O assalto e o divórcio: o drama das DAO cresceu em 2026
Em 2026, o drama das DAO deixou de ser teatro amador. Dividiu-se em dois: o assalto por votação e o divórcio dos profissionais que geriam os protocolos.
No dia 23 de agosto de 2026, o protocolo de crédito Term Finance perdeu cerca de 7,3 milhões de euros (8,5 milhões de dólares) sem que uma única linha de código fosse quebrada. O atacante não descobriu nenhum bug. Comprou barato a maioria de um token de governação pouco distribuído, apresentou propostas em nome dessa maioria e mandou os cofres pagarem-lhe a si próprio: 2.843 ETH (cerca de 5,9 milhões de euros) e 1,68 milhões de USDC, sensivelmente 68% de tudo o que estava depositado nos cofres afetados, segundo a Cointelegraph.
O detalhe que arrepia não é o valor. É que a Term Finance não estava desprotegida. Tinha um timelock de sete dias e direito de veto para os fornecedores de liquidez, exatamente o género de salvaguarda que a indústria recomenda. Nada disto travou o assalto, porque um timelock só serve se alguém estiver a ver e puder agir a tempo, e desta vez ninguém agiu, reportou o Crowdfund Insider.
No mesmo verão, do lado oposto do espetro, outra DAO vivia um drama sem qualquer atacante. A Aave, o maior protocolo de crédito da DeFi, com mais de 22 mil milhões de euros em depósitos, viu sair ao longo de 2026 quase toda a camada de empresas profissionais que a geria de facto: a BGD Labs, a Aave Chan Initiative de Marc Zeller e a gestora de risco Chaos Labs, noticiou a CoinDesk.
São dois dramas opostos. Um é um assalto de segundos; o outro, um divórcio arrastado por meses. Mas contam a mesma coisa: em 2026, o drama das DAO deixou de ser a novela amadora de comunidades entusiastas e passou a ter duas caras adultas, uma criminosa e outra corporativa. A assembleia de voluntários morreu. O que ficou no lugar dela é ou um alvo, ou um local de trabalho.
Do palco à esquadra: como o drama cresceu
O drama das DAO é tão antigo como as próprias DAO. Começou em 2016 com The DAO, o fundo de investimento comunitário que levantou cerca de 150 milhões de dólares em ETH antes de um atacante drenar perto de 3,6 milhões de ETH, quase um terço do fundo, através de uma falha de reentrância. A resposta partiu a Ethereum ao meio: um hard fork em julho de 2016 (no bloco 1.920.000) reverteu o roubo e criou duas cadeias, a Ethereum que hoje conhecemos e a Ethereum Classic de quem recusou reescrever a história, como explica a Gemini.
Durante anos, o género manteve-se amador e, muitas vezes, cómico. Em novembro de 2021, mais de 17.000 pessoas juntaram mais de 40 milhões de dólares em poucos dias para tentar comprar uma cópia original da Constituição dos Estados Unidos num leilão da Sotheby’s. Perderam para o lance de 43,2 milhões de dólares do gestor de fundos Ken Griffin e passaram semanas a discutir reembolsos que, descontadas as taxas de gás, valiam menos do que muitos tinham colocado, segundo a CNBC. A ConstitutionDAO tornou-se um meme; ninguém saiu ferido a não ser no orgulho.
Em 2026, esse teatro cresceu. Deixou de ser sobre comunidades a tropeçar em público e dividiu-se em dois géneros mais sérios: o assalto industrializado por votação e o abandono silencioso dos profissionais que, longe dos holofotes, faziam as DAO funcionar. Vale a pena olhar para cada uma destas caras.
A primeira cara: o assalto por votação
Um ataque de governação não parte nada. Segue as regras. O atacante adquire poder de voto suficiente para aprovar uma proposta, escreve uma proposta que transfere a tesouraria para a carteira dele, vota nela com a maioria que comprou e executa. Do ponto de vista do contrato, tudo correu como previsto: houve proposta, houve quórum, houve aprovação. É por isso que estes casos são tão difíceis de classificar como crime, um ponto ao qual voltaremos.
