Rendimento real em 2026: a era dos buybacks e a conta em euros
O «rendimento real» deixou de ser slogan para se tornar a norma da DeFi em 2026. De onde vem o juro, quem o devolve aos investidores e quanto o câmbio EUR/USD lhe tira.
«Rendimento real» foi, em 2022, um grito de sobrevivência. Quando a bolha da DeFi esvaziou e os tokens que prometiam 1000% ao ano se revelaram máquinas de imprimir dinheiro sem receita por trás, o setor precisou de uma vara de medir mais honesta: quanto juro consegue um protocolo pagar apenas com o dinheiro que ganha de facto? Quatro anos depois, essa pergunta deixou de ser um nicho e passou a ser a linguagem contabilística padrão da finança on-chain.
Duas coisas mudaram em 2026. Primeiro, os maiores protocolos passaram a competir pela quantidade de dinheiro que devolvem a quem detém o token, através de recompras automáticas: é a chamada era dos buybacks, liderada pela Aave e pela Hyperliquid. Segundo, e talvez mais importante, a maior fonte isolada de rendimento real on-chain já não está dentro da cadeia. São cerca de 16 mil milhões de dólares em títulos do Tesouro dos EUA tokenizados, a render perto de 3,3% ao ano.
Para quem lê a partir de Portugal, há um senão que este artigo faz questão de sublinhar: quase todo esse juro é pago em dólares. Com o EUR/USD perto de 1,15, o risco cambial pode engolir um cupão de 3,3% inteiro. E desde 1 de julho de 2026, quando terminou o regime transitório da MiCA, são o Banco de Portugal e a CMVM que decidem quem sequer pode vender estes produtos por cá.
O que é o rendimento real e porque voltou a dominar 2026
Rendimento real (real yield) é o juro pago com a receita efetiva de um protocolo: comissões de negociação, juros de empréstimos, funding de contratos perpétuos, MEV e cupões de ativos do mundo real (RWA). Opõe-se ao rendimento inflacionário, aquele que é financiado pela emissão de novos tokens. A diferença é simples de enunciar e brutal na prática: o primeiro é dinheiro que entrou no protocolo vindo de utilizadores reais; o segundo é diluição disfarçada de juro.
A expressão popularizou-se no final de 2022, depois do colapso de uma geração de projetos DeFi 2.0 cujas taxas anuais de três e quatro dígitos eram inteiramente pagas com emissão, como documentou a Cointelegraph Magazine. Quando o preço do token caía, o valor em dólares do rendimento caía com ele, e o esquema desfazia-se. Os pioneiros do modelo alternativo foram bolsas de derivados como a GMX, a Synthetix e a dYdX. Na GMX, por exemplo, 70% das comissões de negociação são pagas aos fornecedores de liquidez em ETH e AVAX, e os restantes 30% vão para quem faz staking do token, sempre em ativos que a plataforma não imprime, segundo a CoinGecko.
Porque voltou a ideia a dominar em 2026? Porque o dinheiro fácil desapareceu. Com os rendimentos comprimidos e os reguladores à porta, os investidores querem saber se o juro é verdadeiro. A Crypto Briefing define a métrica que interessa, a holders revenue, como «o valor que regressa aos detentores através de recompras, queima de tokens, partilha de comissões e pagamentos de staking». É esse valor, e não a taxa anunciada, que separa um investimento de um jogo de cadeiras musicais.
Emissões contra receita: a diferença entre juro e subsídio
Vale a pena ver o mecanismo ao pormenor, porque é aqui que muitos investidores se enganam. Imagine uma bolsa de perpétuos que ganha 1 milhão de dólares em comissões numa semana e distribui 700 mil desse valor aos participantes, em ETH. Esses 700 mil dólares são rendimento real: saíram do bolso de quem negociou. Agora imagine que a mesma plataforma, sem faturar um cêntimo, cunha 700 mil dólares do seu próprio token de governação e distribui-os. A taxa anunciada é idêntica, mas a segunda é um subsídio pago pelos futuros compradores do token.
