Escassez com dono: quem controla o ETH trancado em 2026
A oferta de ETH nas exchanges caiu para mínimos de vários anos, mas o que escasseia está a concentrar-se em poucas mãos. Mapeamos quem controla o ETH trancado e o que isso significa para o preço.
Há um número que resume o Ethereum em setembro de 2026: no dia 8, a quantidade de ETH depositada em todas as exchanges caiu para 14,88 milhões de moedas, o valor mais baixo em vários anos, segundo dados da CryptoQuant citados pela Finbold. Em pouco mais de um ano saíram das corretoras cerca de 6,4 milhões de ETH. A oferta disponível para venda imediata está a encolher a olhos vistos, e essa passou a ser a tese de consenso. O que quase ninguém pergunta é para onde vai o ETH que desaparece.
A ETH transaciona a cerca de 2.117 euros (2.458 dólares), ainda uns 50% abaixo do máximo histórico de agosto de 2025, de acordo com a CoinGecko. Se a escassez fosse tudo o que interessa, o preço já teria disparado. Não disparou, e a razão está na segunda metade da história: o que escasseia está a concentrar-se. Grandes fornecedores de staking, tesourarias empresariais e custodiantes de fundos cotados estão a absorver a oferta que sai das exchanges. A escassez, em 2026, tem dono. Este artigo mapeia quem controla o ETH trancado e o que isso significa para quem investe.
A escassez já não é a novidade; a concentração é
Nos últimos meses a HOGE Wire dissecou a oferta do ETH por todos os ângulos habituais: a contabilidade da emissão contra a queima, o encolhimento do flutuante disponível, a autópsia do ultrasound money que deixou de ser deflacionista e o muro dos 50% de staking que aí vem. Todos esses textos partilham a mesma conclusão: há cada vez menos ETH à venda. O que falta responder é uma pergunta diferente, e mais desconfortável para a narrativa otimista.
Se a oferta líquida está a secar, quem fica com o resto? A resposta importa porque muda a natureza do ativo. Uma moeda cuja oferta se dispersa por milhões de detentores independentes é uma coisa; uma moeda cuja oferta se tranca em meia dúzia de fornecedores de staking, num punhado de tesourarias cotadas e nos cofres de dois ou três custodiantes regulados é outra bem diferente. A escassez pode empurrar o preço para cima, mas a concentração introduz um risco novo, que o mercado ainda não sabe bem como preçar: o risco de que o controlo da rede, e do seu ativo, esteja a ficar em muito poucas mãos.
O retrato da oferta do ETH em setembro de 2026
Antes de perguntar quem controla o quê, convém fixar os números. A tabela abaixo reúne as grandezas que definem a oferta hoje. Uma advertência importante logo à cabeça: os blocos de staking, tesourarias e reservas em exchanges são lentes que se sobrepõem, não parcelas que se somam. O ETH de uma tesouraria empresarial está muitas vezes também em staking; contá-lo duas vezes seria um erro. Trate cada linha como uma forma de olhar para o mesmo bolo, não como fatias que se adicionam.
| Grandeza | Valor aproximado | Fonte |
|---|---|---|
| Oferta total de ETH | 122,03 milhões | ultrasound.money / CoinGecko |
| Emissão líquida anual | perto de 0% (ligeiramente inflacionista) | ultrasound.money |
| ETH em staking | cerca de 43 milhões (aprox. 35% da oferta) | ultrasound.money |
| Reservas em exchanges (flutuante) | 14,88 milhões (mínimo de vários anos) | CryptoQuant / Finbold |
| ETH em tesourarias empresariais | 7,94 milhões (6,51% da oferta) | CoinGecko Treasuries |
| Preço | 2.117 euros / 2.458 dólares | CoinGecko |
Duas leituras saltam à vista. A primeira: a emissão deixou de ser o motor da história. Desde o Dencun, em março de 2024, a queima entrou em colapso e a rede voltou a um regime de emissão líquida praticamente nula, hoje em torno de 0% ao ano segundo a ultrasound.money. A oferta quase não cresce, mas também já não encolhe de forma fiável. A segunda leitura: se a emissão está estável, então a única variável que mexe é o comportamento dos detentores. E é aí que a concentração entra em cena.
