A rotação adiada: domínio do Bitcoin e altcoins até dezembro
O Bitcoin furou os 80.000 dólares, mas o seu domínio continua perto de 58% e o índice de altseason marca 37. A questão de fim de ano não é o preço do BTC, é se a subida chega às altcoins.
Agosto deu aos otimistas a melhor festa em muito tempo. A 26 de agosto, o Bitcoin abriu perto dos 78.500 dólares (cerca de €67.000), depois de na véspera ter furado os 80.000 dólares pela primeira vez em mais de três meses, com um pico intradiário de 81.235 dólares. O gatilho não veio da Reserva Federal, mas do Tesouro dos EUA, que decidiu duplicar o seu programa de recompra de dívida longa, e o resultado foi o melhor mês de agosto para o Bitcoin desde 2017.
Por baixo da manchete, porém, a história é menos redonda. O dinheiro que entrou não se espalhou. O domínio do Bitcoin, a fatia da capitalização total do mercado que pertence à moeda maior, continua na casa dos 58%, e o índice que mede se estamos ou não em altseason marca 37 num total de 100. Quase todos os textos de fim de ano discutem até onde chega o número do Bitcoin. Para quem tem uma carteira com Ethereum, Solana e outras moedas, a pergunta que decide o resultado é outra: a subida alarga-se às altcoins até dezembro, ou fica presa a meia dúzia de nomes?
O que os alvos de preço não vos dizem
A conversa sobre previsões de fim de ano tem sido, quase toda, uma discussão sobre um único número. Os analistas espalham alvos para o Bitcoin que vão dos 25.000 aos 250.000 dólares; o próprio mercado, através das opções e dos mercados de previsão, desconta uma distribuição larga e assimétrica. Já explicámos aqui como ler a previsão que o próprio mercado desconta nos preços e como o mapa de alvos dos analistas foi reprecificado depois do salto de agosto. Tudo isso importa. Mas resolve apenas metade do problema de quem investe.
A razão é simples. Duas carteiras podem partilhar exatamente a mesma opinião sobre o preço do Bitcoin em dezembro e ainda assim terminar o ano com resultados radicalmente diferentes, consoante o que fizerem as altcoins. Se o capital que entra no mercado ficar concentrado no Bitcoin, quem diversificou fica para trás mesmo com o BTC a bater recordes. Se o capital rodar para baixo na curva de risco, do Bitcoin para o Ethereum, depois para as moedas de maior capitalização e por fim para a cauda especulativa, então uma carteira variada pode multiplicar o desempenho do próprio Bitcoin.
Essa passagem de testemunho tem um nome: rotação. E a rotação, não o alvo de preço, é a verdadeira questão em aberto para o resto de 2026. Um investidor pode acertar em cheio na previsão para o Bitcoin e falhar completamente o resultado da sua carteira, porque apostou na largura da subida e a largura não veio.
O termómetro: domínio do Bitcoin e o índice de altseason
Há dois instrumentos simples para medir a rotação. O primeiro é o domínio do Bitcoin, conhecido pela sigla BTC.D: a percentagem da capitalização total do mercado cripto que cabe ao Bitcoin. Quando sobe, o Bitcoin está a ganhar terreno às restantes moedas; quando desce, o dinheiro está a fluir para as altcoins. A 26 de agosto, o domínio situava-se por volta dos 58% a 59%, depois de ter recuado do pico do ciclo, perto dos 66% em meados de 2025, e de ter revisitado os 60,66% em abril de 2026.
O segundo instrumento é o índice de altseason, calculado sobre as 100 maiores moedas. Mede quantas delas superaram o Bitcoin em rendibilidade nos últimos 90 dias. Uma leitura de 75 ou mais confirma uma altseason; abaixo de 25, estamos claramente em época de Bitcoin. O índice marcava 37, ou seja, menos de 40% das cem maiores altcoins bateram o Bitcoin no trimestre anterior. Está a meio caminho do limiar que sinalizaria uma rotação ampla.
