Posicionamento em derivados: a fronteira on-chain de SpaceX a OpenAI
Os perpétuos on-chain abriram a porta a apostar na SpaceX e na OpenAI sem deter ações. Mostramos como ler o posicionamento nesta fronteira que nem a SEC nem a CFTC supervisionam.
Há uma pergunta que, até há pouco tempo, nenhum investidor de retalho em Portugal conseguia responder com uma ordem de mercado: quanto vale a SpaceX hoje? A empresa de Elon Musk era privada, não tinha ações cotadas e o acesso ao seu capital esteve sempre reservado a fundos, veículos especiais e investidores acreditados. Em maio de 2026, isso mudou. Um contrato perpétuo sobre a SpaceX passou a negociar 24 horas por dia numa DEX chamada Hyperliquid, com alavancagem, sem exigir uma única ação e sem perguntar quem está do outro lado do ecrã.
Esta é a nova fronteira do posicionamento em derivados, e é diferente de quase tudo o que abordámos até aqui. Ler as apostas do mercado deixou de ser apenas olhar para a Deribit, para a CME ou para a Binance. Há agora um quarto território onde o próprio mercado é criado por quem quiser, o preço vem de um oráculo em vez de um livro de ordens, e o operador que lançou o contrato pode desligá-lo. Com o Bitcoin em torno dos 56.000 euros e a Ethereum na casa dos 1.600 euros a 11 de agosto, a atenção especulativa migrou dos ativos de sempre para perpétuos sobre a SpaceX, a OpenAI e a Anthropic. Perceber como se lê o posicionamento aqui é perceber onde as regras que conhecemos deixam de se aplicar.
O que mudou: quando o próprio mercado passa a ser construído por quem quiser
Durante anos, ler o posicionamento em derivados foi um exercício de triangulação entre três mundos: as corretoras centralizadas (Binance, Bybit, OKX), a Deribit para as opções, e a Wall Street regulada da CME e dos ETF. Cada um mostrava uma fatia da aposta coletiva. O que a Hyperliquid introduziu com o HIP-3, o seu sistema de mercados criados por terceiros, é um quarto mundo em que o próprio mercado deixou de ser fornecido pela plataforma e passou a ser construído pelos utilizadores.
O mecanismo é simples de descrever e radical nas consequências. Segundo a Forbes, o HIP-3 foi introduzido no final de 2025 e permite que qualquer construtor, mesmo anónimo, lance um mercado de perpétuos depositando 500.000 tokens HYPE em garantia (na ordem dos 28 milhões de dólares, uns 24 milhões de euros à cotação atual). Feito o depósito, o operador escolhe o ativo subjacente, fornece o preço através de um oráculo e o mercado fica aberto ao mundo. Não é preciso pedir autorização a ninguém: nem à plataforma, nem a um regulador, nem à empresa cujo nome está no contrato.
A consequência para quem lê posicionamento é imediata. As apostas deixaram de estar confinadas a Bitcoin, Ethereum e às grandes altcoins. Por alturas de meados de junho de 2026, o open interest agregado dos mercados HIP-3 tinha atingido um pico de 3,2 mil milhões de dólares, segundo a Cryptobriefing, com contratos sobre ações, mercadorias, índices e, sobretudo, empresas privadas. Perceber o que o mercado pensa da SpaceX ou da OpenAI passou a ser possível; perceber se esse sinal é fiável é outra história.
HIP-3 em três minutos: staking, oráculo e o poder do operador
Vale a pena abrir o capô, porque os detalhes técnicos do HIP-3 são exatamente o que torna o posicionamento nestes mercados difícil de ler. O construtor que deposita os 500.000 HYPE (uma garantia que pode ser confiscada, um processo a que o setor chama «slashing», em caso de má conduta) recebe controlo quase total sobre o mercado que lança: define o oráculo de preço, os parâmetros de margem, o colateral aceite e as comissões. Os primeiros mercados de cada operador são atribuídos sem leilão; os seguintes passam por um leilão holandês.
