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● Culture & Long-reads

A classe dos delegados: quando governar uma DAO virou emprego

A assembleia descentralizada esvaziou-se e uma força de trabalho paga ocupou o lugar. Em 2026, o grande drama das DAO já não é o assalto ao cofre; é o conflito laboral.

Há uma imagem que a cripto vendeu durante quase uma década: a de uma assembleia sem chefes, em que qualquer detentor de um token levanta a mão e o código executa a vontade da maioria. Uma organização autónoma descentralizada, a famosa DAO, seria a democracia direta finalmente escrita em software, sem conselhos de administração, sem gestores intermédios, sem folha de salários. Em 2026, essa imagem continua a aparecer nos whitepapers. Já quase não aparece na prática.

O que aconteceu foi mais banal e, à sua maneira, mais revelador: governar uma DAO tornou-se um emprego. Por trás da maioria dos grandes protocolos existe hoje uma força de trabalho paga, feita de delegados a tempo inteiro, empresas de gestão de risco, consultoras de governação, gestores de tesouraria e até um mercado onde se aluga o voto. Estas pessoas não são uma anomalia; são a infraestrutura. Sem elas, tesouros de milhares de milhões ficariam entregues a uma assembleia que, na esmagadora maioria dos casos, simplesmente não aparece para votar.

É aqui que nasce o drama das DAO de 2026. Não o drama do assalto, do flash loan e do cofre esvaziado numa única transação; esse já foi contado vezes sem conta. O drama novo é laboral: quem é pago, quanto, por quem, e o que acontece quando os profissionais que sustentam um protocolo se demitem em bloco e vão trabalhar para o concorrente. Quando a Aave, um dos maiores mercados de crédito on-chain do mundo, perdeu em poucos meses quase toda a sua camada de prestadores de serviços, o episódio não se leu como um golpe. Leu-se como um divórcio empresarial.

A promessa: uma assembleia sem donos

Convém recordar o que a sigla prometia, porque é a distância entre a promessa e a realidade que gera a tensão. Uma DAO, organização autónoma descentralizada, devia ser uma entidade cujas regras vivem em contratos inteligentes e cujas decisões são tomadas por quem detém o token de governação, na proporção do que detém. Um token, um voto. Sem sede, sem CEO, sem departamento de recursos humanos. A coordenação far-se-ia num fórum público e a decisão numa votação transparente, registada na cadeia para qualquer um auditar.

O argumento não era só técnico, era ideológico. A DAO nascia como uma crítica à empresa tradicional: se o software pode executar acordos sem intermediários, então também pode gerir uma organização sem a hierarquia habitual. O trabalho de governar seria distribuído por milhares de mãos, feito por paixão e interesse próprio, não por salário. A palavra que faltava a esse plano, e a mais frágil das três letras, era «autónoma». Uma coisa é automatizar a execução de um voto; outra, bem diferente, é conseguir que alguém se dê ao trabalho de votar.

A assembleia vazia: apatia e concentração

O problema apareceu cedo e nunca mais desapareceu: a assembleia costuma estar vazia. Um estudo já clássico da Chainalysis, que analisou dez das maiores DAO, concluiu que menos de 1% dos detentores controla cerca de 90% do poder de voto. O mesmo trabalho estimava que apenas entre um em mil e um em dez mil detentores tinha tokens suficientes para sequer submeter uma proposta, e uma fração ainda mais estreita, entre um em dez mil e um em trinta mil, para a aprovar sozinho.

A participação típica confirma o retrato: numa votação normal de uma grande DAO comparecem poucos por cento dos endereços elegíveis. A maioria dos detentores comprou o token pela exposição financeira, não pelo direito de coordenar decisões técnicas sobre parâmetros de risco ou orçamentos. E a apatia, vista de perto, é racional: o voto de um pequeno detentor quase nunca muda o resultado, mas o tempo para o estudar é bem real. A apatia também não é exclusiva da governação; é o mesmo desencontro entre oferta e procura que marca outras áreas da cripto, do restaking, onde milhões de ETH aguardam uma procura que tarda, à liquidez que fica parada à espera de utilizadores.

