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● Predictions & Forecasts

Brasil votou, a Fed decide: a cripto entre urnas e juros

Lula venceu a segunda volta e desmentiu o Polymarket, mas o Bitcoin mal reagiu. A tese repete-se: a urna é ruído; a Fed de amanhã e o poder executivo é que mexem no preço.

No domingo, 25 de outubro, o Brasil fez o que poucos modelos davam como provável: reconduziu Luiz Inácio Lula da Silva a um quarto mandato, com 51,79% dos votos válidos contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, segundo o apuramento do Tribunal Superior Eleitoral noticiado pela NPR. Flávio tinha vencido a primeira volta a 4 de outubro; perdeu a segunda por pouco mais de quatro milhões de votos. O Bitcoin, esse, mal deu por isso.

Enquanto Brasília contava votos, a cripto já olhava para outro lado: para a reunião da Reserva Federal norte-americana que termina amanhã, 28 de outubro, e que os mercados dão como quase certa em manter as taxas. O Bitcoin oscilou em torno dos 80 mil dólares (cerca de 72.300 euros) e caiu abaixo desse nível na véspera da decisão, num movimento de redução de risco que nada teve que ver com o resultado brasileiro.

Esta é a tese do artigo, e ela repete-se em cada episódio eleitoral de 2026: para uma carteira denominada em euros, a urna é sobretudo ruído, uma vela rápida que tende a reverter; o sinal é o que o vencedor faz com o poder, e o calendário que mexe mesmo no preço é o monetário. Entre a vitória de Lula, a Fed de amanhã, o prazo de licenciamento das exchanges brasileiras a 30 de outubro e as intercalares norte-americanas de 3 de novembro, apenas um destes quatro acontecimentos costuma deixar marca durável. E, quase sempre, não é uma eleição.

Uma semana em que tudo acontece ao mesmo tempo

Raramente o calendário empilha tantos eventos sensíveis ao preço em tão poucos dias. Convém separar o barulho do sinal antes de a semana começar a produzir manchetes. A tabela seguinte arruma os quatro gatilhos imediatos e o quinto, em dezembro, que é na verdade o mais pesado de todos.

DataEventoO que está em jogoPeso provável no preço
25 out (passado)Segunda volta no BrasilQuarto mandato de LulaBaixo; já aconteceu, reação mínima
28 outDecisão da FedManter juros, tom sobre dezembroAlto
30 outPrazo VASP no BrasilLicenciar ou cessar as exchangesMédio; fluxos, não voto
3 novIntercalares nos EUAControlo da Câmara e do SenadoMédio a longo prazo
8-9 dezFed com novas projeçõesSubida de juros e dot plotMuito alto

Lido de uma ponta à outra, o quadro diz o essencial: o dia mais ruidoso da semana não é uma ida às urnas, é a quarta-feira da Fed; e o dia mais importante do trimestre ainda está para chegar, a 8 e 9 de dezembro, quando o banco central volta a publicar projeções. Tudo o resto é contexto.

O Brasil virou o jogo (e o Polymarket errou)

O resultado foi uma reviravolta. Flávio Bolsonaro, senador e filho de Jair Bolsonaro, tinha liderado a primeira volta com 47,03% contra 45,16% de Lula. Na segunda volta, o presidente de 80 anos recuperou e venceu por 51,79% a 48,21%, com cerca de 64,3 milhões de votos contra 59,8 milhões, uma diferença de pouco mais de quatro milhões, como resumiu a CNN. O Partido Liberal reconheceu a derrota, ainda que Flávio tenha anunciado que vai pedir aos tribunais a anulação do escrutínio.

Para quem segue cripto, o dado mais revelador não é político, é metodológico. O Polymarket, o mercado de previsões onde circula dinheiro a sério, chegou à véspera com Flávio em torno de 77% de probabilidade, enquanto as sondagens davam um empate técnico. O mercado estava confiante e estava errado. Mercados de previsão não são bolas de cristal: têm liquidez fina nas pontas, sofrem de reflexividade (o favorito atrai apostas por ser favorito) e exageram o azarão ocasional. Servem para ler probabilidades, não para adivinhar resultados.

