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● Predictions & Forecasts

O muro dos 50%: o staking que vai decidir a oferta do ETH

O staking do ETH bateu máximos e caminha para metade da oferta. Explicamos porque essa fronteira, e o EIP-8361, vão decidir a emissão da rede até 2027.

Durante três semanas, a HOGE Wire dissecou a oferta do ETH por vários ângulos: a contabilidade da emissão contra a queima, a absorção do float por quem tranca moedas e a autópsia do «ultrasound money» que deixou de ser deflacionário. Todos esses textos olharam para o presente ou para o passado. A pergunta que decide o resto de 2026 e todo o 2027 é outra, e cabe num único número: a taxa de staking.

À data desta análise, cerca de 41,4 milhões de ETH estão bloqueados em staking, o equivalente a 33,98% da oferta total, um máximo histórico, segundo os dados compilados pela Coinpedia. A fila de saída dos validadores esvaziou-se para perto de zero, enquanto a fila de entrada continua cheia. O mercado está a votar com os pés, e o voto é claro: há mais gente a querer trancar ETH do que a libertá-lo. Se a tendência se mantiver, a rede aproxima-se de uma fronteira que muda tudo, os 50% da oferta em staking.

Chamamos-lhe o «muro dos 50%». É a marca a partir da qual uma proposta em cima da mesa, o EIP-8361, transformaria a emissão líquida da rede em zero; e é a marca a partir da qual o float negociável do ETH deixa de ser um pormenor técnico para passar a ser o principal motor do preço. Com o ETH a cotar perto de 2.095 euros e uma capitalização à volta de 253 mil milhões de euros, esta é uma das discussões mais importantes, e menos compreendidas, do mercado. Se ainda não leu a nossa autópsia do ultrasound money, esse texto explica porque a máquina de deflação deixou de funcionar; este explica o que a vai substituir.

A taxa de staking: o número que decide a oferta do ETH

A oferta de qualquer ativo muda por duas torneiras: quanto entra (emissão) e quanto sai (queima ou destruição). Foi essa contabilidade que analisámos no primeiro texto desta série. Mas há uma terceira variável que não altera o total impresso e, ainda assim, comanda o preço: quanto da oferta está efetivamente disponível para venda. É aqui que a taxa de staking se torna a peça-chave, porque age em três frentes ao mesmo tempo.

Primeiro, a taxa de staking determina a emissão bruta da rede, através de uma fórmula que veremos adiante. Segundo, tranca oferta de forma dura: cada ETH depositado num validador deixa de estar no mercado, reduzindo o float que pode reagir a compras e vendas. Terceiro, é o próprio gatilho do EIP-8361: a proposta liga-se diretamente à percentagem de ETH em staking, e não ao preço nem ao volume. Por outras palavras, uma única métrica move a política monetária da rede, a liquidez do ativo e a expectativa de escassez futura.

Os números de partida são claros. A oferta total ronda os 121,99 milhões de ETH, de acordo com o contador de referência da ultrasound.money, enquanto os agregadores de preço mostram cerca de 120,68 milhões em circulação (uma pequena diferença de método entre trackers). A emissão líquida está perto de 0% na janela de sete dias, mas mantém-se estruturalmente positiva desde o upgrade Dencun, num intervalo aproximado entre 0% e 0,8% ao ano. Este é o pano de fundo: uma rede que já não queima o suficiente para ser deflacionária e cuja escassez futura depende, cada vez mais, de quanto ETH fica preso em staking.

É por isso que insistimos na taxa de staking como variável-mestra. O preço oscila com o sentimento e a macro; a emissão bruta muda devagar; a queima colapsou. A percentagem em staking, essa, sobe de forma persistente e mede simultaneamente a convicção dos detentores e a proximidade do muro regulatório interno da rede. Quem quiser antecipar a oferta do ETH em 2027 não deve olhar primeiro para o gráfico de preço, mas para este único mostrador.

A fila que não mente: entradas cheias e saídas a zero

Para entrar ou sair do staking na Ethereum não basta clicar. Existe um limite de rotação (o churn limit) que controla quantos validadores podem ativar-se ou desativar-se por época, para proteger a estabilidade do consenso. O resultado são duas filas: uma de entrada, para quem quer começar a fazer staking, e uma de saída, para quem quer resgatar. O saldo entre ambas é um dos indicadores mais honestos que a rede produz, porque exige um compromisso de capital real, não uma opinião no Twitter.

