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● Predictions & Forecasts

Um ano após o recorde: a perspetiva de fim de ano da cripto

Um ano após o recorde de 6 de outubro de 2025, o Bitcoin recuperou para o valor mais alto desde janeiro, mas ainda longe do topo. O que a volta quase completa diz sobre a perspetiva até dezembro.

Faz hoje um ano. A 6 de outubro de 2025, o Bitcoin tocou os 126.080 dólares e inscreveu o número mais alto da sua história. Doze meses depois, negoceia perto dos 86.200 dólares, cerca de 77.000 euros, o valor mais alto desde janeiro, mas ainda quase um terço abaixo daquele topo. Entre as duas datas coube uma correção que, no pior momento do verão, levou o preço a perto de metade do recorde, uma recuperação arrastada e, nas últimas semanas, um regresso claro do apetite pelo risco. A pergunta de fim de ano deixou de ser «quando volta o recorde»; passou a ser o que esta volta quase completa nos diz sobre o que ainda falta até dezembro.

Um ano, uma volta quase completa

O aniversário do recorde chega num momento simbólico. Segundo a Fortune, o Bitcoin abriu esta terça-feira em 85.750 dólares e negociava acima dos 86.200 ao início da manhã em Lisboa, depois de a Yahoo Finance ter notado que estes são «os valores mais altos desde janeiro», no rescaldo de um dia de recordes em Wall Street. Em euros, com o par EUR/USD perto de 1,117, isso equivale a uns 77.000 euros por moeda.

A distância para o topo depende da divisa em que se conta. Em dólares, o Bitcoin está cerca de 32% abaixo dos 126.080 de há um ano e aproximadamente 30% abaixo do valor de há doze meses, segundo os cálculos da 24/7 Wall St. Para quem conta em euros, a queda é mais suave, à volta de 28% a 29% abaixo do recorde em euros (perto dos 107.700, na CoinGecko), porque o euro enfraqueceu ao longo do ano e amorteceu a correção para uma carteira europeia. É a primeira lição do aniversário: a mesma volta tem profundidades diferentes consoante o fuso e a moeda.

A trajetória entre as duas datas foi tudo menos uma linha reta. Ao recorde de outubro de 2025 seguiu-se uma correção que, no verão de 2026, chegou a aproximar o preço de metade do topo, antes de uma recuperação que ganhou tração em agosto e setembro. Esta volta quase completa, da euforia ao desânimo e de volta ao otimismo, é o pano de fundo de qualquer previsão séria para o resto do ano.

O retrato a 6 de outubro

Antes de olhar em frente, convém fixar o ponto de partida. A tabela resume onde estão os dois principais ativos, a que distância do recorde e com que dimensão.

IndicadorBitcoinEthereum
Preço (aprox.)86.200 USD / 77.000 EUR2.700 USD / 2.413 EUR
Recorde histórico126.080 USD (6 out 2025)4.954 USD (24 ago 2025)
Distância do recorde~32% (USD) / ~28% (EUR)~45%
Variação a 12 meses~-30%negativa
Capitalização~1,73 biliões USD~325 mil milhões USD
Preços aproximados a 6 de outubro de 2026 (Fortune, Yahoo Finance, CoinMarketCap). Valores voláteis e arredondados.

O Ethereum conta uma versão mais dura da mesma história: perto dos 2.413 euros na CoinMarketCap, está cerca de 45% abaixo do recorde de agosto de 2025. Voltaremos a ele mais à frente, porque a «rotação para o Ethereum» que vários bancos anunciaram para 2026 continua, em larga medida, por acontecer.

A queda mais suave de sempre

O dado mais revelador do aniversário não é a distância ao topo, é a comparação com as quedas anteriores. A 24/7 Wall St colocou lado a lado os quatro grandes ciclos do Bitcoin e o contraste é gritante.

