O crente é coautor: porque queremos acreditar no fundador
Analisámos todos os que seguram o microfone. Falta o último autor da entrevista ao fundador cripto: a audiência que quer acreditar e que raramente se fiscaliza a si própria.
Durante um mês, esta série desmontou quase tudo o que se interpõe entre um fundador de criptomoedas e quem o ouve. Analisámos o fundador que fala e o fundador que se cala, o entrevistador e os seus incentivos, o corte viral e o deepfake, a tradução automática, o agente de inteligência artificial que responde por uma marca e o pseudónimo que nunca teve nome legal. Em todos esses textos, o objeto de análise era alguém, ou alguma coisa, que segurava o microfone.
O microfone aponta para uma cadeira; a entrevista fecha-se no seu ouvido
Falta um autor nesta contabilidade. O único que nunca pusemos na cadeira dos suspeitos é quem tem o telemóvel na mão, do outro lado, a ouvir. Uma entrevista não fica escrita quando o fundador termina a frase; fica escrita quando alguém decide o que fazer com ela. E essa decisão, acreditar ou duvidar, perdoar a evasiva ou registá-la, comprar ou fechar o separador, é a outra metade do documento.
A tese deste texto é incómoda porque nos aponta a nós próprios. Uma burla precisa de uma vítima disposta, um culto precisa de uma congregação e uma tese de investimento precisa de alguém que queira mesmo que ela seja verdadeira. O fundador cripto não convence sozinho: tem uma coautora, uma plateia que, por razões psicológicas, sociais e financeiras muito concretas, chega à entrevista já a torcer por um final feliz. Depois de treze retratos sobre quem produz o discurso, é hora de olhar para quem o consome, porque é aí que o resultado se decide.
A procura de fé: porque a entrevista precisa de um crente
Toda a série anterior olhou para a oferta, a produção do discurso. O lado da procura é o consumo desse discurso, e é o mercado real. A economia da atenção fabrica o palco, mas é a audiência que o valida com o seu tempo, a sua confiança e, no fim, o seu dinheiro. Sem procura de fé, o palco mais bem montado fica vazio.
Acreditar não é um ato passivo. O ouvinte preenche lacunas, arredonda as ambiguidades a favor do orador, concede o benefício da dúvida e, sobretudo, traz para a sala um interesse próprio. Quem já comprou o token não ouve a mesma entrevista que um cético; ouve uma confirmação de que decidiu bem. É por isso que o texto que dedicámos a quem fiscaliza o entrevistador ficava a meio caminho: analisava os incentivos de quem segura o microfone, mas não os de quem segura o telemóvel. Este texto fecha esse círculo e classifica os incentivos do lado de lá.
A distinção importa porque muda o que se procura. Contra o fundador, procuramos mentiras. Contra a audiência, procuramos motivos para não querer ouvi-las. E esses motivos são, quase sempre, mais poderosos do que qualquer argumento.
Vale a pena virar a câmara ao contrário. Uma plateia comporta-se de duas maneiras ao mesmo tempo: é validadora, porque concede ou nega credibilidade com a sua atenção, e é investidora, porque muitas vezes tem dinheiro em jogo naquilo que ouve. Estes dois papéis entram em conflito permanente. O validador devia recompensar a franqueza e penalizar a evasiva; o investidor, esse, precisa que o fundador tenha razão, e por isso está disposto a aceitar a evasiva como prudência e a franqueza sobre o risco como falta de convicção. Quando os dois papéis vivem na mesma pessoa, o investidor costuma ganhar.
A fraude de afinidade: o esquema que corre dentro da tribo
Há um nome regulatório para a forma como a confiança se transforma em vulnerabilidade: fraude de afinidade. A comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, a SEC, define-a como o esquema que explora a confiança e a amizade existentes em grupos de pessoas com algo em comum, seja uma religião, uma etnia, uma profissão ou uma idade. Os burlões que a praticam são, ou fingem ser, membros do grupo, e recrutam figuras respeitadas de dentro para difundir a mensagem. Como o grupo é fechado, as vítimas tendem a não denunciar e a tentar resolver tudo internamente, o que atrasa a deteção. Muitas destas fraudes são, no fundo, esquemas de Ponzi.
