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● Predictions & Forecasts

Stock-to-flow: até o PlanB já navega por médias móveis

O stock-to-flow ainda aponta 500 mil dólares, mas o próprio PlanB já opera por médias móveis, preço realizado e dificuldade. A distância entre o cartaz e a prática é o veredicto de 2026.

No fim da tarde de 19 de outubro de 2026, o Bitcoin troca a cerca de 73.249 euros (81.648 dólares), segundo a CoinGecko, uns 32% abaixo do máximo histórico de 107.662 euros marcado a 6 de outubro de 2025. O modelo de preço mais citado do último ciclo, o stock-to-flow de PlanB, continua a ter um número colado à parede: uma média à volta dos 500 mil dólares (perto de 448 mil euros) para o período de 2024 a 2028. A esse nível, o Bitcoin teria de subir mais de seis vezes a partir de onde está hoje.

O detalhe mais revelador de 2026 não é o modelo voltar a falhar o alvo. É o facto de a pessoa que o construiu ter deixado de o usar para ler o mercado. Quando precisa de decidir se o fundo já passou, se a tendência virou ou se vale a pena comprar, PlanB fala de médias móveis de 200 semanas, de preço realizado, de RSI e de dificuldade de mineração. O mapa na parede diz uma coisa; a bússola que ele tem na mão aponta para outro lado.

Este artigo não repete apenas que o stock-to-flow errou, pois isso já está arrumado. Olha para uma falha mais silenciosa e mais eloquente: o próprio criador migrou, na prática, para as ferramentas de preço-contra-tempo que os críticos sempre disseram estar a fazer todo o trabalho. A seguir, o que o modelo promete, o que PlanB observa agora e porque é que o número dos 500 mil continua de pé mesmo depois de a sua utilidade ter sido abandonada por quem o inventou.

O que o stock-to-flow promete

O stock-to-flow (literalmente, existência sobre fluxo) é um rácio emprestado da análise de matérias-primas. Divide-se o stock existente de um ativo pela quantidade nova produzida a cada ano. Quanto maior o rácio, mais raro e mais difícil de inflacionar é o bem. O ouro tem um rácio à volta de 62, a prata uns 22. PlanB, um analista pseudónimo conhecido no X como @100trillionUSD, publicou em março de 2019 o estudo «Modeling Bitcoin’s Value with Scarcity» e aplicou a ideia ao Bitcoin, encontrando uma correlação de cerca de 95% (o chamado R quadrado) entre o rácio e o valor de mercado, como recorda a explicação da CoinGecko.

A mecânica é simples, e é isso que a torna sedutora. De quatro em quatro anos, o halving corta para metade a emissão de novos bitcoins, o que duplica o rácio stock-to-flow. Se o preço seguir o rácio, então cada halving deveria empurrar o valor para um novo patamar. Em abril de 2024, a recompensa caiu de 6,25 para 3,125 BTC por bloco, reduzindo a oferta nova para cerca de 450 moedas por dia e levando o rácio para perto de 119, acima do ouro. Em abril de 2020, PlanB foi mais longe com o modelo cross-asset S2FX, que projetava uma capitalização de 5,5 biliões de dólares e um preço médio de 288 mil dólares (cerca de 258 mil euros) entre 2020 e 2024, com um R quadrado de 99,7%.

Hoje o cartaz aponta para uma média de cerca de 500 mil dólares no ciclo de 2024 a 2028, com uma banda que vai de 250 mil a 1 milhão de dólares, como PlanB reiterou à Yahoo Finance. A tabela seguinte mostra como o número nasce: do rácio, e apenas do rácio.