O rendimento inflacionário funciona enquanto houver dinheiro novo a entrar para absorver a diluição. É, na sua forma mais pura, uma transferência de riqueza dos que chegam depois para os que chegaram primeiro. Quando o fluxo de novos compradores estanca, o preço cai, o valor do juro cai e a corrida à saída começa. O rendimento real, pelo contrário, sustenta-se enquanto o protocolo continuar a cobrar comissões, independentemente do que faça o preço do token.
Há ainda uma zona cinzenta importante: o rendimento de incentivo. Muitos protocolos pagam recompensas em tokens de terceiros (os chamados subornos, ou bribes) para atrair liquidez. A taxa anunciada pode ser altíssima, mas continua a ser um subsídio, não receita própria. Distinguir as três categorias, receita real, emissão própria e incentivo externo, é o primeiro exercício de qualquer análise séria, e a maioria dos painéis de rendimento mistura-as sem aviso.
Como medir o rendimento real: as métricas que interessam
Não há rendimento real sem contabilidade. Felizmente, o setor amadureceu ao ponto de ter painéis públicos que separam o dinheiro verdadeiro do teatro. Os agregadores DefiLlama e Token Terminal tornaram-se as referências para comparar comissões (fees, o total pago pelos utilizadores) com receita (revenue, a parte que fica para o protocolo e para os detentores do token). A distância entre as duas colunas diz quase tudo.
As métricas essenciais são poucas e claras:
| Métrica | O que mede | Sinal de alerta |
|---|---|---|
| Comissões (fees) | Total pago pelos utilizadores do protocolo | Comissões altas mas receita baixa: o valor não chega ao token |
| Receita (revenue) | Parte das comissões que fica para o protocolo e detentores | Receita quase nula apesar de um TVL elevado |
| Holders revenue | Valor devolvido aos detentores (recompras, queima, partilha) | Zero: o token não capta qualquer valor |
| Rácio preço/receita | Avaliação do token face ao dinheiro que gera | Múltiplos de centenas: preço descolado da receita |
| Receita sobre TVL | Eficiência do capital depositado | Muito baixo: capital parado sem gerar |
| Emissão vs receita | Quanto do juro é afinal diluição | Emissão a superar a receita: o rendimento é subsídio |
A regra de bolso é comparar sempre a taxa anunciada com a holders revenue por token. Se um protocolo paga 20% ao ano mas devolve zero aos detentores a partir de receita, essa taxa está a ser financiada com emissão, e o relógio está a contar.
A era dos buybacks: quando o protocolo devolve dinheiro
A grande mudança de 2026 foi de forma, e não apenas de fundo. Em vez de distribuírem juro (o que se parece perigosamente com um dividendo, e portanto com um valor mobiliário aos olhos dos reguladores), os protocolos passaram a usar a receita para recomprar o próprio token no mercado aberto. O caso mais falado é o da Aave, a maior plataforma de crédito on-chain.
A Aavenomics 3.0 entrou em vigor no final de junho de 2026 e tornou as recompras automáticas e imutáveis: 100% da receita do protocolo Aave e da stablecoin GHO passa a fluir para a tesouraria da DAO, e um motor on-chain compra cerca de 292 AAVE por dia sem precisar de votação para cada transação, confirmou a The Defiant. O orçamento anual de recompra tinha sido reduzido de 50 para 30 milhões de dólares em março de 2026, um sinal de disciplina e não de fraqueza. Os números de base ajudam a perceber a escala: segundo a DefiLlama, a Aave gera cerca de 876 milhões de dólares em comissões anualizadas e perto de 115 milhões em receita, com o TVL da V3 na ordem dos 19 mil milhões de dólares.