Neste momento, o desequilíbrio é extremo. A fila de entrada acumula da ordem de 2,1 a 2,5 milhões de ETH, com esperas na casa dos 36 a 43 dias, enquanto a fila de saída caiu praticamente para zero, com apenas dois validadores em processo de saída num dos registos recentes. A Arkham Intelligence descreve esta configuração como um sinal de convicção de longo prazo: entra muito capital, não sai praticamente nenhum. Para efeitos de oferta, isto significa uma coisa só: a percentagem em staking só pode subir.

Vale a pena contrastar com o passado recente. Em setembro de 2025, em plena tensão de mercado, a fila de saída chegou a ultrapassar 2,6 milhões de ETH à espera de resgate. A inversão total desde então, de saídas em massa para saídas nulas, diz-nos que os detentores atuais não veem o preço como razão para largar as suas posições de staking. É o oposto de um topo de distribuição. E é a leitura que sustenta a nossa tese central: o muro dos 50% não é uma hipótese longínqua, é o destino natural de uma fila que continua desequilibrada.

Há uma nuance importante. A fila de entrada cheia também significa que a subida da taxa de staking é gradual, não instantânea; a rede tem um travão de velocidade embutido. Isso dá tempo à governação para decidir o que fazer antes de a percentagem bater no muro. Mas não muda a direção. Enquanto a saída estiver a zero e a entrada cheia, cada semana que passa aproxima o ETH da fronteira em que a sua oferta deixa de ser um problema de contabilidade e passa a ser um problema de política.

Porque o staking sobe com o juro em mínimos de três anos

O aspeto mais contraintuitivo desta história é que o staking está a bater máximos precisamente quando o rendimento que oferece está no fundo. A APR base de consenso ronda os 2,6%, um mínimo de três anos, bem abaixo dos cerca de 5% que se viam em 2023, segundo a Coinpedia. Em qualquer mercado tradicional, um rendimento a cair afastaria capital. No ETH, atraiu-o. Porquê?

A resposta tem quatro camadas. A primeira é a chegada dos ETF com staking: produtos cotados que passaram a distribuir recompensas de staking aos investidores, canalizando fluxo institucional para dentro dos validadores. A segunda são as tesourarias corporativas, as chamadas DAT (digital asset treasuries), que acumulam ETH em balanço e o colocam em staking para gerar rendimento próprio. A terceira é o staking líquido, que removeu a fricção do bloqueio: com tokens como o stETH, é possível fazer staking e continuar a usar o capital em DeFi. A quarta é o custo de oportunidade: com a taxa de depósito do BCE nos 2,25%, um rendimento de staking na casa dos 2,6% em ETH ainda compete, sobretudo para quem já quer exposição ao ativo.

Há um ponto subtil que muitos ignoram: a compressão do rendimento é, ela própria, prova de procura. Como veremos na secção seguinte, o rendimento por validador cai à medida que mais ETH entra. Um APR em mínimos de três anos não é sinal de desinteresse; é a consequência mecânica de tanta gente ter aderido. O staking do ETH está a comportar-se como um estacionamento cada vez mais cheio: o preço por lugar desce porque a procura é tão alta que já quase não há lugares. Essa procura persistente, que não recua mesmo com o rendimento em queda, é o sinal de oferta que mais importa reter.

Esta dinâmica tem uma implicação de oferta direta. Se o staking continua a subir mesmo com o rendimento a cair, então o travão natural que se esperaria (menos rendimento, menos adesão) não está a funcionar. O único travão credível que resta é institucional: uma decisão de governação, como o EIP-8361, ou um choque externo que force resgates. Sem isso, a lógica aponta sempre na mesma direção, rumo ao muro.

A matemática da raiz quadrada: mais staking, mais emissão bruta

Aqui está a peça que quase todas as manchetes sobre «escassez do ETH» erram. A Ethereum não paga um rendimento fixo. O protocolo ajusta a emissão de forma que o rendimento por validador cai com a raiz quadrada do total em staking. Traduzindo: se o ETH em staking quadruplicar, o rendimento por validador não cai para um quarto, mas para metade. E, do outro lado da mesma fórmula, a emissão bruta anual em termos absolutos sobe com a raiz quadrada do total em staking. Mais gente a fazer staking significa mais ETH novo a ser impresso por ano, não menos.