A cripto não é apenas um mercado; é um grupo de afinidade quase perfeito. Tem uma identidade partilhada («somos cedo», «somos a alternativa»), um léxico próprio que separa os iniciados dos outros e um inimigo comum, o banco, o «fiat», a «TradFi». Quem entra neste grupo não chega neutro: chega já predisposto a confiar em quem fala a sua língua e desconfia dos mesmos inimigos. A entrevista ao fundador não é o primeiro contacto; é um ritual de reforço de uma fé que já existe. É por isso que os mesmos avisos que fariam qualquer pessoa fugir de um estranho soam a lealdade quando vêm de dentro da tribo.
A tabela seguinte separa os graus de crença que se sentam na mesma plateia. Não são pessoas diferentes; são estados diferentes em que a mesma pessoa pode entrar consoante o quanto já investiu, emocional e financeiramente.
| Tipo de espetador | O que quer da entrevista | O que o prende | O ponto cego |
|---|---|---|---|
| O curioso casual | Contexto e entretenimento | Um bom apresentador | Confunde carisma com competência |
| O seguidor parassocial | Sentir que «conhece» o fundador | Anos de podcast e presença diária | Intimidade sem reciprocidade |
| O detentor (o «bag holder») | Confirmação de que comprou bem | A própria carteira | Criticar o fundador é criticar-se |
| O membro da congregação | Pertença a uma tribo | Identidade e inimigo comum | Fraude de afinidade |
| O soldado (o «LUNAtic») | Defender o líder, atacar o «FUD» | Orgulho e lealdade | Redobra quando a profecia falha |
| O crente institucional (fundo, media) | Validar a própria aposta | Reputação e capital já aplicado | O halo contamina a diligência |
A intimidade fabricada: a interação parassocial
O motor psicológico do seguidor tem um nome antigo. Em 1956, os investigadores Donald Horton e Richard Wohl descreveram a interação parassocial: a ilusão de uma relação recíproca, cara a cara, com uma figura mediática que, na verdade, nunca soube que existimos. O apresentador fala diretamente para a câmara, usa um tom coloquial, dirige-se a «vocês», e o espetador responde como se estivesse numa conversa. É uma relação genuína de um só lado.
O podcast longo, de duas ou três horas, é a catedral desta era. Ao fim de dezenas de episódios, o ouvinte conhece as piadas do fundador, o timbre da sua voz quando hesita, as histórias da infância. Sente que o conhece. E confiamos em quem conhecemos. O problema é que essa intimidade é um produto, cuidadosamente encenado, e não uma prova de carácter. Quando chega a entrevista difícil, o crente não avalia um estranho a responder a acusações graves; defende um amigo injustiçado. O formato longo não foi escolhido por acaso pela cultura do culto ao fundador: é o que melhor fabrica esta falsa proximidade à escala de milhões.
O laço não é acidental; é cultivado. O fundador que responde a um comentário, que trata os seguidores por um nome coletivo, que partilha um momento pessoal no fim de uma transmissão, está a fabricar a sensação de reciprocidade que a interação parassocial, por definição, não tem. Cada um destes gestos custa segundos ao fundador e compra anos de lealdade a quem os recebe. Quando a entrevista incómoda chegar, essa lealdade acumulada será gasta de uma só vez, e o crente pagá-la-á de bom grado, convencido de que está a proteger alguém que, na prática, nunca soube o seu nome.
O saco é a equipa: raciocínio motivado e a identidade do detentor
Há um ponto em que a análise deixa de ser possível: o momento em que se compra o token. A partir daí, uma crítica ao fundador deixa de ser informação e passa a ser um ataque pessoal, porque questiona o julgamento, o dinheiro e, muitas vezes, a identidade de quem comprou. É o raciocínio motivado a funcionar: já não procuramos saber se é verdade, procuramos razões para que continue a ser. O saco (a carteira) transforma-se na equipa.