O flutuante que resta: menos de 15 milhões de ETH nas exchanges
O flutuante, ou seja, o ETH prontamente vendável nas corretoras, é a fatia que verdadeiramente conta para a formação de preço no curto prazo. E essa fatia está a definhar. As reservas em exchanges caíram para 14,88 milhões de ETH a 8 de setembro, contra cerca de 21,3 milhões em julho de 2025, uma saída de mais de 6 milhões de moedas em catorze meses, de acordo com a Finbold. Só na Binance, o saldo de ETH resvalou para cerca de 3,74 milhões, o valor mais baixo em três meses.
Menos de 15 milhões de ETH representam cerca de 12% da oferta total. É esse o verdadeiro colchão de liquidez que os mercados têm para trabalhar, e está no ponto mais fino da década. O analista Ali Martinez sublinhou a mecânica: se as reservas continuarem a cair ao mesmo tempo que a procura institucional aperta, «isso pode criar um aperto de oferta que empurre o ETH para cima», escreveu, citado pela Finbold. A lógica é a mesma que animou a subida de agosto: quando o flutuante é fino, basta uma vaga de compras para forçar liquidações de posições curtas e amplificar o movimento, um efeito de reflexividade que já detalhámos ao estudar o posicionamento nos mercados de derivados.
Mas o aperto tem um reverso. Um flutuante fino corta nos dois sentidos: amplifica as subidas, e amplifica as descidas quando alguém grande decide vender. E quanto mais concentrada estiver a posse do ETH que saiu das exchanges, mais depende o mercado das decisões de um número reduzido de agentes. É esse o fio que puxamos a partir daqui.
Staking em 43 milhões: a grande mudança de mãos
O maior sorvedouro de oferta continua a ser o staking. A ultrasound.money mostra hoje cerca de 43 milhões de ETH bloqueados no sistema de validação, à volta de 35% de toda a oferta. O crescimento no primeiro semestre foi notável: a rede passou de aproximadamente 36,3 milhões no início do ano para cerca de 43 milhões a 30 de junho, um aumento de 6,8 milhões de ETH, segundo o CryptoSlate. É oferta que sai de circulação e, na prática, fica trancada, porque quem faz staking raramente vende.
O detalhe que muda tudo está na composição desse crescimento. O segmento institucional passou de 25,9% para 35,3% do staking total em apenas seis meses, também segundo o CryptoSlate. Por outras palavras, a nova vaga de staking não veio de entusiastas a correr um nó em casa; veio de fundos, de tesourarias cotadas e de plataformas reguladas. E tudo isto com o rendimento de base perto de mínimos de vários anos, na casa dos 2,7%, subindo para uns 3,1% a 3,3% quando se incluem MEV e taxas de prioridade, de acordo com a Datawallet.
Que o staking cresça mesmo com o rendimento em queda diz-nos que a procura não é sensível à taxa: é estrutural. Vem da chegada dos fundos cotados que distribuem recompensas, das tesourarias que precisam de rentabilizar balanços cheios de ETH e do simples custo de oportunidade de deixar a moeda parada. Mesmo o restaking, que prometia uma camada extra de rendimento, mostrou que a procura por segurança adicional é limitada; contámos essa história ao explicar como cinco milhões de ETH esperam por inquilinos que não aparecem. O ponto para a oferta é o mesmo: entrou, ficou trancado, e mudou de mãos.
