Mercados de previsão: quando a eleição vira cotação em cripto
Em Portugal, o caso mais nítido de eleições a mover a cripto foi um mercado de previsão bloqueado pelo SRIJ. Contamos o cruzamento entre urnas, cripto e o muro europeu.
Em janeiro de 2026, enquanto os portugueses escolhiam o sucessor de Marcelo Rebelo de Sousa, o exemplo mais nítido de «as eleições movem a cripto» não foi uma vela verde no gráfico do Bitcoin. Foi um contrato. Na Polymarket, a maior plataforma de mercados de previsão do mundo, o mercado sobre a presidencial portuguesa recebeu mais de 4 milhões de euros nas horas anteriores à divulgação dos resultados, com a probabilidade de vitória de António José Seguro a saltar para 95% já às 18 horas, uma hora antes de fecharem as urnas, e a tocar os 100% quando as projeções confirmaram o desfecho, segundo a Renascença. Seguro viria a ser eleito a 8 de fevereiro com 66,84% dos votos, derrotando André Ventura por cerca de 67% contra 33% e tornando-se o candidato mais votado de sempre numa eleição portuguesa, de acordo com os resultados oficiais.
O Serviço de Regulação e Inspeção de Jogos (SRIJ) não gostou do que viu. Declarou a Polymarket ilegal e ordenou o bloqueio; poucos dias depois, a Vodafone, a NOS e a MEO cortaram o acesso à plataforma. A lei portuguesa é clara: só operadores licenciados pelo SRIJ podem oferecer apostas, e apostar em eventos políticos, nacionais ou internacionais, está vedado.
Aqui está, em euros e em solo nacional, a verdadeira interseção entre eleições e cripto em 2026. Não é o preço do Bitcoin a reagir a um discurso; é um mercado, construído sobre carris de cripto, a transformar uma eleição em cotação, a atrair milhões e a ser expulso do país por causa disso. Este artigo trata desse cruzamento: o que são os mercados de previsão, porque se tornaram o termómetro em tempo real das urnas, como isso chega (ou não) à carteira de quem investe em euros, e porque razão, precisamente quando os Estados Unidos abrem a porta, a Europa a fecha.
O que são, afinal, os mercados de previsão
Um mercado de previsão é uma bolsa onde se transacionam contratos de evento binários. Cada contrato faz uma pergunta de sim ou não (o partido X ganha o Senado? a inflação fica acima de 3%?) e paga uma unidade, um euro ou um dólar, se o evento se confirmar, e zero se não se confirmar. O preço de cada posição vive entre esses dois extremos, e lê-se como uma probabilidade: um contrato cotado a 0,62 significa que o mercado atribui 62% de hipóteses ao desfecho. À medida que chega informação nova, o preço move-se, tal como o preço de uma ação.
Há dois polos neste universo. De um lado, a Polymarket, nativa de cripto: corre sobre a blockchain Polygon, liquida em USDC (uma stablecoin em dólares) e as posições ficam registadas em carteiras que o utilizador controla. Do outro, a Kalshi, uma bolsa regulada nos Estados Unidos pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC), que opera em dólares e se parece mais com uma corretora tradicional. As duas concentram a esmagadora maioria do volume global e travam uma rivalidade aberta pelo mesmo mercado.
A diferença face a uma sondagem é decisiva. Uma sondagem é uma fotografia, cara de produzir, com dias de atraso e sem dinheiro em jogo. Um mercado de previsão é um filme contínuo em que cada participante arrisca capital próprio para defender a sua leitura. É essa a promessa teórica, herdada da velha ideia de Friedrich Hayek de que os preços agregam informação dispersa melhor do que qualquer comité: quem tem informação e a usa para lucrar acaba por empurrar o preço na direção certa. Não é por acaso que este é o instrumento que dá nome ao próprio universo das previsões.
Como a aposta se tornou o termómetro das urnas
O momento em que estes mercados entraram no vocabulário de qualquer investidor foi a noite eleitoral norte-americana de 2024. Enquanto as televisões pediam prudência, a Polymarket dava a Donald Trump uma vantagem clara sobre Kamala Harris nos dias anteriores e colocava a probabilidade de vitória perto de 95% antes da meia-noite, horas antes de a Associated Press projetar o resultado. A CNN resumiu o que muitos sentiram: os mercados viram algo que as sondagens e os comentadores não viram, e a plataforma acerta em mais de 94% dos casos um mês antes de o desfecho ser conhecido.
