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● Culture & Long-reads

A entrevista ao fundador: quando o microfone vira prova

As entrevistas de Sam Bankman-Fried, Alex Mashinsky e Do Kwon acabaram lidas em tribunal. Um guia para ler o género cripto mais perigoso: a conversa com o fundador.

Poucos formatos são tão típicos da cultura cripto como a entrevista ao fundador. Um microfone, um podcast ou uma transmissão em direto, e a promessa de que, desta vez, vamos ouvir a verdade sem intermediários. É um género que a indústria fabrica em série, porque assenta na sua matéria-prima preferida: a narrativa. Numa manhã comum de agosto de 2026, com a Bitcoin a rondar os 56 mil euros e a Ethereum perto dos 1.657 euros, o que move o preço de um token à abertura raramente é um balanço auditado; é o que o seu criador disse, prometeu ou insinuou no episódio mais recente.

Só que o género tem um problema estrutural. As três entrevistas mais consequentes da década cripto, dadas por Sam Bankman-Fried, Alex Mashinsky e Do Kwon, foram mais tarde lidas em voz alta em tribunais federais. O que era conteúdo virou prova. Este artigo trata a entrevista ao fundador como aquilo que ela realmente é, um documento retórico com autor interessado, e propõe um método para a ler ao contrário: não pelo que promete, mas pelo que evita dizer.

O que é uma «entrevista ao fundador» e porque virou género próprio

Na banca tradicional, o diretor executivo fala pouco e sempre acompanhado: um departamento de comunicação, um jurista e um guião aprovado. Na cripto, o fundador fala muito, sozinho e durante horas. Essa diferença não é acidental. A Bitcoin nasceu sem rosto, já que Satoshi Nakamoto nunca deu uma única entrevista, mas a era das ICO, a partir de 2017, inverteu o modelo: quando um projeto é pouco mais do que um whitepaper e uma promessa, o fundador deixa de representar o produto e passa a ser o produto. A sua convicção é o ativo. A sua biografia é o roadmap.

Daí a entrevista ao fundador ter-se autonomizado como género, com convenções próprias: a origem quase mítica («larguei o meu emprego para…»), o vilão a abater (os bancos, os reguladores, a finança antiga), a visão de um mundo reescrito e, quase sempre, um token que capta o valor dessa visão. O entrevistador funciona menos como contraditório e mais como caixa de ressonância. O formato recompensa a fluência, não a verificação. E é exatamente esta ausência de fricção que o torna, ao mesmo tempo, cativante para o público e perigoso para quem investe com base nele.

Importa distinguir o género do jornalismo económico clássico. Uma entrevista de responsabilização começa por um facto incómodo e pressiona o entrevistado até ao osso. A entrevista ao fundador, na sua forma dominante, começa pela visão e só raramente chega ao balanço. A pergunta «como ganham dinheiro?» aparece tarde, quando aparece, e é muitas vezes respondida com outra visão.

A economia da atenção: podcasts, Spaces e AMAs

O género não existe no vácuo; corre sobre uma infraestrutura. Podcasts especializados, sessões de X Spaces, canais de YouTube e as «AMA» (ask me anything) em direto formam um circuito onde a atenção é a moeda. Num mercado em que a liquidez de um token depende em parte do alcance mediático do seu fundador, uma boa aparição vale mais do que um comunicado. O incentivo é simétrico e corrosivo: o meio precisa de convidados, de cliques e de acesso; o fundador precisa de distribuição e de legitimidade. Ninguém no arranjo tem interesse em estragar a festa com uma pergunta difícil.

Este circuito também premeia as métricas de vaidade. Um fundador chega ao estúdio e cita volumes, «utilizadores ativos» e posições em rankings que soam impressionantes e resistem mal ao escrutínio, um problema que já analisámos em o volume cripto que os rankings não contam. O número entra na conversa sem fonte, sai em manchete e regressa, dias depois, como «facto» consensual. A entrevista transforma-se então num mecanismo de lavagem: dados frágeis entram como afirmação e saem como autoridade.

