Funding rate: a guerra silenciosa entre longs e shorts na cripto
Milhares de milhões mudam de mãos todos os dias entre longs e shorts através do funding rate. Como funciona a taxa, e o que os dados da Hyperliquid revelam sobre o mercado.
Todos os dias, sem que uma única moeda mude fisicamente de carteira, milhares de milhões de dólares são transferidos entre traders de bitcoin e ether através de um mecanismo que a maioria dos utilizadores de exchanges nunca parou para examinar em detalhe: o funding rate. É essa taxa, cobrada ou paga a cada oito horas (ou a cada hora, consoante a plataforma), que decide se manter uma posição alavancada aberta durante uma semana custa dinheiro ou rende dinheiro, independentemente de o preço do ativo se mexer um único cêntimo.
O que é o funding rate
Um contrato perpétuo é, na prática, um futuro que nunca expira. Isso resolve um problema antigo dos mercados de derivados (ter de rolar posições de contrato em contrato, pagando custos de transação e sofrendo com a iliquidez perto do vencimento), mas cria outro: sem data de expiração, o que impede o preço do contrato de se afastar do preço à vista (spot) do ativo subjacente? A resposta é o funding rate, um pagamento periódico entre quem está comprado (long) e quem está vendido (short) que empurra o preço do perpétuo de volta para perto do spot.
A ideia nasceu na BitMEX, em maio de 2016, com o contrato XBTUSD. O cofundador Arthur Hayes explicou a lógica original num artigo publicado no blog da própria exchange: «perguntávamo-nos, de forma recorrente, se havia uma maneira de criar um produto sem expiração para conseguirmos concentrar a liquidez num único contrato», escreveu Hayes. Dez anos depois, essa pergunta gerou um mercado de derivados que, em muitos dias, movimenta mais volume do que o próprio mercado à vista de bitcoin.
Para quem procura a mecânica fórmula a fórmula, já explorámos esse território em detalhe no nosso guia completo sobre o funding dos perpétuos. Este artigo segue por outro caminho, mais interessado em perceber quem paga a quem em cada momento do ciclo, e o que isso revela sobre o estado de espírito real do mercado.
Longs contra shorts: um jogo de soma zero
O funding rate funciona como uma transferência de riqueza dentro do próprio mercado, sem entrada nem saída de capital do sistema. Quando o contrato perpétuo negoceia acima do preço à vista (prémio positivo), os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo (desconto), são os shorts que pagam aos longs. O pagamento ocorre em intervalos fixos, normalmente a cada oito horas nas grandes exchanges centralizadas, ou de hora a hora em plataformas on-chain como a Hyperliquid.
Na prática, cada vez que alguém abre uma posição alavancada alinhada com uma tese muito popular (por exemplo, numa fase de euforia em que quase todos apostam na subida), está a pagar um pedágio a quem está do lado oposto da aposta. Quanto mais desequilibrado o posicionamento do mercado, mais caro fica manter essa posição. É um mecanismo de autorregulação: encarece o lado que já está sobrelotado e paga a quem aceita ficar do lado menos popular da operação.
Isto explica porque o funding rate costuma ser tratado como um indicador de sentimento tão relevante quanto o próprio preço. Um funding persistentemente positivo e elevado sinaliza excesso de otimismo alavancado; um funding negativo prolongado sinaliza medo ou, de forma mais precisa, um excesso de posições curtas dispostas a pagar para manter a aposta contra o mercado.
Mas a mecânica tem uma nuance que a maioria dos traders de retalho ignora: o funding não é fixado de forma arbitrária por uma exchange. Resulta de uma fórmula com dois componentes distintos, um dos quais nem sequer depende do sentimento do mercado.
A fórmula por trás do número
Praticamente todas as fórmulas de funding, independentemente da exchange, somam dois elementos:
- Índice de prémio: mede a diferença real entre o preço do contrato perpétuo e o preço à vista do índice de referência. É este componente que reage ao desequilíbrio entre compradores e vendedores.
