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● Culture & Long-reads

Governação sem voto: quem manda mesmo no Bitcoin e no Ethereum

As DAO votam com tokens e são capturadas por quem tem mais dinheiro. O Bitcoin e o Ethereum governam-se sem voto, sem CEO e sem token: eis como o consenso social decide, e onde falha.

«Quem manda mesmo numa DAO?» foi a pergunta que dominou meses de reportagem sobre governação cripto: baleias que compram quóruns por uns milhões, delegados que passaram a receber salário, tesouros esvaziados por uma única votação. Mas há uma pergunta anterior, maior e quase nunca colocada nestes termos: quem manda no Bitcoin e no Ethereum? As duas maiores comunidades da indústria, cujo maior ativo (o Bitcoin) vale por si só mais de 1,3 biliões de euros, não têm assembleia de detentores, não têm presidente executivo e, ao contrário de quase todas as DAO, não decidem nada por voto de token. E, mesmo assim, mudam, atualizam-se e sobrevivem a guerras civis. Este artigo é sobre esse outro modelo de governação, o mais antigo e provavelmente o mais importante da cripto, e sobre aquilo que ele acerta exatamente onde o voto on-chain tropeça.

O outro modelo: governar sem votos para contar

Há dois modelos de governação a competir na cripto, e passam quase sempre um pelo outro sem se tocarem. O primeiro é o que enche os fóruns e os títulos: a DAO, onde um contrato inteligente conta tokens e executa o resultado. Um token, um voto; passa o quórum, o código faz o resto. É rápido, é legível e é exatamente por isso que é atacável, como mostrou a série de assaltos a tesouros que noutro texto tratámos como roubo ou voto. O segundo modelo é mais velho e muito mais estranho: não há votação nenhuma. O Bitcoin nasceu dele em 2009 e o Ethereum herdou-o. Chama-se, em jargão de engenharia, rough consensus, e a decisão não é executada por nenhum contrato: emerge de listas de e-mail, de fóruns, de repositórios no GitHub e de chamadas de vídeo entre programadores, e só se torna real quando pessoas espalhadas pelo mundo escolhem, voluntariamente, correr o mesmo software. Perceber a diferença entre os dois é perceber porque é que uma DAO pode ser esvaziada numa tarde e o Bitcoin não.

Quem governa o Bitcoin? Ninguém, e toda a gente

A resposta honesta desconforta os dois lados: no Bitcoin não manda ninguém, e manda toda a gente. Não há empresa Bitcoin, não há conselho de administração, não há um endereço para onde enviar uma intimação. O criador, Satoshi Nakamoto, desapareceu por volta de 2011 e nunca mais deu sinal, e essa ausência é uma decisão de desenho, não um acidente; é um tema que exploramos em como ler a entrevista de um fundador pseudónimo. O que existe é um processo. As alterações ao protocolo circulam como BIP, sigla de Bitcoin Improvement Proposal, um formato proposto por Amir Taaki em 2011 e depois reescrito por Luke Dashjr. Um programador redige a proposta, discute-a publicamente, e um conjunto de mantenedores do Bitcoin Core (o software de referência) decide se a integra. Mas aqui está o ponto que quase toda a gente falha: mesmo que os mantenedores publiquem código, ninguém é obrigado a executá-lo. O poder deles é o de propor, não o de impor.

«Rough consensus»: a regra que não é bem uma regra

A regra de decisão do Bitcoin não é a maioria. É uma coisa importada dos anos 80, da cultura de engenharia que construiu a própria internet: o rough consensus, ou consenso aproximado, tal como a Internet Engineering Task Force o pratica desde as primeiras normas de rede. A ideia é quase provocadora: não se contam cabeças e não se exige unanimidade; procura-se o «sentido do grupo» e, sobretudo, verifica-se se as objeções sérias foram respondidas, não se foram derrotadas por número. Não há um botão de «votar», não há um censo de participantes. Uma proposta avança quando deixa de haver oposição técnica de peso e quando quem tem de a adotar (programadores, operadores de nós, mineiros, empresas) começa a fazê-lo. É lento, é ambíguo e é frustrante para quem quer respostas de sim ou não. Mas tem uma virtude que o voto por token não tem: não se compra um resultado simplesmente comprando fichas. É essa a diferença que muda tudo o resto.