É um aviso útil a quem já está a ler as intercalares norte-americanas pelas probabilidades do mesmo Polymarket. Um número redondo e convincente não é uma profecia. Já vimos modelos sedutores falhar antes, do stock-to-flow às curvas que prometiam topos em datas certas; convém a mesma humildade perante uma barra de progresso cor de laranja.

E a cripto? Mal piscou

A reação do mercado à vitória de Lula foi, na prática, nenhuma. O Bitcoin estava abaixo dos 80 mil dólares antes de domingo e continuou abaixo dos 80 mil dólares depois, com a cotação em euros perto dos 72.300 e o Ether nos 2.060 euros. A capitalização do Bitcoin rondava os 1,6 biliões de dólares. O movimento da semana, uma descida ordenada de risco, foi ditado pela Fed e não pelo Planalto, como mostram os dados de preço de 27 de outubro.

Isto não é acaso. As eleições produzem velas de curto prazo que revertem depressa, porque a informação nova de uma noite eleitoral é pequena perto do que já estava descontado em sondagens, posicionamento e, sim, mercados de previsão. Nas eleições presidenciais norte-americanas deste século, o movimento imediato da noite eleitoral foi quase sempre modesto; quando foi grande, como em 2020, teve muito mais que ver com o halving e com a chegada de empresas ao ativo do que com o boletim de voto em si. A urna raramente traz surpresa suficiente para marcar o preço por mais do que uns dias.

O barulho verdadeiro é amanhã: a Fed de 28 de outubro

O evento que a cripto está mesmo a negociar é a decisão da Reserva Federal. Num ponto o consenso é quase unânime: não haverá alteração de taxas amanhã. A Kalshi dava cerca de 93% de probabilidade de manutenção e apenas 6% de subida, e um inquérito da Reuters citado pela CNBC mostrava 94 de 100 economistas a esperar que a Fed fique quieta em outubro. A reunião não traz projeções novas, por isso o essencial estará no tom.

E o tom aponta para dezembro. No mesmo inquérito, os 100 economistas, sem exceção, previam uma subida na reunião de 8 e 9 de dezembro; os mercados de futuros colocavam essa probabilidade perto dos 72%. O pano de fundo ajuda a perceber porquê: a Fed de Kevin Warsh subiu os juros a 16 de setembro para a banda dos 3,75% a 4%, a primeira subida desde 2023, a inflação de setembro acelerou para 3,7% e o emprego criou uns magros 29 mil postos. Há argumentos para apertar e argumentos para esperar, e Warsh tem recusado dar pistas.

Questionado pela diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, o presidente da Fed respondeu que não antecipa decisões: «Não prejulgo reuniões» e «Não acredito em dizer agora o que poderei fazer nas reuniões que ainda temos este ano», declarou em Washington. Para o mercado, a leitura é direta. «Esta semana, as atenções estão todas na reunião da Fed e já parece que os investidores estão a reduzir risco, com o Bitcoin a cair abaixo dos 80 mil dólares. Embora a Fed provavelmente não mexa nas taxas esta semana, estamos a ver com que força o presidente sugere uma subida em dezembro; é isso que conta para a cripto», disse Jeff Mei, diretor de operações da exchange BTSE, à CoinDesk.

Para quem conta em euros há ainda um efeito cambial que separa o que sente um investidor em dólares do que sente um investidor em euros. Uma Fed restritiva tende a fortalecer o dólar, e o BCE, com a taxa de depósito em torno de 2,50%, não acompanha o ritmo de Washington. Com o EUR/USD perto de 1,11, o euro fraco deste ano amorteceu parte das quedas medidas em dólares; é a mesma divergência monetária que fixa o câmbio e, com ele, o preço final em euros.