AtivoRácio stock-to-flow (aprox.)Inflação anual da oferta
Ouro62~1,6%
Prata22~4,5%
Bitcoin (pós-2016)27~3,7%
Bitcoin (pós-2020)56~1,8%
Bitcoin (pós-2024)119~0,83%
Bitcoin (pós-2028, estimado)240~0,4%

O sinal que o próprio criador deixou de usar

Olhe-se para o que PlanB faz, não para o que vende. Em fevereiro de 2026, com o Bitcoin já em queda a partir do topo de 126 mil dólares, traçou quatro cenários de mercado baixista. Nenhum deles saiu do stock-to-flow. Saíram todos de níveis técnicos: a média móvel de 200 semanas, que na altura estava nos 58 mil dólares, e o preço realizado, nos 55 mil, segundo a Bitbo. O cenário mais severo apontava uma queda de 80% para perto de 25 mil dólares; o mais provável, um fundo entre 50 mil e 60 mil dólares, exatamente sobre essas duas linhas. O número que não apareceu em lado nenhum para marcar o fundo foi o de 500 mil.

A linguagem mudou a reboque da prática. O alvo de meio milhão passou a ser descrito como «um sinal de valor» que, nas palavras do próprio, «não foi concebido para identificar topos ou fundos». Dito de outra forma: o modelo deixou de servir para a única coisa que um investidor precisa de saber, que é quando comprar e quando vender. Para isso, PlanB usa médias móveis de 200, 100 e 50 semanas, o preço realizado e o RSI, o mesmo arsenal de qualquer analista técnico que nunca ouviu falar de escassez.

Os sinais que PlanB passou a dar seguem essa gramática técnica. Ao mapear o seu cenário para outubro de 2026, destacou que o Bitcoin tinha reconquistado a média móvel de 365 dias, um gatilho de preço, não de oferta. O stock-to-flow, esse, não tem gatilhos: aponta para cima e espera que o tempo lhe dê razão.

Na mesma análise, PlanB admitiu algo que a tese dos quatro anos nunca devia permitir: o padrão clássico «não aconteceu depois do halving de 2024». O ciclo que o modelo pressupõe, com o topo a surgir no primeiro ou segundo ano após o halving, simplesmente não se materializou. É uma concessão enorme vinda de quem fez da periodicidade a espinha dorsal da sua previsão. Quem quiser ver a cronologia completa desse ciclo encontra-a na forma como a liquidez venceu a escassez ao longo de 2026.

A dificuldade de mineração «reflete melhor o preço»

O momento mais nítido desta mudança chegou a 17 de setembro de 2026. Com o Bitcoin nos 82.106 dólares e a dificuldade de mineração perto dos 127 biliões, PlanB disse à KuCoin que a dificuldade «reflete melhor o preço de mercado do que modelos como o S2F ou as leis de potência», porque acompanha de perto o hashrate e o custo de produção das moedas.

Repare-se no alcance da afirmação. PlanB não está apenas a pôr de lado o seu próprio modelo; está a passar à frente também do herdeiro que muitos apontam como substituto, a lei de potência, para ancorar o preço num custo real de produção. É o oposto da escassez pura. A escassez olha só para a oferta fixada no código; o custo de produção olha para a procura, para a energia, para o hardware e para a economia dos mineradores. Um é uma constante conhecida com anos de antecedência; o outro move-se todos os dias.

Os números dão motivo para desconfiar da escassez como âncora. Segundo os relatórios de mineração da CoinShares, o custo de caixa médio ponderado para produzir um bitcoin entre os mineradores cotados rondava os 80 mil dólares no fim de 2025 e recuou para perto de 75.500 dólares (antes de impostos) no segundo trimestre de 2026; o custo total, que inclui amortizações e juros, é bem mais alto (cerca de 113 mil dólares na Riot, 136 mil na CleanSpark). Durante boa parte de 2026, o Bitcoin negociou em torno ou abaixo desse custo de caixa, perto dos 70 mil euros, um sinal de stress para os mineradores que um modelo de pura oferta nem sequer consegue registar.

Esta âncora tem história. A ideia de que o custo de produção funciona como um piso para o preço do Bitcoin é defendida há anos por analistas como Charles Edwards, e ganhou força em 2026, quando vários mineradores cotados reportaram vender parte das moedas que extraíam para aguentar as contas. Quando o preço cai abaixo do custo de caixa, os mineradores menos eficientes desligam máquinas, a dificuldade ajusta em baixa e a rede reequilibra-se. É um mecanismo de retroação real entre preço, procura de bloco e economia de energia, precisamente o tipo de relação causal que falta ao stock-to-flow.

