Oferta de ETH sem piloto: o mercado decide a escassez em 2026
A EIP-8363 saiu da próxima atualização e a Glamsterdam escala em vez de queimar. Com o protocolo fora do comando da oferta, é o mercado que decide a escassez do ETH.
Outubro trouxe à Ethereum duas decisões que, à primeira vista, nada têm em comum, mas que, juntas, mudam a forma como se deve pensar a oferta do ETH. No dia 1, os autores retiraram a EIP-8363, a proposta que iria queimar uma fatia crescente das recompensas de staking para travar a emissão, da próxima atualização da rede. No dia 6, a atualização seguinte, a Glamsterdam, arrancou na testnet Sepolia, ainda sem data para a mainnet. A primeira era a única ferramenta no horizonte para tornar o ETH deliberadamente mais escasso; a segunda é uma fork de escalabilidade que, se algum efeito tem sobre a oferta, é enfraquecer ainda mais a queima.
O pano de fundo dramatizou o momento. Um ano depois do crash de 10 de outubro de 2025, o mercado voltou a tremer: o ETH recuou cerca de 6,6% na semana, para perto de 2.260 EUR, com as liquidações a castigarem sobretudo as posições alavancadas em ether, segundo a CoinGecko. Mas o preço de curto prazo é ruído e o calendário, por si só, não fixa a cotação, como já defendemos a propósito do Uptober. O que interessa a quem pensa a médio prazo é estrutural.
A tese deste artigo cabe numa frase: a Ethereum deixou de pilotar a própria oferta. Com a emissão congelada por decisão da comunidade e a queima estruturalmente fraca, a política monetária do ETH ficou em piloto automático, num registo ligeiramente inflacionário. E quando o protocolo recua, quem passa a decidir a escassez é o mercado, através do staking, das tesourarias e dos ETF que trancam ETH, contra um free-float cada vez mais fino. A contrapartida para os otimistas: o mercado que concede escassez também a pode retirar.
Duas decisões de outubro, uma só mensagem
Vale a pena separar as duas notícias antes de as juntar. A EIP-8363 era uma proposta de política monetária: queimava uma fatia das recompensas dos validadores que subia à medida que o staking aumentava, até atingir 100% da emissão de consenso quando o ETH trancado chegasse a cerca de 60,25 milhões (perto de metade da oferta), com uma transição de 18 meses. Ao retirá-la, a comunidade decidiu que não vai, para já, mexer na emissão. A Glamsterdam, pelo contrário, nunca foi sobre oferta: é a fork que aumenta a capacidade da camada base, com separação entre quem propõe e quem constrói blocos e com listas de acesso ao nível do bloco.
Postas lado a lado, as duas decisões contam a mesma história. Do lado da emissão, o protocolo escolheu não agir. Do lado da queima, a direção da estrada (escalar, baratear a transação, empurrar atividade para as L2) joga contra a destruição de ETH. Não há, no roteiro visível, nenhum mecanismo a caminho que torne o ETH mecanicamente mais escasso. A escassez, se vier, terá de vir da procura, não do código.
O painel da oferta de ETH em outubro de 2026
Antes dos argumentos, os números. O quadro seguinte reúne o essencial do estado da oferta, com as fontes detalhadas ao longo do texto.
| Métrica | Valor (outubro de 2026) |
|---|---|
| Preço do ETH | 2.260,71 EUR (-6,6% na semana) |
| Capitalização de mercado | ~276 mil milhões EUR |
| Oferta em circulação | ~122,1 milhões de ETH |
| Máximo histórico (EUR) | 4.229,76 EUR (cerca de -47%) |
| Emissão líquida em 2026 (até 9 out) | +778.412 ETH |
| Emissão vs queima diária | ~2.600 ETH emitidos / 50 a 70 queimados |
| ETH em staking | Mais de um terço da oferta (recorde) |
| Reservas em exchanges | ~14,88 milhões de ETH (mínimos de vários anos) |
| Maior tesouraria (BitMine) | ~6,02 milhões de ETH (~4,9% da oferta) |
| Inflação anual líquida | Inferior a 1% ao ano |
Dois sinais merecem destaque desde já: a emissão líquida é positiva (a rede cria mais ETH do que destrói) e, ao mesmo tempo, a parcela de ETH efetivamente disponível para venda encolhe. São duas forças opostas, e é na tensão entre elas que se joga o futuro da oferta.
