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● Culture & Long-reads

Governação comunitária: o voto cripto virou mercado

Cinco ETH compraram 19 milhões de votos numa só DAO. A governação prometia democracia; em 2026 vive de apatia, baleias e mercados de voto, e os projetos já procuram alternativas.

Em abril de 2025, um endereço com o nome hitmonlee.eth gastou cinco ETH, cerca de nove mil euros à data, para influenciar o rumo de uma das maiores comunidades da cripto. Não comprou tokens nem subornou ninguém em segredo. Entrou numa plataforma chamada LobbyFi, alugou 19,3 milhões de votos em ARB (então avaliados em cerca de seis milhões de euros) e lançou-os todos a favor de um candidato à delegação da Arbitrum DAO. A operação foi pública, rastreável e perfeitamente dentro das regras. Como noticiou a Decrypt, bastou isto para abalar a confiança de uma das comunidades mais sofisticadas do setor.

A cena resume o estado da governação comunitária em 2026. O modelo nasceu com uma promessa simples e radical: substituir chefes, conselhos de administração e intermediários por código, tokens e votos. Qualquer pessoa com um token poderia propor, debater e decidir. Uma década depois, a realidade é mais prosaica. A maioria dos detentores nunca vota, o poder concentra-se num punhado de baleias e delegados profissionais e os votos, afinal, têm preço de mercado.

Este artigo é um retrato dessa cultura: como funciona, onde falhou e o que os projetos mais lúcidos estão a fazer para a salvar. Dos ataques de governação na Compound às guerras de subornos na Curve, do fork que partiu a Nouns DAO ao modelo de dupla governação da Lido, até à decisão da Uniswap de simplesmente queimar tokens em vez de os deixar votar, o padrão repete-se. A governação comunitária deixou de ser um ideal e tornou-se uma arena, com a sua própria política, as suas próprias elites e, agora, os seus próprios mercados.

A promessa original: código em vez de chefes

A sigla DAO, de organização autónoma descentralizada, entrou no léxico cripto em 2016, com o lançamento e o colapso quase imediatos da primeira «The DAO». A ideia sobreviveu ao desastre. Um protocolo poderia ser gerido não por uma empresa, mas por quem detivesse os seus tokens de governação. As regras viveriam em contratos inteligentes; as decisões, de ajustar uma taxa de juro a gastar milhões da tesouraria, passariam por propostas e votações registadas na blockchain.

O desenho dominante ficou conhecido como voto ponderado por tokens: um token, um voto. É simples de implementar e difícil de falsificar, mas importa para a cripto um problema antigo das sociedades por ações. Quem tem mais capital tem mais poder. Numa empresa cotada isso é explícito e enquadrado por lei; numa DAO foi vendido como democracia. A tensão entre as duas coisas é a origem de quase tudo o que correu mal.

Mesmo assim, o modelo produziu feitos reais. Protocolos com milhares de milhões de euros em ativos passaram a ser geridos à vista de todos, com orçamentos públicos, delegados eleitos e debates abertos em fóruns. A pergunta, em 2026, deixou de ser se a governação on-chain funciona tecnicamente. Funciona. A pergunta é quem manda, de facto, quando se olha para além do marketing.

O voto que quase ninguém dá

O primeiro problema é a participação. Apesar da retórica de poder popular, a esmagadora maioria dos detentores de tokens nunca vota. Estudos académicos e dados da indústria apontam, de forma consistente, para taxas de participação baixas e para uma concentração acentuada: em muitas DAO, o decil de topo dos votantes controla a larga maioria do poder de voto. A investigação apresentada em conferências de referência, como a American Economic Association, descreve organizações formalmente descentralizadas mas, na prática, governadas por um núcleo muito estreito.

A escola de gestão de Harvard chegou a uma conclusão parecida. Num ensaio sobre o tema, a Harvard Business School descreve a promessa de democratizar o poder dos investidores a enfrentar os seus primeiros testes reais, com participação reduzida e decisões capturadas por quem detém mais tokens. Não é um problema de uma DAO ou outra; é estrutural.