Como a DeFi concentra a esmagadora maioria do valor guardado em tesouros de DAO, o que está em jogo nessas votações desertas não é simbólico: são carteiras com centenas de milhões. Uma assembleia vazia com um cofre cheio é um vácuo, e os vácuos enchem-se. Enchem-se de duas maneiras. Ou uma minoria de baleias passa a decidir tudo, e a «descentralização» vira uma plutocracia; ou alguém é contratado para ocupar as cadeiras vazias, ler as propostas e votar em nome dos ausentes. A segunda via foi a que criou uma profissão inteira.

Nasce uma profissão: o delegado a tempo inteiro

A solução que a maioria das DAO adotou tem um nome antigo: representação. Em vez de esperar que dezenas de milhares de detentores votem em cada decisão, o sistema permite que cada um delegue o seu poder de voto a um representante. Ferramentas como a Snapshot, para sinalização fora da cadeia, e a Tally, para execução on-chain, transformaram essa delegação num gesto de um clique. O detentor médio delega e desaparece; o delegado acumula o poder de voto de milhares e passa a decidir por eles.

É a velha lição da ciência política, aprendida outra vez à força: a democracia direta não escala. Mais cedo ou mais tarde é substituída por representantes, com todas as virtudes e vícios que isso arrasta, a mesma tensão entre voto direto e delegação que marca as democracias fora da cadeia, das urnas argentinas em vésperas eleitorais a qualquer parlamento europeu. A diferença é que, na cripto, o representante não é eleito por cidadãos iguais, mas por tokens, e o seu peso é proporcional ao capital que lhe confiam.

A classe que emergiu é heterogénea. Há firmas inteiras dedicadas à governação, que se candidatam a delegadas em dezenas de protocolos ao mesmo tempo; há braços de fundos de capital de risco, que delegam para si o poder de voto associado aos tokens que financiaram; e há indivíduos que construíram uma reputação de voto ponderado e vivem das recompensas e da consultoria que ela atrai. O que todos têm em comum é a atenção, o recurso mais escasso numa DAO. Enquanto o detentor comum ignora as propostas, estes profissionais leem-nas todas, e quem lê todas as propostas acaba, na prática, a decidir por quem não lê nenhuma.

Ao princípio, os delegados eram voluntários: entusiastas, clubes universitários de blockchain, programadores com opinião. Depressa se percebeu que ler dezenas de propostas técnicas por mês, escrever fundamentações públicas de voto, comparecer a chamadas e negociar com outras partes era, na prática, um trabalho a tempo inteiro. E o que é um trabalho a tempo inteiro sem remuneração? Um passatempo de quem tem tempo livre, ou uma porta aberta a quem tem outros interesses. Faltava dar o passo óbvio: pagar.

A folha de pagamento da descentralização

O passo foi dado à vista de todos. A Arbitrum, uma das maiores DAO por valor em tesouro, aprovou um programa para remunerar delegados ativos, com um orçamento na ordem de 1,5 milhões de dólares por ano (cerca de 1,3 milhões de euros) e pagamentos que podem chegar a 5.000 ARB por mês por delegado. A lógica é explícita: combater a apatia pagando a quem comparece, vota de forma consistente e publica o raciocínio por trás de cada voto. Governar deixou de ser um favor à comunidade para passar a ser uma linha orçamental.

Como em qualquer folha de pagamento, também esta tem burocracia e falhas. Em abril de 2026, a própria Arbitrum teve de publicar uma correção e um post-mortem do programa: um erro na automatização que calculava as recompensas deixara de fora uma votação, distorcendo os pagamentos do mês. Há algo de simbólico no episódio. A organização que prometia dispensar a gestão intermédia acabou a escrever relatórios de incidente sobre o software que lhe processa os ordenados.

