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● Culture & Long-reads

O botão de resgate: esvaziar o tesouro da DAO em 2026

Em 2026 o drama das DAO mudou de cara: os detentores votam para abrir o tesouro e sacar a sua parte. O caso Gnosis mostra o que acontece quando o token vale menos do que o cofre.

Durante anos, o drama de uma DAO teve quase sempre o mesmo guião. Um atacante acumulava tokens em silêncio, submetia uma proposta desenhada para parecer rotina e, quando o quórum caía na direção certa, o tesouro esvaziava-se numa única transação. Foi assim com a BonkDAO em julho, quando alguém gastou cerca de 3,9 milhões de euros a comprar votos para levar perto de 18 milhões em ativos (CoinDesk). É o arquétipo do assalto, e já lhe dedicámos mais do que um artigo.

Só que o episódio que melhor define 2026 é outro, mais silencioso e perfeitamente legal. Em junho, os detentores de GNO aprovaram a GIP-151, uma proposta que mandava a própria Gnosis abrir o cofre para que qualquer um pudesse trocar os seus tokens por uma fatia proporcional de cerca de 140 milhões de euros em ativos líquidos (forum.gnosis.io). Não houve hacker, não houve flash loan, não houve calldata escondido. A proposta foi coescrita com a equipa fundadora e passou com cerca de 97,5% de apoio.

Isto não é o assalto, e também não é o divórcio (o fork que parte o tesouro em dois). É a revolta dos acionistas. Quando o token passa a valer menos do que o dinheiro que está por trás dele, a pergunta da governação deixa de ser «quem manda aqui» e passa a ser «devolvam-me a minha parte». Esse é o novo drama das DAO, e traz para a blockchain o guião mais antigo das finanças tradicionais: o investidor ativista que compra barato e exige a liquidação.

O caso Gnosis: a DAO que votou para abrir o próprio cofre

A história começa em maio, com a GIP-150. Um participante do fórum que assina como Wismerhill propôs um direito de resgate permanente: qualquer detentor de GNO poderia, a qualquer momento, devolver o token e receber a parte correspondente do tesouro. A equipa fundadora reagiu com frieza e a discussão azedou depressa. A viragem veio quando uma baleia com dezenas de milhares de GNO votou a favor, contrariando a posição de um dos cofundadores e empurrando o momentum para o lado do resgate (The Defiant).

Em vez de travar a ideia, a Gnosis renegociou-a. A GIP-151, publicada a 12 de junho e votada no Snapshot entre 19 e 26 de junho, trocou o resgate permanente por uma janela única a NAV (o valor líquido dos ativos), desta vez desenhada em conjunto com a equipa fundadora. Os números constam da própria proposta: um NAV de cerca de 114,67 dólares por GNO (à volta de 103 euros), 1.364.058 GNO elegíveis (excluindo os tokens detidos pela DAO e pela Gnosis Ltd) e um tesouro resgatável de aproximadamente 156,4 milhões de dólares, perto de 140 milhões de euros (forum.gnosis.io). Desse total, 151,2 milhões eram ativos líquidos (ETH, BTC, stablecoins, SAFE, COW e HOPR, distribuídos em espécie) e 5,2 milhões correspondiam à carteira da GnosisVC, avaliada com um desconto de 60% sobre os cerca de 13 milhões de capital já investido.

O desfecho foi quase unânime. A GIP-151 passou com aproximadamente 97,5% de votos a favor, cerca de 157.749 GNO contra apenas 2.500, reunindo 49 carteiras muito acima do quórum de 75.000 GNO exigido (CryptoSlate). O site de resgate abriu a 3 de julho e a janela de depósito fechou a 17 de julho ao meio-dia UTC. Entre maio e julho, uma comunidade que existia para gerir um ecossistema aprovou, no efeito prático, a opção de se desmontar parcialmente a si mesma.

Para perceber a força do argumento é preciso recuar a 2017. A Gnosis angariou 250.000 ETH na sua ICO, algo como 12,5 milhões de dólares à época, e viu esse cofre crescer até mais de 200 milhões de dólares (perto de 180 milhões de euros) em 2026 (Cryptopolitan). O problema é que o mercado passou a avaliar o token GNO abaixo do que o tesouro implicava: quando a GIP-150 surgiu, o GNO rondava os 132 dólares, mas o valor por token guardado no cofre andava mais perto dos 115. Comprar o token era, na prática, comprar o dinheiro com desconto. Foi essa fenda que os ativistas abriram.