Pico anteriorQueda máximaPróximo recordeMeses até recuperar
Dezembro 2013-85%Fevereiro 201738
Dezembro 2017-84%Dezembro 202036
Novembro 2021-77%Março 202428
Outubro 2025 (atual)~-32% até agorapor definir12 e a contar
Quedas e tempos de recuperação dos ciclos do Bitcoin (24/7 Wall St).

Nos três ciclos anteriores, o Bitcoin perdeu entre 77% e 85% do valor depois de cada pico. Desta vez, um ano após o topo, a correção máxima ronda os 32%. É, de longe, a desvalorização pós-recorde mais contida da história do ativo. Para quem entrou no topo de 2021, a dor foi perder mais de três quartos da posição; para quem comprou no topo de 2025, a perda máxima no papel ficou por cerca de um terço.

Esta suavidade não é um detalhe técnico, é a tese central do ano. Se o padrão de boom e crash dos ciclos anteriores tivesse voltado a funcionar, estaríamos a falar de um Bitcoin algures entre os 20.000 e os 30.000 dólares, não acima dos 86.000. A pergunta que atravessa todas as previsões de fim de ano é simples: o que mudou para a queda ter sido tão menos violenta?

Quanto tempo até um novo recorde?

Se a profundidade da queda surpreende pela positiva, o calendário histórico serve de travão ao entusiasmo. Nos três ciclos anteriores, o Bitcoin levou 28, 36 e 38 meses a recuperar cada recorde. Pela mesma vara de medir, bater os 126.080 dólares ainda este ano, a apenas doze meses do topo, seria extraordinariamente rápido.

Há, porém, um argumento a favor de uma recuperação mais veloz: se a queda foi muito menos funda, o caminho de volta é muito mais curto. Recuperar de menos 32% exige uma subida de cerca de 47%; recuperar de menos 80% exigiria multiplicar o preço por cinco. A mesma 24/7 Wall St nota o reverso da medalha: com uma capitalização já perto de 1,73 biliões de dólares, é preciso muito mais capital novo para mover o preço do que nos ciclos em que o Bitcoin valia uma fração disso.

Geoff Kendrick, chefe de research de ativos digitais da Standard Chartered, acredita que o seu próprio alvo de 100.000 dólares para o fim do ano «pode ser conservador» e admite que o Bitcoin possa «testar de novo a marca dos 126.000 dólares», de acordo com a 24/7 Wall St. É a leitura otimista: a volta pode fechar-se mais depressa do que o histórico sugere, precisamente porque nunca se afastou tanto.

O ciclo morreu ou só amadureceu?

O debate que domina 2026 tem nome e autor. Em dezembro de 2025, Matt Hougan, diretor de investimentos da Bitwise, publicou um memorando com um título provocador: «The Four-Year Cycle Is Dead. Welcome to the Ten-Year Grind». A tese: as forças que moviam o velho ciclo de quatro anos (o choque de oferta do halving, os ciclos de juros, as ondas de alavancagem) perderam peso à medida que a adoção institucional amadureceu. ETF à vista, regras mais claras, stablecoins e tokenização empurram o Bitcoin para um regime mais lento e mais constante, de retornos «fortes, mas não espetaculares».

A ironia é que o próprio 2026 testou a tese com dureza. Em fevereiro, quando o preço afundou, foi o mesmo Hougan a apontar «o ciclo de quatro anos» como a principal explicação para as perdas, segundo a CNBC. Ou seja: o quarto ano do ciclo entregou mesmo a sua correção. O que mudou não foi a existência do ciclo, foi a sua amplitude.

A síntese que o aniversário sugere é esta: o ciclo não morreu, foi almofadado. Os mesmos compradores institucionais que travaram a subida em 2025 travaram a descida em 2026. Para a perspetiva de fim de ano, isto importa mais do que qualquer alvo: significa correções menos profundas, mas também topos menos explosivos. Quem espera repetir o verão de 2021 vai continuar à espera.