O fundador e presidente executivo da Polymarket, Shayne Coplan, não teve modéstia ao descrever o produto num programa da estação norte-americana CBS. Disse ao 60 Minutes que o mercado de previsão é «a coisa mais precisa que temos como humanidade neste momento, até alguém criar uma espécie de super bola de cristal». A frase é publicidade, mas assenta numa intuição sólida: dinheiro em risco disciplina opiniões, e uma multidão de apostadores interessados tende a ser mais honesta do que um painel de especialistas sem pele em jogo.
O resultado é que redações, mesas de negociação e até casas de análise passaram a citar as cotações destes mercados como se fossem dados. A eleição deixou de ser um acontecimento discreto no dia da votação para se tornar um preço que se move ao segundo, semanas antes. E, como qualquer preço, tornou-se algo em que se pode negociar, ganhar e perder.
As intercalares de 2026 já têm cotação
O grande teste seguinte são as eleições intercalares dos Estados Unidos, marcadas para 3 de novembro de 2026, quando se renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. É a primeira grande consulta desde o regresso de Trump à Casa Branca e funciona como referendo intercalar ao mandato. Os mercados de previsão já lhe puseram etiqueta de preço muito antes de qualquer boletim de voto.
Uma análise da NBC News contabilizou mais de 197 milhões de dólares transacionados em contratos ligados ao resultado das intercalares, distribuídos por 1.408 mercados na Kalshi e na Polymarket. O contrato sobre o controlo da Câmara é o de maior volume, com cerca de 18,9 milhões de dólares só na Kalshi. E o sinal mudou ao longo do verão: os apostadores inverteram a aposta no Senado, com os Democratas a ultrapassarem os Republicanos e a ficarem com cerca de 51% de probabilidade contra 49%.
| Contrato (intercalares EUA, 3 nov.) | Plataformas | Volume negociado | Leitura dos mercados (set. 2026) |
|---|---|---|---|
| Controlo do Senado | Kalshi + Polymarket | parte dos 197 milhões de dólares | Democratas ~51% / Republicanos ~49% |
| Controlo da Câmara | Kalshi | 18,9 milhões de dólares (maior contrato) | maioria democrata favorecida |
| Conjunto dos mercados | Kalshi + Polymarket | mais de 197 milhões de dólares (1.408 mercados) | as cotações mudam ao minuto |
Vale a pena guardar um número: 197 milhões de dólares numa única categoria de eventos. É pequeno ao lado do mercado de ações, mas enorme para um produto que, há dois anos, poucos sabiam nomear. E é dinheiro real, a formar um preço que milhões de pessoas leem como verdade sobre o futuro político.
Onde isto toca na sua carteira em euros
Um leitor em Lisboa ou no Porto pode perguntar, com razão: e a mim, que tenho Bitcoin e Ethereum numa carteira em euros, o que é que isto me interessa? A resposta é que os mercados de previsão não cotam apenas quem ganha uma eleição; cotam também os desfechos políticos que mais mexem com a cripto, e fazem-no antes de os jornais o escreverem.
O exemplo de 2026 é perfeito. Durante meses, existiu na Polymarket um contrato sobre se a lei norte-americana de estrutura de mercado para criptoativos, a CLARITY Act, seria promulgada dentro do ano. As probabilidades derreteram ao longo da primavera e do verão, à medida que o processo emperrava no Senado, e o mercado acabou por acertar: a moção falhou por 49 votos contra 50, e a lei ficou pelo caminho, como contámos em a lei cripto que caiu no Senado. Curiosamente, o Bitcoin quase nem se moveu com a notícia, porque o mercado já a tinha descontado.
O canal mais forte, porém, não é a lei; é a política monetária. Quando a Reserva Federal subiu os juros em setembro para o intervalo de 3,75% a 4%, a primeira subida desde 2023, isso mexeu com a cripto muito mais do que qualquer votação no Congresso, um tema que desenvolvemos em a cripto contra o juro. E os mercados de previsão também cotam esse rumo: a probabilidade de cada decisão do banco central negoceia-se em tempo real. As eleições entram por aqui de forma indireta mas poderosa, porque o resultado das urnas condiciona quem nomeia os árbitros da economia, como já explorámos noutras edições sobre o Japão e a Coreia do Sul.