O botão de resgate: quando o tesouro vale mais do que o token

A lógica é mais simples do que parece. Como Vitalik Buterin explicou há anos, um token de governação é um pacote de dois direitos: um interesse económico (uma fatia do valor do projeto) e um direito de voto. Na maioria das DAO, o primeiro é puramente teórico, porque o detentor não tem forma de reclamar o tesouro; só pode votar sobre o que fazer com ele (vitalik.eth.limo). O resgate quebra essa teoria: transforma o voto na ferramenta que converte o direito económico abstrato em euros reais na carteira.

Quem conhece a bolsa reconhece a jogada. É a mesma que os investidores ativistas fazem há décadas com fundos fechados que transacionam abaixo do valor dos seus ativos: compram as unidades com desconto e pressionam para liquidar ou devolver dinheiro ao preço justo, embolsando a diferença. A novidade de 2026 é que o mesmo manual chegou às tesourarias on-chain, onde o «botão de resgate», como lhe chamou a CryptoSlate, está agora a um voto de distância (CryptoSlate).

E há muito cofre para abrir. Segundo um balanço da ForkLog, existem mais de 12.000 DAO a gerir cerca de 28 mil milhões de dólares (perto de 25 mil milhões de euros), boa parte disso parada em tesourarias enquanto o token do projeto desliza no mercado (ForkLog). Sempre que a capitalização de um token cai abaixo do dinheiro que a DAO tem no banco, o resgate deixa de ser uma birra e passa a ser uma decisão financeira racional. É o reverso exato da tendência que descrevemos em quando a taxa virou recompra: em vez de a DAO usar as receitas para comprar o seu próprio token e sustentar o preço, são os detentores a exigir que o tesouro lhes seja distribuído diretamente.

Os RFV raiders regressam: de Aragon 2023 à Gnosis 2026

A jogada tem até nome no mundo cripto: RFV raiders, de risk-free value. São investidores que caçam DAO cujo tesouro on-chain vale mais do que a capitalização do token e que, uma vez lá dentro, fazem campanha para extrair essa diferença. A Gnosis não foi a primeira a ser caçada; foi apenas a mais recente, e vários meios descreveram a pressão sobre o seu tesouro exatamente nesses termos (cryptonews.net).

O precedente que todos tinham em mente era a Aragon, em 2023. Quando um grupo de fundos ativistas (a Aragon Association chamou-lhes RFV raiders e apontou o dedo à gestora Arca) começou a acumular tokens para controlar uma tesouraria de cerca de 200 milhões de dólares, a fundação respondeu com a opção nuclear: baniu membros da comunidade, acusou-os de um «ataque coordenado» de 51% e cancelou a passagem do controlo do tesouro para a DAO, redirecionando o projeto (CoinDesk). Em vez de deixar os raiders ganharem, os fundadores preferiram desligar a democracia.

Três anos depois, a Gnosis fez o contrário. Perante o mesmo tipo de pressão, a equipa não baniu ninguém nem denunciou um golpe; sentou-se com os ativistas e desenhou uma saída ordenada. É uma evolução dupla: o manual dos raiders amadureceu, mas a defesa também. Ajuda que boa parte destas campanhas seja conduzida por pseudónimos, como o Wismerhill ou o chud.eth, figuras que só existem no fórum e no Snapshot, um fenómeno que já explorámos em a entrevista com quem não tem nome. Entre as vozes mais críticas esteve também Marc Zeller, fundador da Aave Chan Initiative e protagonista habitual das guerras de governação de 2026 (Cryptopolitan).

Roubar ou resgatar: as duas faces do mesmo cofre

O assalto e o resgate parecem opostos, mas exploram exatamente a mesma falha. Nos dois casos, o acesso ao tesouro é uma função controlada por votação, a participação é baixa e o poder de voto está concentrado. A firma de capital de risco a16z resumiu a matemática há anos numa equação simples: um ataque compensa sempre que o valor a capturar excede o custo de comprar votos suficientes mais o custo de execução (a16z crypto). O resgate é a mesma conta, só que feita à luz do dia e com o consentimento da maioria.

