O post-mortem cripto funciona? Dez anos, os mesmos erros
A cripto faz mais autópsias do que qualquer indústria, mas as mesmas falhas repetem-se. Os dados de 2026 contam algo mais subtil: umas doenças foram curadas, o dinheiro só mudou de porta.
Em agosto de 2013, a bitcoin.org publicou um alerta seco: uma falha no gerador de números aleatórios do Android permitia que algumas carteiras assinassem duas transações com o mesmo valor «aleatório», e qualquer pessoa capaz de ler a blockchain reconstruía a chave privada a partir de dados públicos. A correção era simples e brutal: gerar um endereço novo, mover tudo. Treze anos depois, no final de julho de 2026, a Coinkite publicou um post-mortem quase idêntico sobre as carteiras Coldcard. Um guardião de pré-processador mal escrito fazia o firmware cair em silêncio para um gerador de software fraco em vez do chip de hardware seguro, e mais de 130 milhões de dólares (cerca de 113 milhões de euros) saíram de carteiras que os donos julgavam invioláveis. Mesma doença, mesma cura, treze anos de intervalo.
Se existe uma indústria que documenta os próprios fracassos com obsessão, é a cripto. Publica autópsias horas depois do ataque, mantém um obituário público em tom noir, transmite investigações forenses quase em direto e importou de Silicon Valley uma cultura de post-mortem sem culpados. E, mesmo assim, as mesmas classes de falha voltam, ano após ano. Este texto faz uma pergunta incómoda para quem escreve, lê e celebra estas autópsias: o post-mortem cripto serve para alguma coisa? A resposta honesta, olhando para os números de 2026, não é «sim» nem «não». É bastante mais interessante do que isso.
A indústria que faz mais autópsias do que qualquer outra
A cultura do post-mortem cripto tem uma genealogia conhecida. A parte mais citada vem da engenharia de fiabilidade de Silicon Valley: o livro de Site Reliability Engineering da Google popularizou o post-mortem sem culpados, a ideia de que, depois de uma falha, se escreve uma cronologia minuciosa, se identifica a causa raiz e se resiste à tentação de apontar o dedo a uma pessoa, porque punir o indivíduo só ensina toda a gente a esconder erros. A cripto herdou a estrutura e acrescentou algo que nenhuma indústria anterior tinha: a blockchain é um registo público e imutável, por isso qualquer pessoa com um explorador de blocos reconstrói o ataque transação a transação, sem precisar de autorização de ninguém.
Sobre essa base cresceu um género próprio. O rekt.news transformou a autópsia num obituário anónimo em tom de romance policial e mantém uma tabela classificativa dos maiores desastres, uma espécie de memória coletiva e muro da vergonha ao mesmo tempo. Os fundos negoceiam com os atacantes em mensagens gravadas na própria cadeia. As bolsas publicam relatórios forenses preliminares poucos dias depois do roubo. E as empresas reguladas na União Europeia passaram a ter relógios formais: o regulamento DORA obriga um prestador de serviços de criptoativos a notificar o incidente em poucas horas.
O HOGE Wire já dissecou este género de vários ângulos: de onde vem a voz confessional das autópsias (os videojogos ensinaram o formato antes de Silicon Valley), e como cada post-mortem é, no fundo, um documento retórico escrito por uma parte interessada, não um relatório neutro. O que nunca perguntámos de frente foi o mais simples: se a cripto escreve mais autópsias, mais depressa e mais publicamente do que qualquer outro setor, porque é que continua a morrer das mesmas coisas?
Dez anos, os mesmos diagnósticos
Todos os anos, o projeto OWASP publica um Top 10 das vulnerabilidades de smart contracts, compilado a partir dos incidentes do ano anterior. A edição de 2026 foi construída sobre cerca de 122 incidentes analisados em 2025, com perdas rastreadas na ordem dos 905 milhões de dólares (cerca de 784 milhões de euros). A lista é, ela própria, um retrato da recorrência: as categorias no topo são quase as mesmas há uma década.