- Taxa de juro: um valor quase sempre fixo, pensado para refletir o custo de oportunidade entre emprestar a criptomoeda e emprestar a stablecoin ou o dólar usados como colateral. Este componente é estrutural e existe mesmo quando o mercado está perfeitamente equilibrado.
A maioria das exchanges também aplica uma banda de segurança (um intervalo dentro do qual pequenas oscilações do prémio são ignoradas antes de entrarem no cálculo) e um limite máximo que impede o funding de disparar para valores extremos numa única janela. Isto significa que, mesmo sem qualquer desequilíbrio de posicionamento, um contrato perpétuo tende a ter um funding ligeiramente positivo por defeito, porque a componente de juro raramente é zero.
Na Hyperliquid, por exemplo, essa componente está fixada em 0,01% a cada oito horas, o equivalente a cerca de 11,6% anualizados pagos por defeito aos shorts, segundo a documentação oficial da exchange. Na Binance, a taxa de juro de referência é semelhante, fixada em torno de 0,01% por período de oito horas, com uma banda de mais ou menos 0,05% antes de o prémio entrar diretamente no cálculo, segundo a própria central de ajuda da exchange. Já a Deribit foge ligeiramente ao padrão: não tem uma componente de juro separada, aplica o funding de forma contínua (ainda que expresso numa base equivalente a oito horas) e usa uma banda morta de mais ou menos 0,025%, com um teto de mais ou menos 0,5% para bitcoin e 1% para ether por período, de acordo com o material educativo da própria plataforma.
Uma taxa, seis exchanges
Nenhuma exchange calcula o funding exatamente da mesma forma, e as diferenças não são apenas cosméticas: alteram o custo real de manter uma posição aberta durante semanas ou meses. A tabela seguinte resume os parâmetros das principais plataformas, centralizadas e on-chain.
| Exchange | Intervalo de pagamento | Componente de juro | Banda ou limite | Preço de referência |
|---|---|---|---|---|
| Binance | 8 horas | ~0,01% por período (fixa) | Banda de mais ou menos 0,05% | Preço marcado (mark price) |
| Bybit | 8 horas | ~0,01% por período (fixa) | Banda de mais ou menos 0,05% | Preço marcado (mark price) |
| OKX | 8h (ou 1h, 2h, 4h consoante o contrato) | 0,01% fixa, ajustada ao intervalo | Média móvel ponderada do índice de prémio | Preço marcado (mark price) |
| Deribit | Contínuo, expresso em base de 8h | Sem componente de juro separada | Banda morta 0,025%, teto 0,5% BTC / 1% ETH | Preço marcado (mark price) |
| Hyperliquid | 1 hora | 0,01% por 8h (~11,6% anualizados) | Teto extremo de 4% por hora | Preço de oráculo |
| dYdX v4 | 1 hora | 0,125 pontos base por hora (default, ajustável por governação) | Ligado à margem, ~12% por 8h em BTC | Preço marcado (mark price) |
A OKX e a dYdX v4 mostram como o resto da indústria continua a afinar a fórmula: a primeira passou a usar uma média móvel ponderada do índice de prémio em vez de uma amostra pontual, para suavizar picos de manipulação de curto prazo; a segunda delega parte da decisão à sua comunidade, com os parâmetros de juro sujeitos a votação de governação on-chain.
Quando o funding mergulha
Depois de o bitcoin ter atingido o seu máximo histórico de 126.198 dólares a 6 de outubro de 2025, o mercado entrou numa fase de correção prolongada, e o funding rate tornou-se um dos indicadores mais citados por analistas a tentar identificar o fundo do movimento.