Do lado do roubo, 2026 não deixou faltar material. A BonkDAO perdeu cerca de 18 milhões de euros depois de um atacante gastar menos de 4 milhões a comprar tokens para atingir o quórum, com sete carteiras a decidir por uma comunidade de dezenas de milhares (CoinDesk). A Term Finance viu desaparecer cerca de 7,6 milhões apesar de ter um timelock de sete dias, que de nada serviu porque ninguém estava a vigiar (crypto.news). E o caso extremo continua a ser a Beanstalk, em 2022, quando um flash loan de mais de mil milhões de dólares comprou uma supermaioria instantânea e esvaziou 182 milhões (perto de 170 milhões de euros à época) numa só transação (Cointelegraph).

Do lado do resgate, a diferença não está na mecânica, está na assinatura. Ninguém foi enganado; a maioria votou para se pagar a si própria. A tabela seguinte põe lado a lado as várias formas de um tesouro desaparecer, legais e ilegais.

CasoMecanismoConsentido?Destino do tesouro
Beanstalk (2022)Flash loan para maioria instantâneaNãoRoubado (~170 milhões de euros)
BonkDAO (2026)Compra de ~1% da oferta para atingir o quórumNãoRoubado (~18 milhões de euros)
Term Finance (2026)Proposta maliciosa apesar do timelockNãoRoubado (~7,6 milhões de euros)
Gnosis GIP-151 (2026)Voto para resgate a NAVSimDistribuído aos detentores (~140 milhões de euros)
Nouns (2023)Fork e ragequitSimDividido entre duas DAO

A matemática do resgate: NAV, desconto e corrida ao cofre

Um resgate a NAV parece justo, mas esconde um problema de coordenação. Como notou o utilizador Py3.14 no fórum da Gnosis, o valor que cada um recebe depende de quantos outros decidirem resgatar, e isso só se sabe quando a janela fecha (forum.gnosis.io). Se poucos saírem, o tesouro por token sobe para quem fica; se muitos saírem, o cofre adelgaça e os ativos menos líquidos pesam mais no que resta. Cada detentor tem de apostar no comportamento dos outros sem o conseguir ver.

É a mecânica de uma corrida ao banco. Se acredito que os outros vão resgatar, o racional é resgatar primeiro, antes que o cofre fique só com as posições difíceis de vender. Foi precisamente para conter esse pânico que a equipa recusou a versão permanente da GIP-150 e impôs uma janela única com um retrato do NAV num momento fixo. Um direito de resgate aberto teria transformado cada decisão de governação numa questão de liquidez e colado ao token uma espécie de opção de venda permanente, matando qualquer prémio que o mercado lhe pudesse dar. A janela única deixa a pressão sair de uma vez e volta a fechar a porta.

Há ainda a aritmética do desconto. Com o GNO a transacionar perto dos 99 euros e um NAV à volta dos 103, comprar o token e resgatá-lo ao valor dos ativos era um lucro quase mecânico (CoinGecko). Mas essa arbitragem autodestrói-se: quanto mais gente compra para resgatar, mais sobe o preço e mais fino fica o desconto, até deixar de compensar. O resgate não é uma máquina de dinheiro infinita; é uma válvula que iguala, durante alguns dias, o preço do token ao valor do cofre.

Quem fica e quem foge: o cisma entre detentores e construtores

Um resgate obriga a comunidade a dividir-se em dois campos. De um lado, os mercenários, que pegam no dinheiro e saem; do outro, os crentes, que ficam com um tesouro mais magro mas, defende-se, com um piso de NAV por baixo do token e a subida que vier das operações futuras. O cofundador da Gnosis, Stefan George, defendeu no fórum que a proposta oferecia «a fair exit path», uma saída justa, deixando claro que quem resgata abdica de todos os direitos de governação e de qualquer participação no futuro do projeto (forum.gnosis.io). É um divórcio com partilha de bens, não um despejo.

Por baixo da contabilidade está uma verdade desconfortável. As DAO foram vendidas como comunidades, mas o resgate revela que muitos «membros» eram apenas investidores à espera de uma porta de saída. Ali Yahya, sócio da a16z crypto, foi direto numa entrevista à Fortune: «We spent the last 10 years rediscovering the hard way that direct democracy is a bad idea», ou seja, passámos uma década a redescobrir à força que a democracia direta é uma má ideia (Fortune). O resgate é o momento em que a comunidade admite que nunca foi bem uma comunidade.