Os números de votações concretas ilustram-no melhor do que qualquer média. Quando a Uniswap aprovou a sua maior reforma de sempre, em dezembro de 2025, a afluência superou os 20% do UNI em circulação, e isso foi celebrado como uma das maiores participações da história do protocolo. Ou seja, o recorde de uma das maiores DAO do mundo é quatro em cada cinco tokens a não votar. Numa votação decisiva da Compound, em 2024, a proposta passou com uma fração mínima do eleitorado a pronunciar-se.

VotaçãoResultadoAfluência / notaDataFonte
Uniswap, UNIfication125,3M UNI a favor, 742 contramais de 20% do UNI em circulação, recorde do protocoloDez. 2025Uniswap
Compound, Proposta 289682 191 a favor, 633 636 contraaprovada com uma fração do eleitoradoJul. 2024The Block
Lido, dupla governação53,6M LDO a favor, oposição residualacima do limiar mínimo de 50M LDOJun. 2025The Block
Nouns DAO, fork472 de 846 Nouns (cerca de 56%) saíramsaída em protesto («rage quit»)Set. 2023CoinDesk

Os defensores respondem que a baixa participação não é apatia, mas delegação racional: quem não quer estudar cada proposta entrega o voto a alguém de confiança. É um argumento honesto, e deu origem a toda uma classe de delegados profissionais. Também abriu a porta ao problema seguinte, o de transformar esse voto delegado num produto financeiro.

O mercado dos votos: LobbyFi e o aluguer de poder

Se o voto é um ativo que a maioria não usa, alguém acabaria por lhe pôr um preço. Foi o que aconteceu. A LobbyFi descreve-se como quem traz o lobbying à governação das DAO: um mercado onde o poder de voto parado é leiloado ou alugado a preço fixo, com o rendimento a reverter para quem cede os tokens. Na Arbitrum, a plataforma tornou-se, segundo a 99Bitcoins, o maior delegado da DAO, com controlo sobre mais de 20 milhões de ARB em votos, e está ativa noutras cadeias, de Optimism a Scroll e zkSync.

O episódio de hitmonlee.eth, cinco ETH por 19,3 milhões de votos, foi apenas o mais citado. A questão que dividiu a comunidade é se isto é corrupção ou mercado. Os críticos dizem que destrói a legitimidade das eleições. Outros, como relatou a crypto.news, argumentam que um mercado transparente e rastreável é preferível às transações privadas e invisíveis que sempre existiram. A própria DefiLlama dedicou um relatório de investigação ao papel da compra de votos na governação, sinal de que o fenómeno deixou de ser marginal.

O incómodo de fundo é que a compra de votos não é um defeito; é a consequência lógica de um token, um voto. Se o poder é proporcional ao capital e o capital é líquido, então o poder é líquido. Pode ser alugado, emprestado ou vendido como qualquer outro ativo. Tudo o que a LobbyFi fez foi construir o mercado que o modelo sempre implicou.

A classe dos delegados

Entre o detentor passivo e a baleia ergueu-se uma profissão nova: o delegado. Fundos, equipas de investigação, clubes universitários de blockchain e consultoras especializadas recebem votos delegados e, em troca, prometem acompanhar propostas, publicar análises e comparecer a cada votação. Nas maiores DAO, estes delegados são a classe política de facto; as suas posições decidem orçamentos de milhões.

O problema é que ser delegado dá trabalho e rende pouco. Em 2026, vários nomes de peso começaram a desistir. A Blockworks Advisory anunciou que recuava do seu papel na governação da Arbitrum, invocando prioridades de negócio. Quando os delegados mais competentes saem, resta quem tem interesse direto no resultado, e o vazio é preenchido por mercados como a LobbyFi. A profissionalização que ia salvar a participação acabou por concentrar ainda mais o poder.

Há aqui um paralelo desconfortável com o mundo que a cripto dizia querer substituir. A governação comunitária reinventou o lóbi, o financiamento de campanhas e a abstenção, só que sem as regras de transparência e de conflito de interesses que as democracias tradicionais, com todos os seus defeitos, foram impondo ao longo de um século.

Baleias e o ataque de governação: o caso Compound

Quando a concentração de votos se cruza com interesses próprios, o resultado tem nome: ataque de governação. O caso mais estudado é o da Compound, um dos protocolos de crédito fundadores da DeFi. Em julho de 2024, um bloco de votantes conhecido como «Golden Boys», liderado por uma baleia sob o pseudónimo Humpy, fez passar a Proposta 289 por 682 191 votos contra 633 636, como noticiou The Block.