A Term Finance é o exemplo mais recente e mais limpo. É um protocolo de crédito de taxa fixa construído sobre a infraestrutura de cofres da Yearn V3, mas com uma camada de governação própria, feita à medida. Foi precisamente essa camada à medida que ruiu; a Yearn fez questão de sublinhar que o vetor não se aplica aos cofres Yearn normais. O atacante partiu de uma pequena quantia de ETH previamente passada pelo misturador Tornado Cash, comprou a maioria do token de governação dos cofres, aprovou as propostas e drenou 68% do que lá estava. A Term Labs acabou por desligar de forma irreversível todos os Term Meta Vaults e revogar-lhes os papéis de governação, garantindo que o protocolo de crédito subjacente não fora afetado.
Nada disto é exclusivo da Term. O crédito on-chain vive de camadas de confiança empilhadas, as mesmas que já transformaram oráculos e pontes no crédito malparado da DeFi; a governação é apenas mais uma dessas camadas, e talvez a mais barata de atacar.
O verão dos golpes: 22 milhões em oito semanas
A Term não foi um acidente isolado. Foi o remate de um verão inteiro. Entre 9 de junho e 6 de agosto de 2026, a empresa de segurança Blockaid contou pelo menos sete tomadas de controlo de governação em três cadeias diferentes (Ethereum, Solana e Base), que juntas drenaram cerca de 22 milhões de dólares (aproximadamente 19 milhões de euros). Nenhuma delas foi um bug de código; todas exploraram o próprio sistema de votos, documentou a Blockaid.
O padrão repete-se com uma monotonia quase aborrecida: encontrar um token de governação pouco distribuído, comprar barato uma maioria, passar a proposta antes que alguém repare. O caso mais caricato foi o Token of Power, cujo fornecimento total era de apenas 16.384 tokens; comprar a maioria disso é trivial. O caso mais eficiente foi o BonkDAO, onde bastaram sete carteiras a votar para mover 20 milhões de dólares.
| Caso | Data (2026) | Cadeia | Drenado | Vetor |
|---|---|---|---|---|
| Token of Power (TOP) | 9 jun | Ethereum | ≈ 1,4 M€ (1,59 M$) | Só 16.384 tokens no total; maioria comprada; proposta criada, aprovada e executada numa única transação, sem timelock |
| BonkDAO | 6 jul | Solana | ≈ 17 M€ (20 M$) | Cerca de 3,8 M€ em BONK para atingir o quórum; sete carteiras votaram; sem atraso entre aprovação e execução |
| BarnBridge SMART Yield | 15 jul | Ethereum | ≈ 670 mil € (777 mil $) | Poder de voto por cerca de 515 € (32.000 BOND); caminho de upgrade sequestrado |
| Term Finance | 23 ago | Ethereum | ≈ 7,3 M€ (8,5 M$) | Token de governação pouco distribuído; timelock de 7 dias e veto de LP não foram acionados a tempo |
Repare-se na coluna da direita. Em nenhum destes casos o problema foi criptografia fraca. Foi aritmética social: poucos tokens, poucos votantes, pouca vigilância. E note-se a cronologia: a contagem da Blockaid fecha a 6 de agosto, mas a Term veio juntar mais 8,5 milhões de dólares três semanas depois. O verão nem sequer tinha acabado.
Dois ETH, um misturador e um cofre: a economia do golpe
Há uma forma simples de perceber porque isto acontece tanto. Os investigadores da a16z crypto descreveram-na como uma equação: o lucro de um ataque é o valor que se pode roubar menos o custo de adquirir os votos menos o custo de executar. Quando uma tesouraria de milhões é governada por um token que quase ninguém quer, o custo de adquirir os votos desaba e a equação fica positiva, como explicam num artigo já clássico sobre o tema.
