As tribos do builder: as culturas rivais que constroem a cripto
Não existe uma cultura do builder: existem tribos. Um guia de campo às quatro que constroem a cripto em 2026 (Ethereum, Solana, Base e Bitcoin) e ao que a tribo revela sobre quem constrói.
Em novembro de 2025, dezasseis mil pessoas encheram um recinto em Buenos Aires para ouvir Vitalik Buterin dizer que a melhor coisa que pode acontecer à Ethereum é parar de mudar. Na mesma estação, a comunidade da Solana preparava-se para levar a sua convenção anual a Londres com um lema que soa ao oposto exato: enviar depressa, testar ao limite, voltar a enviar. Dentro do Bitcoin, programadores que quase nunca concordam em nada travavam uma guerra civil por causa de oitenta bytes. E na Base, a rede da Coinbase, deixou de bastar ter reputação para se ser builder; passou a ser preciso ter uma pontuação, publicada semanalmente num placar. Quatro mundos, quatro linguagens, quatro ideias incompatíveis do que significa construir. Todos, sem exceção, se chamam a si próprios «builders».
A série de retratos que a cripto dedica ao builder trata-o quase sempre como uma figura única: a pessoa que constrói, que envia código, que arrisca. É uma simplificação cómoda e enganadora. Não existe uma cultura do builder. Existem tribos, e a tribo a que se pertence molda tudo: o que se otimiza, quem são os heróis, quais os rituais e, sobretudo, quem se despreza. Este texto é um retrato coletivo, um guia de campo às quatro grandes tribos que constroem a cripto em 2026, ao que as separa e ao que as junta, e ao que a tribo de um builder revela sobre ele antes ainda de lhe olharmos para o código.
O «builder» não é uma cultura, são tribos
Pergunte a um investigador da Ethereum, a um programador de aplicações da Solana e a um mantenedor do Bitcoin Core o que é um bom builder e receberá três respostas incompatíveis. Para o primeiro, é quem produz investigação sólida, resiste à pressa e reforça a descentralização. Para o segundo, é quem põe um produto de pé num fim de semana e o mete nas mãos dos utilizadores antes sequer de o polir. Para o terceiro, é quem escreve o mínimo possível, desconfia de qualquer alteração e corre o seu próprio nó. A mesma palavra, três espécies diferentes.
Chamar-lhe tribo não é exagero retórico. Uma blockchain não é só infraestrutura: é uma cultura com um ethos, figuras tutelares, rituais, piadas internas e inimigos declarados. Escolher onde se constrói é escolher uma identidade, tal como escolher um clube ou uma igreja. Já vimos que o género do retrato do builder tem um ponto cego enorme: por vezes nem consegue verificar que o builder existe ou é uma só pessoa. O problema das tribos é mais subtil. Mesmo um builder real, verificado e talentoso não é culturalmente neutro. A tribo escreve-lhe os valores por defeito muito antes de ele escrever a primeira linha.
O termo «builder», universal como MEV ou smart contract, esconde essa fratura. Um maximalista do Bitcoin e um degen da Solana usam a mesma etiqueta e não se reconheceriam como membros da mesma profissão. É por isso que ler um builder pela sua tribo diz, muitas vezes, mais do que ler-lhe o currículo: revela a linguagem em que ele pensa o próprio trabalho.
Como uma tribo cypherpunk se partiu em muitas
No princípio havia uma só cultura. Cypherpunk, criptografia como arma política, «não confies, verifica», corre o teu nó. O Bitcoin era a monocultura e, durante anos, ser builder na cripto era ser builder no Bitcoin. A primeira grande cisão chegou em 2015 com a Ethereum: Buterin e os primeiros programadores queriam uma blockchain programável, um computador mundial; boa parte do Bitcoin viu nisso uma distração, quando não uma fraude. O maximalismo nasceu ali, menos como arrogância e mais como mecanismo de defesa contra uma enxurrada de projetos que prometiam tudo e entregavam quase nada.
A partir daí, cada ciclo produziu uma tribo nova com o seu mito fundador. A mania das ICO em 2017. As guerras de escalabilidade que partiram o próprio Bitcoin em duas cadeias. O verão da DeFi em 2020. A corrida das «L1 que matariam a Ethereum», de que a Solana foi a grande sobrevivente. A explosão das L2 e, dentro delas, a Base, que a Coinbase transformou numa cultura à parte. O que era uma família passou a ser um arquipélago de tribos que partilham vocabulário e pouco mais.