A conta que não fecha: 778 mil ETH a mais em 2026
Comecemos pela aritmética, porque é ela que desmonta o mito. Entre 1 de janeiro e 9 de outubro de 2026, a Ethereum emitiu 796.623 ETH e destruiu apenas 16.524, o que deixa uma emissão líquida de 778.412 ETH, segundo dados compilados pela CryptoSlate. Por outras palavras, a queima compensou somente 2,07% da emissão bruta do ano. O ETH está inflacionário, e não por pouco.
No dia a dia, a mecânica é simples: os validadores recebem cerca de 2.600 ETH novos por dia, enquanto a queima de taxas raramente passa dos 50 a 70 ETH, de acordo com a 24/7 Wall St. Para a rede voltar a ser deflacionária de forma sustentada, seria preciso queimar perto de 3.000 ETH por dia, um patamar que exige taxas de rede muito acima das atuais. O resultado é uma inflação líquida de cerca de 0,2% a 0,8% ao ano desde abril de 2024: baixa face a outras criptomoedas, mas longe da narrativa de ouro digital deflacionário.
A rutura com a tese do «ultrasound money» é o ponto central. Entre 2022 e o início de 2024, a Ethereum chegou a destruir mais ETH do que emitia, porque as taxas na camada base eram altas e a queima da EIP-1559 engolia a emissão. A atualização Dencun, em março de 2024, mudou tudo: ao baratear radicalmente os dados das L2 (os chamados «blobs»), empurrou a atividade para fora da camada base e esvaziou a queima. Desde então, o ETH deixou de deflacionar, exceto em picos pontuais de utilização, e a oferta tem crescido lentamente desde a fusão de 2022.
Karim AbdelMawla, investigador sénior da 21shares, resume o novo regime sem rodeios: o ETH passou a ser «um direito alavancado sobre a atividade do ecossistema, mais do que um ativo puramente monetário», e «taxas mais baixas reduzem a queima de ETH, a menos que a atividade global cresça o suficiente para compensar». A emissão líquida, acrescenta, é «modestamente positiva» nos regimes de taxas baixas. É a definição técnica do fim da deflação automática.
EIP-8363 fora da Hegotá: a revolta dos builders ganhou
Era aqui que entrava a EIP-8363. Apresentada em agosto por seis autores ligados à Ethereum Foundation, propunha queimar uma fatia crescente das recompensas de staking à medida que o ETH trancado subisse, chegando a 100% quando o staking atingisse cerca de 60,25 milhões de ETH. Ao nível de staking atual, cortaria o rendimento de consenso de aproximadamente 2,6% para 1,2% ao longo de 18 meses. A ideia era filosófica: emissão mínima viável, só o necessário para garantir a segurança da rede, devolvendo o resto aos detentores sob a forma de escassez.
A 1 de outubro, os autores retiraram a proposta da Hegotá, a próxima fork com nome. Jérôme de Tychey, presidente da Ethereum France e um dos autores, anunciou no fórum Ethereum Magicians que retirava «a EIP-8363 da consideração para a Hegotá», reconhecendo que participantes da indústria e contribuidores do núcleo tinham argumentado que «um exercício de delimitação de uma fork não era o sítio certo para decidir uma mudança de política de emissão», segundo o The Block. A proposta tornou-se, pelo caminho, uma das mais comentadas da história do fórum, com objeções a caírem em cinco categorias: segurança, impacto na indústria, desenho da curva de queima, composição do conjunto de validadores e efeitos sobre os solo stakers.
Do lado dos críticos, a reação foi de alívio. Stani Kulechov, fundador da Aave, que ao longo do verão repetira que «a Ethereum não devia ser punida pelo seu crescimento», saudou a retirada como um «great move», um bom passo. A chamada revolta dos builders, que juntou protocolos de DeFi, operadores de staking líquido e parte dos programadores, ganhou a primeira ronda: a emissão fica como está. Quem argumentava que um rendimento mais baixo empurraria capital para fora do staking, reduzindo a segurança, prevaleceu sobre quem via na proposta uma forma de devolver escassez ao token.
O debate mudou de sala: um processo próprio até à EthCC de abril
Retirar não é enterrar. Os autores comprometeram-se a levar a discussão da emissão para um processo dedicado, fora do calendário das forks, com etapas na Devcon (novembro), na EthCC, em Columbia (janeiro) e em workshops durante fevereiro e março, culminando na EthCC de abril, onde a proposta poderá voltar a candidatar-se a inclusão. A Lido, o maior protocolo de staking líquido, ofereceu-se para ajudar a conduzir o processo, segundo o CryptoBriefing.
