Cripto e eleições: o calendário que decide o resto de 2026
Três votos entre setembro e novembro vão testar a cripto: a semana regulatória de Washington, as urnas no Brasil e as midterms nos EUA. Um guia para ler cada catalisador.
O mercado de cripto entra no trimestre mais político do ano. Depois de uma subida de mais de 20% no último mês, o Bitcoin negoceia acima dos 66.000 euros, um movimento que teve mais que ver com fluxos de tesouraria e com a expectativa em torno das taxas de juro do que com qualquer boletim de voto. Isso, porém, está prestes a mudar. Entre o final de agosto e o início de novembro, três acontecimentos políticos vão passar pela mesa de negociação, e cada um deles tem uma forma diferente de chegar (ou de não chegar) ao preço.
Este texto não é sobre ideologia. É um guia de leitura: o que está marcado no calendário, o que os números dizem sobre cada desfecho e onde é que a ligação entre a urna e o livro de ordens é real, e onde é apenas ruído. Já mostrámos como a corrida das tesourarias reprecificou os alvos de 2026; agora o foco muda para o outro motor do último trimestre, a política.
Três votos, um trimestre: porque é que o outono decide 2026
A tese é simples. Uma eleição raramente move a cripto na noite em que se contam os votos; move-a através das pessoas que instala e das leis que acaba por permitir. A vitória de 2024 nos Estados Unidos, por exemplo, ainda está a ser digerida pelo mercado, agora sob a forma de uma proposta de lei de estrutura de mercado que só chega ao plenário do Senado em setembro. O voto foi há quase dois anos; o efeito continua a escorrer.
Esta distinção entre o voto e as suas consequências é o fio condutor de todo o texto. Uma eleição é um instante; a política que dela resulta é um processo que se estende por meses ou anos. O investidor que confunde os dois compra a emoção da noite e esquece que o preço, a médio prazo, responde à execução, e a execução é lenta, contestada e muitas vezes reversível.
Olhando para o resto de 2026, há três relógios a contar ao mesmo tempo, e convém não os confundir. O primeiro é a semana de setembro em Washington, o dividendo atrasado da eleição de 2024, em que se concentram uma decisão do Banco Central Europeu, um dado de inflação, uma votação-chave sobre cripto e a reunião da Reserva Federal. O segundo é a ida às urnas no Brasil, a 4 de outubro, a maior eleição do mundo lusófono este ano, e um caso raro em que o Estado fechou deliberadamente quase todos os canais por onde a cripto costuma entrar. O terceiro são as midterms norte-americanas, a 3 de novembro, onde a indústria de ativos digitais se tornou, pela primeira vez, o maior financiador empresarial de uma campanha.
Os três não pesam da mesma maneira, e um dos objetivos deste guia é distinguir o sinal do barulho. Comecemos pelo mecanismo.
Como uma eleição chega ao preço (e quando fica pelo caminho)
Entre uma votação e o gráfico de velas existe uma cadeia de transmissão. São, na prática, cinco canais, e cada catalisador do trimestre ativa uns e deixa outros adormecidos.
O primeiro canal é o regulatório: uma maioria muda quem escreve as regras e que regras passam. O segundo é o das nomeações: quem ganha nomeia os presidentes dos reguladores e do banco central, e uma nomeação muda-se mais depressa do que uma lei. O terceiro é o macro: bancos centrais e taxas de juro determinam o custo do dinheiro, e a cripto é um ativo de risco sensível à liquidez. O quarto é o dinheiro de campanha e o lobbying, que compra influência antes do voto. O quinto são os próprios mercados de previsão, que transformam a probabilidade de um desfecho num preço observável em tempo real.