Stani Kulechov, fundador da Aave, apresentou o mecanismo como a forma de o protocolo transformar receita diretamente em procura pelo token, em vez de a pagar como dividendo. A lógica é tão fiscal e regulatória quanto financeira: uma recompra evita a etiqueta de dividendo, funciona em qualquer jurisdição e reforça o preço de forma reflexiva. É a versão on-chain de algo que as empresas cotadas fazem há décadas, e um contraste deliberado com os modelos de crédito mais recentes, cada vez mais modulares.
Hyperliquid e a concentração do rendimento real
Se a Aave é o rosto respeitável da era dos buybacks, a Hyperliquid é a sua máquina mais agressiva. A bolsa de perpétuos canaliza a quase totalidade das suas comissões (entre 97% e 99%, consoante a fonte) para o Assistance Fund, que compra HYPE no mercado de forma contínua e automática. Não há subsídio: as recompras são pagas com receita, não com emissão. Em ritmo anualizado, a Hyperliquid gera perto de 1,3 mil milhões de dólares em comissões, e até maio de 2026 o fundo já tinha gasto mais de 1,3 mil milhões a recomprar o token, segundo a crypto.news.
O resultado é uma concentração impressionante. Numa análise da Crypto Briefing, ao longo de 30 dias apenas dez protocolos geraram 87% de toda a holders revenue da DeFi. A Hyperliquid liderava com 53,5 milhões de dólares, ou 38,4% do total; seguiam-se a edgeX, com 23,3 milhões (16,7%), e a Pump.fun, com 22,9 milhões (16,4%).
| Protocolo | Holders revenue, 30 dias (USD) | Quota do total |
|---|---|---|
| Hyperliquid | 53,5 milhões | 38,4% |
| edgeX | 23,3 milhões | 16,7% |
| Pump.fun | 22,9 milhões | 16,4% |
| Conjunto do top 10 | n.d. | 87% |
| Fora do top 10 | n.d. | 13% |
Esta concentração convida a uma leitura cética dos rankings, um tema que já explorámos ao mostrar como o volume cripto que os rankings não contam distorce a perceção de quem lidera. A coroa do rendimento real também mudou de mãos: a GMX, pioneira do modelo, ainda partilha cerca de 70% das comissões com os utilizadores, mas ficou pequena face à Hyperliquid. Ser o primeiro a inventar uma categoria não garante ficar com ela.
A maior fonte de rendimento real está fora da cadeia
Eis o paradoxo de 2026: o rendimento mais real de toda a cripto não é gerado por cripto. São os títulos do Tesouro dos EUA tokenizados, ou seja, obrigações de curto prazo do governo norte-americano embrulhadas num token. Segundo o rwa.xyz, o valor distribuído destes produtos ronda os 16,18 mil milhões de dólares (cerca de 14 mil milhões de euros ao câmbio atual), a render em média 3,32% ao ano, repartidos por 87 ativos e perto de 63 mil detentores.
A lista dos maiores produtos lê-se como um quem é quem das finanças tradicionais:
| Produto | Emitente / plataforma | Valor (USD) |
|---|---|---|
| USYC | Circle | ~3,00 mil milhões |
| BUIDL | BlackRock (via Securitize) | ~2,70 mil milhões |
| USDY | Ondo | ~2,15 mil milhões |
| iBENJI | Franklin Templeton | ~1,73 mil milhões |
| JTRSY | Janus Henderson (via Centrifuge) | ~882 milhões |
A razão da popularidade é óbvia: o cupão vem do Tesouro dos EUA, não da atividade especulativa da cripto, o que o torna a fonte de rendimento mais previsível do setor. Larry Fink, presidente executivo da BlackRock, tem descrito a tokenização como «a próxima geração para os mercados», e o BUIDL, emitido através da Securitize, é a prova de que a maior gestora de ativos do mundo leva a promessa a sério. Mas previsível não é o mesmo que sem risco, sobretudo para quem pensa em euros.
