A guerra civil da Aave: a DAO que perdeu quem a construiu
Sem roubo nem hack, a maior DAO da DeFi passou 2026 a desfazer-se por dentro. A Aave perdeu os engenheiros, o governo e o risco numa luta pelo controlo que ninguém venceu de verdade.
Quase todos os dramas de DAO que cobrimos nos últimos meses tinham um ladrão. Uma baleia que compra o quórum de madrugada, um empréstimo relâmpago que captura dois terços dos votos numa única transação, uma proposta maliciosa que esvazia a tesouraria num só bloco. A história da Aave em 2026 é de outra natureza. Não houve hack, não houve roubo, não houve um vilão identificável a fugir com o dinheiro. Houve uma guerra civil, lenta e dolorosamente pública, que consumiu a maior e mais respeitada DAO de toda a DeFi.
Em poucos meses, entre dezembro de 2025 e abril de 2026, um protocolo que guarda o equivalente a cerca de 15 mil milhões de euros perdeu as três equipas independentes que o construíam e geriam no dia a dia: os engenheiros do núcleo, o maior delegado de governação e os gestores de risco. Ninguém levou um cêntimo que não lhe pertencesse. A luta foi por algo bem mais difícil de drenar do que um tesouro: o controlo de uma organização que sempre jurou não ter dono.
É o estudo de caso mais claro que a indústria produziu até hoje sobre a distância entre a palavra «descentralizado» e aquilo que ela significa na prática. E a parte mais incómoda, a que ninguém gosta de dizer em voz alta, é esta: enquanto as pessoas se digladiavam nos fóruns, a máquina nunca parou de funcionar.
A maior DAO da DeFi entrou em guerra consigo mesma
Convém medir o que estava em jogo. A Aave é, nas palavras de uma análise da S&P Global, o motor do crédito on-chain: o maior protocolo de empréstimos da DeFi, à frente da Morpho e da Sky por uma margem confortável. A 26 de outubro de 2026, mesmo depois de perder liquidez ao longo do mês, mantinha cerca de 17,6 mil milhões de dólares (perto de 15 mil milhões de euros) em valor total bloqueado, contra cerca de 11 mil milhões de dólares da Morpho e 5,9 mil milhões da Sky, segundo dados da DeFiLlama compilados pela Crypto Daily. O token AAVE valia à volta de 133 euros, com uma capitalização próxima de 2,1 mil milhões de euros, de acordo com a CoinGecko.
O pano de fundo tornava o episódio ainda mais simbólico. Outubro de 2026 foi um mês de recuo para a DeFi, com o valor total bloqueado no setor a cair abaixo dos 90 mil milhões de dólares e a Aave a ceder parte da sua liquidez à rival Morpho. Nada disto, porém, a destronou: continuava a ser, de longe, o balcão de crédito de referência do on-chain. Não é um projeto obscuro a implodir. É o «blue chip» da governação descentralizada, aquele que toda a gente apontava como prova de que uma organização sem chefe conseguia gerir milhares de milhões a sério.
Por isso é que a forma como se desfez importa tanto. Ao contrário da BonkDAO, que caiu porque um atacante comprou o quórum por uns milhões, ou da Beanstalk, esvaziada em segundos por um empréstimo relâmpago, a Aave não foi atacada de fora. Foi corroída por dentro, numa sucessão de parcerias, votos, auditorias e demissões que se arrastou por um inverno inteiro e ainda pela primavera seguinte.
O rastilho foi dinheiro: alguns milhões em taxas que foram parar à carteira errada. Mas o verdadeiro assunto, aquele que nenhum voto conseguiu resolver, era mais fundo e mais velho do que a própria Aave: quem controla de facto uma DAO quando a empresa fundadora detém votos delegados suficientes para aprovar o seu próprio orçamento por cima das objeções da comunidade? A Aave passou o ano a responder a essa pergunta, e fê-lo da pior maneira possível, na prática.