Ou seja: mesmo que não possa negociar estes contratos, as suas cotações moldam o posicionamento do mercado que fixa o preço do seu Bitcoin, que valia cerca de 74.266 euros no momento em que escrevemos, segundo a CoinGecko. A expressão negociável dessa leitura, para quem está na Europa, não são os contratos de evento; são os perpétuos e o custo da alavancagem, como analisámos em funding contra a Fed. Os mercados de previsão são o termómetro; a sua carteira sente a febre por outra via.
Os carris de cripto por baixo da aposta
Porque é que este é um assunto de cripto, e não apenas de jogo ou de finanças? A resposta está na engenharia da Polymarket. Os depósitos são feitos em USDC, uma stablecoin; as posições vivem em contratos inteligentes na Polygon; a liquidação é automática e verificável na blockchain. Não há um caixa de casino a pagar; há código a executar. É um produto genuinamente nativo de cripto, e é isso que o torna simultaneamente fascinante e problemático para os reguladores.
Essa transparência é uma faca de dois gumes. Como cada transação fica registada numa cadeia pública, é possível seguir carteiras individuais e detetar padrões suspeitos. Ferramentas de análise já sinalizaram dezenas de milhares de operações potencialmente informadas, apostas colocadas por quem parecia saber algo antes de o resto do mundo. E há outra particularidade: uma fatia enorme do volume da Polymarket já não é humana. Estima-se que mais de 30% das carteiras ativas sejam agentes de inteligência artificial, robôs que negoceiam sem parar, o que levanta perguntas incómodas sobre quem, afinal, forma o preço.
Falta uma peça: quem decide o resultado? Na Polymarket, muitos mercados resolvem-se através de um oráculo otimista gerido pelo protocolo UMA, em que um resultado se assume verdadeiro a menos que alguém o conteste, caso em que detentores do token da UMA votam para arbitrar. É um mecanismo elegante, mas foi alvo de críticas em 2026, com mais de mil mercados disputados e suspeitas de que os grandes detentores concentram poder de voto. A Kalshi, sendo centralizada e regulada, resolve internamente e em dólares. Duas filosofias, o mesmo objetivo: transformar a incerteza do mundo num contrato que fecha a um ou a zero.
Quando Wall Street se senta à mesa
Se ainda alguém achava que isto era um brinquedo de nicho, 2026 tratou de desfazer o equívoco. A ICE, a dona da Bolsa de Nova Iorque, comprometeu até 2 mil milhões de dólares com a Polymarket, num negócio anunciado em duas fases entre o outono de 2025 e a primavera de 2026, tornando-se distribuidor global dos dados de eventos da plataforma. A tese, sublinhada no comunicado da ICE, não é a aposta em si; é a informação. Os preços destes mercados valem como sinal, e a bolsa mais icónica do mundo quer vendê-lo aos seus clientes.
Os números de financiamento acompanham o entusiasmo. A Kalshi fechou uma ronda que a avaliou em cerca de 22 mil milhões de dólares; a Polymarket foi avaliada em torno de 15 mil milhões e procurava uma ronda acima dos 20 mil milhões. O volume conta a mesma história: segundo a TRM Labs, o volume mensal combinado saltou de menos de 5 mil milhões de dólares em setembro de 2025 para cerca de 24 mil milhões em abril de 2026.
| Indicador | Valor | Referência |
|---|---|---|
| Compromisso da ICE (dona da NYSE) na Polymarket | até 2 mil milhões de dólares | out. 2025 e mar. 2026 |
| Avaliação da Polymarket | ~15 mil milhões (a negociar acima de 20) | abr. 2026 |
| Avaliação da Kalshi | ~22 mil milhões (ronda Série F) | mai. 2026 |
| Volume mensal combinado | <5 mil milhões para ~24 mil milhões | set. 2025 para abr. 2026 (TRM Labs) |
| Volume anual (ritmo) | 51 mil milhões para ~240 mil milhões | 2025 para 2026 (Bernstein) |
| Projeção para 2030 | cerca de 1 bilião de dólares | Bernstein |
A casa de análise Bernstein pôs a fasquia ainda mais alta. Num relatório citado pela CNBC, estimou que o volume passe de 51 mil milhões de dólares em 2025 para um ritmo de cerca de 240 mil milhões em 2026, rumo a um bilião de dólares até 2030, um crescimento anual composto próximo de 80%. O argumento é que estes deixam de ser mercados de apostas para se tornarem um verdadeiro «mercado de informação», que cobre desporto, cripto, política e economia. Nem tudo é subida linear: dados da The Block mostraram que agosto de 2026 registou a primeira queda mensal num ano, para 45,33 mil milhões de dólares combinados, sinal de que o produto também tem sazonalidade. Mas a direção é inequívoca.
