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● Markets

Funding contra a Fed: o novo preço da alavancagem

A Fed subiu os juros pela primeira vez desde 2023, mas o funding dos perpétuos não inverteu. Porque é que a alavancagem passou a custar mais e como ler a taxa contra o juro sem risco.

Na manhã de 21 de setembro de 2026, a Bitcoin negociava perto dos 84 700 dólares (cerca de 73 700 euros), depois de tocar máximos de sessão acima dos 84 200 e de arrastar consigo o resto do mercado, com a Ethereum a subir mais de 5% e a Solana mais de 7%, segundo a CoinGecko. O detalhe que interessa a quem opera perpétuos: mais de 212 milhões de dólares em posições curtas foram liquidados numa hora, contra apenas 4 milhões em posições longas, de acordo com a news.Bitcoin.com. Foi um short squeeze de manual.

E, no entanto, cinco dias antes, a Reserva Federal norte-americana tinha feito exatamente o contrário do que costuma alimentar estas subidas: subiu as taxas de juro. A cripto passou a viver com dois juros ao mesmo tempo. Um é o funding rate dos perpétuos, o preço da alavancagem fixado pelo próprio mercado, sem banco central nenhum. O outro é a taxa dos fundos federais, o preço do dinheiro fixado por um banco central. Este artigo explica o que é o funding, como é calculado e, sobretudo, porque é que a subida de 16 de setembro reescreveu o custo real de estar alavancado, mesmo com o funding a recusar-se a inverter.

O que é o funding e porque é que ele existe

Um contrato perpétuo (o famoso «perp») é um futuro sem data de vencimento. Um futuro tradicional expira e, nesse dia, converge à força para o preço à vista (spot). O perpétuo nunca expira, por isso precisa de outro mecanismo para não se afastar do spot. Esse mecanismo é o funding: um pagamento periódico trocado diretamente entre quem está comprado (long) e quem está vendido (short), sem passar pela bolsa.

A regra é simples. Quando o perpétuo negoceia acima do spot (sinal de que há mais procura por alavancagem comprada), o funding é positivo e os longs pagam aos shorts. Quando negoceia abaixo, o funding é negativo e são os shorts a pagar aos longs. O pagamento cria um incentivo económico para empurrar o preço de volta ao spot: se custa dinheiro manter a posição na moda, alguém aparece do outro lado para receber esse dinheiro. É um elástico feito de dinheiro, e é ele que mantém o perpétuo honesto.

A ideia é antiga na cripto. Arthur Hayes, co-fundador da BitMEX, lançou o primeiro perpétuo (o XBTUSD) em maio de 2016 e descreveu o princípio num texto que se tornou referência: se o contrato negociasse com um prémio médio de 1% sobre o spot ao longo de oito horas, os longs pagariam 1% aos shorts nesse período, segundo o relato do próprio Hayes. Uma década depois, o desenho continua igual; mudou a escala, com os perpétuos a representarem hoje a maior fatia do volume de derivados cripto, muito à frente dos futuros com data de vencimento.

A fórmula: como a taxa é realmente calculada

Na maioria das bolsas, a taxa de funding tem duas componentes. A primeira é o índice de prémio, que mede quanto o preço do perpétuo se desvia do spot ao longo do período. A segunda é uma taxa de juro base fixa, normalmente de 0,01% por período de oito horas, pensada para refletir a diferença de custo entre financiar dólares e financiar a cripto subjacente. A fórmula combina as duas, com uma banda que limita o resultado: funding igual ao índice de prémio mais a limitação do juro base menos o prémio, dentro de uma banda estreita.

O importante para o utilizador é o que sai desta conta: um número pequeno, cobrado com frequência. A Binance e a Bybit liquidam a cada oito horas (três vezes por dia); a Hyperliquid e a dYdX cobram de hora a hora. Um funding de 0,01% por oito horas parece irrisório, mas repetido três vezes ao dia dá 0,03% por dia e perto de 11% ao ano. E, ao contrário de um juro bancário, ele não é cobrado sobre o que o trader depositou, mas sobre o valor total da posição (o nocional). É aqui que a alavancagem transforma um número pequeno numa fatura grande, como veremos.