| Canal | Como funciona | Catalisador do trimestre | O que observar |
|---|---|---|---|
| Regulatório | Uma maioria decide que leis avançam | CLARITY Act (15 set), midterms (3 nov) | Contagem de votos no Senado |
| Nomeações | O executivo nomeia reguladores e banco central | Fed de Warsh, SEC e CFTC | Discursos e agendas dos nomeados |
| Macro e monetário | As taxas fixam o custo do risco | BCE (10 set), FOMC (16 set) | Dot plot, par EUR/USD |
| Dinheiro e lobbying | Financia campanhas antes do voto | Fairshake nas midterms | Registos de despesa (FEC) |
| Mercados de previsão | Convertem probabilidade em preço | Polymarket e Kalshi (EUA) | Odds, volume e pontos cegos |
Repare-se numa assimetria importante: dois dos catalisadores mais próximos (a semana de setembro e as midterms) atuam quase todos pelos canais norte-americanos, enquanto o terceiro, o Brasil, tem quase todos estes canais fechados por decisão das autoridades. Voltaremos a esse ponto, porque é ele que faz do caso brasileiro o mais instrutivo dos três.
A semana de setembro: o calendário concentra-se
Se houvesse uma única semana para marcar no calendário, seria a de 10 a 16 de setembro. Quatro acontecimentos que normalmente estariam espalhados por um mês inteiro caem em poucos dias, e todos tocam, direta ou indiretamente, no preço dos ativos digitais.
Abre a 10 de setembro com a decisão de taxas do BCE, que define o custo do euro. Segue-se, a 11, o índice de preços no consumidor dos Estados Unidos referente a agosto, a leitura de inflação que condiciona a Reserva Federal dois dias depois. A 15, o Senado norte-americano realiza a primeira votação processual do CLARITY Act, às 14:15 de Washington. E a 16, o Comité de Mercado Aberto da Reserva Federal (FOMC) fecha a reunião com a decisão de taxas e o dot plot, o mapa das projeções dos seus membros.
| Data | Acontecimento | Porque importa para a cripto | Mercado a observar |
|---|---|---|---|
| 10 set | Decisão do BCE | Define o custo do euro e o par EUR/USD | Taxa de depósito, tom da conferência |
| 11 set | Inflação dos EUA (agosto) | Condiciona a Fed dois dias depois | Rendimentos a 2 anos, dólar |
| 15 set | Cloture do CLARITY Act | Primeiro teste real à lei de estrutura de mercado | Contagem de votos (limiar de 60) |
| 16 set | FOMC e dot plot | Trajetória de taxas para 2026 e 2027 | Bitcoin, ações, ouro |
Nenhuma destas datas é, por si só, uma eleição. Mas todas são consequência de eleições anteriores, e é por isso que uma semana de setembro consegue mexer mais com a cripto do que muitos dias de campanha. É o dividendo atrasado do voto de 2024 a chegar, finalmente, à mesa.
CLARITY Act: a aritmética dos 60 votos
O CLARITY Act (formalmente H.R. 3633) é a proposta que quer, finalmente, dividir a competência sobre os ativos digitais entre a SEC e a CFTC, dando à maior parte das criptomoedas o estatuto de mercadoria em vez de valor mobiliário. Foi aprovado na Câmara dos Representantes em 2025, por 294 votos contra 134, mas está preso no Senado desde então.
Vale a pena perceber o que muda na prática. Hoje, a maior fonte de incerteza para plataformas e emitentes é não saberem se um token é um valor mobiliário (competência da SEC) ou uma mercadoria (competência da CFTC). O CLARITY tenta traçar essa fronteira, classificando a maioria dos ativos suficientemente descentralizados como mercadorias digitais e entregando a supervisão do mercado à vista à CFTC. Para o investidor europeu, é o equivalente americano ao trabalho que a MiCA já fez na União Europeia: dar um mapa claro de quem regula o quê.