A iShares, da BlackRock, resume o mecanismo e nota que existe um piso: mesmo que toda a oferta fosse colocada em staking, o rendimento assentaria perto de 1,5%. A KuCoin descreve a mesma relação de raiz quadrada e acrescenta que o MEV, captado por quem corre o MEV-Boost, adiciona ainda 0,5% a 1% ao rendimento efetivo. A tabela seguinte ilustra a lógica; os valores intermédios são estimativas derivadas da regra, não promessas do protocolo.

Oferta em stakingETH em staking (aprox.)APR base de consensoEmissão bruta anual
34% (atual)~41,4 milhões~2,6% (mínimo de 3 anos)referência
50% (o muro)~60,25 milhões~2,1% (estimativa)mais alta em termos absolutos
100% (teórico)~122 milhões~1,5% (piso)máxima
Valores aproximados. O protocolo faz o rendimento por validador cair com a raiz quadrada do total em staking, com um piso perto de 1,5% mesmo com toda a oferta bloqueada (iShares). A APR de 2,1% aos 50% é uma estimativa a partir dessa regra, não um valor garantido.

Esta é a tensão que define a oferta do ETH. A subida do staking tem dois efeitos opostos ao mesmo tempo. Tranca float, o que reduz a oferta negociável e é lido como escassez pelo mercado. Mas também aumenta a emissão bruta, o que empurra a inflação da rede para cima. Sem queima suficiente para compensar, o saldo líquido pode ficar positivo. Dizer simplesmente que «mais staking torna o ETH mais escasso» é meia verdade; a outra metade é que mais staking imprime mais ETH.

É exatamente esta assimetria que o EIP-8361 pretende resolver. Se a emissão bruta cresce com o staking e a queima já não a contrabalança, então a única forma de tornar a escassez estrutural, e não apenas uma ilusão de float, é atacar a emissão diretamente. O muro dos 50% é onde essa lógica se torna política concreta.

O muro dos 50%: o EIP-8361 e o travão automático da emissão

O EIP-8361, também referido em algumas fontes como EIP-8363 por causa de um conflito de numeração, chama-se «Tapered Issuance Burn», ou queima de emissão progressiva. A ideia é simples de enunciar e radical nas consequências: à medida que a percentagem de ETH em staking sobe, o protocolo queima uma fração crescente das recompensas de consenso dos validadores. Essa fração escala com a taxa de staking elevada à potência de 1,5 e chega a 100% num ponto de saturação fixado em 60,25 milhões de ETH em staking, perto de metade da oferta atual, ou mais de 125 mil milhões de euros aos preços de hoje.

Nesse ponto, um validador que cumpra as suas funções na perfeição passa a ganhar rendimento líquido de consenso igual a zero. A emissão que a rede paga pela segurança é integralmente destruída. Segundo a Decrypt, a proposta prevê uma fase de introdução de 18 meses, afeta apenas a camada de consenso e já tem uma implementação de rascunho no cliente Prysm com cerca de 300 linhas de código. Os autores incluem Jérôme de Tychey e o investigador da Ethereum Foundation Justin Drake, entre outros. O estatuto continua a ser de rascunho, com o pull request em aberto e sujeito ao processo de inclusão, sem qualquer garantia de entrar num fork.

O que torna isto tão importante para a oferta é a mudança de natureza. Até agora, a escassez do ETH dependia da queima do EIP-1559, um mecanismo reativo que só funciona quando há congestão na mainnet. O EIP-8361 é proativo e automático: liga a escassez diretamente à variável que já está a subir, a taxa de staking. Transforma o muro dos 50% de uma mera curiosidade estatística num interruptor de política monetária. A CoinDesk confirma os mesmos parâmetros: queima total ao chegar a metade da oferta em staking, com o objetivo declarado de conter uma emissão que, de outra forma, cresceria indefinidamente com a adesão.

Por outras palavras, se o EIP-8361 for aprovado, a resposta à pergunta «o ETH será escasso?» deixa de estar nas mãos dos utilizadores da mainnet e passa a estar nas mãos de quem faz staking. Quanto mais gente trancar ETH, mais a emissão se anula. É uma inversão elegante da lógica anterior, e é também a razão pela qual a proposta gerou uma das maiores brigas de governação do ano.

