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● DeFi & On-chain

HYPE: a máquina de recompra trocou de combustível em 2026

Durante quase um ano, a recompra de HYPE viveu só das comissões de negociação. Em outubro de 2026, o AQAv2 ligou uma segunda torneira: o juro das reservas em USDC.

Durante quase um ano, a pergunta sobre o HYPE teve sempre a mesma resposta. Porque é que o token da Hyperliquid se aguentou perto de máximos enquanto meio mercado corrigia? Porque o protocolo pega em quase toda a comissão que cobra a quem negoceia perpétuos e usa-a para comprar HYPE no mercado aberto. Compra organizada, persistente, programada. Em outubro de 2026, essa resposta deixou de estar completa.

A 26 de agosto, com a aprovação de cerca de 69% do poder de voto dos validadores, a Hyperliquid ativou um mecanismo chamado AQAv2. A partir dele, a recompra de HYPE deixou de viver apenas das comissões de negociação e passou a receber uma segunda fonte de dinheiro: o juro que os milhares de milhões em reservas de USDC rendem parados. É uma mudança discreta no código e profunda na tese de investimento. Este artigo não é sobre o preço do HYPE; é sobre o motor que o sustenta, e sobre o facto de esse motor ter acabado de trocar de combustível.

Convém dimensionar o animal antes de abrir o capô. Jeffrey Sprecher, fundador e CEO da Intercontinental Exchange (a dona da Bolsa de Nova Iorque), resumiu-o numa conferência em maio: «esta Hyperliquid de que estamos a falar é maior do que a NASDAQ. São onze pessoas». O token que essas onze pessoas criaram vale hoje cerca de 70,36 euros, uma capitalização à volta de 15,66 mil milhões de euros e o 11.º lugar do mercado, segundo a CoinGecko. Perceber de onde vem esse valor, e o que acabou de mudar, é o objetivo das próximas linhas.

O motor que faz o HYPE: recompra, não emissão

A maioria dos tokens de protocolo funciona ao contrário do HYPE. Paga a quem usa a rede, a quem fornece liquidez e a quem faz staking emitindo moeda nova, o que dilui quem já a detém. O HYPE foi desenhado para inverter o sentido dessa seta. Em vez de imprimir, o protocolo retira do mercado: entre 97% e 99% das comissões que cobra são encaminhadas para um endereço conhecido como Assistance Fund, que as converte em compras de HYPE no mercado aberto. É procura embutida nas próprias regras do protocolo.

Os números dão a escala da operação. A 13 de outubro de 2026, o Assistance Fund tinha comprado cerca de 48 milhões de HYPE por aproximadamente 1,36 mil milhões de dólares, uma posição avaliada nessa altura em perto de 3,95 mil milhões, segundo dados compilados pela Coingape. Por outras palavras: a tesouraria que recompra o token já vale, sozinha, mais do que a esmagadora maioria das tesourarias de qualquer DAO no mercado. É esta engrenagem, e não uma narrativa, que explica boa parte do comportamento do preço no último ano.

O detalhe importante, e muitas vezes esquecido, é de onde vinha o combustível. Até setembro, essa recompra dependia de uma única variável: o volume de negociação. Mais perpétuos negociados, mais comissões, mais HYPE recomprado. E o inverso também: mercado morno, menos comissões, menos recompra. Essa dependência de um só motor é precisamente o problema que o AQAv2 veio tentar resolver.

A troca de combustível: o que mudou com o AQAv2

AQAv2 significa Aligned Quote Asset v2, o ativo de cotação alinhado na sua segunda versão. Na prática, é um acordo sobre o que fazer ao juro que as reservas em dólares da plataforma geram. Quando um trader deposita USDC como garantia para abrir posições, esse dinheiro fica parado, e milhares de milhões parados em instrumentos equivalentes a dívida pública norte-americana rendem juro. A pergunta sempre foi: a quem pertence esse juro? A resposta, a partir de agora, é clara: quase todo vai para a recompra de HYPE.

O desenho é engenhoso. Segundo a cobertura da Bitcoin.com, cerca de 90% do rendimento gerado pelas reservas de USDC (já descontados os custos operacionais) é canalizado para o Assistance Fund. A Coinbase assume o papel de «treasury deployer» do USDC na Hyperliquid e a Circle, emissora do USDC, trata da parte técnica através do seu protocolo de transferência entre cadeias; a Circle comprometeu-se inclusive a fazer staking de 500 mil HYPE a caminho de se tornar validadora. O juro é apurado em ciclos de 30 dias e transferido para o fundo oito dias depois de cada ciclo fechar.

