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● Culture & Long-reads

Lamento o sucedido: a entrevista de contrição que não é desculpa

Quando a empresa colapsa, o fundador cripto enfrenta o microfone e produz contrição sem responsabilidade. Um guia para ler a não-desculpa, de 3AC a SBF.

«Lamento o sucedido»: o pedido de desculpa que não pede nada

Em março de 2024, quase dois anos depois de a Three Arrows Capital ter deixado um buraco de milhares de milhões no mercado cripto, um dos seus fundadores foi perguntado se estava arrependido. Kyle Davies respondeu com outra pergunta: «Am I sorry for a company going bankrupt? No, like companies go bankrupt, almost every company goes bankrupt, right?», disse à CoinDesk. Não era um lapso. Era a tese inteira de um género.

A entrevista de contrição é um dos formatos mais previsíveis da cultura cripto. Depois de um colapso, o fundador senta-se diante de um microfone, de um podcast ou de uma câmara, e produz algo que se parece com um pedido de desculpa sem o ser. Há a cara séria, o tom baixo, as palavras «lamento» e «responsabilidade». Falta quase sempre o essencial: dizer o que fez, aceitar a culpa sem a atirar para outro lado, e devolver alguma coisa a quem perdeu.

Este artigo propõe uma vara de medir. Não a pergunta fácil («o fundador está a mentir?»), mas a pergunta útil: isto é um pedido de desculpa ou uma encenação de contrição? A diferença não é retórica. Um pedido de desculpa a sério muda o que acontece a seguir; uma não-desculpa existe precisamente para que nada mude, exceto a imagem de quem a faz.

O caso que melhor define o género continua vivo em 2026. Enquanto estas linhas são escritas, os liquidatários da 3AC preparam-se para levar os fundadores a julgamento num tribunal das Ilhas Virgens Britânicas, e nenhum dos dois pediu desculpa a ninguém. A conta, essa, está agora nas mãos de um juiz, não de um entrevistador.

O que é, afinal, um pedido de desculpa

Antes de julgar os fundadores, vale a pena saber o que estamos a medir. O psiquiatra Aaron Lazare, antigo reitor da faculdade de medicina da Universidade de Massachusetts, dedicou ao tema um livro inteiro, «On Apology» (2004), que continua a ser a referência citada por quem estuda o assunto. A sua conclusão é simples de enunciar e difícil de cumprir.

Um pedido de desculpa genuíno, segundo Lazare, tem quatro peças: reconhecer o dano de forma exata; explicá-lo; exprimir remorso verdadeiro (e não apenas pena ou embaraço); e oferecer reparação, incluindo o compromisso de não repetir. A primeira peça, o reconhecimento, é a condição sem a qual nada funciona. Dizer «lamento que se tenham sentido assim» não reconhece dano nenhum; transfere-o para a sensibilidade de quem foi lesado.

Lazare também catalogou como os pedidos de desculpa falham, e a lista lê-se como um manual da entrevista cripto: atira-se a culpa para a vítima, minimiza-se o dano, ou desvia-se o pedido para a parte errada e para a ofensa errada, sem remorso adequado. Troque-se «vítima» por «o mercado» e «ofensa errada» por «um ciclo de quatro anos» e temos a transcrição de meia dúzia de entrevistas célebres.

É esta grelha, e não o instinto, que vamos usar a seguir. Para cada caso, a mesma pergunta em quatro partes: reconheceu a ofensa concreta? aceitou a responsabilidade pessoal, sem a diluir? dirigiu o remorso a quem foi lesado, e não à audiência? ofereceu reparação real e mudança? Tal como a entrevista que testa se o fundador percebe o próprio produto, a entrevista de contrição é menos sobre o que se ouve e mais sobre o que falta.

Anatomia da não-desculpa

Antes dos casos, o mapa. A não-desculpa cripto não é improviso; recicla um punhado de movimentos, cada um desenhado para soar a contrição enquanto evita uma das quatro peças de Lazare. A tabela abaixo lista os mais comuns, com a frase-tipo e a peça que cada um finge cumprir.