Os números de 2026 confirmam que já não vivemos com uma só capital. O relatório anual da Electric Capital, a contagem mais citada de programadores da cripto, mostra um mapa genuinamente multipolar, com quatro grandes polos culturais a puxar em direções opostas. Vale a pena olhar para ele antes de descrever cada tribo por dentro.
A guerra dos programadores, em números
A Ethereum continua a ser a maior tribo em termos absolutos. Segundo o relatório de 2025 da Electric Capital, somou 16.181 novos programadores entre janeiro e setembro e mantém cerca de 31.869 programadores ativos. A Solana surge em segundo, com 11.534 novos e cerca de 17.708 ativos, e o Bitcoin em terceiro pelos recém-chegados, com 7.494. Em números brutos, a hierarquia parece estável.
A tendência conta outra história. A quota da Ethereum no total de programadores da cripto caiu de 82% em 2020 para 31% em 2025, enquanto a Solana subiu de cerca de 5% para perto de 20% e concentra já à volta de 60% dos programadores semanais fora do universo EVM. Não é que a Ethereum tenha encolhido; é que o mundo em redor cresceu e se dispersou. E há um sinal ainda mais revelador: um em cada três programadores da cripto trabalha hoje em várias cadeias ao mesmo tempo, contra menos de 10% em 2015. A geografia também mudou, com a quota dos Estados Unidos a descer de 38% para 19% e a Ásia a assumir a liderança.
Traduzido num mapa das tribos, o quadro seguinte resume onde está cada uma e a marca cultural que a distingue.
| Tribo | Novos programadores (2025) | Ativos | Tendência | Marca cultural |
|---|---|---|---|---|
| Ethereum | 16.181 | ~31.869 | Quota a cair de 82% para 31% | A religião da resiliência |
| Solana | 11.534 | ~17.708 | A crescer; ~60% dos devs não-EVM | O culto da velocidade |
| Bitcoin | 7.494 | Estável, conservador | Guerra civil interna | O minimalismo militante |
| Base | Conta na órbita EVM | Ligada à Coinbase | Foco no consumidor | O builder com pontuação |
A tribo Ethereum: a religião da resiliência
Se as tribos tivessem templos, o da Ethereum seria uma sala de conferências cheia de investigadores a discutir provas de conhecimento nulo. É a tribo mais académica, descendente direta do cypherpunk, que valoriza a descentralização e a neutralidade acima da velocidade e trata o «aborrecido» como um elogio. O seu maior encontro anual, a Devconnect, reuniu em novembro de 2025 em Buenos Aires cerca de dezasseis mil pessoas e mais de duzentos eventos paralelos. O que se falava eram rollups, privacidade e criptografia; o que quase ninguém mencionava era o preço do Ether, apesar de este ter caído 30% durante o mês da conferência. Um participante resumiu o espírito com uma pergunta meio a sério: «Se não estás aqui, será que acreditas mesmo na Ethereum?».
O credo desta tribo tem sido, cada vez mais, o da estabilização deliberada. Em Buenos Aires, Buterin defendeu que a camada base deve ossificar, ou seja, fixar o núcleo para deixar de mudar. «Cada vez mais ossificação ao longo do tempo é bom para a Ethereum. Temos agora uma taxa de surpresas muito mais baixa», disse o cofundador. Escolher a Argentina, um país marcado pela inflação crónica, foi um gesto cultural: para esta tribo, a cripto é ferramenta de sobrevivência e de soberania digital, não brinquedo especulativo, e o seu inimigo simbólico não é outra chain, é a captura pelo dinheiro institucional e pela lógica de Silicon Valley.
É a tribo que construiu a DeFi, o grosso da infraestrutura de provas de conhecimento nulo e a maior parte da conversa sobre bens públicos. Também é a mais dada à autocrítica: nem todos concordam com a ossificação, e a própria comunidade discute com aspereza o rumo da escalabilidade. Essa disposição para o debate interminável é, para os rivais, a prova de que a Ethereum pensa demais e envia de menos. Para os seus, é exatamente o que a mantém de pé quando as modas passam. A Devconnect de 2026 muda-se para a Índia, prolongando a aposta da tribo em mercados onde a cripto resolve problemas reais.