A proposta desviava 499 000 tokens COMP, então cerca de 23 milhões de euros, para um veículo chamado goldCOMP, cujo controlo passaria para uma carteira multiassinatura fora da alçada da DAO. Michael Lewellen, consultor de segurança da Compound, veio a público ligar várias contas que vinham acumulando COMP no mercado às propostas sucessivas que canalizavam fundos para o tal produto. Por outras palavras, alguém comprou votos suficientes para aprovar a transferência do próprio tesouro.

A história teve um fim negociado. Poucos dias depois, Humpy aceitou retirar a proposta em troca de um produto de staking que distribuía parte das reservas aos detentores de COMP. A DAO evitou o pior, mas a lição ficou: quando o tesouro de um protocolo vale mais do que o custo de comprar a maioria dos votos, o ataque não é uma hipótese remota, é uma questão de aritmética. É um tema que já explorámos no retrato da guerra das DAO em 2026.

As guerras de Curve e o suborno institucionalizado

Nem toda a compra de votos é hostil. Numa parte da DeFi, tornou-se o modelo de negócio. A Curve, bolsa descentralizada especializada em stablecoins, criou o chamado voto em custódia (vote-escrow): bloqueia-se CRV por períodos até quatro anos para receber veCRV, que dá direito a votar na distribuição das recompensas entre os diferentes mercados. Como essa distribuição determina para onde fluem milhões em emissões, o direito de voto passou a valer dinheiro de verdade.

Nasceu assim uma indústria de subornos, embora o termo usado seja o mais asséptico «incentivos de voto». Plataformas como a Votium e a Hidden Hand permitem que um projeto pague aos detentores de veCRV para votarem no seu mercado. A Convex Finance acumulou o maior bloco de veCRV, por volta de metade do total, tornando-se o eleitor mais poderoso da Curve. Segundo uma análise da PANews, mais de 140 milhões de euros em subornos passaram pela Votium desde 2022, e os votantes ainda hoje recebem rendimentos anuais que podem chegar a dois dígitos só por votar.

A diferença para o caso Compound é de intenção, não de mecânica. Aqui, a compra de votos é aberta, recorrente e até saudada como uma forma de alinhar incentivos. Mas o princípio é idêntico: o voto é uma mercadoria, e quem paga mais decide. As guerras da Curve mostraram, anos antes da LobbyFi, que um mercado de votos eficiente é perfeitamente compatível com o vocabulário da descentralização.

Quando o tesouro vale mais que o token

Muitas DAO sentam-se sobre tesourarias enormes, acumuladas em vendas de tokens e receitas de protocolo. Quando o valor desse tesouro, dividido pelo número de tokens, excede o preço de mercado do próprio token, surge um incentivo perverso: vale mais destruir a organização e repartir o cofre do que mantê-la viva.

Foi exatamente o que aconteceu com a Nouns DAO, um dos projetos de NFT mais emblemáticos do Ethereum. Em setembro de 2023, descontentes com a forma como o tesouro era gasto, os detentores acionaram um mecanismo de saída em protesto. Segundo a CoinDesk, 472 dos 846 Nouns, cerca de 56% da coleção, decidiram sair, levando consigo 16 757 ETH, na altura cerca de 25 milhões de euros, para uma nova DAO. O projeto original perdeu, em poucos dias, mais de metade do seu tesouro.

O caso Nouns transformou o «rage quit», ou botão de resgate, de ideia teórica em acontecimento real. Em vez de uma baleia capturar o tesouro, foi a comunidade a desmantelá-lo, tomando cada um a sua parte. Para uns, foi governação a funcionar: um direito de saída que protege a minoria. Para outros, foi a prova de que muitas DAO são, no fundo, fundos de investimento à espera de serem liquidados. Analisámos essa dinâmica em detalhe no caso do botão de resgate e do esvaziamento de tesourarias em 2026.

A resposta da engenharia: governação dual e direito de saída

Se o problema é a captura por quem detém o token de governação, uma solução é dar poder de veto a quem suporta o risco real. Foi o caminho da Lido, o maior protocolo de staking líquido do Ethereum. Em 2025, a sua DAO aprovou um modelo de dupla governação que, como explicou The Block, dá aos detentores de stETH, e não apenas aos detentores do token LDO, poder para atrasar ou vetar decisões.