MovimentoComo soaA peça que fingeExemplo real
A voz passiva«Lamento o sucedido / foram cometidos erros»Reconhecimento (sem sujeito)SBF, «mistakes were made»
A culpa do contágio«O mercado caiu, apanhou-nos a todos»Explicação (como álibi)Su Zhu, «um aperto de crédito»
Eu também fui vítima«Fui alvo de um ambiente hostil»Remorso (invertido)CZ, após o perdão
Confiei nos conselheiros«Segui aconselhamento jurídico»Responsabilidade (delegada)Mashinsky, o produto «Earn»
Já pagaram a todos«A massa insolvente devolveu tudo»Reparação (como prova de inocência)SBF, a recuperação da FTX
Assumo a responsabilidade«Assumo total responsabilidade»Tudo, em palavra sógenérico
O relançamento«Agora corrijo, com um produto novo»Reparação (como negócio)3AC, a bolsa OPNX

Nenhum destes movimentos é ilegal por si. O problema é tomá-los por aquilo que imitam. Vistos ao microscópio, quase todos partilham a mesma lacuna: o fundador fala para a câmara, não para quem perdeu dinheiro.

3AC: o caso que define o género

A Three Arrows Capital foi, no seu auge, um dos maiores fundos de retorno absoluto da cripto, com miolo de alavancagem e fama de aposta agressiva. Quando a stablecoin algorítmica da Terra implodiu em maio de 2022, a 3AC estava do lado errado de quase tudo. Em julho, documentos judiciais mostravam que o fundo devia mais de 3,5 mil milhões de dólares a credores, dos quais cerca de 2,3 mil milhões à Genesis.

A primeira «entrevista de desculpa» chegou a 22 de julho de 2022, quando Su Zhu e Kyle Davies, depois de semanas desaparecidos, falaram à Bloomberg a caminho do Dubai. O tom foi de lamento distante: a situação, disseram, era «regrettable», contaram ao jornalista. Su Zhu explicou o colapso como um fenómeno meteorológico: «What we failed to realize was that Luna was capable of falling to effective zero in a matter of days and that this would catalyze a credit squeeze across the industry.»

Repare-se na estrutura. Há reconhecimento vago («failed to realize»), há explicação detalhada, e não há praticamente responsabilidade: o sujeito da frase é a Luna, não os gestores que alavancaram contra ela. É a peça número dois de Lazare, a explicação, promovida a álibi. Para quem quer perceber como a alavancagem transforma uma queda num efeito dominó, a mecânica está contada noutro sítio (a cauda que abana o cão); aqui interessa a retórica que a acompanha.

Dois anos depois, com a distância que costuma trazer humildade, Kyle Davies disse a frase que abre este artigo. Não só não pedia desculpa, como se oferecia para ensinar «ao próximo Three Arrows como fazer melhor quando for à falência». É a não-desculpa em estado puro: nenhuma das quatro peças, e um futuro já reservado para repetir o passado.

OPNX: quando a reparação vira produto

A quarta peça de Lazare, a reparação, é a mais cara e a mais fácil de simular. A 3AC deu o exemplo de simulação mais audacioso que a cripto conhece. Em abril de 2023, Zhu e Davies lançaram a OPNX, uma bolsa onde se podiam transacionar as reclamações de credores de empresas cripto falidas, incluindo as das próprias vítimas do seu fundo.

Em vez de devolver, montaram um balcão para intermediar a dor alheia. O regulador do Dubai multou a operação em cerca de 2,7 milhões de dólares (dez milhões de dirhams) por violações das suas regras de mercado, noticiou a Cointelegraph. A OPNX fechou em fevereiro de 2024, e os fundadores passaram a aconselhar uma nova plataforma, a OX.FUN, com um token próprio.

