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● DeFi & On-chain

Restaking: a base encolheu e concentrou-se em dois operadores

A ether.fi retirou 2,25 milhões de ETH da EigenLayer em 78 dias e o restaking nativo caiu quase 80%, para 643 mil ETH. O pouco que resta concentra-se em dois operadores.

Há um ano, a pergunta sobre o restaking era simples: quem vai alugar toda esta segurança? Havia depósitos recorde, dezenas de redes a nascer e tokens avaliados em milhares de milhões. Em outubro de 2026, a pergunta deixou de fazer sentido, porque o mercado respondeu de uma forma que ninguém publicitou. A segurança não ficou à espera de inquilinos. Levantou-se e saiu pela porta.

O dado que resume o ano não é um preço nem um valor em dólares, é uma simples contagem de ETH. O ETH nativo colocado em restaking na EigenLayer caiu de um máximo próximo de 3,5 milhões de moedas para cerca de 643 mil no final de setembro de 2026, de acordo com a investigação on-chain da Bitquery. Face aos 3,18 milhões que a rede contava a 30 de março, é uma queda de quase 80% em dois trimestres. Não se trata de uma correção de preço; é a base a esvaziar-se. E o que resta ficou nas mãos de muito poucos.

O número que mudou a conversa

Durante quase dois anos, quase toda a discussão sobre restaking girou em torno da procura: haveria serviços suficientes dispostos a pagar por segurança partilhada? A métrica que toda a gente seguia era o TVL em dólares, um número que sobe e desce ao sabor do preço do ETH e que, por isso, engana. Em setembro, com o ETH perto dos €2.168, a mesma quantidade de moedas vale menos do que valia em agosto de 2025, quando a rede chegou perto do seu máximo. Contar ETH nativo retira essa ilusão do caminho. E a contagem é implacável.

A EigenLayer, agora rebatizada EigenCloud, continua a exibir um TVL na ordem dos 5,1 mil milhões de dólares, muito abaixo do pico de 22,06 mil milhões de agosto de 2025, segundo os dados que a DefiLlama compila. Mas esse número mistura ETH nativo, tokens de staking líquido (LST), o próprio EIGEN e outros colaterais. O ETH nativo, a matéria-prima para a qual o protocolo foi desenhado, é hoje uma fatia minoritária do seu próprio balanço: 643 mil moedas valem perto de 1,4 mil milhões de euros aos preços atuais. A camada que prometia alugar a segurança da Ethereum ao resto do mundo mal consegue reter a segurança da própria Ethereum. Quem acompanhou o nosso trabalho recente sobre a oferta do ativo, em escassez sem procura, reconhece o padrão: o valor contabilístico mascara o movimento real do capital.

Como a ether.fi esvaziou a base: 78 dias, 2,25 milhões de ETH

A fuga tem um nome. A 30 de março de 2026, a ether.fi, maior emissor de tokens de restaking líquido, controlava através dos seus operadores 71% de todo o ETH nativo em restaking na EigenLayer: 2,26 milhões de moedas num total de 3,18 milhões. Dito de outro modo, a segurança da rede dependia, em larga medida, de um único cliente. Quando esse cliente decidiu sair, não havia almofada que amortecesse a saída.

A retirada foi rápida e documentada ao detalhe pela Bitquery: 2,25 milhões de ETH levantados ao longo de 78 dias, entre 21 de abril e 8 de julho de 2026. Começou dias depois do ataque à Kelp que abalou o setor (a que voltaremos), acelerou em junho e terminou num único movimento abrupto. A 7 e 8 de julho, a ether.fi retirou 1,13 milhão de ETH em menos de 24 horas. A tabela abaixo reconstrói o calendário.

Período (2026)ETH retirado (aprox.)Nota
21 a 24 de abril~508 milPrimeiros cortes, logo após o incidente Kelp/Aave
13 a 16 de maio~189 milDois movimentos
5 a 12 de junho~558 milSeis movimentos
23 de junho+330 mil (readicionado)Entrada pontual, motivo não divulgado
7 a 8 de julho~1,13 milhãoSaída final, em menos de 24 horas
Total (78 dias)~2,25 milhõesDe 21 de abril a 8 de julho
Retirada de ETH nativo pela ether.fi da EigenLayer. Fonte: Bitquery.