Repare-se no que isto significa. Numa corretora tradicional, o preço de um perpétuo ancora-se ao preço à vista do ativo, arbitrado por milhares de participantes. Num mercado HIP-3 sobre uma empresa privada não existe preço à vista: a SpaceX não é transacionada em lado nenhum. O «preço» é, em boa medida, aquilo que o oráculo do operador diz que é, calibrado pela própria negociação do perpétuo. O mercado descobre o preço e, ao mesmo tempo, é a única fonte desse preço. Para quem lê posicionamento, é uma inversão desconcertante: o open interest não mede a convicção em relação a um valor externo, mede a convicção em relação a um número que o próprio mercado inventa.
| Dimensão | Mercado HIP-3 (Hyperliquid) | Corretora centralizada | CME (regulada) |
|---|---|---|---|
| Quem lista o mercado | Qualquer construtor (500.000 HYPE) | A corretora | A bolsa, sob supervisão da CFTC |
| Fonte do preço | Oráculo definido pelo operador | Livro de ordens e índice | Índice de referência auditado |
| Dados de posicionamento | On-chain, por carteira, sem agregação oficial | Parciais (OI, funding) | Relatório COT semanal da CFTC |
| Quem pode fechar o mercado | O operador | A corretora | A bolsa, com regras públicas |
| Proteção do retalho | Nenhuma | Variável | Enquadramento regulado |
SpaceX a 24 horas: anatomia de um perpétuo sobre uma empresa privada
Nenhum caso ilustra melhor esta fronteira do que o perpétuo sobre a SpaceX. Lançado a 18 de maio de 2026 sob o HIP-3, com uma valorização implícita próxima de 1,78 biliões de dólares segundo a Forbes, o contrato (ticker xyz:SPCX) permitia apostar na SpaceX meses antes de a empresa chegar à bolsa. O construtor por detrás do mercado, a TradeXYZ, tinha depositado os 500.000 HYPE exigidos, o equivalente a cerca de 28 milhões de dólares, para o poder lançar, de acordo com a Arkham.
Antes da estreia em bolsa, o perpétuo seguia um preço implícito construído pela própria negociação. A procura foi intensa: a 11 de junho, véspera do IPO, o open interest ultrapassava os 100 milhões de dólares só na Hyperliquid, e nas semanas anteriores à cotação passou várias vezes a barreira dos 200 milhões, segundo a Cryptobriefing. O contrato chegou a implicar uma valorização de 2,01 biliões de dólares, um preço por ação de 154 dólares, bem acima do objetivo de 1,75 biliões que a SpaceX viria a fixar no IPO, um prémio que a Arkham atribui ao acesso restrito e à alavancagem disponível.
A 12 de junho, a SpaceX estreou-se no Nasdaq a 135 dólares por ação e fechou o primeiro dia perto dos 161 dólares. Nesse dia, o volume do perpétuo SPCX rondou os 1,3 mil milhões de dólares, tornando-o o segundo ativo mais negociado da plataforma (Cryptobriefing); a Cryptotimes aponta um valor próximo dos 1,4 mil milhões. E aqui está o detalhe que define o instrumento: as posições abertas no perpétuo não se converteram em ações. Passaram, isso sim, a seguir o preço cotado no Nasdaq, mantendo a natureza de derivado, sem entrega física, com liquidação por funding contra o preço de mark e alavancagem até 20 vezes.
Semanas depois, a euforia arrefeceu com o próprio título: a ação recuou para a casa dos 110 dólares e o open interest do perpétuo estabilizou nos 170 milhões de dólares no final de julho, ainda assim um nível robusto para um contrato com poucas semanas de vida. Para quem lê posicionamento, o SPCX foi um teste raro: um mercado que sobreviveu à transição de pré-IPO para ação cotada sem colapsar, ao contrário de outros que veremos já a seguir.
Ler o posicionamento sem relatório COT
Quando escrevemos que o mapa não é o mercado, referíamo-nos a métricas de posicionamento que são sempre atrasadas, fragmentadas por plataforma e fáceis de interpretar mal. Num mercado HIP-3, esse problema fica ao mesmo tempo melhor e pior. Melhor porque tudo é on-chain: cada posição, cada carteira, cada liquidação fica registada de forma pública e verificável, algo que nenhuma corretora centralizada oferece. Pior porque desaparecem as ferramentas institucionais que usávamos para dar sentido aos dados.
Num perpétuo de Bitcoin, o posicionamento lê-se cruzando várias fontes: o relatório COT semanal da CFTC, que mostra o que fazem os fundos alavancados na CME; a cadeia de opções da Deribit, com o seu put-call ratio e o max pain; os fluxos dos ETF; os registos 13F trimestrais. Num perpétuo sobre a SpaceX não existe nada disto. Não há COT porque não há CFTC. Não há cadeia de opções. Não há 13F porque não há ações. O que resta é o open interest on-chain, a taxa de funding e os mapas de liquidação, tudo num único mercado gerido por um único operador.
