Taxas L2 no piso: as remessas em stablecoin vencem até 2028?
As taxas das L2 caíram para frações de cêntimo e o próximo corte escorregou para o Q4 de 2026. Para as remessas, porém, o problema nunca foi a taxa on-chain: é o último quilómetro.
Há uma leitura fácil dos últimos dezoito meses de Ethereum, e é quase toda verdadeira. Depois da Dencun (março de 2024) e da Fusaka (dezembro de 2025), as taxas das redes de camada 2 (L2) desabaram para frações de cêntimo. Enviar um token na Base custa hoje menos do que o troco de um café. A conclusão tentadora escreve-se sozinha: se mandar valor on-chain é praticamente de graça, então a cripto acaba de ganhar o mercado das remessas, aquele negócio de biliões que ainda cobra 6% para levar 200 euros da Amadora a Fortaleza ou da Praia a Mindelo.
A leitura é sedutora e está incompleta. A taxa on-chain nunca foi o que tornava uma remessa cara; foi sempre a parte barata. O que este texto tenta fazer, para o cluster de previsões, é separar duas coisas que costumam andar coladas: a compressão das taxas L2 (real, medível, quase esgotada) e a ideia de que essa compressão resolve as remessas (parcial, dependente de tudo o que acontece fora da blockchain). E há um facto novo que muda o timing: a próxima grande descida de taxas, a que viria com a Glamsterdam, escorregou para o quarto trimestre de 2026. Mesmo que tivesse chegado a horas, quase não mexia na conta que interessa a quem manda dinheiro para casa.
Vamos por partes: onde estão as taxas hoje, porque não descem muito mais, quanto custa mesmo uma remessa, onde a stablecoin ganha, onde não ganha, e o que vigiar até 2028.
Onde estão as taxas L2 hoje: frações de cêntimo
Comecemos pelos factos que dão razão aos otimistas. A taxa média das três maiores L2 (Arbitrum, Base e Optimism) caiu 99,16% entre o primeiro trimestre de 2024 e o primeiro trimestre de 2026, de cerca de 0,18 dólares para 0,0015 dólares por transação, segundo dados agregados pela Token Terminal. Ao câmbio atual (um dólar vale perto de 0,86 euros), isso é uma queda de cerca de 15 cêntimos para pouco mais de um décimo de cêntimo por transação.
Na Base, a L2 da Coinbase, uma transferência simples de stablecoin custa hoje frações de cêntimo de euro. Um trabalho académico recente de Ambrosia e Mizrach, publicado no arXiv, projeta que a taxa mediana das L2 fique abaixo da da Solana já em outubro de 2026, depois de uma queda superior a 95% desde janeiro de 2024. Por outras palavras: no que toca ao custo de pôr um byte on-chain, a guerra está praticamente ganha.
Isto não caiu do céu; caiu dos blobs. A Dencun introduziu o EIP-4844 e um espaço de dados dedicado (os blobs) que cortou o custo de dados das L2 em mais de 90%. A Fusaka, ativada em dezembro de 2025, trouxe a amostragem de disponibilidade de dados (PeerDAS) e multiplicou a capacidade de blobs. O resultado é o que qualquer utilizador vê na carteira: transações que em 2021 custavam dezenas de euros custam agora menos do que o IVA de um rebuçado.
| Rede (L2) | Custo típico por transação | Aproximação em euros |
|---|---|---|
| Base | frações de cêntimo | < 0,02 euros |
| Optimism | ~0,03 dólares | ~0,026 euros |
| Arbitrum One | ~0,04 dólares | ~0,034 euros |
| zkSync Era | ~0,05 dólares | ~0,043 euros |
| Média das três maiores (Q1 2026) | 0,0015 dólares | ~0,0013 euros |
O piso técnico: a taxa on-chain quase não desce mais
Aqui está a parte que os entusiastas costumam saltar. As taxas L2 não vão continuar a cair para o infinito, por uma questão de desenho. A Fusaka trouxe o EIP-7918, que fixa um piso à taxa-base dos blobs, ancorado ao custo de execução da mainnet: a taxa de um blob deixou de poder cair até ao mínimo absoluto onde passava meses colada (0,000000001 Gwei). O analista conhecido como Kydo (0xkydo) resumiu a mudança ao notar que a taxa-base dos blobs subiu «15.000.000 de vezes» desde a Fusaka. Não porque os blobs ficaram caros, mas porque deixaram de ser artificialmente grátis.
