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● Culture & Long-reads

O teatro das DAO: poder, tesouros e a ilusão do voto

De The DAO à Mango, de Arbitrum aos Nouns, a promessa de organizações sem chefes deu numa década de golpes, votos comprados e fugas com o tesouro. Um retrato da governação cripto e do que aí vem.

A sigla soa a manifesto. DAO, de decentralized autonomous organization, prometia o fim do chefe: um cofre coletivo governado por código e por votos, sem conselho de administração, sem sede, sem ninguém a mandar. Dez anos depois do primeiro grande projeto do género, o balanço é menos utópico e muito mais entretido. As DAO produziram tanta inovação como intriga: golpes executados num único bloco, fundações a moverem mil milhões antes de a comunidade votar, tesoureiros com cadastro e votações em que uma mão-cheia de carteiras decide tudo enquanto o resto assiste.

Este é um retrato da década de drama que as DAO deixaram para trás, e do que ela ensina sobre governação cripto em 2026. Não é uma lista de vilões; é um padrão. Sempre que dinheiro coletivo encontra regras rígidas e incentivos desalinhados, o resultado tende a repetir-se. Vamos aos casos, aos números verificados e às consequências, incluindo o que a CMVM e o regulamento europeu MiCA passam a exigir a quem quiser operar uma DAO com um pé na Europa.

Uma utopia sem chefes que virou novela

A ideia central de uma DAO é simples: em vez de uma empresa com donos e gestores, um protocolo é controlado por quem detém o seu token de governação. Cada token é um voto. As propostas são publicadas, votadas on-chain e, se passarem, executadas por contratos inteligentes. Na teoria, é coordenação sem intermediários. Na prática, transformou-se muitas vezes naquilo a que Greg Solano, presidente executivo da Yuga Labs, chamou sem rodeios, ao propor o fim da ApeCoin DAO em 2025, «um teatro de governação lento, ruidoso e muitas vezes pouco sério».

O drama não é um acidente de percurso, é uma característica do desenho. Junte-se um cofre com centenas de milhões, um livro de regras que não perdoa erros e uma multidão anónima de detentores com incentivos diferentes, e o conflito deixa de ser hipótese para passar a ser calendário. Quem constrói estes sistemas sabe-o bem: a fronteira entre «comunidade» e «os que efetivamente decidem» é muito mais estreita do que o marketing sugere, um tema que exploramos em o culto do builder. As DAO não falharam por falta de idealismo. Falharam, e por vezes brilharam, precisamente onde o idealismo encontrou o dinheiro.

O que é uma DAO e porque é que o drama vinha no código

Antes dos escândalos, convém perceber o mecanismo. Numa DAO, o poder mede-se em tokens. Quem tem mais tokens tem mais votos, um modelo conhecido como coin voting. É eficiente e transparente, mas concentra poder em quem tem mais capital e separa o direito de decidir do dever de sofrer as consequências. Vitalik Buterin, cofundador da Ethereum, resumiu o problema num ensaio de 2021 que continua a ser leitura obrigatória: «pequenos grupos de participantes ricos (‘baleias’) são melhores a executar decisões com sucesso do que grandes grupos de pequenos detentores». Pior, escreveu, o token junta duas coisas que deviam estar separadas, o interesse económico no protocolo e o direito de o governar, e essas duas coisas «são muito fáceis de desagregar», abrindo a porta à compra de votos.

A escala do fenómeno ajuda a explicar por que tanto dinheiro atrai tanto conflito. Já em 2023, o agregador DeepDAO contabilizava mais de 12 000 DAO, com tesouros somados na ordem dos 25 mil milhões de dólares (cerca de 23 mil milhões de euros). Hoje, o setor continua a gerir dezenas de milhares de milhões de euros em cofres on-chain, repartidos por projetos como a Uniswap, a Sky (a antiga MakerDAO), a Optimism, a Arbitrum e a Lido. Cada um desses cofres é, ao mesmo tempo, um bem comum e um alvo. E a história que se segue é, no fundo, a história de todas as formas de atacar, capturar ou simplesmente esvaziar um bem comum.