Porque é que o voto quase não mexe no preço

Vale a pena arrumar os canais pelos quais a política chega mesmo a uma carteira cripto, ordenados por impacto durável e não por quantidade de manchetes. Nem todos os canais são iguais, e o que domina raramente é a cédula eleitoral.

CanalExemplo em 2025-2026VelocidadeImpacto durável
Monetário (juros, liquidez, dólar)Subida da Fed a 16 de setembroImediato e persistenteAlto
Executivo (ordens, nomeações, reservas, tarifas)Reserva Estratégica de Bitcoin; tarifa de 10 de outubro de 2025Dias a mesesAlto
Regulação e legislaçãoCLARITY chumbada; SEC a legislar por via regulamentarLentoMédio
Dinheiro político (super PAC)193 milhões de dólares da FairshakeCiclo eleitoralNecessário, não suficiente
Previsão e sentimentoPolymarket no Brasil e nas intercalaresMinutosBaixo e ruidoso

Olhe-se cada degrau. O canal monetário é o mais rápido e o mais persistente, porque muda o custo do dinheiro para toda a gente e em todo o lado ao mesmo tempo. O canal executivo é quase tão potente, mas age por saltos, ao ritmo de uma assinatura. A legislação é lenta e, como se viu com a CLARITY, pode nem sequer acontecer. O dinheiro político compra acesso e influência, mas não garante um resultado, muito menos o 60.º voto no Senado. E os mercados de previsão, no fundo da lista, são um bom termómetro e um péssimo oráculo.

A cédula, por si só, não aparece no topo da lista. O que aparece é o poder que a eleição distribui: quem nomeia o banco central, quem preside à SEC, quem assina ordens executivas, quem decide tarifas. É aí que o resultado de uma ida às urnas se transforma, meses depois, em preço.

A lição de 2024, em três atos

A eleição norte-americana de 2024 é o melhor caso de estudo, e a sua lição não está na noite eleitoral. Vista com calma, a subida que levou o Bitcoin dos 69 mil aos 100 mil dólares teve três atos, e o primeiro foi o menor.

Ato um, a vela: o Bitcoin valia cerca de 69 mil dólares na noite de 5 de novembro de 2024 e saltou para mais de 74 mil com a vitória projetada, chegando aos 90 mil uma semana depois. Rápido e vistoso, mas era a parte fácil e amplamente antecipada. Ato dois, a nomeação: a fasquia dos 100 mil dólares só caiu a 4 de dezembro, horas depois de Donald Trump escolher Paul Atkins, favorável à cripto, para presidir à SEC, como a CNN documentou na altura. A perna durável do movimento veio de uma nomeação, semanas depois do voto.

Ato três, as ordens: nos meses seguintes vieram as decisões executivas que transformaram a promessa de campanha em política de Estado, da reserva estratégica de Bitcoin ao desmantelamento de processos da SEC, detalhadas já de seguida. Quem comprou a vela da noite eleitoral apanhou o ato mais curto e mais reversível; quem leu a sequência percebeu que o preço durável vinha do poder, não do boletim.

O canal que importa: o poder executivo, não a urna

A 6 de março de 2025, a Casa Branca assinou a ordem executiva 14233, que criou a Reserva Estratégica de Bitcoin e um depósito de ativos digitais do Estado. A reserva arranca com cerca de 200 mil bitcoins vindos de apreensões, não pode ser vendida e deve ser engrossada por vias orçamentalmente neutras, segundo o texto oficial. Nenhuma votação parlamentar foi precisa para isto.

O resto do primeiro ano seguiu a mesma lógica executiva: uma SEC com nova liderança deixou cair processos, o anterior presidente saiu, a CFTC mudou de mãos e a retórica oficial passou a querer os EUA como «capital mundial da cripto». Para o preço, o que conta é o comprador marginal que estas decisões convidam: tesourarias, fundos cotados e ETF, ou seja, dinheiro institucional que não existia nos ciclos anteriores. Quando esse comprador recua, como quando a MSCI ameaçou expulsar as tesourarias dos índices, o efeito sente-se mais do que em qualquer noite eleitoral. A eleição acende o motor; o motor é institucional.