A 15 de setembro, o Senado vota o chamado cloture sobre a moção para avançar. Não é a votação final da lei; é apenas o teste que decide se o debate pode sequer começar. E exige 60 votos, o que significa que a maioria republicana (53 lugares) precisa de convencer cerca de sete democratas. Os pontos de bloqueio são conhecidos: uma cláusula de ética que impediria titulares de cargos, incluindo a família presidencial, de lucrar com cripto; as regras de combate ao financiamento ilícito; e a forma como o texto da comissão de agricultura do Senado é integrado.
Do lado crítico, a senadora Elizabeth Warren, a voz democrata mais dura sobre o tema, resumiu a sua objeção na comissão bancária, ao descrever a proposta como «legislação escrita pela indústria cripto para proteger e promover a indústria cripto», que «não é boa legislação cripto». Do lado que empurra a lei, o líder da maioria, John Thune, garantiu que a votação seria a primeira coisa no regresso do recesso: «Os democratas insistem em não votar o Clarity. Trabalhei com os autores da proposta; a senadora Lummis foi excelente, e vamos pô-lo em fila logo quando voltarmos».
O mercado é cético. No Polymarket, a probabilidade de o CLARITY ser promulgado em 2026 anda na casa dos 20%, muito abaixo do pico de cerca de 82% na primavera, ainda que tenha recuperado ligeiramente depois de a data de 15 de setembro ter sido confirmada. A leitura mais útil para o investidor é esta: mesmo um cloture bem-sucedido a 15 de setembro não é a lei; é apenas a autorização para começar a discuti-la. Entre o voto e a promulgação há um fosso que o mercado tende a subestimar num primeiro momento e a castigar depois.
Jackson Hole e a Fed de Warsh: o canal macro
Antes mesmo da semana de setembro, há um discurso que costuma mexer com tudo. A 28 de agosto, às 10:00 da manhã de Washington, Kevin Warsh sobe ao palco de Jackson Hole para o seu primeiro discurso de abertura como presidente da Reserva Federal, sob o tema deste ano, «Inovação financeira: implicações para pagamentos e política». O assunto não podia estar mais próximo dos debates sobre stablecoins, tokenização e sistemas de pagamento.
Warsh é, ele próprio, um produto de uma eleição: foi nomeado pela atual administração e sucedeu a Jerome Powell em maio de 2026. Tem fama de falcão, o que importa porque a subida da cripto neste verão assentou, em boa parte, na expectativa de dinheiro mais barato. Um tom mais duro do que o esperado pode desfazer semanas de otimismo num par de horas.
Os mercados sabem que estas intervenções pesam. O Goldman Sachs avisou que Jackson Hole historicamente amplifica a volatilidade cambial: em 2022, um tom de falcão fez o S&P 500 cair mais de 3% num único dia, enquanto os sinais mais suaves de 2024 e 2025 levantaram as ações e pressionaram o dólar. O desfecho macro completa-se a 16 de setembro, com o FOMC a divulgar a decisão de taxas e o dot plot. Para a cripto, este é o canal mais poderoso de todos e o menos ligado a qualquer boletim de voto recente: quando o macro fala alto, a política eleitoral fica em segundo plano.
As nomeações: quando um cargo decide mais do que uma lei
Há um canal que os investidores subestimam por ser menos vistoso do que uma votação no Senado: as nomeações. Uma eleição não muda apenas que leis passam; muda quem dirige a SEC, a CFTC, a Reserva Federal e o Tesouro. E um presidente de regulador substitui-se muito mais depressa do que uma lei se aprova, sem precisar de 60 votos, o que torna este canal ao mesmo tempo mais rápido e mais reversível.
A prova está a acontecer em direto. Enquanto o CLARITY Act se arrasta no Senado, os reguladores nomeados pela atual administração já reescreveram boa parte das regras por via administrativa. A SEC de Paul Atkins e a CFTC de Michael Selig lançaram o Project Crypto como iniciativa conjunta, harmonizaram procedimentos e a SEC avançou com a sua primeira grande proposta de regras, a chamada Regulation Crypto Assets, um porto seguro que permitiria a certos tokens sair do estatuto de valor mobiliário.