A leitura para quem faz previsões é direta: a compressão pela via dos dados (mais blobs, blobs mais baratos) está essencialmente feita. O próximo corte teria de vir da execução, e essa é a promessa da Glamsterdam.
Só que a Glamsterdam escorregou. O testnet público Platåberget arrancou a 17 de agosto e ativou a Glamsterdam a 20 de agosto; as bifurcações em Sepolia e Hoodi ficaram para setembro e o mainnet deslizou do primeiro semestre para o quarto trimestre de 2026, sem data fechada até uma reunião de core devs marcar um bloco de ativação. A peça central, o EIP-8037, introduz uma dimensão de estado no gás: transferências para contas novas passam a custar mais, e a própria Fundação avisou que o velho pressuposto dos 21.000 de gás para uma transferência deixa de valer. Ou seja, mesmo quando chegar, a Glamsterdam não é um corte uniforme: é uma reescrita de quem paga o quê, algo que já analisámos com detalhe ao mapear o planalto das taxas L2.
Para as remessas, isto tem uma consequência pouco discutida. A parte do custo que a Ethereum controla, a taxa on-chain, já está perto do fundo e vai lá ficar durante meses. Se a compressão que ainda falta não resolve a conta da remessa, então a compressão nunca foi o problema.
A conta a bater: quanto custa hoje enviar dinheiro
Vamos à conta que interessa a quem manda dinheiro para casa. Segundo o Remittance Prices Worldwide do Banco Mundial, enviar dinheiro para o estrangeiro custou em média 6,36% do montante no terceiro trimestre de 2025, uma descida ligeira face aos 6,49% do início do ano. Num envio de 200 euros, são cerca de 12,7 euros que evaporam entre comissões e câmbio. O canal mais caro continua a ser o banco, com um custo médio de 14,99%; os mais baratos são os cartões (cerca de 4,39% na origem) e os serviços digitais medidos pelo índice SmaRT, em 3,29%.
O objetivo político está definido há anos: o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 10.c das Nações Unidas fixa a meta de reduzir o custo das remessas para menos de 3% até 2030 e eliminar corredores acima de 5%. Estamos a mais do dobro da meta. É este o buraco que a cripto diz que vem tapar.
| Canal | Custo médio | Sobre 200 euros |
|---|---|---|
| Banco | 14,99% | ~30,00 euros |
| Média global (todos os canais) | 6,36% | ~12,72 euros |
| Cartão (na origem) | 4,39% | ~8,78 euros |
| Serviços digitais (índice SmaRT) | 3,29% | ~6,58 euros |
| Meta ODS 10.c (2030) | < 3% | < 6,00 euros |
| Só a taxa de rede numa L2 | < 0,5% | cêntimos |
O corredor português: 4,3 mil milhões que entram, milhões que saem
Para o leitor português, isto não é abstrato. Portugal é, ao mesmo tempo, um grande recetor e um ponto de partida de remessas. Em 2024, os emigrantes portugueses enviaram para o país um valor recorde de 4,3 mil milhões de euros (4.300,93 milhões, mais 4,4% do que em 2023), segundo o Banco de Portugal. A Suíça é o maior emissor; seguem-se França, Reino Unido e outros destinos da diáspora.
No sentido inverso, os imigrantes em Portugal mandam dinheiro para os países de origem. Só os trabalhadores brasileiros enviaram 413,8 milhões de euros em 2024, mais 3,7% do que no ano anterior e cerca de metade de tudo o que os trabalhadores estrangeiros remeteram a partir de Portugal. Junte-se a isto o mundo lusófono, onde as remessas são coluna vertebral de economias inteiras: em Cabo Verde valem cerca de 12,3% do PIB. Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e São Tomé completam um mapa de corredores em euros e fora do euro que é, do ponto de vista de custo, altamente desigual.