A transparência on-chain traz, ainda assim, uma vantagem concreta: é possível seguir carteiras individuais. Ler as movimentações das grandes carteiras, as chamadas whale alerts, deixa de depender de serviços de alerta e passa a ser uma consulta direta ao livro-razão. O reverso é o de sempre: uma carteira grande a acumular um perpétuo de SpaceX pode ser convicção informada ou pode ser ruído, e a fronteira não vem com legendas. A transparência mostra o «quê»; raramente mostra o «porquê».
O oráculo é o mercado: o preço quando não há livro de ordens
A Hyperliquid tem uma particularidade técnica com implicações grandes para o posicionamento: usa o preço do oráculo, e não o preço de mark do livro de ordens, para calcular o valor nocional sobre o qual incide o funding. Em Bitcoin ou Ethereum, o oráculo agrega preços de várias corretoras à vista, portanto ancora-se a algo externo e difícil de manipular. Num perpétuo sobre uma empresa privada, o oráculo não tem esse chão: antes do IPO, não há preço externo nenhum para agregar.
Isto torna o posicionamento reflexivo de uma forma extrema. O preço que orienta as liquidações e o funding é, em última análise, definido pelo operador e calibrado pela negociação do próprio contrato. Se a leitura do posicionamento influencia quem entra e sai, e se essas entradas e saídas movem o preço que depois valida ou invalida essas mesmas posições, o sinal e a causa confundem-se. Não é um defeito exótico: é a estrutura do instrumento.
O risco não é teórico. A própria Forbes recorda que, em março de 2025, um episódio de manipulação de oráculo quase drenou o cofre de liquidez da Hyperliquid, através da manipulação coordenada de um token. Quando o preço de referência pode ser empurrado, o posicionamento deixa de ser apenas uma aposta na direção do ativo e passa a incluir uma aposta na integridade do oráculo. É uma camada de risco que não existe num contrato da CME.
O caso Ventuals: quando o mercado inteiro desaparece
Se o perpétuo da SpaceX mostra o melhor caso, o da Ventuals mostra o risco que nenhum manual de posicionamento tradicional prevê: o de o mercado inteiro desaparecer. A Ventuals construiu, sobre o HIP-3, mercados que permitiam especular sobre as valorizações da OpenAI e da Anthropic sem deter uma única participação. Foi um sucesso de tração: gerou 650 milhões de dólares em volume e reuniu mais de 500.000 HYPE em apoio da comunidade, segundo a CoinDesk.
E depois, a 15 de junho de 2026, simplesmente fechou. A Ventuals anunciou que ia encerrar a operação; a negociação nos mercados OPENAI e ANTHROPIC parou e todas as posições foram liquidadas automaticamente. A equipa juntou-se a outro projeto do ecossistema Hyperliquid. Quem estava posicionado não perdeu por ter apostado na direção errada; foi fechado porque o operador decidiu sair.
É aqui que a nossa análise dos post-mortem, sobre falhas que já não são de código mas de estrutura e de decisão, se aplica na íntegra. O risco de operador é uma variável de posicionamento por direito próprio. Numa corretora regulada, um mercado não fecha de um dia para o outro por vontade de uma equipa; num mercado HIP-3, fecha. Ler o open interest de um contrato destes sem perguntar quem o gere, e se essa pessoa tenciona continuar, é ler metade do mapa.
«Permissionless» no nome, um operador na prática
Há uma ironia no centro desta história. O HIP-3 é vendido como permissionless, aberto a qualquer construtor, mas na prática o open interest concentra-se de forma quase total num único operador. A Arkham reportava que a TradeXYZ respondia por 94% de todo o open interest do HIP-3; a CoinDesk, no contexto do encerramento da Ventuals, apontava que a TradeXYZ representava cerca de 97% do volume da categoria. Permissionless no desenho, quase monopolista no resultado.
Para o posicionamento, isto muda tudo. A «multidão» cujas apostas estamos a tentar ler não é um mercado disperso e competitivo: é, essencialmente, um único operador que define oráculos, margens e comissões para a esmagadora maioria destes contratos. Concentra-se aí um ponto único de falha operacional, técnico e de governação. E ecoa uma lição que já tínhamos aprendido noutro contexto: volume não é liquidez. Um contrato pode exibir um volume impressionante e continuar a ser fino, dependente de um punhado de participantes e de um só operador para funcionar.