A maior jogada política da cripto foi uma tarifa, não uma eleição

Se restam dúvidas sobre qual o canal mais potente, o calendário recente responde. O maior movimento político alguma vez visto na cripto não foi uma eleição; foi uma publicação nas redes sociais sobre tarifas. A 10 de outubro de 2025, o anúncio de uma tarifa de 100% sobre as importações chinesas desencadeou a maior liquidação de sempre: mais de 19 mil milhões de dólares em posições fechadas à força em 24 horas, nove vezes o maior dia anterior, com cerca de 1,6 milhões de contas apanhadas, segundo a CoinShares. O Bitcoin caiu de uns 122.500 para menos de 105.000 dólares em poucas horas.

Um ano depois, o mesmo canal continua a mandar. A trégua comercial entre os EUA e a China foi prolongada até 10 de janeiro de 2027, anunciada pelo secretário do Tesouro Scott Bessent durante a visita de Xi Jinping a Washington, noticiou a ICIS. Essa data é o próximo precipício executivo do calendário e, para uma carteira em euros, pesa mais do que qualquer boletim de voto em Brasília ou em Ohio. Uma tarifa move mais cripto numa tarde do que uma eleição numa noite.

3 de novembro: o dinheiro que não compra o voto

As intercalares de 3 de novembro trazem o paradoxo mais interessante do ciclo. A indústria cripto chega a estas eleições com o maior cofre de guerra setorial de sempre. A Fairshake, o principal super PAC do setor, declarou 193 milhões de dólares em caixa, um aumento de cerca de 37% face a julho, com 25 milhões da Ripple, 25 milhões da Coinbase e 24 milhões da a16z, segundo a Cointelegraph. No total, os grupos cripto gastaram cerca de 176 milhões de dólares em mais de 100 corridas ao Congresso, noticiou a crypto.news, com dezenas de milhões concentrados numa única corrida, a do Senado pelo Ohio, contra o democrata Sherrod Brown, como detalhou a Cointelegraph. A Fairshake apoia ainda 32 candidatos à Câmara, segundo a CNBC.

O setor insiste que o dinheiro não compra o voto, compra relações, e prepara-se já para a era pós-Trump. O porta-voz da Fairshake, Geoff Vetter, disse que o PAC «apoia candidatos que defendem a inovação financeira americana nos dois partidos». Colin McLaren, responsável de relações governamentais do Solana Policy Institute, descreveu o esforço como «um investimento no futuro», destinado a garantir regras previsíveis para as próximas décadas, ambos citados pela crypto.news.

O paradoxo é que esse cofre recorde pode encontrar pela frente uma vitória democrata. O Polymarket dava aos democratas cerca de 92% de probabilidade na Câmara e 65,5% no Senado, com a varredura das duas câmaras também em 65,5% e uma varredura republicana em apenas 7,5%, segundo os dados do dia 27. Uma varredura democrata entregaria a presidência da Comissão Bancária do Senado a Elizabeth Warren e enterraria por mais tempo qualquer lei de estrutura de mercado. Mas repita-se o aviso do Brasil: estas probabilidades são leituras de mercado, não resultados. Quem gere governação em cadeia conhece bem a distância entre um voto anunciado e o que acontece depois, como mostrou a guerra civil da Aave.

A CLARITY morreu, mas a regulação não espera o Congresso

Há um mal-entendido comum: achar que a cripto depende de uma lei do Congresso para ter regras. A Lei CLARITY, o enquadramento de estrutura de mercado que distinguiria valores mobiliários de mercadorias digitais, caiu a 15 de setembro numa votação de cloture de 49 a favor e 50 contra, longe dos 60 necessários. Não morreu pela definição de valor mobiliário, mas por cláusulas de ética (os rendimentos cripto do próprio presidente) e por regras sobre stablecoins e financiamento ilícito, como recordou a US News ao analisar o dilema dos doadores do setor.