2016: The DAO e o pecado original

Tudo começou com um projeto tão ambicioso que se chamava apenas «The DAO». Lançado em 2016 sobre a Ethereum, angariou perto de 12,7 milhões de ETH, a maior campanha de financiamento coletivo da sua época. A 17 de junho de 2016, um atacante explorou uma falha de reentrancy na função de saída do contrato e começou a drenar fundos. Saíram cerca de 3,6 milhões de ETH, aproximadamente um terço do cofre, então avaliados em cerca de 55 milhões de euros.

A resposta partiu a comunidade ao meio. Para recuperar o dinheiro, os programadores da Ethereum propuseram um hard fork que, na prática, reescrevia o livro-razão para anular o roubo. A 20 de julho de 2016, a maioria (numa votação de fraca participação) aprovou-o, e a rede dividiu-se: a corrente com o resgate passou a ser a Ethereum que hoje conhecemos, e a corrente original, fiel ao princípio de que «o código é lei», sobreviveu como Ethereum Classic. O autor nunca foi confirmado; em 2022, a Forbes noticiou que o provável responsável seria Toby Hoenisch, cofundador da TenX, que negou o envolvimento.

The DAO deixou duas heranças. A primeira, técnica: o reentrancy tornou-se o erro mais estudado da história dos contratos inteligentes. A segunda, filosófica e muito mais duradoura: se uma comunidade pode reverter um roubo por votação, então «o código é lei» é um slogan, não uma constituição. Essa tensão, entre a regra imutável e o julgamento humano, está no coração de quase todos os dramas que se seguiram.

«O código é lei» até dar prejuízo: o caso Mango Markets

Poucos episódios testaram tanto esse slogan como a Mango Markets, um perp DEX na Solana governado por uma DAO. A 11 de outubro de 2022, Avraham Eisenberg manipulou o preço do token MNGO nos mercados de futuros perpétuos, inflacionando-o mais de 1 000% em poucos minutos através de contas que negociavam entre si, e usou esse colateral empolado para pedir emprestado quase tudo o que estava no cofre. O prejuízo rondou os 110 milhões de dólares (cerca de 110 milhões de euros à cotação de então).

O que se seguiu foi surreal. Eisenberg devolveu cerca de 67 milhões através de um acordo de governação (votado pela própria DAO, sob coação de facto) e ficou com o resto. Depois, publicamente, chamou à operação «uma estratégia de trading altamente lucrativa» e defendeu que todas as suas ações tinham sido «legais, em mercado aberto, usando o protocolo tal como foi concebido». Era o argumento «o código é lei» levado ao tribunal da opinião pública, a defesa preferida de quem transforma uma falha alheia numa oportunidade própria.

O tribunal real, porém, foi mais complicado. Eisenberg foi condenado em abril de 2024 por fraude e manipulação, mas um juiz federal anulou as condenações em maio de 2025, por considerar que Nova Iorque não era a jurisdição adequada e que faltava prova de uma falsa representação num sistema sem regras explícitas. A acusação recorreu e o caso continua em aberto. Eisenberg permanece detido, mas por um processo separado, sem relação com a Mango, ligado à posse de material de abuso sexual de menores. A lição para as DAO ficou: um protocolo «sem regras» pode ser, aos olhos de um juiz, exatamente isso, um lugar onde é difícil provar que houve batota.