Há um pormenor que confunde muitos iniciados: o funding só é pago por quem tiver a posição aberta no instante exato da liquidação (o timestamp). Abrir e fechar entre dois pagamentos não gera qualquer funding, o que abre espaço a estratégias de quem entra e sai à volta desses instantes. Do outro lado, quem carrega a posição durante dias soma pagamento atrás de pagamento, e é por isso que o funding importa muito mais ao trader de posição do que ao que faz scalping em minutos. A taxa exibida no ecrã é sempre uma estimativa do próximo pagamento; a taxa efetivamente cobrada só se fixa no momento da liquidação.

Quanto e como pagam as principais bolsas

Não há uma taxa única: cada bolsa desenha o seu mecanismo, e as diferenças explicam porque é que o mesmo ativo tem funding diferente conforme o local. A tabela seguinte resume os parâmetros das principais plataformas, a partir da documentação técnica de cada uma.

BolsaFrequênciaComponente de juroLimites
Binance / Bybit8 horas~0,01% por período (fixo)Banda de +/-0,05%
OKX8 horas (muda para horário se atingir o teto)Sim, com média móvel ponderadaTeto e piso dinâmicos
DeribitContínuo (expresso por 8 horas)Sem componente de juro separadaBanda morta +/-0,025%; teto +/-0,5% (BTC)
HyperliquidHorário0,01% por 8 horas (aos shorts)Teto extremo de 4% por hora; usa preço do oráculo
dYdX v4HorárioPrémio/8 mais juro baseTeto ligado à margem, por governação

Repare em dois pormenores. A Deribit não tem componente de juro separada e usa uma «banda morta», por isso o seu funding tende a ser mais frio. A Hyperliquid usa o preço do oráculo (e não o preço de negociação) para calcular o nocional, e aplica um juro base que, anualizado, ronda os 11,6% pagos aos shorts, o que ajuda a explicar porque é que o funding onchain corre estruturalmente mais quente, um ponto a que voltaremos.

Dois juros no mesmo mercado: o funding e a Fed

Vale a pena parar num paralelo que raramente se faz. O funding é, na prática, uma taxa de juro: o preço de pedir alavancagem emprestada ao mercado. Só que não há aqui banco central nenhum; a taxa emerge da pressão entre longs e shorts, minuto a minuto. É primo direito de outra taxa que também nasce sem autoridade monetária, a taxa de juro dos mercados de crédito onchain, onde o custo de pedir emprestado sobe e desce com a utilização dos pools de liquidez. Em ambos os casos, o preço do dinheiro é fixado pela oferta e pela procura, não por um comité.

Há, porém, um pormenor decisivo: os perpétuos são quase todos denominados e liquidados em dólares (via USDT ou USDC). Isso significa que o concorrente natural do funding não é a taxa do Banco Central Europeu, mas a taxa sem risco em dólares, ou seja, o que rende um bilhete do Tesouro norte-americano. E foi precisamente essa taxa que a Fed acabou de subir. Por isso é que uma decisão tomada em Washington chega ao ecrã de quem opera perpétuos em Lisboa: o dinheiro que financia a alavancagem cripto é, no fundo, dinheiro em dólares.

Para o investidor europeu, isto gera uma assimetria curiosa: a sua vida quotidiana corre em euros e à sombra do Banco Central Europeu, mas o custo da sua alavancagem cripto corre em dólares e à sombra da Fed. Quando as duas autoridades divergem (uma a subir, a outra a manter ou a cortar), o diferencial de taxas mexe com o câmbio EUR/USD e, por essa via, com o valor em euros de qualquer ganho ou perda denominado em dólares. É mais uma razão para não olhar para o funding como um número isolado, mas como parte de uma teia de taxas de juro globais.

A diferença entre os dois juros é de natureza. O da Fed é exógeno, imposto por decisão política; o funding é endógeno, revelado pelo posicionamento do mercado. Quando ambos estão altos ao mesmo tempo, manter uma posição longa alavancada custa em duas frentes: paga-se funding para a segurar e abdica-se do juro sem risco que o mesmo capital renderia parado. É esta a tesoura que a subida de setembro apertou.

