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● Predictions & Forecasts

Stock-to-flow: o modelo falhado que se recusa a morrer

O stock-to-flow falhou em todos os testes que importam, mas recusa-se a morrer. Porque é que um modelo refutado sobrevive, e o que isso ensina sobre ler previsões de preço.

Em outubro de 2026, o Bitcoin vale cerca de €75.287 (CoinGecko), uns 30% abaixo do máximo histórico de €107.662 marcado a 6 de outubro de 2025. O halving de abril de 2024 cumpriu-se ao bloco, tal como o código prometia: a recompensa caiu de 6,25 para 3,125 BTC e a escassez do Bitcoin, medida pelo rácio stock-to-flow, duplicou de um dia para o outro. Segundo o modelo de previsão de preço mais famoso da cripto, isto deveria ter atirado o Bitcoin para as centenas de milhares de euros. Aconteceu exatamente o contrário.

A discussão sobre se o stock-to-flow (S2F) está errado terminou há muito. Falhou no preço, falhou no calendário e falhou no piso que o próprio autor traçou. A pergunta que ainda interessa é outra, e é mais incómoda: porque é que um modelo refutado se recusa a morrer? Porque é que continua a aparecer em threads, relatórios de corretoras e grupos de Telegram, dois anos depois de a realidade o ter desmentido? A resposta diz menos sobre o Bitcoin e mais sobre a forma como lemos qualquer previsão de preço. É por isso que ainda interessa a quem investe em 2026.

A pergunta certa já não é se o S2F falhou

Convém separar duas perguntas que costumam andar coladas. A primeira, «o S2F acertou?», já tem resposta, e a resposta é não. O preço nunca se instalou perto das linhas do modelo, o piso que o autor publicou em 2021 foi rompido, e o teste mais limpo de todos, o halving de 2024, correu ao contrário da previsão. Sobre isto não há grande debate honesto por fazer.

A segunda pergunta é a que fica por responder: se o modelo está morto nos dados, porque é que continua tão vivo na conversa? Chamemos-lhe o modelo zombie. Dois anos depois do seu fracasso mais visível, o S2F ainda enquadra discussões de ciclo, ainda aparece em apresentações e ainda serve de bandeira a toda uma geração de detentores. Essa teimosia não é um detalhe folclórico; é o fenómeno mais instrutivo de toda a história.

Esta peça é uma autópsia da persistência. Vamos recapitular depressa o que o modelo prometeu e o que entregou, para depois gastar o essencial do texto na pergunta que importa: que forças mantêm um modelo falhado de pé, e o que é que a sobrevivência dele nos ensina a desconfiar quando lemos a próxima previsão de preço. Para quem acompanha o nosso trabalho sobre previsões, esta é a moldura que falta nas outras análises: não o veredicto, mas a anatomia da crença.

O que o stock-to-flow promete (e porque é tão sedutor)

O rácio stock-to-flow mede dureza monetária: divide o stock existente de um ativo pela produção anual nova (o fluxo). Quanto maior o rácio, mais difícil é diluir a oferta e, segundo a tese, mais o ativo tende a guardar valor. A ideia não nasceu com a cripto. Nick Szabo descreveu-a em 2002 no ensaio Shelling Out, ao falar de colecionáveis que valem por serem «custosos de forjar»; o seu termo, «unforgeable costliness», é a raiz filosófica de tudo isto. Saifedean Ammous levou o argumento ao limite em The Bitcoin Standard (2018), onde define a dureza de uma moeda precisamente pelo seu stock-to-flow e coloca o ouro no topo entre os metais (recensão no Cato Journal).

Foi o analista pseudónimo PlanB quem transformou esta filosofia num modelo de preço. No artigo de março de 2019, Modeling Bitcoin Value with Scarcity, cruzou o rácio S2F do Bitcoin com a sua capitalização de mercado e obteve uma linha de regressão com um R² de cerca de 95%. Em abril de 2020, a versão cross-asset (S2FX) prometia uma média de 288 mil dólares por Bitcoin no ciclo seguinte (modelo original de PlanB). A sedução está toda aqui: um gráfico log-log com uma correlação altíssima parece física, não opinião. Dá um número, dá um destino e transforma a volatilidade num mero ruído à volta de uma reta inevitável.