Os quatro poderes de uma blockchain

Dizer que «manda toda a gente» é bonito mas inútil. Na prática, o poder numa blockchain reparte-se por quatro grupos, e nenhum deles manda sozinho; cada um trava os outros. Os programadores escrevem o código, mas não podem obrigar ninguém a corrê-lo. Os mineiros (no Bitcoin) e os validadores (no Ethereum) produzem os blocos e sinalizam apoio a atualizações, mas só validam segundo as regras que os nós aceitam. Os operadores de nós, muitas vezes esquecidos, são os verdadeiros fiéis da balança: cada um decide que software corre e, ao rejeitar blocos que violam as suas regras, pode anular a vontade dos mineiros. E há os utilizadores económicos: bolsas, custódios, aplicações e detentores, que dão valor à moeda e decidem, no limite, que cadeia vale alguma coisa. A tabela resume quem é quem.

PoderQuem éComo influenciaO limite do seu poder
ProgramadoresMantenedores do Bitcoin Core; equipas de clientes do Ethereum (Geth, Nethermind, entre outras)Escrevem e mantêm o código; redigem BIP e EIPNão podem obrigar ninguém a instalar o seu software
Mineiros e validadoresQuem produz blocos e assegura o consensoSinalizam apoio a atualizações; ordenam transaçõesFicam presos às regras que os nós exigem; podem ser contornados
Operadores de nósQuem corre o software de validação completaAceitam ou rejeitam blocos e propagam transaçõesPrecisam de massa crítica para que a sua escolha conte
Utilizadores económicosBolsas, custódios, comerciantes, detentoresDão valor à moeda; escolhem que cadeia negociar e usarPoder difuso e difícil de coordenar

A Guerra do Tamanho dos Blocos: quando os utilizadores ganharam

Nada mostra melhor este equilíbrio do que a Guerra do Tamanho dos Blocos, o conflito que quase partiu o Bitcoin entre 2015 e 2017. De um lado, os «big blockers», que queriam blocos maiores para transações mais baratas e se apoiavam em grandes empresas e na maioria do poder de mineração; do outro, os «small blockers», conservadores, receosos de mudanças irreversíveis, como a CoinDesk recordou nos seus retrospetivos. Em maio de 2017, mais de 50 empresas assinaram, à margem da conferência Consensus em Nova Iorque, o chamado New York Agreement, que previa ativar o SegWit e, depois, duplicar o tamanho do bloco (o plano SegWit2x). Parecia decidido pelos que tinham dinheiro e hashrate. Não foi. Os utilizadores responderam com uma arma nova: o user-activated soft fork (UASF), formalizado na BIP148, pela qual os nós passariam, a partir de 1 de agosto de 2017, a rejeitar blocos que não sinalizassem o SegWit. A ameaça foi suficiente: os mineiros ativaram o SegWit para evitar a rutura, e a parte «2x» do acordo, o aumento do bloco, foi abandonada por e-mail em novembro de 2017. Uma parte da comunidade separou-se e criou o Bitcoin Cash a 1 de agosto de 2017, mas a cadeia principal ficou com os pequenos blocos. A lição ficou gravada: no Bitcoin, quem tem a palavra final não são os mineiros nem as empresas, são os nós económicos. O episódio deu até um livro de referência, «The Blocksize War», de Jonathan Bier. Mais do que uma disputa técnica, foi uma disputa sobre quem era o soberano do Bitcoin, e a resposta, os utilizadores que correm nós e não quem tem mais capital ou mais máquinas, tornou-se o princípio fundador de toda a governação que veio depois.