É exatamente aqui que a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser prática. Para uma família que manda 200 euros por mês da Amadora para a Praia, pagar 6% ou pagar 1% é a diferença entre um almoço e nada. Se as stablecoins numa L2 barata cumprem a promessa, o ganho social é enorme. A questão é se cumprem.
A promessa: o que a stablecoin faz bem
Há coisas que as stablecoins fazem genuinamente melhor. A perna on-chain, mover o valor de uma carteira para outra, é quase instantânea, funciona 24 horas por dia, sete dias por semana, não conhece feriados bancários nem fusos horários, e custa frações de cêntimo numa L2. Falamos de um mercado de centenas de milhares de milhões de dólares em stablecoins, dominado pelo USDT e pelo USDC. Os pagamentos empresariais transfronteiriços em stablecoin cresceram de forma explosiva desde 2023, e mesmo incumbentes como a MoneyGram (que passou a permitir receber fundos diretamente em USDC) e a Western Union (que anunciou a sua própria stablecoin em 2026) estão a migrar para estes carris.
Jeremy Allaire, CEO da Circle, tem descrito repetidamente as stablecoins como a infraestrutura natural para movimentar dinheiro além-fronteiras, apontando a «velocidade, eficiência de capital e eficiência de custo» que, na sua leitura, o correspondente bancário tradicional não iguala. Na Europa, a peça que faltava, um euro digital regulado, já existe: o EURC da Circle é um token de moeda eletrónica conforme com a MiCA (a Circle obteve licença de instituição de moeda eletrónica em França em 2024) e está disponível na Base. É o instrumento que faltava para tratar a stablecoin como aquilo que já discutimos noutro contexto, um ativo de liquidação com uma taxa de juro implícita, e não como um brinquedo especulativo.
A promessa, portanto, não é fantasia. Para quem já vive dentro do sistema cripto, mandar 200 euros em EURC da Base para outra carteira é quase grátis e quase instantâneo. O problema aparece no momento em que alguém, do outro lado, precisa de pagar a renda em escudos, reais ou meticais.
A armadilha: o último quilómetro
Aqui entra o dado mais importante deste artigo, e o que separa esta previsão das anteriores. Em julho de 2026, o Banco de Itália (Banca d’Italia) publicou um estudo empírico que testou remessas em stablecoin em condições reais: transferências de 200 USDC através de dez corredores verdadeiros. O resultado foi sóbrio. O custo total variou entre 0,30% e quase 9% do montante enviado, e as stablecoins não apresentaram vantagem de custo sistemática face aos operadores de transferência convencionais quando se conta toda a cadeia de pagamento.
A razão é o que a indústria chama último quilómetro. A poupança de manual só aparece quando emissor e recetor ficam ambos dentro do sistema cripto. Mas a maioria dos recetores precisa de moeda local para viver: pagar a renda, comprar comida, acertar contas. Converter cripto para moeda local (o off-ramp, o levantamento) ainda passa muitas vezes por serviços terceiros que cobram 3% a 5%, o que anula boa parte da poupança. E a velocidade, ao contrário do mito, não é ditada pela blockchain: onde existe um sistema de pagamentos instantâneos doméstico, o dinheiro chega em menos de 20 minutos; onde é preciso uma transferência bancária clássica, arrasta-se por um ou dois dias úteis. Quem manda o ritmo é a infraestrutura de pagamentos de cada país, não o rollup.
Repare-se no que isto significa. As duas grandes fricções de uma remessa, o câmbio (o spread cambial) e o levantamento para moeda local, vivem fora da blockchain. A taxa on-chain, aquela que a Ethereum passou dois anos a comprimir para frações de cêntimo, é a fatia mais pequena do bolo. Torná-la ainda mais pequena com a Glamsterdam é otimizar aquilo que já estava resolvido.