Chamar reparação a isto é inverter o conceito. Reparar seria tornar inteiras as pessoas lesadas; a OPNX fez da liquidação delas um produto. A rede que de facto costuma pagar quando uma plataforma parte não é a contrição do fundador, mas mecanismos como os fundos de seguro das exchanges, quando existem; e no caso de um fundo de retorno absoluto, nem isso.

O tribunal ainda espera (2026)

A parte do pedido de desculpa que nunca chegou é agora matéria de um juiz. Os liquidatários da 3AC, a Teneo, apresentaram uma ação por negociação em estado de insolvência de cerca de 1,1 mil milhões de dólares contra os dois fundadores, alegando que continuaram a aumentar a alavancagem em maio e junho de 2022 quando o fundo já estava insolvente. Um tribunal das Ilhas Virgens Britânicas chegou a congelar até 1,1 mil milhões de dólares em ativos dos dois, e da mulher de Davies.

O julgamento está marcado em duas fases, abril e novembro de 2026, segundo a análise da liquidação publicada em julho de 2026. A estimativa de recuperação para os credores foi revista em baixa: de cerca de 46% num relatório da Teneo de 2023 noticiado na altura para cerca de 35% no relatório de março de 2026.

É aqui que se vê o preço da não-desculpa. O que o fundador não reconhece ao microfone tem de ser arrancado em tribunal, com ordens de congelamento, pedidos de divulgação de bens e processos por desobediência. A contrição evitada não desaparece; muda de sala. E muda para uma sala onde a palavra «responsabilidade» tem um significado que nenhuma entrevista lhe dá.

SBF: o arrependimento que recusa a palavra «fraude»

Sam Bankman-Fried deu a aula inaugural do género. A 7 de novembro de 2022, com a FTX a esvaziar-se, publicou (e depois apagou) a garantia «FTX is fine. Assets are fine», registada pela Fortune. Semanas depois, no palco da cimeira DealBook do New York Times, entregou a frase que definiria a sua defesa: «I didn’t ever try to commit fraud on anyone», disse a Andrew Ross Sorkin.

O registo era de arrependimento operacional, nunca de culpa criminal: «erros foram cometidos», falhas de gestão de risco, uma conta que não bateu certo. Em termos de Lazare, falta a peça um, o reconhecimento da ofensa concreta. SBF reconhecia ter gerido mal; recusava ter feito mal. Foi condenado a 25 anos de prisão e a perdas superiores a 11 mil milhões de dólares em março de 2024, e perdeu o recurso em 2026.

A defesa evoluiu depois para a sua forma mais refinada: a restituição como prova de inocência. Como a massa insolvente da FTX acabou por devolver mais de 100% dos créditos admitidos a várias classes (105% aos clientes principais, 120% aos pequenos credores), calculados, note-se, ao valor deprimido de novembro de 2022, quando a Bitcoin valia perto de 16 mil dólares, SBF passou a sugerir que nunca houve crime, só pânico. É a peça quatro de Lazare, a reparação, usada ao contrário: não para reparar, mas para apagar a ofensa. Só que devolver não é o mesmo que não ter desviado; o desvio da Alameda foi provado em tribunal.

Mashinsky: o «falso conforto» e a meia-admissão

Alex Mashinsky, fundador da Celsius, construiu a sua marca num formato de entrevista que controlava na perfeição: o «Ask Mashinsky Anything» semanal, onde vendia rendimentos de dois dígitos como se fossem poupança de banco e repetia o lema «unbank yourself». A promessa era segurança; o produto era risco.

A sua contrição, quando veio, foi a meia-admissão. Mashinsky admitiu ter dado aos clientes um «falso conforto» sobre uma aprovação regulatória do produto «Earn» que nunca existiu, depois de funcionários o terem avisado sobre afirmações falsas, segundo a acusação. Repare-se no movimento: concede-se um sentimento (o «conforto»), não um crime. É a responsabilidade delegada e minimizada, as peças um e três de Lazare entregues pela metade.

A meia-admissão não resistiu ao processo. Mashinsky declarou-se culpado e foi condenado a 12 anos de prisão em maio de 2025, tendo embolsado mais de 45 milhões de dólares. A entrevista que ele melhor dominava, a AMA, era precisamente aquela em que ninguém lhe fazia a pergunta a sério.