Os quatro protagonistas: a empresa, os engenheiros, o governo e o risco
Para perceber a guerra é preciso perceber quem realmente faz uma DAO como a Aave funcionar, e a resposta já há muito que deixou de ser utópica. Não é uma multidão de pequenos detentores a deliberar numa praça digital. São meia dúzia de empresas profissionais, pagas pela tesouraria da DAO, cada uma com a sua pasta bem definida. Este modelo de «prestadores de serviços» foi a solução que o setor encontrou para a apatia crónica dos votantes e para a complexidade de gerir um banco de milhares de milhões; é também, por si só, um sintoma de quanto a «governação comunitária» se afastou do ideal da assembleia de bairro. Já mostrámos como esse plano de recurso funciona, e encrava, noutra análise sobre o que acontece quando a própria máquina de votação congela.
Eram quatro os protagonistas desta história, e vale a pena apresentá-los antes do conflito:
- Aave Labs, a empresa fundadora liderada por Stani Kulechov. Nasceu em 2017 como ETHLend, com o token LEND, e construiu o protocolo original que viria a dominar o crédito on-chain. Detém a marca, os domínios e a propriedade intelectual, e controla o maior bloco de votos da DAO.
- BGD Labs, a equipa de engenharia do núcleo, responsável por desenhar e manter a versão Aave V3. Chegaria a alegar que o V3 representava 98% do código e a quase totalidade do valor bloqueado, gerando mais de 100 milhões de dólares de receita anual: a «joia da coroa» do protocolo.
- Aave Chan Initiative (ACI), dirigida por Marc Zeller, o maior delegado de governação do ecossistema. Era o operador político do dia a dia, quem redigia, defendia e mobilizava votos para as propostas, uma espécie de líder parlamentar informal.
- Chaos Labs, os gestores de risco. São eles que decidem quanto se pode pedir emprestado contra cada garantia e em que condições uma posição é liquidada: o trabalho invisível e ingrato que mantém um banco on-chain solvente quando o mercado se vira do avesso.
Esta concentração de poder e de competências não é um defeito exclusivo da Aave. Um estudo de referência da Chainalysis concluiu que, nas grandes DAO, menos de 1% dos detentores controla cerca de 90% do poder de voto. A Aave limitou-se a levar essa aritmética desconfortável até à sua conclusão lógica, com um protagonista a reunir, em simultâneo, o maior bloco de votos e o maior contrato de serviços.
Dezembro de 2025: a fatura da CoW Swap
Tudo começou com uma parceria aparentemente rotineira. A 4 de dezembro de 2025, a Aave integrou a CoW Swap para melhorar a execução das trocas dos seus utilizadores. Pouco depois, delegados da comunidade descobriram que as taxas geradas por essa integração não estavam a entrar na tesouraria da DAO, como seria de esperar, mas numa carteira privada controlada pela Aave Labs. A auditoria que a ACI publicaria semanas mais tarde estimaria essas taxas «não aprovadas» em cerca de 5,5 milhões de dólares.
O valor, isolado, não era enorme para um protocolo desta dimensão. O problema era o princípio. Toda a promessa da «Aavenomics» assenta na ideia de que a receita do protocolo pertence à DAO e regressa aos detentores do token, seja em tesouraria, seja através de recompras. É a mesma lógica de «rendimento real» que distingue um protocolo que partilha lucros genuínos de um que se limita a distribuir emissões inflacionárias, uma distinção que já dissecámos a propósito das máquinas de recompra que trocam de combustível.
Ver dinheiro do protocolo a escoar discretamente para a carteira da empresa fundadora, sem uma votação prévia, partia esse contrato implícito. Não era o montante; era a sensação de que as regras valiam para todos menos para quem tinha as chaves. A partir daí, cada gesto da Aave Labs passou a ser lido à luz da desconfiança. Foi a faísca que encontrou o paiol.
A tomada «hostil» que afinal era ao contrário: o voto da marca
A 16 de dezembro de 2025, Ernesto Boado, antigo diretor de tecnologia da própria Aave Labs, apresentou uma proposta para transferir os ativos de marca da Aave (o domínio aave.com, as redes sociais, os repositórios no GitHub, as marcas registadas e os direitos de nome) para uma estrutura legal controlada pela DAO. No papel, era um gesto de descentralização exemplar: devolver aos detentores de AAVE o controlo sobre a própria identidade do projeto, em vez de a deixar nas mãos de uma empresa privada.