A economia comportamental deu um nome à parte irracional deste laço: o efeito de posse, a tendência para valorizarmos mais aquilo que já é nosso só porque é nosso. Na cripto, esse efeito é depois formalizado pela própria arquitetura. As comunidades fechadas por token, os grupos onde só entra quem detém o ativo, transformam a crença em bilhete de entrada: duvidar deixa de ser uma opinião e passa a ser um risco para a pertença ao grupo. O detentor não defende apenas a carteira; defende o direito a continuar na sala.
Daqui nasce o vocabulário defensivo das comunidades. A dúvida legítima é reclassificada como «FUD», um rótulo que não responde ao argumento, apenas o expulsa da tribo. Quem duvida é traidor, pago pela concorrência, ou simplesmente «não percebe». Esta hostilidade organizada ao ceticismo é, ela própria, o sinal mais fiável de que estamos perante uma congregação e não perante um mercado. Num mercado saudável, a dúvida é bem-vinda porque melhora o preço. Numa congregação, a dúvida é heresia porque ameaça a fé.
Quando a profecia falha: porque o crente redobra depois do colapso
O comportamento mais contraintuitivo do crente acontece exatamente quando devia render-se: no colapso. Em 1956, o psicólogo Leon Festinger e os seus colegas infiltraram-se num pequeno culto que previa o fim do mundo para a meia-noite de 20 de dezembro de 1954, e publicaram o resultado em When Prophecy Fails. Quando a inundação não veio, os membros menos comprometidos foram-se embora, mas os mais dedicados não abandonaram a crença; reforçaram-na, arranjaram uma justificação (os extraterrestres tinham poupado a Terra graças à sua fé) e passaram a proselitizar com mais fervor do que antes. Quanto mais tinham sacrificado, mais insuportável era admitir o erro.
A cripto reproduz este padrão com fidelidade quase clínica. Depois do desaparecimento de milhares de milhões, houve quem se organizasse para «reconstruir» a Terra/LUNA e quem continuasse a defender Sam Bankman-Fried como um génio incompreendido. O caso mais elegante é a narrativa que hoje corre entre os defensores da FTX: como a massa insolvente acabou por pagar aos credores acima de 100% do valor reconhecido, então «afinal não houve crime». A profecia falhou, mas a fé encontrou um novo argumento. Convém lembrar a diferença: essa recuperação veio da liquidação de ativos, da subida do mercado entre 2022 e 2026 e do facto de os créditos terem sido fixados ao baixo valor em dólares da data da falência, não da inocência de ninguém. A apropriação de fundos pela Alameda foi provada em tribunal. Ter pago não é o mesmo que não ter roubado.
A versão quotidiana desta dissonância tem um refrão: «ainda é cedo». Sempre que um ciclo desilude, a promessa não morre, adia-se para o próximo, e a espera vira prova de fé em vez de motivo de dúvida. É um mecanismo elegante, porque não há data em que possa ser refutado: o crente que perdeu no último ciclo não conclui que estava errado, conclui que estava simplesmente cedo demais. A fé, ao contrário de uma tese, não tem forma de falhar.
As congregações: os Celsians de Mashinsky e os LUNAtics de Do Kwon
Duas comunidades ilustram melhor do que qualquer teoria o que é uma congregação cripto. A da Celsius chamava-se a si própria «Celsians». Alex Mashinsky pregava semanalmente, em sessões de perguntas e respostas que funcionavam como sermões, um evangelho de três palavras: «unbank yourself». Os bancos eram o inimigo, a Celsius era a salvação e o rendimento prometido era a prova. A congregação confiou. Mashinsky declarou-se culpado e foi condenado a 12 anos de prisão, tendo embolsado mais de 45 milhões de dólares enquanto dava aos clientes um falso conforto sobre uma aprovação regulatória que nunca existiu. O rendimento que a congregação tomava por milagre era, como explicámos ao separar o rendimento real do subsídio disfarçado, uma promessa sem motor por baixo.