Um golpe num só bloco: Beanstalk e a governação comprada

Se a Mango mostrou como manipular um mercado, a Beanstalk Farms mostrou como comprar uma DAO inteira em segundos. A 17 de abril de 2022, um atacante pediu um flash loan (empréstimo instantâneo que tem de ser devolvido na mesma transação) de cerca de mil milhões de dólares à Aave, usou-o para adquirir uma supermaioria dos tokens de governação da Beanstalk e, com esse poder de voto acabado de comprar, executou uma proposta maliciosa que já estava submetida, transferindo os fundos do protocolo para si. Tudo isto num único bloco, antes de devolver o empréstimo. O prejuízo foi de cerca de 182 milhões de dólares (à volta de 165 milhões de euros), com um lucro líquido estimado em cerca de 76 milhões de dólares para o atacante, segundo a Rekt.

Houve um detalhe quase teatral: a par da proposta maliciosa (a BIP-18), o atacante submeteu uma proposta-isco (a BIP-19) que prometia doar 250 000 dólares em cripto à Ucrânia, numa tentativa de parecer benevolente. O dinheiro roubado foi depois lavado através da Tornado Cash. A Beanstalk expôs a falha estrutural do coin voting sem período de segurança: se o voto é o token e o token se pode alugar por um instante, então a governação é tão segura quanto o custo de a alugar.

Nem todos os ataques de governação precisam de flash loans. Em julho de 2024, um grupo apelidado de «Golden Boys» conseguiu aprovar na Compound uma proposta para desviar cerca de 499 000 tokens COMP (à volta de 22 milhões de euros) do cofre para um produto que controlavam, comprando COMP suficiente para inclinar a votação. Passou com uns escassos 51%. Perante o clamor, e uma queda de cerca de 6,7% no preço do COMP, o grupo acabou por retirar a proposta num acordo. A fronteira entre «participação legítima» e «ataque» pode ser, afinal, apenas o tamanho da carteira.

A fundação contra a comunidade: Arbitrum e os mil milhões

Nem todo o drama vem de fora. Muitas vezes, o conflito é entre a fundação que criou o projeto e a comunidade a quem prometeu o poder. O caso mais citado é o da Arbitrum, uma das maiores redes de camada 2 da Ethereum. Em março de 2023, dias depois de distribuir o seu token ARB, a Arbitrum Foundation apresentou a sua primeira proposta de governação, a AIP-1, que pedia a alocação de 750 milhões de ARB, quase mil milhões de euros à cotação da altura, para a fundação.

O problema não foi só o montante. Investigadores on-chain descobriram que a fundação já tinha movido os tokens para uma carteira própria e já tinha começado a gastá-los antes de a votação terminar: cerca de 40 milhões de ARB emprestados a «um ator sofisticado dos mercados financeiros» e outros 10 milhões convertidos em dinheiro. Quando a comunidade percebeu que estava a votar num facto consumado, a revolta foi imediata. A proposta foi chumbada por mais de 76% dos votos, e a fundação viu-se obrigada a admitir que a AIP-1 fora mal desenhada, defendendo que era «uma ratificação, e não um pedido», uma frase que só piorou a perceção de arrogância.

A crise resolveu-se com uma cedência: a AIP-1 foi partida em duas, com um bloqueio dos tokens por quatro anos e mais transparência orçamental. Mas o episódio deixou uma pergunta desconfortável, a mesma que persegue tantas redes cujo roteiro técnico depende de decisões de governação, como o calendário das taxas nas camadas 2: se a fundação controla os tokens, a agenda e a informação, o que resta ao voto da comunidade além de encenação?

Aragon e os «abutres»: a tomada que a fundação travou

Se na Arbitrum a comunidade acusou a fundação, na Aragon foi a fundação que acusou a comunidade. A Aragon Association, que durante anos construiu ferramentas para criar DAO, preparava-se em 2023 para entregar o seu cofre de cerca de 185 milhões de euros aos detentores do token ANT. A meio do processo, travou tudo. Segundo a associação, um grupo de investidores tinha começado a acumular ANT para se apoderar do tesouro, numa manobra que classificou como um «ataque de engenharia social e de 51% coordenado». Chamou aos alegados responsáveis «RFV Raiders» e ligou-os à gestora de ativos Arca.