Para quem constrói, a conclusão é perturbadora: se a maioria pode votar para sacar o cofre, para que serve acumular um tesouro? Aquilo que parecia um arsenal de guerra passa a ser um passivo à espera de ser reclamado. É por isso que cada vez mais projetos preferem queimar receitas em recompras ou deixar o mercado fixar o valor do ativo, em vez de empilhar reservas, uma lógica que analisámos a propósito da oferta de ETH sem piloto. Num mundo onde o token pode ser resgatado, o tesouro deixou de ser uma promessa e passou a ser uma dívida.

Aave, outra vez: o confronto que virou padrão

Não é coincidência que a imprensa tenha descrito o braço de ferro da Gnosis como uma versão do caso Aave (Cryptopolitan). O maior protocolo de crédito da DeFi passou 2026 mergulhado na sua própria guerra de governação. Começou no final de 2025, quando a comunidade rejeitou por 55,29% uma proposta para entregar a marca, os domínios e a propriedade intelectual da Aave a uma entidade controlada pela Aave Labs, num movimento que muitos leram como uma tentativa de tomada de controlo (Cointelegraph).

O rastilho continuou a arder. Ao longo de 2026, os três principais prestadores de serviços de governação da Aave (a BGD Labs, a Aave Chan Initiative e a Chaos Labs) anunciaram a saída de um protocolo com cerca de 26 mil milhões de dólares em depósitos, invocando a concentração de poder de voto (CoinDesk). Marc Zeller, que lidera a ACI, resumiu o problema de forma crua ao The Block: «The main spark is BGD leaving», o verdadeiro estopim foi a saída da BGD, acrescentando que o mesmo poder de voto capaz de aprovar um orçamento podia cancelar qualquer pagamento a qualquer momento (The Block). É o retrato de uma organização sem dono em que, afinal, alguém manda.

Aave e Gnosis são a mesma batalha com finais diferentes. Numa, a classe profissional que fazia a DAO funcionar saiu em protesto; na outra, os investidores exigiram o dinheiro de volta. Ambas respondem à mesma pergunta que percorre o setor em 2026: quem controla de facto uma organização que, no papel, não tem ninguém a controlá-la?

O tesouro como miragem: porque o mercado desconta as DAO

Se um tesouro de 228 milhões de dólares está mesmo ali, porque é que o mercado paga menos por ele? A resposta tem várias camadas. A primeira é a falta de direito: fora de uma votação excecional como a GIP-151, o detentor não pode exigir um cêntimo do cofre, só pode votar sobre o que lá se faz. A segunda é o risco de governação: o tesouro pode ser esbanjado, capturado ou congelado, como aconteceu na Jupiter, que suspendeu as votações e trancou o seu tesouro (ForkLog).

A terceira camada é a mais traiçoeira: nem todo o tesouro é dinheiro a sério. No caso da Gnosis, dos cerca de 228 milhões, perto de 117 milhões eram exposição ao próprio token GNO, contra apenas 22 milhões em stablecoins e cerca de 109 milhões verdadeiramente líquidos depois de descontar essa circularidade (CryptoSlate). Um cofre cheio do próprio token não se vende sem derrubar o preço, por isso o valor real que um resgate consegue distribuir é sempre menor do que o número grande que aparece nos títulos.

O resultado é aquilo a que a bolsa chama desconto de holding: o mercado trata a DAO como um conglomerado opaco e paga menos do que a soma das partes. É o mesmo problema que separa a liquidez real da liquidez reportada, um tema que dissecámos em liquidez real contra o reportado. Os RFV raiders existem precisamente para fechar esse desconto à força, e o resgate é a ferramenta que transforma um número de folha de cálculo em ativos na carteira.

O palco e a plateia: a governação como evento de mercado

Todo o episódio da Gnosis se desenrolou à vista de todos. Uma linha de fórum, uma votação no Snapshot, carteiras anónimas a discutir fórmulas de NAV e, a meio, uma baleia a virar o resultado em direto, contrariando um cofundador (The Defiant). A governação on-chain é, cada vez mais, um desporto para espetadores, com a diferença de que a plateia não se limita a assistir: negoceia.

Cada proposta tornou-se um evento de preço. Um resgate a NAV fixa um piso para o token; um voto de dissolução liberta ativos; uma captura hostil fá-los fugir. Quem lê bem um fórum de governação está a ler, na prática, um relatório de resultados antes de ele existir. O curioso é que esta transparência, com o tesouro discriminado ao cêntimo e o calendário publicado, supera a de muitas empresas cotadas; só que chega filtrada por pseudónimos e cultura de memes.