Sem lei, os reguladores avançam à mesma. A SEC propôs a 1 de outubro um quadro de custódia de ativos digitais, permitindo em certas condições a autocustódia por consultores e abrindo a porta a sociedades fiduciárias estaduais como custodiantes qualificados. No dia seguinte, Hester Peirce, a comissária apelidada de «mãe da cripto», deixou a agência, que ficou reduzida a dois comissários, Paul Atkins e Mark Uyeda, depois de o quórum ter sido baixado de três para dois, noticiou o CryptoSlate. A mensagem para o investidor é que o regime se constrói por via regulamentar, não legislativa, e que isso não fica à espera de eleições. Como argumentou um analista citado pela crypto.news, hoje o risco de uma nova subida da Fed pesa no preço mais do que um atraso da CLARITY.

O canal Brasil que mexe mesmo num euro: o prazo de 30 de outubro

Para um investidor português, o verdadeiro canal brasileiro desta semana não é quem ganhou a eleição, é uma data regulatória três dias depois. A 30 de outubro expira o prazo para as exchanges e prestadores de serviços de ativos virtuais pedirem autorização ao Banco Central do Brasil, ao abrigo das Resoluções 519, 520 e 521, em vigor desde 2 de fevereiro. Quem não entregar o pedido tem de cessar operações, e a partir dessa data os bancos e instituições de pagamento ficam proibidos de transacionar com prestadores não licenciados, explica o Rio Times.

As exigências não são triviais: um relatório de garantia razoável emitido por uma auditora registada no regulador de valores mobiliários, a atestar que os controlos de branqueamento e sanções funcionam, e capital mínimo entre 10,8 e 37,2 milhões de reais (cerca de 2,2 a 7,6 milhões de dólares), segundo a análise da CertiK. Está em causa um mercado de cerca de 319 mil milhões de dólares em ativos, estima a mesma firma. Isto é um canal de fluxos e de liquidez, não de voto, e é a forma concreta como o Brasil pode mexer num preço global; o esvaziamento das reservas das exchanges, aliás, lê-se melhor nos movimentos das baleias do que nas sondagens.

Washington, não Lisboa: a assimetria para quem investe em euros

Há uma assimetria que o investidor português tende a esquecer: a sua carteira cripto é muito mais sensível à política de Washington do que à de Lisboa ou de Bruxelas. A razão é regulatória. A MiCA, aplicável desde 30 de dezembro de 2024, fixou o enquadramento europeu, e o período transitório português terminou a 1 de julho de 2026. Em Portugal, a Lei n.º 69/2025 reparte as competências: o Banco de Portugal autoriza os prestadores de serviços (CASP) e supervisiona a parte prudencial e as stablecoins, enquanto a CMVM cuida da conduta de mercado, das ofertas e do abuso de mercado.

Por outras palavras, o beta político doméstico de uma carteira europeia é quase nulo: as regras do jogo já estão escritas e não dependem do próximo governo nacional. O que sobra como fonte de volatilidade política é importado, e vem sobretudo dos EUA, via dólar e via decisões executivas. No plano prático, para o residente fiscal em Portugal valem as regras de sempre: 28% sobre as mais-valias de posições detidas menos de 365 dias, isenção acima desse prazo, reporte ao abrigo da DAC8, perpétuos tratados como CFD com alavancagem retalhista limitada a 2:1 sob a DMIF II, e exposição cotada através de ETP, já que não existe na Europa um ETF spot em formato UCITS. O USDT, recorde-se, saiu do retalho europeu sob a MiCA.

Os cenários até dezembro

Juntando as peças, eis como podem correr as próximas seis semanas. O cenário base não é otimista nem pessimista: é a pausa de amanhã seguida de uma provável subida em dezembro, com o mercado a digerir a hipótese de uma Câmara democrata a fiscalizar em vez de legislar.