A leitura para a oferta é direta: durante pelo menos os próximos trimestres, a emissão de ETH e a economia dos validadores ficam inalteradas. Qualquer corte à emissão, a existir, só chega depois de um processo longo e deliberadamente lento, pensado para não repetir o atropelo que afundou a EIP-8363. Para quem modela a oferta até 2027, isto é quase uma certeza rara: o lado da emissão está, na prática, congelado.
Há ironia nisto. O mecanismo criado para dar à Ethereum uma política monetária mais disciplinada foi travado precisamente por quem mais beneficia da emissão atual, os grandes operadores de staking. Que a Lido se ofereça agora para conduzir o processo seguinte diz muito sobre onde reside o poder de decisão sobre a oferta do ETH: não num algoritmo imutável, mas numa negociação entre partes interessadas. Esse detalhe é o fio condutor de tudo o que se segue.
Glamsterdam: a próxima fork é de escala, não de escassez
Se a emissão está congelada, resta a queima. E é aqui que a Glamsterdam entra, não para a ressuscitar, mas para a enfraquecer. A fork arrancou na testnet Sepolia a 6 de outubro de 2026, às 13:53 UTC; as ativações em Hoodi e na mainnet continuam sem data marcada, apontadas apenas para algures no quarto trimestre de 2026, por confirmar, segundo o blogue da Ethereum Foundation.
O conteúdo da Glamsterdam é técnico, não monetário. As peças centrais são a EIP-7732, que consagra no protocolo a separação entre quem propõe e quem constrói blocos (a chamada ePBS), e a EIP-7928, as listas de acesso ao nível do bloco, que permitem ler e validar o estado em paralelo. Juntam-se as EIP-8037 e EIP-8038, de reajuste do preço do gás para refletir melhor o custo de execução e de crescimento do estado, além de logs de transferências de ETH, novos opcodes e limites maiores para contratos. Os validadores poderão propor blocos com um limite de gás de 200 milhões, face aos 60 milhões atuais.
O detalhe mais revelador não está no que a Glamsterdam faz, mas no que não diz. O anúncio oficial da Ethereum Foundation não menciona uma única vez a oferta ou a economia do token: concentra-se, nas suas próprias palavras, em melhorias técnicas de produção de blocos, eficiência de validação e contabilização de recursos. A próxima grande atualização da rede não tem a escassez do ETH na agenda. E, como veremos, o pouco que faz à oferta é indireto e vai no sentido contrário ao da deflação.
Porque é que escalar enfraquece a queima
A relação entre escalar e queimar é contraintuitiva, mas central. A queima da EIP-1559 destrói a taxa-base de cada transação, e essa taxa só sobe quando os blocos estão cheios. O desenho do mercado de taxas tem como alvo blocos a 50% da capacidade: sempre que a procura excede esse ponto, a taxa-base sobe; quando fica abaixo, desce. Aumentar o limite de gás para 200 milhões cria mais espaço por bloco, o que, com a mesma procura, significa blocos relativamente mais vazios, taxas mais baixas e menos ETH queimado.
É o mesmo paradoxo das L2 que a Dencun inaugurou, agora reforçado. Quanto melhor a Ethereum escala, na base e nas camadas de cima, mais barata fica a transação e menos combustível sobra para a queima. AbdelMawla, da 21shares, é explícito: o ETH «já não beneficia de deflação automática, exceto durante picos sustentados de atividade». A Glamsterdam não reverte esta lógica; aprofunda-a.
| Mudança da Glamsterdam | O que faz | Efeito provável na oferta |
|---|---|---|
| ePBS (EIP-7732) | Separa no protocolo quem propõe e quem constrói blocos | Altera a dinâmica do MEV; não mexe na emissão nem na taxa-base queimada |
| Listas de acesso ao bloco (EIP-7928) | Permitem validação e leitura de estado em paralelo | Tornam seguros blocos maiores, logo mais espaço e taxas mais baixas (menos queima) |
| Limite de gás de 200 milhões | Aumenta a capacidade por bloco | Com o alvo de 50% de enchimento, puxa as taxas para baixo (menos queima) |
| Reajuste do gás (EIP-8037/8038) | Reequilibra o custo de execução e de estado | Redistribui custos; não relança a queima |
Uma nota importante para não baralhar camadas: a ePBS muda quem captura o MEV e como, mas não toca na emissão nem na taxa-base queimada. Reorganiza o mercado de construção de blocos, um tema que tocámos ao olhar para a forma como a liquidez real se compara com a reportada, mas não é um instrumento de política monetária. Nenhuma das peças da Glamsterdam foi desenhada para mexer na oferta, e o efeito colateral que têm, via taxas mais baixas, joga contra a queima, não a favor.