O ponto ficou claro quando o presidente da CFTC instruiu os seus serviços a criarem regras para a cripto caso o CLARITY falhe. A mensagem para o mercado é direta: mesmo que a lei encalhe em setembro, a política não pára, porque o canal das nomeações continua aberto. É também por isto que um Congresso dividido em novembro não congela, por si só, a agenda cripto: transfere apenas o protagonismo do poder legislativo para o executivo. E é por isto que o discurso de um presidente da Fed nomeado após uma eleição pode pesar mais no preço do que a própria eleição.
Brasil, 4 de outubro: a eleição onde a cripto ficou de fora
Terminada a semana de Washington, o foco do mundo lusófono muda para o Brasil. A 4 de outubro realiza-se a primeira volta das eleições brasileiras, com eventual segunda volta a 25 de outubro. De um lado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores, candidato a um quarto mandato aos 80 anos. Do outro, o senador Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal, oficializado candidato a 25 de julho depois de o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, ter sido condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe e tornado inelegível.
Para quem investe em cripto, o mais interessante da eleição brasileira não é quem ganha, é o facto de o Estado ter fechado, um a um, quase todos os canais por onde um voto costuma chegar ao preço.
- As doações. O Ministério Público reafirmou que partidos e candidatos não podem aceitar doações em criptomoedas, aplicando uma resolução do Tribunal Superior Eleitoral de 2019: as doações exigem identificação clara do doador, algo difícil de garantir com transações pseudónimas. Pix e transferências bancárias, sim; cripto, não.
- Os mercados de previsão. Em abril de 2026, as autoridades restringiram as plataformas de previsão de oferecerem contratos ligados a eventos políticos, eleitorais, sociais, culturais e desportivos, uma medida que atingiu diretamente o Polymarket e o Kalshi. O canal que nos EUA funciona como uma sondagem em tempo real está, no Brasil, legalmente vedado.
- Os pagamentos. Em maio de 2026, o banco central brasileiro proibiu a liquidação em stablecoins e cripto em pagamentos transfronteiriços, apertando outro canal por onde o dinheiro digital poderia influenciar a economia real em torno do voto.
O Brasil funciona, assim, como uma espécie de experiência natural. Numa altura em que as remessas em stablecoin desafiam os canais tradicionais noutras geografias, uma das maiores democracias do planeta decidiu isolar deliberadamente a sua eleição do ecossistema cripto. A lição para o leitor é sóbria: nem toda a eleição chega ao livro de ordens; alguns governos trabalham ativamente para que não chegue.
Isto não significa que a eleição brasileira seja irrelevante para quem investe a partir de Portugal. O Brasil é o maior mercado cripto da América Latina e um dos mais ativos do mundo lusófono, e uma mudança de governo pode reabrir (ou fechar ainda mais) o debate sobre a tributação, o Drex e a postura do banco central perante os ativos digitais. Simplesmente, o efeito chegará pela via lenta da regulação e do sentimento, não pela via rápida da noite eleitoral, e tenderá a diluir-se no beta global do Bitcoin em vez de gerar um movimento próprio.
O ponto cego dos mercados de previsão
O caso brasileiro leva-nos a um ponto que merece um alerta próprio. Nos Estados Unidos, plataformas como o Polymarket e o Kalshi tornaram-se uma espécie de fita de cotações eleitoral: transformam a probabilidade de um desfecho num preço que se atualiza ao segundo. É uma ferramenta poderosa, mas tem limites que convém conhecer antes de a usar como bússola.
Comecemos pelo que têm de bom. Em 2024, estes mercados anteciparam o resultado da noite eleitoral americana antes de muitas televisões, e essa memória deu-lhes uma aura de infalibilidade. A realidade é mais matizada: são bons agregadores de informação quando há liquidez profunda e muitos participantes, mas ficam vulneráveis à manipulação e à concentração de carteiras quando o volume é fino. Um preço de 90% não é uma certeza; é uma aposta com a qual muita gente concorda, o que não é a mesma coisa.