Vale a pena sublinhar por que razão o staking institucional é mais pegajoso do que o de retalho. Um fundo cotado que distribui recompensas de staking não desmancha a posição por causa de uma oscilação de preço; segue um mandato. Uma tesouraria que assenta junto dos acionistas a sua narrativa na acumulação de ETH tem todos os incentivos para não vender, sob pena de contrariar a própria tese que sustenta a cotação. E as plataformas reguladas trabalham com horizontes de meses ou anos, não de dias. Este ETH é, na prática, o mais difícil de destrancar de todos, o que reforça a escassez no bom momento e a torna perigosamente rígida no mau.
Quem controla o ETH em staking: o mapa dos grandes blocos
Aqui está o coração da questão. Se 35% da oferta está em staking, quem gere esses validadores? A tabela seguinte reparte o ETH em staking pelos maiores blocos. As percentagens são aproximadas e variam consoante a fonte e a metodologia, mas o retrato de conjunto é claro: um punhado de nomes concentra uma fatia enorme.
| Bloco | ETH em staking (aprox.) | Quota do total em staking |
|---|---|---|
| Lido (staking líquido) | ~9,1 milhões | ~21% |
| Binance | ~3,7 milhões | ~9% |
| Coinbase | ~2,9 milhões | ~7% |
| Restantes fornecedores e validadores solo | ~27 milhões | ~63% |
À primeira vista os 63% de «resto» parecem tranquilizadores. Mas esse resto inclui dezenas de fornecedores, muitos deles também de grande escala, como a ether.fi (líder no staking líquido com restaking), a Kraken, a Figment ou a Kiln. Quando se agregam os principais operadores, a concentração torna-se evidente: uma mão-cheia de fornecedores controla, no conjunto, perto de metade de todo o ETH em staking, segundo a leitura do painel da Datawallet. O ETH que sai das exchanges não se dispersa; agrupa-se.
Lido: o gigante que encolhe mas ainda pesa um quarto
Durante anos, a preocupação número um dos investigadores da Ethereum teve nome próprio: Lido. O protocolo de staking líquido chegou a controlar perto de um terço de todo o ETH em staking em finais de 2023, um patamar que muitos consideram o limite acima do qual um único operador ganharia poder de veto sobre a rede. A boa notícia de 2026 é que essa quota está a recuar. A Lido caiu de 23,93% para 21,18% do ETH em staking apenas no primeiro semestre, e captou somente 5,7% do crescimento da rede no período, segundo o CryptoSlate. Continua a ser o maior bloco isolado, com cerca de um quarto do total, mas a tendência é de diluição.
A má notícia é que a diluição não elimina o problema, apenas o desloca. A crítica clássica à Lido é a da «dupla centralização»: mesmo que o protocolo tenha muitos participantes, o poder de assinatura concentra-se num conjunto restrito de operadores de nó. A resposta da Lido tem sido reconstruir-se por dentro. Com a V3, lançada em 30 de janeiro de 2026, o protocolo passou a integrar tecnologia de validadores distribuídos e o seu módulo de staking comunitário no encaminhamento das apostas, adicionando operadores e diversidade de clientes.
Há ainda a dimensão da governação. Quem controla os votos que dirigem a Lido controla, indiretamente, o maior bloco de staking da Ethereum. É a mesma tensão que atravessa todo o setor e que explorámos ao retratar a classe dos delegados que transformou governar uma DAO num emprego. No caso da Lido, a concentração da oferta e a concentração do poder de decisão são, no fundo, a mesma moeda.
BitMine e as tesourarias: quase 5% de todo o ETH num só balanço
Se o staking é a forma antiga de trancar ETH, as tesourarias empresariais são a forma nova, e a mais concentrada de todas. Segundo o painel da CoinGecko, 34 entidades detêm em conjunto cerca de 7,94 milhões de ETH, ou seja, 6,51% de toda a oferta. E dentro desse grupo há um nome que faz sombra a todos os outros.
- BitMine Immersion (BMNR): cerca de 5,93 milhões de ETH, aproximadamente 4,9% de toda a oferta, dos quais à volta de 85% em staking através da plataforma MAVAN e parceiros; a receita anualizada de staking está projetada em cerca de 330 milhões de dólares, segundo a Decrypt.