Os números de 2026 são humilhantes. No ataque à BarnBridge, o poder de voto necessário custou cerca de 600 dólares (uns 515 euros) em BOND bloqueado. No Token of Power, bastou dominar um total de 16.384 unidades. Na Term, o capital inicial coube numa transferência de Tornado Cash. Quando se pode capturar uma tesouraria de milhões por umas centenas de euros, o espanto não é que aconteça; é que não aconteça mais vezes. A mesma análise distingue o comprador que assume abertamente a maioria daquele que a acumula em silêncio, carteira a carteira, até ninguém conseguir distinguir um atacante de um investidor legítimo.
A raiz é conhecida. Como Vitalik Buterin argumenta desde 2021, um token de governação junta num só objeto dois direitos que deviam estar separados: um interesse económico no protocolo e o direito de decidir sobre ele, e esses dois direitos são fáceis de desacoplar. Quem faz um flash loan de votos, ou compra um token barato só para o usar uma vez, obtém poder de decisão sem qualquer pele em jogo, escreveu no seu ensaio sobre o voto por moeda.
Some-se a isto a concentração. Uma análise da Chainalysis já em 2022 mostrava que, em dez das maiores DAO, menos de 1% dos detentores controlava cerca de 90% do poder de voto, segundo a Cointelegraph. Onde o poder está concentrado, comprá-lo é mais fácil, e a participação dos restantes tende para zero.
Ironicamente, tudo isto é público. As carteiras dos atacantes, as compras de tokens, as passagens por misturadores, ficam gravadas na cadeia para quem as quiser ler, tal como cada aposta de uma baleia na Hyperliquid é visível em tempo real. O problema nunca foi a falta de informação; foi a falta de alguém a olhar para ela a tempo.
As defesas que não chegam
Se os ataques são tão previsíveis, porque é que as defesas falham? O caso da Term responde de forma brutal: ela tinha as defesas. Um timelock de sete dias e direito de veto dos fornecedores de liquidez. E ainda assim perdeu 68% dos cofres.
A explicação é a que Buterin dá para os timelocks: são mais parecidos com a barreira de pagamento de um jornal do que com uma fechadura. Atrasam, avisam, dão tempo para reagir, mas não impedem nada por si sós. Se ninguém estiver a monitorizar as propostas, ou se o direito de veto pertencer a fornecedores de liquidez dispersos e distraídos, o atraso expira e o assalto conclui-se na mesma.
A própria Blockaid resume as contramedidas que funcionam:
- Subir o quórum e os limiares de depósito exigidos para propor
- Fixar o poder de voto num bloco passado (snapshot), impedindo compras de última hora
- Timelocks de execução com capacidade de cancelamento ou pausa de emergência
- Separar os poderes perigosos (cunhar tokens, mover a tesouraria, atualizar contratos) de uma única votação
- Monitorizar em tempo real a concentração de votos e as propostas invulgares
São medidas conhecidas e eficazes. O problema é que exigem o recurso mais escasso de todos numa DAO: atenção. E a atenção, como veremos, foi precisamente o que os profissionais que a forneciam começaram a levar consigo à porta de saída.
A segunda cara: o divórcio profissional
Que nos leva à outra cara do drama de 2026, uma que não drena cofres mas mina algo mais difícil de repor: a confiança de que há adultos a tomar conta da casa.
A Aave é o maior protocolo de crédito da DeFi, com mais de 22 mil milhões de euros (26 mil milhões de dólares) em depósitos. Durante anos, quem realmente a fez andar não foi a assembleia difusa de detentores de AAVE, foram três empresas: a BGD Labs (engenharia), a Aave Chan Initiative de Marc Zeller (governação e relações) e a Chaos Labs (gestão de risco). Em 2026, saíram as três.