Por que taxas L2 mais baixas quase não movem a agulha
Vale a pena decompor a fatura de uma remessa transfronteiriça típica em stablecoin, para ver onde está mesmo o dinheiro.
| Componente | Onde ocorre | Custo típico |
|---|---|---|
| On-ramp (comprar a stablecoin) | Fora da blockchain | 0% a 1,5% |
| Taxa de rede (perna on-chain) | On-chain (L2) | < 0,01 euros (frações de cêntimo) |
| Spread cambial (euro para moeda local) | Fora da blockchain | 0,5% a 3% |
| Off-ramp (levantar em moeda local) | Fora da blockchain | 3% a 5% |
| Conformidade, KYC e limites | Fora da blockchain | Variável (tempo e recusas) |
| Total observado (estudo Banca d’Italia) | Cadeia completa | 0,30% a ~9% |
A leitura da tabela é o argumento central deste artigo. A única linha que a compressão das taxas L2 afeta é a segunda, e essa linha já vale cêntimos. Cortar a taxa de rede de um cêntimo para um terço de cêntimo com a Glamsterdam não altera de forma percetível uma remessa cujo custo real está no câmbio e no levantamento. É como poupar no selo de uma carta cujo custo verdadeiro é o táxi até ao destinatário.
Isto não desvaloriza a compressão; contextualiza-a. As taxas L2 baixas são condição necessária (ninguém constrói pagamentos de retalho sobre carris que custam 5 euros à transação), mas não são condição suficiente. A previsão honesta é que o gargalo das remessas se desloque, de vez, para o off-chain.
SEPA Instant muda o jogo dentro da Europa
Há um detalhe que costuma faltar nas apresentações entusiásticas e que qualquer previsão séria tem de incluir: dentro da zona euro, os carris tradicionais já apanharam a cripto no que toca a velocidade e custo. Desde 9 de outubro de 2025, o Regulamento dos Pagamentos Instantâneos obriga todos os bancos da zona euro que oferecem transferências SEPA a oferecerem também transferências instantâneas SEPA, liquidadas em menos de 10 segundos, 24 horas por dia, e a um custo não superior ao de uma transferência normal, ou seja, tipicamente grátis.
Traduzindo: mandar euros de uma conta portuguesa para uma conta alemã, espanhola ou francesa é hoje instantâneo e gratuito, sem stablecoin nenhuma. Neste terreno, a proposta de valor da cripto para pagamentos praticamente desaparece. Uma stablecoin numa L2 não bate um sistema que já é instantâneo e de graça.
A conclusão é geográfica, e é o coração da previsão: o campo onde a cripto pode genuinamente ganhar não é o intra-europeu; é o corredor fora do euro, onde persiste spread cambial, onde os bancos cobram 15% e onde não existe um SEPA Instant. É o corredor Portugal-Brasil, Portugal-PALOP, diáspora-Cabo Verde.
Onde a cripto ganha mesmo: os corredores fora do euro
Junte-se as peças e a previsão ganha forma. A cripto vence uma remessa quando se cumprem duas condições ao mesmo tempo. A primeira: o corredor tem custo legado alto (banco a 15%, operador a 6%). A segunda, e a mais esquecida: existe do lado recetor um off-ramp barato e rápido, de preferência um sistema de pagamentos instantâneos doméstico que transforme a stablecoin em moeda local sem cobrar 5%.
O Brasil é o caso de manual. O Pix, o sistema instantâneo do banco central brasileiro, é gratuito, universal e liquida em segundos. Uma remessa que entre no Brasil como USDC ou EURC e saia como reais via Pix pode, de facto, custar bem menos de 1% na cadeia completa, porque o último quilómetro deixou de ser caro. É a combinação, stablecoin barata mais off-ramp instantâneo, que ganha; não a stablecoin sozinha.
Onde o off-ramp é fraco, a promessa desmorona-se. Em corredores africanos sem um equivalente ao Pix, o recetor volta a depender de agentes, casas de câmbio e levantamentos que reintroduzem os 3% a 5% que a blockchain tinha eliminado. Por isso é que os incumbentes se estão a reposicionar como off-ramps: a MoneyGram a pagar em USDC com levantamento em numerário através da sua rede de agentes, a Western Union a lançar a sua própria stablecoin não para se desintermediar, mas para automatizar a conversão final. Quem controla o último quilómetro controla a margem.