A subida de 16 de setembro, ponto por ponto

A 16 de setembro de 2026, o Comité de Mercado Aberto da Fed subiu a taxa dos fundos federais em 25 pontos base, para o intervalo entre 3,75% e 4,00%. Foi uma decisão unânime (12 votos a favor, nenhum contra) e a primeira subida desde julho de 2023, segundo a análise da decisão publicada pela KuCoin. Depois de anos a discutir cortes, o mercado teve de reaprender a palavra subida.

Mais importante do que a subida foi o mapa que a acompanhou. O dot plot (o gráfico com as projeções de cada governador) colocou a mediana da taxa para o final de 2026 em 4,1%, o que implica mais uma subida ainda este ano: 12 dos 18 participantes situaram-se em 4,125%, quatro em 4,375% e apenas dois em 3,875%. A mediana para 2027 manteve-se em 4,1%, com oito participantes ainda em 4,375%, uma cauda claramente hawkish. Tradução: a reunião de dezembro está em aberto e o dinheiro deve ficar caro durante mais tempo.

A subida em si não apanhou ninguém de surpresa (já era largamente esperada), pelo que a reação imediata da Bitcoin foi contida. O que moveu o mercado nos dias seguintes foi a mensagem por trás dos pontos: não a subida em si, mas a promessa de que virão mais. Uma coisa é o mercado digerir um único aperto; outra é reprecificar um regime em que o dinheiro sem risco fica caro por vários trimestres.

Porque é que a alavancagem passou a custar mais

O canal pelo qual os juros tocam a cripto é o custo de oportunidade. A Bitcoin não paga juro nenhum a quem a detém; quando o dinheiro parado num ativo sem risco rende quase 4%, segurar um ativo volátil e sem rendimento fica comparativamente mais caro. A UBS Global Wealth Management percebeu-o e reviu a sua previsão, passando a esperar duas subidas de 25 pontos base em 2026 (setembro e dezembro), depois de antes não contar com nenhuma; a casa nota que taxas mais altas encarecem o financiamento das posições alavancadas e reduzem o capital que flui para ativos de risco, segundo o CryptoSlate.

Aplicado ao funding, o raciocínio fica afiado. Imagine um long que paga 8% de funding anualizado para manter a posição. Num mundo em que o dinheiro sem risco rendia 0%, esse 8% era o custo total. Agora, com o Tesouro a render perto de 4%, o custo de oportunidade de imobilizar a margem subiu: o mesmo capital, parado, já rende. A alavancagem passou a competir com uma alternativa que deixou de ser zero, e o prémio real que sobra a quem paga funding ficou muito mais magro. É a mesma lógica de quem pondera a cripto contra o juro antes de decidir onde põe o dinheiro.

Um exemplo prático: quanto o funding consome da margem

O ponto que mais gente ignora é que o funding é cobrado sobre o nocional, não sobre a margem. Partamos de um funding «neutro» de 0,01% por oito horas, ou seja, cerca de 11% ao ano. A tabela mostra quanto esse funding consome da margem de um long, consoante a alavancagem usada, comparando com os cerca de 4% que a mesma margem renderia num ativo sem risco.

AlavancagemFunding sobre o nocionalCusto anual sobre a margemTaxa sem risco
1x~11%~11%~4%
2x~11%~22%~4%
5x~11%~55%~4%
10x~11%~110%~4%
20x~11%~220%~4%

Os números são brutais. A 5x, um funding anualizado de 11% traduz-se em cerca de 55% da margem por ano só para manter a posição aberta, antes de qualquer movimento de preço. A 20x, o trader teria de ganhar mais de 200% ao ano apenas para empatar com o funding. E isto num cenário «neutro»: em picos de euforia, o funding anualizado ultrapassa facilmente os 50%. Percebe-se porque é que a alavancagem alta é uma corrida contra o relógio, e porque é que pedir emprestado contra cripto por vias mais estáveis é, muitas vezes, mais barato do que o financiamento embutido num perpétuo.

O paradoxo pós-Fed: subiram os juros, o funding não caiu

A intuição diz que uma subida de juros devia esvaziar a alavancagem comprada e empurrar o funding para terreno negativo. Não foi o que aconteceu. O CF Bitcoin Kraken Perpetual Funding Rate Index (KFRI), uma referência que anualiza o funding da Bitcoin, marcava 7,70% a 20 de setembro, francamente positivo, depois de ter subido com força nos dias anteriores, segundo os dados da CF Benchmarks. Os longs continuavam a pagar para estar comprados, mesmo com a Fed a subir os juros.