Política monetária congelada: nem corte de emissão, nem regresso da queima
Juntando as peças, chega-se a uma conclusão desconfortável para a narrativa dominante dos últimos anos. A única alavanca para cortar a emissão (a EIP-8363) foi arrumada numa gaveta até, pelo menos, abril. A única alavanca que tornava o ETH deflacionário (a queima) está estruturalmente enfraquecida e será ainda mais pressionada pela fork de escalabilidade que aí vem. Resultado: a política monetária do ETH está congelada num registo ligeiramente inflacionário, e assim ficará enquanto o protocolo não voltar a agir.
O roteiro público da rede confirma a direção. Depois da Glamsterdam vem a Hegotá e, a partir daí, a engenharia de ponta da Ethereum volta-se para a criptografia avançada (provas de conhecimento-zero, finalidade mais rápida, resistência ao risco quântico) e para a escala, não para a oferta do token. Não há, no horizonte técnico anunciado, nenhuma peça desenhada para tornar o ETH mais escasso. A escassez saiu da lista de problemas que os programadores se propõem resolver.
Isto não é necessariamente mau. Uma inflação líquida abaixo de 1% ao ano é modesta, e boa parte desse ETH novo vai para quem assegura a rede, não para uma mina anónima. Mas obriga a abandonar o slogan: o ETH não é, hoje, um ativo programado para ser cada vez mais escaso. É um ativo cuja escassez depende de outra coisa, e essa outra coisa é o mercado.
Se o protocolo recuou, quem fixa a escassez?
A resposta é o mercado, através de três fechaduras que trancam ETH fora da circulação. A primeira é o staking: mais de um terço da oferta, um recorde, está depositada a validar a rede, apesar de o rendimento ter caído para perto de mínimos de três anos. A segunda são as tesourarias corporativas, lideradas de longe pela BitMine de Tom Lee, que detinha cerca de 6,02 milhões de ETH (perto de 4,9% da oferta), dos quais cerca de 84% em staking, com uma receita anual estimada em 363 milhões de dólares, segundo o The Block.
A terceira fechadura são os ETF à vista, que acumularam ETH ao longo de 2026 em nome de investidores que, na maioria, não o vão movimentar tão cedo. O efeito combinado aparece no outro lado do balanço: as reservas de ETH nas exchanges caíram para cerca de 14,88 milhões, o valor mais baixo em vários anos, de acordo com dados da CryptoQuant citados pela Cointribune. É esse o verdadeiro free-float, o ETH que está realmente à mão para vender, e tem vindo a encolher.
Há aqui uma distinção que a tese do «ultrasound money» obscurecia. Uma coisa é a oferta total, que continua a crescer; outra é a oferta líquida disponível, que diminui. O ETH que rende via staking não desaparece, mas sai do mercado de curto prazo. Vale a pena lembrar que esse rendimento é, cada vez mais, um rendimento real, pago em taxas e MEV, e não apenas em emissão nova, uma distinção que já explorámos a propósito da DeFi. A escassez do ETH, hoje, é uma função de quanta gente prefere trancá-lo a vendê-lo.
A escassez que o mercado dá, o mercado também tira
Aqui está a parte que os otimistas tendem a esquecer. Se a escassez do ETH depende da procura por trancá-lo, então basta a procura inverter-se para a escassez evaporar. E, em outubro, houve sinais disso nos dois maiores compradores marginais do ano.
Primeiro, os ETF. Depois de um terceiro trimestre de entradas recorde, os ETF de ETH à vista nos Estados Unidos entraram numa sequência de nove sessões consecutivas de saídas, com cerca de 697 milhões de dólares retirados e o iShares (ETHA) da BlackRock a liderar os resgates, segundo o CryptoBriefing. As entradas acumuladas desde o lançamento continuam largamente positivas, mas a maré de curto prazo virou, e foi precisamente o maior veículo de procura institucional a inverter primeiro.