O calendário diz mais do que o total. A entrada pontual de 330 mil ETH a 23 de junho, no meio de uma sequência de saídas, aponta para gestão operacional (rotação de validadores, ajustes de custódia) e não para uma mudança de ideias. E a saída final, mais de um milhão de ETH em menos de 24 horas, não tem o perfil de quem hesita: tem o de quem já decidiu e apenas espera a janela técnica para executar. Para uma rede que vende permanência e confiança, ver o maior cliente sair a esta velocidade é, por si só, um sinal que os restantes operadores leem com atenção.

A ironia da concentração: Kraken 43%, P2P.org 18%

O detalhe mais incómodo não é a queda, é quem ficou. Com a ether.fi fora, o pouco ETH nativo que resta em restaking concentrou-se depressa. Em setembro de 2026, a Kraken detinha 43% do que sobrou e a P2P.org mais 18%, de novo segundo a Bitquery. Dois operadores passaram a responder por cerca de três quintos de toda a segurança nativa que a EigenLayer ainda aluga.

É uma ironia difícil de ignorar para um protocolo cujo argumento de venda era precisamente a descentralização da segurança. A promessa original consistia em distribuir risco por milhares de validadores e operadores independentes; o resultado, depois da fuga, é uma base pequena e concentrada, dominada por uma corretora e por um operador institucional. Quando a quantidade de capital encolhe, a qualidade da descentralização encolhe com ela. Um AVS que confie na EigenLayer para a sua segurança está, na prática, a confiar em meia dúzia de operadores, não numa multidão anónima. A concentração aumenta o custo de um eventual conluio ou falha correlacionada, exatamente o risco que o desenho pretendia diluir.

Vale a pena distinguir dois tipos de concentração. A primeira é benigna na aparência: operadores profissionais, com boa reputação e tempo de atividade elevado, tendem a atrair delegações. A segunda é estrutural: quando a base total é tão pequena, qualquer problema num único operador tem um peso desproporcionado sobre o conjunto. Num setor que vende segurança como produto, a métrica que interessa não é só quanto ETH está depositado, mas quão disperso está esse ETH. Em 2026, ambas as leituras pioraram em simultâneo.

Restaking, em termos simples

Para quem chega agora ao tema, convém recuar um passo. Fazer staking de Ethereum significa bloquear 32 ETH (ou uma fração, através de um serviço) para operar um validador e ajudar a proteger a rede, recebendo em troca uma taxa anual base hoje nos baixos 3%. O staking líquido acrescenta uma camada: em vez de deixar o ETH imobilizado, o utilizador recebe um recibo líquido (um LST, como o stETH ou o weETH) que pode voltar a usar noutras aplicações de DeFi.

O restaking vai mais longe. Permite voltar a oferecer esse ETH (ou o LST) como garantia para proteger serviços de terceiros, os chamados AVS (Actively Validated Services): oráculos, pontes, camadas de disponibilidade de dados, sequenciadores de rollups. Em troca de rendimento extra, o depositante aceita condições de penalização adicionais (slashing) definidas por cada serviço. E, tal como no staking líquido, surgiu um recibo para o próprio restaking: o LRT (liquid restaking token), como o ezETH, o rsETH ou o pufETH, reutilizável noutros protocolos. Cada camada acrescenta rendimento potencial e, com ele, uma nova forma de perder dinheiro.

CamadaO que fazRecibo / tokenRisco principal
Staking baseValidar a Ethereum, 32 ETH por validadorETH (bloqueado)Slashing de consenso (raro)
Staking líquido (LST)Recibo líquido do ETH em staking, reutilizável em DeFistETH, weETHDesvio de preço, risco de contrato
RestakingRe-oferecer o ETH (ou o LST) para garantir AVSDepósito na EigenLayer ou SymbioticSlashing adicional, risco do AVS
Restaking líquido (LRT)Recibo líquido do depósito em restakingezETH, rsETH, pufETH, weETHsRehipotecação, risco em cascata
A pilha de staking da Ethereum, da base ao restaking líquido.