A revolta de quem constrói: a oposição ao travão

Poucas propostas técnicas na Ethereum reuniram uma oposição tão vocal e tão bem colocada. O centro da crítica não vem de espectadores, mas de quem constrói a infraestrutura de staking e de crédito que assenta no rendimento do ETH. Isidoros Passadis, responsável de staking da Lido, avisou que a proposta «tenta demasiado de uma só vez» e que a investigação que a sustenta é «demasiado teórica», podendo tornar-se «uma sentença de morte para a segurança da rede». O argumento de segurança é sério: se o rendimento líquido cair a zero, pergunta ele, que incentivo resta para manter capital a proteger a rede?

Do lado do crédito on-chain, Stani Kulechov, fundador da Aave, foi igualmente contundente. Para o The Defiant, a proposta «torna o ETH menos viável como ativo e restringe o seu potencial», e a sua frase mais citada resume a filosofia da oposição: «a Ethereum não deve ser punida pelo seu crescimento». A preocupação da Aave é concreta. Os mercados de empréstimo de ETH são calibrados contra o rendimento disponível no staking; se esse rendimento for progressivamente queimado, a economia de pedir ETH emprestado muda de forma dramática e a previsibilidade que atrai capital institucional evapora-se.

Estas objeções não são detalhes de bastidores. Determinam se o muro dos 50% se torna um travão real ou apenas uma proposta que fica na gaveta. E lembram-nos que a oferta do ETH não é decidida por uma fórmula fria, mas por um processo político onde os operadores de staking, os protocolos de DeFi e os investigadores da fundação puxam em direções diferentes. Quem quiser prever a trajetória da emissão tem de acompanhar esta briga tão de perto como acompanha o preço. É uma disputa de governação com dinheiro real em jogo, o tipo de tensão que decide cada vez mais o rumo das grandes redes.

A projeção de de Tychey: 70 milhões de ETH trancados até 2028

Se a oposição pergunta «porquê agora?», os autores respondem com um relógio. Jérôme de Tychey, uma das figuras por detrás da proposta, apresenta uma projeção que dá urgência a todo o debate. Segundo a CoinDesk, ele argumenta que, se a fila de entrada continuar saturada e as saídas se mantiverem raras, mais de 70 milhões de ETH estarão em staking até 1 de janeiro de 2028, o que representaria acima de 55% da oferta. Não é um cenário extremo; é uma extrapolação da fila que descrevemos atrás.

A implicação é o cerne do argumento pró-EIP-8361. Se a rede vai ultrapassar os 50% de qualquer forma, então a taxa de saturação de 60,25 milhões deixa de ser uma barreira distante para se tornar um ponto que a rede vai simplesmente atravessar dentro de meses. Daí a frase de de Tychey, reportada pela Decrypt: «a janela está a fechar-se». A lógica é que uma introdução ordenada de 18 meses só é possível se começar antes de a percentagem em staking disparar; esperar demasiado significa aplicar a mudança em pleno território acima dos 50%, sem margem para uma transição suave.

de Tychey também rebate a crítica de que a proposta prejudica os pequenos validadores caseiros. Para ele, «ninguém precisa de proteger os solo stakers deste EIP», já que a queima de recompensas atinge todos os validadores de forma proporcional, e não desfavorece especificamente quem corre um nó em casa. O ponto é discutível, e os críticos discordam, mas mostra que os autores anteciparam a linha de ataque sobre descentralização.

Para o leitor focado na oferta, o que importa reter é isto: mesmo sem o EIP-8361, a projeção de de Tychey diz que a percentagem em staking vai continuar a subir de forma acentuada. Com a proposta, essa subida passa a queimar emissão. Sem ela, a subida continua a imprimir mais ETH bruto pela regra da raiz quadrada. Nos dois casos, o número a vigiar é o mesmo: quanto ETH está trancado. A diferença está apenas no que acontece do outro lado do muro.