A tribo Solana: o culto da velocidade
Se a Ethereum é a universidade, a Solana é o ginásio às seis da manhã. A tribo organiza-se à volta de uma ideia única: desempenho a toda a escala, custe o que custar. Anatoly Yakovenko, o cofundador que veio da engenharia de telecomunicações na Qualcomm, resume a filosofia numa frase que podia ser o versículo de abertura: «Acho que tens de enviar depressa. Seria esse o meu conselho», disse na convenção anual da tribo. E acrescentou que enviar cedo e depressa, submetendo tudo a testes de esforço, foi o que ajudou a Solana a ultrapassar os seus problemas de fiabilidade.
Essa é a chave da cultura Solana: a fragilidade dos primeiros anos, incluindo o quase colapso quando a FTX se afundou em 2022, não é vergonha, é lenda fundadora. A tribo transformou as suas quedas em mito de regresso. Onde a Ethereum vê os memecoins como um casino que suja a marca, a Solana chega a enquadrá-los como carga de teste que torna a rede mais robusta. A engenharia acompanha o discurso: o cliente independente Firedancer e a atualização de consenso Alpenglow prometem finalidade mais próxima da «velocidade da luz» e menos interrupções. O lema informal da comunidade, «Only Possible On Solana», diz tudo sobre a autoimagem: aqui faz-se o que mais nenhum sítio aguenta.
Nenhuma tribo abraça tão abertamente a especulação como identidade. Os memecoins não são um acidente embaraçoso na Solana; são um traço de personalidade, com plataformas de lançamento instantâneo a transformarem qualquer piada num ativo em segundos. O degen, o utilizador que negoceia tudo a alta velocidade e sem pudor, é aqui uma figura celebrada, não escondida. Essa cultura de mercado permanente atrai um tipo de builder muito específico: rápido, tolerante ao risco, indiferente à pureza ideológica e obcecado com distribuição. É o oposto exato do investigador que, na Ethereum, escreve durante meses um documento antes de tocar no código.
É uma tribo monolítica por convicção. Enquanto a Ethereum se fragmenta em dezenas de L2, a Solana insiste em manter execução, liquidez e ferramentas num só ambiente, e vende essa concentração como vantagem para quem quer velocidade sem pontes nem trocas de rede. O próximo grande ritual, a Breakpoint 2026, muda-se para Londres em novembro, sinal de uma tribo em fase de expansão que quer plantar bandeira na Europa. O que constrói são aplicações de consumo, trading de alta frequência, redes físicas descentralizadas e, sim, muitos memecoins.
A tribo Base: o builder com pontuação
A Base é a tribo mais jovem e a mais estranha, porque é tecnicamente uma L2 da Ethereum mas cultiva uma cultura própria, corporativa, virada para o crescimento e para o utilizador comum. É a mais «web2» das quatro, e teve em 2026 a sua hora da verdade mais pública. Em julho, Jesse Pollak, o rosto da rede, admitiu que a aposta em redes sociais e moedas de criador tinha falhado. «Estava definitivamente errado», reconheceu, ao anunciar que recuava da liderança da aplicação e que a Base passaria a concentrar-se em trading, pagamentos e agentes de IA. A app ficou entregue a Cobie (Jordan Fish), cuja plataforma Echo a Coinbase comprara por cerca de 375 milhões de dólares (à volta de 327 milhões de euros). Foi a rara ocasião em que o líder de uma tribo trocou o figurino da confiança absoluta por um mea culpa.
O traço mais revelador da cultura Base, porém, não é o recuo: é o placar. Através da Talent Protocol, a rede introduziu um Builder Score, uma pontuação calculada a partir de atividade verificada no GitHub e on-chain, pensada para separar quem constrói de quem apenas se promove. E a Base transformou-a em dinheiro: o programa Builder Rewards paga ETH todas as semanas aos cem builders no topo do placar, com elegibilidade condicionada a uma pontuação mínima e a uma verificação de que se é humano.
É uma inversão cultural fascinante. Na Ethereum, o estatuto vem do reconhecimento dos pares e da reputação de investigação; na Base, vem de um número e de um pagamento. E é diferente da lógica do mindshare, que mede a atenção: o Builder Score tenta medir o trabalho. A ambição é nobre, tornar objetiva e recompensável a pergunta «quem é um builder a sério», mas carrega o risco clássico de qualquer métrica que vira alvo. Quando a pontuação é o prémio, alguns builders passam a otimizar para a pontuação, e não para o produto. A tribo que quis quantificar o mérito descobre que o mérito é escorregadio.