O primeiro pagamento, de cerca de 14,58 milhões de dólares, chegou no início de outubro, de acordo com o registo da Hokanews. Parece modesto, mas é só o arranque. Com mais de 5 mil milhões de dólares em reservas de USDC na plataforma, a Yahoo Finance estima que esta torneira possa render entre 135 e 160 milhões de dólares por ano, e talvez mais, consoante o tamanho das reservas e as taxas de juro em vigor. Somado aos cerca de 771 milhões anuais que já vinham das comissões, o motor de recompra passa a apontar para lá dos 900 milhões de dólares por ano. O ponto estrutural, e é esse que interessa: esta nova fonte «escala com os depósitos, não com o volume de negociação».

Porque é que o volume deixou de mandar sozinho

Para perceber porque é que isto é mais do que uma curiosidade contabilística, é preciso olhar para o calcanhar de Aquiles do modelo antigo. A recompra financiada por comissões é intrinsecamente cíclica e, pior, reflexiva. Quando o mercado aquece, o volume sobe, as comissões sobem, a recompra sobe e o preço do HYPE tende a subir. Quando o mercado arrefece, todas essas setas invertem ao mesmo tempo. O suporte ao preço enfraquece exatamente no momento em que seria mais necessário. É uma máquina que empurra o token para cima na euforia e o larga na queda.

O juro das reservas não vive nesse mesmo ciclo. Depende do volume de depósitos em garantia e das taxas de juro, não do número de negócios fechados num dia nervoso. Um trader pode ficar semanas sem abrir posição, mas o seu USDC continua parado a render. Isto dá à recompra uma perna mais estável, menos amarrada ao humor do mercado. Pela primeira vez, uma parte da procura programada por HYPE passa a ser quase independente do volume de negociação.

Convém não exagerar na promessa. Esta perna não é imune a tudo. Numa crise, os utilizadores levantam garantias e as reservas encolhem; se a Reserva Federal cortar juros, o rendimento da dívida pública cai e a torneira aperta. Mas a correlação com o dia a dia da negociação é muito mais fraca. Em termos de desenho de tokenomics, trocar uma fonte 100% cíclica por uma mistura de cíclica e semiestável é uma melhoria defensável. A pergunta que fica, e a que voltaremos, é se isto chega para quebrar a reflexividade ou apenas para a adiar.

A saga da USDH: a stablecoin que nunca capturou o juro

O AQAv2 não nasceu do nada. É o desfecho de uma das novelas mais reveladoras do ano na Hyperliquid, e ajuda a perceber porque é que capturar o juro das reservas se tornou uma obsessão. Em setembro de 2025, o protocolo decidiu que queria uma stablecoin própria, a USDH, e fez algo invulgar: leiloou o direito de a emitir através de uma votação dos validadores. Várias casas concorreram, incluindo nomes grandes de stablecoins, e o vencedor foi a Native Markets, segundo o relato da Cointelegraph. A USDH nasceria garantida a 100% por dinheiro e dívida pública gerida por gestoras como a BlackRock e a Superstate.

A lógica era transparente: se os traders têm de usar uma stablecoin como garantia, mais vale que seja a da casa, para que o juro dessas reservas fique dentro do ecossistema em vez de engordar a emissora do USDC. Era, no fundo, a primeira tentativa de responder à mesma pergunta que o AQAv2 responde agora. Essa votação, em que a comunidade decidiu quem ganhava um negócio de milhões, é um exemplo perfeito de como o voto on-chain se transformou num mercado por direito próprio.

O enredo deu uma volta inesperada. Em maio de 2026, a Native Markets decidiu descontinuar a USDH e vender-se à Coinbase, que ficou com os ativos da marca. A 20 de junho, o processo estava concluído e o USDC voltou a ser o ativo de cotação de referência, agora rebatizado de «ativo de cotação alinhado», com a Fundação Hyper a distribuir cerca de 10 milhões de dólares em apoios para a migração dos construtores afetados, como noticiou a Bankless. O AQAv2 é o compromisso que fecha a história: em vez de emitir a sua própria moeda, a Hyperliquid deixa a Circle e a Coinbase continuarem a tratar do USDC, mas obriga 90% do juro a voltar para os detentores de HYPE. Não capturou a emissão; capturou o rendimento.