A 28 de fevereiro de 2026, com o bitcoin a negociar perto de 63.000 dólares, o funding caiu para cerca de -6%, o valor mais negativo em três meses. O detalhe mais interessante não foi a queda em si, mas o que aconteceu ao interesse aberto: o open interest em contratos com margem em bitcoin subiu de 668 mil para 687 mil BTC nesse mesmo dia, um sinal de que traders estavam a abrir novas posições curtas, e não simplesmente a capitular em posições longas antigas. No mesmo período, mais de 500 milhões de dólares foram liquidados em 24 horas, a maioria (mais de 420 milhões) em posições longas, segundo a cobertura da CoinDesk na altura.
Cerca de sete semanas depois, a 16 de abril de 2026, o funding voltou a mergulhar: a média móvel de sete dias caiu para -0,005%, o valor mais negativo desde 2023, segundo dados da Glassnode citados pela CoinDesk, com o bitcoin a negociar perto de 75.000 dólares. Historicamente, picos de funding extremamente negativo têm sido lidos como sinal contrário. Em novembro de 2022, na sequência do colapso da FTX, com o bitcoin perto de 15.500 dólares, o funding manteve-se negativo durante cerca de 50 dias seguidos antes de o preço recuperar para cerca de 23.000 dólares no final de janeiro de 2023.
A leitura convencional é que funding negativo prolongado reflete pânico e posicionamento defensivo excessivo, o que historicamente antecede recuperações, precisamente porque cria condições para um short squeeze: se o preço inverte, as posições curtas alavancadas são forçadas a fechar, comprando de volta o ativo e empurrando o preço ainda mais para cima. Isto não é uma garantia, apenas um padrão estatístico observado em ciclos anteriores; tratar qualquer leitura isolada de funding como sinal de entrada, sem olhar para o contexto mais amplo, é um dos erros mais comuns de quem começa a seguir estes dados. A nossa cobertura sobre os movimentos de grandes carteiras segue uma lógica semelhante: um único sinal isolado raramente conta a história toda.
Quando o funding dispara
No lado oposto do espetro, janeiro de 2026 ofereceu um exemplo claro de euforia alavancada. Com o bitcoin a testar a faixa dos 90.000 dólares num período de liquidez fina (época festiva, volumes mais baixos), o funding anualizado na Deribit ultrapassou os 30%, um nível que normalmente só se vê em fases de forte especulação direcional. Traders posicionavam-se para um movimento até à faixa dos 94.000 a 100.000 dólares.
A mesa de research da QCP Capital resumiu o risco associado a este tipo de pico numa nota citada pelo The Block: o aumento acentuado das taxas de funding em futuros aumenta o risco de uma correção no mercado cripto. O mecanismo subjacente é o chamado short gamma: quando um número elevado de traders está posicionado para o mesmo movimento de alta através de opções ou perpétuos alavancados, os intermediários que ficam do lado vendido dessas posições são forçados a comprar o ativo à medida que o preço sobe, para se manterem cobertos, o que amplifica o próprio movimento. Esse mecanismo funciona também ao contrário quando o mercado reverte, e é uma das razões pelas quais picos de funding extremamente positivos tendem a preceder correções bruscas, e não confirmações de tendência.
Vale a pena notar que este padrão (funding elevado precede correção, funding deprimido precede recuperação) não é uma lei física do mercado, é uma tendência estatística construída sobre uma amostra relativamente pequena de ciclos. Tratar o funding como um oráculo infalível é o erro inverso ao de o ignorar por completo.
A ascensão da Hyperliquid e a guerra do funding on-chain
Nos últimos dois anos, a Hyperliquid tornou-se o exemplo mais citado de como uma exchange descentralizada pode competir diretamente com as centralizadas em volume de derivados. A 13 de julho de 2026, a plataforma bateu um novo recorde de open interest, acima de 11,14 mil milhões de dólares, um crescimento de cerca de 9,7% numa semana, segundo a CryptoRank. Parte desse crescimento vem do HIP-3, um sistema que permite a qualquer utilizador lançar mercados de perpétuos de forma permissionless, incluindo sobre ativos tradicionais como ações e índices, abrindo uma nova frente de open interest baseada em ativos do mundo real.