A forma como a proposta foi conduzida contou outra história. A 22 de dezembro, a Aave Labs empurrou-a para votação vinculativa na Snapshot, em plena quadra natalícia, quando a participação é historicamente mais baixa e metade do ecossistema está de férias. A comunidade reagiu com acusações de «tentativa de tomada hostil», criticando a pressa, o calendário e o atropelo ao processo habitual de discussão. O mais revelador: o próprio Boado, autor da ideia original, veio dizer que a manobra não tinha sido autorizada e que violava a confiança. Quando o voto fechou, a 26 de dezembro, o resultado foi um não retumbante: 55,29% contra, 41,21% de abstenção e uns insignificantes 3,5% a favor.
O mercado não gostou do espetáculo. O AAVE caiu cerca de 18% e, segundo a MEXC, Kulechov aproveitou a queda para comprar perto de 12,6 milhões de dólares em AAVE. O fundador contestou publicamente a narrativa de crise, afirmando que a receita da DAO tinha atingido 140 milhões de dólares e negando qualquer manipulação, de acordo com relatos da imprensa especializada. Ficou o paradoxo gravado a fogo: um voto apresentado como «dar poder à DAO» tornou-se o momento exato em que toda a gente percebeu quem o detinha de verdade.
Aave Will Win: ganhar o voto, perder a legitimidade
Em fevereiro de 2026 chegou a proposta que daria nome a toda a crise. Chamava-se «Aave Will Win» e pedia um pacote de cerca de 51 milhões de dólares (perto de 44 milhões de euros) para financiar a expansão do protocolo e acelerar a chegada da tão aguardada versão V4. Dentro desse pacote, cerca de 42,5 milhões de dólares e 75.000 AAVE iriam diretamente para a Aave Labs, ao mesmo tempo que, em teoria, se passava a redirecionar a receita da empresa de volta para a DAO. Dependendo de quem contava a história, era um investimento no futuro ou uma recompensa por mau comportamento.
A 1 de março de 2026, a proposta passou com 52,58% dos votos. Uma margem apertadíssima para aquele que era o maior orçamento da história da DAO. E foi exatamente aqui que Marc Zeller e a ACI puseram o dedo na ferida: alegaram que mais de 233.000 AAVE controlados pela Aave Labs e por Kulechov tinham sido decisivos para o resultado. Por outras palavras, o maior beneficiário do orçamento terá usado o seu próprio poder de voto para aprovar o seu próprio cheque, por cima das objeções de uma fatia substancial da comunidade.
Resumido a uma só frase, o problema estrutural é este: quando a entidade que pede o dinheiro é também a que detém os votos decisivos, o voto deixa de ser um travão e passa a ser uma formalidade. A legitimidade de uma decisão não vem de ter sido aprovada; vem de ter podido ser recusada. E, naquele ponto de março, metade da Aave deixou de acreditar que podia recusar fosse o que fosse.
Convém lembrar o que estava realmente em disputa por baixo do orçamento. O V4 era a aposta de Kulechov para reinventar a Aave como uma infraestrutura modular, capaz de servir instituições e ativos do mundo real sem fragmentar a liquidez. Quem controlasse a transição para o V4 controlaria a Aave da década seguinte. A luta pelo cheque de 51 milhões era, no fundo, uma luta por essa herança.
A auditoria de Zeller: 86 milhões e um «documento de marketing»
Na véspera da votação, a 25 de fevereiro de 2026, a ACI disparou a sua arma mais pesada: uma «auditoria» pública ao desempenho da Aave Labs. A mensagem de Zeller foi direta ao osso: «As the Snapshot for the $51M ‘Aave Will Win’ ask drops tomorrow, take a look at our Audit of Aave Labs’ performance and their ~$86M in funding they’ve received to date», escreveu, numa publicação relatada pelo The Block.