Convém uma nota de cautela: o domínio é uma medida relativa e pode ser distorcido pelo peso crescente das stablecoins e por moedas que entram e saem do índice. Não é um oráculo. Mas, lidos em conjunto, os dois números contam a mesma história sem margem para dúvidas: o mercado de agosto de 2026 é liderado pelo Bitcoin, e a rotação clássica ainda não arrancou.
| Indicador | Leitura (26 ago 2026) | O que diz | Nível-chave |
|---|---|---|---|
| Domínio do Bitcoin (BTC.D) | ~58% a 59% | o Bitcoin lidera o mercado | rotação larga precisa de queda sustentada abaixo de 54% |
| Índice de altseason (top-100) | 37 / 100 | menos de 40% das altcoins batem o Bitcoin a 90 dias | 75+ confirma altseason |
| Pico de domínio do ciclo | ~66% (jun 2025) | máximo recente da fatia do Bitcoin | 60,66% revisitado em abr 2026 |
| Rácio ETH/BTC | a recuperar em agosto | rotação estreita para o Ethereum | resistência a vigiar semana a semana |
A rotação clássica, e porque está avariada
Em 2017 e em 2021, a altseason seguiu um guião quase coreografado. Primeiro, o Bitcoin subia e o seu domínio disparava, à medida que o dinheiro novo entrava pela porta mais conhecida. Depois, com os ganhos do Bitcoin a parecerem esticados, o capital rodava para o Ethereum. A seguir, procurava as moedas de grande capitalização, e por fim mergulhava na cauda: tokens minúsculos, memecoins, projetos sem receita, tudo a subir ao mesmo tempo. O domínio do Bitcoin caía a pique enquanto a euforia se espalhava por centenas de nomes.
O motor dessa coreografia era a liquidez de retalho, amplificada por alavancagem. Milhões de pequenos investidores perseguiam o próximo múltiplo, cada um disposto a descer mais um degrau na escada de risco à procura de um retorno maior. Era um fenómeno de multidão, movido a redes sociais, a corretoras acessíveis a partir de qualquer telemóvel e à sensação de que tudo o que tivesse um bilhete de compra ia subir. A rotação não era uma decisão de alocação ponderada; era uma corrida coletiva atrás de quem já tinha subido.
Esse motor está a falhar em 2026, e o motivo não é técnico, é estrutural. Não se trata de o gráfico ainda não ter dado o sinal certo. Trata-se de o comprador que hoje faz o preço já não ser o mesmo. Quando muda quem compra na margem, muda também para onde o dinheiro vai, e a velha escada de risco deixou de ser o caminho por onde a liquidez desce.
O comprador mudou: do retalho para o institucional
Em 2024 e 2025, o mercado ganhou uma cara nova. Os ETF de Bitcoin à vista nos EUA, aprovados em janeiro de 2024, canalizaram dezenas de milhares de milhões de dólares de investidores institucionais e de aforradores tradicionais para dentro do Bitcoin; hoje esses fundos guardam mais de um milhão de bitcoins. Juntaram-se-lhes as chamadas empresas-tesouraria, sociedades cotadas que emitem ações e dívida para comprar cripto e a guardar no balanço. O comprador marginal, aquele cujo próximo lote define o preço, passou a ser institucional.
Aqui está o ponto que muda tudo para as altcoins: os ETF e as empresas-tesouraria são invólucros que só existem para um punhado de ativos. Há ETF de Bitcoin, há ETF de Ethereum e, desde o final de 2025, há ETF de Solana. Não há ETF para as outras milhares de moedas. Um fundo de pensões ou um family office europeu que queira exposição a cripto compra o invólucro que o seu regulador e o seu depositário aceitam, e esse invólucro cobre três ou quatro nomes. O dinheiro institucional entra pela porta estreita e não desce a escada de risco, porque a escada, para ele, simplesmente não existe.