Globalmente, a Hyperliquid já representa uma fatia próxima de 8% a 9% de todo o open interest de perpétuos do mercado, somando exchanges centralizadas e descentralizadas, e domina claramente o segmento apenas on-chain, onde concentra a larga maioria do volume negociado. Ainda está, no entanto, atrás de gigantes centralizadas como a Binance, a Bybit ou a OKX em termos absolutos.
Esse crescimento trouxe consigo uma pergunta incómoda para quem segue dados de funding entre plataformas: negociar na Hyperliquid é estruturalmente mais caro do que negociar numa exchange centralizada? A resposta, como se vê a seguir, depende de quem se pergunta.
BitMEX contra Coin Metrics: duas leituras, um mercado
Em julho de 2026, dois relatórios de research chegaram a conclusões aparentemente opostas sobre o mesmo par de exchanges, e a discrepância é um caso de estudo interessante sobre como a metodologia molda a narrativa nos dados de cripto.
No seu relatório de derivados do segundo trimestre de 2026, publicado a 6 de julho, o analista sénior de research da BitMEX, Shang Wu, concluiu que a Hyperliquid paga sistematicamente mais funding do que a Binance: cerca de 7,17 pontos percentuais a mais, anualizados, em bitcoin, e cerca de 5,31 pontos percentuais a mais em ether, entre 2023 e 2026, com esse diferencial a favor da Hyperliquid a verificar-se em 95% e 89% dos dias, respetivamente, numa janela móvel de 90 dias. Wu atribuiu a diferença ao perfil dos utilizadores: «os traders da Hyperliquid tendem a ser mais de retalho, on-chain e enviesados para o lado comprado, traders dispostos a pagar mais por alavancagem», escreveu, contrastando com a base mais institucional da Binance.
Menos de duas semanas antes, porém, a newsletter State of the Network da Coin Metrics, assinada pelo research associate Cooper Duschang, tinha chegado a uma conclusão praticamente inversa ao medir uma janela de seis meses: o funding médio da Hyperliquid em bitcoin foi o segundo mais baixo entre Hyperliquid, Binance e Deribit, cerca de 0,00135% por período, apenas 0,01 pontos base acima da Deribit, apesar de ser 1,95 vezes mais volátil do que o funding da Binance e 3,32 vezes mais volátil do que o da Deribit.
As duas leituras não estão, na verdade, em contradição total, apenas medem coisas ligeiramente diferentes. O relatório da BitMEX olha para o diferencial médio anualizado numa janela mais longa e mais orientada à comparação direta entre pares. O estudo da Coin Metrics olha para a média simples ao longo de seis meses e sublinha sobretudo a volatilidade, não o nível. Posto de outra forma: o funding da Hyperliquid pode não ser, em média, o mais elevado do mercado, mas é seguramente o que mais oscila, o que ajuda a explicar porque tantos traders sentem que a Hyperliquid cobra mais, mesmo quando a média de seis meses não confirma essa perceção de forma linear.
Para o utilizador comum, a conclusão prática é semelhante independentemente de qual relatório se privilegia: manter posições alavancadas durante muito tempo numa plataforma onde o funding é mais volátil, mesmo que não seja sistematicamente mais alto em média, implica um risco de custo mais imprevisível do que numa exchange centralizada mais líquida.
Ethena e o negócio de embalar o funding em rendimento
Se o funding é, em última análise, um pagamento entre longs e shorts, alguém pode construir um produto financeiro inteiro à volta de o cobrar de forma sistemática. É exatamente isso que faz a Ethena com o USDe: a estratégia mantém uma posição comprada em ether (ou colateral equivalente) em spot, cobrindo-a com uma posição vendida de valor nocional igual em perpétuos, uma estrutura conhecida como delta-neutral. Sempre que o funding é positivo, a perna curta da posição recebe o pagamento; esse rendimento, somado ao staking do colateral subjacente, é o que sustenta o retorno oferecido aos detentores de USDe.