Core contra Knots: a guerra civil de 2025 e 2026

Quem acha que estas guerras são história antiga não esteve atento a 2025 e 2026. O Bitcoin vive neste momento a sua discórdia mais azeda desde os blocos: a disputa entre o Bitcoin Core e o Bitcoin Knots por causa do OP_RETURN, o pequeno campo onde se podem gravar dados arbitrários numa transação. A versão v30 do Bitcoin Core, lançada em outubro de 2025, removeu na prática o limite de 83 bytes que restringia esse campo por defeito, abrindo a porta a mais dados (imagens, tokens, memória de outras aplicações) na cadeia. O Bitcoin Knots, um software alternativo mantido por Luke Dashjr, recusou a mudança e manteve um limite por defeito muito mais apertado (cerca de 42 bytes), além de filtros contra aquilo a que chama spam. O detalhe técnico que faz disto uma aula de governação é este: a alteração não mexeu nas regras de consenso (o que é um bloco válido), apenas na política de retransmissão (o que cada nó decide propagar e aceitar no seu mempool), uma distinção que a Bitcoin Magazine explicou bem. Ninguém votou. Os operadores de nós «votaram» com o software que instalaram: a quota do Knots, marginal (poucas centenas de nós) no início de 2025, disparou para mais de 20% da rede à medida que a polémica aquecia. Do lado crítico, Luke Dashjr classifica os dados não financeiros como spam, apelou a que não se atualizasse para a v30 e avisou que gravar dados arbitrários pode arrastar conteúdos ilegais para a cadeia. Do outro lado, programadores do Core e parte da indústria defenderam a decisão: filtrar por política nunca impediu ninguém determinado, e um limite por defeito não é uma regra de consenso. A discussão continua em aberto, e é exatamente assim que o Bitcoin decide, sem árbitro.

O que torna esta disputa tão amarga é que, no fundo, não é sobre bytes: é sobre para que serve o Bitcoin. Para uns, gravar imagens, coleções digitais ou tokens na cadeia (a moda das inscrições que começou com os Ordinals em 2023) é uso legítimo de um espaço que se paga em taxas; para outros, é poluir um sistema monetário com ruído. Nenhum lado tem autoridade para impor a sua visão, e é por isso que a briga se arrasta em vez de terminar num decreto. Vista de fora, parece disfunção; vista de dentro, é o modelo a funcionar exatamente como foi desenhado, obrigando qualquer mudança a conquistar adesão voluntária em vez de ser imposta de cima. A próxima grande discussão, sobre os covenants e propostas como o OP_CAT que permitiriam contratos mais expressivos, promete repetir o guião.

O pecado original do Ethereum: o fork da The DAO

O Ethereum tem o seu próprio momento fundador de governação, e é mais dramático. Em junho de 2016, um atacante explorou uma falha na The DAO, um fundo de investimento coletivo então gigantesco, e drenou cerca de 3,6 milhões de ETH, perto de um terço de todo o dinheiro ali depositado. A comunidade viu-se perante uma escolha impossível: aceitar o roubo em nome do princípio de que «o código é lei», ou reescrever a história da cadeia para devolver os fundos. Depois de uma consulta informal (uma espécie de sondagem em que os detentores sinalizavam a preferência enviando ETH, sem valor vinculativo e com participação reduzida) e de muito debate, a Ethereum Foundation e a maioria dos programadores avançaram com um hard fork a 20 de julho de 2016, no bloco 1.920.000, que transferiu os fundos para um contrato de resgate. Mas nem todos aceitaram apagar transações válidas: uma minoria continuou a validar a cadeia original, que passou a chamar-se Ethereum Classic (ETC). Foi ali que nasceram, ao mesmo tempo, o Ethereum que conhecemos e a prova de que, no limite, a governação de uma blockchain é a comunidade a decidir que versão da realidade prefere. O «código é lei» sobreviveu como slogan; como regra absoluta, morreu naquele bloco.

Como o Ethereum se governa hoje: EIP, All Core Devs e o fator Vitalik

Hoje o Ethereum governa-se por um processo que, no papel, se parece com o do Bitcoin e, na prática, tem um centro de gravidade muito mais visível. As mudanças circulam como EIP (Ethereum Improvement Proposal): um «campeão» redige a proposta, discute-a com a comunidade, abre um pull request no GitHub e um grupo de editores administra o processo. As decisões técnicas coordenam-se nas chamadas All Core Devs, onde as várias equipas de clientes acertam o que entra em cada atualização. Foi assim que se decidiu a Fusaka, ativada a 3 de dezembro de 2025, que trouxe a amostragem de disponibilidade de dados (PeerDAS) para escalar as L2, e é assim que se prepara a Glamsterdam, o próximo hard fork previsto para o quarto trimestre de 2026, com a separação proponente-construtor consagrada no protocolo (EIP-7732) e as listas de acesso ao nível do bloco (EIP-7928) como bandeiras. Nada disto passa por um voto de detentores de ETH. E, no entanto, paira sobre tudo uma figura. Um dos programadores mais antigos do Ethereum, Péter Szilágyi, que liderou o Geth (o cliente que corre em cerca de 41% dos nós), pôs o dedo na ferida num memorando de meados de 2024 tornado público em outubro de 2025: «Ethereum may be decentralised, but Vitalik absolutely has complete indirect control over it». Szilágyi descreveu um círculo restrito de cinco a dez pessoas à volta de Vitalik Buterin que, na sua leitura, determina que projetos recebem financiamento e legitimidade. E há ainda outra camada de poder que a narrativa oficial raramente refere, a de quem controla o ETH trancado em staking, um tema que tratámos em escassez com dono.