Vale a pena perceber como o juro chega ao investidor. Alguns destes tokens são de acumulação: o preço sobe todos os dias à medida que o cupão se acumula, e o resgate é feito ao valor cheio. Outros distribuem o rendimento periodicamente. Em qualquer dos casos, o elo fraco é o resgate, porque a conversão de volta para dólares depende do emitente e do seu horário, e não da cadeia, o que introduz um risco operacional que não existe num Treasury comprado diretamente através de um banco.
A conta em euros: o risco cambial que ninguém publicita
Aqui está o ponto que a maioria dos artigos sobre rendimento real ignora, e que para um investidor português é decisivo: todos aqueles Treasuries pagam em dólares. Em 7 de agosto de 2026, o EUR/USD estava perto de 1,15, de acordo com a TradingEconomics. Um cupão de 3,3% em dólares só se traduz em 3,3% para quem tem o euro como moeda de base se o câmbio ficar quieto, o que raramente acontece.
A aritmética é impiedosa. Se o euro se valorizar 3,3% face ao dólar ao longo de um ano, todo o rendimento do Treasury tokenizado desaparece quando convertido para euros. E uma oscilação de 3% a 4% anual no EUR/USD não é um cenário extremo: é o comportamento normal do par. Só no último mês o câmbio se moveu perto de 1%. Por outras palavras, para uma carteira em euros, o risco cambial é muitas vezes maior do que o próprio juro que se anda a perseguir.
Um exemplo torna o problema tangível. Um investidor com 10 000 euros converte-os em cerca de 11 500 dólares e compra um Treasury tokenizado a 3,3%. Ao fim de um ano, tem perto de 11 880 dólares. Se, entretanto, o euro subir de 1,15 para 1,19 (uns modestos 3,5%), esses 11 880 dólares valem cerca de 9 983 euros: o investidor ganhou juro em dólares e perdeu capital em euros. O rendimento real existiu, mas na moeda errada.
E cobrir esse risco custa dinheiro. O preço de um contrato a prazo (forward) ou de uma opção para fixar o câmbio ronda o diferencial de taxas de juro entre o euro e o dólar, que hoje consome grande parte do ganho adicional que o Treasury americano oferece face a um equivalente europeu. As alternativas denominadas em euros, como fundos do mercado monetário europeu tokenizados, ainda são escassas e de menor dimensão. A conclusão honesta é desconfortável: um rendimento real em dólares é, antes de mais, uma aposta no dólar. Quem a fizer deve fazê-la de olhos abertos.
Stablecoins de rendimento: Sky, Ethena e a compressão dos juros
Entre o staking nativo e os Treasuries tokenizados, cresceu uma categoria intermédia: as stablecoins que pagam rendimento. A Sky (a antiga MakerDAO) oferece a Sky Savings Rate, fixada por governação em 3,75% no segundo trimestre de 2026, com uma oferta de USDS acima de 7,6 mil milhões de dólares, segundo a própria Sky. Esse juro é financiado por três fontes internas: cupões de Treasuries via colateral RWA, a taxa de empréstimo do Spark e as comissões de estabilidade do sistema original. É rendimento real, mas note-se a queda: em 2024 a mesma taxa passava dos 8%.
A Ethena conta uma história parecida de compressão. O seu token de poupança, o sUSDe, rendia mais de 20% em 2024 e paga hoje perto de 4%, com a oferta de USDe a rondar os 5 a 6 mil milhões de dólares, de acordo com a Ethena. O motor original era o basis trade: manter um dólar sintético coberto com posições curtas em perpétuos, capturando o funding pago pelos compradores alavancados. Quando esse funding encolhe, o rendimento encolhe com ele, um mecanismo que dissecámos ao perguntar se a base dos futuros prevê o mercado. Em resposta à compressão, a Ethena tem diversificado para RWA, incluindo uma alocação de 250 milhões de dólares num fundo de crédito tokenizado.