O comprador mudou: o regresso dos fluxos

A prova de que o comprador marginal é hoje institucional está nos fluxos dos ETF à vista. Depois de um primeiro semestre doloroso, que deixou um défice acumulado de cerca de 5,8 mil milhões de dólares a meio de julho, os fluxos viraram em agosto e aceleraram em setembro. A semana que terminou a 25 de setembro registou um recorde de entradas de 2,4 mil milhões de dólares, e a semana seguinte, até 2 de outubro, somou mais 241 milhões, a terceira consecutiva no positivo, segundo a Crypto Briefing.

O detalhe que conta é a concentração: só o IBIT, da BlackRock, captou 450 milhões de dólares nessa semana e leva já cerca de 65,73 mil milhões acumulados desde o lançamento, com o conjunto dos ETF à vista a somar perto de 108,89 mil milhões em ativos. Não é dinheiro de retalho a perseguir uma vela verde; é alocação institucional a entrar de forma gradual. É o mesmo fenómeno que analisámos ao destrinçar o volume invisível do mercado de balcão, onde as grandes ordens passam longe dos livros públicos.

Para o fim do ano, a leitura é dupla. Por um lado, fluxos consistentes dão um chão ao preço que os ciclos anteriores não tinham. Por outro, tornam o mercado refém de uma variável nova: se as entradas em ETF secarem, como secaram no primeiro semestre, desaparece o principal motor da recuperação. A consistência dos fluxos, semana após semana, é hoje o sinal a vigiar com mais atenção do que qualquer anúncio solto.

A Fed, a variável que manda

Se há uma coisa que o ano ensinou, é que o preço da cripto se decide tanto em Washington como nos livros de ordens. A 16 de setembro, a Reserva Federal subiu os juros em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, numa votação de 12 a 0, a primeira subida desde 2023. O presidente Kevin Warsh não deixou margem para dúvidas sobre o tom: «A verdade pura e simples é que a inflação está demasiado alta, e há demasiado tempo», declarou, citado pela CNBC.

Depois, os dados viraram. O relatório de emprego de setembro, divulgado a 2 de outubro, mostrou apenas 29.000 postos criados, muito abaixo do esperado, com a taxa de desemprego a subir para 4,2%. O efeito foi imediato nos mercados de taxas: a probabilidade de uma subida na reunião de 27 e 28 de outubro desabou, e os traders passaram a ver pouca hipótese de um aperto em outubro, como noticiou a CNBC. Uma pausa é hoje o cenário base, com cerca de 84% de probabilidade.

Dezembro, porém, continua vivo. Os mercados de previsão dão entre 65% e mais de 75% de probabilidade a uma subida na reunião de 8 e 9 de dezembro, segundo a Kalshi e a ferramenta FedWatch. É esta a tensão que define o fim do ano: uma Fed dependente dos dados, que travou em outubro mas pode voltar a apertar em dezembro. Já tínhamos traçado este fio na análise sobre a cripto sob um Fed que aperta, e a história de outubro foi precisamente a do mercado a reavaliar essa aposta.

O corredor de catalisadores até dezembro

O último trimestre de 2026 é um corredor apertado de datas marcadas. Além das reuniões da Fed, há um encadeamento político e regulatório que pode mexer com os fluxos e com o sentimento. A tabela ordena os principais marcos.

DataEventoPorque importa
25 out2.ª volta das presidenciais no BrasilDefine o rumo do maior mercado cripto da América Latina
27-28 outReunião da Fed (sem projeções)Pausa provável; o foco vai para o tom de Warsh
30 outPrazo de licenciamento VASP no BrasilCorta trilhos bancários a plataformas não autorizadas
3 novEleições intercalares nos EUAComposição do Congresso; supervisão contra legislação
8-9 dezReunião da Fed (com projeções e dot-plot)O dia mais ruidoso do trimestre
11 dezTeto de financiamento do governo dos EUARisco de shutdown e de vazio de dados
Calendário do quarto trimestre de 2026 (Reserva Federal, Decrypt, cobertura eleitoral).