A da Terra tinha um exército. Os detentores de LUNA autodenominavam-se «LUNAtics» e a imprensa apelidava Do Kwon de «rei dos Lunatics». Quando a UST perdeu a paridade e a LUNA entrou em queda livre, Kwon publicou o seu célebre «steady lads» para acalmar os crentes enquanto tudo ardia. O lado humano desta lealdade é sombrio: no servidor de Discord da comunidade, um moderador pseudónimo improvisou uma linha de apoio para os membros em desespero. Do Kwon foi condenado a 15 anos por uma fraude de cerca de 40 mil milhões de dólares. A audiência não foi estúpida; foi devota, que é bem mais difícil de curar.
O que mantém uma congregação unida não é só a fé; é a punição da dúvida. Nestas comunidades, o cético é recebido com o desdém de uma expressão consagrada, «have fun staying poor», diverte-te a continuar pobre, uma forma de expulsar quem pergunta antes de a pergunta contaminar os outros. Quem sai a tempo é ridicularizado por «não ter percebido»; quem fica é celebrado pela «convicção». Esta engenharia social inverte os incentivos normais de um investidor: em vez de ser recompensado por reconhecer um erro cedo, é castigado por isso, e recompensado por dobrar a aposta.
O halo dos crentes de elite: o perfil que a Sequoia apagou
Seria confortável acreditar que os crentes são sempre pequenos investidores mal informados. Não são. A crença sobe a escada social tão facilmente como desce. O exemplo definitivo é um documento que já não existe: em setembro de 2022, a Sequoia, um dos fundos de capital de risco mais respeitados do mundo, publicou sobre Bankman-Fried um perfil deslumbrado intitulado «Sam Bankman-Fried Has a Savior Complex, And Maybe You Should Too». Quando a FTX implodiu, semanas depois, o texto foi silenciosamente apagado, o fundo desvalorizou para zero o seu investimento de 214 milhões de dólares e pediu desculpa aos seus investidores.
O jornalista Michael Lewis, autor de alguns dos melhores livros de não ficção financeira, passou meses ao lado de Bankman-Fried e produziu em Going Infinite um retrato tão próximo que muitos leram como cumplicidade. Quando a elite quer acreditar, o efeito é o mesmo do retalho, mas com consequências maiores: o halo do fundador contamina a diligência devida, e a validação de nomes prestigiados converte-se, ela própria, num argumento de venda para os pequenos. O culto ao fundador vive desta ilusão de que existe um herói ao leme, quando, como mostrámos ao explicar a governação sem voto do Bitcoin e do Ethereum, o controlo real raramente está onde o carisma sugere.
Há uma razão para os profissionais não estarem imunes, e por vezes serem piores. Um gestor de fundo que ignora a próxima grande tese arrisca parecer ultrapassado perante os seus pares; um que embarca, mesmo que erre, erra acompanhado. O comportamento de manada entre investidores sofisticados não é estupidez, é gestão de carreira, e produz um sinal perigoso: quando o «dinheiro inteligente» entra, o retalho lê essa entrada como diligência já feita por outros e dispensa a sua própria. A crença desce a escada disfarçada de prova.
O público que torce pelo sobrevivente: o caso CZ
A audiência também escolhe heróis, e não apenas vítimas. Changpeng Zhao, o CZ, construiu a Binance sobre uma sigla tranquilizadora, «funds are safu», e sobre a lealdade de uma comunidade que o tratava como o pai fundador do setor. Zhao cumpriu quatro meses de prisão e a Binance pagou 4,3 mil milhões de dólares, mas o crime dele foi não manter um programa de combate ao branqueamento de capitais, não fraude aos clientes, uma diferença crucial em relação a Mashinsky, Do Kwon e Bankman-Fried. Quando foi perdoado em outubro de 2025, boa parte da audiência celebrou o regresso do sobrevivente. A lealdade tribal decide de antemão quem merece redenção e quem merece a forca; o crente não descobre o veredicto na entrevista, traz o veredicto para a entrevista.