A Aragon baniu vários membros do seu Discord, cancelou a entrega do cofre e reconverteu a DAO num simples programa de bolsas. A Arca respondeu que a narrativa era falsa. Jeff Dorman, diretor de investimentos da gestora, escreveu que «a narrativa de um ataque de 51% está, na verdade, incorreta», argumentando que eram detentores legítimos a participar na governação que lhes fora prometida. Quem tinha razão? Depende de onde se traça a linha entre «ativismo de acionistas» e «assalto». Em novembro de 2023, a Aragon Association acabou por se dissolver e distribuir cerca de 86 343 ETH, à volta de 145 milhões de euros, pelos detentores de ANT, encerrando um dos casos mais amargos da história das DAO.

Rage quit: quando os donos levam o tesouro

Às vezes o drama não é um ataque, é um divórcio. Os Nouns, um projeto de NFT que leiloa uma imagem por dia e junta o produto num cofre comunitário, tinham acumulado uma pequena fortuna em ETH. Em 2023, uma parte dos detentores, muitos deles arbitragistas que tinham comprado Nouns abaixo do valor em cofre que cada um representava, cansou-se do que dizia ser esbanjamento e decidiu sair, levando a sua quota-parte. O mecanismo chamava-se, apropriadamente, fork.

A 15 de setembro de 2023, o rage quit concretizou-se. Segundo a Decrypt, saíram cerca de 16 757 ETH, à volta de 25 milhões de euros, com 472 dos 846 Nouns a aderirem à cisão, cada um a resgatar cerca de 35,5 ETH. Boa parte desse valor foi rapidamente vendida, o que sugere que, para muitos, a «saída por princípio» era sobretudo um bom negócio. Seneca, um dos contribuidores do projeto, tirou a moral da história: «se não usares o tesouro, ele acabará inevitavelmente capturado».

O episódio dos Nouns é um estudo de caso sobre tesouros cripto, um ativo que é preciso saber ler antes de investir ou de participar, como explicámos em o fim do prémio. Um cofre cheio é uma bênção e uma maldição: atrai construtores, mas também quem só quer a chave para o abrir e desaparecer.

ConstitutionDAO: 41 milhões e um leilão perdido

Nem todo o drama das DAO é sórdido. Alguns são quase comoventes. Em novembro de 2021, um grupo de estranhos na internet decidiu comprar um dos raros exemplares originais da Constituição dos Estados Unidos, que iria a leilão na Sotheby’s. Em menos de uma semana, a ConstitutionDAO angariou 11 613 ETH de mais de 17 000 contribuidores, algo como 47 milhões de dólares (cerca de 41 milhões de euros), uma demonstração inédita de coordenação espontânea.

E depois perderam. A 18 de novembro, o bilionário Ken Griffin, fundador da Citadel, superou a licitação e ficou com o documento por 43,2 milhões de dólares, cerca de 38 milhões de euros. O sonho coletivo desfez-se, e a ressaca foi cara: como as devoluções tinham de ser feitas on-chain, as comissões de gás da Ethereum devoraram uma parte enorme das contribuições mais pequenas. Segundo a Vice, muitos doadores viram a maior parte do seu dinheiro evaporar-se em taxas, e a mediana das doações rondava apenas os 200 dólares. Ficou o token PEOPLE como recordação e um aviso: uma DAO pode falhar não por má-fé, mas por fricção técnica pura.

Wonderland: o tesoureiro que era um fantasma da Quadriga

De todos os dramas, poucos foram tão cinematográficos como o da Wonderland, uma DAO de finanças descentralizadas na Avalanche, parte do universo «Frog Nation» do fundador Daniele Sestagalli. Em janeiro de 2022, o investigador on-chain conhecido por zachxbt revelou que o gestor do tesouro da Wonderland, que operava sob o pseudónimo «0xSifu», era na verdade Michael Patryn, cofundador da falida corretora canadiana QuadrigaCX e um criminoso condenado que antes se chamara Omar Dhanani.