O modelo não está imune a períodos difíceis. Segundo reportado pela Forbes, ao longo de cerca de três anos de dados, o funding somado foi negativo em aproximadamente 17,5% dos dias, com a sequência mais longa de funding negativo a durar cerca de 13 dias seguidos. Nesses períodos, é a própria Ethena, através de reservas e outros mecanismos, que absorve o custo, não o detentor do token, mas o episódio expõe a fragilidade estrutural do modelo. A 10 de outubro de 2025, durante um crash relâmpago em todo o mercado, o USDe chegou a descolar (depeg) brevemente para 0,97 dólares antes de recuperar a paridade.
O fornecimento em circulação de USDe oscilou entre cerca de 4 e 6 mil milhões de dólares ao longo do primeiro semestre de 2026, um valor bem abaixo do pico de cerca de 14 mil milhões de dólares registado antes da correção de outubro de 2025. É um lembrete relevante para qualquer produto que promete rendimento a partir de mecanismos de mercado: mesmo quando a fonte desse rendimento está bem documentada, ao contrário de esquemas obscuros, continua a ser um rendimento condicional, dependente do estado do próprio mercado que o gera. É a mesma lição, ainda que noutro contexto de produto, que ficou clara com o colapso do TVL no restaking ao longo de 2026: rendimento embalado num token tem sempre um mecanismo por baixo, e esse mecanismo pode inverter-se.
Cash and carry: como as mesas profissionais arbitram a taxa
Para mesas profissionais, o funding não é apenas um custo a evitar, é também uma oportunidade a explorar. A estratégia mais comum chama-se cash and carry: comprar o ativo em spot, cada vez mais frequentemente através de um ETF à vista de bitcoin ou ether, que oferece exposição regulada e líquida, e vender simultaneamente um montante nocional equivalente em futuros ou perpétuos. Quando o funding, ou a base, no caso de futuros com data de vencimento, é positivo, esta posição recebe o pagamento de quem está do lado comprado, praticamente sem exposição direcional ao preço do ativo subjacente.
Como já explorámos em detalhe no artigo sobre a base de futuros, este tipo de operação cresceu fortemente durante o boom de 2024 e 2025, com retornos anualizados entre 15% e 25% em alguns períodos, impulsionados sobretudo pela chegada dos ETFs à vista nos Estados Unidos. Em 2026, porém, o retorno comprimiu-se de forma acentuada: a base anualizada nos futuros da CME caiu para cerca de 4,7% a um mês em julho, mal cobrindo os custos de financiamento e operação de muitas mesas. Fundos de cobertura reduziram as suas posições em cerca de 31.400 bitcoin, uma queda de 39%, só no primeiro trimestre de 2026, um sinal de desmontagem da arbitragem, não de fuga do ativo subjacente, uma distinção importante para quem interpreta os dados de fluxo de ETFs sem olhar para o contexto de derivados por trás deles.
A lição para quem segue estes mercados é que funding elevado não dura para sempre: atrai capital profissional que arbitra a diferença até ela se aproximar de zero, ou do custo de oportunidade do capital envolvido. É, na prática, o próprio mercado a corrigir-se, com traders institucionais a fazer o trabalho de manter o perpétuo ancorado ao spot que a fórmula, por si só, nem sempre garante de forma perfeita.
O risco para o retalho: alavancagem, liquidações e a CMVM
Para um trader de retalho, o funding raramente é o maior risco de uma posição alavancada, a liquidação é. Mas os dois estão ligados: em mercados onde o funding é volátil, como mostrou a comparação entre a Hyperliquid e as exchanges centralizadas, o custo de manter uma posição pode mudar rapidamente, apertando margens já esticadas pela alavancagem e empurrando posições para mais perto do preço de liquidação.