O controlo de acessos (quem pode chamar as funções privilegiadas de um contrato) está em primeiro lugar. A manipulação de oráculos de preço está em terceiro. Os erros aritméticos de arredondamento e precisão estão em sétimo. E a reentrância, a falha que destruiu The DAO em 2016 e literalmente partiu o Ethereum em dois, está em oitavo.
Olhe-se para qualquer uma destas categorias e encontra-se a mesma história a repetir-se. A reentrância matou The DAO em 2016; voltou a custar cerca de 42 milhões de dólares (36 milhões de euros) à GMX V1 em julho de 2025, quando um atacante explorou uma reentrância no processamento de ordens. Os erros de arredondamento, que parecem triviais, estiveram na origem do ataque de cerca de 129 milhões de dólares (112 milhões de euros) à Balancer em novembro de 2025 e do colapso da Bunni umas semanas antes. A manipulação de oráculos, um clássico desde os ataques de flash loan de 2020, reapareceu em 2026 no exploit da Ostium, cuja chave de assinatura do oráculo foi comprometida. E a Cetus, na Sui, perdeu cerca de 223 milhões de dólares (193 milhões de euros) em maio de 2025 por causa de uma verificação de overflow mal escrita numa biblioteca de terceiros.
| Classe de falha | Ranking OWASP 2026 | Exemplo histórico | Reaparição em 2025-2026 |
|---|---|---|---|
| Controlo de acessos | 1.º | Parity multisig (2017) | Drift Protocol (abril 2026, ~247 M€) |
| Manipulação de oráculo | 3.º | bZx (2020) | Ostium (julho 2026) |
| Erros de arredondamento | 7.º | raros até 2023 | Balancer e Bunni (2025) |
| Reentrância | 8.º | The DAO (2016) | GMX V1 (julho 2025, ~36 M€) |
| Overflow / underflow | 9.º | batch overflow ERC-20 (2018) | Cetus (maio 2025, ~193 M€) |
| Comprometimento de chaves | fora do Top 10 de contratos | Mt. Gox (2014) | Bybit e Coldcard (2025-2026) |
Mas a reentrância caiu para oitavo lugar
Aqui está a parte que estraga a narrativa fácil do «nunca aprendemos nada». A reentrância não está em oitavo lugar por acaso, nem porque deixou de ser perigosa em teoria. Está em oitavo porque a cultura de post-mortem funcionou. Uma década de autópsias sobre The DAO e os seus sucessores produziu defesas partilhadas: o padrão checks-effects-interactions tornou-se reflexo, o modificador ReentrancyGuard da OpenZeppelin entrou em praticamente todos os contratos sérios, e analisadores estáticos como o Slither e o Mythril detetam o padrão clássico automaticamente, antes de o código chegar sequer a uma auditoria. O próprio OWASP explica a descida exatamente assim: os controlos amadureceram.
Isto é conhecimento a acumular-se, tal como a teoria promete. Um erro custou 3,6 milhões de ETH em 2016, gerou centenas de páginas de análise, e o setor construiu ferramentas que hoje apanham a mesma classe de falha de graça. A prova de que o post-mortem cripto consegue transferir uma lição está escrita na própria lista que usámos há um instante para mostrar o contrário.
Então porque é que o quadro geral continua a parecer uma repetição eterna? Porque a reentrância é o caso fácil, e o caso fácil é exatamente aquele que a cultura de autópsia sabe tratar: um padrão de código bem definido, com uma assinatura limpa na cadeia, que se resume a uma regra e se codifica numa ferramenta. As categorias que não descem, o controlo de acessos em primeiro lugar há anos, contam uma história diferente. E, sobretudo, o dinheiro deixou de estar onde a cultura de autópsia é boa.
O dinheiro mudou de porta
Os números de 2026 contam uma inversão. Segundo a TRM Labs, o primeiro semestre de 2026 registou cerca de 972 milhões de dólares (842 milhões de euros) roubados em 207 incidentes, o maior número de incidentes de sempre, mas com um valor total abaixo de metade dos 2,3 mil milhões de dólares do primeiro semestre de 2025, concentrados em apenas 83 ataques. Mais ataques, muito menos dinheiro. E, quando se abre a distribuição, percebe-se porquê.