Ativo ou eventoRácio stock-to-flowLeitura do modelo
Prata~22reserva de valor secundária
Ouro~62o «dinheiro mais duro» clássico
Bitcoin (antes de 2020)~27ainda abaixo do ouro
Bitcoin (depois do halving de 2024)~119quase o dobro do ouro
Bitcoin (depois do halving de 2028, estimativa)~240escassez sem paralelo histórico

Os rácios de prata, ouro e Bitcoin vêm do explicador do próprio modelo; a linha de 2028 é aritmética simples, porque cada halving corta o fluxo a meio e, por isso, aproximadamente duplica o rácio. Guarde esta tabela, porque é a base de toda a promessa do S2F: se a escassez manda no preço, então a coluna do meio devia prever a riqueza futura. O resto do artigo é sobre o abismo entre essa promessa e o que o mercado realmente fez.

O cartão de pontuação: o que previu, o que aconteceu

Antes de perguntar porque é que o modelo sobrevive, é preciso ver o tamanho do buraco entre a previsão e a realidade. O S2F não falhou por pouco, numa leitura ou noutra; falhou de forma sistemática e em todas as versões que o autor publicou.

PrevisãoO que o S2F indicavaO que aconteceu
Modelo original (2019)média de ~55 mil dólares em 2020-2024média real perto de ~34 mil dólares
S2FX (abril de 2020)média de ~288 mil dólares em 2020-2024nunca atingida como média de ciclo
Floor model (novembro de 2021)piso de 98 mil dólaresfechou perto de 57 mil dólares
Banda inferioro preço nunca cai abaixo delarompida em junho de 2022; fundo ~15,5 mil dólares
Alvo atualmédia de ~500 mil dólares em 2024-2028~82 mil dólares (€75 mil) em outubro de 2026

O momento mais revelador foi o chamado floor model, no final de 2021. Depois de acertar agosto, setembro e outubro, PlanB publicou um piso de 98 mil dólares para novembro, e o Bitcoin fechou o mês muito abaixo disso. O autor reconheceu o erro com uma frase que ficou: «primeira falha do floor model (depois de acertar agosto, setembro e outubro). Nenhum modelo é perfeito, mas esta é uma falha grande e a primeira em dez anos» (CryptoPotato). Repare na costura retórica: admite a falha de uma ferramenta acessória (o floor), mas mantém o modelo-mãe intacto. Esse gesto, ceder o detalhe para salvar a tese, é o primeiro sinal de porque é que o S2F não morre, e ainda hoje PlanB aponta para uma média de 500 mil dólares em 2024-2028 (Yahoo Finance).

O teste que o modelo já reprovou: o halving de 2024

Há uma ironia no centro deste modelo. A única variável que o S2F mede bem é a oferta, e a oferta é a única coisa do Bitcoin que é perfeitamente previsível. O halving não é uma aposta: está escrito no código, acontece a cada 210 mil blocos e qualquer pessoa sabia, ao dia, que em abril de 2024 a emissão passaria de 6,25 para 3,125 BTC por bloco. O rácio stock-to-flow duplicou na hora marcada. Foi o teste de laboratório perfeito, com a variável independente entregue de bandeja.

O resultado foi uma refutação limpa. A oferta apertou exatamente como previsto e o preço fez o oposto do guião: subiu até um máximo de cerca de 126 mil dólares em outubro de 2025 e depois caiu, nunca se aproximando dos 288 mil ou 500 mil. Pior ainda para a tese: o múltiplo de cada ciclo está a encolher, não a crescer. O máximo de 2017 ficou cerca de 17 vezes acima do de 2013; o de 2021, cerca de 3,4 vezes acima do de 2017; o de 2025, menos de duas vezes acima do de 2021. A geometria do S2F exige o contrário, ou seja, cada halving mais explosivo do que o anterior, porque o rácio sobe sempre. O mercado entrega retornos decrescentes à medida que o ativo amadurece.

Este ponto merece ênfase porque desarma a defesa habitual. Quando um crítico aponta para a liquidez, para os ETF ou para a Fed, o defensor do S2F pode responder que são fatores externos. Mas aqui não há externo nenhum: o halving é a variável interna do próprio modelo, o seu motor, e mesmo assim o resultado foi contrário. Quando o teste que devia ser mais favorável ao modelo é o que mais claramente o contradiz, o veredicto empírico está fechado. O que sobra para explicar é tudo menos técnico.