- SharpLink (SBET): cerca de 869 mil ETH.
- The Ether Machine (ETHM): cerca de 497 mil ETH.
- Bit Digital (BTBT): cerca de 158 mil ETH.
- Coinbase Global (COIN): cerca de 150 mil ETH em tesouraria própria.
Uma única empresa, a BitMine, controla quase 5% de todo o ETH que existe, e tranca a maior parte em staking. É uma concentração sem paralelo na história do ativo. O seu presidente, Tom Lee, defende que a procura estrutural por ETH virá da tokenização e da inteligência artificial, e chegou a dizer, em maio, que a empresa abrandaria as compras à medida que se aproximasse da meta de 5% da oferta, conforme noticiado pela Decrypt. A leitura otimista é que este é dinheiro de convicção, que não vende no primeiro susto. A leitura cautelosa é que se cria um ponto de fragilidade: quando uma tesouraria transaciona abaixo do seu valor líquido de ativos, a pressão para recomprar ações ou liquidar posições pode inverter o fluxo. É a dinâmica do «flywheel ao contrário» que descrevemos ao contar como, nas tesourarias cripto, acabou a compra a qualquer preço.
Exchanges, ETF e o custodiante único
Há um terceiro vértice de concentração, mais discreto e talvez o mais determinante. Os grandes fornecedores de staking não são projetos anónimos de DeFi: são a Binance e a Coinbase, as duas maiores corretoras do Ocidente, que gerem cada uma na ordem dos 3 milhões de ETH em staking, segundo a Datawallet. Somando o staking custodiado, o ETH parado nos livros de ordens e, no caso da Coinbase, o papel de custodiante dominante dos fundos de ETH à vista, percebe-se que uma parte substancial da oferta passa pelas mãos de duas entidades reguladas.
Isto tem uma implicação que raramente aparece nas análises de preço: a resistência à censura. Validadores operados por entidades reguladas nos Estados Unidos ou na União Europeia estão sujeitos a listas de sanções e a ordens judiciais. Se uma fatia crescente dos blocos for proposta por operadores obrigados a filtrar transações, a promessa central da Ethereum, a de ser uma plataforma neutra e sem permissões, fica em causa. A escassez que faz subir o preço e a concentração que ameaça a neutralidade da rede são, muitas vezes, o mesmo movimento visto de ângulos diferentes.
Os fundos cotados de ETH à vista acrescentam ainda outra camada. O grosso do ETH que respalda esses produtos está à guarda de um número muito reduzido de custodiantes institucionais, com a Coinbase à cabeça. Cada nova entrada líquida num fundo retira ETH do mercado aberto e coloca-o num cofre regulado, por vezes com uma parte a render através de staking. Para o investidor de retalho na Europa, que acede sobretudo a produtos cotados sem staking, o resultado é duplo: ganha exposição fácil ao preço, mas contribui, sem o notar, para que a custódia efetiva das moedas se concentre do outro lado do Atlântico, em meia dúzia de balanços.
O risco que a escassez esconde: censura, 51% e ponto único de falha
Ninguém articulou este risco com mais clareza do que o próprio cofundador da Ethereum. Vitalik Buterin descreveu a centralização do staking como um dos maiores riscos para a rede no âmbito do capítulo do roteiro a que chamou The Scourge, dedicado precisamente a este problema. Num ensaio de outubro de 2024, resumiu onde mora o perigo: «Há dois pontos-chave onde este risco existe: (i) a construção de blocos e (ii) a provisão de capital de staking», escreveu, num texto citado pela Cryptopolitan.