A tensão é permanente e nunca totalmente resolvida. No papel, qualquer pessoa pode propor uma EIP e vê-la aprovada pelo mérito técnico; na prática, uma ideia ganha tração muito mais depressa quando Buterin a escreve num blogue ou a menciona numa chamada. Os defensores do modelo respondem que isso é liderança por argumento, não por autoridade: Buterin não pode assinar uma atualização, só convencer as equipas de clientes a implementá-la, e essas equipas (Geth, Nethermind e Besu, na execução; Prysm, Lighthouse ou Teku, no consenso) podem recusar. É por essa razão que a diversidade de clientes é tratada como uma questão de governação, e não apenas de engenharia: enquanto nenhum software dominar a rede, nenhuma pessoa, por mais influente que seja, consegue mudar as regras sozinha.

O fork como voto final: sair em vez de votar

Se não há votação, qual é então o mecanismo de decisão definitivo? É a saída, não a voz. O economista Albert Hirschman descreveu há décadas as duas formas de reagir a uma organização de que discordamos: dar voz (protestar por dentro) ou sair. Numa blockchain, sair tem um nome técnico: fork. Quando um grupo suficientemente grande recusa uma mudança, pode simplesmente continuar a correr as regras antigas e levar consigo o histórico, a moeda e uma parte da comunidade. Foi o que fez o Ethereum Classic em 2016, o Bitcoin Cash em 2017 e, num caso menos conhecido mas exemplar, a comunidade da Steem, que em 2020 se separou para fugir ao controlo de um grande investidor e criou a Hive. O fork é caro, é traumático e divide liquidez, e por isso é raro; mas é justamente essa possibilidade permanente de saída que disciplina quem manda. É o oposto da DAO, onde o resultado do voto é imposto pelo contrato a todos os tokens; aqui, ninguém pode ser forçado a aceitar uma regra que recusa. No limite, cada detentor vota com a cadeia que decide usar.

Na prática, o fork tornou-se cada vez mais improvável à medida que as redes cresceram. Duplicar uma cadeia com milhares de aplicações, bolsas, stablecoins e pontes exige uma coordenação hoje quase impensável, e o Bitcoin Cash serve de aviso: a cadeia dissidente sobreviveu, mas ficou a valer uma fração ínfima da original. Isso não anula o poder do fork; transforma-o numa ameaça de dissuasão, o equivalente cripto de uma arma que raramente se dispara mas cuja mera existência molda o comportamento de todos. É o mesmo princípio do ragequit numa DAO, mas a uma escala em que sair custa a uma comunidade inteira, e não apenas a um detentor isolado.

Porque é que o Bitcoin e o Ethereum não votam por token

Fica a pergunta óbvia: se o Bitcoin e o Ethereum têm moedas com dezenas de milhões de detentores, porque não deixam simplesmente esses detentores votarem nas mudanças, como uma DAO? A resposta é que os seus próprios criadores e investigadores acham que isso seria pior, não melhor. Numa análise de 2021 que se tornou referência, Vitalik Buterin explicou o problema: um token de governação é «a bundle of two rights», junta um interesse económico no protocolo e o direito de participar na governação, e esses dois direitos, escreveu, «are very easy to unbundle». Quem tem dinheiro pode comprar votos, alugar votos ou pedir tokens emprestados só para decidir e devolvê-los a seguir, sem qualquer interesse no futuro do sistema. É exatamente o mecanismo por trás dos assaltos a DAO e da economia dos delegados profissionais que descrevemos em a classe dos delegados. O voto por token transforma governação em plutocracia e abre a porta à compra de resultados. O consenso social, com toda a sua lentidão, evita essa armadilha por uma razão simples: não há nada para comprar, porque não se compra o «sentido do grupo».