Primeira razão para sobreviver: a procura por certezas

Quem detém um ativo que oscila 30% num mês vive com uma ansiedade de fundo, e essa ansiedade procura um analgésico. O S2F oferece o melhor analgésico do mercado: um destino. Em vez de «o preço pode ir a qualquer lado», o modelo diz «o preço vai para ali, e o caminho até lá é apenas ruído». Uma reta com R² de 95% num gráfico log-log não parece uma opinião; parece uma lei da natureza. É essa aparência de inevitabilidade física que preenche a necessidade emocional, e nenhuma quantidade de dados contrários apaga facilmente uma necessidade emocional.

Vitalik Buterin resumiu o perigo em junho de 2022, no dia em que o Bitcoin rompeu a banda inferior do próprio S2F: «modelos financeiros que dão às pessoas uma falsa sensação de certeza e de predestinação de que o número-vai-subir são perniciosos e merecem toda a troça que recebem» (The Block). A frase é dura, mas acerta no mecanismo. O S2F não é popular apesar de vender certeza; é popular precisamente porque vende certeza. O produto é o conforto, e o conforto não tem época de saldos.

Segunda razão: a infalsificabilidade como traço de sobrevivência

Um modelo que pode ser morto por uma única leitura de preço é frágil; um modelo que explica qualquer desfecho é imortal. O S2F migrou para a segunda categoria. O alvo atual, uma média entre 250 mil e um milhão de dólares ao longo de «um ciclo completo de quatro anos», é largo o suficiente para que nenhum ano concreto o possa desmentir. Se o preço sobe, confirma-se; se cai, ainda falta chegar a média; se o ciclo acaba longe da linha, foi encurtado por fatores externos.

Esse é o coração da defesa que PlanB mantém até hoje: os desvios entre a previsão e o preço vêm de choques de fora (corretoras a implodir, subidas de juros, liquidações de cisne negro), não de qualquer falha na relação escassez-valor; deem ao modelo um ciclo inteiro e a média voltará à reta. O problema é que uma tese que transforma cada erro em ruído e cada quase-acerto em sinal deixou de ser testável. Karl Popper tinha uma regra simples para isto: uma teoria que não proíbe nada não explica nada. Quando um alvo não tem prazo, estar «cedo demais» e estar errado tornam-se indistinguíveis, e um modelo que nunca pode estar errado também nunca pode estar certo de forma útil.

Terceira razão: identidade e um autor que nunca se retratou

Os modelos que sobrevivem ao próprio fracasso costumam ter virado identidade. O S2F deixou de ser uma ferramenta e passou a ser uma bandeira de uma coorte inteira de detentores, que o adotaram quando o preço subia e que não vão abandoná-lo sem admitir que erraram publicamente. A isto junta-se o viés de sobrevivência das narrativas: num mar de previsões, as que acertaram por acaso ou que soaram mais grandiosas ficam na memória coletiva, e as outras evaporam-se. O S2F foi grandioso o suficiente para ficar.

O detalhe decisivo é que o autor nunca se retratou. Reconheceu a falha do floor, mas manteve o modelo-mãe, e continua a reafirmar os 500 mil dólares. Ao mesmo tempo, na gestão do dia a dia, passou a navegar por médias móveis de 200, 100 e 50 semanas, pelo preço realizado, pelo RSI e pela dificuldade de mineração, uma mudança que já analisámos em detalhe. Por outras palavras, o criador do modelo governa-se por outras ferramentas enquanto mantém o cartaz dos 500 mil na parede. Quando nem o autor usa o próprio modelo para decidir, mas também não o enterra, percebe-se que o que está em jogo já não é previsão; é pertença.

O contra-exemplo do ouro que ninguém quer ouvir

Há um teste de sanidade que desmonta o S2F sem uma única equação, e é o próprio ativo que o modelo usa como âncora: o ouro. O ouro tem o stock-to-flow mais alto de todas as matérias-primas reais, à volta de 62, muito acima da prata. Se a escassez medida pelo S2F governasse mesmo o preço, o ouro seria o ativo mais previsível do planeta, uma reta ascendente e serena ao longo de décadas.