O estopim foi um orçamento. A Aave Labs, a empresa do fundador Stani Kulechov, pediu à DAO uma verba recorde (na ordem dos 51 milhões de dólares, sobre um histórico de cerca de 86 milhões já recebidos) e uma votação preliminar mostrou algo desconfortável: uma única entidade detinha votos suficientes para aprovar o seu próprio orçamento contra a oposição da comunidade. A BGD anunciou a saída para abril; a ACI, um encerramento de quatro meses a partir de março; a Chaos Labs, gestora de risco, saiu a 6 de abril, num contexto em que os próprios gestores de risco invocavam receios de responsabilidade legal.
Marc Zeller, a cara pública da governação da Aave durante anos, não escondeu o motivo. Ao The Block, resumiu-o assim: «O teste preliminar demonstrou que uma única entidade detém poder de voto suficiente para aprovar as suas próprias propostas de orçamento contra a oposição da comunidade.» E acrescentou uma frase que vale por toda a tese deste artigo: «Não queremos esse desfecho. Somos profissionais. Queremos um encerramento gracioso, que beneficie os utilizadores da Aave e deixe em boas mãos todos os sistemas que construímos.»
Repare-se no registo. Não é o de revolucionários traídos; é o de uma consultora a rescindir um contrato. Isto não é uma comunidade em convulsão; é um divórcio corporativo, com advogados implícitos e cláusulas de transição.
Quando os adultos saem da sala
O êxodo da Aave expõe uma verdade que a retórica da descentralização prefere não dizer: as grandes DAO não são geridas por multidões, são geridas por um punhado de empresas pagas. Há um mercado de governação como serviço, com firmas especializadas em risco, engenharia e relações a receber salários da tesouraria para fazer o trabalho que a assembleia não faz. A ACI, por exemplo, tinha uma remuneração de 4,625 milhões de dólares acordada para três anos.
Não é um arranjo exclusivo da Aave. É o mesmo modelo de curadores pagos que já foi autopsiado nos casos Stream e Resolv: alguém, algures, toma as decisões técnicas por trás da fachada de votação, e quando esse alguém erra, ou sai, o edifício estremece.
Os investidores que mais dinheiro puseram em DAO já o admitem sem rodeios. «Passámos os últimos dez anos a redescobrir da forma mais difícil que a democracia direta é uma má ideia», disse Ali Yahya, sócio da a16z crypto, à Fortune. Vindo de um dos maiores financiadores do setor, é uma confissão notável.
Nem toda a gente lê o êxodo da mesma forma. Para alguns analistas, a saída das três firmas não descentralizou coisa nenhuma; pelo contrário, deixou a Aave Labs, a empresa do fundador, com ainda mais peso relativo, num movimento que houve quem descrevesse como uma verdadeira privatização do protocolo. Se assim for, o divórcio não devolveu o poder à comunidade; apenas removeu os contrapesos que ainda restavam.
A alternativa que vai ganhando terreno é quase filosófica: minimizar a governação até não haver quase nada para capturar. É a aposta de protocolos como a Morpho, o banco invisível do crédito on-chain, que empurra as decisões de risco para mercados isolados e curadores, em vez de as concentrar numa votação global que se torna um alvo. Menos poder no centro significa menos drama, mas também menos daquela «descentralização» que os folhetos prometiam.
A herança: de The DAO ao golpe da baleia
Nada disto é totalmente novo. Os assaltos e os divórcios de 2026 têm uma linhagem, e conhecê-la ajuda a perceber o que mudou. Foram os anos amadores que escreveram o guião.
Em 2020, Justin Sun comprou a plataforma Steemit e uma fatia enorme de tokens, e depois convenceu exchanges a usar depósitos de clientes para votar e derrubar os validadores da comunidade; esta reagiu com um fork para a Hive, deixando Sun para trás, relatou a CoinDesk. Em 2022, a Beanstalk perdeu 182 milhões de dólares num único bloco: o atacante pediu um flash loan de mais de mil milhões, comprou uma supermaioria de votos, aprovou uma proposta que se pagava a si própria e desapareceu com cerca de 80 milhões de lucro, segundo a Cointelegraph.