Do Kwon: a contrição que chega tarde

Do Kwon foi, durante muito tempo, o anti-pedido-de-desculpa. Enquanto a UST perdia a paridade e cerca de 40 mil milhões de dólares evaporavam, tuitou «Deploying more capital – steady lads», a frase que ficou associada a uma queda de 96% em poucos dias. Seguiu-se a fuga, os passaportes forjados, a detenção no Montenegro, a extradição.

A contrição só apareceu quando passou a ter valor processual. No seu julgamento, em dezembro de 2025, depois de ouvir vítimas descreverem poupanças destruídas, Kwon pediu desculpa; o seu advogado disse que ele «falou de coração» e exprimiu remorso genuíno, e numa carta ao juiz admitiu que esconder a intervenção da Jump «was wrong», noticiou a CNBC.

O juiz Paul Engelmayer não se deixou comover. Chamou ao caso «uma fraude de escala épica e geracional» e aplicou 15 anos, acima da recomendação da acusação. É a lição que falta a muitas entrevistas: o remorso que só chega no momento em que pode reduzir a pena é o remorso que menos convence quem decide.

CZ: pedir desculpa e depois reescrever

Changpeng Zhao, o «CZ» da Binance, mostra a forma mais subtil: o pedido de desculpa como transação, que se desfaz quando as condições mudam. Em tribunal, em Seattle, a 30 de abril de 2024, declarou-se culpado de falhar o programa antibranqueamento e disse, sem rodeios: «I failed here» e «I deeply regret my failure, and I am sorry», registou a CNBC. A Binance pagou 4,3 mil milhões de dólares, ele pagou 50 milhões a título pessoal e cumpriu quatro meses de prisão.

Importa a nuance: a sua acusação foi falha de compliance, não fraude, ao contrário de SBF, Mashinsky ou Do Kwon. Mas o pedido de desculpa fazia parte de um acordo, e, uma vez mudadas as condições, foi discretamente reescrito. Depois de perdoado pelo Presidente Trump em outubro de 2025, CZ passou a falar de outra coisa.

Em Davos, em janeiro de 2026, descreveu a prisão como «brutal», disse que o perdão lhe tirou um «peso psicológico» e minimizou a sua relação com a família Trump como «misconstrued». O homem que em 2024 pediu desculpa por ter falhado tornou-se, em 2026, um homem a quem coisas aconteceram. A entrevista de contrição e a entrevista de reabilitação são, muitas vezes, a mesma pessoa em dois tempos diferentes.

A exceção: quando a desculpa é a reparação

Para não parecer que nenhum pedido de desculpa cripto é a sério, vale o contraexemplo. Em setembro de 2020, o fundador pseudónimo do SushiSwap, Chef Nomi, retirou do tesouro do projeto cerca de 38 mil ETH, na altura uns 14 milhões de dólares. A comunidade explodiu. Dias depois, devolveu tudo e escreveu: «I have returned all the $14M worth of ETH back to the treasury. And I will let the community decide how much I deserve as the original creator of SushiSwap», citado pela CoinDesk.

Não foi um discurso bonito; foi uma transferência. E é exatamente isso que o distingue. Reconheceu o erro («I f*cked up»), assumiu a responsabilidade e, sobretudo, cumpriu a quarta peça de Lazare: a reparação concreta, verificável na cadeia. Um pedido de desculpa que se mede em ETH devolvido, não em adjetivos.

A lição não é sobre Chef Nomi, cuja história tem outras arestas. É sobre a vara de medir: o único pedido de desculpa em que se pode confiar é aquele que se consegue medir, em dinheiro devolvido, em bens entregues, num compromisso que custa alguma coisa a quem o faz. Tudo o resto é tom. O boletim abaixo aplica as quatro peças aos cinco fundadores deste artigo.