O marco menos badalado pode ser o mais concreto para uma carteira em euros. A 30 de outubro expira o prazo para os prestadores de serviços de ativos virtuais se licenciarem junto do Banco Central do Brasil; a partir daí, bancos e instituições de pagamento ficam proibidos de processar fluxos de plataformas não autorizadas, num mercado avaliado em cerca de 319 mil milhões de dólares, como explica a Decrypt. É o tipo de evento que mexe em stablecoins e em rampas de acesso, não em manchetes.

Ainda assim, o dia verdadeiramente alto do calendário não é uma eleição, é a reunião da Fed de 8 e 9 de dezembro, a única do trimestre com projeções económicas e dot-plot atualizado, segundo o calendário oficial. Como argumentámos ao mostrar que os dados ganham às urnas, é a política monetária, e não o resultado eleitoral, que costuma fixar o tom do preço.

O mapa dos alvos: Citi, Standard Chartered, Bernstein

A fotografia dos alvos de preço resume bem o ano. As três casas que mais falam de Bitcoin cortaram as suas metas ao longo de 2026, à medida que a realidade desmentia as projeções do início do ano. Mas, nas últimas semanas, uma delas inverteu a marcha.

CasaAlvo (USD)Alvo (EUR aprox.)Subida necessária
Standard Chartered100.000~89.500+16%
Citi113.000~101.000+31%
Bernstein125.000~112.000+45%
Recorde de 2025126.080~112.900+46%
Alvos para o fim do ano ou a 12 meses e subida necessária desde cerca de 86.000 dólares (24/7 Wall St; Citi via Crypto Briefing). EUR convertido a 1,117.

O Citi foi o caso mais dramático. Começou 2026 a apontar a 143.000 dólares, cortou para 112.000, depois para 82.000 em julho, e a 1 de outubro voltou a subir a meta para 113.000 dólares a doze meses, citando a atividade on-chain, o enquadramento macro e o regresso dos fluxos de ETF, segundo a Crypto Briefing. A letra pequena é reveladora: o banco assume apenas cerca de 5 mil milhões de dólares de entradas em ETF ao longo do ano para justificar esse alvo. A Bernstein, por seu lado, cortou de 150.000 para 125.000 dólares a 5 de outubro.

Nenhum destes números é uma promessa. São cenários condicionados, e a lição do ano é que foram revistos em baixa muito mais vezes do que em alta. Para quem quer ler estes alvos sem cair na armadilha do otimismo, vale a pena recordar como os dados fracos reanimaram os seis dígitos no discurso dos analistas, depois de meses a cortar.

E o Ethereum? O ano que ainda não foi

Se o Bitcoin fez uma volta quase completa, o Ethereum ficou a meio caminho. A segunda maior criptomoeda negoceia perto dos 2.413 euros, cerca de 45% abaixo do seu recorde de 4.954 dólares, atingido em agosto de 2025. A promessa de que 2026 seria «o ano do Ethereum», repetida por vários analistas, continua por cumprir.

Os alvos refletem a divisão. O Citi aponta a 3.028 dólares para o Ether, um número modesto que implica uma subida de pouco mais de 10% face ao preço atual. Geoff Kendrick, da Standard Chartered, tem sido muito mais otimista, tendo chegado a chamar 2026 «o ano do Ethereum» numa aposta em stablecoins e DeFi que o mercado, por agora, não validou. A distância entre as duas visões é enorme, e é essa a história do ativo este ano: muito potencial narrativo, pouca entrega no preço.

Para o fim do ano, o Ethereum é a aposta de maior beta: se os fluxos institucionais se alargarem para além do Bitcoin, é o primeiro candidato a beneficiar; se o apetite pelo risco recuar, é o primeiro a sofrer. Os fluxos dos ETF de Ether, ainda muito menores do que os do Bitcoin, são o termómetro a seguir.

