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● Culture & Long-reads

O builder reescrito: a IA escreve o código, o agente usa a app

O retrato do builder vendia um humano que enviava código. Em 2026, a IA escreve esse código e os agentes viram os utilizadores; o obreiro fica no meio.

Abra o perfil de qualquer builder de cripto e encontra quase sempre a mesma coreografia: uma fotografia com pose cuidada, uma bio que enumera protocolos lançados, uma corrente de commits verdes, um punhado de citações reaproveitadas de podcasts. O género vende uma coisa muito concreta, um ser humano que constrói, alguém que se senta e escreve o código que os outros se limitam a negociar. É um retrato lisonjeiro e, durante quase uma década, foi mais ou menos verdadeiro. Em 2026, deixou de bater certo, e não por um motivo apenas, mas por dois em simultâneo, um em cada ponta da definição.

Por baixo, a inteligência artificial passou a escrever grande parte do código. Por cima, os agentes autónomos começaram a tornar-se os utilizadores desse mesmo código. O humano venerado, aquele que o retrato coloca ao centro, ficou espremido entre uma máquina que dispensa cada vez mais a sua caligrafia e um mercado que dispensa cada vez mais os seus clientes de carne e osso. Este texto é sobre o que sucede à figura do builder quando a IA lhe reescreve a função pelas duas extremidades ao mesmo tempo, e sobre como ler um perfil de construtor quando metade dos pressupostos que o sustentavam deixou de ser verdade.

O retrato que deixou de bater certo

O perfil do builder é, antes de mais, um formato mediático, primo direto da entrevista de fundador que já dissecámos no texto sobre a entrevista que quase nunca se ouve no original. Funciona por convenção: escolhe uma pessoa, atribui-lhe uma obra, e trata a obra como prova do carácter de quem a assina. O leitor sai a admirar o construtor, o construtor sai com reputação, a publicação sai com tráfego. Toda a gente ganha, desde que os pressupostos do género se mantenham de pé.

E o género assenta em três pressupostos silenciosos. O primeiro é que o builder escreve o código, que existe uma relação direta entre a pessoa retratada e as linhas que correm em produção. O segundo é que o código serve pessoas, que do outro lado do produto há humanos a clicar, a pagar, a usar. O terceiro é que enviar software é difícil e, por ser difícil, é prestigiante; a raridade da competência é a fonte de todo o estatuto. A tese deste artigo é simples: em 2026, a inteligência artificial está a falsificar os três pressupostos ao mesmo tempo, e é por isso que os perfis de builder soam cada vez mais a peças sobre uma profissão que já não existe exatamente como a descrevem.

Quem era o builder antes de 2026

Vale a pena lembrar de onde vem a figura, porque a reverência não nasceu do nada. A cultura cripto herdou dos cypherpunks a ideia de que o código é o argumento final: não se discute uma política, publica-se um programa que a torna verdadeira. Satoshi Nakamoto não escreveu um manifesto a pedir um dinheiro sem bancos, lançou software que o produziu. Dessa genealogia vem o ethos que ainda hoje domina as conferências, o «não confies, verifica», o «build or die», a ideia de que quem constrói tem uma autoridade que quem apenas fala nunca terá.

Nesse mundo, o builder era a pessoa cujo teclado convertia ideias em sistemas a funcionar. Escrever Solidity seguro, desenhar um mecanismo de mercado que não implodisse ao primeiro flash loan, manter um cliente de nó estável, tudo isto exigia anos de prática e uma tolerância rara ao risco de ver dinheiro real evaporar-se por causa de uma vírgula mal posta. A competência era escassa, a escassez gerava prestígio, e o prestígio traduzia-se em seguidores, em rondas de financiamento, em convites para o palco. O retrato do builder limitava-se a fotografar essa escassez e a chamar-lhe génio. O que a IA fez, primeiro devagar e depois de repente, foi atacar a própria escassez.

Vibe coding: quando o código deixa de ser escrito à mão

A palavra chegou por um post. A 2 de fevereiro de 2025, Andrej Karpathy, antigo diretor de IA da Tesla e engenheiro fundador da OpenAI, descreveu na rede social X «um novo tipo de programação» em que quem programa «se entrega totalmente às vibrações» e «esquece que o código sequer existe». Chamou-lhe vibe coding. Em novembro de 2025, o Collins Dictionary elegeu a expressão palavra do ano, definindo-a como o ato de gerar código descrevendo em linguagem natural o que se pretende e deixando a IA escrevê-lo. Em menos de um ano, uma piada de engenheiro tornou-se uma categoria de trabalho.

O efeito prático é uma demolição da barreira de entrada. Ferramentas como o Cursor ou o Claude Code deixam de exigir que se saiba a sintaxe e passam a exigir que se saiba descrever o problema. Karpathy demonstrou-o construindo uma aplicação funcional numa tarde, sem experiência prévia na linguagem. Para o retrato do builder, isto é sísmico: se qualquer pessoa articulada consegue produzir software que corre, então enviar deixou de ser a prova de competência que era. O próprio Karpathy foi o primeiro a puxar o travão, avisando que o código assim gerado tende a ficar inchado e cheio de abstrações frágeis, e que continua a exigir juízo, gosto e supervisão de quem percebe do assunto. É a primeira fenda: a máquina escreve, mas ainda não julga.

A hora da verdade da Base

Se há um episódio que condensa esta viragem, é a reviravolta pública da Base ao longo de 2026. A 15 de julho, Jesse Pollak, o rosto da rede layer 2 da Coinbase, afastou-se da liderança da Base App e admitiu, sem rodeios, «errei» (no original, «I was definitely wrong»). A frase que resume a autópsia foi ainda mais afiada: «apostámos bem nos builders, mas obviamente apostámos mal no social». As aplicações sociais e as creator coins que a Base tinha promovido, disse, «desintegraram-se por completo».