O caso mais estranho foi o Mango Markets, também em 2022. Avraham Eisenberg manipulou o preço de um derivado para drenar cerca de 110 milhões de dólares e depois, com o dinheiro que roubara, votou numa proposta da própria DAO para poder ficar com parte dele, chamando-lhe «uma estratégia de trading altamente lucrativa». Foi condenado em 2024 e, reviravolta improvável, teve as condenações anuladas em maio de 2025 pelo juiz Arun Subramanian, em parte porque o mercado era «sem permissões e automático», noticiou a CoinDesk. Guardemos este ponto para a secção sobre tribunais.
| Caso | Ano | Tipo de drama | Valor em jogo | Desfecho |
|---|---|---|---|---|
| The DAO | 2016 | Falha de código + cisma | ≈ 3,6 M ETH (perto de 1/3 do fundo) | Hard fork; nasce a Ethereum Classic |
| Steem vs Hive | 2020 | Aquisição hostil | Stake de Justin Sun + votos de exchanges | A comunidade faz fork para a Hive, excluindo Sun |
| Beanstalk | 2022 | Ataque de governação (flash loan) | ≈ 156 M€ (182 M$) | Protocolo esvaziado; ~80 M$ de lucro do atacante |
| Mango Markets | 2022 | Manipulação + voto do próprio | ≈ 94 M€ (110 M$) | Eisenberg condenado e depois absolvido em 2025 |
| Aragon | 2023 | Guerra civil / autodestruição | Tesouraria de ≈ 200 M$ | A associação bane membros e cancela o controlo comunitário |
| Nouns DAO | 2023 | Cisão / ragequit | 16.757 ETH (≈ 27 M$) retirados | ~56% saem com o dinheiro num fork |
| Compound | 2024 | Golpe da baleia | 499.000 COMP (≈ 24 M$) | Proposta 289 aprovada e mais tarde revogada |
O caso Compound, em 2024, é o retrato do «golpe da baleia» dentro das regras: um grupo apelidado de Golden Boys fez passar a Proposta 289, que canalizava 499.000 COMP (cerca de 24 milhões de dólares) para um cofre que controlaria, num voto apertado que a comunidade tentou travar e só mais tarde reverteu, como documentou o The Block. Todos estes casos partilham o mesmo esqueleto dos assaltos de 2026. A diferença é a profissionalização: onde antes havia oportunistas isolados, há agora um padrão repetível, capital lavado em misturadores e empresas de segurança a contar os corpos ao fim de cada verão.
O tesouro é sempre o enredo
Por baixo de cada um destes dramas está sempre a mesma coisa: dinheiro parado. Uma DAO é, no fundo, uma tesouraria coletiva com um mecanismo de votação por cima, e é a dimensão da tesouraria que atrai tanto os atacantes como as brigas internas.
Às vezes a briga não é um roubo, é um divórcio litigioso pelo dinheiro. Em setembro de 2023, cerca de 56% dos membros da Nouns DAO fizeram ragequit, saindo com 16.757 ETH (perto de 27 milhões de dólares na altura) num fork, depois de meses de guerra entre idealistas que queriam financiar bens públicos e traders que só queriam o valor do tesouro de volta, como narrou a CoinDesk.
Outras vezes é a própria organização a autodestruir-se para proteger o cofre. Em maio de 2023, a Aragon Association baniu membros da comunidade, acusando-os de um «ataque de 51%», e cancelou o plano de entregar a essa comunidade o controlo de uma tesouraria de cerca de 200 milhões de dólares, segundo a CoinDesk. A ironia é evidente: para salvar a descentralização, a fundação centralizou tudo.