O primeiro limite é geográfico. A liquidez concentra-se em eventos anglófonos e de grande dimensão; fora disso, os preços tornam-se pouco fiáveis, ou nem sequer existem. O segundo é regulatório. No Brasil, como vimos, estes contratos foram restringidos em abril; na Europa, a ESMA já classificou muitos contratos de evento como instrumentos próximos de derivados, sujeitos às regras da MiFID II, o que limita a sua comercialização a investidores de retalho. O terceiro é de fundo: estes mercados são bons a prever o voto, não a prever a lei que vem depois.
Há ainda um sinal público paralelo que vale a pena acompanhar: as apostas e o posicionamento visíveis on-chain. Como explicámos a propósito dos alertas de baleias na Hyperliquid, quando cada posição fica registada num livro público, o mercado passa a poder ler em tempo real onde está o dinheiro grande, incluindo em torno de catalisadores políticos. A regra prática mantém-se: use os mercados de previsão para calibrar probabilidades em eventos norte-americanos líquidos, desconfie deles fora desse perímetro e nunca confunda a probabilidade de um voto com a certeza de uma política.
3 de novembro: as midterms e o maior financiador da América
O último grande relógio do trimestre são as eleições intercalares dos Estados Unidos, a 3 de novembro, em que se renova toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. É aqui que o canal do dinheiro de campanha aparece em toda a sua dimensão.
O super PAC Fairshake entrou neste ciclo com um cofre de cerca de 193 milhões de dólares (perto de 166 milhões de euros), financiado sobretudo pela Coinbase, pela Ripple e pela sociedade de capital de risco Andreessen Horowitz. No conjunto, as empresas de cripto já injetaram cerca de 189 milhões de dólares nas midterms de 2026, o que faz do setor o maior doador empresarial da política norte-americana, ultrapassando todo o ciclo de 2024. Para dar escala: o recorde anterior de gasto empresarial numas intercalares tinha sido de cerca de 18 milhões, da associação de agentes imobiliários em 2022.
E o que dizem os números sobre o desfecho? No Polymarket, os democratas surgem muito favoritos para a Câmara (à volta de 88%) e num equilíbrio de moeda ao ar no Senado (perto de 51%). O cenário mais provável, segundo os preços, é um Congresso dividido, o que costuma significar impasse legislativo. Por outras palavras, o dinheiro recorde da indústria é, acima de tudo, uma cobertura de risco, não uma garantia. Se o Congresso ficar dividido, a lei de estrutura de mercado que não passar em setembro arrisca-se a escorregar para 2027, já com uma composição diferente do Senado.
A dimensão do que está em jogo ajuda a explicar o dinheiro. Renovam-se os 435 lugares da Câmara e cerca de um terço do Senado, onde os republicanos defendem uma maioria estreita de 53 para 47. A história pesa contra o partido que ocupa a Casa Branca, que quase sempre perde terreno numas intercalares, e é essa corrente contrária que a indústria tenta compensar a golpes de super PAC. Comprar influência, porém, não é o mesmo que comprar um resultado.
Três cenários para novembro
Vale a pena arrumar os desfechos possíveis num quadro simples, ligando cada cenário à sua consequência regulatória e à leitura de mercado que dele decorre.
| Cenário | Leitura das odds | Implicação regulatória | Leitura para o mercado |
|---|---|---|---|
| Republicanos mantêm as duas câmaras | Menos provável | Via aberta para a estrutura de mercado | Otimista a curto prazo; risco de vender o facto |
| Congresso dividido | Cenário central | Impasse; leis escorregam para 2027 | Neutro; foco no macro e nas nomeações |
| Onda azul democrata | Possível no Senado | Escrutínio mais duro, foco no consumidor | Cauteloso sobre leis pró-indústria |
Note-se um paradoxo: o desfecho aparentemente mais favorável à indústria (os republicanos a manterem tudo) é também o que já está mais descontado. Quando o mercado espera boas notícias, a própria confirmação pode desencadear realização de lucros, o velho «comprar o rumor, vender o facto». Um Congresso dividido, à partida menos entusiasmante, pode até revelar-se menos negativo do que parece, porque devolve o protagonismo às nomeações e à via regulatória, que não dependem de 60 votos no Senado.