Funding sem âncora: o custo de manter a aposta na fronteira
Num perpétuo não há vencimento, por isso o mecanismo que mantém o preço colado ao subjacente é a taxa de funding: quando há mais compradores alavancados do que vendedores, os longos pagam aos curtos, e vice-versa. Em Bitcoin, essa taxa tem uma âncora robusta. O índice KFRI da CF Benchmarks, que mede o funding do perpétuo de Bitcoin da Kraken, estava nos 6,0153% anualizados a 10 de agosto de 2026, um valor moderado que reflete um mercado em equilíbrio.
Num perpétuo sobre a SpaceX, o funding perde grande parte dessa âncora. Não é possível fazer a arbitragem clássica de comprar o ativo à vista e vender o perpétuo, porque não há ativo à vista para comprar: ninguém pode abrir uma posição curta nas ações da SpaceX numa corretora tradicional para equilibrar a posição on-chain. Sem esse elástico de arbitragem, a taxa de funding pode disparar e manter-se esticada durante mais tempo, refletindo a procura desequilibrada em vez de um custo de carry disciplinado pelo mercado à vista. Para quem lê posicionamento, um funding persistentemente alto num destes contratos diz menos sobre o «justo valor» e mais sobre quanto os apostadores estão dispostos a pagar por uma exposição que não conseguem obter de outra forma.
Alavancagem, ADL e a implosão de uma aposta concentrada
A alavancagem até 20 vezes, combinada com livros finos e um só operador, cria a condição perfeita para cascatas. E quando as coisas correm mal, entra em cena um mecanismo próprio das DEX de perpétuos: o auto-deleveraging, ou ADL, em que o sistema fecha à força as posições contrárias mais lucrativas para cobrir uma posição falida, sem passar pelo mercado.
O caso mais citado não é sequer o de uma ação, mas ilustra o risco na perfeição. A 9 de abril de 2026, um trader montou na Hyperliquid uma posição longa de 145 milhões de tokens FARTCOIN, construída via TWAP a cerca de 0,20 a 0,25 dólares. O preço subiu de 0,16 para 0,25 dólares e depois desabou 50% numa única vela horária, de 0,2519 para 0,1244 dólares, deixando o trader com uma perda de cerca de 3 milhões de dólares, segundo a CoinDesk. O ADL da Hyperliquid fechou à força duas carteiras curtas, que embolsaram cerca de 849.000 dólares sem pagar comissões.
A lição para o posicionamento é dupla. Primeiro, numa fronteira fina, uma posição concentrada é ao mesmo tempo o sinal e o combustível: a mesma aposta gigante que aparece no open interest é a que, ao desfazer-se, provoca a cascata. Segundo, o ADL significa que estar do lado certo da direção não garante que se recebe o lucro, porque o sistema pode fechar a posição vencedora para salvar o motor. Ler o open interest de um mercado destes sem olhar para a concentração e para as regras de ADL é olhar para um número sem contexto.
O ponto cego regulatório: nem a SEC nem a CFTC
Toda esta engenharia vive num vazio regulatório que o próprio setor reconhece. Numa análise para a Forbes, o analista Zennon Kapron descreve o perpétuo de SpaceX como o verdadeiro ponto cego regulatório. O argumento é preciso: a SEC reclama jurisdição sobre valores mobiliários, a CFTC sobre derivados negociados em plataformas dos EUA; como a Hyperliquid opera offshore e o perpétuo não está estruturado como um valor mobiliário, nenhuma das duas agências tem competência clara.
Nas palavras de Kapron, «um contrato sintético sobre uma empresa privada norte-americana, lançado sem permissões e negociado globalmente, cai na lacuna entre as duas agências». A exposição a empresas privadas esteve historicamente cercada por veículos especiais, regras de investidor acreditado e contratos a prazo, precisamente para gerir a opacidade e a iliquidez das valorizações pré-IPO. O perpétuo derruba essas barreiras. O instrumento sintético tornou-se, escreve Kapron, «a forma mais acessível de apostar na SpaceX que alguma vez existiu, e também a menos supervisionada».