O roteiro de 2024 contra a realidade

Para medir a distância entre a promessa e a prática, vale a pena recuperar o roteiro grandioso que PlanB publicou em novembro de 2024, no arranque deste ciclo. Noticiado pela Bitcoinist, previa um pico acima de 1 milhão de dólares entre julho e dezembro de 2025, uma fase de «distribuição» à volta dos 500 mil dólares em 2026 e um fundo de mercado baixista perto dos 200 mil dólares em 2027. Pelo caminho, marcos como 100 mil dólares antes de dezembro de 2024, 150 mil no fim desse mês e 200 mil em janeiro de 2025.

A realidade seguiu outro guião. O Bitcoin chegou de facto aos 100 mil dólares no fim de 2024, e aí o roteiro acertou. Mas a parábola nunca apareceu. O máximo deste ciclo ficou-se pelos 126.198 dólares (107.662 euros) a 6 de outubro de 2025, menos de um oitavo do milhão prometido, e desde então o preço desceu para a casa dos 73 mil euros. Não houve distribuição a 500 mil nem nada que se parecesse. O quadro seguinte confronta o plano com o que aconteceu.

Roteiro de PlanB (nov. 2024)Realidade
100 mil dólares antes de dez. 2024Atingido no fim de 2024 (parcialmente certo)
150 mil dólares no fim de dez. 2024Não aconteceu
200 mil dólares em jan. 2025Não aconteceu
Pico acima de 1 milhão entre jul. e dez. 2025Pico real de 126.198 dólares a 6 out. 2025
Distribuição a cerca de 500 mil em 2026Entre cerca de 73 mil e 86 mil dólares ao longo de 2026
Fundo a cerca de 200 mil em 2027Por confirmar, mas implausível partindo de 73 mil euros

O que o PlanB observa agora contra o que o S2F vê

Se o criador navega por outros instrumentos, vale a pena pôr lado a lado o que ele observa hoje e o que o stock-to-flow consegue ver. A assimetria é gritante. Cada ferramenta do kit de trabalho de PlanB é uma função do preço ou da procura on-chain, que se movem todos os dias; o stock-to-flow tem uma única entrada, o calendário de emissão, que é conhecido até ao último bitcoin com uma década de antecedência.

Ferramenta que PlanB usa agoraO que medeO que o S2F vê
Média móvel de 200 semanasFundo histórico e custo médio de longo prazoNada (só a oferta)
Preço realizadoBase de custo agregada on-chainNada
RSIMomentum e zonas de sobrecompraNada
Dificuldade de mineraçãoHashrate e custo de produçãoNada
Médias de 100 e 50 semanasTendência de médio prazoNada

Há um pormenor que o quadro não mostra: a média móvel de 200 semanas não é fixa. Em janeiro de 2026 estava nos 58 mil dólares e foi subindo ao longo do ano, à medida que preços mais altos entram no cálculo. Essa é precisamente a diferença entre um indicador que responde ao mercado e um modelo que o ignora. A dificuldade de mineração, por seu lado, ajusta-se a cada duas semanas ao poder de computação ligado à rede, funcionando como um termóstato que o preço aquece ou arrefece.

O historial de falhas que o modelo acumulou

A migração de PlanB não aconteceu num vácuo. Assenta sobre um historial de falhas que o modelo foi somando. A mais célebre é o floor model de 2021, uma variante que previa preços mínimos mensais. Acertou em agosto (47 mil), setembro (43 mil) e outubro (cerca de 63 mil), e depois falhou redondamente: previa um mínimo de 98 mil dólares em novembro e 135 mil em dezembro, mas o mês fechou perto dos 57 mil (uma falha que a CoinGecko regista). PlanB admitiu-o na altura, chamando-lhe «a primeira falha do floor model» e «um grande falhanço, o primeiro em dez anos».