Foi a camada de restaking, e sobretudo a dos LRT, que explodiu em 2024 e 2025 e que agora recua. O staking base e o staking líquido continuam de pé e saudáveis; o que se desfez foi a aposta de que empilhar mais risco por cima geraria rendimento suficiente para compensar.

Porque é que o dinheiro saiu

A razão é aritmética antes de ser filosófica. O restaking só paga se os serviços que compram segurança pagarem taxas reais. Não foi o que aconteceu. Em dados de setembro de 2026 compilados a partir da DefiLlama e noticiados pela Blockhead, a categoria de restaking segurava cerca de 10,02 mil milhões de dólares em ativos e gerava uns meros 99.977 dólares em taxas por semana. O staking líquido, com 51,87 mil milhões, rendia 27,35 milhões de dólares semanais. Por cada dólar de ativos protegidos, o staking simples gerava aproximadamente 53 vezes mais receita. Toda a complexidade adicional do restaking produzia uma fração do rendimento do produto que dizia querer superar.

Quando o prémio pago pelo risco extra desaparece, a decisão racional é sair. Foi o que a ether.fi concluiu. Esta análise é o reverso da moeda que explorámos na peça sobre muita segurança e pouca receita: ali olhámos para a conta de exploração do negócio; aqui olhamos para o que acontece ao colateral quando essa conta não fecha. A resposta é que o colateral vota com os pés. A procura nunca apareceu em escala, e a oferta, que durante meses pareceu infinita, acabou por ceder.

Há ainda um pano de fundo macro que acelerou tudo. Com as taxas de juro de referência elevadas e, pela primeira vez, alternativas sem risco disponíveis na própria cadeia (bilhetes do Tesouro tokenizados e produtos de poupança em stablecoin a render perto de 4%, sem qualquer exposição a slashing), o prémio marginal de 1 a 2 pontos que o restaking oferecia sobre o staking base simplesmente deixou de compensar. Quando o rendimento sem risco já é respeitável, ninguém paga para assumir uma cauda de risco adicional por quase nada.

Orçamento de segurança: o que a EigenLayer protege agora

Há uma forma útil de pensar numa rede de segurança partilhada: como um orçamento. O capital em jogo é aquilo que um atacante teria de pôr em risco para corromper um serviço. Quanto maior o orçamento, mais caro o ataque, mais credível a segurança. Vendida assim, a EigenLayer era uma espécie de cofre coletivo que qualquer AVS podia aproveitar sem ter de montar o seu próprio conjunto de validadores.

Com a base nativa reduzida a 643 mil ETH, esse orçamento encolheu de forma material. Em termos simples, o cofre que protegia os serviços é hoje muito menor do que era há seis meses, e está concentrado em menos mãos. Para a maioria dos AVS que dependiam da segurança alugada, a pergunta prática deixou de ser quanto rendimento posso oferecer aos restakers e passou a ser a segurança que estou a comprar ainda é suficiente para o que protejo. Um oráculo que garanta mil milhões de euros em empréstimos não pode assentar a sua segurança num orçamento que se esvaziou 80% num par de trimestres.

Convém não exagerar na direção oposta: 643 mil ETH continuam a ser perto de 1,4 mil milhões de euros, um orçamento de segurança que a maioria dos protocolos individuais invejaria. O problema não é o valor absoluto, é a trajetória e a dependência. Um orçamento que cai a pique e se concentra transmite fragilidade, mesmo que o número de hoje ainda seja grande. E a segurança é, antes de tudo, um jogo de expectativas: se os utilizadores duvidam da solidez do orçamento, deixam de confiar os seus ativos aos serviços que dele dependem, e a espiral alimenta-se a si própria.

Um exemplo torna a ideia concreta. No pico, perto de 3,5 milhões de ETH respaldavam o conjunto de serviços da rede; hoje são 643 mil. Um AVS que tenha calibrado os seus pressupostos de segurança para o orçamento de 2024 opera agora com menos de um quinto do colchão que assumia, sem que uma única linha do seu próprio código tenha mudado. É o equivalente a uma seguradora ver o capital de reserva encolher enquanto as apólices que subscreveu continuam em vigor. O risco não desaparece porque o capital saiu; apenas fica pior coberto, e cabe a cada serviço decidir se reduz a exposição ou reza para que nada corra mal.

weETH, weETHs e o divórcio do restaking

O gesto que marcou a viragem aconteceu em agosto de 2026, quando a ether.fi retirou o restaking do weETH, o seu token de referência e um dos colaterais mais usados em DeFi. O weETH voltou a ser aquilo que nunca tinha deixado de ser por baixo: um token de staking líquido simples, sem exposição a AVS. Quem continua a querer restaking passou a ter de optar por um produto separado, o weETHs, construído sobre a Symbiotic, uma plataforma rival, e não sobre a EigenLayer. A separação foi explícita e deliberada, como explicou o The Defiant na altura.