E os delegados são apenas a base da pirâmide. Acima deles, uma camada de empresas especializadas vende serviços que nenhuma assembleia de voluntários conseguiria prestar. A tabela seguinte resume quem faz o quê, com valores discutidos ao longo deste artigo.

PapelO que fazExemplo de contratoEstado em 2026
Delegado ativoVota, escreve fundamentações, comparece a chamadasArbitrum: até 5.000 ARB/mês; programa de ~1,5 M$/anoAtivo (com post-mortem em abril)
Gestão de riscoDefine parâmetros: rácios de garantia, taxas, colateraisGauntlet: 1,6 M$/ano na Aave; 2,3 M$/ano na CompoundGauntlet saiu da Aave (2024); Chaos Labs saiu (2026)
Programação técnicaDesenvolve e mantém o código do protocoloBGD Labs: contrato técnico da Aave (V3)Saiu da Aave (fevereiro de 2026)
Facilitação de governaçãoPrepara propostas, modera, faz a ponte com a comunidadeACI: 4,625 M$ em três anosSaiu da Aave (anúncio em março de 2026)
Gestão de tesourariaInveste e diversifica o cofre da DAOFirmas como a Karpatkey ou a Steakhouse FinancialSetor em expansão

Os prestadores de serviços: a DAO como cliente

Se os delegados são os funcionários, as empresas de governação são os fornecedores, e a DAO é o cliente. O setor organizou-se em especialidades. A gestão de risco, dominada por firmas como a Gauntlet (fundada em 2018) e a Chaos Labs, corre simulações para definir os parâmetros que mantêm um protocolo de crédito solvente: quanto se pode pedir emprestado contra cada garantia, que ativos aceitar, que taxas cobrar. A programação técnica, prestada por equipas como a BGD Labs, escreve e mantém o código. A facilitação de governação, o trabalho da Aave Chan Initiative de Marc Zeller ou da StableLab, prepara propostas, modera o fórum e serve de ponte entre a equipa fundadora e os detentores. E a gestão de tesouraria entrega a firmas especializadas a tarefa de investir cofres que rivalizam com os de um fundo de médio porte.

Estes contratos não são simbólicos. A Gauntlet chegou a receber 1,6 milhões de dólares por ano da Aave (cerca de 1,4 milhões de euros) e um contrato de 2,3 milhões de dólares anuais com a Compound cuja renovação gerou contestação entre os detentores. O detalhe da contestação é o que interessa: quando os token holders começam a discutir se um fornecedor vale o que cobra, estão a comportar-se como o conselho de administração de uma empresa a rever a despesa com consultores. A DAO adquiriu, sem o admitir, a psicologia de uma empresa.

A gestão de tesouraria mostra bem a escala do que está em jogo. Muitas DAO acumularam, nos anos de euforia, cofres com centenas de milhões em tokens próprios e stablecoins, e geri-los, diversificar, cobrir risco cambial, gerar rendimento sem comprometer a liquidez, é uma função de gestor de ativos, não de fórum. Firmas especializadas assumiram essa tarefa e passaram a produzir relatórios trimestrais, propostas de alocação e painéis de desempenho que qualquer diretor financeiro reconheceria. A assembleia vota o mandato; os profissionais executam-no. É difícil imaginar contraste maior com a imagem original de voluntários a coordenar-se num chat.

O divórcio da Aave: um conflito laboral de milhares de milhões

Nenhum caso mostrou melhor esta transformação do que a Aave em 2026. O protocolo, com cerca de 26 mil milhões de dólares em depósitos (mais de 22 mil milhões de euros), viu sair em poucos meses quase toda a camada profissional que fazia a sua governação funcionar. Primeiro a BGD Labs, em fevereiro, alegando que a transição para a versão 4 do protocolo estava a ser imposta pela Aave Labs sem consulta. Depois a ACI de Marc Zeller, que anunciou em março uma saída faseada ao longo de quatro meses. Por fim, em abril, a Chaos Labs, a gestora de risco, invocando desalinhamento sobre a estratégia de risco e, de forma reveladora, receios de responsabilidade legal.