E às vezes a briga é apenas orçamental, como na Aave, onde 51 milhões de dólares de verba pedida foram suficientes para pôr fim a anos de colaboração. Muda a escala, muda o tom, mas o enredo é o mesmo: quem controla o cofre.
A hora da conta: tribunais, reguladores e a CMVM
Durante muito tempo, o drama das DAO resolvia-se dentro da própria DAO: uma votação, uma recompensa a um atacante que devolvia os fundos, um fork. Em 2026, o mundo lá fora começou a intrometer-se, e é aqui que o assalto e o divórcio deixam de ser espetáculo e passam a ter consequências reais.
O precedente mais importante já tem alguns anos. Em junho de 2023, um tribunal federal dos Estados Unidos condenou a Ooki DAO à revelia, tratando-a como uma «associação não incorporada» e uma «pessoa» responsável perante a lei, com uma multa de 643.542 dólares, anunciou a CFTC. A mensagem foi clara: dizer «somos só um contrato» não isenta ninguém de responsabilidade.
Mas a lei também corta para o outro lado. A anulação das condenações de Eisenberg mostrou que, quando um protocolo é «sem permissões» e não tem regras escritas, um tribunal pode ter dificuldade em chamar crime ao que tecnicamente foram jogadas permitidas pelo código. Entre a Ooki e o Mango, a fronteira entre exploração legítima e fraude continua por traçar, e é nessa zona cinzenta que vive quase todo o drama descrito neste artigo.
E na Europa? O regulamento MiCA, plenamente em vigor desde que terminou o período transitório português a 1 de julho de 2026, regula os prestadores de serviços de criptoativos e os emissores, não o desenho de governação de um protocolo. Uma DAO sem empresa por trás cai, na prática, fora do seu alcance. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal a inscrição dos CASP, mas nenhum deles fiscaliza como uma DAO organiza os seus votos. Um investidor português vítima de um ataque de governação não teria a quem apresentar queixa junto do supervisor financeiro; o seu caminho seria o Código Penal e a Lei do Cibercrime, através da Polícia Judiciária, com jurisprudência ainda por construir.
Tem conserto?
Se o problema é o voto por moeda, a resposta óbvia é reinventar o voto. Há uma vaga de experiências a tentar exatamente isso: futarquia (decidir com mercados de previsão), delegados assistidos por inteligência artificial, voto quadrático que penaliza a concentração. Discutimo-las em detalhe noutro artigo, sobre se a DAO tem conserto, e a conclusão honesta é que ainda não há bala de prata.
Isso não significa que o modelo esteja morto. «Estão mortas? Certamente que não. Muita gente saiu queimada delas? Ah, isso saiu», resumiu Simon Hudson, do coletivo de arte por inteligência artificial Botto, à Fortune. É talvez a descrição mais justa do estado da arte: instituições que sobrevivem, mas cujo entusiasmo inicial deixou muitas cicatrizes.
O que 2026 tornou claro é que as duas caras do drama exigem correções diferentes. O assalto pede engenharia (quóruns altos, snapshots, timelocks com quem os faça cumprir). O divórcio pede governação como profissão a sério: contratos claros, poder de voto transparente, e a aceitação de que alguém tem de ser pago para prestar atenção.
O que muda para quem detém o token
Para o leitor que detém um token de governação, ou pondera comprar um, o ano de 2026 deixa uma lista de verificação concreta. Antes de confiar numa DAO com o seu dinheiro, vale a pena perguntar:
- Quão distribuído está o token? Se uma maioria cabe em poucas carteiras (ou em poucos milhares de tokens, como no Token of Power), a tesouraria é comprável.
- Existe um timelock e, sobretudo, alguém encarregado de o fazer valer? Um timelock sem vigilância é decorativo, como se viu na Term.
- Os poderes perigosos (cunhar, mover a tesouraria, atualizar contratos) estão separados de uma única votação?