A conta dos 86 milhões de dólares (cerca de 74 milhões de euros) que a Aave Labs teria recebido ao longo da sua vida somava quatro parcelas: 16,2 milhões da ICO de 2017, 32,5 milhões em rondas de capital de risco, 31,93 milhões em pagamentos diretos da DAO e os tais 5,5 milhões em taxas «não aprovadas» da CoW Swap. A auditoria recordava ainda que a equipa fundadora reteve 23% do fornecimento original do token LEND, mais tarde convertido em AAVE, com as participações atuais por divulgar. Zeller descreveu o relatório de contribuições que a própria Aave Labs apresentara como um «documento de marketing» que fugia às perguntas incómodas sobre entregas, custos e retorno para a DAO.
A auditoria não poupou sequer a joia mais recente do protocolo, o mercado de ativos do mundo real Aave Horizon. Segundo os números da ACI, dos 466 milhões de dólares de fornecimento declarado, apenas 31% era colateral de RWA, sendo o resto stablecoins; descontado o incentivo artificial, a capacidade «real» de crédito a ativos do mundo real rondava os 135 milhões, com uns magros 216.000 dólares de receita acumulada para a DAO contra 4,2 milhões de dólares gastos em incentivos. Fosse exato ao cêntimo ou não, era o documento que transformava uma disputa de orçamento num ajuste de contas público, lido por toda a gente na véspera de votar.
Cronologia de uma guerra civil
A sequência de acontecimentos, condensada, mostra como uma faísca de dezembro se transformou num incêndio de primavera:
| Data | Acontecimento | Número-chave | Fonte |
|---|---|---|---|
| 4 dez 2025 | Parceria com a CoW Swap; taxas desviadas para carteira da Aave Labs | ~5,5 M$ em taxas | The Block |
| 26 dez 2025 | Voto da marca rejeitado após ser forçado na quadra natalícia | 55,29% contra | Cointelegraph |
| 20 fev 2026 | BGD Labs anuncia saída (contrato acaba a 1 abr) | 98% do código do V3 | Tiger Research |
| 25 fev 2026 | ACI publica a auditoria à Aave Labs | ~86 M$ de financiamento | The Block |
| 1 mar 2026 | Proposta «Aave Will Win» aprovada | 52,58% / ~51 M$ | DL News |
| 3 mar 2026 | ACI anuncia saída faseada até julho | maior delegado | DL News |
| 30 mar 2026 | Aave V4 entra em produção na Ethereum | 3 hubs, 11 spokes | KuCoin |
| abr 2026 | Chaos Labs abandona a gestão de risco | orçamento 5 vs 8 M$ | Tiger Research |
| out 2026 | TVL líquida ~17,6 mil M$, ainda a maior da DeFi | de ~19,1 mil M$ em set | Crypto Daily |
O êxodo: BGD, ACI e Chaos Labs saem porta fora
As demissões vieram em cascata, cada uma a tornar a seguinte mais provável. A primeira a cair foi a engenharia. A BGD Labs, equipa que desenhara e mantinha o Aave V3, anunciou a saída a 20 de fevereiro de 2026, com o contrato a terminar a 1 de abril. A acusação era grave: a Aave Labs teria imposto a transição para o V4 «unilateralmente, sem os consultar», descartando a equipa que, pela sua própria contabilidade, tinha escrito a esmagadora maioria do código responsável por quase toda a receita do protocolo.
Seguiu-se o governo. A 3 de março, Marc Zeller anunciou que a ACI iria sair de forma faseada até julho. A sua explicação, citada pela DL News, é talvez a frase que melhor resume toda a crise: «There is no role for an independent service provider in an environment where the largest budget recipient holds undisclosed voting power and uses it on its own proposals.» E, sobre o desfecho de tudo aquilo, deixou um lamento seco: «Everything was entirely preventable.» A resposta de Kulechov foi cordial e definitiva, do género que se usa quando já não há nada a salvar: «We thank Marc for everything he has contributed and wish him well.»