As empresas-tesouraria funcionam como um segundo filtro na mesma direção. Uma sociedade cotada que levanta capital para comprar cripto tem de explicar a acionistas e a agências de notação o que está a comprar, e a resposta defensável é Bitcoin ou, mais recentemente, Ethereum. Ninguém financia uma tesouraria para acumular a 200.ª maior moeda por capitalização. O efeito combinado dos ETF e das tesourarias é uma máquina que aspira liquidez para o topo da tabela e a prende lá, em vez de a deixar escorrer para a cauda como acontecia nos ciclos anteriores.
Matt Hougan, diretor de investimentos da gestora Bitwise, foi direto ao ponto: «Nunca mais haverá uma altseason que inclua todas as altcoins a subir. Essas eras acabaram.» Hougan descreve um mercado bifurcado, em que o capital institucional substitui o retalho como comprador principal. Nesse regime, sobem apenas os ativos que passam no crivo da diligência devida institucional; os restantes, nas suas palavras, «fazem a sua lenta marcha para zero, que é o que merecem». É uma frase dura, mas resume a nova física do mercado: a maré já não levanta todos os barcos.
Ethereum, a única rotação que aconteceu
Se houve rotação em 2026, foi uma só, e foi institucional: do Bitcoin para o Ethereum. Os ETF de Ethereum à vista tiveram, na semana de 17 a 21 de agosto, a maior entrada líquida do ano, cerca de 697 milhões de dólares, com o ETHA da BlackRock a captar a maior fatia. O total de ativos sob gestão nos ETF de Ethereum dos EUA rondava os 14,3 mil milhões de dólares, perto de 4,85% da capitalização da moeda.
Ao mesmo tempo, as empresas-tesouraria viraram-se para o Ethereum. A BitMine Immersion, presidida por Tom Lee, acumulou perto de 3,4% de todo o ETH em circulação, uma concentração que teria sido impensável no ciclo anterior. É a mesma mecânica das tesourarias de Bitcoin, agora aplicada à segunda maior moeda, e ajuda a explicar por que razão a oferta de ETH disponível nas corretoras tem vindo a encolher ao longo do ano.
Os analistas apanharam a onda. Geoffrey Kendrick, responsável de investigação de ativos digitais do Standard Chartered, declarou que «2026 será o ano do Ethereum» e elevou o seu alvo de fim de ano para 7.500 dólares (cerca de €6.430), acima dos 4.000 anteriores, projetando 25.000 dólares até 2028. Aponta como catalisadores o domínio do Ethereum nas stablecoins e na DeFi, a acumulação institucional e a atualização Fusaka da rede.
Convém, ainda assim, manter os pés na terra. A 26 de agosto o Ethereum negociava perto dos 2.470 dólares (cerca de €2.115), ainda cerca de 50% abaixo do seu recorde de aproximadamente 4.900 dólares, atingido em agosto de 2025. A rotação para o Ethereum é real, mas é estreita: um segundo nome ao lado do Bitcoin, não a abertura das comportas. E é uma rotação que se faz por dentro do mesmo invólucro institucional, não pela velha escada de risco que levava o dinheiro até à cauda.
| Ativo | Preço (~26 ago) | Face ao recorde | Invólucro institucional |
|---|---|---|---|
| Bitcoin | ~$78.500 / €67.000 | ~-37% (recorde $126.198, out 2025) | ETF à vista nos EUA desde jan 2024 |
| Ethereum | ~$2.470 / €2.115 | ~-50% (recorde ~$4.900, ago 2025) | ETF à vista + ETF de staking |
| Solana | ~$96,76 / €83 | ~-67% (recorde $295, jan 2025) | ETF à vista + staking (SSK, BSOL) |
| XRP | ~$1,47 | bem abaixo do recorde histórico | produtos cotados; sem ETF à vista maduro |
Solana e o resto: ETF sim, altseason não
A Solana é o terceiro nome a receber o invólucro institucional. Os ETF de Solana à vista foram aprovados em outubro de 2025, tornando-a a terceira criptomoeda a passar essa barreira regulatória, depois do Bitcoin e do Ethereum. E vieram com uma vantagem que os outros dois não tinham à partida: o staking. O primeiro fundo de staking, o SSK da REX-Osprey, arrancou em julho de 2025, e o BSOL da Bitwise ultrapassou mil milhões de dólares em entradas acumuladas a 25 de agosto de 2026.