Nada disto é exclusivo da cripto, pois a imprensa de acesso é tão antiga como a imprensa, mas poucos setores concentram tanto poder narrativo numa só pessoa nem convertem palavras em preço tão depressa. Quando o intervalo entre uma frase dita em direto e um movimento de mercado se mede em segundos, o estúdio deixa de ser um espaço editorial e passa a ser, na prática, uma sala de negociação.

O culto do fundador: de «founder mode» ao visionário com whitepaper

Em setembro de 2024, o investidor Paul Graham publicou um ensaio que deu nome a um sentimento difuso do Vale do Silício: o «founder mode». A partir de uma palestra de Brian Chesky, cofundador da Airbnb, Graham defendeu que os grandes fundadores gerem de forma direta e obsessiva, ao contrário dos gestores profissionais que delegam e se afastam. O ensaio correu a internet e canonizou uma ideia perigosa quando mal aplicada: a de que o fundador vê o que mais ninguém vê e, por isso, não deve ser travado.

A cripto importou este culto e amplificou-o até ao messiânico. O fundador não é apenas competente; é profeta de uma nova ordem financeira. E aqui está o mecanismo psicológico que corrói a entrevista: perante um «visionário», o público suspende o ceticismo que aplicaria a qualquer outro executivo. O mesmo carisma que fecha uma ronda de financiamento desarma o entrevistador. Quando alguém nos diz que está a reinventar o dinheiro, perguntar «onde estão os fundos dos clientes?» soa quase mesquinho.

O culto tem uma consequência prática: transfere o ónus da prova. Em vez de o fundador ter de demonstrar solvência, é o cético que tem de demonstrar má-fé, normalmente contra a corrente de uma comunidade que trata a dúvida como traição. Foi neste terreno, fértil e sem contraditório, que cresceram as três entrevistas que acabariam em tribunal.

SBF: a digressão mediática que virou prova

Quando a FTX implodiu, em novembro de 2022, Sam Bankman-Fried fez o oposto do que qualquer advogado teria aconselhado: falou. E falou com toda a gente. Começou por garantir, num tweet a 7 de novembro, que a FTX estava bem e os ativos estavam bem, mensagem que apagaria dias depois, com a corretora já em colapso. Poucos dias mais tarde, numa conversa por mensagens diretas com a jornalista Kelsey Piper, da Vox, admitiu que a sua imagem de regulação responsável era em boa parte encenação e disparou um desabafo contra os reguladores que julgava estar em privado.

O momento mais estranho veio a 30 de novembro, quando aceitou ser entrevistado em direto por Andrew Ross Sorkin, do New York Times, na cimeira DealBook, ligado por vídeo a partir das Bahamas. Diante de uma sala cheia, disse «nunca tentei cometer fraude contra ninguém» e afirmou estar profundamente arrependido. A estratégia era clara: falar até sair do buraco. Falhou. Cada frase entrou no processo.

A 28 de março de 2024, um tribunal federal de Manhattan condenou-o a 25 anos de prisão e à perda de cerca de 11 mil milhões de dólares (perto de 9,5 mil milhões de euros). A digressão mediática, pensada para reconstruir a narrativa, tornou-se um dos maiores arquivos de autoincriminação voluntária da história recente dos mercados. A lição para qualquer fundador é brutal na sua simplicidade: tudo o que é dito ao microfone é material de prova.

Celsius: o «Ask Mashinsky Anything» que acabou no processo

Se SBF foi uma digressão de crise, Alex Mashinsky construiu a sua armadilha ao longo de anos e em direto. Todas as semanas, o fundador da Celsius transmitia o «Ask Mashinsky Anything», uma sessão em que respondia a perguntas de clientes atuais e futuros, de camisola com a frase «unbank yourself». A promessa central era um rendimento anual de dois dígitos sobre depósitos em cripto, apresentado como quase isento de risco: a Celsius seria mais segura do que um banco.