O que desencadeou a rutura foi, no fundo, uma disputa de poder e de dinheiro, como qualquer conflito laboral. Em causa estava um orçamento avultado pedido pela Aave Labs, a empresa do fundador Stani Kulechov, e a perceção de que uma única entidade tinha votos suficientes para o aprovar contra a vontade da comunidade. Zeller foi direto na diagnose. A votação preliminar, disse ao The Block, «demonstrated that a single entity holds enough voting power to pass its own budget proposals over community opposition» (demonstrou que uma única entidade detém votos suficientes para aprovar os seus próprios orçamentos contra a oposição da comunidade). Segundo ele, excluir cerca de 233 mil tokens AAVE ligados a endereços da Labs, incluindo uma delegação de 111 mil vindos do próprio Kulechov, teria invertido o resultado.

Zeller resumiu o motivo da saída numa frase que qualquer trabalhador reconheceria: «The main spark is BGD leaving» (a faísca principal é a saída da BGD). E acrescentou a desconfiança de fundo: «We don’t consider the current governance process decentralized enough to guarantee that existing commitments will be honored» (não consideramos o atual processo de governação suficientemente descentralizado para garantir que os compromissos assumidos serão honrados). A ACI, recorde-se, tinha recebido 4,625 milhões de dólares ao longo de três anos. Não era um voluntário ressentido; era um prestador de serviços a rescindir contrato por falta de confiança no cliente.

Alguns analistas leram o êxodo como uma privatização de facto da Aave: com a camada independente a desaparecer, o poder efetivo concentrava-se na empresa fundadora. Seja qual for a leitura, o enredo é inconfundível. Uma organização dita descentralizada perdeu de uma assentada os seus principais quadros, que saíram a protestar contra o peso do acionista de referência. Troque-se o vocabulário e temos a demissão em massa de uma administração.

PrestadorFunção na AaveSaída anunciadaMotivo declarado
GauntletGestão de riscoFevereiro de 2024«Diretrizes inconsistentes» dos grandes stakeholders; mudou-se para a Morpho
BGD LabsProgramação técnica (V3)Fevereiro de 2026Transição para a V4 imposta sem consulta
ACI (Marc Zeller)Facilitação de governaçãoMarço de 2026Concentração de voto; processo «não suficientemente descentralizado»
Chaos LabsGestão de riscoAbril de 2026Desalinhamento de risco; receios de responsabilidade legal

A tabela deixa clara uma coisa: a debandada não começou em 2026. O primeiro grande divórcio deu-se dois anos antes, e vale um capítulo à parte, porque introduziu na cripto um fenómeno que qualquer economia do trabalho conhece bem, o do agente livre.

O agente livre: quando o profissional troca de clube

Em fevereiro de 2024, a Gauntlet anunciou que deixava a Aave e, menos de uma semana depois, mudava-se para a Morpho, um protocolo de crédito concorrente. O cofundador John Morrow justificou a saída com a dificuldade de «navigate the inconsistent guidelines and unwritten objectives» (navegar diretrizes inconsistentes e objetivos não escritos) dos maiores stakeholders da Aave. Outro responsável da empresa foi mais mordaz, queixando-se de que a Aave queria «exclusivity from Gauntlet without paying for it» (exclusividade da Gauntlet sem pagar por ela) e de tratamento desigual face à rival Chaos Labs.

O mais interessante foi o modelo de negócio para onde a Gauntlet migrou. Em vez de uma tarifa anual fixa paga pela assembleia da Aave, passou a construir os seus próprios produtos de crédito sobre a infraestrutura da Morpho e a cobrar comissões diretamente aos utilizadores. O consultor virou operador. É a trajetória de qualquer profissional talentoso que, cansado de faturar a um cliente difícil, decide montar negócio próprio e levar a carteira de competências com ele.