E, no entanto, a Solana negociava a cerca de 96,76 dólares (perto de €83), uns 67% abaixo do seu recorde de 295 dólares, de janeiro de 2025. É a lição incómoda desta fase do mercado: um ETF é necessário, mas não é suficiente. O invólucro abre a porta ao capital institucional, mas não garante que ele entre em força, nem repõe o preço de forma automática. A procura tem de aparecer, e para a maioria dos ativos ainda não apareceu.
A conclusão importa para toda a cauda do mercado. Se nem a Solana, com ETF, staking e uma comunidade enorme, recuperou o seu recorde, o que se pode esperar das milhares de moedas que não têm invólucro nenhum? Para a esmagadora maioria dos tokens não há fundo cotado, não há tesouraria a acumular, não há porta institucional. Estão entregues à liquidez de retalho que, essa sim, secou. É por isso que o índice de altseason pode ficar preso nos 37 mesmo enquanto os três grandes sobem.
O que separa um token que sobe de um que sangra
Se a maré já não levanta todos os barcos, a pergunta passa a ser: que barcos sobem? A linha divisória, no regime atual, são os fundamentos. Receita real, utilização real, uma estrutura de tokenomics que não dilua os detentores todos os meses. Hougan, de novo, deu um exemplo concreto do que sobrevive: a Hyperliquid, que descreveu como tendo «tokenomics bem desenhada, utilidade genuína, arquitetura de nível institucional».
Não é coincidência que a Hyperliquid seja também um dos poucos protocolos onde cada grande aposta é pública e escrutinada em tempo real. Os projetos que geram comissões verdadeiras, os chamados protocolos de rendimento real, como as principais corretoras descentralizadas e os mercados de crédito on-chain como o Morpho, têm uma história para contar a um alocador que precisa de justificar cada posição a um cliente. Um token sem receita, com uma oferta que jorra todos os meses para os fundadores e para os primeiros investidores, não tem nenhuma.
É esta a bifurcação de Hougan traduzida em prática. De um lado, uma minoria de tokens com negócio a sério, capazes de atrair capital paciente e de justificar uma linha num relatório de gestão. Do outro, uma longa cauda de moedas de baixa flutuação e memecoins que, sem a onda de retalho a sustentá-las, tendem para a irrelevância. A altseason de 2026, se existir, será uma seleção pela qualidade, não uma enchente indiscriminada. Quem investe em altcoins passa a ter de fazer o trabalho que antes o mercado fazia por si: separar o negócio da narrativa.
O falso arranque de agosto
Houve um momento, em agosto, em que pareceu que a rotação ia finalmente arrancar. Entre 19 e 22 de agosto, depois de o presidente Donald Trump ter pressionado publicamente pela aprovação da lei de estrutura de mercado (a CLARITY Act), as altcoins dispararam. A capitalização do mercado excluindo o Bitcoin subiu mais de 24% e voltou a passar a fasquia do bilião de dólares, num acréscimo de cerca de 215 mil milhões. O rácio ETH/BTC quebrou em alta e reacenderam-se as conversas sobre altseason.
Durou pouco. Nos dias seguintes, o mercado arrefeceu, com a capitalização total a recuar cerca de 5,5%, para perto de 2,57 biliões de dólares, e o índice de altseason ficou onde estava, nos 37. O que parecia um incêndio revelou-se uma faísca. As altcoins subiram em bloco durante três dias e devolveram boa parte do ganho na semana seguinte.