Do outro lado do muro: o float que desaparece

Deixemos a política de emissão por um momento e olhemos para o efeito mais imediato da subida do staking: o encolhimento do float negociável. Cada ETH que entra num validador, num ETF ou numa tesouraria corporativa é um ETH que sai da oferta que pode reagir a uma ordem de compra. Mike Silagadze, fundador da ether.fi, condensou esta ideia numa frase que a CoinDesk registou: «quem faz staking de ETH não o vende». O staking não é apenas rendimento; é um sinal de que aquele capital saiu do mercado por convicção.

O efeito é reforçado por outra tendência: as reservas de ETH nas casas de câmbio caíram para mínimos de vários anos, muito abaixo dos picos de 2021. Quando somamos ETH em staking, ETH em tesourarias e ETH em ETF, e subtraímos a parte que ainda está nas exchanges, o que resta é um float negociável surpreendentemente fino. Foi essa a tese da nossa análise de absorção; aqui, o que importa é a direção futura: se o staking sobe rumo aos 50%, o float só pode encolher mais.

Um float fino é uma faca de dois gumes, e a reflexividade é a palavra-chave. Com pouca oferta disponível, uma vaga de compras move o preço com mais violência para cima, porque há menos vendedores a absorvê-la; foi o que se viu nos episódios de short squeeze deste verão. Mas o mesmo mecanismo funciona ao contrário: se a convicção quebrar e parte do capital em staking decidir sair, um float fino amplifica a queda. A estrutura de derivados sobre este float é matéria para outra conversa, que tratámos ao explicar como a base dos futuros acordou e o short estrutural terminou.

Para efeitos de previsão, a lição é que a oferta negociável do ETH está a tornar-se cada vez mais sensível a pequenos fluxos. Num ativo com float largo, é preciso muito capital para mover o preço. Num ativo com float a encolher, basta menos. O muro dos 50% não é apenas um limiar de emissão; é também o ponto a partir do qual a liquidez do ETH passa a comportar-se de forma qualitativamente diferente, mais explosiva e menos previsível.

A concentração que cresce com cada depósito

Há um custo escondido na subida do staking que raramente aparece nas manchetes de preço: a concentração. Nem todos os validadores são iguais, e uma parte desproporcionada dos depósitos passa pelos maiores operadores. A Lido continua a ser o maior de todos, com cerca de 23% de todo o ETH em staking, ainda que em queda face ao pico de 32% no final de 2023, segundo a AMBCrypto. Cada novo depósito na rede tende a reforçar a posição de um punhado de operadores dominantes.

Isto importa para a oferta por uma razão de risco. Quanto mais ETH está trancado através de um único protocolo ou operador, maior o poder desse ator sobre o consenso, e maior o dano potencial de uma falha técnica, um ataque ou uma decisão de governação errada. Os limiares de um terço, metade e dois terços do stake são pontos sensíveis do consenso da Ethereum, e a proximidade a qualquer um deles por uma única entidade é um sinal de alerta. A questão de quem controla o stETH e como se governa a Lido é suficientemente séria para lhe termos dedicado uma análise própria, sobre a dupla governação da Lido.

A tecnologia de validadores distribuídos (DVT) é a resposta técnica em curso, ao repartir a operação de um validador por vários nós independentes, reduzindo pontos únicos de falha. Mas a sua adoção ainda é minoritária face ao ritmo a que o staking cresce. Aqui está a ironia da tese de segurança de Passadis contra o EIP-8361: a proposta é criticada por poder enfraquecer os incentivos à segurança, mas a própria subida descontrolada do staking, sem essa proposta, também levanta riscos de segurança, só que pelo lado da concentração. Não há caminho isento de compromissos.

Para o investidor, o recado é que a métrica da taxa de staking deve vir sempre acompanhada de uma segunda pergunta: através de quem? Uma rede com 50% da oferta em staking distribuída por milhares de operadores independentes é robusta. Uma rede com os mesmos 50% concentrados em dois ou três atores é frágil. A oferta trancada não é toda igual, e a qualidade dessa concentração vai ser um tema de governação central à medida que a rede se aproxima do muro.

O regresso da queima? Glamsterdam e o wildcard da procura em L1

Toda esta discussão sobre política de emissão assenta num pressuposto: o de que a queima não vai voltar a ser suficiente para tornar o ETH deflacionário por si só. Vale a pena testar esse pressuposto, porque há um evento no horizonte que poderia mexer com ele: o upgrade Glamsterdam. Segundo o The Defiant, a atualização entrou na fase final de devnet, com um objetivo de limite de gás de 200 milhões (partindo dos atuais 60 milhões) e ativação em mainnet apontada para a segunda metade de 2026, com o quarto trimestre como alvo não confirmado.