Não é nada disso. O ouro teve décadas de preço praticamente estagnado e disparos súbitos, e o que explica esses movimentos são as taxas de juro reais, as compras dos bancos centrais e a força do dólar, não o seu rácio de escassez, que mal se mexe de ano para ano. Ou seja: o ativo que Ammous coloca no topo da hierarquia da dureza monetária é, ele próprio, a prova de que um S2F elevado não determina o preço. A escassez pode ser condição necessária para guardar valor, mas está longe de ser suficiente para o prever. Faltam sempre do outro lado da equação os compradores, e é aí que o modelo é cego.

O melhor argumento a favor do S2F (e porque não chega)

Seria desonesto tratar os defensores do modelo como ingénuos, porque existe um argumento estatístico sério a favor do S2F, e vale a pena enfrentá-lo na sua versão mais forte. O caso mais interessante é o de Marcel Burger, que em 2020 se propôs demonstrar que o S2F era uma regressão espúria. Partiu cético: as suposições da regressão linear estavam violadas e havia o risco clássico de confundir duas séries que sobem juntas no tempo com uma relação real.

Depois correu os testes a sério, e mudou de ideias em público. Usando os métodos de Engle-Granger e de Johansen, não conseguiu rejeitar a hipótese de que o rácio S2F e a capitalização do Bitcoin estavam cointegrados, isto é, ligados por um equilíbrio de longo prazo e não por mera coincidência. Nas suas palavras: «não consegui. No início fui rápido demais a tirar conclusões e, por isso, avisei as pessoas de que o modelo era falho» (WORDS Bitcoin Journal). Este é, de longe, o argumento mais honesto a favor do modelo: dentro da amostra, a relação não pôde ser derrubada.

E, mesmo assim, não chega, por três razões que o tempo tornou incontornáveis. Primeiro, cointegração dentro da amostra não é previsão fora da amostra; que duas séries andem juntas até 2019 não garante que continuem depois. Segundo, a amostra é minúscula: há apenas quatro halvings na história, e nenhuma econometria séria assenta uma lei em quatro pontos. Terceiro, e mais importante, a era dos ETF trouxe uma quebra estrutural que a amostra original nunca viu; o regime de procura mudou de natureza a partir de 2024. Uma relação que «não podia ser rejeitada» com dados de 2010 a 2019 foi, essa sim, rejeitada pelo preço de 2024 a 2026. O melhor argumento do S2F era válido no seu tempo e é precisamente o que a passagem do tempo refutou.

A estatística que mantém o mito vivo: tautologia e autocorrelação

Se o modelo falha fora da amostra, porque é que o famoso R² de 95% parece tão esmagador? Parte da resposta é uma armadilha matemática. A capitalização de mercado é, por definição, o stock multiplicado pelo preço; o rácio S2F é o stock a dividir pelo fluxo. O stock aparece dos dois lados da regressão, de modo que o modelo está, em boa medida, a correlacionar o stock consigo próprio. O analista Level39 traduziu isto numa frase: o ajuste é «o stock em função do stock», e é «cientificamente inútil» (Bitcoin Magazine).

Cory Klippsten, da Swan Bitcoin, foi ainda mais direto no mesmo trabalho: «o modelo está autocorrelacionado. Não precisa do S2F de todo. É só o preço em função do tempo.» Quando se ajusta a regressão para a autocorrelação, o poder explicativo colapsa para perto de zero. Por outras palavras, a correlação impressionante não vem de a escassez prever o preço; vem de duas variáveis crescerem ao longo do tempo e de uma delas estar escondida nos dois lados da conta.

Há ainda a recalibração perpétua. Nico Cordeiro, da Strix Leviathan, chamou-lhe um modelo «camaleão», daqueles que se repintam depois de cada erro para parecerem sempre certos, e comparou o seu sucesso ao «dos modelos astrológicos do passado» (CoinDesk). A trajetória dos alvos dá-lhe razão: 55 mil, depois 288 mil, depois 500 mil. Um modelo que se reajusta à realidade a cada ciclo não está a ser testado pela realidade; está a ser protegido dela. E um modelo protegido da realidade pode viver para sempre, porque nunca se deixa apanhar.

