, uma organização que pode existir sem expor pessoalmente cada votante.

Portugal, a CMVM e o MiCA: as DAO num limbo jurídico

E na Europa? O regulamento MiCA (Markets in Crypto-Assets) passou a ser a espinha dorsal das regras cripto na União Europeia, mas foi escrito a pensar em emitentes e prestadores de serviços, não em coletivos anónimos que votam em fóruns. Em Portugal, a execução chegou com as Leis n.º 69/2025 e 70/2025, publicadas em dezembro de 2025, que distribuem a supervisão entre o Banco de Portugal e a CMVM, com coimas que podem ir até 5 milhões de euros, como noticiou o ECO.

A divisão de tarefas importa para quem participa em governação. Ao Banco de Portugal cabe a supervisão prudencial e a autorização dos prestadores; à CMVM cabe a supervisão comportamental e a fiscalização do abuso de mercado (a repartição está inscrita na própria Lei n.º 69/2025). É esse segundo mandato que deve fazer soar o alarme: se um token de governação for negociado como criptoativo, um mercado de compra de votos ou uma manipulação de preço para influenciar uma votação podem cair, pelo menos em tese, na alçada do abuso de mercado.

Falta, isso sim, uma figura jurídica portuguesa equivalente à DUNA. Uma DAO com participantes em Portugal continua sem um invólucro nacional que lhe dê personalidade e proteja os membros, o que deixa a mesma pergunta da Ooki no ar: se um coletivo sem forma legal causar um dano, quem paga? Para já, a resposta prudente é assumir que a descentralização não apaga a responsabilidade, apenas a torna mais difícil de localizar.

Sair pela porta e medir a saúde: rage quit, forks e sinais de alerta

Quando o voto não chega, resta a saída. A economia clássica chama-lhe exit por oposição a voice: se não consigo mudar a organização por dentro, levo o meu quinhão e vou-me embora. Poucos casos ilustram isto melhor do que o da Nouns DAO. Em setembro de 2023, um grupo de detentores descontentes com os gastos ativou o mecanismo de rage quit previsto na versão 3 do protocolo: reunidos 20% dos Nouns, podiam bifurcar a DAO e sair com a sua parte da tesouraria, cerca de 35,5 ether por NFT.

O resultado foi revelador. Mais de metade dos Nouns saiu, arrastando à volta de 27 milhões de dólares (perto de 23 milhões de euros), e a maioria dos que saíram vendeu logo a posição, como noticiou a CoinDesk. Ou seja: boa parte não eram idealistas da governação, eram arbitragistas a explorar o desconto entre o preço do NFT e o valor da tesouraria por trás dele. O direito de saída protege as minorias, mas também atrai quem só quer o dinheiro.

Para o leitor que participa ou investe, o mais útil é aprender a ler a saúde de uma governação antes de confiar nela. A tabela seguinte resume os sinais que separam um sistema robusto de um teatro.

Sinal de alertaSinal saudável
Uma ou duas carteiras chegam sozinhas ao quórumPoder de voto distribuído por dezenas de delegados ativos
A fundação move ou vende tokens antes do votoTesouraria sob timelock e multisig auditado
Propostas passam com participação abaixo de 5%Quórum real e debate no fórum antes da votação on-chain
Não existe mecanismo de saídaDireito de rage quit ou fork e proteção de minorias
Mercado de subornos opaco decide as emissõesIncentivos e conflitos declarados publicamente

O rumo para 2026 aponta menos para a utopia da assembleia permanente e mais para o pragmatismo. Fala-se em minimização da governação, ou seja, em reduzir ao mínimo aquilo que precisa de ser votado e deixar o resto imutável; testam-se câmaras de identidade como a da Optimism; discute-se dar aos delegados melhores ferramentas e mais transparência. Vitalik Buterin resumiu bem a mudança de mentalidade no ensaio DAOs are not corporations, ao lembrar que uma DAO não tem um soberano acima de si e que, por isso, é precisamente do desenho dos soberanos, a ciência política, e não da governação empresarial, que as DAO têm mais a aprender (o texto está em vitalik.eth.limo). A governação comunitária não morreu; está apenas a crescer para lá do slogan.

Perguntas Frequentes

O que é uma DAO e o que é a governação comunitária?

Uma DAO (organização autónoma descentralizada) é um coletivo que gere fundos e regras através de contratos inteligentes, sem um conselho de administração tradicional. A governação comunitária é o processo pelo qual os detentores do token propõem e votam alterações; se a votação passar, o contrato executa a decisão de forma automática, seja mover a tesouraria, mudar uma taxa ou aprovar um investimento.

O voto ponderado por tokens é mesmo democrático?

Nem por isso. No modelo de um token, um voto, quem tem mais capital tem mais poder, o que se aproxima mais de uma sociedade por ações do que de uma democracia. Estudos mostram participação muito baixa, com médias abaixo de 7% em muitas DAO, e forte concentração em poucas carteiras. Por isso surgiram alternativas, como a câmara de cidadãos da Optimism, que usa o princípio de uma pessoa, um voto.

Uma DAO pode ser processada ou responsabilizada legalmente?

Pode. Nos Estados Unidos, a CFTC venceu o caso contra a Ooki DAO, com o tribunal a tratá-la como uma associação não incorporada cujos membros podem responder pelas dívidas do coletivo. É por isso que surgiram invólucros legais como a DUNA, no Wyoming, que oferecem responsabilidade limitada a quem participa.

As DAO estão reguladas em Portugal pela CMVM?

Não existe uma lei específica para DAO em Portugal, mas o regulamento europeu MiCA aplica-se aos criptoativos e a supervisão é partilhada entre o Banco de Portugal e a CMVM. À CMVM cabe fiscalizar o abuso de mercado, pelo que práticas como a compra de votos ou a manipulação de preços associadas a tokens de governação podem, em tese, cair na sua alçada.

Como posso participar na governação de um protocolo?

O primeiro passo é deter o token de governação e ligar a carteira à plataforma de votação, muitas vezes a Snapshot para sinalização e um contrato on-chain para decisões vinculativas. Pode votar diretamente ou delegar o poder a um delegado de confiança. Antes de confiar, vale a pena verificar a concentração de votos, a existência de timelock e o histórico de propostas no fórum.

Por Tomás Almeida, editor sénior da HOGE Wire.

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