O muro português: porque a Polymarket está bloqueada
Voltemos a casa. Para o investidor português, todo este ecossistema tem um problema prático: está do outro lado de um muro. O episódio da presidencial de janeiro não foi um acidente; foi a aplicação direta da lei. Em Portugal, apenas operadores licenciados pelo SRIJ podem oferecer apostas ou jogo online, e a legislação não admite apostas em acontecimentos políticos, sejam eles nacionais ou internacionais. Um mercado sobre quem ganha Belém é, aos olhos do regulador, jogo ilegal.
O que tornou o caso explosivo foi a dimensão e o timing. Mais de 4 milhões de euros concentrados no mercado da presidencial, com a cotação de Seguro a disparar para 95% ainda antes do fecho das urnas, levantou suspeitas de uso de informação privilegiada e de partilha de resultados de sondagens à boca das urnas. A CoinDesk registou Portugal como mais um país a apertar o cerco à plataforma. O SRIJ declarou a Polymarket ilegal, e o enquadramento legal não deixa margem: sem licença nacional, o serviço não pode operar.
Há aqui um nó regulatório que vale a pena desatar. Em Portugal, a cripto enquanto ativo cai sob o MiCA e é supervisionada pela CMVM, na conduta de mercado, e pelo Banco de Portugal, no registo de prestadores e nas stablecoins. As apostas caem sob o SRIJ. Um contrato de evento em USDC senta-se, desconfortavelmente, entre os dois mundos: é cripto na forma e aposta na substância. Foi a substância que ganhou, e o acesso fechou-se.
O muro europeu: a ESMA e as opções binárias
Portugal não está sozinho, e a peça mais importante veio de Paris, sede da Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA). A 3 de julho de 2026, o regulador europeu esclareceu que os contratos de evento com pagamento binário podem qualificar-se como instrumentos financeiros ao abrigo da diretiva DMIF II. E, se assim for, ficam sujeitos à mesma proibição de comercialização de opções binárias ao retalho que a União aplica desde 2018. Por outras palavras: independentemente do nome comercial, um contrato de sim ou não que se comporta como uma opção binária está barrado ao pequeno investidor europeu, como noticiou a Unchained.
Em setembro, a ESMA foi mais longe. Num aviso relatado pela The Block, declarou que as grandes plataformas não têm autorização na União e questionou por que razão os bloqueios geográficos são apenas parciais, notando que não impedem o acesso por redes privadas virtuais. A mensagem para a Polymarket e a Kalshi era limpa: bloquear alguns países não chega.
O mapa de restrições foi-se enchendo. A Suíça colocou a Polymarket na lista de bloqueios já em finais de 2024; seguiram-se a França, cujo regulador do jogo (a ANJ) ordenou aos operadores o bloqueio em julho de 2026, a Polónia, a Bélgica, a Espanha e a Hungria, além de Portugal. Na prática, convivem três enquadramentos que se sobrepõem: o MiCA, para o criptoativo e os prestadores de serviços; a DMIF II, se o contrato for um instrumento financeiro (recorde-se que os perpétuos de cripto já são tratados como derivados, com alavancagem limitada a 2:1 para o retalho); e a lei do jogo, quando a leitura é a de uma aposta. Um mesmo produto, três chaves diferentes para o mesmo cadeado.
Bruxelas está a escrever as regras, e o prazo é já
Aqui entra o dado mais urgente deste artigo. A Comissão Europeia abriu, a 20 de maio de 2026, uma consulta pública dirigida sobre a revisão do MiCA, e, pela primeira vez, Bruxelas pergunta formalmente se os mercados de previsão assentes em blockchain devem caber dentro do regulamento europeu e, em caso afirmativo, sob que regime, se o MiCA se a DMIF II. A consulta pergunta explicitamente se estes mercados representam oportunidades ou riscos para os consumidores europeus.