É aí que mora o encanto e o perigo do género. A mesma abertura que permite a qualquer um auditar o cofre também permite a qualquer um fazer campanha para o esvaziar. O palco está sempre montado, as falas são públicas e o guião, esse, raramente acaba bem para quem chegou atrasado à sala.

Portugal e a Europa: o resgate num vazio jurídico

Para um investidor português, o mais desconcertante é perceber onde fica a lei em tudo isto. O MiCA, o regulamento europeu que entrou em vigor para os prestadores de serviços de criptoativos, regula as exchanges, a custódia e os emitentes de stablecoins, mas nada diz sobre a forma como uma DAO decide abrir o seu tesouro. A CMVM, enquanto supervisora de conduta de mercado, e o Banco de Portugal, responsável pelo registo dos CASP, vigiam quem faz a intermediação, não o voto interno de uma organização sem sede nem morada.

Na prática, quem detém GNO e decide resgatar não tem prospeto, não tem entidade a fiscalizar o cálculo do NAV e não tem recurso se as contas estiverem erradas. E há a dimensão fiscal: em Portugal, as mais-valias com criptoativos detidos há menos de um ano são tributadas à taxa de 28%, e um resgate que acabe convertido em euros dificilmente escapa a essa conta, mesmo que a troca direta entre criptoativos possa adiar o momento da tributação. O fim do período transitório para os VASP portugueses, a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, só reforça que a supervisão aperta à volta dos intermediários, não da governação, uma das muitas datas que o mercado já anda a contar, como vimos na contagem regulatória.

Falta ainda o problema de fundo: a maioria das DAO não tem personalidade jurídica. O precedente da Ooki DAO, nos Estados Unidos, mostrou o que pode correr mal, com um tribunal a tratar a DAO como uma associação sem personalidade jurídica e a responsabilizar os seus membros (CFTC). É por isso que figuras como a DUNA do Wyoming, que dá à DAO existência legal e responsabilidade limitada, aparecem como o antídoto para o drama (CoinDesk). Enquanto esse invólucro não for a norma, um resgate a NAV vive algures entre uma recompra de ações e coisa nenhuma.

Lições para quem detém o token: como ler uma votação de resgate

Para quem tem tokens de governação na carteira, uma proposta de resgate não é teoria. Decide se o teu token ganha um piso ou se és tu quem fica com o tesouro mais magro. A grelha seguinte resume o que convém verificar antes de carregar no botão.

O que verificarPergunta a fazerSinal de alerta
Desconto face ao NAVO token transaciona abaixo do valor do cofre?Desconto grande atrai RFV raiders
Liquidez do tesouroQuanto é stablecoins, ETH e BTC face ao próprio token?Muito do próprio token significa valor ilusório
ParticipaçãoQuantas carteiras votam e qual é o quórum?Quórum baixo é fácil de capturar
Direitos perdidosResgatar implica abdicar de voto e de upside?Saída de sentido único
Tipo de janelaO resgate é permanente ou único?Permanente abre risco de corrida ao cofre
AlinhamentoA equipa fundadora apoia ou resiste?Resistência prolonga o conflito

A regra de ouro cabe numa frase: um resgate premeia quem chega cedo e informado e castiga quem chega tarde e distraído. Alguns princípios ajudam a não ser o último a perceber o que está a acontecer.

  • Compara sempre a capitalização do token com o valor líquido do tesouro antes de votar: a diferença é o que está em jogo.
  • Desconfia de tesouros inchados pelo próprio token; o número das manchetes raramente é o dinheiro distribuível.
  • Lê a letra pequena da janela de resgate, porque quem sai tarde pode ficar com os ativos menos líquidos.
  • Lembra-te de que resgatar costuma significar abdicar do voto e de qualquer subida futura; é uma porta de sentido único.

O fim do tesouro como promessa

O resgate muda aquilo que um tesouro de DAO significa. Durante anos foi um arsenal de guerra, a promessa de tudo o que a comunidade ainda ia construir. Em 2026 passou a ser um passivo, uma reivindicação que a maioria pode acionar em qualquer votação. É uma diferença contabilística com consequências enormes: um arsenal justifica um prémio no token; um passivo justifica um desconto.

Vistos em conjunto, os três desfechos do drama das DAO este ano contam a mesma história. Há o assalto, em que o tesouro é roubado; há o recuo, em que é entregue a uma fundação com conselho de administração; e há o resgate, em que é distribuído pelos detentores. Caminhos diferentes, idêntica conclusão: a experiência do tesouro coletivo sem dono não se aguentou de pé.