O fundador e diretor executivo da ether.fi, Mike Silagadze, foi direto quanto à motivação. «There were no meaningful yield opportunities in restaking and there was some perceived risk from stakers, so we decided it made sense to exit», disse à CoinDesk, numa citação recolhida pela Blockhead. Meses antes, resumira o momento de forma mais emotiva ao The Defiant: «End of an era. Sad. I still think restaking will come back in one form or another, I think it was just a bit too early.» A separação final está agendada para o quarto trimestre de 2026, com a remoção das credenciais de levantamento que ainda ligam a ether.fi à EigenLayer prevista para o fim do ano.

O contraste com o resto do negócio da ether.fi é revelador. Enquanto o restaking definhava, a empresa pivotou para serviços de tipo bancário: cartões de débito cripto, empréstimos e pagamentos. As taxas de cartões passaram de 17% da receita mensal em janeiro para 46% em julho, e a receita desse novo braço, segundo a própria, substituiu por completo o que o restaking e a queda do ETH tinham levado. A marca que incarnou o restaking ganha hoje a vida a vender serviços financeiros, uma transição que enquadrámos no retrato do builder que vira empresa. Não admira que o token ETHFI se aguente: o que o sustenta já não é o restaking.

A conta que não fecha: receita contra emissão

Se as taxas são tão pequenas, de onde vinha o rendimento que atraiu milhares de milhões? Vinha, em larga medida, de emissão: pontos e tokens prometidos, não receita cobrada a clientes. Os protocolos de restaking distribuíram pontos que os utilizadores esperavam ver convertidos em tokens valiosos; os LRT acumularam pontos da EigenLayer e emitiram os seus por cima. Enquanto os tokens subiam, o ciclo parecia rendimento; quando caíram mais de 90% face aos máximos, revelou-se o que era: um empréstimo contra o valor futuro de um token, com o colateral a desvalorizar.

Os números da rentabilidade dos emissores confirmam-no. O lucro bruto combinado dos cinco maiores LRT (Renzo, Kelp, Swell, Puffer e Bedrock) foi de 953.350 dólares no segundo trimestre de 2026, segundo a Blockhead, uma queda face aos 2,18 milhões de três trimestres antes. São negócios que, somados, geram menos do que uma pequena empresa de software. O token EIGEN, que deveria capturar o valor da camada, não tem de onde o tirar: a reforma de incentivos aprovada em dezembro de 2025, a ELIP-012, criou uma recompra financiada por 20% das taxas dos AVS e por 100% das receitas da nuvem, mas 20% de 100 mil dólares semanais é uma gota. No início de outubro de 2026, um único desbloqueio mensal libertou 36,8 milhões de EIGEN, cerca de 10 milhões de dólares; nenhuma recompra alimentada pelas taxas atuais chega perto de compensar essa oferta nova.

TokenPreço (EUR / USD)Cap. de mercadoFace ao ATHO que diz
EIGEN (EigenCloud)€0,2245 / $0,2523~245 M USD-95,5%O token da camada que perdeu a base
ETHFI (ether.fi)€0,6170 / $0,6948~670 M USD-91,9%Aguenta-se pelo neobank, não pelo restaking
BABY (Babylon)€0,01077 / $0,01209~59 M USD-92,7%Bitcoin restaking; TVL resiste, token não
Cotações a 16 de outubro de 2026. Fonte: CoinGecko (EIGEN, ETHFI, BABY).

Repare-se no detalhe: o EIGEN subiu cerca de 14,5% na última semana, mais do que o ETH no mesmo período. Não é procura por segurança a regressar; é o alívio especulativo típico depois de um desbloqueio digerido, mais a subida geral do mercado. O preço do token continua a dizer mais sobre o apetite por risco do que sobre quem aluga segurança na rede.