O euro, o dólar e a conta que muda

Para um investidor português, há uma camada que os alvos em dólares costumam esconder: o câmbio. Há um ano, quando o Bitcoin marcou o recorde, o euro valia perto de 1,17 dólares; hoje vale cerca de 1,117. O euro enfraqueceu, e isso tem duas consequências diretas para quem conta em euros.

A primeira já a vimos: a queda desde o topo foi mais suave em euros (cerca de 28%) do que em dólares (cerca de 32%), porque um dólar mais forte valoriza, em euros, um ativo cotado em dólares. A segunda é que os alvos das casas de investimento, quando convertidos, ficam mais altos em euros do que uma leitura apressada sugere: os 100.000 dólares da Standard Chartered valem hoje perto de 89.500 euros, e não 85.000.

O pano de fundo monetário europeu também conta. O Banco Central Europeu subiu a taxa de depósito para 2,50% em setembro, retomando um ciclo de aperto para conter a inflação, como se confirma nas suas taxas de referência. Uma Europa que também aperta ajuda a explicar por que o euro não caiu mais, e por que a divergência entre Frankfurt e Washington é, ela própria, uma variável de fim de ano.

Três cenários até ao fim do ano

Em vez de um número único, faz mais sentido pensar em cenários condicionados ao que a Fed e os dados fizerem. A tabela esboça três caminhos plausíveis até dezembro.

CenárioGatilho principalBitcoin (aprox.)
AltaDesinflação limpa, Fed em pausa prolongada, fluxos de ETF fortesretesta 90.000-100.000 EUR e reaproxima o recorde
BaseDados mistos, Fed dependente dos dados, dezembro em aberto70.000-85.000 EUR, lateral com viés de alta
BaixaReaceleração da inflação, subida em dezembro, fluxos invertem60.000-70.000 EUR, uma segunda perna da correção
Cenários ilustrativos, não recomendações de investimento. Níveis em euros.

O cenário de baixa é o que mais depende da alavancagem. Numa recuperação construída em parte sobre futuros e posições alavancadas, um susto macro pode desencadear uma cascata de liquidações que aprofunda a queda muito para além do que os fundamentais justificariam. Foi exatamente essa dinâmica que descrevemos ao analisar a cauda que abana o cão no mercado de derivados: é a ponta especulativa que, por vezes, dita o preço à vista.

O cenário base continua a ser o mais provável à luz dos dados de hoje: uma Fed que pausou em outubro mas mantém dezembro em aberto, fluxos de ETF positivos mas não eufóricos, e um preço que oscila num canal largo sem reconquistar o recorde. É um fim de ano de consolidação, não de fogo de artifício.

Portugal: o que muda para quem investe em euros

Para um investidor em Portugal, a moldura regulatória estabilizou em 2026 e convém tê-la presente antes de tomar qualquer decisão de fim de ano. O regime MiCA aplica-se em pleno desde 30 de dezembro de 2024, e o período transitório português terminou a 1 de julho de 2026, sem prorrogações.

A lei nacional que concretiza o MiCA é a Lei n.º 69/2025. Reparte os papéis: o Banco de Portugal autoriza e supervisiona os prestadores de serviços de criptoativos (CASP) e trata dos aspetos prudenciais e das stablecoins, enquanto a CMVM fica com a conduta de mercado, as ofertas e o abuso de mercado. O incumprimento pode custar coimas até cinco milhões de euros.