Minimização da governação: a arte de não decidir

Daqui nasce uma ideia quase contraintuitiva que virou ideologia na cripto: a melhor governação é a que quase não existe. Chama-se minimização da governação, e a lógica é que um protocolo é tanto mais neutro e credível quanto menos decisões discricionárias permite. O caso extremo é a política monetária do Bitcoin: o limite de 21 milhões de moedas e o calendário de emissão não estão sujeitos a votação nenhuma, e é esse compromisso de não mexer que sustenta a tese de escassez (mesmo quando o modelo que a populariza tem falhas, como discutimos na crítica ao stock-to-flow). Os bitcoiners chamam-lhe ossificação e tratam-na como virtude: quanto mais difícil for mudar as regras, mais confiável é a moeda. O Ethereum é menos dogmático (muda com frequência, como a Fusaka provou), mas partilha o princípio de que há coisas que nunca devem depender de um voto capturável. Governar de menos, nesta filosofia, não é preguiça; é uma defesa deliberada contra a captura.

Voto on-chain contra consenso social: um confronto

Vale a pena pôr os dois modelos lado a lado, porque servem propósitos diferentes e falham de maneiras diferentes. O voto on-chain é ideal para gerir um tesouro ou afinar parâmetros de um protocolo de aplicação; o consenso social é o que se usa quando o que está em jogo são as regras de base de uma moeda que não pode ter dono. A tabela seguinte confronta-os.

DimensãoVoto on-chain (DAO)Consenso social (Bitcoin e Ethereum)
Onde se decideContrato inteligente, Snapshot, TallyListas de e-mail, fóruns, GitHub, chamadas de programadores
Quem decideTokens (regra geral, um token, um voto)Ninguém formalmente: nós, programadores, mineiros e mercado
RegraMaioria ou quórum de tokensRough consensus (o «sentido do grupo»)
VelocidadeRápida (dias)Lenta (meses a anos)
Ataque típicoComprar votos ou usar empréstimos-relâmpagoComprar hashrate ou capturar programadores (bem mais difícil)
Mecanismo de saídaRagequit ou fork da DAOHard fork da cadeia (ETH/ETC, BCH)
Perímetro regulatórioPode ter invólucro legal; pode cair sob a MiCA se houver entidade ou CASPNenhuma entidade para licenciar; fora do alcance direto

Onde o modelo falha: poder informal, dinheiro e captura

Seria desonesto pintar o consenso social como um paraíso. Ele falha, e falha de formas específicas. A primeira é o poder informal: um sistema sem líderes formais tende a produzir líderes informais sem contrapesos, e a denúncia de Szilágyi sobre o «círculo de cinco a dez pessoas» é precisamente isso. Quando toda a gente olha para a mesma pessoa à espera do próximo passo, a ausência de um cargo não significa ausência de poder; significa poder sem prestação de contas. A segunda falha é o dinheiro. Programar o Bitcoin e o Ethereum é trabalho a tempo inteiro que alguém paga: do lado do Ethereum, sobretudo a Ethereum Foundation; do lado do Bitcoin, um punhado de organizações como a Brink, a OpenSats ou a Chaincode Labs, além de empresas com interesses próprios. Quem financia os programadores tem uma alavanca subtil sobre a direção do protocolo, por muito que ninguém dê ordens. A terceira é a inércia: o rough consensus é ótimo a impedir mudanças más e péssimo a aprovar mudanças boas mas controversas, e a Guerra dos Blocos mostrou como uma comunidade pode ficar anos paralisada. «Sem líderes» é, muitas vezes, um mito reconfortante que esconde uma hierarquia real. Há ainda uma quarta fragilidade, mais subtil: a ilegibilidade. Como não há votação, ninguém sabe ao certo qual é o consenso num dado momento, e as métricas que se usam para o adivinhar (contagens de nós, sinalização de mineiros, sondagens em fóruns) são todas manipuláveis. É trivial pôr a correr milhares de nós num centro de dados para inflar a quota de um software, e a sinalização de mineiros já foi usada para blefar mais do que uma vez. O resultado é que a governação social exige um grau de literacia técnica e de atenção que a esmagadora maioria dos detentores não tem, o que, ironicamente, devolve poder ao punhado de pessoas que acompanha tudo ao pormenor.