Quem recolhe a fuga: Symbiotic e Babylon

Nem todo o capital que saiu da EigenLayer evaporou. Parte migrou para desenhos concorrentes, e é aqui que a história ganha nuance. A Symbiotic, que recebeu o weETHs da ether.fi, aceita qualquer ERC-20 como colateral e não lançou um token público; sobreviveu à vaga precisamente por não ter um token especulativo para defender. Em julho de 2026 apresentou o Core V2, orientado para «mercados de colateral» e para capital institucional. Misha Putiatin, cofundador da Symbiotic, resumiu a tese numa nota de lançamento: «Collateral markets are not a new financial idea. What is new is making them composable, enforceable, and capital-efficient onchain.» Por outras palavras, o produto nunca foi o token; era a mecânica.

A Babylon ocupa o outro extremo do mapa. Em vez de ETH, usa Bitcoin nativo, bloqueado através dos próprios scripts de timelock da rede, sem pontes nem wrapping, para proteger cadeias que optem por aderir. Mantém um TVL na ordem dos 3 mil milhões de dólares, mas o token BABY segue mais de 90% abaixo do máximo, a mesma desconexão entre adoção e preço que marca todo o setor. A tabela resume os quatro desenhos.

PlataformaColateralToken públicoEstado em 2026
EigenLayer / EigenCloudETH nativo + LSTEIGENBase nativa -80%; pivô para computação verificável
SymbioticQualquer ERC-20NãoCore V2, mercados de colateral; recolhe parte da fuga
KarakMulti-ativoEstatuto pouco claroTerceiro player, perfil discreto
BabylonBitcoin nativo (timelock)BABY~3 mil milhões em TVL; sem wrapping
Mapa das principais plataformas de restaking em 2026.

O padrão é nítido: os desenhos que não dependem de um token nativo para gerar rendimento (Symbiotic, Karak) ou que assentam num ativo exterior à própria economia de incentivos (o Bitcoin, na Babylon) atravessam a vaga em muito melhor forma do que a EigenLayer, cuja proposta ficou demasiado presa ao valor do EIGEN. Quando o token é o produto, a queda do token é a queda do negócio.

O risco que não saiu com a procura

Há uma parte desconfortável nesta retirada: o capital foi-se, mas o risco de engenharia que a camada de LRT introduziu no sistema não desapareceu com ele. O exemplo canónico continua a ser o ataque à Kelp, em abril de 2026. Atacantes exploraram a ponte entre cadeias da Kelp e cunharam 116.500 rsETH do nada (cerca de 292 milhões de dólares), depositando-os de seguida como colateral na Aave para pedir ETH emprestado, o que deixou perto de 196 milhões de dólares em dívida incobrável no maior mercado de empréstimos de DeFi, como relatou a CoinDesk.

A lição não foi sobre restaking em si, foi sobre rehipotecação: um recibo de restaking aceite como garantia noutro protocolo sem que o risco da ponte subjacente fosse corretamente avaliado. O fundador da Aave, Stani Kulechov, chegou a comprometer pessoalmente 5.000 ETH para o esforço de recuperação, concluído por volta de junho (117.132 rsETH foram queimados e a ponte migrou para uma arquitetura mais robusta). O episódio mostra que a infraestrutura de pontes e colateral que suporta estes tokens é tão forte quanto o seu elo mais fraco, um tema que tratámos ao detalhe no mapa da guerra das bridges. Com menos capital no sistema, há menos a arriscar, mas as mesmas falhas de desenho permanecem à espera do próximo ciclo de alavancagem.

Há ainda uma interação perversa entre a base menor e a rehipotecação. Quando o capital é abundante, uma falha num LRT dilui-se por um sistema grande; quando a base encolhe e se concentra, o mesmo erro pesa muito mais sobre cada participante. Menos capital não significa, portanto, menos risco sistémico por unidade investida: significa que cada euro que resta carrega uma fatia maior da exposição às pontes, aos oráculos e aos contratos que ligam estes recibos ao resto da DeFi. É por isso que a saída da procura não deve ser confundida com a saída do perigo; são coisas diferentes, e só a primeira aconteceu.