Recomprar não é queimar: para onde vai mesmo o HYPE

Aqui entra uma distinção que muita cobertura trata com displicência e que importa para quem quer avaliar o token a sério. Vários títulos descrevem o AQAv2 como um mecanismo de «recompra e queima». A realidade visível na cadeia é mais subtil. O Assistance Fund compra HYPE e guarda-o; aqueles cerca de 48 milhões de tokens não foram destruídos, estão parados numa tesouraria, avaliados em milhares de milhões. Recomprar e acumular não é o mesmo que recomprar e queimar.

A diferença tem consequências. Uma queima é irreversível: o token sai de circulação para sempre e a oferta máxima efetiva diminui. Uma acumulação retira oferta do mercado, sim, mas essa oferta continua a existir, concentrada num único cofre controlado pela governação do protocolo. Em teoria, poderia um dia ser mobilizada, por exemplo, para financiar operações ou incentivos, o que introduz um risco de governação que uma queima pura não tem. É certo que a Hyperliquid também queima HYPE por outras vias, como o gás da rede e parte das comissões do mercado à vista, mas o grande número que todos citam, o do Assistance Fund, é uma posição acumulada, não uma fogueira.

Há ainda um pormenor que vai dar munição aos críticos mais à frente. Com cerca de 1,36 mil milhões gastos para 48 milhões de tokens, o custo médio de aquisição ronda os 28 dólares por HYPE, bem abaixo da cotação atual. O fundo está, portanto, profundamente em lucro. É a prova de que o modelo funcionou enquanto o preço subiu, e também de que o protocolo foi comprando cada vez mais caro à medida que avançava. Esta tesouraria que, sozinha, vale mais do que o token de muitos projetos inteiros é o coração financeiro do HYPE e, simultaneamente, o seu ponto mais debatido.

A conta que incomoda: a receita caiu enquanto o preço subiu

Por mais elegante que seja o mecanismo, há uma conta que não fecha de forma confortável. Numa análise para a Investing.com, o analista Sherif Fanous aponta o desencontro: o negócio gera hoje bastante menos receita do que há seis meses, enquanto o token negoceia perto de três vezes mais alto. Pelos seus cálculos, a receita do protocolo chegou a um pico anualizado de cerca de 866 milhões de dólares em fevereiro de 2026, quando o HYPE rondava os 29 dólares; em agosto tinha recuado para cerca de 594 milhões, apesar de o token ter chegado perto dos 85 dólares.

A causa não é só o arrefecimento do volume. É também uma decisão de desenho do próprio protocolo. Com o programa HIP-3, que deixa terceiros criarem os seus próprios mercados de perpétuos, a Hyperliquid partilha metade das comissões com quem implementa esses mercados. Como a CoinDesk documentou, a receita bruta trimestral caiu de cerca de 357 milhões de dólares no terceiro trimestre de 2025 para perto de 202 milhões no segundo trimestre de 2026, à medida que os mercados de ativos do mundo real crescem e os seus criadores ficam com 50% das comissões. A perna das comissões, a que sustentava toda a recompra, estava a encolher.

Vista a esta luz, a urgência do AQAv2 fica mais nítida. Não é um luxo acrescentado por vaidade de engenharia; é uma resposta direta a uma fonte de receita que estava a secar. A Hyperliquid precisava de uma segunda perna de combustível precisamente porque a primeira já não dava o que dava. Quem lê a tokenomics apenas pela narrativa do «token que se recompra a si próprio» arrisca-se a não ver que o chão por baixo dessa recompra andou a mexer.

A recompra cria valor? O que dizem os analistas

Chegamos à pergunta que divide a indústria: recomprar o token cria mesmo valor para quem o detém, ou é apenas uma forma sofisticada de empurrar o preço a curto prazo? Não há consenso, e os dois campos têm bons argumentos.

Do lado favorável, Doug Colkitt, fundador da Ambient Finance, é direto ao defender, em declarações citadas pela DL News, que «as recompras importam», porque alinham a tokenomics com os incentivos de quem usa a plataforma, independentemente das condições de mercado. A ideia é simples: um protocolo que devolve receita real a quem detém o token comporta-se mais como uma empresa que recompra as suas ações do que como um esquema de emissão sem fim.