O rali de 21 de setembro tornou o quadro ainda mais claro. Com a Bitcoin a saltar mais de 5% e a apanhar quem estava vendido (os tais 212 milhões de dólares em shorts liquidados numa hora), o funding aqueceu em vez de arrefecer. Alex Thorn, responsável de investigação da Galaxy, sublinhou o sinal técnico por trás do movimento: «recuperar a média móvel de 50 semanas serviu historicamente como uma forte confirmação de que os mínimos do bear market ficaram para trás», disse à news.Bitcoin.com, notando que a Bitcoin fechava acima dessa média pela primeira vez em 45 semanas.

Como se explica que o funding aqueça precisamente quando o custo do dinheiro sobe? A resposta está no mecanismo do próprio short squeeze. Quando o preço rompe em alta e apanha quem está vendido, os shorts são forçados a recomprar para fechar posições; essas recompras empurram o preço do perpétuo acima do spot, e um perpétuo acima do spot significa, por definição, funding positivo. Ou seja, o funding positivo deste episódio não traduz apenas ganância dos longs: é também o rasto deixado pelos shorts a fecharem posições a correr. É um lembrete de que o funding mede pressão de posicionamento, não a direção fundamental do preço.

A leitura é a que interessa a este artigo: a subida de juros encareceu a alavancagem em termos reais, mas não bastou para virar o posicionamento. O mercado continua estruturalmente comprado e disposto a pagar por isso. É um equilíbrio tenso, do tipo que costuma preceder movimentos violentos quando o vento muda, como mostrou a autópsia do posicionamento em derivados de setembro.

O funding onchain corre mais quente

Nem todo o funding é igual, e a diferença entre bolsas centralizadas e plataformas onchain é reveladora. No seu relatório de derivados do segundo trimestre de 2026, a BitMEX comparou o funding da Bitcoin na Hyperliquid e na Binance ao longo de três anos. Os números falam por si:

Indicador (Hyperliquid vs Binance)Valor
Prémio de funding, Bitcoin+7,17 pontos percentuais/ano
Prémio de funding, Ethereum+5,31 pontos percentuais/ano
Dias em que o prémio é unilateral (BTC)95%
Dias em que o prémio é unilateral (ETH)89%
Spread XBTUSD vs XBTUSDT (BitMEX)-3,93%/ano
Janelas de 90 dias com spread negativo94%

Porque é que a mesma Bitcoin custa mais para segurar em alavancagem na Hyperliquid? Shang Wu, analista sénior de investigação da BitMEX, é direto: os traders da Hyperliquid tendem a ser «sobretudo particulares, on-chain e estruturalmente comprados», acrescentando que são «degen traders dispostos a pagar caro pela alavancagem», segundo o relatório da BitMEX. Do outro lado, os arbitradores institucionais que normalmente achatariam esse prémio esbarram em custódia, compliance e risco de pontes, e não conseguem fazê-lo em escala. O prémio persiste porque a arbitragem é cara.

A implicação prática é simples e muitas vezes esquecida: para quem vai manter uma posição longa durante dias, a escolha da bolsa é uma decisão de custo, não só de conveniência. Pagar sistematicamente vários pontos percentuais a mais de funding por ano, apenas por estar na plataforma da moda, corrói o resultado tanto como uma comissão elevada. Do lado inverso, quem recebe funding (os shorts e os arbitradores delta-neutros) tem incentivo para preferir as plataformas onde o prémio é mais gordo. O mapa do funding por bolsa é, no fundo, um mapa de onde o dinheiro está a ser transferido.

O que a investigação diz sobre o «carry» cripto

Há trabalho académico sério sobre isto. No Working Paper 1087, «Crypto carry», os investigadores Maik Schmeling, Andreas Schrimpf e Karamfil Todorov, do Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), mostram que o carry dos futuros cripto pode chegar aos 60% ao ano, com uma média acima de 10%, muito acima do que se vê em ações, obrigações, moedas ou matérias-primas, segundo o próprio paper. Duas forças o alimentam: os pequenos investidores que perseguem exposição alavancada nas subidas, e a escassez de capital de arbitragem, dissuadido pelo risco de picos de margem e liquidações. A conclusão mais desconfortável: um carry elevado prevê quedas de preço futuras.