O detalhe que interessa a quem lê isto hoje: a consulta encerra às 23h59 de 30 de setembro de 2026, como assinalou a FinanceFeeds. É a última janela para a indústria e para os cidadãos influenciarem o texto antes de a Comissão redigir o relatório que deve entregar ao Parlamento e ao Conselho até 30 de junho de 2027, ao abrigo dos artigos 140 e 142 do MiCA, um relatório que pode vir acompanhado de uma nova proposta legislativa.
Traduzindo: o estatuto europeu dos mercados de previsão, hoje um limbo entre o jogo proibido e o instrumento financeiro barrado, vai ser decidido nos próximos meses, e a fase de contributos fecha dentro de dias. Para um setor que vale já dezenas de mil milhões de dólares e que corre sobre cripto, é uma encruzilhada que define se a Europa terá acesso regulado ou continuará do lado de fora do vidro.
Nos Estados Unidos, o caminho inverso
Enquanto a Europa levanta muros, os Estados Unidos abrem portas, embora de forma caótica. A Polymarket, que esteve quatro anos fora do mercado norte-americano por um acordo com a CFTC, comprou por 112 milhões de dólares a corretora e câmara de compensação licenciada QCEX, transformada na QCX LLC, um mercado de contratos designado pelo regulador, segundo a PR Newswire. Com esse veículo, avançou para reabrir o acesso a utilizadores dos EUA. A Kalshi, essa, já operava como mercado regulado.
Mas o caminho americano não é pacífico. Rebentou uma guerra de jurisdição entre o regulador federal (a CFTC, que reclama competência exclusiva sobre contratos de evento) e os estados, que invocam as suas leis do jogo. A procuradora-geral de Nova Iorque, Letitia James, processou a Kalshi em julho de 2026, e não mediu palavras: «Independentemente do que se chamem a si próprios, mercados de previsão como a Kalshi são plataformas de jogo, pura e simplesmente. Ao ignorar as nossas leis, a Kalshi está a operar de forma ilegal e a prejudicar os nova-iorquinos», afirmou no comunicado oficial. O processo pede restituição aos consumidores e uma multa equivalente a três vezes os ganhos da empresa. Uma coligação de 44 procuradores estaduais pediu à CFTC que recomece a sua regulamentação e clarifique que apostas desportivas e jogo não podem ser transacionados como contratos de evento.
| Dimensão | União Europeia / Portugal | Estados Unidos |
|---|---|---|
| Estatuto dominante | jogo ilegal; opções binárias proibidas ao retalho | contratos de evento regulados a nível federal |
| Quem regula | SRIJ, ESMA e CMVM, por camadas | CFTC (federal) contra procuradores estaduais |
| Acesso do retalho | bloqueado (geoblock e bloqueio de operadores) | a reabrir (Polymarket via QCX/DCM) |
| Regras em aberto | revisão do MiCA (consulta até 30 set. 2026) | guerra federal contra estadual nos tribunais |
A assimetria é o ponto. Do lado americano, apesar do ruído judicial, o sentido é o de integrar estes mercados no perímetro regulado e deixar entrar o pequeno investidor. Do lado europeu, o sentido é o de manter o retalho fora. Quem investe em euros vê passar um instrumento que os seus pares do outro lado do Atlântico começam a poder usar dentro da lei.
Dá para confiar na cotação?
Antes de tratar a cotação de um mercado de previsão como um oráculo, convém olhar para as suas fragilidades, que são reais. A primeira é a reflexividade: quando toda a gente lê a probabilidade como verdade, a probabilidade começa a influenciar o próprio comportamento que devia medir. Um mercado que dá 95% de vitória a um candidato pode desmobilizar eleitores ou financiadores, alterando o desfecho que dizia prever.
A segunda é a liquidez. Fora dos grandes eventos, muitos mercados são finos, e nesses casos algumas ordens bem colocadas movem a cotação sem que isso reflita informação nova. A terceira é a resolução: como vimos, o mecanismo de arbitragem da UMA foi contestado, com centenas de mercados em disputa e receios de captura pelos grandes detentores de tokens. A quarta é a manipulação e a informação privilegiada, precisamente o que o SRIJ suspeitou no caso português: com o livro de ordens público, é possível seguir apostas suspeitas, mas isso não impede que aconteçam. Responsáveis eleitorais nos Estados Unidos já manifestaram preocupação com o impacto destas cotações na confiança pública e com os incentivos à manipulação.