Portugal e a UE: o outro calendário
Nada disto acontece num país lusófono europeu sem um enquadramento próprio. Portugal não tem eleições nacionais neste trimestre, mas o calendário da União Europeia e do Banco Central Europeu molda o lado do euro de qualquer posição em cripto.
Desde dezembro de 2025, a Lei n.º 69/2025 transpõe o regulamento MiCA para a ordem jurídica portuguesa. A supervisão fica repartida: o Banco de Portugal trata da autorização e da supervisão prudencial dos prestadores de serviços de criptoativos, e a CMVM da supervisão de conduta e das ofertas públicas. O período transitório da MiCA terminou a 1 de julho de 2026, sem prorrogações, pelo que operar sem autorização deixou de ser uma zona cinzenta e passou a ser uma infração.
O efeito prático já se sente. Como a Tether optou por não cumprir os requisitos de reservas da MiCA, o USDT foi retirado das plataformas reguladas na União Europeia, e desde 1 de julho de 2026 nenhuma bolsa licenciada no Espaço Económico Europeu oferece pares em USDT a clientes de retalho. O investidor português que use uma plataforma autorizada encontra hoje sobretudo o USDC e o euro-stablecoin EURC, uma consequência direta de uma regra europeia que, por sua vez, nasceu de decisões políticas em Bruxelas.
Do lado fiscal, mantém-se a regra que faz de Portugal um caso particular: as mais-valias em criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a 28% (categoria G do IRS), enquanto as detidas há mais de um ano podem ficar isentas, salvo se classificadas como valores mobiliários. Para o investidor português, esta linha dos 365 dias é, muitas vezes, mais decisiva do que qualquer votação em Washington.
Ao nível europeu, o grande projeto político-monetário é o euro digital. O Parlamento Europeu e a comissão dos assuntos económicos avançaram com o dossiê ao longo de 2026, e o BCE prevê um piloto de doze meses a partir do segundo semestre de 2027, com uma possível primeira emissão em 2029, caso o regulamento seja adotado ainda em 2026. E há o canal mais imediato de todos: as taxas. Em junho, o BCE subiu os juros pela primeira vez em três anos, levando a taxa de depósito para 2,25%, e a decisão de 10 de setembro será lida de perto, porque é o par EUR/USD que traduz a política monetária americana para o bolso de um investidor europeu.
Ler a volatilidade à volta dos catalisadores
Sabendo as datas, como é que um investidor as usa sem se queimar? A resposta não está em adivinhar o desfecho, mas em ler o posicionamento à volta dele.
Antes de um evento binário, como o cloture de 15 de setembro ou a noite eleitoral de 3 de novembro, a volatilidade implícita nas opções tende a subir, e é aí que se lê o nervosismo do mercado. Já explicámos como ler a superfície de volatilidade para perceber quanto movimento está a ser descontado antecipadamente. O outro lado da moeda é o risco de liquidação: quando as posições longas se acumulam à espera de boas notícias, um desfecho contrário pode desencadear uma cascata de liquidações que amplifica o movimento muito para lá do que a notícia, por si só, justificaria.
Há um padrão recorrente que sintetiza tudo isto: o mercado compra o voto e vende a lei. A reação ao resultado é rápida e emocional; o cumprimento legislativo é lento e quase sempre dececionante face à expectativa inicial. Quem entende esta diferença de relógios evita o erro clássico de perseguir a primeira vela verde depois de um resultado, apenas para ver o entusiasmo esvaziar-se nas semanas seguintes, quando a lei prometida se atola no processo.