Por fim, o risco. Em abril de 2026, a Chaos Labs, responsável pelos parâmetros que mantêm o protocolo solvente, também arrumou as malas. Apontou três razões concretas: o risco operacional crescente provocado pela debandada dos outros contribuidores, a oposição à arquitetura do V4 (que a obrigaria a manter infraestrutura de risco a dobrar, para V3 e V4 em simultâneo) e o facto de estar a operar com prejuízo, com um orçamento de 5 milhões de dólares quando estimava precisar de pelo menos 8. Quando os engenheiros, o governo e o risco saem em poucas semanas, o que fica à vista é a fragilidade de depender de um punhado de equipas insubstituíveis, um problema de risco operacional que é primo direito do risco de concentração e de cliente que ameaça outras camadas da stack cripto.
Quem saiu, o seu papel e o que levou consigo
| Equipa | Papel na DAO | Saída | Motivo declarado |
|---|---|---|---|
| Aave Labs (Stani Kulechov) | Empresa fundadora, dona da marca, maior bloco de votos | Ficou e consolidou poder | Nega irregularidades; aponta 140 M$ de receita da DAO |
| BGD Labs | Engenharia do núcleo (Aave V3) | 20 fev a 1 abr 2026 | Transição para o V4 imposta sem consulta |
| ACI (Marc Zeller) | Maior delegado de governação | 3 mar a jul 2026 | Sem papel para um prestador independente quando o maior beneficiário controla os votos |
| Chaos Labs | Gestão de risco e parâmetros | abr 2026 | Risco operacional, oposição ao V4, orçamento insuficiente |
A tese da reprivatização
À medida que os prestadores independentes saíam um a um, a decisão voltava a concentrar-se num único sítio: a Aave Labs. Foi essa leitura que a casa de investigação Tiger Research destilou num título provocador, perguntando se a saída da Chaos Labs não seria, afinal, a «privatização» da Aave. O argumento é que o protocolo evoluiu de uma governação genuinamente descentralizada para uma operação controlada pelo fundador, mantendo intactas as estruturas formais de voto enquanto o poder efetivo se consolidava, de forma silenciosa, dentro da empresa.
A Tiger Research faz questão de sublinhar que a pergunta central não é moral, mas operacional: como vai a Aave Labs preencher o vazio deixado pelos contribuidores que partiram, numa infraestrutura de que meia DeFi depende? Outros foram menos contidos e falaram abertamente de uma «crise de confiança». No fim, os diagnósticos convergem num ponto desconfortável: a DAO devia ser o contrapeso da empresa; em vez disso, a empresa revelou-se, ao mesmo tempo, o maior votante da DAO, o seu principal fornecedor e o dono do seu nome. Três chapéus, uma só cabeça.
Para o detentor comum de AAVE, a ironia é cruel. Passou dois anos a ouvir que o token lhe dava voz; descobriu, numa única votação, que a sua voz só contava enquanto coincidisse com a do bloco maioritário. Não perdeu dinheiro num assalto, perdeu a ilusão de estar no comando. E, no entanto, continuou a ganhar com a valorização do token, o que talvez ajude a explicar por que a revolta nunca passou dos fóruns para o mercado.
A outra leitura: um protocolo em transição, não em crise
Nem todos leem a saída dos três prestadores como um colapso. Uma análise da M-Connect DAO Research, publicada na Paragraph, defende precisamente o contrário e resume a sua posição numa frase certeira: «A protocol in crisis does not post these numbers. A protocol in transition does.»
Os números que invoca não são triviais: uma dominância a rondar os 60% no mercado de crédito da DeFi, depósitos de ativos do mundo real na Horizon acima de mil milhões de dólares, a stablecoin GHO perto dos 514 milhões de dólares de capitalização e um volume acumulado de empréstimos que ultrapassou um bilião de dólares (cerca de 860 mil milhões de euros) logo no primeiro trimestre de 2026. E, acima de tudo, o V4 saiu na data prometida, sem atrasos. Do lado da Aave Labs, Kulechov reforça o argumento da continuidade: receita da DAO em alta, uma proposta de aquisição de direitos com calendário de quatro anos para sinalizar «alinhamento de longo prazo» e a negação de que qualquer voto tenha sido manipulado.