Traduzido para o concreto, a concentração abre três frentes de vulnerabilidade. A primeira é o ataque de 51%: se um operador ou uma coligação controlasse a maioria do stake, poderia reorganizar a cadeia ou censurar transações. A segunda é a censura mais subtil, ao nível da construção de blocos, mesmo sem maioria. A terceira é o ponto único de falha: um erro de software, uma falha operacional ou uma penalização em massa num fornecedor com muitos milhões de ETH poderia arrastar consigo uma parte desproporcionada da rede. Nenhum destes cenários é iminente, mas todos se tornam mais prováveis à medida que a oferta se agrupa. Não por acaso, o debate sobre onde acaba a governação legítima e começa a captura é o mesmo que percorre o mundo das organizações autónomas descentralizadas.
A resposta da Ethereum: DVT nativo, Rainbow Staking e o limiar dos 32 ETH
A rede não está parada perante o problema. A grande aposta técnica chama-se tecnologia de validadores distribuídos (DVT), que reparte a operação de um validador por vários nós independentes, eliminando o ponto único de falha e melhorando a diversidade de clientes. A Lido já a integra através dos seus clusters de DVT, repartidos entre os operadores Obol e SSV Network, com dezenas de agrupamentos e um módulo de staking comunitário que baixa a fasquia para quem quer contribuir, como detalha o balanço da Lido sobre o Simple DVT. Buterin foi mais longe e defende um DVT nativo, integrado no próprio protocolo, e proposta de baixar o mínimo de 32 ETH exigido a cada validador, um valor que descreve como muito mais uma barreira de entrada do que uma necessidade técnica.
Estas ideias, agrupadas em conceitos como o Rainbow Staking, procuram tornar o staking individual viável e atrativo outra vez, contrariando a lógica que empurra todos para os grandes fornecedores. O obstáculo é comportamental: mesmo que fazer staking em casa se torne trivial, muitos detentores preferirão sempre a comodidade de um token líquido. É a mesma procura por modelos mais distribuídos que alimenta a nova geração de protocolos sem token de governação, como explorámos ao apresentar o modelo modular que herdou a fuga da EigenLayer. A batalha pela descentralização do staking é, em última análise, uma corrida entre a conveniência e a arquitetura.
O protocolo também tem alavancas: Glamsterdam e a EIP-8361
Enquanto o mercado tranca ETH, o protocolo prepara mudanças que vão mexer com a economia de quem valida. A próxima grande atualização, Glamsterdam, chegou à fase final de devnet com dez propostas fechadas, segundo a The Defiant. As duas estrelas são a separação entre proponente e construtor de blocos ao nível do protocolo (ePBS, na EIP-7732) e as listas de acesso ao nível do bloco (EIP-7928), que permitem processar transações em paralelo. O objetivo de desenho é um limite de gás de 200 milhões, muito acima dos cerca de 60 milhões atuais, embora sejam os validadores a votar essa subida de forma gradual. A ativação em mainnet é esperada para o segundo semestre de 2026.
Para a oferta, o efeito é indireto mas real: a ePBS reorganiza quem captura o valor extraível (MEV) e, portanto, quem lucra com o staking, o que pode reforçar ou atenuar a vantagem dos grandes operadores. Já a alavanca mais direta sobre a emissão continua a ser a controversa EIP-8361 (por vezes numerada 8363), que propõe queimar uma fatia crescente das recompensas dos validadores à medida que o staking sobe, anulando a emissão líquida do consenso quando metade da oferta estiver bloqueada, conforme resume o Crowdfund Insider. A proposta, assinada por seis autores próximos da Fundação Ethereum, incluindo Justin Drake, continua em rascunho, sem inclusão marcada em qualquer atualização, e sem calendário. Politicamente, é dinamite: reduzir o rendimento de quem faz staking mexe diretamente com os interesses dos grandes fornecedores que hoje dominam a oferta.