O episódio é, ele próprio, o diagnóstico. Nem um catalisador político de primeira linha conseguiu produzir mais do que um salto estreito e efémero nas altcoins. E, quando as altcoins sobem depressa com alavancagem, descem ainda mais depressa: a mecânica das cascatas de liquidação transforma cada correção numa espiral, à medida que as posições alavancadas são fechadas à força umas atrás das outras. Em 2026, os avanços das altcoins são curtos, agudos e reversíveis, exatamente o contrário da maré longa e paciente que definiu as altseasons anteriores.
2019 outra vez? A tese de Ben Cowen
Nem todos acreditam que a rotação chega este ano. O analista Ben Cowen tem defendido que 2026 se parece com 2019, uma fase de fim de ciclo em que as altcoins sangram lentamente face ao Bitcoin, sem um colapso dramático, mas numa erosão constante mês após mês. Se tiver razão, o domínio do Bitcoin não só se mantém como sobe, e a cauda do mercado passa o resto do ano a perder terreno, independentemente do número que o Bitcoin marcar.
A leitura técnica dá-lhe algum apoio. Os níveis a vigiar no domínio do Bitcoin são uma resistência perto dos 61% e um suporte nos 59,63%; o pico do ciclo, nos 66,06% de junho de 2025, é o alvo de quem aposta na continuação do reinado do Bitcoin. Para que uma rotação ampla ganhe forma, o domínio teria de cair de forma sustentada abaixo dos 52% a 54% e ficar lá, algo que não acontece de maneira duradoura desde o ciclo anterior.
Vale a pena lembrar o que foi 2019. Depois do colapso de 2018, o Bitcoin recuperou parte do terreno perdido durante a primeira metade do ano, enquanto a maioria das altcoins continuou a afundar face a ele. O domínio do Bitcoin, que tinha estado perto dos 50% no auge da euforia anterior, subiu de forma quase ininterrupta ao longo do ano. Quem tinha uma carteira de altcoins viu o Bitcoin recuperar e a sua própria posição ficar para trás, mês após mês, sem um único crash que servisse de alarme. É essa erosão silenciosa, e não um desastre súbito, que Cowen tem em mente quando invoca 2019.
A tese de Cowen é o contraponto necessário ao otimismo do Standard Chartered. Uma diz que 2026 é o ano do Ethereum; a outra, que é 2019 outra vez. Entre as duas, o domínio do Bitcoin é o árbitro, e a sua direção nas próximas semanas vale mais para uma carteira diversificada do que qualquer alvo de preço para o Bitcoin isolado.
Os gatilhos que ligam (ou não) a rotação até dezembro
O que faria o domínio cair e a rotação arrancar? Em última análise, liquidez e apetite por risco. E o calendário do último trimestre está cheio de gatilhos que podem inclinar a balança para um lado ou para o outro.
O primeiro é a própria origem da subida de agosto. Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, decidiu duplicar as recompras de dívida longa, de 2 mil milhões para pelo menos 4 mil milhões de dólares por operação, com efeito a partir de 9 de setembro. É uma injeção de liquidez que, para já, correu quase toda para o Bitcoin. A questão é se, à medida que se prolonga e comprime as taxas de longo prazo, transborda para o resto do mercado.
Depois vem a política monetária. O simpósio de Jackson Hole, de 27 a 29 de agosto, traz o discurso de estreia de Kevin Warsh como presidente da Reserva Federal a 28 de agosto. A reunião do banco central americano, a 15 e 16 de setembro, deverá manter as taxas, com os mercados a apontarem sobretudo para uma pausa, enquanto o Banco Central Europeu deverá subir 25 pontos base a 10 de setembro. Essa divergência entre uma Fed em pausa e um BCE a apertar mexe com o euro e, por essa via, com o preço da cripto para um investidor europeu.