A leitura justa fica algures no meio. A rotação de contribuidores é normal em qualquer organização madura, e três contratos que acabam não são, por si sós, uma sentença de morte. Mas as saídas simultâneas expuseram um risco de concentração bem real, tanto de votos como de competências. O argumento pessimista é de governação; o otimista é de produto. E, por enquanto, o produto continua a ganhar o pulso ao escândalo.
O que a guerra da Aave diz sobre todas as DAO
Se a maior e mais sofisticada DAO da DeFi pode ser conduzida por um bloco de votos dominante até os seus melhores colaboradores desistirem, então a pergunta deixa de ser sobre a Aave. O caso é a demonstração prática daquilo que a Chainalysis já media em números frios: o poder, nas DAO, concentra-se depressa e tende a ficar concentrado. A novidade não é a plutocracia; é vê-la operar à luz do dia no projeto que era suposto ser a exceção.
Não é por acaso que vozes de dentro do próprio capital de risco cripto andam a rever o entusiasmo inicial. Ali Yahya, sócio da a16z crypto, resumiu a desilusão coletiva da indústria ao afirmar que passaram os últimos dez anos a redescobrir, pela via difícil, que a democracia direta é uma má ideia. O modelo de delegados profissionais e empresas de serviços nasceu justamente para combater a apatia dos votantes, mas, ao fazê-lo, criou novos pontos únicos de falha e uma nova política de bastidores, com os seus lóbis, os seus salários e as suas guerras de ego.
E há a questão que nenhuma DAO gosta de responder: quando corre mal, quem é que responde? Foi precisamente esse vácuo de responsabilidade, desenhado quase de propósito para que ninguém seja responsabilizável, que explorámos ao perguntar quem responde quando a DAO arde. A lição da Aave não é o chavão fácil de que «as DAO são uma farsa». É mais subtil e mais útil: uma DAO é tão descentralizada quanto a distribuição dos seus votos e a diversidade dos seus contribuidores, e ambas podem encolher num único inverno.
O ângulo regulatório: o que a CMVM e a MiCA não resolvem
Para um leitor português, a pergunta natural é quem supervisiona tudo isto. A resposta, desconfortável, é que ninguém supervisiona exatamente este problema. A MiCA, o regulamento europeu que já se aplica aos prestadores de serviços e aos emitentes de criptoativos, regula carteiras, bolsas e emissão de tokens, não a governação interna de um protocolo. Uma DAO em que um bloco controlado pelo fundador aprova o seu próprio orçamento cai precisamente na zona cinzenta que a lei não ilumina.
Em Portugal, a Lei n.º 69/2025, em vigor desde dezembro de 2025 e de aplicação plena a partir de 1 de julho de 2026, reparte a supervisão entre o Banco de Portugal (vertente prudencial, autorização de prestadores e stablecoins) e a CMVM (conduta de mercado), com coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros. É um edifício regulatório sério. Mas nenhum destes poderes diz quem é o responsável legal quando uma organização «descentralizada» é, na prática, dirigida por um votante dominante que também lhe presta serviços.
O buraco é conhecido e assumido: a MiCA deixa deliberadamente de fora os arranjos verdadeiramente descentralizados, sem um emitente ou prestador identificável. A guerra da Aave mostra, porém, que «verdadeiramente descentralizado» é muitas vezes uma narrativa de marketing e não um facto jurídico. Nos Estados Unidos, os tribunais já começaram a tratar participantes ativos de governação como potencialmente responsáveis pelos atos da DAO; na Europa, a questão continua por resolver, e a CMVM terá, mais cedo ou mais tarde, de decidir o que fazer com uma entidade que tem sede fiscal em todo o lado e em lado nenhum ao mesmo tempo.