O mecanismo é engenhoso. Se os detentores de stETH depositarem o equivalente a pelo menos 1% do ETH em staking num contrato de bloqueio, a proposta é adiada cinco dias, prazo que aumenta à medida que mais stETH é depositado. Se o depósito chegar a 10%, o protocolo entra num estado de «rage quit»: nenhuma proposta nova se executa até os dissidentes terem oportunidade de sair com o seu ETH. A votação de aprovação reuniu 53,6 milhões de LDO a favor, com oposição residual, mal ultrapassando o limiar mínimo exigido de 50 milhões.

A dupla governação é, no fundo, um reconhecimento de que um token, um voto não chega. Separa quem especula no token de governação de quem tem pele no jogo, e dá à segunda categoria uma arma defensiva. É uma ideia que ecoa o debate sobre de quem é, afinal, o recibo quando se faz staking líquido de ETH, e que outras comunidades começam a copiar.

Minimizar a governação: a aposta da Uniswap

A reação mais radical ao problema não foi melhorar o voto, mas reduzi-lo. A corrente que ganhou força em 2025 e 2026 chama-se minimização da governação: quanto menos decisões discricionárias existirem, menos superfície de ataque, menos apatia e menos capturas. A Uniswap, a maior bolsa descentralizada, tornou-se o rosto desta filosofia.

Durante anos, a comunidade discutiu se devia ativar o «fee switch», o mecanismo que redireciona parte das comissões dos fornecedores de liquidez para o protocolo. A cada tentativa, o debate afundava-se em receios jurídicos e conflitos de interesse. Em dezembro de 2025, o fundador Hayden Adams apresentou a proposta UNIfication, que resolvia a questão de um só golpe. A proposta «liga as comissões de protocolo e alinha os incentivos em todo o ecossistema Uniswap», escreveu Adams ao submetê-la a votação.

O voto, aberto entre 19 e 25 de dezembro, passou com 125 342 017 UNI a favor e apenas 742 contra, segundo o fórum de governação da Uniswap. Cem milhões de UNI foram queimados de imediato e os fee switches ligados, passando as comissões a destruir UNI de forma contínua. Meses depois, em julho de 2026, a governação alargou o mecanismo aos pools v4, elevando a receita diária de protocolo de cerca de 105 mil para cerca de 300 mil euros.

A subtileza política é enorme. Em vez de a comunidade decidir todos os meses o que fazer com a receita, o protocolo passa a queimar tokens automaticamente, por regra, sem votação. É governação a demitir-se de si própria, confiando mais no código fixo do que na deliberação contínua. O valor regressa ao token, o conflito desaparece, e a comunidade tem cada vez menos para decidir. Para muitos projetos, trocar deliberação por regras automáticas tornou-se a forma mais segura de evitar ataques e apatia de uma só vez.

Casas, cidadãos e bens públicos: o modelo Optimism

No extremo oposto da minimização estão os que tentam tornar a governação mais rica, não mais pobre. O Optimism, uma das principais redes de camada 2 do Ethereum, construiu um sistema bicameral a que chama Optimism Collective. De um lado, a Token House, onde os detentores de OP e os seus delegados votam, no modelo clássico de um token, um voto. Do outro, a Citizens’ House, baseada não em capital, mas em reputação, com um princípio de uma pessoa, um voto.

A Citizens’ House decide a chamada Retroactive Public Goods Funding, o financiamento retroativo de bens públicos: em vez de apostar em promessas, a comunidade recompensa projetos que já provaram ser úteis. Segundo o Optimism, já foram distribuídas dezenas de milhões de OP por várias rondas desde 2021. A aposta é separar as decisões de capital das decisões de valor público, dando a cada câmara o tipo de poder para que está mais bem preparada.