FundadorReconhece a ofensaAceita a responsabilidadeRemorso a quem perdeuReparação real
Zhu / Davies (3AC)VagoNãoNãoNão (lançou a OPNX)
Bankman-Fried (FTX)Não («só erros»)NãoNão«a massa pagou»
Mashinsky (Celsius)Parcial («falso conforto»)Resistiu até à acusaçãoNãoNão
Do Kwon (Terra)Tardio (no julgamento)TardioTardioNão
Chef Nomi (SushiSwap)SimSimSimSim (38 mil ETH)

Porque é que a não-desculpa funciona

Se estes movimentos são tão transparentes, porque é que resultam? Porque não são dirigidos a quem foi lesado; são dirigidos à audiência. E a audiência cripto é, por desenho, favorável ao fundador. A economia da atenção premeia a convicção, não a dúvida; o formato longo e para-social do podcast cria intimidade; e o culto do «founder mode», a ideia de que o fundador visionário deve mandar em tudo, transforma a arrogância em virtude.

Há ainda um reflexo mais prosaico: muita gente quer acreditar. Quem ainda tem fichas na mesa precisa que o fundador tenha razão. Um «assumo a responsabilidade» dito com firmeza oferece a essas pessoas um fecho emocional, uma forma de virar a página sem ter de encarar a perda. A mesma lógica que concentra poder nas mãos de um chefe, e que em 2026 trouxe os fundadores de volta ao comando de projetos ditos descentralizados (o grande recuo), é a que faz a plateia aplaudir a contrição e esquecer a conta. Num mercado onde a Bitcoin ronda os 75 mil euros e a memória é curta, a página vira-se depressa.

O resultado é um incentivo perverso: a não-desculpa é mais eficaz, em termos de reputação, do que a desculpa a sério. Pedir desculpa a sério obriga a reconhecer, a assumir e a reparar, três coisas caras e arriscadas. Encenar contrição custa uma tarde de estúdio.

«Assumo a responsabilidade» não é uma confissão legal

Há uma confusão que convém desfazer. Quando um fundador diz numa entrevista «assumo total responsabilidade», está a fazer uma afirmação moral, não uma admissão jurídica. Não confessa crime nenhum, não renuncia a defesa nenhuma, não cria obrigação nenhuma. A admissão com efeitos legais acontece noutro sítio e com outras palavras: numa declaração de culpa perante um juiz, como as de Mashinsky, CZ ou Do Kwon. Confundir as duas é o truque que a frase explora.

E, ao contrário do que o tom intimista sugere, a entrevista de contrição não é um momento privado. Na União Europeia, as comunicações de um emitente ou de quem promove um criptoativo caem sob o regime de abuso de mercado do Título VI da MiCA. Uma «desculpa» que revele informação privilegiada ativa o dever de divulgação do artigo 88.º; uma «desculpa» desenhada para travar uma corrida aos levantamentos ou para empurrar o preço de um relançamento pode ser manipulação de mercado ao abrigo do artigo 91.º, que se aplica a qualquer pessoa.

Se a contrição vier embrulhada na promoção de um produto novo, como no caso da OPNX, acresce o artigo 7.º, que exige que as comunicações de marketing sejam leais, claras, não enganosas e identificáveis como marketing. As coimas para pessoas singulares podem chegar a 5 milhões de euros ao abrigo do artigo 111.º. A ESMA foi explícita ao avisar que o setor cripto faz «uso intensivo das redes sociais», terreno fértil para o abuso, nas suas orientações de supervisão; e o seu alerta sobre finfluencers lembra que promover um produto financeiro «não é como promover sapatos ou relógios» e que esconder quem paga pode ser abuso de mercado.

Portugal, a CMVM e como ler a contrição

Para o leitor português, a tradução prática é simples. A entrevista de desculpa não altera nada do que importa: não devolve o dinheiro, não muda a qualidade do ativo, não cria uma garantia. A CMVM, no explicador de criptoativos que publicou em abril de 2026, é direta ao dizer que o enquadramento «não elimina os riscos associados, em particular a elevada volatilidade e a ausência de cobertura pelo sistema de indemnização aos investidores», segundo o ECO. Por outras palavras: não há fundo nenhum que torne inteiro quem foi lesado por um colapso.