E há a regulação. A votação de encerramento do debate sobre a CLARITY Act está marcada para 15 de setembro no Senado, e a SEC pôs a proposta de Regulação de Ativos Cripto em consulta pública a 18 de agosto, com comentários até 20 de outubro. Uma vitória regulatória clara é o tipo de narrativa capaz de puxar o retalho de volta e, com ele, a rotação. A sua ausência é o cenário de Cowen a confirmar-se por inércia.
Três cenários para o fim de ano
Reduzindo tudo ao essencial, o resto de 2026 cabe em três cenários, e o eixo que os separa é o domínio do Bitcoin.
| Cenário | Domínio do Bitcoin | Quem lidera | Altcoins fora do top-3 |
|---|---|---|---|
| Domínio persiste (repetição de 2019) | sobe para 60% a 66% | Bitcoin, sozinho | sangram face ao BTC |
| Rotação estreita (cenário-base) | fica entre 55% e 60% | Bitcoin e Ethereum (Solana atrás) | ganhos seletivos, só com fundamentos |
| Altseason tardia | quebra abaixo de 54% | altcoins de maior capitalização | recuperação ampla, curta e volátil |
O cenário-base é a rotação estreita. O domínio do Bitcoin fica entre os 55% e os 60%, o Bitcoin e o Ethereum lideram, a Solana segue a alguma distância, e a cauda do mercado só recompensa quem tem fundamentos. É a leitura mais coerente com o comprador institucional que hoje faz o preço, e é a que melhor explica o comportamento de agosto: subida concentrada, tentativas de alargamento que não se seguram.
O cenário otimista para as altcoins, uma altseason tardia, precisa de um gatilho concreto: taxas a descer, apetite por risco em alta e uma narrativa (regulatória ou outra) que traga o retalho de volta em força. O cenário pessimista, a repetição de 2019, é o que acontece por inércia se nada disso se materializar: o domínio sobe, e as altcoins passam o outono a sangrar mesmo com o Bitcoin em máximos. Nenhum dos três depende do preço do Bitcoin; todos dependem da largura.
O ângulo europeu: ETP, não ETF, e a fatura fiscal
Há um detalhe que muda a leitura para quem investe a partir de Portugal. A máquina de ETF e de empresas-tesouraria que concentra o domínio no Bitcoin é, em boa parte, um fenómeno americano. Na União Europeia não existe um ETF de cripto à vista ao abrigo do regime UCITS; o investidor de retalho acede sobretudo através de ETP, produtos cotados em bolsa que replicam o preço mas trazem risco de emitente e de contraparte. O invólucro que puxa a rotação nos EUA não está disponível cá na mesma forma, o que reforça a tendência para a exposição europeia se concentrar nos poucos nomes com ETP líquido: Bitcoin e Ethereum à cabeça.
O enquadramento regulatório também é próprio. O período transitório do MiCA terminou a 1 de julho de 2026, sem prorrogações, e em Portugal a supervisão reparte-se entre a CMVM, para a conduta de mercado, e o Banco de Portugal, para o registo dos prestadores de serviços e para as stablecoins. Quem transaciona altcoins através de uma plataforma autorizada tem hoje mais garantias, mas também menos ambiguidade sobre o que é permitido, e as moedas que não encontram uma plataforma disposta a listá-las na Europa ficam ainda mais afastadas do investidor comum.
E há a fatura fiscal, que interage diretamente com a rotação. Em Portugal, as mais-valias de criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a uma taxa autónoma de 28%, ao passo que os ativos detidos há mais de um ano ficam isentos, embora tenham de ser declarados. Perseguir a rotação com trocas frequentes, saltar de moeda em moeda à procura do próximo salto, converte um ganho potencialmente isento numa fatura de 28%. A estratégia mais eficiente do ponto de vista fiscal, comprar e manter os nomes de maior qualidade por mais de um ano, é quase o oposto da caça à altseason. Com as novas regras de reporte europeias (a diretiva DAC8) a entrar em vigor, a margem para ignorar isto está a fechar-se.