Os exploits de smart contract foram 125 dos 207 incidentes, cerca de 60% do total em número. Mas representaram uma fatia pequena do valor roubado. Os comprometimentos de infraestrutura, chaves privadas e operações foram apenas cerca de 15% dos incidentes e, no entanto, responderam por perto de 76% de todo o dinheiro perdido. A CertiK, com uma metodologia diferente e um total diferente para o mesmo semestre (1,315 mil milhões de dólares em 344 incidentes), chega à mesma conclusão qualitativa: o comprometimento de carteiras foi a categoria mais cara, acima de 444 milhões de dólares (385 milhões de euros), com uma média perto de 13 milhões por evento, enquanto os bugs de código foram os mais frequentes (204 incidentes) mas somaram apenas 151,6 milhões de dólares.
Traduzindo: o setor está a ficar melhor a defender o dinheiro grande do código, e os atacantes migraram para onde as defesas são mais fracas e o retorno é maior, as pessoas e os processos. Os dois maiores ataques do semestre, a Drift Protocol (cerca de 247 milhões de euros) e a KelpDAO (cerca de 253 milhões de euros), ambos atribuídos à Coreia do Norte, não foram bugs de contrato: foram engenharia social de signatários e mensagens forjadas.
| Superfície de ataque | Quota dos incidentes (H1 2026) | Quota do valor roubado | Rasto para autópsia |
|---|---|---|---|
| Falha de código (contrato) | ~60% | pequena | On-chain, completo e reproduzível |
| Chaves, infraestrutura e operações | ~15% | ~76% | Fora da cadeia, quase invisível |
| Engenharia social e phishing | subconjunto do anterior | crescente | Depende de a vítima falar |
| Manipulação de mercado e oráculo | variável | média | On-chain, mas disputável |
Porque as chaves não deixam autópsia bonita
Um bug de smart contract é um objeto pedagógico perfeito. É determinístico, está inteiramente na cadeia e pode ser reproduzido num ambiente de teste por qualquer pessoa. Escrever a sua autópsia é quase uma dádiva: a causa raiz é uma linha de código, a correção é outra linha, e a lição codifica-se numa ferramenta que passa a apanhar o mesmo erro em todo o lado. Foi assim que a reentrância desceu para oitavo.
O comprometimento de uma chave não oferece nada disto. Na cadeia, um levantamento feito com uma chave roubada é indistinguível de um levantamento legítimo: uma assinatura válida, uma transferência bem formada. A história verdadeira aconteceu noutro sítio, num portátil que ninguém pode intimar, numa entrevista de emprego falsa, numa dependência de software envenenada, numa interface adulterada. O maior roubo da história da cripto, os cerca de 1,3 mil milhões de euros da Bybit em fevereiro de 2025, não teve um único bug de contrato: foi JavaScript malicioso injetado na interface de assinatura da Safe. A Drift perdeu o seu dinheiro porque signatários foram levados a pré-assinar autorizações escondidas. A KelpDAO caiu por engenharia social de um programador e uma mensagem forjada. A Humanity Protocol foi comprometida pelo portátil de um funcionário.
Nenhum destes casos produz uma regra que se codifique num analisador estático. A lição, «formem as vossas pessoas, isolem as vossas chaves, desconfiem das interfaces», é verdadeira e antiga e não se transforma numa biblioteca da OpenZeppelin. Pior: como a parte decisiva do ataque está fora da cadeia, a autópsia depende da boa vontade e da honestidade da vítima. Quem investiga estes casos, a indústria forense que reconstrói o caminho do dinheiro a partir de fragmentos, consegue dizer para onde foram os fundos, mas raramente consegue provar, só a partir da cadeia, como a chave saiu do cofre. O corpus de autópsias é mais rico exatamente onde o dinheiro já não está, e mais pobre onde ele está agora.