O enquadramento: CMVM, Banco de Portugal e a MiCA
Nada disto acontece num vácuo regulatório, e para o leitor português a moldura é agora clara. O período transitório da MiCA para os prestadores portugueses terminou a 1 de julho de 2026; a lei nacional de execução é a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025. A repartição de competências importa: o Banco de Portugal supervisiona os emitentes de stablecoins (os tokens de moeda eletrónica, EMT, e os tokens referenciados a ativos, ART), enquanto a CMVM cuida da conduta de mercado e dos prestadores de serviços de criptoativos (CASP). As coimas previstas vão de 25 mil euros a vários milhões, podendo chegar a uma percentagem do volume de negócios.
Para as remessas, a MiCA é, no saldo, uma boa notícia. Um EMT como o EURC tem de ser resgatável ao par, a qualquer momento, com reservas segregadas, o que reduz precisamente o risco que faria de uma stablecoin um mau instrumento de remessa: o de valer menos do que diz valer no momento do levantamento. Um euro digital em que não se confia não serve para mandar a renda da mãe. A conformidade com a MiCA, longe de ser um entrave, é o que torna o EURC utilizável num corredor sério.
O reverso é a fricção de conformidade no último quilómetro: KYC, limites, reporte. Quanto mais apertado o cumprimento (necessário e desejável), mais o off-ramp se parece com um banco, com os custos e a lentidão de um banco. A previsão regulatória é que o custo das remessas em stablecoin na Europa convirja não para zero, mas para o custo de um off-ramp em conformidade, que é baixo mas não nulo.
Quem paga a fatura quando a taxa é quase zero
Há uma ironia de fundo que liga esta história ao resto do ecossistema. Se a perna on-chain custa frações de cêntimo, quem ganha dinheiro a mover remessas? Não é a Ethereum: taxas L2 quase nulas significam menos ETH queimado, e o debate sobre se as L2 drenam a receita da mainnet continua vivo, um tema que tratámos ao ver quem está a trancar o ETH. Não é, tipicamente, a L2: a maior parte das L2 não distribui a receita do sequenciador aos detentores do seu token.
Quem ganha é o emissor da stablecoin. A Circle não vive das taxas de transação; vive do rendimento das reservas que garantem o USDC e o EURC. Cada euro parado em EURC é um euro que rende juros para a Circle enquanto o utilizador o usa como dinheiro. É um modelo de negócio de tesouraria, não de portagem, e ler estas empresas exige a mesma disciplina que ler qualquer tesouraria cripto. A consequência para a previsão é contraintuitiva: o interesse comercial em baixar a taxa de remessa é enorme, porque quanto mais barata e mais usada a stablecoin, mais reservas rendem juros. Por uma vez, o modelo alinha-se com o utilizador.
Previsão: três cenários para as remessas on-chain até 2028
Juntando tudo, aqui fica a previsão em três cenários. O eixo que importa não é «até onde descem as taxas L2» (já sabemos: pouco mais, e devagar, por causa do piso e do adiamento da Glamsterdam), mas «quão depressa o último quilómetro se resolve».
| Cenário | O que tem de acontecer | Custo total numa remessa | Quota on-chain nos corredores lusófonos |
|---|---|---|---|
| Base (mais provável) | Off-ramps instantâneos (tipo Pix) alastram a alguns corredores; a MiCA estabiliza o EURC; a Glamsterdam chega no Q4 mas quase não mexe na conta | 1% a 3% onde há bom off-ramp; 4% a 6% onde não há | Crescimento lento, de nicho para relevante em um ou dois corredores |
| Otimista | Off-ramp barato e regulado generaliza-se; MoneyGram e Western Union escalam o levantamento em stablecoin; a concorrência comprime o spread cambial | < 1,5% na maioria dos corredores com bom off-ramp | Cripto passa a opção por defeito em vários corredores fora do euro |
| Pessimista | Off-ramp continua caro e fragmentado; a conformidade encarece o levantamento; as stablecoins em euro não ganham escala fora da UE | 4% a 9%, sem vantagem clara face ao incumbente | Marginal; a cripto perde para o SEPA Instant na UE e para os operadores locais fora dela |
O denominador comum salta à vista. Em nenhum dos três cenários a variável decisiva é a taxa L2. A compressão on-chain já aconteceu; o jogo desloca-se para o off-chain. Quem quiser prever o futuro das remessas em cripto faz melhor em seguir a expansão do Pix e dos seus primos africanos do que em contar blobs por bloco.