Na União Europeia, incluindo Portugal, os contratos perpétuos não são tratados como um produto à parte, à margem da regulação financeira tradicional. A ESMA deixou isso explícito numa declaração pública de 24 de fevereiro de 2026: independentemente do nome comercial usado, estes derivados alavancados sobre criptoativos enquadram-se nas medidas de intervenção de produto para CFDs já existentes ao abrigo da DMIF II (MiFID II). Na prática, isto significa limites de alavancagem para clientes de retalho, 2 para 1 em criptoativos, uma fração dos 100 para 1 ou mais oferecidos por muitas plataformas offshore, aviso de risco obrigatório, encerramento automático de margem e proteção contra saldo negativo.
Em Portugal, a CMVM partilha a supervisão deste mercado com o Banco de Portugal, que trata o registo de prestadores de serviços de criptoativos e a vertente de stablecoins, cabendo à CMVM a fiscalização da conduta de mercado, incluindo o comportamento dos prestadores de serviços na comercialização de produtos alavancados. Isto não significa que negociar perpétuos seja proibido ou sequer desaconselhável para todos: significa apenas que quem o faz a partir de Portugal, através de uma plataforma autorizada, tem uma rede de proteção que desaparece por completo assim que a conta é aberta numa exchange offshore fora do perímetro da MiCA e da DMIF II. É uma escolha que muitos utilizadores fazem sem perceberem inteiramente que a estão a fazer.
Como seguir o funding rate na prática
Para quem quer acompanhar o funding sem depender de resumos de terceiros, os dados estão, na sua maioria, publicamente disponíveis:
- Painéis agregadores como o CoinGlass ou a CryptoQuant mostram o funding em tempo real em dezenas de exchanges, lado a lado, incluindo o open interest associado a cada uma.
- Cada exchange publica também os seus próprios dados históricos: Binance, Bybit, OKX e Deribit têm páginas dedicadas de funding rate; a Hyperliquid disponibiliza os dados via API pública, o que permite construir séries históricas personalizadas.
- Índices como o CF Bitcoin Kraken Perpetual Funding Rate Index, mantido pela CF Benchmarks, sintetizam o funding anualizado de uma exchange numa série de referência única, útil para acompanhar a tendência sem se perder no ruído de curto prazo.
Um hábito simples que reduz erros de interpretação: nunca ler o funding de uma única exchange como representativo do mercado inteiro, precisamente pela discrepância que os relatórios da BitMEX e da Coin Metrics ilustram. Comparar o mesmo ativo em pelo menos duas ou três plataformas, centralizadas e on-chain, dá uma imagem mais fiável do que olhar apenas para um número isolado.
Cinco momentos em que o funding moveu o mercado
A tabela seguinte junta, numa única linha do tempo, os episódios mais citados neste artigo, do pânico pós-FTX à corrida recente da Hyperliquid.
| Data | Evento | Contexto | Preço do bitcoin |
|---|---|---|---|
| Novembro de 2022 | ~50 dias seguidos de funding negativo após o colapso da FTX | Pânico generalizado, capitulação de posições longas | ~15.500 USD, recuperou para ~23.000 USD até final de janeiro de 2023 |
| Janeiro de 2026 | Funding anualizado acima de 30% na Deribit | Euforia de fim de ano, aviso da QCP Capital sobre risco de correção | A testar a faixa dos 90.000 USD |
| 28 de fevereiro de 2026 | Funding em cerca de -6%, mínimo de três meses | Open interest subiu de 668 mil para 687 mil BTC em 24 horas | ~63.000 USD |
| 16 de abril de 2026 | Média de 7 dias em -0,005%, mínimo desde 2023 | Dados da Glassnode via CoinDesk | ~75.000 USD |
| 13 de julho de 2026 | Hyperliquid bate recorde de open interest, 11,14 mil milhões USD | Crescimento de 9,7% numa semana, impulsionado pelo HIP-3 | ~63.000 USD |
Ao fecho desta edição, a 17 de julho de 2026, o bitcoin negociava perto de 63.000 dólares (cerca de 55.100 euros ao câmbio do dia), segundo a CoinGecko, um nível que ajuda a contextualizar todos os episódios da tabela acima na mesma escala de preço.