Onde está a Aave agora
O mais notável em toda esta história é aquilo que não aconteceu: o protocolo nunca parou. O Aave V4 entrou em produção na Ethereum a 30 de março de 2026, em plena tempestade, com a sua arquitetura de «hub-and-spoke» (três hubs e onze spokes, tendo a Chainlink como oráculo exclusivo) e, mais tarde, na Avalanche e numa instância dedicada na OP Mainnet que alimenta o Ether.fi Cash. A integração de novos ativos na Horizon passou inclusivamente a correr pela governação completa da DAO, com um voto na Snapshot para cada ativo, exatamente o tipo de processo que os críticos exigiam.
Em outubro de 2026, a governação já tinha regressado ao aborrecido e saudável trabalho de afinar parâmetros: os «GHO Stewards» publicaram a atualização rotineira da taxa de empréstimo do GHO, propondo subi-la para 4,50%. O motor de liquidações, os oráculos, a stablecoin, toda a canalização continuou a funcionar durante a guerra civil, perfeitamente indiferente a quem se demitia naquela semana. É essa mesma mecânica invisível que mantém um banco on-chain de pé e cuja captura de valor discutimos a propósito do MEV do oráculo nas liquidações.
Daqui sai a conclusão mais perturbadora de todas. O drama foi inteiramente sobre pessoas e sobre poder, e o código não quis saber. Se isso é tranquilizador (infraestrutura resiliente, à prova de intrigas) ou condenatório (um teatro de governação que afinal não mexe no produto), é a pergunta que a Aave deixa pousada em cima da mesa de toda a experiência das DAO. A guerra custou-lhe contribuidores e um ou dois mil milhões de euros em liquidez; não lhe custou o trono, e o AAVE até subiu cerca de 8,6% no último mês. No fim, a maior DAO da DeFi provou duas coisas ao mesmo tempo: que a descentralização pode ser uma ilusão bem contada e que, por mais estranho que pareça, talvez não precise de ser verdadeira para a máquina continuar a dar lucro.
Perguntas Frequentes
O que foi a guerra civil da Aave em 2026?
Não foi um hack nem um roubo, mas uma disputa interna de poder. Entre dezembro de 2025 e abril de 2026, a Aave perdeu as três equipas independentes que a geriam (a BGD Labs na engenharia, a ACI na governação e a Chaos Labs no risco) num conflito sobre taxas desviadas para a empresa fundadora e sobre o poder de voto concentrado da Aave Labs.
Porque é que a BGD Labs, a ACI e a Chaos Labs saíram da Aave?
Por razões ligadas, mas distintas: a BGD alegou que a transição para o V4 foi imposta sem a consultar; a ACI, de Marc Zeller, saiu por considerar que não há lugar para um prestador independente quando o maior beneficiário do orçamento controla os votos; e a Chaos Labs apontou o risco operacional da debandada, a oposição ao V4 e um orçamento insuficiente.
A Aave ainda é descentralizada?
É contestado. Analistas como a Tiger Research falam de uma «reprivatização», com o poder a concentrar-se na Aave Labs à medida que os prestadores independentes saíam, enquanto Kulechov defende que o protocolo está em transição, não em crise. O que é facto é que um único bloco de votos conseguiu aprovar o maior orçamento da história da DAO com uma margem de 52,58%.
A crise de governação afetou o preço do AAVE e o TVL?
Sim, mas não foi fatal. O AAVE caiu cerca de 18% em dezembro de 2025, quando o voto da marca falhou, e o valor total bloqueado recuou de cerca de 19,1 mil milhões de dólares no fim de setembro para 17,6 mil milhões no fim de outubro de 2026. Ainda assim, a Aave continua a ser a maior plataforma de crédito da DeFi, e o token subiu cerca de 8,6% no último mês.
O que podem a CMVM ou a MiCA fazer numa DAO como a Aave?
Pouco, diretamente. A MiCA e a lei portuguesa (Lei n.º 69/2025) regulam prestadores de serviços e emitentes de criptoativos, não a governação interna de um protocolo. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal a vertente prudencial, mas nenhum deles resolve quem é responsável quando uma organização dita descentralizada é dirigida por um votante dominante.
Marcus Okafor escreve sobre cultura cripto e governação on-chain para a HOGE Wire.