A CMVM é o supervisor de conduta de mercado e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores (CASP) e das stablecoins; o período transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025. O portal do investidor da CMVM mantém uma área de criptoativos com a lista de prestadores autorizados, que era de 63 a 30 de março de 2026, no portal do regulador. O ponto de partida de qualquer leitura não é a entrevista; é verificar se quem fala está sequer autorizado a oferecer o serviço.

PergunteSinal de alarmeO que procurar em vez disso
Nomeou a ofensa concreta?Voz passiva, «erros foram cometidos»O verbo com sujeito: quem fez o quê
Aceitou a culpa?«O mercado», «o contágio», «fui vítima»Responsabilidade sem o «mas»
Falou com quem?Discurso virado para a câmaraPalavras dirigidas a quem perdeu
Ofereceu reparação?Um relançamento, um token novoDinheiro devolvido, bens entregues
É moral ou legal?«Assumo a responsabilidade»Uma declaração de culpa, um documento

Em novembro de 2026, enquanto um tribunal das Ilhas Virgens Britânicas pesa 1,1 mil milhões de dólares em alegada negociação insolvente, os fundadores da 3AC continuam sem dever um pedido de desculpa a ninguém, porque nunca o ofereceram. Quando uma posição alavancada se desfaz em cascata, a conta é de quem a detinha, e de quem fica a jusante (a cascata e quem paga a conta), não de quem pede desculpa ao microfone. A lição do género é essa: a contrição que se vê numa entrevista é quase sempre a que custa menos. O pedido de desculpa em que vale a pena acreditar não se ouve; mede-se, em euros devolvidos, em divulgações feitas, numa agenda de tribunal. Tudo o resto é tom de voz.

Perguntas frequentes

Qual foi a entrevista de «desculpa» mais famosa da cripto?

Provavelmente a da Three Arrows Capital. Em julho de 2022, Su Zhu e Kyle Davies falaram à Bloomberg a caminho do Dubai e chamaram à ruína do fundo algo «regrettable», culpando o colapso da Luna. Dois anos depois, Davies afirmou à CoinDesk que não estava arrependido de a empresa ter falido. Tornou-se o modelo da não-desculpa.

Dizer «assumo a responsabilidade» numa entrevista é uma confissão legal?

Não. É uma afirmação moral que não confessa crime, não renuncia a defesas e não cria obrigações. A admissão com efeitos jurídicos faz-se noutro contexto, numa declaração de culpa perante um tribunal. É por isso que muitos fundadores «assumem a responsabilidade» em palco e contestam tudo em tribunal.

O que é uma «não-desculpa»?

É um pedido de desculpa que falha as peças essenciais identificadas por Aaron Lazare: reconhecer a ofensa, aceitar a responsabilidade, exprimir remorso e reparar. A não-desculpa substitui-as por voz passiva («erros foram cometidos»), pela culpa do mercado, pela autovitimização ou por um relançamento em vez de reparação.

Pedir desculpa muda alguma coisa para quem perdeu dinheiro?

Praticamente nada. A recuperação vem da liquidação, dos tribunais e, por vezes, do rastreio na cadeia, não da contrição. No caso da 3AC, os liquidatários estimavam em março de 2026 que os credores recuperariam cerca de 35% dos créditos admitidos, um valor revisto em baixa face às estimativas iniciais.

A CMVM ou a MiCA regulam o que um fundador diz numa entrevista?

Em parte. As comunicações sobre um criptoativo em âmbito europeu caem sob o regime de abuso de mercado do Título VI da MiCA, que pode alcançar afirmações que movem o preço ou revelam informação privilegiada. A CMVM supervisiona a conduta de mercado em Portugal e o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores; os derivados de cripto seguem a MiFID II, não a MiCA.

Marcus Okafor, editor de investigação da HOGE Wire.

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