A partir daí, o afastamento só se agravou. A 18 de junho de 2022, o preço rompeu em baixa a banda inferior do próprio stock-to-flow, caindo para a casa dos 17.600 dólares, e em novembro desse ano o colapso da FTX levou-o a cerca de 15.500 dólares, um mundo de distância de qualquer trajetória que o modelo admitisse. Já o S2FX, que prometia uma média de 288 mil dólares entre 2020 e 2024, cruzou-se com uma realidade de cerca de 34 mil de média, o que o próprio PlanB acabou por reconhecer ao comparar o modelo original (que apontava 55 mil de média) com o que de facto aconteceu. O quadro resume o cadastro. É sobre esta base que assenta o cartaz dos 500 mil.

Previsão do S2F / PlanBPeríodoO que aconteceu
Floor a 47 mil / 43 mil / 63 milago. a out. 2021Acertou
Floor a 98 milnov. 2021Falhou (fechou perto de 57 mil)
Floor a 135 mildez. 2021Falhou
Banda inferior do S2Fjun. 2022Rompida em baixa (perto de 17,6 mil)
S2FX: média de 288 mil2020 a 2024Média real de cerca de 34 mil
Média de 500 mil2024 a 2028 (em curso)Cerca de 73 mil euros / 82 mil dólares hoje

Porque é que o número 500.000 continua de pé

Se o autor já não o usa para operar, porque é que o alvo dos 500 mil sobrevive? A primeira razão é linguística. Foi reclassificado de previsão para «sinal de valor», uma fórmula sem prazo. Uma previsão com data pode ser avaliada; um sinal de valor que se realizará algures no ciclo não pode ser desmentido em nenhum horizonte útil. O que não é falsificável não pode estar errado, mas também nunca pode estar certo.

A segunda razão é psicológica. Vitalik Buterin resumiu-a num aviso que continua a ser a crítica mais citada ao género: «modelos financeiros que dão às pessoas uma falsa sensação de certeza e de predestinação de que o número só pode subir são prejudiciais e merecem toda a troça que recebem», escreveu em junho de 2022, segundo The Block. A procura de certezas é poderosa, e um gráfico que promete um destino inevitável vende-se melhor do que a honestidade de dizer que o preço depende de forças que ninguém controla.

A terceira é a sobrevivência da narrativa. Lembramo-nos do único meio-acerto do modelo, a subida de 2020 e 2021, e esquecemos as falhas. O próprio PlanB mantém o hábito: em setembro de 2026 partilhou «um cenário» (não uma previsão, insistiu, apenas matéria para reflexão) com o Bitcoin a chegar aos 100 mil dólares em outubro, um novo máximo antes do Natal e mais de 232 mil dólares em 2027 e 2028, como noticiou a news.bitcoin.com. A ressalva de que é só um cenário, com o leitor a atribuir as probabilidades, é a própria blindagem: ganha-se o crédito se acertar, perde-se pouco se falhar.

Há ainda uma quarta razão, mais subtil: a reflexividade. O único episódio em que o stock-to-flow pareceu funcionar, o ciclo de 2020 e 2021, foi em parte uma profecia autorrealizável. Milhares de investidores de retalho olhavam para o mesmo gráfico e compravam ao mesmo tempo, transformando a crença coletiva num ponto de coordenação. Esse mecanismo esvaziou-se quando o comprador marginal passou a ser institucional: um fundo que gere um ETF não dimensiona a posição a partir de um cartaz de escassez. Sem a multidão a acreditar em uníssono, a parte do modelo que dependia da fé perdeu o combustível.

A tautologia que a estatística não perdoa

Por baixo da narrativa há um problema de estatística que nenhuma recalibração resolve. O valor de mercado de um ativo é, por definição, o stock multiplicado pelo preço. O stock-to-flow, por seu lado, é o stock a dividir pelo fluxo. Ao regredir um contra o outro, PlanB colocou o stock dos dois lados da equação. O que o gráfico mostra não é o preço a seguir a escassez; é o stock a seguir-se a si próprio. O analista Level39 descreveu-o, na Bitcoin Magazine, como um ajuste «cientificamente inútil».