E há o elefante na sala: os robôs. Se mais de 30% das carteiras da Polymarket são agentes automáticos, a cotação reflete cada vez mais o combate entre máquinas, e não a sabedoria de uma multidão de humanos informados. Nada disto anula o valor do sinal; obriga apenas a lê-lo como aquilo que é, uma probabilidade de mercado com ruído, e não uma profecia.
O que fazer com isto, em euros
Chegados aqui, a orientação prática para o investidor português é simples de enunciar e desconfortável de aceitar. Não pode, de forma legal, colocar posições na Polymarket ou na Kalshi a partir de Portugal; o SRIJ bloqueou o acesso e a lei não o permite. Tentar contornar o bloqueio com uma rede privada virtual é entrar em terreno de ilegalidade, com todos os riscos que isso acarreta, do congelamento de fundos à ausência de qualquer proteção.
O que pode fazer é usar as cotações como termómetro gratuito de sentimento. Se um mercado profundo dá probabilidade elevada a um resultado que afeta a cripto (uma decisão da Reserva Federal, a aprovação de uma lei, o desfecho de umas eleições), isso é informação útil para calibrar expetativas, desde que a leia com as reservas do capítulo anterior. Não confunda a previsão com uma cobertura de risco: um mercado de previsão não protege a sua carteira, apenas antecipa um cenário.
A expressão negociável, para quem está na Europa e sob a supervisão da CMVM, continua a ser o mercado à vista de criptoativos e, para quem entende o risco, os derivados regulados sob a DMIF II. É aí que a leitura política se transforma em posição real, e é aí que convém ter disciplina e uma gestão de risco à altura. A lição de 2026 é que, para uma carteira em euros, pesa mais o canal macro (o juro, o dólar, a liquidez) do que o voto em si. Os mercados de previsão são a janela mais nítida para esse futuro; só que, para já, é uma janela que a Europa nos deixa espreitar, mas não abrir.
Perguntas frequentes
A Polymarket é legal em Portugal?
Não. Em janeiro de 2026, o SRIJ declarou a Polymarket ilegal e ordenou o seu bloqueio, cumprido pela Vodafone, NOS e MEO. A lei portuguesa só permite apostas a operadores licenciados pelo SRIJ e proíbe apostar em eventos políticos, sejam nacionais ou internacionais. Na prática, um residente em Portugal não pode usar legalmente a plataforma.
O que é um mercado de previsão em cripto?
É uma bolsa onde se transacionam contratos de evento binários: uma posição paga um euro (ou um dólar) se o resultado se confirmar e zero se não se confirmar. O preço, entre zero e um, lê-se como a probabilidade que o mercado atribui ao evento. A Polymarket funciona sobre a blockchain Polygon e liquida em USDC; a Kalshi é regulada pela CFTC e opera em dólares.
Os mercados de previsão acertam nas eleições?
Têm um bom historial. Em 2024, a Polymarket dava a vitória a Donald Trump com cerca de 95% horas antes de a eleição ser projetada, e mostrou-se mais fiável do que muitas sondagens. Ainda assim, mercados pouco líquidos, resoluções disputadas e tentativas de manipulação mostram que a cotação é um sinal útil, não uma certeza.
Porque é que a União Europeia está a bloquear a Polymarket e a Kalshi?
Em 3 de julho de 2026, a ESMA esclareceu que os contratos de evento com pagamento binário podem ser instrumentos financeiros ao abrigo da DMIF II e, se o forem, ficam sujeitos à proibição europeia de opções binárias para o retalho, em vigor desde 2018. A isto somam-se as leis nacionais do jogo. A revisão do MiCA, com consulta aberta até 30 de setembro de 2026, vai decidir o enquadramento futuro.
Como é que as eleições dos EUA afetam a cripto de quem investe em euros?
Sobretudo por vias indiretas. Os mercados de previsão cotam desfechos que interessam à cripto, como a aprovação de leis ou o rumo da Reserva Federal, e o preço do Bitcoin é fixado em dólares no mercado global. Um investidor em Portugal pode observar essas probabilidades como termómetro, mas não pode transacionar legalmente os contratos a partir do país. Para a carteira, pesa mais o canal macro do que o voto em si.
Por Tomás Almeida, HOGE Wire.