Segundo, a BitMine. Tom Lee anunciou que a empresa vai parar de comprar ETH assim que atingir 5% da oferta, um limiar a que está a menos de 90 mil ETH, ou seja, a poucas semanas, segundo a CoinDesk. O comprador mais constante de ether do último ano e meio está prestes a desligar-se. Se a maior fechadura do ano deixa de apertar ao mesmo tempo que os ETF abrem a porta, a tese da escassez perde dois pilares de uma só vez.
A correção de meados de outubro ilustrou a fragilidade. Num mercado em queda, o ether, dos ativos mais transacionados com alavancagem, recuou mais do que a média na semana da correção. Um free-float fino corta nos dois sentidos: amplifica as subidas quando a procura aperta, mas também as descidas quando a alavancagem se desfaz. A mesma estrutura de oferta que sustenta a narrativa de escassez num mercado comprador transforma-se em acelerador de perdas num mercado vendedor.
ETH contra Bitcoin: escassez decretada contra escassez programada
A forma mais clara de arrumar a ideia é pôr o ETH ao lado do Bitcoin. O Bitcoin tem uma escassez programada: teto de 21 milhões, halvings previsíveis, emissão que só desce, independentemente do que alguém queira. É escassez por protocolo, praticamente irreversível. A Ethereum tem uma escassez que, depois de outubro, se percebe melhor: não é imposta pelo código de forma fixa, é o resultado de decisões de governação e de comportamento de mercado.
| Dimensão | Ethereum | Bitcoin |
|---|---|---|
| Regra de oferta | Emissão variável, sem teto fixo | Teto de 21 milhões, halvings |
| Quem decide | Mercado e governação (via EIP), discricionário | Protocolo, imutável |
| Direção atual | Ligeiramente inflacionária | Desinflação programada |
| Origem da escassez | Procura (staking, ETF, tesourarias) | Código |
| Reversibilidade | Condicional, nos dois sentidos | Praticamente nula |
Nenhum dos modelos é melhor em abstrato. O do Bitcoin oferece previsibilidade e uma narrativa monetária simples. O da Ethereum oferece flexibilidade (a emissão pode subir para reforçar a segurança ou descer para premiar detentores) ao custo da certeza. Mas, depois de outubro, a diferença ficou nítida: a escassez do Bitcoin está escrita no código; a do ETH está em aberto, dependente da procura e de uma futura decisão de governação que ninguém garante.
Portugal: o que a CMVM e o fisco veem num ETH que rende e não deflaciona
Para o investidor português, a mudança de regime tem consequências práticas. Desde 1 de julho de 2026, o período transitório da MiCA terminou, e a Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, designou a CMVM e o Banco de Portugal como autoridades competentes: a CMVM supervisiona a conduta de mercado e os prestadores de serviços de criptoativos (os CASP), enquanto o Banco de Portugal cuida das stablecoins (tokens de moeda eletrónica e referenciados a ativos), segundo o Diário da República. A CMVM mantém o aviso de sempre: os criptoativos são produtos de risco elevado.
No plano fiscal, trancar ETH para obter rendimento tem custo. As recompensas de staking são tributadas como rendimentos de capitais (categoria E) à taxa de 28%: quando pagas em euros, no momento do recebimento; quando pagas em cripto, o imposto é diferido para a eventual venda, segundo a Madeira Corporate Services. Nas mais-valias, mantém-se a regra dos 365 dias: ETH vendido com menos de um ano de detenção paga 28% (Anexo G); com um ano ou mais, fica isento (Anexo G1). E, desde 2026, a diretiva DAC8 obriga as plataformas a reportar automaticamente as posições dos clientes ao fisco.
Há ainda o custo de oportunidade, e é aqui que o regime congelado do ETH morde. Com o rendimento de staking perto de mínimos de três anos e a taxa de depósito do Banco Central Europeu acima de 2%, trancar ETH deixou de pagar um prémio claro face a um depósito sem risco em euros. A Reserva Federal de Kevin Warsh subiu os juros em setembro e, depois de dados de emprego fracos, o mercado passou a esperar a próxima subida só para dezembro, deslocando a decisão para lá da reunião de outubro. Num ambiente de juros altos, guardar ETH em staking a render pouco mais de 2% compete com alternativas sólidas, um tema que ligámos à sazonalidade de fim de ano contra a Fed de Warsh.