EigenCloud: a plataforma vira seu próprio cliente

Perante a falta de clientes externos, a EigenLayer fez o que muitas infraestruturas fazem quando a procura não aparece: tratou de a fabricar. A rebranding para EigenCloud e o empurrão para computação verificável, com os produtos EigenCompute e EigenAI (execução em ambientes confiáveis sobre a nuvem, ancorada on-chain), posicionam a própria plataforma como o principal AVS da sua rede. A aposta foi apoiada por um investimento de 70 milhões de dólares da a16z em meados de 2025, noticiado pela CoinDesk, e o argumento mudou de «aluga a nossa segurança» para «constrói aplicações de IA verificáveis sobre a nossa segurança».

Pode funcionar, mas é uma admissão implícita de que a procura por segurança partilhada pura e dura não chegou. Uma plataforma que se torna o seu próprio inquilino ainda tem de provar que o novo caso de uso gera receita real, e não apenas mais uma narrativa. Até lá, a computação verificável é promessa, não demonstração, e o orçamento de segurança que a sustenta é precisamente o que acabou de encolher 80%.

Vitalik e Kannan, validados pelos factos

Nada disto deveria surpreender quem leu os avisos iniciais. Já em maio de 2023, Vitalik Buterin publicou «Don’t overload Ethereum’s consensus», onde alertava contra o perigo de sobrecarregar o consenso da rede com responsabilidades externas. «Any expansion of the ‘duties’ of Ethereum’s consensus increases the costs, complexities and risks of running a validator», escreveu, acrescentando que o consenso social de uma blockchain é «a fragile thing» que cada extensão torna mais frágil. O texto continua disponível no seu blogue e lê-se hoje como profecia.

Sreeram Kannan, fundador da Eigen Labs e, portanto, do próprio EigenLayer, foi igualmente franco numa entrevista à CoinDesk em setembro de 2023: «Anything that restaking can do, already liquid staking can do, so I view restaking as a lesser risk than liquid staking.» É uma formulação notável, porque relativiza o restaking em vez de o vender como revolução. Três anos depois, o mercado confirmou a cautela: o staking líquido ficou de pé, enquanto a camada construída por cima recuou. A inovação não estava errada; estava, como disse Silagadze, «a bit too early», e talvez a cobrar demasiado risco por um prémio que o mercado deixou de pagar.

Há uma leitura mais generosa, que convém não ignorar. O restaking resolveu um problema real: montar um conjunto de validadores de raiz é caro e lento, e poder alugar segurança já existente continua a ser uma ideia elegante. O que falhou não foi a engenharia, foi o momento e o preço. Faltaram serviços dispostos a pagar, sobrou capital à procura de rendimento fácil, e o encontro entre os dois nunca aconteceu à escala prometida. Se um dia surgir uma aplicação que precise mesmo de segurança alugada e esteja disposta a pagá-la, a infraestrutura estará lá, mais magra e mais barata. A dúvida é se isso chega antes de o setor perder a relevância por completo.

O que isto significa para um investidor em Portugal

Para o leitor português, três planos distinguem-se. O primeiro é regulatório. O restaking oferecido por um intermediário que custodia os ativos do cliente (uma corretora, por exemplo) cai, com forte probabilidade, no âmbito dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP) ao abrigo do MiCA. Em Portugal, a supervisão divide-se: o Banco de Portugal trata da autorização e da supervisão prudencial dos CASP, enquanto a CMVM assegura a supervisão comportamental e a deteção de abuso de mercado. O regime foi concretizado pela Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, com o período transitório a terminar a 1 de julho de 2026. As coimas por serviços não autorizados podem ir de 25.000 a 5.000.000 de euros, segundo o Diário da República.

O segundo plano é o da proteção. Quando um utilizador interage diretamente, sem intermediário, com um protocolo descentralizado, está em larga medida fora do perímetro do MiCA: não há teste de adequação, não há fundo de garantia, não há recurso à CMVM se o contrato inteligente falhar ou se um AVS aplicar slashing. A autocustódia transfere todo o risco para o utilizador. E convém lembrar que os derivados de criptoativos (futuros, perpétuos) são instrumentos financeiros sob a DMIF II, supervisionados pelo regulador de mercados, e não pelo MiCA, que cobre apenas os criptoativos à vista e os CASP.