ModeloComo funcionaExemploFraqueza principal
Um token, um votoPoder proporcional aos tokens detidosUniswap, CompoundPlutocracia e compra de votos
Voto em custódia (ve)Bloqueio de tokens por tempo dá mais votoCurve, ConvexMercados de suborno
Dupla governaçãoUtilizadores do protocolo podem vetarLidoComplexidade e coordenação
Bicameral / reputaçãoCâmara de capital e câmara de pessoasOptimismMedir reputação sem fraude de identidade
SubDAO / StarsGovernação fragmentada em unidadesSky (ex-MakerDAO)Recentralização em torno do núcleo
MinimizaçãoMenos decisões discricionárias, mais regras fixasUniswap (pós-UNIfication)Rigidez perante o imprevisto

Nenhum destes modelos resolve tudo. A reputação é difícil de medir sem abrir a porta a fraudes de identidade; a dupla governação acrescenta camadas de complexidade; a minimização torna o protocolo rígido perante o imprevisto. Mas todos partilham o mesmo diagnóstico: o voto por tokens, sozinho, não produz as decisões que prometia.

Fundações contra DAO: quem manda, de facto

Há um poder que raramente aparece nos diagramas de governação, mas decide mais do que qualquer votação: a fundação. Quase todos os grandes protocolos têm, por trás da DAO, uma entidade legal, uma fundação ou empresa, que emprega os programadores, detém marcas e, muitas vezes, controla partes críticas da infraestrutura. A tensão entre esse núcleo e a comunidade tornou-se um dos enredos centrais de 2026.

Na Arbitrum, a própria fundação propôs mudar as regras do jogo. Segundo The Defiant, a proposta concederia a um pequeno conjunto de entidades «alinhadas com a Arbitrum» o poder de rever e recomendar sobre todas as propostas antes de irem a voto. Os críticos, como recolheu a DL News, avisaram que isto reduziria os detentores de ARB a algo parecido com acionistas sem voto, com o poder a regressar ao centro.

O caso da Sky, a antiga MakerDAO, ilustra a mesma gravidade por outra via. A rebrand de 2024 fragmentou a governação em subunidades chamadas Stars, cada uma com o seu token e o seu foco, numa reorganização descrita como a maior de sempre num grande protocolo DeFi. Na prática, muito do poder regressou a um núcleo coordenador, agora assistido por ferramentas de governação automatizadas. O movimento de fundo, em toda a indústria, é o mesmo que já contámos a propósito de como o builder rebelde se transforma em empresa: a descentralização recua quando o dinheiro e a responsabilidade legal aumentam.

O que dizem Vitalik e os investigadores

Poucos foram tão cedo e tão duros na crítica como Vitalik Buterin. Já em 2021, no ensaio «Moving beyond coin voting governance», o cofundador do Ethereum alertava que o voto por moedas, na sua forma atual, era vulnerável à compra de votos e a ataques diretos, e defendia alternativas como a prova de humanidade ou de participação.

Em janeiro de 2026, voltou à carga. Segundo o relato da The Block, Buterin apelou a DAO «diferentes e melhores», que vão além do voto dos detentores de tokens, e identificou dois obstáculos de fundo: a falta de privacidade e a fadiga de decisão. «Sem privacidade, a governação transforma-se num jogo social», terá dito, referindo-se à pressão para votar conforme o grupo quando cada voto é público. Sobre a fadiga, notou que a participação entusiástica das primeiras semanas tende a desaparecer quando se exige uma decisão a cada semana.

A academia confirma o diagnóstico. Além do voto quadrático e da reputação, os investigadores exploram a privacidade por provas de conhecimento nulo, para votar sem revelar a posição, e o uso cuidadoso de inteligência artificial para reduzir a carga de decisão. O consenso emergente é claro: o futuro da governação comunitária não passa por mais votações por tokens, mas por melhores mecanismos, que separem capital de legitimidade e protejam o eleitor da exposição e do cansaço.

Portugal, a Europa e o olhar do regulador

Para o leitor português, a governação comunitária não é só uma curiosidade tecnológica; é um território jurídico por mapear. A questão central é brutalmente simples: se votares numa DAO, podes ser responsabilizado pelo que ela faz? Nos Estados Unidos, um tribunal já respondeu que sim. No caso CFTC contra Ooki DAO, decidido em 2023, a justiça considerou a DAO uma associação sem personalidade jurídica, responsável pelas infrações, e aceitou o argumento de que votar com um token de governação faz do votante um membro dessa associação.