Do lado crítico, Sunny Shi, da Messari, argumenta que as recompras são frequentemente má alocação de capital: à medida que a receita cresce, o protocolo acaba a gastar cada vez mais para comprar o token a preços cada vez mais altos, dinheiro que poderia financiar inovação ou crescimento. A mesma análise da DL News lembra um aviso incómodo: o historial de recompras não garante valorização duradoura. A dYdX chegou a canalizar um quarto dos lucros para recomprar o seu token e, ainda assim, este permaneceu perto de 90% abaixo do máximo. Recomprar não é magia.

O enquadramento mais afiado volta a ser o de Fanous. O ritmo de recompra equivale a algo como 4% a 7% da capitalização por ano, consoante a janela de tempo que se escolha, várias vezes acima do ritmo a que a Ethereum ou a BNB retiram oferta. É muito. Mas, nas suas palavras, «essa procura é cíclica: se a atividade de negociação cair, o volume cai, as comissões caem e as compras do Assistance Fund caem na mesma proporção». O valor acumula-se com mais força quando menos é preciso, e evapora-se quando mais faria falta. Toda a aposta do AQAv2 é diluir precisamente esta característica.

As quatro torneiras do HYPE

Antes de descer aos restantes andares do edifício, vale a pena arrumar as fontes de valor do HYPE num só mapa. São quatro fluxos distintos, com perfis de risco muito diferentes, e confundi-los é o erro mais comum de quem avalia o token.

FonteO que a alimentaPerfilDestino do HYPE
Comissões de negociação (97% a 99%)Volume de perpétuosCíclico e reflexivoAssistance Fund (acumula)
Juro das reservas USDC via AQAv2 (cerca de 90%)Depósitos em garantia e taxas de juroSemiestável, ligado aos depósitosAssistance Fund (acumula)
Emissões de stakingReserva de emissões (inflação programada)Previsível, mas diluiValidadores e delegadores
Gás e parte das comissões à vistaUso da redeLigado à atividadeQueimado (destruído)

Repare-se em duas colunas. Só a última fonte queima HYPE de facto; as duas primeiras acumulam-no num cofre. E só a terceira, o staking, emite moeda nova, puxando no sentido contrário das outras três. Quando alguém diz que «o HYPE é deflacionário», está a juntar coisas que não deviam ser somadas sem cuidado.

HyperEVM: o perp DEX que virou plataforma

Até aqui tratámos a Hyperliquid como uma bolsa de perpétuos. Mas o que torna a tese do HYPE mais do que uma aposta no volume de derivados é o que cresceu ao lado dessa bolsa. A Hyperliquid é, na verdade, uma cadeia própria, composta por duas metades: a HyperCore, o motor de livro de ordens onde os perpétuos se negoceiam, e a HyperEVM, uma máquina virtual compatível com Ethereum lançada em mainnet no início de 2025, onde qualquer programador pode instalar aplicações. As duas comunicam entre si, o que permite que uma aplicação na HyperEVM aceda à liquidez e aos preços da HyperCore.

O ecossistema cresceu depressa. Segundo a The Defiant, o valor total depositado na cadeia aproximou-se dos 2 mil milhões de dólares, repartido por dezenas de protocolos de empréstimo, de staking líquido e de mercados monetários, com mais de uma centena de equipas a construir sobre a infraestrutura. Para o HYPE, isto importa por uma razão concreta: cada aplicação nova traz depósitos, e depósitos em USDC são exatamente o que alimenta a torneira do AQAv2. A plataforma e a tokenomics reforçam-se uma à outra.

Há também aqui uma dinâmica geracional que vale a pena notar. A corrida para construir na HyperEVM é mais um capítulo do fenómeno em que o programador se transforma em investidor: equipas que chegam pelo código acabam expostas ao valor do ecossistema que ajudam a erguer. Quanto mais a HyperEVM parecer um sistema operativo financeiro, e menos um simples local de aposta, mais defensável fica o fosso competitivo que sustenta o token.

Staking e validadores: a outra forma de ganhar (e de concentrar)

Falta arrumar a terceira torneira da tabela, a única que emite moeda nova. A Hyperliquid usa um modelo de prova de participação delegada, assente num consenso chamado HyperBFT, derivado do HotStuff, com finalidade abaixo do segundo. Quem detém HYPE pode delegá-lo num validador e receber recompensas. É crucial perceber a origem desse rendimento: ele vem de uma reserva de emissões futuras, ou seja, de inflação programada, e não das comissões. Staking e recompra são dois fluxos separados que não se devem confundir.