Escassez por política contra escassez por protocolo: ETH e Bitcoin
Vale a pena contrastar a escassez do ETH com a do Bitcoin, porque são de naturezas opostas. A escassez do Bitcoin é dura, escrita no código: 21 milhões de unidades, um calendário de halvings imutável, previsível ao bloco. É escassez por protocolo. A do ETH é diferente. Não há teto de oferta; a emissão líquida perto de zero é um resultado de política e de comportamento, não uma garantia matemática. Um dia de taxas altas na mainnet volta a torná-la deflacionista; um período de calmaria devolve-a à inflação ligeira. E o «trancar» que hoje sustenta o preço depende de decisões humanas: continuar em staking, manter a tesouraria, não devolver o ETH às exchanges.
Isto é a um tempo a força e a fragilidade da tese. A força: se a Ethereum aprovar a EIP-8361, poderá tornar-se estruturalmente escassa por decisão de governação, algo que o Bitcoin não pode fazer. A fragilidade: o que a política dá, a política pode tirar, e o que o comportamento tranca, o comportamento pode destrancar. Quem defende modelos de escassez rígidos aprendeu a lição pela via difícil, como mostrámos ao explicar porque o modelo stock-to-flow do Bitcoin falhou. Aplicar cegamente a mesma fé à oferta do ETH, que é muito mais maleável, seria repetir o erro.
Há ainda uma diferença de quem detém cada ativo. A posse do Bitcoin, apesar da ascensão dos fundos e das tesourarias, continua relativamente pulverizada por milhões de carteiras. A do ETH move-se no sentido contrário, empurrada pelo próprio desenho: o staking premeia a agregação e o rendimento cria um incentivo permanente para entregar as moedas a um terceiro que as faça trabalhar. Por outras palavras, o Bitcoin tende para a dispersão por inércia, ao passo que o ETH tende para a concentração por incentivo. Para uma tese de investimento de longo prazo, é esta a distinção que mais importa vigiar, muito mais do que a fotografia da emissão num dia qualquer.
Portugal: o que a CMVM e o fisco fazem com o ETH em staking
Para o investidor português, a concentração da oferta tem uma tradução prática na hora de declarar. Desde a transposição do regulamento europeu MiCA através da Lei n.º 69/2025, a supervisão dos prestadores de serviços de criptoativos em Portugal cabe à CMVM e ao Banco de Portugal, que fixaram o regime sancionatório e os deveres de reporte, conforme resume a análise da Rankia. A CMVM tem repetido que os criptoativos são produtos de alto risco, um aviso que ganha peso quando a oferta se concentra em poucos agentes.
No plano fiscal, as recompensas de staking são tratadas como rendimentos de capitais da categoria E, sujeitas à taxa de 28% sobre o valor no momento em que são recebidas, e declaradas no Anexo E, sem retenção na fonte, o que gera imposto a pagar. Já a venda das moedas segue a regra dos 365 dias: mais-valias em ativos detidos há menos de um ano pagam 28% no Anexo G, enquanto os detidos há mais de um ano ficam isentos no Anexo G1. Convém ainda lembrar o custo de oportunidade: com a taxa de depósito do Banco Central Europeu em torno de 2%, um rendimento de staking de 2,7% traz consigo risco de mercado, de execução e de contraparte que um depósito não tem. Antes de trancar ETH num grande fornecedor, o investidor deve pesar a quem está a entregar a custódia e o poder de voto associado.
Três cenários para a oferta e o controlo do ETH até 2027
Juntando as peças, a oferta do ETH deixou de ser uma história de emissão para ser uma história de controlo. A tabela abaixo traça três caminhos possíveis até 2027, cada um com a sua leitura de preço e de risco.