Glamsterdam traz cerca de dez EIP, com dois destaques: o EIP-7732, que consagra a separação entre proponente e construtor (ePBS) no protocolo, e o EIP-7928, que introduz as listas de acesso ao nível do bloco (BAL). O objetivo é escalar a capacidade da mainnet. E aqui está o ponto contraintuitivo para a oferta: mais capacidade não significa mais queima. A queima do EIP-1559 depende de congestão e de taxas altas na camada base; aumentar o limite de gás alivia a pressão sobre as taxas, o que tende a queimar menos, não mais. O grosso da atividade já migrou para as L2 após o Dencun, e Glamsterdam não inverte essa migração.

A autópsia do ultrasound money que já publicámos explicou em detalhe porque o Dencun partiu a máquina de deflação, ao empurrar as taxas para as L2 e colapsar a queima em L1 para dezenas de ETH por dia. Glamsterdam consolida esse mundo em vez de o reverter. O corolário é claro: o regresso de uma queima estrutural e deflacionária é improvável sem uma procura por bloco-espaço em L1 muito superior à atual. A escassez do ETH, se vier, virá do lado do staking e da política de emissão, não de um renascimento do burn.

É por isso que tratamos Glamsterdam como um wildcard, e não como um pilar. Existe um cenário em que uma nova classe de aplicações, talvez ligada a ativos do mundo real ou a liquidação de alto valor, gere procura suficiente em L1 para reavivar a queima. Mas apostar nisso é apostar contra a própria estratégia de escalabilidade da Ethereum, que quer que a atividade barata viva nas L2. O caso base continua a ser uma rede onde a oferta é decidida por quanto ETH está trancado, e não por quanto se queima.

Escassez por política contra escassez por protocolo: ETH e Bitcoin

Nada esclarece melhor a situação do ETH do que a comparação com o Bitcoin. O Bitcoin tem uma escassez por protocolo: um limite de 21 milhões de moedas escrito no código, uma emissão que cai por halvings programados e nenhum mecanismo de queima. Para mudar isso seria preciso um consenso social quase impossível. A previsibilidade é total, e é precisamente essa rigidez que sustenta a narrativa de reserva de valor. Quem quiser ver como esse fornecimento fixo interage com o comportamento dos mineiros pode ler a nossa peça sobre as baleias que cunham o Bitcoin.

O ETH é o oposto. A sua escassez é por política: não há limite de oferta, a emissão é função da taxa de staking, a queima é variável, e uma proposta como o EIP-8361 pode literalmente zerar a emissão líquida através de uma decisão de governação. A tabela seguinte contrasta os dois modelos.

DimensãoBitcoinEthereum
Limite de oferta21 milhões (fixo no código)Sem limite
Mecanismo de emissãoHalvings programadosFunção da taxa de staking (raiz quadrada)
QueimaNão existeEIP-1559 (variável, hoje residual)
Emissão líquida atual~0,8% ao ano~0% a +0,8% ao ano
Travão possívelNenhum sem consenso social extremoEIP-8361 zera a emissão líquida aos 50% em staking
Natureza da escassezPor protocolo (lei do código)Por política (escolha de governação)
A escassez do Bitcoin é garantida por código; a do ETH é uma decisão contínua da sua comunidade. Fontes: ethereum.org, ultrasound.money, CoinDesk.

Esta diferença explica porque o debate do EIP-8361 é tão intenso. No Bitcoin, a política monetária é um dado adquirido; ninguém discute a emissão porque ninguém a pode mudar. No ETH, a política monetária é um campo de batalha aberto, precisamente porque pode ser mudada. Para o investidor, isto significa que analisar o ETH exige acompanhar a governação com o mesmo cuidado com que se analisa a macro, algo que não é necessário no Bitcoin.

Há quem veja esta flexibilidade como um defeito, uma fonte de incerteza que o Bitcoin não tem. Há quem a veja como uma vantagem, a capacidade de ajustar a emissão à realidade em vez de ficar preso a um número escrito em 2009. Seja qual for a leitura, o facto é o mesmo: a escassez futura do ETH não está escrita em pedra, está a ser escrita agora, numa discussão de governação cujo resultado ainda não conhecemos.