Mas há uma advertência importante contra leituras simplistas. Markus Thielen, fundador da 10x Research, avisa que nem todo o sinal de funding é sentimento. Em episódios recentes, o funding esteve estranhamente negativo mesmo com a Bitcoin a subir, e Thielen atribuiu-o a fluxos técnicos: «algo estrutural está a acontecer no mercado de futuros, não uma mudança de sentimento», disse à CoinDesk, apontando coberturas de resgates de fundos e trocas de base. O mesmo carry que remunera quem o colhe é, noutras mãos, apenas o subproduto de uma cobertura, uma lógica que já se estende aos perpétuos de ativos do mundo real.

Ler o funding contra a taxa sem risco

A lição prática do momento é não ler o funding isolado. Um funding de 10% ao ano com o Tesouro a 0% é uma coisa; o mesmo 10% com o Tesouro a 4% é outra, porque o prémio de risco que sobra é muito mais magro. Quem colhe carry delta-neutro (comprado no spot, vendido no perpétuo) viu a fasquia subir: agora tem de bater não zero, mas os quase 4% que ganharia sem se expor a nada. É por isso que, num mundo de juros altos, o carry só compensa quando o funding está claramente aquecido.

Nos extremos, o funding é um dos melhores termómetros de posicionamento que existe. Um funding muito positivo indica excesso de longs (combustível para uma correção); um funding profundamente negativo indica pânico e excesso de shorts, e tem servido de sinal contrário. A VanEck estudou-o: desde 2020, períodos de funding negativo foram seguidos de retornos médios da Bitcoin de 11,5% a 30 dias, contra 4,5% no conjunto do período, uma taxa de acerto de 77%, segundo Matthew Sigel, responsável de investigação de ativos digitais da casa, citado pela Bitcoin Magazine.

Para o investidor de retalho, o resumo cabe em três perguntas. Primeira: o funding está aceso ou frio face à sua média recente? Segunda: o prémio compensa a taxa sem risco atual, ou seria mais racional deixar o dinheiro a render sem alavancagem? Terceira: o sinal é sentimento (posicionamento excessivo) ou fluxo estrutural (coberturas), como avisa Thielen? Responder honestamente às três evita a armadilha mais comum, confundir um mercado caro com um mercado prestes a explodir para cima.

Perpétuos são CFD: o que dizem a ESMA e a CMVM

Há uma camada que o investidor português não pode ignorar. Em fevereiro de 2026, a ESMA (a autoridade europeia dos mercados) recordou às empresas que o nome comercial «perpetual futures» é irrelevante para a classificação: estes derivados alavancados sobre cripto caem dentro das medidas de intervenção sobre os CFD, ao abrigo da diretiva MiFID II, segundo o comunicado do regulador. Isso implica limite de alavancagem de 2:1 para investidores de retalho, aviso de risco obrigatório, encerramento por margem e proteção contra saldo negativo. E, ponto crucial, a ESMA sublinha que o próprio mecanismo de funding não altera a classificação. Ou seja: os perpétuos são instrumentos financeiros sob a MiFID II, supervisionados pela CMVM, e não caem sob o MiCA, que cobre apenas o mercado à vista e os prestadores de serviços de criptoativos.

A distinção não é burocrática. Enquanto uma plataforma offshore oferece 100:1, o quadro europeu limita o retalho a 2:1 por uma razão empírica: entre 74% e 89% dos investidores não profissionais de CFD perdem dinheiro, com perdas médias entre 1 600 e 29 000 euros, segundo dados da CMVM e da ESMA citados pelo Jornal Económico. Um residente que use perpétuos de alta alavancagem numa bolsa não autorizada fica, na prática, fora do perímetro de proteção do investidor, e também fora da rede quando as coisas correm mal.