O problema, segundo a acusação, é que boa parte destas afirmações era falsa, e havia quem soubesse. Funcionários da Celsius terão detetado declarações enganosas nestes diretos e avisado Mashinsky, que os ignorou. Ele próprio admitiu ter dado aos clientes um «falso conforto», ao afirmar que o programa de rendimento «Earn» tinha uma aprovação de reguladores que nunca existiu. O arquivo dos AMA, pensado como ferramenta de marketing e proximidade, virou-se contra ele: cada episódio era uma peça datada e gravada.

A distância entre o rendimento prometido e o rendimento real é o coração da fraude, e continua a ser o teste mais útil para qualquer projeto que ofereça juros generosos, um tema que tratámos em rendimento real em 2026. Em maio de 2025, Mashinsky foi condenado a 12 anos de prisão, depois de se declarar culpado de fraude sobre matérias-primas e de manipulação do token CEL. Os procuradores calcularam que encaixou mais de 45 milhões de dólares (cerca de 39 milhões de euros) enquanto vendia o token que dizia acreditar e clientes perdiam tudo.

Terra e Do Kwon: a confiança performativa e a conta de 40 mil milhões

Do Kwon fez da arrogância uma estratégia de comunicação. À frente da Terra, cujo «stablecoin» algorítmico UST prometia manter a paridade com o dólar através de um mecanismo ligado ao token LUNA, Kwon projetava uma confiança total, em entrevistas e nas redes sociais, tratando os críticos com desdém e apresentando qualquer dúvida sobre a sustentabilidade do modelo como ignorância. A performance funcionava enquanto o preço subia. Era a confiança a fazer de garantia.

Em maio de 2022, o UST perdeu a paridade e o mecanismo entrou numa espiral de morte: para defender o «peg», o sistema emitia LUNA sem limite, destruindo o seu valor. Em poucos dias evaporaram cerca de 40 mil milhões de dólares (à volta de 35 mil milhões de euros) e o episódio arrastou consigo fundos, credores e várias empresas do setor. A confiança performativa não era um detalhe estético; era o produto.

Depois de uma fuga internacional e de uma detenção no Montenegro, Kwon declarou-se culpado de fraude nos Estados Unidos. A 11 de dezembro de 2025, o juiz Paul Engelmayer condenou-o a 15 anos de prisão, acima dos 12 recomendados pela acusação, e à perda de 19 milhões de dólares (cerca de 16,5 milhões de euros). O magistrado deixou um recado que resume a nova temperatura do setor: «Ao próximo Do Kwon: se cometer fraude, vai perder a sua liberdade por muito tempo, tal como aqui vai acontecer.»

Binance e CZ: a entrevista do sobrevivente

Nem todas as entrevistas performativas acabam em desastre, e é importante dizê-lo para não cair no viés de seleção. Changpeng Zhao, o «CZ» da Binance, foi durante anos um dos fundadores mais presentes nos microfones, sempre com a mesma mensagem tranquilizadora, cristalizada no lema interno «funds are safu» (uma referência ao Secure Asset Fund for Users, o fundo de reserva criado pela Binance em 2018). A serenidade calculada era a marca.

Em 2024, a história de CZ tomou um rumo diferente do de SBF, Mashinsky ou Kwon. Declarou-se culpado de não ter criado um programa eficaz contra o branqueamento de capitais, a Binance aceitou pagar 4,3 mil milhões de dólares (cerca de 3,7 mil milhões de euros) e ele foi condenado a quatro meses de prisão, além de uma multa pessoal de 50 milhões de dólares, deixando a liderança da empresa. Cumprida a pena, regressou à vida pública e aos microfones.