A entropia que voltou treze anos depois
Volte-se ao caso com que este texto abriu, porque é o exemplo mais limpo de uma lição que existia e não foi aplicada. Em 2013, o problema era o SecureRandom do Android; em 2026, foi um guardião de pré-processador na Coldcard que testava se uma macro estava definida em vez de testar se o seu valor era diferente de zero, fazendo o firmware cair silenciosamente para o gerador de software Yasmarang do MicroPython em vez do gerador de hardware. Em modelos mais antigos, isso deixava cerca de 40 bits de entropia efetiva onde eram precisos 128; sementes assim são adivinháveis. A correção, treze anos depois, é a mesma de 2013: gerar uma semente nova em firmware corrigido e migrar todos os fundos, porque atualizar o software não repara uma chave que já nasceu fraca.
O prejuízo foi enorme e, ao contrário de um exploit de contrato, não tem um total final fixo: passou os 130 milhões de dólares (113 milhões de euros) no início de agosto de 2026 e continuava a crescer, com «pelo menos uma dúzia» de grupos não coordenados a correr atrás do mesmo conjunto de endereços vulneráveis, sem um único atacante para negociar ou atribuir. O HOGE Wire tratou este caso como o post-mortem sem réu, porque quebra todas as suposições do manual: não há DAO, não há tesouraria, não há um culpado único, não há sequer um momento de encerramento.
Mas há um pormenor que muda tudo e que aponta para o futuro desta história. Segundo a própria Coinkite, a falha da Coldcard não foi encontrada por um auditor humano depois de anos escondida à vista de todos. Foi, muito provavelmente, encontrada por inteligência artificial.
O bug que ninguém quer encontrar duas vezes
Dan Guido, cofundador e CEO da Trail of Bits, uma das auditoras mais respeitadas do setor, resume o objetivo numa frase: «Nunca quero encontrar o mesmo bug duas vezes». É um objetivo simples e quase nunca cumprido, e a razão não é falta de autópsias. É que a autópsia de um protocolo raramente é lida pela equipa do protocolo seguinte antes de este ser lançado.
O caso da Balancer é a ilustração perfeita e desconfortável. Quando a Balancer v2 foi drenada de cerca de 129 milhões de dólares (112 milhões de euros) em novembro de 2025, a Trail of Bits publicou uma retrospetiva rara em que assumia ter sinalizado o risco subjacente já em 2021, como TOB-BALANCER-004, com severidade «indeterminada». A lição estava escrita, num relatório de auditoria, quatro anos antes do ataque. Semanas antes, a Bunni tinha caído por um erro de arredondamento que a mesma auditora tinha assinalado como TOB-BUNNI-13; a correção da equipa não cobria o caso exato que viria a ser explorado. E o bug do compilador Vyper, em 2023, atingiu vários protocolos ao mesmo tempo, porque todos confiavam na mesma ferramenta e nenhum sabia que a autópsia que precisava de ler ainda nem existia.
Suhail Kakar, responsável de relações com programadores na TAC, foi direto depois da Balancer: «a Balancer passou por mais de dez auditorias. O cofre foi auditado três vezes por firmas diferentes e mesmo assim foi drenado. Este setor tem de aceitar que ‘auditado por X’ não significa quase nada». A auditoria e o post-mortem sofrem do mesmo mal estrutural: produzem conhecimento de altíssima qualidade que fica guardado num documento que a próxima equipa, com pressa de lançar, não vai ler. O conhecimento existe; a transmissão é que falha.
Autópsias dispersas não fazem uma memória
Parte do problema é que não existe uma memória central. As autópsias vivem espalhadas: um blog de projeto aqui, uma thread no X ali, um relatório em PDF de uma auditora, um tópico num fórum de governação, um obituário no rekt.news. Não há um formato comum, nem uma taxonomia partilhada de causas raiz, nem um sítio onde uma equipa nova possa procurar «todos os incidentes de manipulação de oráculo com esta arquitetura» e ler as dez lições relevantes antes de escrever a primeira linha de código.
A prova de quão fragmentado está o campo é que o setor nem sequer concorda sobre quanto foi roubado. Para o primeiro semestre de 2026, a TRM Labs conta 972 milhões de dólares em 207 incidentes; a CertiK conta 1,315 mil milhões em 344 incidentes; a base de dados Hacked da SlowMist chega a perto de 950 milhões noutra contagem ainda diferente. Fontes sérias, totais diferentes para os mesmos seis meses, porque cada uma define «incidente» e «perda» à sua maneira. Se ainda não há acordo sobre a aritmética, é ilusório esperar uma memória estruturada sobre as causas.