Ou seja: um cofre com centenas de milhões estava, sem o conhecimento da comunidade, nas mãos de alguém ligado a um dos maiores colapsos da história cripto. O mais surpreendente veio a seguir. Sestagalli admitiu que sabia. «Eu estava ciente disto e decidi que o passado de um indivíduo não determina o seu futuro», escreveu. O token da Wonderland afundou, e uma votação da comunidade retirou «Sifu» da gestão do tesouro com cerca de 87,56% dos votos a favor.

A Wonderland é o exemplo perfeito de como a retórica de um fundador carismático pode encobrir riscos enormes, um guião que se repete com uma regularidade quase previsível antes de cada colapso, como dissecámos em o guião do fundador. «Descentralização» não significa nada se ninguém sabe quem tem as chaves.

Baleias, apatia e a plutocracia de gravata

Por trás dos escândalos ruidosos há um problema silencioso e muito mais comum: a maioria dos detentores simplesmente não vota. A participação nas votações raramente ultrapassa uma pequena fração dos tokens em circulação, o que significa que um punhado de grandes carteiras decide quase tudo. Quando a MakerDAO se rebatizou como Sky, em agosto de 2024, numa reformulação polémica batizada «Endgame» pelo fundador Rune Christensen, a votação para manter a nova marca foi reveladora: segundo a The Block, apenas quatro entidades representaram cerca de 80% dos votos. Não é descentralização; é uma plutocracia de gravata.

O próprio Christensen viria a reconhecer que a jogada correu mal, admitindo que «o token SKY realmente não fez o que eu esperava». A concentração de poder não é apenas um risco de captura; é também um risco de má decisão, porque poucas mãos tomam decisões de milhares de milhões com pouca contestação.

Nem tudo, porém, é cinismo. Há casos em que a governação funcionou, ainda que à custa de muito atrito. Depois de um ataque de cerca de 75 milhões de euros à Rari Capital, em abril de 2022, a Tribe DAO passou por quatro votações contraditórias sobre se devia reembolsar as vítimas, incluindo um veto de um insider, antes de aprovar o reembolso total com 99% dos votos, em setembro de 2022. O fundador Joey Santoro tirou a conclusão certa: «as DAO não deviam ter de tomar decisões destas depois do facto». A governação sem regras claras acaba sempre a improvisar sob pressão.

A conta legal: Ooki DAO e o fim da irresponsabilidade

Durante anos, a promessa implícita de muitas DAO era não só a ausência de chefe, mas a ausência de responsável legal. Se ninguém manda, ninguém responde. Um tribunal norte-americano acabou com essa fantasia. Em 2022, a CFTC, o regulador dos derivados dos EUA, processou a Ooki DAO (a sucessora do protocolo bZx) e, em junho de 2023, obteve uma sentença por revelia com uma coima de 643 542 dólares (cerca de 590 mil euros). O que a decisão estabeleceu foi mais importante do que o valor: uma DAO é uma «pessoa» à luz da lei e pode ser responsabilizada como uma associação sem personalidade jurídica, cujos membros são os detentores de tokens que votam. Por outras palavras, votar numa DAO pode tornar-nos legalmente responsáveis por ela.

O diretor de fiscalização da CFTC, Ian McGinley, foi direto: os fundadores tinham criado a Ooki DAO «com um propósito evasivo e com o objetivo explícito de operar uma plataforma de negociação ilegal sem responsabilidade legal». Mas nem dentro do regulador houve consenso. A comissária Summer Mersinger dissentiu, avisando que a abordagem era «regulação por via da fiscalização, pura e simplesmente», e que a mensagem para os utilizadores era perversa: para se protegerem, talvez o melhor fosse não votar de todo.