Há também uma diferença de qualidade entre as duas. O rendimento da Sky assenta cada vez mais em colateral de baixo risco (Treasuries e crédito sobrecolateralizado), enquanto o da Ethena depende, em parte, de um mercado de derivados que pode virar. Nenhuma é um depósito bancário, e nenhuma está coberta por garantia de depósitos. São instrumentos de mercado com um rótulo estável, uma distinção que o investidor deve interiorizar antes de tratar um sUSDe como se fosse dinheiro parado no banco.
A lição das duas é a mesma e é contraintuitiva: à medida que mais capital persegue o rendimento real, o rendimento real cai. Não há almoços grátis nem taxas de 20% sustentáveis; há apenas o custo do dinheiro num dado momento, mais ou menos um prémio de risco. Quando alguém volta a prometer 20% «reais», a pergunta certa é qual o risco que está escondido na diferença.
ETH staking: o rendimento real nativo da Ethereum
O rendimento real mais antigo e mais aborrecido, no bom sentido, é o staking de ETH. Quem bloqueia ETH para validar a rede recebe uma taxa base de consenso de cerca de 2,6% a 2,8%, que sobe para 3,3% a 3,8% quando se somam as gorjetas de prioridade e o MEV pagos por quem usa a rede, conforme documenta a ethereum.org. Perto de 32% de todo o ETH, cerca de 39 milhões de moedas distribuídas por 897 mil validadores, está em staking.
Nem todo este rendimento é igualmente real. A parte que vem das comissões de prioridade e do MEV é dinheiro de utilizadores reais; a parte que vem da emissão de novo ETH é mais próxima de compensação por diluição. Ainda assim, no cômputo geral, quem faz staking dilui-se menos do que quem não faz, e o fluxo de comissões torna o conjunto genuinamente produtivo. É, com os Treasuries, o rendimento de referência do setor, aquele com que todos os outros são comparados.
A tentação de esticar este juro com restaking (reutilizar o ETH em staking para garantir outros serviços) é forte, mas acrescenta risco e não necessariamente rendimento real: mais slashing, mais dependências e, sobretudo, menos liquidez para sair quando é preciso. Já explicámos por que motivo, no restaking em 2026, sair é mais difícil do que entrar. A regra mantém-se: cada camada extra de rendimento traz uma camada extra de risco.
Pendle e a engenharia do rendimento: separar capital de juro
Se os protocolos anteriores geram rendimento, a Pendle transforma-o num instrumento financeiro. A ideia é engenhosa: separar um ativo que rende em duas peças. O Principal Token (PT) funciona como uma obrigação de cupão zero, dá direito a resgatar o capital na maturidade; o Yield Token (YT) capta todo o juro gerado até essa data. Quem compra PT fixa uma taxa; quem compra YT especula na direção das taxas.
A Pendle chegou a um TVL de pico próximo de 13,4 mil milhões de dólares em 2025 e tornou-se a infraestrutura de rendimento fixo da DeFi. Em 2026 expandiu-se com a Boros, uma plataforma para negociar as taxas de funding dos perpétuos através de unidades tokenizadas (Yield Units). A Boros ultrapassou os 14 mil milhões de dólares em volume acumulado em menos de um ano e ataca um mercado gigantesco, o funding dos perpétuos, que movimenta perto de 150 mil milhões de dólares por dia, segundo a ChainCatcher.
Para o investidor comum, a utilidade mais direta da Pendle é o rendimento fixo. Comprar um PT com desconto e mantê-lo até à maturidade equivale a travar uma taxa conhecida, sem exposição à volatilidade do juro variável, algo que não existia na DeFi há poucos anos. Já a compra de YT é uma aposta alavancada na subida do rendimento, com um perfil de risco muito mais agressivo. Confundir os dois é uma forma rápida de perder dinheiro num produto que, à superfície, parece conservador.