A tribo Bitcoin: a guerra civil dos oitenta bytes
A tribo mais antiga é também a mais desconfiada da mudança. O seu ethos cabe numa palavra: minimalismo. Escrever o mínimo, mudar o mínimo, correr o teu próprio nó, tratar a imutabilidade como sagrada. E, no entanto, foi esta tribo que travou em 2026 a mais feia das guerras internas. O motivo: o OP_RETURN, um campo onde se podem inscrever pequenos dados numa transação. A versão 30 do Bitcoin Core, lançada em outubro de 2025, removeu o limite de 80 bytes desses dados. Metade da tribo viu senso técnico, canalizar para um campo removível dados que já estavam a entrar de outras formas mais poluentes. A outra metade viu uma capitulação ao spam.
No fundo, a briga não é sobre bytes, é sobre a alma da rede. Desde que os Ordinals e as inscrições trouxeram imagens, textos e tokens para dentro das transações de Bitcoin, a tribo divide-se entre quem vê aí uma nova utilidade legítima e quem vê uma poluição do único livro-razão que deveria servir só para dinheiro. É a velha pergunta, reaberta: o Bitcoin é uma plataforma para construir por cima, ou uma reserva de valor que se protege recusando quase tudo o resto? A resposta que cada builder dá coloca-o de um lado ou do outro da trincheira.
Luke Dashjr, programador veterano do Core e criador do software rival Bitcoin Knots, chamou à mudança uma insanidade absoluta e recusa há muito as inscrições como lixo que não pertence à cadeia. O Knots faz o oposto do Core: aperta os limites e recusa retransmitir transações do tipo inscrição. O resultado foi um êxodo. A quota de nós a correr o Knots subiu de uns escassos pontos percentuais para perto de um quinto da rede pública, com figuras como Samson Mow a incentivar operadores a não atualizarem para o Core. Do outro lado, o programador Jameson Lopp captou o desdém da tribo pela política formal: «Detesto verdadeiramente a política e, por isso, tenho pouca paciência para quem tenta impor ao Bitcoin os modelos de governação tradicionais».
A ironia é gritante: a tribo que se define pela recusa de mudar vive a mais dolorosa das mudanças, resolvida não por votos mas pela escolha individual de que software cada um corre. É uma governação por saída, não por voz. Fora deste combate, a cultura Bitcoin cristalizou em torno da reserva de valor: a mesma disciplina que rejeita novidades no protocolo alimenta a corrida das tesourarias empresariais cheias de Bitcoin. Construir, para esta tribo, é sobretudo não estragar o que já funciona.
Guia de campo das tribos
Se estas quatro culturas coexistem numa mesma conferência, num mesmo grupo de Telegram ou numa mesma linha de X, distinguem-se rapidamente pela linguagem, pelos heróis e pelo insulto que atiram às outras. O quadro seguinte funciona como guia de campo para as identificar.
| Tribo | Ethos | Figura tutelar | Ritual | O que constrói | O insulto que atira |
|---|---|---|---|---|---|
| Ethereum | Descentralização e neutralidade acima de tudo | Vitalik Buterin | Devconnect, EIP, artigos de investigação | DeFi, provas de conhecimento nulo, bens públicos | «Casino de memecoins», «pressa irresponsável» |
| Solana | Velocidade e distribuição, enviar já | Anatoly Yakovenko | Breakpoint, hackathons, memecoins | Apps de consumo, DePIN, trading | «Lentos», «académicos que nunca enviam» |
| Base | Crescimento on-chain, medir e recompensar | Jesse Pollak | Builder Rewards, o placar, «onchain» | Pagamentos, consumo, agentes de IA | «Idealismo sem produto» |
| Bitcoin | Minimalismo e imutabilidade, correr o teu nó | Satoshi (ausente), Luke Dashjr | Correr um nó completo, Core contra Knots | O mínimo; reserva de valor, Lightning | «Tudo o resto é shitcoin» |
Como todos os guias de campo, este simplifica. As tribos são caricaturas úteis, não gaiolas: há investigadores a enviar depressa, degens da Solana obcecados com descentralização e maximalistas do Bitcoin que constroem em silêncio na Lightning. Os melhores builders costumam ser precisamente os que falam mais do que uma destas línguas. Ainda assim, quando alguém se apresenta, o vocabulário que escolhe (envio, resiliência, pontuação, imutabilidade) denuncia quase sempre a tribo onde aprendeu o ofício.