Isto não significa que as DAO morreram. Como resumiu Denis Smirnov, da DAO Builders, à ForkLog, o que terminou foi a sua primeira versão, demasiado utópica, e não o modelo inteiro (ForkLog). Sobrou algo mais cru e mais honesto: organizações que admitem ter donos, tokens que admitem ter um valor de liquidação e comunidades que admitem ser, em parte, apenas investidores à espera do momento certo.

O que vem a seguir: pisos de NAV, invólucros e a próxima vaga

O outono de 2026 chega carregado de desbloqueios de tokens, que vão testar se as estruturas de governação aguentam choques súbitos na oferta. Quando milhões de tokens novos entram em circulação e o preço afrouxa, o desconto face ao tesouro alarga-se, e com ele o convite aos RFV raiders. A próxima votação de resgate pode já estar a ser escrita num fórum qualquer enquanto lê isto.

Contra essa pressão estão a formar-se três respostas. A primeira é blindar o token com um piso de valor, via recompras ou distribuição de receitas, para que nunca transacione muito abaixo do cofre. A segunda é vestir a DAO com um invólucro legal, como a DUNA, que lhe dá contornos jurídicos e dificulta golpes. A terceira é a mais simples e a mais triste: minimizar a governação, entregar o tesouro a uma fundação e deixar de fingir que a multidão decide.

Seja qual for o caminho, o resgate veio para ficar. É provável que o direito de liquidação passe a ser uma funcionalidade de origem em muitos tokens, transformando certas DAO em fundos fechados disfarçados, com uma opção de venda colada ao ativo. A era do investidor ativista chegou à DeFi e mudou o elenco do drama. O vilão das novelas das DAO já não é o ladrão que arromba o cofre a meio da noite; é o acionista que, em plena luz do dia e sem quebrar uma única regra, vota para se pagar a si mesmo.

Perguntas frequentes

O que é um resgate de tesouro numa DAO?

Um resgate de tesouro acontece quando os detentores de um token de governação votam para distribuir entre si parte dos ativos guardados pela DAO. Em vez de usar o tesouro para financiar o projeto, a comunidade aprova a troca dos tokens por uma fatia proporcional do dinheiro em cofre, normalmente ao valor líquido dos ativos (NAV). Quem resgata recebe ativos como ETH, BTC ou stablecoins e abdica dos seus direitos de voto.

O que foi a proposta GIP-151 da Gnosis?

A GIP-151 foi a proposta, aprovada pela GnosisDAO em junho de 2026 com cerca de 97,5% de apoio, que autorizou um resgate único e voluntário do tesouro. Permitiu aos detentores de GNO trocar os seus tokens por uma parte proporcional de cerca de 156 milhões de dólares em ativos líquidos, a um NAV de aproximadamente 114,67 dólares por token. A janela de depósito abriu a 3 de julho e fechou a 17 de julho de 2026.

O que são RFV raiders?

RFV raiders, de risk-free value, são investidores que compram tokens de DAO cujo tesouro vale mais do que a capitalização de mercado do token e depois fazem campanha para extrair essa diferença, exigindo resgates ou dissoluções. É uma versão on-chain do ativismo que já existe na bolsa com os fundos fechados que transacionam abaixo do valor dos seus ativos. Os casos Aragon, em 2023, e Gnosis, em 2026, são os exemplos mais citados.

Porque é que um token de DAO vale menos do que o seu tesouro?

Porque o detentor raramente tem um direito executável sobre o cofre: só pode votar sobre o que fazer com ele. A isso somam-se o risco de o tesouro ser capturado ou congelado, o controlo exercido por fundadores ou laboratórios e o facto de boa parte das reservas ser muitas vezes o próprio token do projeto, que não se vende sem derrubar o preço. O mercado aplica então um desconto, tal como faz aos conglomerados opacos.

Os resgates de DAO pagam impostos em Portugal?

Com toda a probabilidade, sim. Em Portugal, as mais-valias com criptoativos detidos há menos de um ano são tributadas à taxa de 28%, e um resgate que acabe convertido em euros dificilmente escapa a essa conta. A troca direta entre criptoativos pode adiar o momento da tributação, mas não elimina a obrigação. Como a DAO não é um intermediário regulado pela CMVM, é o próprio investidor que tem de declarar e acautelar a fatura fiscal.

Por Marcus Okafor, editor de Cultura e Longas Leituras da HOGE Wire.

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