O terceiro plano é fiscal. Em Portugal, as mais-valias com criptoativos detidos menos de 365 dias são tributadas a 28%, enquanto as posições de longo prazo beneficiam, em regra, de isenção. O enquadramento das recompensas de staking e restaking, pagas em espécie, continua a ser interpretado caso a caso, pelo que vale a pena confirmar a situação concreta com um contabilista antes de assumir um tratamento. A partir de 2026, a diretiva europeia DAC8 alarga ainda a troca automática de informação sobre criptoativos entre administrações fiscais, o que reduz o espaço para omissões.

O que vigiar a seguir

O recuo não encerra a história; abre um novo capítulo cujos sinais vale a pena seguir. Primeiro, a conclusão da saída da ether.fi: a remoção das credenciais de EigenPod, prevista para o fim do ano, confirmará se o divórcio é definitivo. Segundo, a concentração dos operadores: se a Kraken e a P2P.org continuarem a ganhar peso, a narrativa de segurança descentralizada perde ainda mais força. Terceiro, o surgimento de um primeiro AVS que pague receita real e recorrente, e não emissão; seria o sinal de que existe um negócio por baixo da narrativa.

Por fim, o pano de fundo macro. Qualquer viragem na política de juros altera o cálculo do custo de oportunidade que esvaziou o setor; as datas das próximas reuniões dos bancos centrais constam do nosso calendário regulatório e macro, e são tão relevantes para o restaking como qualquer upgrade técnico. Se o rendimento sem risco recuar, o prémio do restaking pode voltar a parecer atraente. Até lá, a lição de 2026 é simples: construiu-se uma enorme capacidade de segurança para a qual nunca apareceu procura suficiente, e quando o capital percebeu isso, foi-se embora depressa. O que sobrou é mais pequeno, mais concentrado e mais barato. Saber se isso é o fundo de um ciclo ou o princípio de uma lenta irrelevância é, por agora, a única pergunta que ainda interessa.

Perguntas frequentes

O que é restaking e como funciona?

Restaking é voltar a oferecer ETH que já está em staking (ou um recibo de staking líquido) como garantia para proteger serviços de terceiros, os AVS, como oráculos, pontes ou camadas de dados. Em troca de rendimento adicional, o depositante aceita novas condições de penalização, o slashing. A EigenLayer popularizou o modelo; a Symbiotic e a Babylon são alternativas.

Porque é que a ether.fi saiu da EigenLayer?

Porque o restaking deixou de compensar o risco. Segundo o diretor executivo Mike Silagadze, não havia oportunidades de rendimento relevantes e os utilizadores passaram a perceber o risco, pelo que a empresa decidiu sair. A ether.fi retirou 2,25 milhões de ETH entre abril e julho de 2026 e passou a focar-se em cartões e empréstimos.

Quanto ETH resta em restaking na EigenLayer em 2026?

O ETH nativo em restaking na EigenLayer caiu de um máximo próximo de 3,5 milhões de moedas para cerca de 643 mil no final de setembro de 2026, uma queda de quase 80%. O que resta está concentrado: a Kraken detinha 43% e a P2P.org 18%.

O restaking ainda compensa pelo rendimento?

Para a maioria dos utilizadores, cada vez menos. A categoria de restaking segurava cerca de 10 mil milhões de dólares mas gerava menos de 100 mil dólares em taxas por semana, enquanto o staking líquido rendia cerca de 53 vezes mais por dólar protegido. Com alternativas sem risco a render perto de 4%, o prémio extra deixou de pagar o risco de slashing.

Como é tributado e regulado o restaking em Portugal?

O restaking custodial (oferecido por uma corretora) tende a cair no âmbito dos CASP sob o MiCA, com o Banco de Portugal a autorizar e a CMVM a supervisionar a conduta. A interação direta com um protocolo descentralizado fica, em larga medida, fora do MiCA, sem rede de proteção. No plano fiscal, as mais-valias de curto prazo são tributadas a 28% e o tratamento das recompensas deve ser confirmado caso a caso.

Por Yuki Tanaka, HOGE Wire. Análise editorial; não constitui aconselhamento financeiro.

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