O único sucesso do S2F foi uma profecia autorrealizável

Falta explicar o incómodo que alimenta a crença: em 2020 e 2021, o S2F pareceu funcionar. O preço subiu numa altura em que a linha dizia que devia subir, e milhares de pessoas viram nisso a confirmação da lei. A explicação mais plausível não é a escassez, é a reflexividade. Quando toda uma comunidade acredita no mesmo gráfico e compra por causa dele, o ato coletivo de comprar produz a subida que o gráfico «previa». É um ponto de Schelling: um ponto de coordenação para onde as pessoas convergem porque todas esperam que as outras também convirjam.

O problema para o modelo é que esse mecanismo social dissolveu-se. O comprador marginal de 2026 já não é o retalhista de Telegram que segue um gráfico de escassez; são ETF, tesourarias corporativas e mesas institucionais que fixam preço por fluxos, mandatos e gestão de risco, como mostrámos ao documentar como a liquidez venceu a escassez ao longo deste ano. Um ponto de Schelling só funciona enquanto os jogadores partilham o mesmo foco; quando a base de jogadores muda, a coordenação desfaz-se. Foi exatamente o que aconteceu: o meio-sucesso de 2020-2021 não se repetiu em 2024-2025 porque o jogo que o produziu deixou de existir.

O que o S2F não vê: a procura

Todas as falhas acima têm a mesma raiz: o S2F só tem olhos para a oferta. Mas o preço nasce do encontro entre oferta e procura, e foi a procura que mandou no mercado nos últimos dois anos. A tabela seguinte mostra os motores que realmente moveram o preço desde o halving de 2024 e quantos deles o modelo consegue ver.

O que moveu o preço (2024-2026)O S2F vê isto?
Halving de abril de 2024 (oferta)Sim (é a única variável que o modelo vê)
Entrada dos ETF à vista nos EUANão
Tesourarias corporativas e soberanasNão
Política monetária da FedNão
Liquidez do dólar e recompras do TesouroNão
Crash de 10 de outubro de 2025 (~19 mil milhões de dólares liquidados)Não

Seis motores, um visível. Os ETF à vista abriram uma porta de procura que não existia nos ciclos anteriores, e os custos e a mecânica desses produtos passaram a importar mais do que qualquer rácio de escassez, um ponto que detalhámos ao explicar por que a comissão não é o verdadeiro custo de um ETF de cripto. Do lado macro, a Reserva Federal subiu a taxa diretora para 3,75%-4,00% e, perante uma inflação ainda quente, pondera o próximo passo na reunião de 27-28 de outubro (CNBC); é esse calendário de juros, e não o calendário dos halvings, que tem ditado o apetite por risco, como argumentámos na análise de outubro entre a pausa e o aperto de dezembro.

O exemplo mais cru foi o 10 de outubro de 2025. Num único dia, cerca de 19 mil milhões de dólares em posições alavancadas foram liquidados e o Bitcoin caiu de uns 122 mil para uns 105 mil dólares (CoinShares). Foi um evento puro de alavancagem e estrutura de mercado, do tipo que nasce na mecânica dos derivados e da base dos futuros que já dissecámos. A oferta não mudou um único satoshi nesse dia, e o S2F, que só olha para a oferta, estava condenado a não ver nada. Um modelo cego ao lado que decide o preço não é um modelo de preço; é um modelo de calendário disfarçado.

A lei dos grandes números que o modelo ignora

Há ainda uma objeção aritmética que o entusiasmo costuma atropelar. O alvo de 500 mil dólares equivale hoje a cerca de €456 mil, ou seja, mais de seis vezes o preço atual. Para lá chegar, a capitalização do Bitcoin teria de rondar os 9 biliões de euros, mais do que o valor de qualquer empresa do planeta e uma fração enorme de todo o ouro já extraído. Não é impossível, mas exige uma torrente de capital novo que nenhuma relação de oferta garante.

E é aqui que a geometria do S2F se vira contra si mesma. O modelo precisa de que cada ciclo seja mais explosivo do que o anterior, porque o rácio de escassez sobe a cada halving. A realidade entrega o oposto: múltiplos de ciclo decrescentes, de 17 vezes para 3,4 e depois para menos de 2. À medida que um ativo fica maior, a mesma percentagem de subida exige cada vez mais dinheiro em termos absolutos, e os retornos naturalmente comprimem-se. O S2F pede aceleração num ponto da curva em que a maturidade só permite desaceleração.