Cory Klippsten, da Swan Bitcoin, foi mais direto: «o modelo está autocorrelacionado. Não precisa do S2F para nada. É só o preço em função do tempo.» Depois de ajustar essa autocorrelação, o R quadrado desmorona-se. E aqui fecha-se o círculo deste artigo: quando PlanB passou a orientar-se por médias móveis de 200 semanas, fez exatamente o que Klippsten descreveu, trocou o rácio por preço em função do tempo. A crítica tornou-se prática, pela mão do próprio autor.

Há mais. O stock-to-flow é uma regressão de duas séries não estacionárias, ambas em tendência de subida ao longo do tempo, o tipo de relação que a econometria chama espúria: duas coisas que sobem juntas sem que uma explique a outra. Vários críticos notaram a ausência de cointegração entre as duas séries. E a base de dados é minúscula: desde 2009 houve apenas quatro halvings, ou seja, quatro observações do evento que supostamente comanda o preço. Quatro pontos não são uma amostra; são uma anedota com gráfico.

A procura que o modelo não vê: ETF e o dia 10 de outubro

O defeito de fundo é conceptual e resume tudo: o stock-to-flow modela a oferta e é cego à procura. Durante anos isso pareceu não importar, porque a oferta nova era a história dominante. Em 2026 já não é. A procura passou a ser tudo, e a oferta tornou-se a parte previsível e aborrecida da equação.

O teste decisivo correu em direto. O halving de abril de 2024 chegou a horas, exatamente como estava no código: o fluxo caiu para metade, o rácio duplicou. Se a escassez mandasse, o preço devia ter disparado no ano seguinte. Em vez disso, subiu até outubro de 2025 e depois caiu cerca de 32%. A única coisa que o modelo garantia, a oferta, cumpriu-se, e o preço fez o contrário. É a falsificação mais limpa possível.

E houve um dia que nenhum modelo de oferta podia antecipar. A 10 de outubro de 2025, no auge do ciclo, um titular sobre tarifas de 100% dos EUA à China desencadeou a maior cascata de liquidações da história, cerca de 19 mil milhões de dólares, com o Bitcoin a cair de perto de 122 mil para 105 mil dólares em poucas horas. Foi um evento puro de alavancagem, de procura e de posicionamento, invisível para quem só olha para a emissão. O que move de facto o Bitcoin hoje é outra lista:

  • O halving de abril de 2024 (o único fator que o S2F vê)
  • Os fluxos dos ETF à vista, a comprar e a vender desde janeiro de 2024
  • As tesourarias corporativas, da Strategy a dezenas de imitadoras
  • A política da Fed, que subiu as taxas 25 pontos base em setembro de 2026
  • A liquidez do Tesouro dos EUA e as suas recompras de dívida
  • A alavancagem e o crash de 10 de outubro de 2025

Dos seis motores, o stock-to-flow vê um. Os outros cinco, da procura institucional à alavancagem que rebentou a 10 de outubro, passam ao lado do radar. Quem quiser perceber como a base dos futuros e o carry amplificam estes movimentos encontra a mecânica explicada em a base dos futuros e o carry.

O que realmente move o preço em 2026

Se o Bitcoin é hoje um ativo macro, a previsão de preço é uma previsão macro. A Reserva Federal subiu a taxa diretora 25 pontos base em setembro de 2026, para o intervalo de 3,75% a 4%, a primeira subida desde 2023, já sob a presidência de Kevin Warsh. A leitura de inflação de setembro, conhecida a meio de outubro, veio mais quente do que o esperado e empurrou o mercado para antecipar mais aperto, com dezembro em aberto. Nada disto cabe num rácio de oferta.

É por isso que os alvos dos analistas para 2026 se movem ao sabor dos dados macro e não do calendário de halvings, e que a questão de fundo passou a ser se a cripto fica presa entre a pausa e o aperto de dezembro. O preço reage a reuniões de bancos centrais e a fluxos de ETF em dias, enquanto a oferta nova se arrasta a um ritmo de menos de 1% ao ano. Pedir ao stock-to-flow que explique 2026 é como usar um calendário para prever o tempo: diz-nos que estação é, não se vai chover amanhã.