Onde a tese falha
Convém terminar com uma dose de humildade, porque a ligação entre política e preço é mais frágil do que muitas narrativas sugerem.
Primeiro, o macro costuma ganhar à política. A subida deste verão teve mais que ver com fluxos e taxas do que com qualquer eleição, e um discurso de Jackson Hole pode apagar semanas de expectativa regulatória num par de horas. Segundo, é fácil confundir correlação com causalidade: nem todo o movimento que coincide com uma data política é causado por ela. E terceiro, mesmo quando um voto entrega um mandato claro, a execução tropeça. A Coreia do Sul elegeu um presidente com uma agenda cripto explícita e a lei da stablecoin em won continua encalhada; El Salvador viu-se obrigado a recuar na sua Lei Bitcoin sob pressão do Fundo Monetário Internacional. O mandato existe; o efeito no preço demora, ou nunca chega.
Convém ainda lembrar que o calendário não acaba em novembro. No horizonte de 2027 estão as presidenciais francesas, o fim do mandato de Christine Lagarde à frente do BCE e novas presidenciais na Argentina, três eventos com potencial para mexer no euro e no apetite global pelo risco. Quem hoje sobrevaloriza este trimestre corre o risco simétrico de subvalorizar o que vem a seguir; o erro de calendário funciona nos dois sentidos.
A leitura mais honesta do trimestre é esta: marque as datas, conheça os canais, respeite os pontos cegos e não confunda um calendário cheio com um sinal de negociação. As eleições movem a cripto, sim, mas quase nunca no dia, no sentido, ou pela razão que a manchete sugere.
Perguntas frequentes
Quando é a votação do CLARITY Act no Senado dos Estados Unidos?
O primeiro teste está marcado para 15 de setembro de 2026, às 14:15 de Washington. É uma votação de cloture sobre a moção para avançar, que exige 60 votos e apenas autoriza o início do debate; não é a promulgação da lei. O CLARITY já tinha sido aprovado na Câmara dos Representantes em 2025, por 294 votos contra 134.
As eleições no Brasil vão mexer no preço do Bitcoin?
Provavelmente pouco, e de forma indireta. O Estado brasileiro fechou os canais habituais: as doações de campanha em cripto estão proibidas, os mercados de previsão foram restringidos em abril de 2026 e o banco central proibiu a liquidação em stablecoins em pagamentos transfronteiriços. Sem esses canais, o efeito direto da urna sobre o preço tende a ser reduzido, ao contrário do que sucede nos Estados Unidos.
O que é o Fairshake e quanto gastou nas eleições de 2026?
O Fairshake é o principal super PAC da indústria cripto nos Estados Unidos. Entrou no ciclo de 2026 com um cofre de cerca de 193 milhões de dólares, financiado sobretudo pela Coinbase, pela Ripple e pela Andreessen Horowitz. No total, o setor injetou cerca de 189 milhões de dólares nas midterms, tornando-se o maior doador empresarial da política norte-americana.
Como são tributados os criptoativos em Portugal?
As mais-valias obtidas com criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a 28% na categoria G do IRS. As detidas há mais de um ano podem ficar isentas, salvo se forem classificadas como valores mobiliários. A supervisão do setor cabe ao Banco de Portugal e à CMVM, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, que transpôs o regulamento MiCA.
Os mercados de previsão são fiáveis para antecipar eleições?
São úteis para eventos norte-americanos de grande liquidez, como as midterms, onde funcionam como uma sondagem em tempo real. Mas têm pontos cegos: a liquidez desaparece fora dos mercados anglófonos, estão restringidos no Brasil e sujeitos às regras da MiFID II na União Europeia. E são melhores a prever o voto do que a lei que vem a seguir.
Tomás Almeida cobre política, regulação e mercados de criptoativos na HOGE Wire.