Este é o sinal mais claro de que existe um verdadeiro mercado de trabalho na governação on-chain. Os profissionais são agentes livres, com competências transferíveis, que se movem entre protocolos, por vezes para rivais diretos, levando conhecimento e influência. E, tal como o rendimento migra de protocolo em protocolo na DeFi, migram com ele os quadros que o gerem. A consequência é desconfortável: uma mesma firma pode aconselhar dois concorrentes, e a lealdade a um protocolo dura o que durar o contrato.

Conflitos de interesse: aconselhar os dois lados

Um mercado de trabalho maduro traz consigo um problema que a assembleia de voluntários nunca teve de enfrentar a esta escala: o conflito de interesses. Se uma firma de gestão de risco aconselha simultaneamente dois protocolos concorrentes, a quem deve lealdade quando os interesses divergem? Se um delegado vota numa proposta que beneficia a empresa que o emprega noutro contexto, está a representar quem o delegou ou a servir o próprio patrão? Estas perguntas, triviais em qualquer setor regulado, ainda não têm resposta clara na governação on-chain.

A queixa da Gauntlet sobre tratamento desigual face à Chaos Labs, ambas gestoras de risco a orbitar a mesma Aave, é um sintoma precoce disto. Duas firmas rivais competiam pelo mesmo cliente, com propostas por vezes contraditórias, e os detentores tinham de arbitrar entre consultores com incentivos próprios. Junte-se o mercado de compra de votos, em que a influência se aluga a quem paga mais, e o quadro fica completo: a governação passou a ter fornecedores, concorrência, lóbis e clientes, tudo aquilo que a promessa original dizia tornar obsoleto.

O mercado de votos: governação por encomenda

Se o voto tem valor, então tem preço. E onde há preço, forma-se mercado. A demonstração mais acabada desta lógica são as chamadas Curve wars, a competição entre protocolos por controlar os votos que dirigem os incentivos da Curve para esta ou aquela pool. Para vencer, os protocolos nem precisam de deter os tokens: podem alugar os votos. Plataformas como a Votium e a Hidden Hand transformaram o suborno em infraestrutura, pagando por ronda a quem detém poder de voto para que vote num determinado sentido. A Convex, sozinha, controla uma fatia dominante do veCRV, o que faz dela um intermediário de facto entre quem quer votos e quem os tem.

Vitalik Buterin descreveu há anos a raiz do problema num ensaio que continua atual: um token de governação é, nas suas palavras, «a bundle of two rights» (um pacote de dois direitos), o interesse económico no protocolo e o direito de participar na governação, e esses dois direitos, argumenta, são fáceis de separar. É precisamente essa separação que torna a compra de votos barata: quem aluga um voto exerce poder sem ter em jogo o valor do ativo. Num mercado assim, como em qualquer outro, vale a pena perguntar sempre quem está do outro lado da transação, porque raramente é quem a narrativa oficial sugere.

Em 2026, a intensidade das Curve wars arrefeceu face aos picos de anos anteriores, mas a infraestrutura de compra de votos não desapareceu. Ficou como prova de conceito de algo maior: a última peça da governação, o próprio voto, também pode ser terceirizada e faturada. A assembleia de cidadãos-token virou um balcão de serviços onde quase tudo se contrata.

Quando ninguém vigia: o cofre fica exposto

Há uma objeção óbvia a tudo isto: se a profissionalização concentra poder, não seria melhor voltar à assembleia de voluntários? A resposta de 2026 é brutal. A assembleia de voluntários, desatenta e dispersa, é um alvo. Quando ninguém vigia, o cofre fica exposto, e há quem se especialize em explorar exatamente esse descuido.