Três cenários para a oferta do ETH até 2027
Com o protocolo fora do comando, modelar a oferta do ETH é, acima de tudo, modelar a procura. O quadro seguinte resume três trajetórias plausíveis, sem pretensão de prever preços, apenas direção.
| Cenário | O que acontece | Sinais a vigiar |
|---|---|---|
| Base: inflação suave | Emissão continua positiva, queima fraca, procura institucional mantém o free-float fino | Emissão líquida semanal, taxas na L1, fluxos de ETF |
| Escassez regressa | Atividade e taxas sobem, ou o processo de 2027 corta a emissão | Queima diária acima da emissão, decisões na EthCC de abril |
| Inflação persiste e a procura sai | ETF em saída prolongada, BitMine atinge os 5% e para, staking estabiliza | Reservas em exchanges a subir, prémio das tesourarias (mNAV) a comprimir |
O cenário-base é o mais provável a curto prazo: inflação suave, queima fraca, escassez sustentada pela procura institucional, mas sem o impulso automático da deflação. O cenário de escassez exige que algo mude do lado da procura ou da atividade (mais taxas, mais queima) ou que o processo de emissão lançado para 2027 acabe por cortar a emissão. O cenário inflacionário é o alerta: se os ETF continuarem a sair e a BitMine parar de comprar, o free-float fino que amplificou as subidas pode amplificar as descidas. Para quem quiser traduzir isto em números, vale a pena rever os modelos por trás dos alvos de preço.
A conclusão é menos sobre o ETH subir ou descer e mais sobre o que mudou por baixo. Durante anos, a Ethereum vendeu-se como dinheiro que se torna sozinho mais escasso. Em outubro de 2026, ao arrumar a EIP-8363 e ao lançar uma fork que escala em vez de queimar, a rede assumiu outra coisa: a oferta é um problema do mercado, não do protocolo. Para o investidor, isso troca uma promessa automática por uma pergunta diária, quem está a trancar ETH, e por quanto tempo.
Perguntas frequentes
O ETH é inflacionário ou deflacionário em 2026?
Inflacionário, embora de forma ligeira. Em 2026, a rede emitiu muito mais ETH do que queimou (a queima compensou cerca de 2% da emissão até outubro), com uma inflação líquida de aproximadamente 0,2% a 0,8% ao ano. A deflação só regressa se as taxas de rede subirem o suficiente para queimar mais de cerca de 3.000 ETH por dia, algo que não acontece desde a atualização Dencun de 2024.
O que foi a EIP-8363 e porque é que foi retirada?
A EIP-8363 era uma proposta para queimar uma fatia crescente das recompensas de staking e assim cortar a emissão à medida que o staking subisse. Foi retirada da atualização Hegotá a 1 de outubro de 2026, depois de contribuidores e empresas argumentarem que uma mudança de política de emissão não devia ser decidida no processo de uma fork. O debate segue para um processo próprio, com decisão apontada para abril.
A atualização Glamsterdam torna o ETH mais escasso?
Não. A Glamsterdam é uma fork de escalabilidade (separação entre proposer e builder, listas de acesso ao bloco e mais capacidade de gás) e o seu anúncio oficial nem sequer menciona a oferta. Ao aumentar a capacidade e baratear as transações, tende, se algo, a reduzir a queima de ETH, não a aumentá-la. Arrancou na testnet Sepolia a 6 de outubro de 2026 e ainda não tem data para a mainnet.
Se o protocolo não controla a oferta, o que decide a escassez do ETH?
A procura por trancar ETH fora de circulação: o staking (mais de um terço da oferta), as tesourarias corporativas como a BitMine e os ETF à vista. Em contrapartida, as reservas de ETH nas exchanges caíram para mínimos de vários anos, o que reduz o ETH disponível para venda. Como essa escassez depende da procura, pode inverter-se: em outubro, os ETF registaram saídas e a BitMine anunciou que vai parar de comprar aos 5% da oferta.
Como é tributado em Portugal o rendimento de staking de ETH?
As recompensas de staking são tributadas como rendimentos de capitais (categoria E) à taxa de 28%, aplicada no momento do recebimento quando pagas em euros. Nas mais-valias, vale a regra dos 365 dias: vender ETH com menos de um ano de detenção paga 28%, com um ano ou mais fica isento. Desde 2026, a DAC8 obriga as plataformas a reportar as posições ao fisco.
Por Priya Reddy, editora de mercados da HOGE Wire.