O caso de CZ mostra a amplitude do género. A mesma confiança performativa pode conduzir à cadeia ou apenas a uma multa e a um regresso; a diferença nem sempre está no discurso, mas nos factos por baixo dele. Precisamente por isso, a entrevista não deve ser lida como veredicto de caráter. Deve ser lida como o que é: uma peça de comunicação cuja veracidade só o tempo, os dados e, cada vez mais, os tribunais confirmam.

Anatomia de um género: os formatos e o que cada um otimiza

Nem todas as entrevistas ao fundador são iguais. Vale a pena mapear os formatos, porque cada um otimiza um objetivo diferente e expõe o público a um risco diferente.

FormatoO que otimizaRisco para quem ouve
Podcast de acesso (amistoso)Alcance, simpatia, construção de narrativaPerguntas de seguimento inexistentes; o fundador controla o enquadramento
Entrevista de responsabilizaçãoVerificação, contraditório, factos incómodosRara; depende de um entrevistador preparado e disposto a perder o acesso
AMA e diretoProximidade, sensação de transparência, comunidadeAfirmações não verificadas em tempo real; arquivo permanente e datável
Digressão de criseControlo de danos, reescrita da narrativaAutoincriminação; tudo o que é dito é material de prova
Q&A escrito ou por emailMensagem polida, aprovada por juristasDistância máxima entre a palavra e a pessoa; pouca espontaneidade reveladora

Por baixo de qualquer destes formatos está sempre a mesma verdade incómoda: uma entrevista é um documento retórico, não um relatório técnico. Quem é o sujeito gramatical de cada frase («o utilizador aceitou o aviso» ou «o nosso sistema falhou») é uma escolha editorial com consequências reais, exatamente como acontece nos post-mortems que se digladiam para atribuir a culpa depois de um colapso, um mecanismo que dissecámos em post-mortems a duelo. Ler bem uma entrevista é, antes de tudo, ler a sua gramática.

Jornalismo de acesso contra jornalismo de responsabilização

Há um preço a pagar pela proximidade, e o caso mais estudado é o do escritor Michael Lewis. Autor de sucessos como «The Big Short», Lewis acompanhou Sam Bankman-Fried de perto durante meses para escrever «Going Infinite», a ponto de admitir que, a certa altura, via o fundador da FTX mais vezes do que os próprios pais dele o viam. Essa intimidade teve custo editorial. Ao promover o livro no programa «60 Minutes», Lewis descreveu a FTX como um grande negócio a sério, semanas antes de o julgamento demonstrar o contrário.

Jornais como o New York Times, o Washington Post e o Los Angeles Times criticaram-no por se ter aproximado demasiado do biografado. O episódio ficou como um manual do risco do jornalismo de acesso: quando a relação com a fonte vale mais do que a verificação, o repórter deixa de escrutinar e passa a legitimar. É a versão profissional do mesmo culto que desarma o público perante o fundador.

Há um contraste que a indústria prefere não sublinhar. Foi a imprensa cripto, muitas vezes acusada de ser mera claque, que expôs o buraco no balanço da Alameda Research e desencadeou a corrida que afundou a FTX, enquanto parte da imprensa generalista, mais preocupada em manter acesso à figura do momento, chegou tarde. A lição não é que a proximidade seja proibida; é que ela tem de ser vigiada. Um bom entrevistador pode ter acesso e continuar a fazer a pergunta que faz o convidado desejar não ter aceitado o convite.

Casos e desfechos: como cada entrevista envelheceu

Reunidos num só quadro, os quatro casos mostram um padrão. A confiança projetada ao microfone não previu nenhum dos desfechos; em vários casos, ajudou a construí-los.