A relevância para o tema deste artigo é dupla. Primeiro, ao tornar o rendimento negociável, a Pendle revela o preço que o mercado atribui ao rendimento real futuro, uma espécie de curva de juros da cripto. Segundo, permite trocar um juro variável e incerto por um fluxo fixo, ou o contrário, consoante a leitura de cada um. É a maturação de um setor que, há quatro anos, mal sabia distinguir juro de emissão.
Os riscos: rendimento real não é rendimento sem risco
Convém dizê-lo sem rodeios: real não quer dizer seguro. O rótulo de rendimento real elimina uma categoria de risco, a de o juro ser um esquema de subsídio, mas mantém intactas várias outras.
Os principais riscos a vigiar são estes:
- Risco de contrato inteligente: um bug ou um exploit pode evaporar o capital, por muito real que seja o rendimento.
- Risco de contraparte e de custódia (RWA): um Treasury tokenizado depende de um emitente, de um custodiante e de um enquadramento legal fora da cadeia; se algum falha, o cupão não chega.
- Risco de liquidez: um protocolo pode exibir receita e ainda assim não ter mercado para sair. Volume não é liquidez, uma distinção que o crash de 2025 tornou dolorosamente clara.
- Risco de curador (crédito modular): nos novos mercados de crédito, quem define os parâmetros de risco é um curador, e uma escolha errada pode contaminar os depositantes, como explicámos sobre a modularização e o risco dos curadores.
- Risco de sustentabilidade: as comissões de bolsas de perpétuos dependem de volume especulativo; quando o volume seca, o rendimento real seca também.
- Risco de descolagem (depeg) e de funding: uma stablecoin de rendimento pode perder a paridade, e um basis trade pode inverter-se e passar a custar dinheiro em vez de o pagar.
O ponto não é evitar todos estes riscos, é ser pago para os correr. Um rendimento real de 4% que carrega risco cambial, de contraparte e de contrato inteligente não é obviamente melhor do que uma obrigação europeia sem esses riscos; é diferente, e exige que o investidor faça a conta completa antes de comparar percentagens.
MiCA, a CMVM e o Banco de Portugal: quem regula o rendimento
Do lado regulatório, 2026 foi o ano da verdade em Portugal. As Leis n.º 69/2025 e 70/2025, publicadas a 22 de dezembro de 2025, transpuseram e executaram o regime europeu MiCA na ordem jurídica nacional, como consta do Diário da República. O regime transitório terminou a 1 de julho de 2026: a partir dessa data, quem não tiver autorização MiCA deixa de poder prestar serviços de criptoativos na União Europeia.
A supervisão está repartida. O Banco de Portugal trata da autorização dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e da supervisão prudencial, além das stablecoins; a CMVM fica com a supervisão comportamental e o abuso de mercado. As coimas para infrações muito graves vão de 25 mil a 5 milhões de euros para pessoas coletivas, e de 4 mil a 5 milhões para pessoas singulares.
Há duas notas essenciais para o investidor. Primeira: a MiCA regula o prestador e o emitente, não o protocolo nem o juro em si. Um protocolo DeFi que paga rendimento real não é «autorizado» por ninguém; a plataforma que lhe vende o acesso é que pode precisar de licença. Segunda, e é aqui que a regulação toca diretamente no rendimento: a MiCA proíbe os emitentes de stablecoins, os tokens de moeda eletrónica e os tokens referenciados a ativos, de pagarem juros sobre esses tokens. É precisamente por isso que o rendimento aparece sempre num token separado, o sUSDS ou o sUSDe, e nunca na stablecoin de base. A regra desenhou a arquitetura do produto.