Há, ainda assim, tentativas de construir essa memória. A tabela do rekt.news funciona como um cânone informal dos maiores desastres. A DefiLlama mantém um painel com mais de 540 incidentes desde 2016, com valor perdido, técnica e protocolo afetado. O próprio Top 10 do OWASP é uma tentativa de destilar os incidentes de um ano numa taxonomia reutilizável. E a Security Alliance publicou frameworks e um safe harbor que padroniza a própria resposta ao incidente. São peças de um arquivo que ainda não é um sistema.
| Arquivo | O que faz | Limitação |
|---|---|---|
| rekt.news (leaderboard) | Cânone narrativo dos maiores casos | Curadoria informal, não estruturada |
| SlowMist Hacked | Base de dados pesquisável de incidentes | Foco na contagem, não na causa raiz |
| DefiLlama Hacks | Mais de 540 incidentes desde 2016 | Depende de reporte público |
| OWASP SC Top 10 | Taxonomia anual de classes de falha | Só cobre smart contracts, não chaves |
| Security Alliance (SEAL) | Padroniza a resposta ao incidente | Adesão voluntária |
O que a IA muda na equação
Se o problema é que ninguém lê todas as autópsias antes de lançar, há agora uma máquina que lê. A Trail of Bits descreveu em 2026 como se tornou AI-native: o número de bugs que a equipa encontra por semana subiu de cerca de 15 para perto de 200, e à volta de 20% são hoje sinalizados primeiro por inteligência artificial. Um modelo que leu todo o código aberto do setor e todos os post-mortems publicados não sofre do problema humano de não ter lido o relatório certo: leu-os todos.
Foi provavelmente uma ferramenta assim que encontrou a falha da Coldcard, escondida à vista de todos desde 2021. Rodolfo Novak, cofundador da Coinkite, foi franco sobre o que isso significa: «a revisão de código assistida por IA consegue agora encontrar bugs latentes a uma velocidade que ultrapassa até os especialistas mais experientes do setor». E acrescentou o aviso que resume a nova era: «se o vosso firmware é de código aberto ou alguma vez foi público, assumam que já está a ser lido por atacantes e defensores ao mesmo tempo».
É aqui que a resposta à pergunta deste artigo fica genuinamente em aberto. Pela primeira vez, existe um mecanismo capaz de fazer o conhecimento acumular-se de facto: um sistema que leu todas as autópsias pode aplicar a lição do protocolo A ao código do protocolo B antes do lançamento, algo que nenhum humano com um prazo consegue. A mesma lógica está a ser explorada em áreas vizinhas, da computação verificável ao restaking ao serviço de garantir cálculos de IA. Mas a faca tem dois gumes: o atacante corre o mesmo modelo sobre o mesmo código público. A IA não decide quem ganha a corrida; só a torna muito mais rápida para os dois lados.
Quando o post-mortem não é escrito
Há uma distorção ainda mais profunda no arquivo: só entra nele quem sobrevive e decide falar. O corpus de autópsias sofre de um viés de sobrevivência clássico, e as lições que faltam são invisíveis por definição.
A WEMIX, o ecossistema de jogos blockchain da coreana Wemade, é um retrato do problema. Foi comprometida em fevereiro de 2025, com milhões drenados do seu Play Bridge através de credenciais roubadas, e nunca publicou um post-mortem detalhado desse episódio. Em julho de 2026, foi de novo atacada, desta vez por uma chave de administrador que cunhou stablecoins não autorizadas, e reagiu com uma divulgação inicial em poucas horas. Duas falhas parecidas, uma silenciada e outra comunicada: sem a autópsia da primeira, é impossível saber se a organização aprendeu alguma coisa entre as duas.