Como ler os próximos 90 dias
Para acompanhar a rotação sem depender de manchetes, há quatro indicadores que valem mais do que qualquer alvo de preço isolado:
- O domínio do Bitcoin. Enquanto se mantiver acima dos 58%, a época é do Bitcoin. Uma quebra sustentada abaixo dos 54% é o sinal mais fiável de que a rotação arrancou a sério.
- O índice de altseason. Fixe-se nos 37 de hoje; uma subida consistente em direção aos 75 confirma o que o domínio sugere, e distingue um salto de três dias de uma tendência.
- O rácio ETH/BTC. É o barómetro da rotação estreita: quando sobe, o Ethereum está a liderar; quando cai, nem o segundo nome resiste ao Bitcoin.
- A amplitude das entradas em ETF. Não basta olhar para o total; importa se o dinheiro chega apenas ao Bitcoin ou se começa a espalhar-se pelos fundos de Ethereum e de Solana.
O fim de ano de 2026 não se decide num único preço. Decide-se na largura da subida. Agosto mostrou que a liquidez consegue empurrar o Bitcoin para lá dos 80.000 dólares sem sequer aquecer as altcoins. Até dezembro, a única pergunta que interessa a uma carteira diversificada é se essa liquidez fica onde está, à porta estreita dos grandes, ou se, finalmente, desce a escada. Tudo o resto é ruído em cima dessa resposta.
Perguntas frequentes
O que é o domínio do Bitcoin e porque é que importa?
O domínio do Bitcoin (BTC.D) é a percentagem da capitalização total do mercado cripto que pertence ao Bitcoin. A 26 de agosto de 2026 rondava os 58% a 59%. Importa porque mede a rotação: um domínio a subir indica que o dinheiro se concentra no Bitcoin, enquanto um domínio a descer sinaliza que o capital está a fluir para as altcoins. É o melhor termómetro para saber se uma altseason está ou não a começar.
Vai haver altseason em 2026?
Os sinais de agosto de 2026 apontam para não, pelo menos não uma altseason ampla. O índice de altseason marcava 37 num total de 100, quando são precisos 75 ou mais para a confirmar, e o domínio do Bitcoin mantinha-se elevado. A leitura mais provável é uma rotação estreita, limitada ao Ethereum e talvez à Solana, e não uma subida generalizada de todas as moedas. Para mudar este cenário, o domínio do Bitcoin teria de cair de forma sustentada abaixo dos 54%.
Porque é que as altcoins ficam para trás mesmo com o Bitcoin a subir?
Porque o comprador que hoje faz o preço mudou. Os ETF à vista e as empresas-tesouraria canalizam capital institucional, mas só existem para o Bitcoin, o Ethereum e a Solana. As restantes milhares de moedas dependiam da liquidez de retalho que impulsionou os ciclos de 2017 e 2021, e essa liquidez secou. Sem uma porta institucional e sem o retalho a perseguir múltiplos, a maioria das altcoins não tem quem lhe compre.
O Ethereum vai superar o Bitcoin até ao fim de 2026?
Alguns analistas acreditam que sim. O Standard Chartered declarou 2026 o ano do Ethereum e fixou um alvo de 7.500 dólares para o fim do ano, apoiado nas entradas recorde em ETF de Ethereum e na acumulação por empresas-tesouraria. Ainda assim, a 26 de agosto o Ethereum estava cerca de 50% abaixo do seu recorde, pelo que qualquer superação exigiria uma rotação sustentada que, até agora, foi estreita e intermitente.
Como são tributadas as mais-valias de altcoins em Portugal?
Em Portugal, as mais-valias de criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas a uma taxa autónoma de 28%, na categoria G do IRS, com opção de englobamento. Os ativos detidos há mais de um ano estão isentos, mas têm de ser declarados. Isto penaliza estratégias de rotação com trocas frequentes, que tendem a cair no prazo curto e, portanto, na taxa de 28%.
Priya Reddy cobre mercados, macro e previsões para a HOGE Wire.