Quanto a impostos, e sem substituir aconselhamento profissional, as mais-valias com criptoativos detidos há menos de 365 dias são, em regra, tributadas em Portugal à taxa autónoma de 28%, enquanto as posições de longo prazo podem beneficiar de isenção e o rendimento passivo tem tratamento próprio. A moldura fiscal de cada produto deve ser confirmada caso a caso, porque a forma como o juro é pago (em stablecoin, em token nativo ou via recompra) altera o enquadramento.
Como avaliar um rendimento antes de investir: um checklist
Reduzindo tudo o que precede a uma ferramenta prática, aqui fica a lista de perguntas que separa um rendimento real de uma armadilha bem embrulhada. Antes de depositar um único euro, convém responder a todas:
- De onde vem o dinheiro? Se a resposta não for uma receita concreta (comissões, juros, funding, MEV, cupões), desconfie.
- Qual o rácio entre receita e emissão? Se a emissão supera a receita, está a receber um subsídio, não um juro.
- O token capta valor, através de recompra, partilha de comissões ou fee-switch ativo, ou é apenas governação?
- Há liquidez real para sair, e não apenas volume?
- Em que moeda é pago o juro? Um cupão em dólares carrega risco cambial para uma base em euros.
- Quem custodia o ativo subjacente, no caso dos RWA, e sob que lei?
- O protocolo foi auditado e qual é o seu historial de exploits?
- Quem é a contraparte regulada? É um CASP autorizado pelo Banco de Portugal?
- O rendimento é sustentável ou depende de volume especulativo que pode desaparecer amanhã?
No resto de 2026, os sinais apontam todos na mesma direção: mais recompras, mais Treasuries tokenizados, mais compressão de juros e uma fiscalização MiCA cada vez mais ativa. O rendimento real venceu a guerra das narrativas, e isso é bom, porque obriga o setor a mostrar as contas. Mas venceu como piso de honestidade, não como garantia de segurança. Saber de onde vem o dinheiro é o princípio da conversa, não o fim. Para uma carteira em euros, a última pergunta é sempre a mesma: depois do câmbio, do risco e dos impostos, quanto é que sobra de facto?
Perguntas frequentes
O que é o rendimento real (real yield) na DeFi?
É o juro pago com a receita efetiva de um protocolo (comissões, juros, funding, MEV, cupões de RWA) e não com a emissão de novos tokens. Distingue-se do rendimento inflacionário porque não depende da entrada constante de novos compradores para se sustentar.
Qual é a maior fonte de rendimento real em cripto em 2026?
Os títulos do Tesouro dos EUA tokenizados, com cerca de 16 mil milhões de dólares em valor a render perto de 3,3% ao ano, segundo o rwa.xyz. O cupão vem do governo norte-americano, não da atividade cripto, o que o torna a fonte mais previsível, ainda que denominada em dólares.
O rendimento real é seguro?
Não. Elimina o risco de o juro ser um esquema de subsídio, mas mantém o risco de contrato inteligente, de contraparte (RWA), de liquidez, de descolagem das stablecoins e cambial. Para um investidor em euros, o risco EUR/USD pode ultrapassar o próprio juro.
Como afeta o câmbio EUR/USD o rendimento dos Treasuries tokenizados?
A maioria paga em dólares. Com o EUR/USD perto de 1,15, uma valorização do euro de 3% a 4% num ano pode anular por completo um cupão de 3,3%. Cobrir o risco cambial custa aproximadamente o diferencial de taxas de juro, o que consome grande parte do ganho.
A CMVM e o Banco de Portugal regulam estes rendimentos?
Regulam os prestadores de serviços (CASP) e os emitentes, não o protocolo nem o juro em si. Desde 1 de julho de 2026, oferecer serviços de criptoativos em Portugal exige autorização MiCA: o Banco de Portugal trata da autorização e da supervisão prudencial, e a CMVM da conduta de mercado. A MiCA também proíbe o pagamento de juros sobre stablecoins, o que empurra o rendimento para um token separado.
Por Tomás Almeida, editor sénior da HOGE Wire para mercados on-chain e DeFi.