A firma de segurança Blockaid contabilizou, entre junho e agosto de 2026, pelo menos sete tomadas de controlo por governação, com cerca de 22 milhões de dólares drenados em três blockchains diferentes. Em agosto, o protocolo de crédito Term Finance perdeu cerca de 8,5 milhões de dólares (mais de sete milhões de euros) num ataque que contornou até um mecanismo de atraso temporal. E, a 2 de setembro, a YAM Finance viu um atacante submeter uma proposta que tentava tomar o controlo do seu contrato de timelock, pondo cerca de 337 mil dólares em risco.

O detalhe crucial do caso YAM diz tudo sobre a nova ordem: o alarme não foi dado por um voluntário atento, mas por um sistema de vigilância automatizado, o Defimon, operado pela empresa de segurança Decurity. Por outras palavras, a defesa contra o assalto é, ela própria, um serviço profissional pago. Seguir o rasto on-chain do dinheiro roubado tornou-se, aliás, uma disciplina forense inteira, como se vê sempre que uma carteira adormecida volta a mexer-se. A ironia é completa: a mesma profissionalização que os críticos chamam de centralização é, muitas vezes, a única coisa entre um tesouro e um atacante.

A conta jurídica: quem responde quando corre mal

Recorde-se que a Chaos Labs invocou, ao sair da Aave, receios de responsabilidade legal. Não é paranoia. Um profissional que aconselha, vota ou executa decisões numa DAO com milhares de milhões em cofre está exposto de uma forma que um voluntário anónimo nunca esteve. E os tribunais já começaram a pronunciar-se.

O precedente mais citado é o da Ooki DAO. Em 2023, um tribunal norte-americano aceitou o argumento da CFTC de que uma DAO é uma associação sem personalidade jurídica e uma «pessoa» para efeitos legais, impondo uma sanção de 643.542 dólares e abrindo a porta a responsabilizar quem participa na governação. A resposta do setor foi criar invólucros jurídicos: a DUNA do Wyoming, adotada em 2024, dá a uma DAO existência legal e responsabilidade limitada, protegendo os participantes; estruturas semelhantes surgiram nas Ilhas Marshall. Quando uma organização precisa de um invólucro legal para proteger os seus membros, está a admitir que tem membros com algo a perder, ou seja, empregados e fornecedores, não uma nuvem anónima de detentores.

Na Europa, e em Portugal em particular, o enquadramento é o do MiCA, transposto pela Lei n.º 69/2025, cujo regime transitório termina a 1 de julho de 2026. Convém ser rigoroso: o MiCA regula os prestadores de serviços de criptoativos (os CASP) e os emitentes, não o desenho de governação de um protocolo. Em Portugal, o Banco de Portugal instrui os pedidos de autorização e a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o abuso de mercado. Uma DAO pura, sem empresa por trás, cai fora desse perímetro. Mas no momento em que existe uma entidade paga a prestar um serviço regulado, uma consultora, um fundo, uma fundação, o perímetro pode começar a colar-se. E as regras de abuso de mercado, competência da CMVM, podem um dia alcançar a compra de votos que manipule um token cotado. Nada disto está resolvido.

A contracorrente: a melhor governação é menos governação

Nem toda a gente aceitou a fatura crescente da governação profissional. Uma corrente influente concluiu o contrário: se governar é caro, arriscado e conflituoso, talvez a solução seja governar menos. É a chamada minimização da governação.

A Uniswap foi o exemplo canónico durante anos, mantendo uma governação mínima e a taxa de protocolo desligada por opção, até que em dezembro de 2025 a comunidade aprovou a UNIfication, que ligou a taxa e queimou 100 milhões de UNI. A filosofia é simples: quanto menos decisões o coletivo tiver de tomar, menos profissionais precisa de contratar e menor é a superfície de ataque. A Morpho segue lógica parecida, empurrando as decisões de risco para curadores independentes em mercados isolados, de modo a que uma votação central não possa comprometer o sistema todo.