No plano fiscal, a regra prática mantém-se: as mais-valias de criptoativos detidos menos de 365 dias são tributadas a 28%; acima de um ano de detenção, os criptoativos simples ficam isentos de imposto sobre as mais-valias. A partir de 2026, a diretiva DAC8 reforça a troca automática de informação entre administrações fiscais, pelo que a ideia de ganhos invisíveis ao fisco é, cada vez mais, uma ilusão. Dois lembretes finais: em Portugal, a exposição de retalho a um produto cotado faz-se via ETP, e não através de um ETF à vista em formato UCITS (que a regulação europeia não permite para um único ativo); e os perpétuos e outros derivados são tratados como CFD ao abrigo da DMIF II, com a alavancagem de retalho limitada a 2:1.

O que vigiar nas próximas semanas

Reduzido ao essencial, o fim de ano da cripto é uma lista curta de sinais. Vale mais segui-los do que tentar adivinhar um número.

  • O tom de Warsh na reunião de 27 e 28 de outubro: uma pausa já está no preço; o que conta é se a porta de dezembro fica aberta ou entreaberta.
  • A consistência dos fluxos dos ETF: três semanas positivas confirmam o chão; uma inversão retira o principal motor da recuperação.
  • O dot-plot de 8 e 9 de dezembro: a única fotografia atualizada das intenções da Fed antes de 2027.
  • Os fluxos de Ether: o teste para saber se a recuperação se alarga para além do Bitcoin.
  • O dólar: um EUR/USD a enfraquecer suaviza a conta em euros, mas um dólar forte costuma ser vento contrário para os ativos de risco.
  • O nível dos 126.000 dólares: o recorde é, agora, tanto um alvo técnico como um símbolo.

A conclusão do aniversário é sóbria. Um ano depois do topo, o Bitcoin não recuperou o recorde, mas também não repetiu os colapsos de 80% do passado. Fez uma volta quase completa, mais curta e menos violenta, e entra na reta final de 2026 dependente de uma só pergunta: o que fará a Fed em dezembro. A previsão de fim de ano continua a ser, acima de tudo, uma previsão macro.

Perguntas frequentes

O Bitcoin vai voltar ao recorde em 2026?

Pouco provável até ao fim do ano. O Bitcoin negoceia perto dos 86.000 dólares, cerca de 32% abaixo do recorde de 126.080 dólares de 6 de outubro de 2025. Historicamente, o ativo levou entre 28 e 38 meses a bater cada pico anterior, pelo que um novo recorde ainda em 2026 seria muito rápido face ao padrão histórico.

Porque é que o Bitcoin caiu desde o recorde de outubro de 2025?

A queda faz parte do padrão de quarto ano do ciclo, mas foi muito mais suave do que no passado: cerca de 32%, contra 77% a 85% nos três ciclos anteriores. A diferença atribui-se à maturação institucional, com ETF à vista, tesourarias empresariais e regras mais claras a amortecerem tanto a subida como a descida.

Quais são os alvos de preço do Bitcoin para o fim de 2026?

As grandes casas cortaram alvos durante 2026. No início de outubro, a Standard Chartered apontava a 100.000 dólares, o Citi a 113.000 e a Bernstein a 125.000. Todos exigem subidas de 16% a 45% face ao preço atual, e o Citi assume apenas cerca de 5 mil milhões de dólares de entradas em ETF para lá chegar.

A Fed vai subir os juros em dezembro de 2026?

O mercado atribui pouca probabilidade a uma subida na reunião de 27 e 28 de outubro, cerca de 84% de pausa, depois do fraco relatório de emprego de setembro. Dezembro continua em aberto: os mercados de previsão dão cerca de 65% a 75% de probabilidade a uma subida na reunião de 8 e 9 de dezembro.

Como são tributados os ganhos com cripto em Portugal?

Em Portugal, os ganhos com cripto detida menos de 365 dias são tributados a 28%; acima de um ano de detenção, as mais-valias de criptoativos simples ficam isentas. A CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal autoriza os prestadores de serviços (CASP), ao abrigo da Lei n.º 69/2025 e do MiCA.

Por Tomás Almeida, editor de mercados da HOGE Wire.

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