O extremo desta lógica é a Multichain. Em julho de 2023, cerca de 265 milhões de dólares (230 milhões de euros) saíram do protocolo em circunstâncias que a própria Chainalysis considerou possivelmente um trabalho interno; o CEO tinha sido detido pela polícia chinesa, e a empresa encerrou pouco depois. Nunca houve post-mortem porque não sobrou equipa para o escrever. É o desfecho mais escuro possível: não uma autópsia má, mas a ausência total de autópsia. E cada uma destas ausências é uma lição que nunca entra na memória coletiva, o que significa que qualquer conclusão otimista sobre «estamos a aprender» é construída apenas sobre os casos que alguém teve o cuidado, ou o interesse, de documentar.
O buraco regulatório: ninguém obriga a partilhar a lição
Poderia a regulação forçar essa memória? Em teoria, é para isso que servem os regimes de reporte de incidentes. Na União Europeia, o regulamento DORA impõe a um prestador de serviços de criptoativos um calendário apertado: notificação inicial poucas horas depois de classificar o incidente, um relatório intermédio em 72 horas e um relatório final ao fim de um mês. Mas há dois limites decisivos. Primeiro, esses relatórios vão para o regulador, não para o público: alimentam a supervisão, não uma base de dados aberta de lições. Segundo, só se aplicam a entidades reguladas, as bolsas e os custodiantes, e não aos protocolos DeFi autónomos nem aos fabricantes de hardware.
Em Portugal, isto traduz-se num vazio concreto. A CMVM e o Banco de Portugal supervisionam a conduta e o registo dos prestadores ao abrigo da Lei n.º 69/2025, cujo regime transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026. Um utilizador lesado por uma bolsa registada tem a quem se queixar. Mas a Coldcard não é um CASP, não custodia fundos e não cai sob nenhum regulador financeiro; um protocolo DeFi drenado por um bug também não. Para esses, não há obrigação de escrever seja o que for, e muito menos de o partilhar num formato reutilizável.
O contraste com a indústria que a cripto diz imitar é revelador. A cultura de post-mortem sem culpados nasceu da aviação e da engenharia de fiabilidade, mas a aviação juntou-lhe uma peça que a cripto deixou para trás: nos Estados Unidos, o NTSB investiga cada acidente e publica um relatório obrigatório, público e arquivado, que qualquer engenheiro consulta décadas depois. A cripto importou o tom confessional e a cronologia minuciosa, mas não o registo central obrigatório. Ficou com a parte literária da autópsia e deixou de fora a parte que faz o conhecimento acumular-se.
Progresso real ou teatro de segurança?
Então, teatro de segurança ou progresso real? A resposta honesta é «os dois, em partes diferentes».
Do lado do progresso: a queda das perdas totais de 2,3 mil milhões para menos de mil milhões de dólares entre os primeiros semestres de 2025 e 2026 é real, e a descida da reentrância para oitavo lugar é conhecimento genuíno a acumular-se. Onde a falha é um padrão de código visível e reproduzível, a cultura de autópsia comporta-se como ciência: observa, publica, constrói uma ferramenta, e a classe de erro encolhe. Isto não é encenação; é medicina que funciona.
Do lado do teatro: quase tudo o resto. O dinheiro migrou para superfícies (chaves, pessoas, processos) onde a autópsia é vaga e não se codifica em nenhuma ferramenta. Não há memória central, ao ponto de o setor nem concordar sobre quanto foi roubado. O arquivo tem um viés de sobrevivência que exclui precisamente os piores casos. E não há qualquer obrigação de escrever ou partilhar a lição. Mitchell Amador, fundador e CEO da Immunefi, disse-o sobre as auditorias de uma forma que vale para todo o género: «’fomos auditados’ nunca foi o mesmo que ‘estamos seguros’». «Publicámos um post-mortem» também nunca foi o mesmo que «não vai voltar a acontecer».
A imagem mais justa não é a de uma ciência que avança nem a de um ritual vazio. É a de uma medicina desigual: rigorosa e cumulativa para as doenças que consegue ver ao microscópio, e pouco mais do que memória popular para tudo o que acontece fora do campo de visão. E, como o dinheiro se mudou justamente para fora desse campo, o setor pode estar a escrever mais autópsias do que nunca e, ao mesmo tempo, a aprender cada vez menos sobre aquilo que hoje mais lhe custa.