Fundador e projetoMomento ao microfoneDesfecho
Sam Bankman-Fried (FTX)Digressão de crise, nov. 2022 (Vox, DealBook)25 anos de prisão (2024); perda de cerca de 11 mil M$ (cerca de 9,5 mil M€)
Alex Mashinsky (Celsius)«Ask Mashinsky Anything» semanal, até 202212 anos de prisão (2025); cerca de 45 M$ (cerca de 39 M€) encaixados
Do Kwon (Terra)Confiança performativa antes do colapso de 202215 anos de prisão (2025); cerca de 40 mil M$ (cerca de 35 mil M€) evaporados
Changpeng Zhao (Binance)«Funds are safu», presença mediática constante4 meses de prisão (2024); Binance pagou 4,3 mil M$ (cerca de 3,7 mil M€)

O padrão não prova que todo o fundador loquaz seja um fraudador, porque não é, e a maioria não é, mas desmente a ideia de que a fluência ao microfone é sinal de solidez. É, quando muito, sinal de fluência.

A boca do fundador como risco de mercado: MiCA, ESMA e a CMVM

Durante anos, o que um fundador dizia numa entrevista era tratado como opinião, sem consequência regulatória direta. Na Europa, isso mudou. O regulamento MiCA, plenamente aplicável desde o fim de 2024, traz um título dedicado ao abuso de mercado que abrange, para os criptoativos dentro do seu âmbito, a divulgação ilícita de informação privilegiada e a manipulação de mercado. Traduzido: um fundador que, numa entrevista, difunde informação enganosa ou seletiva capaz de mover o preço do seu token pode não estar apenas a fazer marketing; pode estar a praticar um ato sujeito a supervisão.

A pressão europeia estende-se a quem amplifica a mensagem. Em janeiro de 2026, a ESMA divulgou uma ficha dirigida aos «finfluencers», recordando que promover um produto financeiro não é como promover sapatos ou relógios e que o alcance online não dilui a responsabilidade legal. As comunicações sobre criptoativos voláteis devem incluir o aviso de que se pode perder 100% do capital, e as infrações ao regime de abuso de mercado podem custar coimas até 5 milhões de euros a pessoas singulares, com processos-crime possíveis em vários Estados-membros.

Em Portugal, a supervisão da conduta de mercado cabe à CMVM, enquanto o registo dos prestadores de serviços de criptoativos e as regras sobre «stablecoins» passam pelo Banco de Portugal; o período transitório para os antigos VASP nacionais se adaptarem ao estatuto de CASP terminou a 1 de julho de 2026. A CMVM já lançou um explicador de criptoativos para investidores, com riscos, glossário, lista de prestadores autorizados e uma secção sobre fraude. A mensagem para o leitor português é simples: a entrevista ao fundador é hoje uma superfície de comunicação regulada, e a bravata de ontem pode ser o processo de amanhã.

Como ler uma entrevista ao fundador: um guia prático

Ler bem o género não exige cinismo, exige método. Um conjunto de perguntas simples separa a conversa informativa da operação de marketing:

  • Onde estão os números? Cruze cada afirmação de volume, utilizadores ou rendimento com dados on-chain independentes. Volume anunciado não é liquidez, como lembra a lição do crash cripto de 2025.
  • Quem é o sujeito da frase? Repare se a responsabilidade recai sobre «o mercado», «o utilizador» ou «a equipa». A gramática revela a defesa.
  • Que pergunta foi desviada? O que não é respondido diz mais do que o que é. Uma resposta que muda de assunto é, ela própria, uma resposta.
  • O rendimento é explicado ou apenas afirmado? Juros altos exigem uma fonte de receita concreta. Se o retorno não tem origem clara, a origem é provavelmente o dinheiro do próximo depositante.
  • Há contrapartes, auditorias e nomes? Afirmações verificáveis trazem nomes e documentos; afirmações de fé trazem adjetivos.
  • O entrevistador insiste? Se ninguém faz a segunda pergunta, está a ouvir um anúncio, não uma entrevista.

Nenhuma destas perguntas exige conhecimento técnico avançado; exige apenas a disciplina de separar o carisma dos fluxos de caixa. É a mesma disciplina que distingue um projeto sério de uma promessa bonita, e que teria poupado muito dinheiro a quem confiou na serenidade de um fundador em vez de olhar para o balanço.