O outro lado deste vazio é uma proposta de valor genuína. Simon Dedic, cofundador da Moon Rock Capital, argumentou que os problemas que os investidores de retalho enfrentaram na estreia da SpaceX no Nasdaq fazem dos perpétuos on-chain da Hyperliquid o «veículo superior» para obter exposição a nomes como a SpaceX, a Anthropic e a OpenAI. Se o que se quer é apenas exposição económica, disse à publicação Stocktwits, mais vale «negociá-la 24 horas por dia on-chain» do que «lidar com jogos de custódia e períodos de lock-up escondidos». Acessibilidade e desproteção, nesta fronteira, são a mesma moeda.
E em Portugal? A proteção da CMVM que não chega à fronteira
Para um investidor em Portugal, a moldura teórica é clara, mas a proteção prática é ilusória nesta fronteira. Um perpétuo sobre uma ação, ou sobre uma empresa privada, é um derivado sobre um valor mobiliário: cai no âmbito da DMIF II (MiFID II) e da supervisão da CMVM, não do MiCA, que cobre apenas os criptoativos à vista e os prestadores de serviços (CASP). A Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) foi mais longe: numa declaração de 24 de fevereiro de 2026, classificou os perpétuos de cripto como contratos por diferenças (CFD), sujeitos às medidas de intervenção sobre o produto, com um limite de alavancagem de 2:1 para o retalho, proteção contra saldo negativo e avisos de risco obrigatórios.
O problema é que nada disto alcança a Hyperliquid. Uma plataforma offshore, sem autorização CASP em Portugal e sem registo junto da CMVM, não aplica o limite de 2:1, não garante proteção contra saldo negativo e não está sujeita aos deveres de conduta europeus. O investidor português que aceda a um perpétuo de SpaceX fá-lo fora do perímetro de proteção, com alavancagem até 20 vezes em vez de 2. E os números de fundo não convidam ao otimismo: dados citados pela CMVM e pela ESMA mostram que entre 74% e 89% dos investidores não profissionais perdem dinheiro a negociar CFD, com perdas médias entre 1.600 e 29.000 euros, como noticiou o Jornal Económico.
Convém recordar que o período transitório do MiCA para os antigos VASP portugueses terminou a 1 de julho de 2026, e que a supervisão passou a ser partilhada entre o Banco de Portugal (registo e autorização) e a CMVM (conduta de mercado). Mas essa moldura foi desenhada para prestadores que operam dentro da lei portuguesa. A fronteira on-chain, por definição, vive fora dela.
O contraponto regulado: Kalshi, CME e os perpétuos com carimbo
Enquanto a fronteira on-chain corre sem supervisor, os EUA constroem uma versão regulada do mesmo produto. A 29 de maio de 2026, a CFTC aprovou o contrato BTCPERP da Kalshi, o primeiro perpétuo de Bitcoin regulado no país. O presidente da CFTC, Mike Selig, chamou-lhe «um passo em frente importante» para «consolidar os Estados Unidos como a capital mundial da cripto», descrevendo os perpétuos como «uma ferramenta fundamental de gestão de risco e de descoberta de preço», em declarações à CoinDesk. Por essa altura, a BTCPERP já tinha acumulado mais de 16 mil milhões de dólares em volume.
Nem toda a indústria concorda com o enquadramento. A CME processou a CFTC a 17 de junho de 2026, argumentando que os perpétuos deviam ser classificados como «swaps» ao abrigo da lei Dodd-Frank, e não como futuros, precisamente por causa dos pagamentos de funding; o presidente da CME, Terrence Duffy, classificou a abordagem como um «desastre à espera de acontecer», enquanto a CFTC chamou ao processo «lawfare», como noticiou o The Block. A definição legal do produto joga-se, mais uma vez, no mecanismo de funding.
A diferença para o posicionamento é substancial. Num perpétuo regulado, o open interest vem acompanhado de relatórios de posicionamento, regras públicas e um supervisor. Como já explorámos ao analisar a aposta que o mercado adiou para setembro, o calendário regulatório norte-americano, incluindo o CLARITY Act, condiciona diretamente como as posições se montam e desmontam. Na fronteira HIP-3 não há calendário nem supervisor: há um operador e um oráculo.