Regulação e o investidor em euros: porque a MiCA não chega ao protocolo

Para quem investe a partir de Portugal, há uma consequência prática que raramente se explica: nem a CMVM nem a MiCA conseguem regular a governação do Bitcoin ou do Ethereum, porque não há nada para regular. A MiCA (o regulamento europeu dos criptoativos) e as autoridades nacionais, a CMVM para a conduta de mercado e o Banco de Portugal para o registo de prestadores e stablecoins, supervisionam empresas: emitentes, bolsas, custódios, os chamados CASP. Um protocolo sem empresa por trás, sem sede e sem administração, não tem a quem enviar uma coima. É o oposto de uma DAO, que pode adotar um invólucro legal (como a DUNA norte-americana) e, aí sim, tornar-se um alvo jurídico. Em Portugal, a lei que executa a MiCA (a Lei n.º 69/2025) está em vigor desde o final de dezembro de 2025, e o período de transição para os antigos prestadores termina a 1 de julho de 2026. Para o investidor, a lição é dupla: por um lado, a governação social do Bitcoin e do Ethereum é robusta precisamente porque não tem um ponto único de captura; por outro, essa robustez não o protege de um risco muito concreto, o de um fork dividir aquilo que detém, ou de uma guerra de política travar durante meses uma atualização de que depende. Ler a governação de uma cadeia, e não só o seu preço, passou a fazer parte da devida diligência.

Perguntas frequentes

Quem controla o Bitcoin?

Ninguém isoladamente. O Bitcoin não tem empresa, presidente executivo nem assembleia de detentores. As regras mudam por rough consensus (consenso aproximado) entre quatro grupos que se equilibram: os programadores que mantêm o código, os mineiros que produzem blocos, os operadores de nós que validam e propagam, e os utilizadores económicos (bolsas, empresas e detentores) que dão valor à moeda. Nenhum manda sozinho, e ninguém é obrigado a correr software que recuse.

O Bitcoin e o Ethereum têm votação de tokens como as DAO?

Não. Ao contrário de uma DAO, as mudanças de protocolo no Bitcoin e no Ethereum não são decididas por um contrato que conta tokens. Discutem-se em listas de e-mail, fóruns, GitHub e chamadas de programadores, e só se tornam reais quando pessoas escolhem, voluntariamente, instalar o software correspondente. É por isso que não se compra um resultado comprando moeda.

O que foi a Guerra do Tamanho dos Blocos?

Foi o conflito, entre 2015 e 2017, sobre se os blocos do Bitcoin deviam ser maiores. Grandes empresas e mineiros apoiavam o aumento (o plano SegWit2x); os utilizadores responderam com a ameaça de um UASF (a BIP148), pela qual os nós rejeitariam blocos não conformes. Os mineiros cederam, o SegWit foi ativado e a parte do aumento foi abandonada em novembro de 2017. Uma parte da comunidade separou-se e criou o Bitcoin Cash. A lição: quem decide são os nós económicos, não os mineiros.

O que é a disputa Core contra Knots e afeta o meu Bitcoin?

É a discussão de 2025 e 2026 sobre quantos dados arbitrários se devem permitir numa transação (o campo OP_RETURN). O Bitcoin Core v30 removeu na prática o antigo limite; o Bitcoin Knots, de Luke Dashjr, mantém um limite mais apertado. A diferença é de política de retransmissão, não de regras de consenso, por isso o Bitcoin não se dividiu nem as suas moedas ficaram em risco; muda apenas que transações cada nó propaga por defeito.

A CMVM ou a MiCA podem regular a governação do Bitcoin e do Ethereum?

Não diretamente. A MiCA e as autoridades nacionais (a CMVM e o Banco de Portugal, em Portugal) regulam empresas: emitentes, bolsas e custódios (CASP). Um protocolo descentralizado, sem entidade nem sede, não tem a quem dirigir uma sanção. O que é regulado é o intermediário através do qual compra ou guarda os ativos, não o protocolo em si.

Marcus Okafor, Cultura e Long-reads, HOGE Wire.

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