Veja-se a escala da nova procura. Os ETF à vista de Bitcoin nos Estados Unidos passaram a mover, nalguns dias, centenas de milhões de dólares num só sentido, e é esse fluxo, somado às compras das tesourarias corporativas, que marca o tom das semanas. Nenhuma dessas ordens consulta o rácio stock-to-flow antes de ser executada. O comprador marginal de 2026 não é o entusiasta que descobriu um gráfico de escassez no X; é uma mesa institucional que reage a taxas de juro, a spreads de crédito e a mandatos de alocação.

A ironia é que o próprio Bitcoin confirma a tese. A escassez programada é real e cumpre-se ao bloco; o que não se cumpre é a inferência de que a escassez fixa o preço. O ouro, que tem o rácio stock-to-flow mais alto de qualquer matéria-prima física (à volta de 62), vê o seu preço mandado pelas taxas de juro reais, pelas compras dos bancos centrais e pelo dólar, não pela escassez. A mercadoria que o modelo cita como prova é também a que o desmente.

A defesa do PlanB (e porque não chega)

É justo dar a PlanB a sua melhor defesa. Ele nunca prometeu uma data; argumenta que o stock-to-flow sempre foi sobre a direção ao longo de ciclos, não sobre o preço de uma terça-feira. Lembra que o modelo original apontava uma média de 55 mil dólares entre 2020 e 2024 e a realidade ficou nos 34 mil, o que, diz, acerta na ordem de grandeza. E tem razão em dois pontos: o Bitcoin é mesmo escasso, e o halving é mesmo real e pontual.

O problema é que nada disto torna o modelo utilizável. Uma banda que vai de 250 mil a 1 milhão de dólares é um intervalo de quatro para um; com ela não se dimensiona uma posição nem se gere risco. Um alvo sem prazo não pode ser desmentido, logo também não pode ser confirmado. E a defesa de que o modelo acerta na direção esbarra no facto já descrito: a oferta, a única coisa que o modelo controla, cumpriu-se à risca em 2024, e o preço foi para o lado oposto. Acertar na direção do Bitcoin a dez anos não precisa de stock-to-flow; precisa de acreditar que a adoção cresce, o que é uma aposta, não um modelo.

Nico Cordeiro, da Strix Leviathan, tinha avisado em 2020, na CoinDesk, que o stock-to-flow é um modelo «camaleão», capaz de se recolorir a cada recalibração para parecer que sempre esteve certo, e que teve «tanto sucesso a prever o preço como os modelos astrológicos do passado». Seis anos depois, a melhor prova de que tinha razão é ver o criador do modelo a pousar a carta astral e a pegar numa média móvel.

A lei de potência herda o mesmo defeito

Se o stock-to-flow morreu, qual é o herdeiro? O candidato mais citado é a lei de potência, popularizada por Giovanni Santostasi, que ajusta o preço do Bitcoin a uma função do tempo decorrido desde o bloco génese, algo como o preço a crescer com os dias elevados a uma potência de cerca de 5,8. Em escala logarítmica, o resultado é um corredor que parece encaixar quase tão bem como o S2F encaixava, e que projeta seis dígitos depois de 2028 e sete dígitos algures na década seguinte.

O problema é que a lei de potência tropeça exatamente onde o stock-to-flow tropeçou. É também uma curva de preço em função do tempo, a mesma circularidade que Klippsten apontou, só que com melhor geometria. Não modela a procura: nada nela sabe o que é um ETF, uma tesouraria ou uma subida de taxas. E as suas bandas são tão largas (conforme o expoente escolhido, os alvos para 2030 divergem em centenas de milhares de dólares) que é difícil imaginar um resultado que a desminta num horizonte útil. Não é por acaso que o próprio PlanB, ao procurar um indicador fiável, saltou por cima da lei de potência e foi parar à dificuldade de mineração. Quando o próprio inventor do stock-to-flow põe de lado tanto o seu modelo como o sucessor que outros lhe apontam, talvez o problema não esteja na calibração, mas na ideia de que o preço de um ativo se lê num só número.