Como ler o posicionamento na fronteira: um guia prático
Nada disto significa que a fronteira on-chain seja ilegível; significa que exige uma grelha de leitura diferente. Reunimos as verificações que separam um sinal de posicionamento útil de um número enganador nestes mercados.
| Sinal | O que parece dizer | O que verificar antes de acreditar |
|---|---|---|
| Open interest a subir | Convicção crescente | Está concentrado numa carteira? Há um só operador? |
| Volume elevado | Mercado líquido | Volume não é liquidez: qual a profundidade real do livro? |
| Funding muito alto | Excesso de longos | Há ativo à vista para arbitrar, ou é procura sem escape? |
| Preço a divergir do justo valor | Oportunidade | Quem controla o oráculo? O preço é externo ou interno? |
| Posição de baleia visível | Smart money a entrar | Convicção informada ou ruído pseudónimo? |
Para além da tabela, três princípios ajudam a não confundir o mapa com o território:
- Pergunte sempre quem é o operador e se tenciona manter o mercado aberto: o risco de encerramento é real, como a Ventuals demonstrou.
- Distinga o preço externo do preço interno: num perpétuo pré-IPO, o oráculo não tem chão à vista e o preço é reflexivo.
- Trate a alavancagem e as regras de ADL como parte do posicionamento, não como letra miúda: podem fechar a sua posição vencedora para salvar o sistema.
O que a fronteira diz sobre 2026
O posicionamento em derivados sempre foi um exercício de humildade: as métricas são proxies imperfeitas da intenção coletiva. Na fronteira on-chain, essa humildade tem de dobrar. Os dados são, em teoria, mais ricos do que em qualquer mercado tradicional, porque tudo está no livro-razão, carteira a carteira. E são, na prática, mais pobres, porque falta a agregação regulada, a concorrência entre operadores e o supervisor que dá sentido aos números.
O que 2026 mostra é que os perpétuos on-chain colonizaram um território que estava fechado ao retalho: as empresas privadas, os nomes pré-IPO, a exposição a valorizações que antes exigiam milhões e um estatuto de investidor acreditado. A SpaceX foi a prova de conceito; a OpenAI e a Anthropic foram o aviso de que o mercado pode desaparecer tão depressa quanto surgiu. A pergunta para os próximos meses não é se estes instrumentos vão crescer, é se a supervisão vai alcançá-los antes de o próximo IPO, ou o próximo encerramento, ensinar a lição pela via difícil.
Para o investidor, a regra é sóbria: nesta fronteira, ler o posicionamento é tão importante como reconhecer o que não se consegue ler. O mapa está mais detalhado do que nunca; continua a não ser o mercado.
Perguntas frequentes
O que é o HIP-3 da Hyperliquid?
É o sistema da Hyperliquid que permite a qualquer construtor lançar um mercado de perpétuos depositando 500.000 tokens HYPE em garantia. O operador define o ativo subjacente, o oráculo de preço, as margens e as comissões, e o mercado fica aberto sem necessidade de autorização de um regulador ou da plataforma. Foi introduzido no final de 2025.
É possível apostar na SpaceX ou na OpenAI sem comprar ações?
Sim, através de perpétuos on-chain. Em 2026, contratos sobre a SpaceX (ticker xyz:SPCX) e, durante algum tempo, sobre a OpenAI e a Anthropic permitiram exposição a estas empresas privadas com alavancagem, sem deter ações. São derivados: seguem o preço, implícito ou cotado, sem conferir qualquer participação no capital.
Estes perpétuos de ações são legais em Portugal?
Um perpétuo sobre uma ação é um derivado sobre um valor mobiliário, sujeito à DMIF II e à supervisão da CMVM, e a ESMA classifica os perpétuos de cripto como CFD com limite de alavancagem de 2:1 para o retalho. Contudo, plataformas offshore como a Hyperliquid não estão autorizadas em Portugal nem aplicam essas proteções, pelo que aceder-lhes fica fora do perímetro de proteção do investidor.
Como se lê o posicionamento num mercado HIP-3?
Com uma grelha diferente. Não há relatório COT nem cadeia de opções; há open interest on-chain, funding e mapas de liquidação num único mercado gerido por um só operador. Antes de confiar num sinal, verifique a concentração das posições, quem controla o oráculo, a profundidade real do livro e se o operador tenciona manter o mercado aberto.
O que aconteceu aos mercados da OpenAI e da Anthropic na Hyperliquid?
A Ventuals, o construtor por detrás desses mercados, encerrou a operação a 15 de junho de 2026, depois de gerar cerca de 650 milhões de dólares em volume. A negociação parou e todas as posições foram liquidadas automaticamente. É um exemplo do risco de operador: nestes mercados, o próprio contrato pode desaparecer por decisão de quem o gere.
Liam Brennan é editor de mercados da HOGE Wire e acompanha derivados, estrutura de mercado e regulação cripto na Europa.