CenárioGatilhoLeitura para a criptoPlausibilidade
Pausa dovishFed mantém e Warsh suaviza dezembroAlívio de curto prazo, apetite por riscoBaixa a média
Pausa hawkishFed mantém mas confirma o viés para dezembroLiquidez mais cara, pressão contidaAlta (base)
Varredura democrataDemocratas ganham Câmara e SenadoFiscalização, CLARITY adiada, overhang regulatórioAlta no Polymarket, mas o Brasil avisa
Choque externoTarifas, Irão ou petróleoLiquidações rápidas, eco de 10 de outubroCauda, não central

Repare-se que três dos quatro cenários dependem de decisões executivas ou monetárias, e só um depende de uma ida às urnas, cujo efeito, mesmo numa varredura, se faria sentir pela via lenta da supervisão e não pela vela de uma noite eleitoral. Os alvos de preço dos analistas para 2026 refletem a mesma hierarquia: convergem no macro e divergem na política.

Como ler a semana sem se queimar

Resta a parte prática. Se a urna é ruído e o executivo é sinal, a postura para os próximos dias segue daí quase sozinha.

  • Não negociar a vela da urna: o resultado do Brasil já aconteceu e o das intercalares tende a reverter depressa.
  • Ouvir o tom de Warsh e o peso que dá a dezembro, mais do que a decisão de manutenção de amanhã.
  • Tratar o prazo VASP de 30 de outubro como um evento de fluxos e de liquidez, não de voto.
  • Dimensionar para o cenário base: pausa agora, subida provável em dezembro.
  • Ler o Polymarket como probabilidade, não como profecia; o Brasil mostrou como falha.

No fim, a regra é a mesma de todo o ano eleitoral de 2026: contar os votos é fácil, mas o preço conta outra coisa. Conta quem fica com o poder de nomear, de assinar e de taxar. E, esta semana, conta sobretudo o que Kevin Warsh disser amanhã ao fim da tarde.

Perguntas frequentes

Quem ganhou a segunda volta das eleições no Brasil em 2026?

Lula da Silva venceu a segunda volta de 25 de outubro com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, e vai cumprir um quarto mandato a partir de 5 de janeiro de 2027. Flávio tinha liderado a primeira volta, o que tornou o resultado uma reviravolta.

A vitória de Lula fez o Bitcoin subir ou descer?

Praticamente nem uma coisa nem outra. O Bitcoin mal reagiu ao resultado e manteve-se em torno dos 80 mil dólares (cerca de 72.300 euros), a negociar a reunião da Fed e não a eleição brasileira. A descida da véspera foi um movimento de redução de risco ligado à decisão monetária de 28 de outubro.

A Fed vai subir os juros a 28 de outubro de 2026?

O mercado dá cerca de 93% de probabilidade de a Fed manter as taxas em outubro. O verdadeiro debate é dezembro: praticamente todos os economistas inquiridos pela Reuters esperam uma subida na reunião de 8 e 9 de dezembro, e os futuros apontam para perto de 72%.

O que é o prazo VASP de 30 de outubro no Brasil?

É a data-limite para as exchanges e prestadores de serviços de ativos virtuais pedirem autorização ao Banco Central do Brasil. Quem não entregar o pedido tem de cessar operações, e a partir dessa data os bancos ficam proibidos de transacionar com prestadores não licenciados, o que afeta fluxos e liquidez num mercado de cerca de 319 mil milhões de dólares.

Como é que as eleições nos EUA afetam uma carteira cripto em euros?

Sobretudo por duas vias: o dólar e a liquidez global, e o que o poder executivo faz depois do voto, como ordens executivas, nomeações e reservas. A lei e a cédula em si pesam menos e mais devagar. Em Portugal, a MiCA e a Lei n.º 69/2025 já fixaram o enquadramento, pelo que o beta político doméstico é quase nulo.

Tomás Almeida escreve sobre mercados e política de criptoativos para a HOGE Wire.

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