Os números são sóbrios. Segundo a Figment, a rede contava com cerca de três dezenas de validadores (uma parte ativos, outros em penalização) e uma taxa anual de recompensa à volta de 2%, que diminui à medida que mais HYPE é colocado em staking. Um validador precisa de autodelegar pelo menos 10 mil HYPE e pode cobrar uma comissão de 1% a 5%; levantar o HYPE do staking implica uma fila de espera de cerca de sete dias. Até casas tradicionais entraram no jogo: a Gemini passou a oferecer staking de HYPE aos seus clientes, a rondar os 2% ao ano.

O ponto sensível é a concentração. Com poucas dezenas de validadores, e com a fundação do protocolo a deter uma fatia relevante do poder de voto, a Hyperliquid continua longe da descentralização de redes maiores; foi essa concentração que permitiu, no episódio JELLY, que os validadores votassem em minutos para forçar a liquidação de um mercado. Agora a Circle, emissora do USDC, prepara-se também para validar. É um padrão que já vimos noutros cantos da cripto, onde a base de segurança encolhe e se concentra em poucos operadores, e que convém vigiar quando o que está em causa é uma infraestrutura que já se compara à NASDAQ.

Wall Street quer o invólucro: a corrida ao ETF de HYPE

Se há sinal de que o mercado tradicional leva a sério este motor económico, é a corrida para o embrulhar num produto regulado. A Grayscale avançou com um pedido à SEC para listar um fundo cotado sobre HYPE na Nasdaq, sob o símbolo GHYP, e, segundo a Crypto Briefing, o processo entrou já na fase final de registo, a poucos passos da estreia. O custodiante é a Coinbase Custody e os preços seguem um índice de referência da CoinDesk. A Grayscale foi a terceira grande gestora a avançar, depois da Bitwise e da 21Shares.

O detalhe mais interessante está no nome: o fundo foi rebatizado de «Grayscale Hyperliquid Staking ETF». Ou seja, prevê a possibilidade de fazer staking de parte do HYPE que detém, capturando aquela recompensa de cerca de 2% de que falámos. Seria um invólucro de bolsa que, além de seguir o preço, ainda geraria rendimento de rede, algo impensável num ETF de ouro ou de ações. Para o investidor institucional, é uma porta de entrada limpa; para o protocolo, é mais procura potencial por HYPE.

Convém, ainda assim, não confundir invólucro barato com produto barato. Como já argumentámos a propósito de outros fundos de cripto, a comissão anunciada raramente é o custo real de um ETF: o que corrói o retorno é muitas vezes a diferença de desempenho face ao ativo, o chamado tracking error, e os custos de custódia e de staking embutidos. E há um aviso geográfico importante: estes fundos são produtos norte-americanos. O investidor europeu de retalho não lhes acede diretamente, o que nos leva ao ponto final e mais importante para quem lê a partir de Portugal.

O HYPE na carteira de um europeu: MiCA, CMVM e CFD

Para um investidor português, a primeira coisa a arrumar é a natureza jurídica do que está a comprar. O HYPE, enquanto token à vista, é um cripto-ativo abrangido pelo MiCA. Pode ser comprado e guardado através de um prestador de serviços autorizado (um CASP), com o registo sob a alçada do Banco de Portugal e a conduta de mercado supervisionada pela CMVM. É território dentro do perímetro regulado, com as proteções que isso implica. E note-se: a recompra não transforma o HYPE num título que paga dividendos; é um mecanismo do protocolo, não uma distribuição de lucros a acionistas.

O problema começa quando se passa do token para a sua negociação alavancada. Negociar perpétuos de HYPE, ou qualquer outro perpétuo, num perp DEX é, aos olhos do regulador europeu, negociar um CFD, um instrumento financeiro sob a MiFID II. E aí as regras apertam: a CMVM fixou um limite permanente de alavancagem de 2 para 1 no retalho para CFD sobre cripto, além de proteção contra saldos negativos. Como lembra o Jornal Económico, a esmagadora maioria dos investidores de retalho perde dinheiro em CFD. O detalhe decisivo: a Hyperliquid é uma plataforma sem licença, sem KYC e sem custódia, fora do perímetro autorizado. Quem a usa a partir de Portugal fá-lo sem qualquer recurso se algo correr mal.