A resposta do setor foi procurar guarda-chuvas jurídicos que dessem às DAO uma morada e responsabilidade limitada sem matar a descentralização. Miles Jennings, responsável jurídico da a16z crypto, tornou-se o principal defensor deste caminho, chegando a proclamar o «fim da era das fundações» na cripto, por considerar que as fundações criam mais fricção do que a descentralização que dizem proteger. A tabela seguinte resume os principais modelos legais que surgiram.

Modelo legalAnoO que ofereceLimitação
Wyoming DAO LLC (EUA)2021Reconhece a DAO como sociedade (LLC), com responsabilidade limitadaEnquadramento de sociedade comercial, com obrigações fiscais
Wyoming DUNA (EUA)2024Personalidade jurídica sem fins lucrativos, contratos e proteção dos membrosAinda pouco testado nos tribunais
Ilhas Marshall DAO LLC2022Reconhecimento pleno como entidade, registo via MIDAOJurisdição offshore, escrutínio reputacional
MiCA / União Europeia2024-2026Isenção para serviços «totalmente descentralizados»Com um responsável identificável, vira prestador regulado (CASP)

O modelo já saiu do papel. Em 2025, a própria governação da Uniswap adotou uma DUNA do Wyoming, apelidada «DUNI», para dar uma cara legal ao protocolo. A tendência é clara: depois de uma década a fingir que não existiam, as DAO estão a aprender que ter uma morada legal é menos arriscado do que não ter nenhuma.

E na Europa? MiCA, a CMVM e as DAO sem morada

Para o leitor português, a pergunta prática é: onde é que tudo isto toca a Europa e a Portugal? A resposta chama-se MiCA, o regulamento europeu dos criptoativos, cujo período de transição termina a 1 de julho de 2026. O MiCA não fala explicitamente de DAO, mas a sua lógica apanha-as por um lado sensível: a isenção só vale para serviços prestados «de forma totalmente descentralizada, sem qualquer intermediário». Se existir um responsável identificável, alguém que controle a interface, cobre comissões ou detenha as chaves de atualização do contrato, o protocolo arrisca-se a ser tratado como um prestador de serviços de criptoativos (CASP) sujeito a licença.

Em Portugal, a supervisão é partilhada pela CMVM e pelo Banco de Portugal, ao abrigo da Lei 69/2025, com coimas que podem chegar aos cinco milhões de euros. Para uma DAO, isto levanta uma questão quase filosófica que os reguladores europeus já estão a estudar: se ninguém é o responsável, quem pede a licença? O Banco Central Europeu chegou a publicar um estudo com um título que diz tudo, «O futuro das DAO nas finanças: a precisar de estatuto legal», e Malta já propôs criar uma categoria de «organização baseada em software» para as enquadrar.

A conclusão para quem opera na Europa é desconfortável mas útil: quanto mais «descentralizada» for verdadeiramente uma DAO, mais provável é escapar à alçada do MiCA; quanto mais depender de uma equipa central, uma fundação ou uma interface controlada, mais depressa a CMVM a tratará como qualquer outro prestador regulado. A descentralização deixou de ser só um valor ideológico; passou a ter consequências fiscais e legais concretas.

Como ler o próximo drama de uma DAO

Uma década de dramas não é apenas uma coleção de escândalos; é um manual de sinais de alarme. Antes de confiar (ou investir) numa DAO, há perguntas que a experiência ensinou a fazer. Quem controla, na prática, os tokens de governação? Existe um período de segurança entre a aprovação de uma proposta e a sua execução, que impeça ataques com flash loans? Qual é a participação real nas votações, ou basta uma baleia para decidir? O tesouro está protegido por múltiplas assinaturas e sob a responsabilidade de quem? E existe uma morada legal, ou a «descentralização» é apenas uma desculpa para não haver responsável?

A tabela seguinte resume os principais episódios desta década e o padrão que os une.