Três cenários para a oferta do ETH até 2027

Reunindo todas as peças, a oferta do ETH em 2027 pode seguir por três caminhos distintos, consoante duas variáveis-chave: a velocidade a que o staking sobe e o destino do EIP-8361. A tabela abaixo é um exercício de cenários, não uma previsão de preço, e cada linha traduz uma combinação plausível dessas variáveis. Como sempre nesta secção, os números são ilustrativos e servem para pensar, não para apostar cegamente.

CenárioStaking (fim de 2027)Emissão líquidaEIP-8361Float negociávelImplicação
Base~40% a 45%+0,2% a +0,5%/anoEm debate, sem inclusãoContinua a encolherEscassez moderada
Escassez (otimista)Acima de 50% (rumo aos 70M de de Tychey)Perto de 0%Aprovado e em fase de entradaMínimo históricoChoque de oferta
Inflação persistente (pessimista)Sobe, mas a emissão bruta acompanha+0,5% a +1%/anoRejeitadoEncolhe, mas a emissão anula o efeitoNarrativa de escassez falha
Exercício de cenários para efeitos de análise. Não constitui recomendação de investimento nem previsão de preço.

No cenário base, o staking continua a subir a um ritmo controlado, o EIP-8361 mantém-se em debate sem ser incluído num fork, e o ETH permanece ligeiramente inflacionário mas com um float cada vez mais fino. É o mundo em que estamos hoje, projetado para a frente: escassez moderada, sustentada mais pelo lado do float do que pela emissão. É também o cenário que o mercado parece estar a descontar, a avaliar pela nossa leitura de como o mercado já votou nas previsões de fim de ano.

No cenário de escassez, a projeção de de Tychey concretiza-se, o staking ultrapassa os 50% e o EIP-8361 é aprovado, levando a emissão líquida para perto de zero num float já em mínimos. É a combinação que produziria o maior choque de oferta, e a mais discutida pelos otimistas. No cenário oposto, o de inflação persistente, o staking sobe mas o EIP-8361 é rejeitado; a emissão bruta acompanha a subida pela regra da raiz quadrada, a queima não regressa, e a narrativa de escassez simplesmente não se materializa, deixando o ETH numa inflação líquida incómoda. Qual destes vingar depende, mais do que de qualquer outra coisa, do resultado da briga de governação que descrevemos.

O ângulo português: CMVM, imposto e o custo de oportunidade em euros

Para o investidor português, esta análise tem uma tradução fiscal e regulatória que muda os números na prática. Desde 1 de julho de 2026, o regime transitório da MiCA terminou em toda a União Europeia, incluindo em Portugal, cuja lei de implementação é a Lei n.º 69/2025. A supervisão dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP) cabe à CMVM, no plano de conduta de mercado, e ao Banco de Portugal, no registo e nas questões de stablecoins. A CMVM mantém o aviso de que os criptoativos são ativos de alto risco, uma etiqueta que se aplica com força a estratégias de rendimento como o staking.

No plano fiscal, as recompensas de staking são tratadas como rendimentos de capitais da categoria E, tributadas a uma taxa de 28% sobre o valor em euros no momento em que são recebidas, segundo os guias de fiscalidade cripto para Portugal como o da Madeira Corporate Services. As mais-valias na venda de ETH seguem a regra dos 365 dias: abaixo de um ano de detenção pagam 28% (Anexo G), a partir de um ano estão isentas (Anexo G1). As trocas de cripto por cripto não são tributadas no momento da troca, e a diretiva DAC8 está em vigor em 2026, obrigando os CASP a reportar dados à Autoridade Tributária.

O impacto no custo de oportunidade é direto. Uma APR de staking na casa dos 2,6% brutos, depois de aplicar os 28% de imposto sobre as recompensas recebidas, cai para perto de 1,9% líquidos para um residente fiscal em Portugal. Compare-se isto com a taxa de depósito do BCE, nos 2,25%: descontado o imposto, o rendimento de staking do ETH mal ultrapassa um depósito em euros sem risco de preço. A conclusão é sóbria: para o investidor português, o staking do ETH faz sentido sobretudo como forma de gerar rendimento sobre uma posição que já se quer ter, e não como um substituto de um depósito, dado o risco de preço do ativo subjacente.