| Cenário | O que o alimenta | Implicação para preço e risco |
|---|---|---|
| Escassez ordenada (base) | Staking estabiliza entre 35% e 40%, reservas em exchanges caem devagar, tesourarias mantêm posições, o DVT avança | Oferta líquida fina sustenta o preço sem euforia; concentração gerível |
| Aperto de oferta (squeeze) | Reservas descem abaixo de 12 milhões, procura de fundos e tesourarias acelera, staking rumo a 40% e mais | Flutuante fino amplifica subidas via liquidações de posições curtas; concentração agrava-se em silêncio |
| Reversão por concentração | Uma grande tesouraria abaixo do valor líquido de ativos vende ou trava, ou um incidente num grande fornecedor expõe o ponto único de falha | A escassez inverte-se; o mercado reprecifica em baixa o «prémio de descentralização» do ETH |
Nenhum cenário é garantido, e a fronteira entre eles é ténue. O que os separa é, precisamente, o comportamento dos grandes blocos que hoje controlam a oferta. Por isso, mais do que vigiar o preço, convém vigiar os mostradores da concentração:
- Reservas em exchanges: abaixo de 12 milhões sinaliza aperto; a subir sinaliza distribuição e possível topo.
- Rácio de staking e fila de entrada: a velocidade a que o ETH continua a trancar-se.
- Quota da Lido e progresso do DVT: o termómetro da descentralização do lado da validação.
- Valor líquido de ativos das tesourarias: a BitMine em prémio ou em desconto, e eventuais programas de recompra.
- Estado da EIP-8361 e das decisões de inclusão em Glamsterdam e Hegotá: a política de emissão a materializar-se, ou não.
A conclusão para 2026 é sóbria. A escassez do ETH é real, mas não é gratuita: paga-se em concentração. O investidor que compra a tese do aperto de oferta está, sem sempre saber, a apostar também que meia dúzia de fornecedores, tesourarias e custodiantes vai continuar a portar-se bem. Enquanto se portarem, o preço agradece. Quando um deles mudar de ideias, o mesmo flutuante fino que amplificou a subida amplificará a descida.
Perguntas frequentes
Quanto ETH está em staking e que percentagem da oferta representa?
Em setembro de 2026, cerca de 43 milhões de ETH estão bloqueados em staking, aproximadamente 35% de toda a oferta, segundo a ultrasound.money. O valor cresceu perto de 6,8 milhões de ETH só no primeiro semestre do ano, impulsionado sobretudo por procura institucional.
Quem controla a maior parte do ETH em staking?
A Lido continua a ser o maior bloco isolado, com cerca de um quarto do ETH em staking, embora a sua quota tenha caído de 23,93% para 21,18% no primeiro semestre de 2026. Seguem-se as grandes corretoras, Binance e Coinbase, cada uma com perto de 3 milhões de ETH. No conjunto, uma mão-cheia de fornecedores gere quase metade de todo o ETH em staking.
O que são as tesourarias de ETH e quanto detêm?
São empresas cotadas que acumulam ETH no balanço como reserva estratégica. Em conjunto, 34 entidades detêm cerca de 7,94 milhões de ETH, ou 6,51% da oferta, segundo a CoinGecko. A BitMine domina o grupo, com cerca de 5,93 milhões de ETH, quase 5% de toda a oferta, mantendo a maior parte em staking.
A concentração do staking é um risco para a Ethereum?
Sim. Vitalik Buterin classificou a centralização do staking como um dos maiores riscos da rede, por abrir a porta a ataques de 51%, censura de transações e pontos únicos de falha. A resposta em curso passa por tecnologia de validadores distribuídos, propostas como o Rainbow Staking e a intenção de baixar o mínimo de 32 ETH exigido a cada validador.
Como é tributado o staking de ETH em Portugal?
As recompensas de staking são rendimentos de capitais da categoria E, tributadas a 28% sobre o valor à data em que são recebidas, e declaradas no Anexo E. A venda das moedas segue a regra dos 365 dias: menos de um ano paga 28% de mais-valias, mais de um ano fica isento. A supervisão dos prestadores cabe à CMVM e ao Banco de Portugal ao abrigo da Lei n.º 69/2025, que transpôs o MiCA.
Por Priya Reddy, HOGE Wire. Análise informativa, não constitui aconselhamento de investimento.