- Quem gere isto de facto? Se são empresas pagas, o protocolo é mais robusto, mas também mais frágil ao dia em que essas empresas saírem, como na Aave.
- A tesouraria é grande e o token é barato? Essa é a combinação que a equação do atacante adora.
Nenhuma destas perguntas exige conhecimentos técnicos profundos. Todas as respostas estão on-chain e nos fóruns de governação, à espera de quem as leia antes, e não depois, do próximo verão de golpes.
O drama que não vai acabar
Term Finance e Aave são as duas metades da mesma lição. Numa, um estranho comprou a casa por umas centenas de euros e esvaziou-a numa tarde. Na outra, os inquilinos profissionais fizeram as malas e foram-se embora, deixando as luzes acesas e a porta aberta. Nenhuma das duas se parece com a assembleia de iguais que as DAO prometeram ser.
O drama não vai acabar, porque a sua causa (tesourarias grandes governadas por votos baratos e distraídos) continua intacta. A única questão em aberto é se este teatro amadurece para algo que se sobreviva a si próprio, com regras, profissionais e tribunais, ou se continua a ser, ano após ano, uma novela onde o próximo episódio é sempre um assalto ou uma saída. Por agora, 2026 sugere que serão ambos.
Perguntas frequentes
O que é um ataque de governação numa DAO?
É quando alguém adquire poder de voto suficiente numa DAO, comprando, pedindo emprestado ou acumulando o token de governação, para aprovar uma proposta que transfere a tesouraria ou os cofres para si próprio. Não há bug de código: o contrato funciona como previsto, mas as regras de votação são usadas como arma. O caso da Term Finance, em agosto de 2026, drenou cerca de 8,5 milhões de dólares desta forma, sem quebrar qualquer código.
Como é que a Term Finance perdeu 8,5 milhões de dólares?
Um atacante partiu de uma pequena quantia de ETH passada pelo Tornado Cash, comprou barato a maioria de um token de governação pouco distribuído associado aos cofres da Term e aprovou propostas que redirecionaram os fundos: cerca de 2.843 ETH e 1,68 milhões de USDC, aproximadamente 68% dos cofres afetados. O protocolo tinha um timelock de sete dias e veto dos fornecedores de liquidez, mas nenhum foi acionado a tempo.
Porque é que tantas empresas saíram da Aave em 2026?
A BGD Labs, a Aave Chan Initiative e a Chaos Labs saíram ao longo de 2026 na sequência de uma disputa sobre orçamento e poder de voto. Uma votação preliminar mostrou que uma única entidade tinha votos suficientes para aprovar o seu próprio orçamento contra a comunidade, o que, para prestadores de serviços independentes, tornava insustentável continuar. Marc Zeller, da ACI, descreveu a saída como um encerramento profissional, não uma revolta.
Uma DAO pode ser processada ou responsabilizada legalmente?
Pode. Em 2023, um tribunal dos Estados Unidos tratou a Ooki DAO como uma pessoa juridicamente responsável e condenou-a à revelia a pagar 643.542 dólares. Na Europa, o MiCA regula os prestadores de serviços de criptoativos, não o desenho de governação de um protocolo, pelo que uma DAO sem empresa por trás fica fora do seu alcance; em Portugal, uma vítima recorreria ao Código Penal e à Lei do Cibercrime, não à CMVM.
Como me protejo antes de confiar numa DAO?
Verifique quão concentrado está o token de governação, se existe um timelock com alguém encarregado de o fazer cumprir, se os poderes de cunhar e mover a tesouraria estão separados de uma única votação, e quem gere de facto o protocolo. Se uma tesouraria de milhões é governada por um token barato e pouco distribuído, o risco de um ataque de governação é elevado, por muito sólido que o código pareça.
Marcus Okafor é editor sénior de Cultura e Longas Reportagens na HOGE Wire, onde cobre governação on-chain, DAO e a economia dos criptoativos.