A minimização não elimina o trabalho; redistribui-o e reduz-lhe o palco. Mas revela uma verdade pouco romântica: parte da resposta ao problema da governação descentralizada é ter menos governação para descentralizar. A assembleia mais barata é a que quase não se reúne.

Ainda é uma DAO? O veredicto

Chega-se então à pergunta incómoda. Se uma organização é gerida por delegados pagos, empresas de risco contratadas e consultoras que negoceiam orçamentos, se demitem e trocam de cliente, quanto resta de «descentralizada» e de «autónoma»? O balanço, feito por quem financiou este experimento, é surpreendentemente franco.

Ali Yahya, sócio da a16z crypto, resumiu o desencanto à Fortune sem rodeios: «We spent the last 10 years rediscovering the hard way that direct democracy is a bad idea» (passámos os últimos dez anos a redescobrir, da pior maneira, que a democracia direta é uma má ideia). Jake Brukhman, fundador da CoinFund, notou no mesmo trabalho que, ao fim de meia dúzia de anos de experiências, a governação «proved to be almost everywhere else but the [block]chain» (revelou-se estar em quase todo o lado menos na cadeia). E Simon Hudson, do projeto Botto, ofereceu o veredicto mais equilibrado: «Are they dead? Certainly not. Have a lot of people been burned by them? Oh yeah» (estão mortas? De certeza que não. Muita gente saiu queimada? Isso sim).

A leitura honesta é esta: as DAO não morreram, cresceram. Tornaram-se algo que se parece bastante com uma empresa, com uma tabela de acionistas distribuída e disputas de recursos humanos invulgarmente públicas. A letra mais frágil da sigla sempre foi o «A» de autónoma; o que 2026 esclareceu é que o «D» de descentralizada também é negociável, e que as pessoas que fazem estas organizações funcionar são, cada vez mais, simplesmente trabalhadores. O drama das DAO passou a ser o drama de qualquer local de trabalho: quem manda, quanto se paga e quem sai porta fora. É menos épico do que a promessa original. Mas é, finalmente, honesto.

Perguntas Frequentes

O que é um delegado numa DAO?

É alguém a quem os detentores de tokens transferem o seu poder de voto para que vote em seu nome. Como a maioria dos detentores não participa, um punhado de delegados concentra o poder efetivo de muitas DAO, e alguns exercem essa função a tempo inteiro, mediante remuneração.

Os delegados de DAO são pagos?

Cada vez mais, sim. A Arbitrum, por exemplo, aprovou um programa que remunera delegados ativos, com pagamentos que podem chegar a 5.000 ARB por mês e um orçamento na ordem de 1,5 milhões de dólares por ano. Empresas de gestão de risco e de governação cobram, além disso, contratos anuais que atingem os milhões.

Porque é que a Aave perdeu os seus prestadores de serviços em 2026?

Um conflito sobre concentração de poder de voto e sobre o orçamento da Aave Labs levou a BGD Labs, a Aave Chan Initiative e a Chaos Labs a saírem entre fevereiro e abril de 2026. Marc Zeller, da ACI, alegou que uma única entidade tinha votos suficientes para aprovar o seu próprio orçamento contra a oposição da comunidade.

Uma DAO pode ser responsabilizada legalmente?

Pode. Num caso de 2023, o da Ooki DAO, um tribunal norte-americano tratou a DAO como uma associação sem personalidade jurídica e uma «pessoa», o que pode expor quem participa na governação. Estruturas legais como a DUNA, do Wyoming, procuram limitar essa responsabilidade. Na União Europeia, o MiCA regula os prestadores de serviços de criptoativos, não o desenho de governação de um protocolo.

As DAO estão a morrer?

Não exatamente; estão a profissionalizar-se. O modelo da assembleia de voluntários deu lugar a uma força de trabalho paga que gere tesouros de milhões, o que atenua o problema da apatia mas levanta a questão de quanto resta de descentralizado e autónomo nestas organizações.

Marcus Okafor cobre cultura cripto e long-reads na HOGE Wire.

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