O próximo halving, por volta de abril de 2028, voltará a cortar o fluxo a meio e a duplicar o rácio para perto de 240. Pela lógica do modelo, isso deveria implicar um alvo ainda mais extremo. Mas o halving de 2024 já fez exatamente esse teste, com o rácio a saltar para 119, e o preço respondeu com uma subida modesta seguida de queda. Repetir uma experiência que já falhou, na esperança de um resultado diferente, não é uma previsão; é um desejo com data marcada.

Como ler qualquer modelo de preço (a lição que fica)

A verdadeira utilidade da autópsia do S2F não é enterrar um modelo; é aprender a reconhecer o próximo. Há quatro bandeiras vermelhas que repetem em quase todas as previsões de preço que depois falham. Uma: não se deixa falsificar num horizonte útil, porque o alvo é largo e sem prazo. Duas: recalibra-se depois de cada erro, repintando as linhas para continuar a parecer certo. Três: modela a oferta mas ignora a procura, que é quem realmente fixa o preço. Quatro: no fundo, ajusta o preço ao tempo e chama-lhe lei. Quando uma previsão marca estas quatro casas, não está a prever; está a contar uma história.

O contraste ajuda a ver o que é honesto. Indicadores como o preço realizado ou o MVRV não prometem um destino; funcionam como termómetros, dizem se o mercado está caro ou barato face ao custo médio dos detentores, e ficam-se por aí. Não dão um alvo, e é precisamente essa recusa que os torna fiáveis. Um bom modelo descreve o estado presente; um mau modelo vende o futuro. A diferença entre um GPS e um horóscopo é que o GPS admite quando não sabe onde fica o destino.

Para o investidor português, o enquadramento regulatório diz o mesmo por outras palavras. A CMVM lembra de forma repetida que os criptoativos são ativos de elevado risco, sem valor intrínseco garantido, e que resultados passados não garantem resultados futuros (CMVM); a entrada em vigor da MiCA ao nível europeu reforça a supervisão, mas não elimina o risco de perda total. Um modelo que promete um destino de centenas de milhares de euros colide frontalmente com estes avisos. A persistência do S2F é, no fim, uma lição sobre como lemos previsões, não sobre quanto vale o Bitcoin. O modelo sobrevive porque responde a uma necessidade humana de certeza; o mercado sobrevive sem lhe dar ouvidos.

Perguntas frequentes

O modelo stock-to-flow do Bitcoin falhou?

Sim. Falhou nas previsões de preço, no calendário e no piso de 2021. O teste mais claro foi o halving de 2024: a oferta apertou exatamente como previsto e o preço fez o contrário do guião, longe dos 288 mil ou 500 mil dólares projetados.

Então porque é que o S2F continua tão popular?

Por três razões que pouco têm a ver com dados. Dá uma falsa sensação de certeza a quem detém um ativo volátil, tornou-se impossível de falsificar porque o alvo é largo e sem prazo, e virou uma marca de identidade que o autor nunca renegou.

O que diz o PlanB, criador do modelo, em 2026?

Continua a apontar para uma média de cerca de 500 mil dólares no ciclo de 2024-2028, mas, na prática, passou a orientar-se por médias móveis, preço realizado, RSI e dificuldade de mineração. Mantém o alvo como bandeira enquanto decide por outras ferramentas.

Se o ouro tem o stock-to-flow mais alto, não devia ser o mais previsível?

Esse é precisamente o contra-exemplo. O ouro tem o stock-to-flow mais alto das matérias-primas e, ainda assim, o seu preço é ditado pelas taxas de juro reais, pelas compras dos bancos centrais e pelo dólar, não pela escassez. Um S2F alto não chega para prever o preço.

Que modelos substituem o S2F para prever o preço do Bitcoin?

A lei de potência partilha o mesmo defeito, ajustar o preço ao tempo, e tem bandas tão largas que também não se deixa falsificar. Indicadores como o preço realizado ou o MVRV servem de termómetros de risco, mas não dão um alvo de preço, e essa honestidade é a sua maior virtude.

Por Priya Reddy, redação da HOGE Wire. Análise editorial; não constitui aconselhamento financeiro.

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