O que separaria aprender de repetir
Se o objetivo é que a próxima década não seja uma repetição da última, o caminho não passa por escrever mais autópsias; passa por torná-las cumulativas. Quatro mudanças fariam diferença real.
Primeiro, uma taxonomia comum e legível por máquina. O Top 10 do OWASP e o painel da DefiLlama são sementes; falta um formato partilhado de causa raiz que permita a qualquer equipa consultar todos os incidentes de uma classe antes de lançar, em vez de reencontrar a lição depois do ataque. Segundo, tratar a segurança de chaves, de pessoas e de processos como cidadã de primeira no post-mortem, e não como um parágrafo envergonhado no fim: é aí que está 76% do dinheiro, e é aí que o género é mais fraco. Terceiro, IA de defesa a ler o corpus inteiro, com a ressalva de que o atacante lê o mesmo. Quarto, normas de divulgação que empurrem os protocolos DeFi, hoje sem qualquer obrigação, para relatórios públicos e padronizados; as regras europeias para DeFi, esperadas para 2027-2028, são a próxima oportunidade de fechar esse buraco.
Nada disto elimina o erro humano, e nenhuma taxonomia impede que alguém, com pressa, ignore a lição que tinha à frente. Mas a diferença entre um setor que aprende e um que apenas repete não está na qualidade das suas autópsias, que já são das melhores de qualquer indústria. Está em transformar milhares de documentos dispersos numa memória que a próxima equipa é obrigada, ou pelo menos capaz, de consultar antes de repetir o erro. Até lá, a cripto vai continuar a fazer o que faz melhor do que ninguém: dissecar, com honestidade notável, o mesmo cadáver de sempre.
Perguntas frequentes
Os post-mortems cripto realmente reduzem os hacks?
Em parte. Para falhas de código bem definidas, sim: a reentrância, que destruiu The DAO em 2016, caiu para oitavo lugar no Top 10 do OWASP de 2026 porque uma década de autópsias produziu ferramentas que a apanham automaticamente. Mas o dinheiro migrou para o comprometimento de chaves e a engenharia social, que representaram cerca de 76% do valor roubado no primeiro semestre de 2026 e que os post-mortems documentam muito mal.
Porque é que os mesmos tipos de ataque continuam a acontecer na cripto?
Porque o conhecimento não se transmite sozinho. Uma autópsia só é útil se a próxima equipa a ler antes de lançar, e não existe uma base de dados central nem uma obrigação de o fazer. A Trail of Bits chegou a sinalizar o risco da Balancer em 2021, quatro anos antes do ataque de 2025, e a lição não foi aplicada.
Qual foi o maior tipo de perda cripto em 2026?
O comprometimento de carteiras e chaves privadas. Segundo a CertiK, foi a categoria mais cara do primeiro semestre de 2026, acima de 444 milhões de dólares, apesar de os bugs de código serem mais frequentes em número. A TRM Labs chega à mesma conclusão: a infraestrutura e as operações foram cerca de 15% dos incidentes mas 76% do valor.
A inteligência artificial vai tornar a cripto mais segura?
Corta dos dois lados. A IA consegue ler todo o código público e todos os post-mortems e encontrar bugs latentes mais depressa do que os humanos, como aconteceu provavelmente com a falha da Coldcard. Mas o atacante corre o mesmo modelo sobre o mesmo código aberto, por isso a IA acelera a corrida para ambos os lados em vez de a decidir.
A CMVM protege quem perde dinheiro num hack cripto?
Só em parte. A CMVM e o Banco de Portugal supervisionam bolsas e custodiantes registados ao abrigo da Lei n.º 69/2025, por isso um lesado por um prestador regulado tem a quem recorrer. Mas os protocolos DeFi autónomos e os fabricantes de hardware, como no caso da Coldcard, não caem sob nenhum regulador financeiro, e para esses o post-mortem público continua a ser o único recurso.
Marcus Okafor escreve sobre cultura, segurança e mercados de criptoativos para o HOGE Wire.