Na União Europeia, o quadro é diferente, mas igualmente incerto. O regulamento MiCA não criou uma categoria para as DAO. Como notam os juristas da CMS, serviços prestados de forma totalmente descentralizada podem ficar fora do regulamento, mas não existe um limiar claro para o que conta como «totalmente descentralizado», o que deixa a interpretação às autoridades nacionais. E um prestador de serviços de criptoativos licenciado tem de ser uma pessoa coletiva estabelecida na UE, pelo que uma DAO pura não pode, hoje, obter licença.

Em Portugal, a autoridade competente é a CMVM, que assume a supervisão dos prestadores ao abrigo do MiCA. Para um investidor nacional, isto tem consequências práticas: um token de governação pode ou não ser um criptoativo regulado consoante a sua função, e participar na governação de um protocolo pode, em teoria, ter implicações legais ainda por testar nos tribunais europeus. Quem acompanha estas matérias faria bem em vigiar o calendário regulatório, que já detalhámos na contagem das datas que o mercado negoceia. A fronteira entre comunidade e empresa, do ponto de vista do direito, está longe de resolvida.

O que vigiar a seguir

A cultura da governação comunitária entrou numa fase de correção. Três tendências vão definir os próximos meses. A primeira é a regulação dos mercados de voto: a Arbitrum e outras DAO estão a debater se devem proibir, penalizar ou simplesmente aceitar plataformas como a LobbyFi, e a decisão criará precedente.

A segunda é a expansão da minimização. Se a aposta da Uniswap der frutos, com o token a valorizar e os conflitos a desaparecer, outros protocolos vão imitá-la, reduzindo a governação a um mínimo de regras fixas. A terceira é jurídica: o primeiro grande processo europeu que trate uma DAO como associação responsável, à semelhança do caso Ooki, mudará o cálculo de risco de qualquer pessoa que vote.

O veredito provisório é desconfortável para os puristas. A governação comunitária não falhou tecnicamente; falhou como ideologia. Não aboliu o poder, apenas o redistribuiu de forma diferente, para baleias, delegados, fundações e mercados. Em 2026, os projetos mais honestos já não prometem democracia perfeita. Prometem mecanismos menos maus, o que, visto de perto, talvez seja a definição mais realista de governação que a cripto alguma vez teve.

Perguntas frequentes

O que é a governação comunitária na cripto?

É o modelo em que um protocolo ou projeto é gerido pelos detentores dos seus tokens de governação, e não por uma empresa tradicional. As decisões, desde ajustar parâmetros a gastar fundos da tesouraria, são tomadas através de propostas e votações registadas na blockchain, mas o poder tende a concentrar-se em grandes detentores e delegados.

O que é a compra de votos numa DAO e é legal?

É a prática de alugar ou comprar poder de voto, através de plataformas como a LobbyFi ou de mercados de incentivos como a Votium. Dentro das regras de uma DAO costuma ser permitida, já que o voto é proporcional a tokens transacionáveis. O debate é sobretudo ético e de desenho, e juridicamente mantém-se uma zona cinzenta.

Porque é tão baixa a participação nas votações das DAO?

Porque a maioria dos detentores não tem tempo, conhecimento ou incentivo para analisar cada proposta, e um voto individual raramente muda o resultado. Mesmo em votações históricas, como a maior reforma da Uniswap, a afluência ronda os 20% dos tokens. Muitos delegam o voto, o que concentra o poder numa classe restrita de delegados.

O que é um ataque de governação?

É quando alguém acumula poder de voto suficiente para aprovar uma decisão contra o interesse da comunidade, normalmente para desviar fundos. O exemplo mais conhecido é a Proposta 289 da Compound, em 2024, em que um bloco tentou canalizar cerca de 23 milhões de euros em tokens para um veículo fora do controlo da DAO antes de recuar sob pressão pública.

As DAO são reguladas em Portugal?

Não existe um regime específico para DAO em Portugal nem na UE. O regulamento MiCA aplica-se aos criptoativos e aos seus prestadores de serviços, supervisionados em Portugal pela CMVM, mas não resolve o estatuto jurídico das DAO. A responsabilidade legal de quem vota permanece por esclarecer nos tribunais europeus.

Por Tiago Marques, editor sénior da HOGE Wire, especializado em DeFi e governação on-chain.

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