CasoAnoTipo de dramaMagnitudeDesfecho
The DAO2016Exploração técnica (reentrancy)~3,6 milhões de ETHHard fork; cisão Ethereum / Ethereum Classic
ConstitutionDAO2021Falha coletiva e caos de reembolsos~41 milhões de eurosPerdeu o leilão; sobrou o token PEOPLE
Wonderland2022Tesoureiro com cadastro ocultoCofre de centenas de milhõesVoto expulsa o gestor; token colapsa
Beanstalk2022Ataque de governação com flash loan~165 milhões de eurosProtocolo drenado num único bloco
Mango Markets2022Manipulação de oráculo~110 milhões de eurosCondenação anulada em 2025; em recurso
Arbitrum (AIP-1)2023Fundação contra comunidade750 milhões de ARBProposta chumbada; tokens bloqueados
Aragon2023Alegada tomada hostil do tesouro~185 milhões de eurosAssociação dissolve-se; ETH distribuído
Nouns2023Rage quit / cisão do tesouro~16 757 ETHMetade dos membros saíram com a sua quota
Ooki DAO2023Responsabilização legalCoima de 643 542 dólaresDAO declarada responsável em tribunal

O fio condutor é sempre o mesmo. As DAO não são governadas por código; são governadas por pessoas que usam código. E onde há pessoas e dinheiro, há política, ganância, idealismo e traição, os mesmos ingredientes de qualquer organização humana, só que agora à velocidade de um bloco e com o cofre à vista de todos. A promessa de eliminar a confiança acabou por revelar que a confiança nunca desaparece; apenas muda de sítio, das pessoas para o código e do código de volta para as pessoas que o escrevem e votam.

Perguntas Frequentes

O que é uma DAO?

Uma DAO (organização autónoma descentralizada) é uma entidade gerida coletivamente pelos detentores de um token de governação, sem conselho de administração tradicional. As decisões, desde como gastar o tesouro a alterações no protocolo, são propostas e votadas on-chain, e executadas por contratos inteligentes. Na teoria, elimina intermediários; na prática, concentra frequentemente o poder em quem detém mais tokens.

As DAO são legais em Portugal?

Não existe um estatuto específico para DAO em Portugal, mas a sua atividade pode cair no âmbito do regulamento europeu MiCA. Se uma DAO oferecer serviços de criptoativos e tiver um responsável identificável, pode ser tratada como prestador (CASP) e ficar sujeita à supervisão da CMVM e do Banco de Portugal, com coimas até cinco milhões de euros. Só as estruturas genuinamente descentralizadas, sem intermediário, tendem a escapar a essa alçada.

O que foi o hack da The DAO em 2016?

Foi o primeiro grande desastre de governação cripto. Em junho de 2016, um atacante explorou uma falha de reentrancy no contrato da The DAO e drenou cerca de 3,6 milhões de ETH. Para recuperar os fundos, a comunidade Ethereum aprovou um hard fork que reverteu o roubo, dividindo a rede em duas: a Ethereum atual e a Ethereum Classic, que manteve o histórico original em nome do princípio «o código é lei».

Porque é que Avraham Eisenberg não está preso pelo caso Mango Markets?

Eisenberg foi condenado em 2024 por manipular a Mango Markets, mas um juiz federal anulou as condenações em maio de 2025, por considerar que o processo tinha corrido na jurisdição errada e que faltava prova de uma falsa representação. A acusação recorreu e o caso continua em aberto. Ainda assim, Eisenberg permanece detido por um processo separado, sem relação com a Mango, ligado à posse de material de abuso sexual de menores.

O que é o coin voting e porque é criticado?

Coin voting é o modelo em que cada token equivale a um voto, pelo que quem tem mais capital tem mais poder de decisão. É criticado por favorecer as «baleias» e por separar o interesse económico do direito de governar, o que facilita a compra de votos. Vitalik Buterin e outros defendem alternativas, mas o coin voting continua a ser o modelo dominante, e a raiz de boa parte dos dramas das DAO.

Por Tomás Albuquerque, editor de mercados e governação on-chain da HOGE Wire.

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