O que esperar do funding rate no resto de 2026
Três tendências parecem prováveis para o que resta de 2026. Primeiro, a fatia de open interest capturada por exchanges on-chain como a Hyperliquid deve continuar a crescer, especialmente à medida que produtos como o HIP-3 expandem o leque de ativos negociáveis para lá das criptomoedas tradicionais, o que deve manter viva a discussão sobre se o funding on-chain é estruturalmente diferente do funding centralizado, ou apenas mais ruidoso.
Segundo, a compressão nos retornos de cash and carry observada em 2026 deve continuar a limitar o apetite institucional por arbitragem pura, o que, paradoxalmente, pode tornar o funding mais volátil em períodos de stress: menos capital profissional disponível para absorver desequilíbrios significa que o mercado demora mais tempo a corrigir-se sozinho.
Terceiro, e talvez mais relevante para leitores em Portugal, o perímetro regulatório europeu para estes produtos deve continuar a apertar-se, não porque a MiCA se estenda aos derivados (continua a não o fazer), mas porque a aplicação prática das regras de CFD ao abrigo da DMIF II se torna mais consistente entre supervisores nacionais. Para quem negocia perpétuos a partir de Portugal, a escolha entre uma plataforma dentro e fora deste perímetro vai continuar a ser, cada vez mais, uma escolha consciente, não um acidente de onde por acaso se abriu conta.
Perguntas frequentes
O que é o funding rate nos contratos perpétuos?
É um pagamento periódico trocado diretamente entre traders comprados (longs) e traders vendidos (shorts) num contrato perpétuo, sem passar pela exchange. Existe porque os perpétuos não têm data de vencimento, e o funding mantém o preço do contrato próximo do preço à vista do ativo subjacente: quando o perpétuo negoceia com prémio face ao spot, os longs pagam aos shorts; quando negoceia com desconto, é o inverso.
Porque é que às vezes pago funding e às vezes recebo?
O sentido do pagamento depende do lado da posição e do sinal do funding no momento da liquidação, normalmente a cada oito horas nas exchanges centralizadas ou a cada hora em plataformas como a Hyperliquid. Se o funding é positivo e a posição está comprada, paga-se; se está vendida, recebe-se. Se o funding é negativo, a relação inverte-se.
O funding rate negativo é sinal para comprar bitcoin?
Historicamente, picos de funding muito negativo coincidiram com fases próximas de um fundo de mercado, como em fevereiro e abril de 2026 ou durante o colapso da FTX em 2022, porque refletem excesso de posicionamento pessimista alavancado. Mas é um padrão estatístico, não uma garantia, e usar apenas o funding como sinal de compra sem olhar para o contexto mais amplo é um erro comum.
Qual exchange tem o funding mais alto, a Hyperliquid ou a Binance?
Depende do relatório e da janela temporal. Um estudo da BitMEX de julho de 2026 concluiu que a Hyperliquid paga em média mais funding anualizado do que a Binance, tanto em bitcoin como em ether. Um estudo da Coin Metrics, medindo uma janela diferente, concluiu que o funding médio da Hyperliquid em bitcoin foi um dos mais baixos entre as plataformas comparadas, ainda que mais volátil. As duas conclusões medem ângulos diferentes do mesmo fenómeno.
É legal negociar perpétuos com alavancagem em Portugal?
Sim, através de plataformas autorizadas dentro do perímetro da DMIF II, onde estes produtos são tratados como CFDs, com limites de alavancagem para retalho de 2 para 1 em criptoativos, aviso de risco obrigatório e proteção de saldo negativo, conforme reforçado pela ESMA em fevereiro de 2026. Negociar em exchanges offshore fora deste perímetro não é necessariamente ilegal para o utilizador, mas retira essas proteções regulatórias.
Artigo da redação de mercados da HOGE Wire.