Via de acesso ao HYPEO que éRegime na UERecurso e proteção
HYPE à vista via CASP autorizadoCompra direta do tokenMiCA; registo no Banco de Portugal, conduta na CMVMSim, dentro do perímetro
ETP europeu sobre HYPEProduto cotado em bolsaProspeto e supervisão de mercadoParcial; risco de emitente
Perpétuo de HYPE num perp DEXCFD alavancado sobre criptoMiFID II e CMVM, mas plataforma não autorizadaNenhum
ETF nos EUA (GHYP)Fundo cotado norte-americanoRegras dos EUA (SEC)Não acessível diretamente ao retalho da UE

O enquadramento não é novo nem exótico: a ESMA já esclareceu, em comunicado de fevereiro de 2026, que um perpétuo é um CFD independentemente do nome comercial que lhe deem, e o período transitório do MiCA em Portugal terminou a 1 de julho de 2026 ao abrigo da Lei n.º 69/2025. Em resumo: comprar HYPE à vista num CASP é uma coisa, bastante diferente de o alavancar num perp DEX offshore. A mesma moeda, dois mundos regulatórios.

O que vigiar a seguir

O AQAv2 é uma experiência em tempo real, e os próximos meses dizem se funciona como anunciado. Há meia dúzia de sinais que vale a pena acompanhar. Primeiro, e mais importante: a recompra aguenta-se se o volume de negociação cair? É o teste de fogo da tese de que esta nova perna de combustível quebra a reflexividade. Até agora, o preço do HYPE nunca foi verdadeiramente testado por uma queda profunda a estas avaliações.

Segundo, o tamanho das reservas. Como o juro escala com os depósitos em USDC, qualquer saída massiva de garantias numa crise encolhe também esta torneira, ainda que menos do que as comissões. Terceiro, a política monetária: cortes de juro da Reserva Federal reduzem o rendimento da dívida pública e, com ele, o que o AQAv2 entrega. Quarto, a estreia e os fluxos do ETF GHYP, que pode trazer procura institucional nova. Quinto, se a receita das comissões estabiliza ou continua a escorregar à medida que o HIP-3 cresce e divide o bolo. A tokenomics do HYPE é das mais interessantes da cripto precisamente porque tenta resolver um problema real; resta ver se a solução sobrevive ao primeiro inverno a sério.

Perguntas frequentes

O que é o AQAv2 da Hyperliquid?

O AQAv2 (Aligned Quote Asset v2) é o mecanismo, ativado a 26 de agosto de 2026, que encaminha cerca de 90% do juro gerado pelas reservas de USDC da plataforma para o Assistance Fund, que o usa para recomprar HYPE no mercado. Na prática, a recompra do token deixou de depender apenas das comissões de negociação.

Recomprar HYPE é o mesmo que queimar HYPE?

Não. O Assistance Fund compra HYPE e guarda-o numa tesouraria (cerca de 48 milhões de tokens), em vez de o destruir. A recompra retira oferta do mercado, mas essa oferta continua a existir, concentrada num cofre. A Hyperliquid queima HYPE por outras vias, como o gás da rede, mas o grande número do Assistance Fund é uma posição acumulada.

Quanto rende fazer staking de HYPE?

A taxa anual de recompensa do staking de HYPE ronda os 2%, e diminui à medida que mais token é colocado em staking. Esse rendimento vem de uma reserva de emissões (inflação programada), não das comissões do protocolo, e levantar o HYPE do staking implica uma fila de espera de cerca de sete dias.

Comprar HYPE em Portugal é legal e regulado?

Comprar e guardar HYPE à vista através de um prestador autorizado (CASP) está dentro do perímetro do MiCA, com registo no Banco de Portugal e conduta supervisionada pela CMVM. Já negociar perpétuos de HYPE num perp DEX sem licença é tratado como um CFD sob a MiFID II e fica fora desse perímetro, sem recurso para o investidor.

Já existe um ETF de HYPE?

A Grayscale pediu à SEC para listar um fundo cotado sobre HYPE na Nasdaq, sob o símbolo GHYP, e o processo entrou na fase final de registo. A Bitwise e a 21Shares também avançaram com pedidos. São produtos norte-americanos, a que o investidor europeu de retalho não acede diretamente.

Tomás Andrade escreve sobre DeFi e mercados on-chain para a HOGE Wire.

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