O maximalismo e o seu preço
A identidade tribal tem um lado escuro, e chama-se maximalismo. Na sua forma benigna, é uma resposta imunitária: num mercado cheio de esquemas, desconfiar por defeito de tudo o que não é a nossa cadeia poupa muito dinheiro e muita desilusão. Na sua forma tóxica, é lealdade acima do progresso, tribalismo de claque, gente mais interessada em promover a sua moeda do que em resolver problemas reais. A conversa pública da cripto passa demasiadas horas em guerras de bandeira que não constroem nada, e o próprio mercado tem um viés maximalista, com o Bitcoin a valer, sozinho, mais de metade da capitalização total.
O custo é concreto. Builders talentosos ficam presos em câmaras de eco, a repetir os dogmas da tribo em vez de aprenderem com as outras. A polinização cruzada, que costuma ser onde nasce a inovação, é castigada como traição. E os utilizadores, esses, pagam a fatura da fragmentação: carteiras a mais, pontes a mais, taxas de gás a decifrar, redes a trocar. As guerras tribais reproduzem-se também na governação, onde a questão de quem manda na cultura de um projeto pode rebentar em conflito aberto, como se vê nas DAO e nas guildas de jogos. A tribo dá pertença; cobra-a em visão de túnel.
O construtor mercenário e o elogio do multichain
Contra a lógica das tribos joga um facto teimoso: um em cada três programadores da cripto trabalha hoje em várias cadeias. É o builder pragmático, que trata cada blockchain como uma ferramenta e escolhe pelo problema, não pela bandeira. Para este perfil, a guerra santa entre Ethereum e Solana soa como a religião de outra pessoa. Envia para onde estão os utilizadores, a liquidez e os incentivos, e muda quando a conta muda.
O reverso desse pragmatismo é o builder mercenário, aquele cuja única lealdade é ao pagamento: salta de cadeia em cadeia atrás de grants, airdrops e programas de incentivos, e desaparece quando o dinheiro seca. As duas figuras são difíceis de distinguir a olho, e o capital de risco, esse, financia todas as tribos ao mesmo tempo, tratando a cultura como detalhe e o retorno como religião. Uma casa como a a16z investe em Ethereum e em Solana sem pestanejar, e a diligência com que avalia um fundador pouco tem a ver com o folclore da tribo dele. O capital é agnóstico mesmo quando a cultura não é, e é essa tensão, entre a lealdade tribal e a mobilidade do talento e do dinheiro, que define a geração atual de builders.
É também por isso que as tribos investem tanto em separar o crente do oportunista. Os programas de recompensas filtram carteiras que só apareceram para o airdrop, as pontuações de builder tentam premiar contribuição real e não barulho, e as comunidades vigiam quem fica quando o incentivo acaba. O paradoxo é evidente: quanto mais uma tribo paga para atrair builders, mais mercenários atrai, e mais recursos tem de gastar a distingui-los dos verdadeiros. A lealdade, afinal, é a única coisa que o dinheiro não compra de forma fiável.
Lisboa, território neutro
Para quem constrói a partir do mundo lusófono, a guerra das tribos vê-se de um lugar privilegiado e, curiosamente, neutro. Lisboa tornou-se um dos centros europeus de builders, com um ecossistema que a imprensa local já apelida de «Crypto Valley» e um polo físico no Hub Criativo do Beato, um antigo complexo militar de 35 mil metros quadrados reconvertido em campus de inovação. A cidade recebe a ETHGlobal Lisbon, a Onchain Lisbon Week e, em novembro, a Web Summit, ou seja, eventos de tribos diferentes que aqui coabitam sem trincheiras.
Essa neutralidade tem tradução na própria história local. A portuense Utrust, fundada por uma equipa que anda na cripto desde 2011, construiu pagamentos com proteção do comprador, foi comprada pela Elrond (hoje MultiversX) e renasceu como xMoney, ou seja, um builder lusófono que não jurou bandeira a nenhuma das quatro grandes tribos e escolheu a sua própria cadeia. Some-se o Brasil, um dos maiores mercados de retalho de língua portuguesa, com programadores espalhados por Ethereum, Solana e todo o resto, e percebe-se por que razão, cá, o caminho pragmático é quase a norma. A distância geográfica das guerras culturais americanas acaba por ser uma vantagem: vê-se melhor o tabuleiro quando não se está dentro de nenhuma das claques.