O que vigiar até à decisão de dezembro

O calendário manda. O dot plot deixou a porta aberta a mais uma subida em dezembro, e a UBS já conta com ela. Se a Fed voltar a mexer, o custo de oportunidade da alavancagem sobe outra vez, e o prémio real exigido a qualquer carry aperta mais. Para o mercado de perpétuos, isso significa uma pressão persistente sobre a alavancagem comprada, mesmo que o preço continue a subir por outras razões.

Três indicadores merecem atenção nas próximas semanas. Primeiro, o funding anualizado (via KFRI ou dashboards como a CoinGlass e a Coinalyze): se disparar acima dos 15% ou 20% com o preço parado, é sinal de alavancagem a acumular-se. Segundo, o open interest: funding a subir com o open interest a subir é a combinação clássica que antecede um long squeeze. Terceiro, o diferencial entre o funding e a taxa sem risco: é ele, e não o funding sozinho, que diz se vale a pena pagar para estar alavancado num mundo em que o dinheiro voltou a render.

Riscos: o funding não é dinheiro grátis

Vale um aviso final para quem vê no funding uma fonte de rendimento fácil. Colher carry parece dinheiro grátis até deixar de ser: o funding pode virar de positivo para negativo em horas, obrigando quem estava a receber a passar a pagar. Uma posição delta-neutra continua exposta a liquidações se a margem de uma das pernas se esgotar num pico de volatilidade, e mecanismos como o auto-desalavancagem (ADL) podem fechar a posição vencedora à força. Foi assim, com o funding a inverter e a alavancagem a implodir, que se desenharam vários dos maiores colapsos da história da cripto. O funding é uma ferramenta poderosa de leitura e de rendimento; não é um almoço grátis.

Há ainda o risco de contraparte e de plataforma, que nenhum modelo de funding mede. Numa bolsa offshore sem supervisão, o problema pode não ser o funding virar contra si, mas a própria bolsa congelar levantamentos, alterar as regras a meio do jogo ou desaparecer com os depósitos. O funding é a parte visível e quantificável do custo de estar alavancado; o risco de guardar a margem no sítio errado é a parte que não aparece em nenhum dashboard, e costuma ser a mais cara de todas.

Perguntas frequentes

O que é a taxa de funding num contrato perpétuo?

É um pagamento periódico trocado entre longs e shorts que mantém o preço do perpétuo colado ao spot. Quando é positiva, os longs pagam aos shorts; quando é negativa, os shorts pagam aos longs. Costuma ser liquidada a cada 8 horas ou de hora a hora, e é cobrada sobre o valor total da posição, não sobre a margem.

A subida de juros da Fed faz o funding descer?

Em teoria, juros mais altos encarecem a alavancagem e deviam arrefecer o funding. Na prática, depois da subida de 16 de setembro de 2026 o funding manteve-se positivo, com o KFRI nos 7,70% a 20 de setembro, porque o mercado continuou estruturalmente comprado. O efeito da Fed sente-se sobretudo no custo de oportunidade, não numa queda automática do funding.

Como se calcula o custo real do funding?

Multiplica-se a taxa por período pelo número de períodos por ano (0,01% por 8 horas dá cerca de 11% ao ano) e aplica-se ao nocional. Como o funding incide sobre o nocional e não sobre a margem, a alavancagem multiplica o custo: a 5x, um funding de 11% consome cerca de 55% da margem por ano.

Porque é que o funding é mais alto na Hyperliquid do que na Binance?

Segundo o relatório de derivados da BitMEX, a Hyperliquid paga em média mais 7,17 pontos percentuais de funding anualizado que a Binance na Bitcoin, porque a sua base de traders é sobretudo de retalho, on-chain e estruturalmente comprada, e porque os arbitradores institucionais têm dificuldade em achatar esse prémio devido a custódia, compliance e risco de pontes.

Os perpétuos são legais em Portugal?

Os perpétuos são derivados sobre cripto e, na União Europeia, são tratados como CFD ao abrigo da MiFID II, supervisionados pela CMVM e não pelo MiCA. Para investidores de retalho, a alavancagem está limitada a 2:1 e aplicam-se avisos de risco e proteção contra saldo negativo. Plataformas offshore de alta alavancagem operam fora deste perímetro de proteção.

Por Liam Brennan, editor de mercados da HOGE Wire.

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