2026: deepfakes, avatares e a entrevista sintética

Há uma nova crise a chegar ao género, e ataca a sua matéria-prima: a autenticidade. Ao longo de 2025 e 2026, o YouTube encheu-se de transmissões em direto falsas em que uma versão gerada por inteligência artificial de Elon Musk, de Vitalik Buterin ou de outros fundadores promete duplicar qualquer cripto enviada para um endereço. Um destes diretos, disfarçado de «lançamento» tecnológico, terá alcançado centenas de milhares de espetadores antes de ser removido; a empresa de segurança CertiK já tinha documentado, em 2024, um deepfake de Buterin usado para atrair vítimas a um site que esvaziava carteiras.

A entrevista sintética inverte a lógica do género. Durante uma década, o risco era acreditar demasiado no que um fundador real dizia; agora soma-se o risco de o fundador nem sequer ser real. Vozes clonadas, avatares em direto e vídeos indistinguíveis do original transformam a verificação da identidade numa questão de sobrevivência financeira, e dão trabalho a toda uma indústria de peritos que reconstrói o rasto do dinheiro depois do embuste, como mostrámos em quem investiga os hacks cripto.

O paradoxo final é este: o género que nasceu da promessa de ouvir o fundador «sem intermediários» chega a 2026 a precisar, mais do que nunca, de intermediários de confiança, sejam eles jornalistas que insistem na segunda pergunta, reguladores que tratam a palavra como ato ou ferramentas forenses que confirmam quem está, afinal, do outro lado do ecrã. A entrevista continua a ser um dos instrumentos mais poderosos da cultura cripto. Só não é, nunca foi, um instrumento neutro.

Perguntas Frequentes

Porque é que as entrevistas a fundadores cripto acabam tantas vezes em tribunal?

Porque, ao contrário da banca tradicional, os fundadores cripto falam muito, sozinhos e sem guião jurídico. Tudo o que dizem num podcast, num direto ou numa digressão de crise fica gravado e datado, e pode tornar-se material de prova. Foi o que aconteceu com Sam Bankman-Fried, Alex Mashinsky e Do Kwon.

A entrevista de Sam Bankman-Fried no DealBook prejudicou-o?

Sim. Ao dar entrevistas após o colapso da FTX, incluindo a aparição em direto na cimeira DealBook do New York Times, Bankman-Fried produziu declarações que foram usadas contra ele. Em março de 2024 foi condenado a 25 anos de prisão. A estratégia de falar para reescrever a narrativa correu ao contrário.

O que foram os «Ask Mashinsky Anything» e porque importaram no processo da Celsius?

Eram sessões semanais em direto em que Alex Mashinsky respondia a perguntas de clientes e promovia rendimentos elevados na Celsius como quase isentos de risco. Segundo a acusação, várias afirmações eram enganosas. O arquivo destes diretos ajudou a sustentar as acusações que levaram a uma pena de 12 anos, em 2025.

Um fundador pode ser responsabilizado na Europa pelo que diz numa entrevista?

Pode. O regime de abuso de mercado do MiCA abrange a divulgação ilícita de informação privilegiada e a manipulação de mercado para criptoativos no seu âmbito. Em Portugal, a conduta de mercado é supervisionada pela CMVM. A ESMA já avisou que promover produtos financeiros online acarreta responsabilidade legal, com coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros.

Como distinguir uma entrevista sincera de uma operação de marketing?

Verifique se as afirmações trazem números independentes, se o rendimento prometido tem uma fonte de receita concreta, se há contrapartes e auditorias com nome e se o entrevistador faz perguntas de seguimento. Se ninguém insiste e nada é verificável, está a ouvir um anúncio, não uma entrevista.

Marcus Okafor escreve sobre cultura, mercados e poder na indústria cripto para a HOGE Wire.

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