O regulador não tem tribo
Há uma entidade a quem o folclore das tribos é perfeitamente indiferente: o regulador. Aos olhos da lei europeia, um builder não é «da Ethereum» nem «da Solana»; é alguém que opera, ou não, um serviço sobre criptoativos. O regulamento MiCA, plenamente aplicável desde que o período transitório para os prestadores portugueses terminou em 1 de julho de 2026, e a lei nacional que o executa, a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, tratam todas as tribos com a mesma vara.
Na prática, quem constrói serviços em Portugal responde perante a CMVM na dimensão da conduta de mercado e do abuso de mercado (via Título VI do MiCA e a supervisão da ESMA a nível europeu) e perante o Banco de Portugal no registo de prestadores e nas stablecoins, com o quadro DORA a impor exigências de resiliência operacional a quem gere infraestrutura crítica. A ironia fecha o círculo: as tribos definem-se pelas suas diferenças, mas a lei nivela-as numa só categoria. Um memecoin na Solana e um protocolo de DeFi na Ethereum são, para Bruxelas, a mesma coisa, «criptoativos». Seja qual for a tribo, a superfície de conformidade é a mesma.
Ler o builder pela tribo
Saber a tribo de um builder é conhecer os seus valores por defeito antes de ele abrir a boca. Diz-nos o que vai otimizar, o que vai desprezar e como vai medir o sucesso. Um «grande builder» na Base, com pontuação alta e apps de consumo enviadas depressa, pode ser um «mercenário» para a Ethereum e um «spammer» para o Bitcoin. Não há um juiz neutro; há quatro tribunais, cada um com o seu código.
Por isso, da próxima vez que ler um retrato de builder, faça a pergunta que o texto raramente responde: segundo as regras de que tribo é que esta pessoa está a ser julgada? Os dados apontam para um builder cada vez mais multilingue, capaz de enviar para várias cadeias, mas as culturas endurecem em vez de convergir, com a Ethereum a ossificar, a Solana a acelerar, a Base a pontuar e o Bitcoin em guerra consigo mesmo. O género do retrato do builder gosta de perfilar indivíduos, mas o retrato mais fiel é o da tribo. Diga-me para onde faz deploy, e eu digo-lhe quem é.
Perguntas frequentes
O que é uma «tribo» de builders na cripto?
É a cultura própria de cada blockchain: o conjunto de valores, heróis, rituais e inimigos que define quem constrói nela. A Ethereum valoriza a investigação e a descentralização, a Solana a velocidade, a Base o crescimento medido em pontuações, e o Bitcoin o minimalismo. A mesma palavra «builder» significa coisas diferentes em cada uma.
A Solana já ultrapassou a Ethereum em número de programadores?
Não em termos absolutos. Em 2025, a Ethereum somou 16.181 novos programadores e mantém cerca de 31.869 ativos, contra 11.534 novos e 17.708 ativos da Solana, segundo a Electric Capital. Mas a quota da Ethereum no total da cripto caiu de 82% em 2020 para 31% em 2025, enquanto a Solana cresce mais depressa e lidera fora do universo EVM.
O que foi a guerra do OP_RETURN no Bitcoin?
Em outubro de 2025, a versão 30 do Bitcoin Core removeu o limite de 80 bytes de dados arbitrários por transação. Metade da comunidade viu nisso bom senso técnico; a outra metade, com Luke Dashjr à frente, viu um convite ao spam e migrou para o software rival Bitcoin Knots, mais restritivo, que passou a correr em perto de um quinto dos nós públicos.
O que é o Builder Score da Base?
É uma pontuação calculada pela Talent Protocol a partir de atividade verificada no GitHub e on-chain, pensada para distinguir quem constrói de quem apenas se promove. A Base usa-a para pagar ETH todas as semanas aos cem builders no topo do placar, com elegibilidade condicionada a uma pontuação mínima e a uma verificação de que se é humano.
Um builder tem de escolher uma só chain?
Já não. Um em cada três programadores da cripto trabalha hoje em várias cadeias, contra menos de 10% em 2015, e o capital de risco financia todas as tribos ao mesmo tempo. Ainda assim, a cultura continua a puxar para os campos, e muitos builders assumem uma tribo como identidade principal mesmo quando enviam código para várias.
Marcus Okafor é editor sénior da HOGE Wire e escreve sobre a cultura de quem constrói a cripto.