O algoritmo premeia a convicção: como a procura se amplifica
A procura de fé não fica no ouvinte isolado; é amplificada por máquinas desenhadas para premiar a emoção. As plataformas recompensam a certeza, não a cautela: o clipe que se torna viral é o do fundador confiante que promete o futuro, nunca o do analista que enumera ressalvas. A investigadora e autora Renée DiResta resume o mecanismo numa frase que se aplica na perfeição à cripto: se algo se tornar tendência, torna-se verdade («if you make it trend, you make it true»).
O resultado é um ciclo de reforço. A audiência que partilha o clipe mais entusiasta está a produzir, sem querer, a prova social que convencerá o próximo. Cada partilha é um voto de fé que o algoritmo interpreta como sinal de qualidade e distribui a mais gente. A convicção compõe-se como juro, e o fundador quase não precisa de mentir mais: basta ser confiante o suficiente para que a plateia faça o resto do trabalho por ele.
Este é o ponto em que o lado da procura se junta a tudo o que esta série já descreveu. O corte viral, a tradução automática, a legenda que descontextualiza: nenhuma dessas camadas teria poder se não houvesse, do outro lado, uma audiência ansiosa por confirmação a carregar no botão de partilhar. A distribuição não fabrica a crença do nada; encontra-a já pronta e amplifica-a. O algoritmo é o megafone, mas a voz que ele amplia é a nossa.
Quando acreditar move o preço: a audiência é o mercado
Chega o ponto em que a crença deixa de ser uma atitude e passa a ser um preço. É a reflexividade que George Soros descreveu: a crença gera compras, as compras fazem subir o preço, e a subida é lida como prova de que o fundador tinha razão, o que atrai mais crentes. Num ativo com pouca liquidez, negociado 24 horas por dia e sem os travões automáticos das bolsas tradicionais, a convicção coletiva funciona como se fosse um fundamento. A audiência não observa o mercado; a audiência é o mercado. Quando essa crença se alavanca, o retorno é violento, como mostrámos ao dissecar as cascatas de liquidações, e a mesma multidão que empurrou o preço para cima é liquidada em conjunto na descida.
Os memecoins são a forma pura deste fenómeno, porque não têm produto nenhum por baixo: são procura de fé destilada. Em fevereiro de 2025, o token LIBRA, associado a uma publicação do presidente argentino Javier Milei, viu milhares de milhões de dólares de capitalização evaporarem em horas, com investigações judiciais a seguir-se. Não havia tecnologia a analisar, apenas a ganância de uma multidão a ser transformada em arma. Quando o preço é feito só de crença, o colapso também é instantâneo, porque não há mais nada a segurá-lo. Perceber isto ajuda a ver que, mesmo em mercados com produto, é útil saber como se forma o preço on-chain antes de o confundir com um veredicto sobre o fundador.
O cético que lucra com a fé alheia
Nem toda a plateia acredita, e é aqui que o retrato da procura se complica. Existe um espetador que ouve a mesma entrevista sabendo perfeitamente que é oca, mas que aposta na crença dos outros: compra não porque acha o projeto bom, mas porque calcula que a fé alheia empurrará o preço mais para cima antes de ele sair. É a velha teoria do «maior tolo», a convicção de que haverá sempre alguém disposto a pagar mais, e de que esse alguém não seremos nós.
O problema é que este cético calculista não está fora do mecanismo; é combustível dele. Ao comprar, valida o preço tão eficazmente como o crente sincero, e a sua saída, quando chega, é o gatilho que transforma a euforia em cascata. O mercado não distingue uma compra movida por fé de uma compra movida por cinismo; conta ambas como procura. Por isso o retrato do lado da procura não se esgota nos ingénuos: inclui também os espertos que pensam estar a usar a multidão e que, quase sempre, acabam a fazer parte dela.