Há ainda uma limitação de acesso a notar. Os ETF de ETH com staking que impulsionam parte da procura descrita neste texto são sobretudo produtos norte-americanos, de acesso difícil para o retalho europeu; os ETP disponíveis na Europa são, na sua maioria, sem staking. Isto significa que o investidor português participa na tese de oferta descrita aqui de forma indireta, através do preço, mas capta o rendimento de staking apenas se fizer staking diretamente ou através de um CASP autorizado, com todas as implicações fiscais que isso acarreta.

Painel de instrumentos: cinco mostradores a vigiar até dezembro

Se toda esta análise se resume a uma prática, é esta: em vez de olhar para o gráfico de preço do ETH, olhe para estes cinco mostradores. São eles que, em conjunto, vão dizer para que lado a oferta se inclina nos próximos meses, muito antes de o preço o confirmar.

  • A taxa de staking. O mostrador-mestre. Partindo de 33,98%, cada ponto percentual aproxima a rede do muro dos 50% e do gatilho do EIP-8361. Um valor a acelerar é o sinal mais importante de todos.
  • O saldo das filas. Entrada cheia e saída a zero significam pressão de subida contínua. Uma inversão, com a fila de saída a encher, seria o primeiro aviso de que a convicção quebrou e o float pode voltar ao mercado.
  • O estatuto do EIP-8361. Continua em rascunho. A vigiar: se for proposto para inclusão num fork (Glamsterdam ou o seguinte), a política de emissão do ETH muda de trajetória. Uma rejeição formal empurra para o cenário de inflação persistente.
  • As reservas nas exchanges. O termómetro do float negociável. Reservas a cair confirmam a escassez de oferta disponível; um salto súbito indica que capital em staking ou em tesouraria está a preparar-se para vender.
  • A procura em L1 e Glamsterdam. O wildcard da queima. Se, contra as expectativas, a atividade na camada base disparar e reavivar o burn, a tese de escassez ganha um segundo motor além do staking.

Nenhum destes mostradores é um gráfico de preço, e essa é a questão. A oferta do ETH em 2027 vai ser decidida por decisões de staking e de governação que se tomam hoje, semana a semana, muito antes de aparecerem na cotação. O muro dos 50% é o horizonte para onde tudo converge. Quem o vigiar com atenção estará a ler a oferta do ETH pela variável certa, e não pela mais barulhenta.

Perguntas frequentes

Quanto ETH está em staking em 2026?

Cerca de 41,4 milhões de ETH, ou 33,98% da oferta total, um máximo histórico segundo a Coinpedia. A fila de entrada de validadores continua cheia e a de saída caiu para perto de zero, o que empurra a percentagem para cima.

O que é o muro dos 50% e o EIP-8361?

É o ponto em que metade da oferta de ETH, à volta de 60,25 milhões de moedas, está em staking. O EIP-8361, uma proposta em rascunho, queima uma fração crescente das recompensas dos validadores à medida que o staking sobe, chegando a 100% nesse ponto, o que levaria a emissão líquida de consenso a zero.

O ETH é inflacionário ou deflacionário em 2026?

Depois do upgrade Dencun, a queima em L1 colapsou e a rede voltou a ter emissão líquida ligeiramente positiva, entre 0% e cerca de 0,8% ao ano. A deflação passou a ser episódica, só em picos de procura na mainnet.

Mais staking torna o ETH mais escasso?

O efeito é dos dois lados. Mais staking tranca float e reduz a oferta negociável, o que é escasso; mas, pela regra da raiz quadrada, também aumenta a emissão bruta anual em termos absolutos. O saldo líquido depende da política de emissão, e é isso que o EIP-8361 quer resolver.

Como é tributado o staking de ETH em Portugal?

As recompensas de staking são rendimentos de capitais da categoria E, tributadas a 28% sobre o valor em euros no momento em que são recebidas. As mais-valias seguem a regra dos 365 dias: abaixo de um ano pagam 28%, a partir de um ano estão isentas.

Marcus Okafor cobre mercados de ativos digitais e política monetária on-chain para a HOGE Wire.

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