Como ler qualquer modelo de preço (e o que diz a CMVM)

Fica a lição que se aplica a qualquer modelo, não só ao stock-to-flow. Um modelo de preço útil tem de passar quatro testes: prever fora da amostra com que foi construído, escapar à circularidade do preço em função do tempo, modelar a procura e não só a oferta, e ser falsificável num horizonte útil, com preço e data. O stock-to-flow falha os quatro. O herdeiro que muitos propõem, a lei de potência, falha quase todos pela mesma razão, que é ser também uma curva de preço contra tempo, só que com melhor geometria.

Como sinal de negociação, o veredicto é ainda mais seco. O modelo nunca emitiu uma ordem de venda e a sua banda é demasiado larga para dimensionar o que quer que seja; um backtest honesto ao próprio S2F mostra que, usado como regra mecânica, não bate sequer a estratégia de comprar e aguentar. Um alvo de preço sem data é uma narrativa, não um plano.

Para o investidor em Portugal há ainda o enquadramento do supervisor. A CMVM lembra, no seu portal do investidor, que os criptoativos são ativos de risco elevado, sem valor intrínseco garantido, que o regulamento europeu MiCA não elimina todos os riscos e que resultados passados não garantem resultados futuros. Um cartaz que promete meio milhão de dólares é, nesta leitura, o exemplo quase perfeito daquilo contra que o regulador avisa: a falsa sensação de certeza. A pergunta a fazer a qualquer modelo não é quanto promete, mas o que faria falhar a promessa, e quando o saberíamos.

Perguntas frequentes

O stock-to-flow do Bitcoin já foi abandonado?

O modelo nunca foi formalmente retirado e o seu criador mantém o alvo de cerca de 500 mil dólares (perto de 448 mil euros) para 2024 a 2028. Na prática, porém, o próprio PlanB passou a orientar-se por médias móveis, preço realizado, RSI e dificuldade de mineração, e disse em setembro de 2026 que a dificuldade reflete melhor o preço do que o S2F. O cartaz continua na parede; a bússola mudou de mão.

Qual é a previsão atual do stock-to-flow para o Bitcoin?

O alvo mais citado é uma média de cerca de 500 mil dólares entre 2024 e 2028, com uma banda entre 250 mil e 1 milhão de dólares. A cerca de 73 mil euros (82 mil dólares) em outubro de 2026, isso exigiria uma subida de mais de seis vezes. PlanB classifica agora esse valor como um «sinal de valor», não como uma ferramenta para marcar topos ou fundos.

Porque é que o modelo stock-to-flow falhou?

Mede apenas a oferta e ignora a procura, precisamente o que domina o mercado desde 2024, com os ETF, as tesourarias, a política da Fed e a liquidez. A estatística também não ajuda: a regressão é autocorrelacionada, pois coloca a oferta nos dois lados da equação, e assenta em apenas quatro halvings. O halving de 2024 chegou a horas e o preço caiu no ano seguinte, a falsificação mais limpa possível.

O que é que o PlanB utiliza agora em vez do stock-to-flow?

Médias móveis de 200, 100 e 50 semanas, o preço realizado on-chain, o RSI e a dificuldade de mineração, que está ligada ao hashrate e ao custo de produção. Em fevereiro de 2026 mapeou quatro cenários de mercado baixista a partir da média de 200 semanas e do preço realizado, não a partir do stock-to-flow.

Vale a pena usar o stock-to-flow para investir em Bitcoin?

Como sinal de negociação não passa num backtest honesto: nunca emitiu uma ordem de venda e a banda demasiado larga impede dimensionar uma posição. A CMVM lembra que os criptoativos são de risco elevado, sem valor intrínseco garantido, e que resultados passados não garantem resultados futuros. Um alvo de preço sem data é uma narrativa, não um plano.

Por Priya Reddy, redatora de mercados da HOGE Wire.

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