A lei protege o crente (e às vezes responsabiliza-o): MiCA, ESMA e a CMVM
Todo o edifício regulatório europeu para a cripto foi desenhado a pensar no crente, porque é ele que se magoa. A ESMA, a autoridade europeia dos mercados, publicou em janeiro de 2026 uma ficha para finfluencers com um princípio que resume tudo: promover um produto financeiro não é como promover sapatos ou relógios. A ficha exige avisos de que a perda pode ser total e recorda que esconder conflitos de interesse pode configurar abuso de mercado. É uma tentativa de proteger a audiência de si própria.
Mas a lei também pode virar-se contra a plateia. O regime de abuso de mercado do MiCA, no Título VI, alcança qualquer pessoa, e as orientações da ESMA destacam explicitamente o uso intensivo das redes sociais na cripto. Uma campanha coordenada de retalho para inflacionar um preço, o clássico esquema de pump, pode ser manipulação de mercado, com coimas que chegam aos 5 milhões de euros para pessoas singulares. O crente que se torna soldado deixa de ser vítima aos olhos da lei e pode passar a coautor de uma infração.
Em Portugal, a CMVM é a supervisora de conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de criptoativos. Em abril de 2026, a CMVM lançou um explicador de criptoativos com riscos, glossário e a lista de prestadores autorizados, avisando que o enquadramento não elimina os riscos, em particular a elevada volatilidade e a ausência de cobertura pelo sistema de indemnização aos investidores. O detalhe decisivo para o crente é este: só há recurso real se ele contratou com um prestador autorizado, consultável no portal do investidor da CMVM. Se confiou num projeto totalmente descentralizado ou num fundador anónimo, a fé foi a única garantia que teve, e a lei não a cobre. O período transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026, e os derivados de cripto continuam sob a DMIF II, não sob o MiCA.
Para o leitor português, isto traduz-se numa sequência prática antes de confiar num fundador. Primeiro, confirmar se a plataforma consta da lista de prestadores autorizados; segundo, exigir a documentação obrigatória em português ou numa língua aceite, e desconfiar de quem só comunica por vídeo e carisma; terceiro, guardar prova das promessas feitas em entrevistas e sessões abertas, porque é isso que sustenta uma queixa. A proteção existe, mas é reativa: chega depois do dano e raramente devolve o capital. A defesa que funciona continua a ser a que acontece antes de clicar em comprar.
Como ler-se a si próprio: a última linha de defesa
Depois de aprender a ler o fundador, o entrevistador, o corte, a tradução, a máquina e o pseudónimo, falta a leitura mais difícil, porque não há forma de a delegar: a de si próprio. A tabela seguinte não é uma lista de sinais no orador; é uma lista de sinais no ouvinte. Cada linha é uma pergunta a fazer antes de acreditar.
| Sinal do lado da procura | A pergunta a fazer-se | O que fazer |
|---|---|---|
| Já detenho o token | Perdoaria esta evasiva a um estranho? | Separar a análise da carteira |
| Sinto que «conheço» o fundador | Isto é uma relação ou um programa? | Tratar a intimidade como produto, não como prova |
| Estou a defender o líder online | Estou a analisar ou a proteger a minha aposta? | Parar de proselitizar e procurar o contraditório |
| A tese assenta na pessoa | O que é verificável na cadeia e no código? | Exigir documento, não microfone |
| A comunidade ataca quem duvida | Porque é que a dúvida é proibida? | Ler a hostilidade ao ceticismo como o próprio sinal |
| Promessa de retorno «sem risco» | Quem paga este rendimento e porquê? | Lembrar que 100% de perda é possível |
O exercício é desconfortável de propósito. Pegue na última entrevista que o convenceu e faça uma pergunta simples: teria aceitado aquela resposta se viesse de alguém em quem não tem dinheiro investido? Se a resposta for não, não foi a entrevista que o convenceu, foi a sua carteira. Reconhecê-lo não elimina o interesse, mas devolve-lhe o controlo sobre ele, e essa é a única parte da equação que está, de facto, do seu lado.