O que vigiar nos próximos meses
Para quem acompanha o cluster de previsões, estes são os sinais que valem mais do que qualquer gráfico de taxas de gás. Boa parte deles depende menos do protocolo e mais de quem constrói os produtos por cima dele, esse culto do builder que decide onde a infraestrutura barata se transforma em uso real.
- A ativação da Glamsterdam em mainnet (Q4 de 2026, sem data fechada). Confirma o fim da compressão via execução, mas não esperar milagres na conta da remessa.
- O crescimento do EURC na Base e o número de CASP autorizados pelo Banco de Portugal e pela CMVM depois de 1 de julho de 2026.
- A expansão de off-ramps instantâneos (modelo Pix) nos corredores lusófonos, sobretudo em África. É aqui que a agulha se move de verdade.
- Os lançamentos de stablecoin e de levantamento em numerário da MoneyGram e da Western Union: se os incumbentes dominarem o último quilómetro, capturam a margem que a blockchain libertou.
- Qualquer incidente de off-ramp (um depeg, uma falha de resgate, um bloqueio regulatório), que é o novo risco de cauda das remessas em stablecoin, muito mais do que o custo de gás.
A conclusão, para fechar o argumento: a pergunta certa deixou de ser «até onde descem as taxas L2». Descem pouco mais, e a Glamsterdam adiada só confirma o planalto. A pergunta que decide o futuro das remessas é outra, e vive fora da blockchain: quem resolve o último quilómetro, e a que preço.
Perguntas frequentes
As taxas das L2 da Ethereum ainda vão descer muito em 2026?
Pouco. A compressão via dados (blobs) já está feita e o EIP-7918 fixou um piso à taxa dos blobs. O próximo corte relevante viria da execução, com a Glamsterdam, mas essa atualização escorregou para o quarto trimestre de 2026 e nem sequer é um corte uniforme. Conte com frações de cêntimo, não com zero.
Enviar uma remessa em stablecoin é mesmo mais barato do que pelo banco?
Depende do corredor. A perna on-chain custa cêntimos, mas o custo total inclui o câmbio e o levantamento em moeda local. Um estudo do Banco de Itália de 2026 encontrou custos totais entre 0,30% e quase 9%, sem vantagem sistemática face aos operadores tradicionais. Onde existe um off-ramp barato e instantâneo, como o Pix no Brasil, a cripto ganha; onde não existe, muitas vezes não.
Porque é que baixar as taxas L2 quase não altera o custo de uma remessa?
Porque a taxa de rede já é a fatia mais pequena do custo. As grandes fricções, o spread cambial e a conversão para moeda local, acontecem fora da blockchain. Comprimir uma taxa que já vale cêntimos não move uma conta dominada pelo off-ramp e pelo câmbio.
O EURC serve para enviar euros para fora da Europa?
Serve, e a conformidade com a MiCA ajuda: um EMT como o EURC é resgatável ao par com reservas segregadas, o que reduz o risco de valer menos no levantamento. O limite não é o token, é a existência (ou não) de um ponto de levantamento barato em moeda local no destino.
Dentro da Europa, vale a pena usar stablecoins para pagar a alguém?
Em geral, não pela poupança. Desde outubro de 2025, as transferências instantâneas SEPA são obrigatórias na zona euro, liquidam em segundos e custam o mesmo que uma transferência normal, tipicamente grátis. Para mover euros dentro da UE, o SEPA Instant já faz o que a stablecoin prometia.
Priya Reddy cobre a infraestrutura da Ethereum e os pagamentos on-chain para a HOGE Wire.