A regra que atravessa toda esta série resolve-se, no fim, no lado da procura: exigir documento em vez de microfone. O fundador dá-lhe uma narrativa; a cadeia, o código e os registos dão-lhe factos, e foi essa a lição que tirámos de um novo tipo de autópsia em que a máquina encontrou o problema antes das palavras. Verificar é o oposto de acreditar, e é a única defesa que não depende da honestidade de ninguém.
Esta defesa fica mais urgente à medida que a própria realidade se torna negociável. Michael Saylor, presidente executivo da Strategy e um dos rostos mais clonados por burlas de «duplica o teu Bitcoin», resume o custo desta era: não há forma sem risco de duplicar o teu Bitcoin, e a empresa não oferece BTC a quem digitaliza um código de barras («There is no risk-free way to double your Bitcoin, and MicroStrategy doesn’t give away BTC to those who scan a barcode»). Com o artigo 50.º do Regulamento de Inteligência Artificial aplicável desde 2 de agosto de 2026 a exigir a rotulagem de deepfakes, e com o chamado dividendo do mentiroso a permitir que qualquer fundador desminta imagens autênticas, a autenticidade do orador deixou de ser dada. O que resta, no fim, é uma escolha do ouvinte. A última linha de defesa contra a entrevista ao fundador não é uma ferramenta nem uma lei; é um leitor que quer mais a verdade do que o negócio.
Perguntas frequentes
Porque é que tantas pessoas continuam a acreditar em fundadores cripto mesmo depois das fraudes?
Por três razões que se reforçam. A interação parassocial faz-nos sentir que conhecemos alguém que só nos fala através de um ecrã; o raciocínio motivado leva quem detém um token a defender o fundador como quem se defende a si próprio; e a dissonância cognitiva, descrita por Leon Festinger em 1956, explica porque os crentes mais empenhados redobram a fé precisamente quando a promessa falha, em vez de a abandonarem.
O que é a fraude de afinidade e o que tem que ver com a cripto?
A fraude de afinidade, definida pela SEC, é o esquema que explora a confiança dentro de um grupo com uma identidade partilhada: o burlão é, ou finge ser, membro do grupo e recruta figuras respeitadas para difundir o esquema. A cripto funciona como um grupo de afinidade, com jargão próprio e um inimigo comum, o que faz com que muitos investidores cheguem à entrevista já predispostos a confiar.
A audiência pode ser responsabilizada por amplificar um fundador?
Em regra, a responsabilidade recai sobre quem emite a informação, mas não é impossível. O regime de abuso de mercado do MiCA, no Título VI, alcança qualquer pessoa, e a ESMA sublinha o uso intensivo das redes sociais na cripto; uma campanha coordenada de retalho para inflacionar um preço pode configurar manipulação de mercado, com coimas que chegam a 5 milhões de euros para pessoas singulares.
Como é que uma entrevista ou um AMA pode mover o preço de um token?
Através da reflexividade: a crença gera compras, as compras fazem subir o preço, e a subida é lida como prova de que o fundador tinha razão, o que atrai mais crentes. Em mercados finos, abertos 24 horas por dia e sem travões automáticos, a convicção coletiva funciona como se fosse um fundamento, e a audiência deixa de observar o mercado para passar a ser o mercado.
Que proteção tem um investidor português que confiou num fundador cripto?
Depende de com quem contratou. Se usou um prestador de serviços de criptoativos autorizado, tem canais de reclamação junto da CMVM e do Banco de Portugal; se confiou num projeto totalmente descentralizado ou num fundador anónimo, não há praticamente recurso. A CMVM avisa que o enquadramento não elimina os riscos nem cobre as perdas através do sistema de indemnização aos investidores, pelo que verificar a lista de prestadores autorizados antes de investir é o passo mais concreto.
Marcus Okafor é editor de investigação da HOGE Wire e escreve sobre a cultura e a economia política das criptomoedas.