O que interessa aqui não é a humildade rara de um executivo de cripto, é para onde apontou a seguir. Pollak reorientou a Base para três pilares, negociação, pagamentos em stablecoins e agentes de IA, e enquadrou tudo isto como «infraestrutura para as finanças globais». A app passou para as mãos de Cobie, o pseudónimo de longa data de Jordan Fish, cuja plataforma Echo a Coinbase tinha comprado por 375 milhões de dólares (cerca de 323 milhões de euros). E a tese que Pollak deixou como legado é precisamente a segunda metade da nossa história: «a cripto é o dinheiro nativo dos computadores, e a inteligência artificial vai criar biliões de novos atores económicos». Traduzindo: os próximos utilizadores da cripto poderão não ser humanos, serão agentes. Um dos builders mais venerados da indústria acabou de dizer, em voz alta, que está a construir para máquinas.

O agente como utilizador, não como ferramenta

Durante anos, os agentes de IA foram vistos como ferramentas do builder. A viragem de 2026 é que passaram a ser também os seus clientes. Um agente autónomo que reserva um voo, compra dados de uma API ou paga por inferência precisa de mover dinheiro sozinho, sem cartão, sem conta bancária, sem um humano a carregar num botão. O trilho que tornou isto possível chama-se x402.

O x402, proposto pela Coinbase, ressuscita um código de erro adormecido da web, o HTTP 402 («Payment Required»), e transforma-o num mecanismo de pagamento embutido em cada pedido de rede: o agente pede um recurso, o servidor responde «paga primeiro», o agente liquida em stablecoins como o USDC e recebe o que pediu, tudo num único ciclo, sem chaves de API nem registo. Em julho de 2026, o padrão saiu do controlo de uma única empresa e passou para a governação neutra da Linux Foundation, com 40 membros e um núcleo de peso, Visa, Mastercard, Google, Stripe, AWS, Circle. Quando os cartões de crédito do mundo se juntam para dar carteira aos robôs, a mensagem é clara: o mercado espera que uma fatia crescente das transações on-chain seja entre software e software.

Para o builder, isto muda o briefing. Desenhar para um agente não é desenhar para uma pessoa: não há interface bonita a convencer, há uma máquina que lê preços, latências e condições e decide em milissegundos. O produto deixa de precisar de retórica e passa a precisar de rendimento verificável, aquilo que já explorámos ao separar rendimento real de rendimento importado na DeFi. O cliente-máquina não tem lealdade nem paciência para uma marca; tem uma folha de cálculo.

A fábrica sem código

Se por baixo a IA escreve e por cima os agentes usam, no meio surgiu uma terceira coisa, a fábrica que dispensa quase por completo a mão humana. Na Base, o exemplo mais visível é a Virtuals Protocol, o principal launchpad de agentes de IA sem código: qualquer pessoa descreve um agente, a plataforma emite-lhe um token através de uma curva de bonding e o agente passa a existir, a publicar, a negociar. Já foram criados mais de 17.000 agentes por esta via, a maioria irrelevante, alguns com audiências reais. O importante não é o número, é a mecânica: construir deixou de exigir um repositório e passou a exigir um prompt.

Convém então separar as camadas, porque a palavra builder cobre agora coisas muito diferentes:

CamadaQuem escreve o códigoQuem usa o produtoSinal em 2026
Artesanal (até 2024)O builder humanoSobretudo humanosSolidity à mão, auditorias, GitHub cheio
Assistida (vibe coding)Humano com IA (Cursor, Claude Code)Humanos e primeiros agentesMenos commits, envio muito mais rápido
Sem código, agênticaCurva de bonding e promptsSobretudo agentesVirtuals, x402, launchpads de agentes

As três camadas coexistem, mas o centro de gravidade está a descer. Quanto mais em baixo se está na tabela, menos código humano existe e mais o produto se dirige a máquinas. O retrato tradicional do builder fotografa a linha de cima; grande parte da atividade de 2026 acontece nas duas de baixo.

O builder-solo amplificado

Há uma leitura otimista de tudo isto, e é honesto apresentá-la. Se uma pessoa com bom juízo consegue orquestrar IA para escrever, testar e enviar, então o mito do génio solitário, que a cultura cripto sempre adorou, ficou subitamente ao alcance de muito mais gente. O programador experiente que percebe de sistemas passa a ser um multiplicador: usa a IA para despachar o trabalho aborrecido e reserva a sua atenção para as decisões que realmente importam, a arquitetura, os incentivos, os pontos de falha. Nas mãos certas, vibe coding não substitui competência, alavanca-a.

O problema é que o retrato não distingue mãos certas de mãos erradas. Um perfil que celebra «um solo dev que enviou um protocolo inteiro num fim de semana» era, em 2021, um sinal de talento excecional. Em 2026, pode significar exatamente isso, ou pode significar que alguém colou prompts até o compilador parar de reclamar, sem perceber uma linha do que ficou por baixo. A mesma frase passou a descrever o melhor e o pior programador da sala. E como a diferença entre os dois só se revela quando algo corre mal, o género perdeu a capacidade de a mostrar à partida. O builder-solo amplificado é, ao mesmo tempo, a maior promessa e o maior risco do momento.

O código que a IA escreve tem buracos

A promessa da velocidade tem uma fatura, e ela chega em segurança. Um estudo da Veracode que testou mais de uma centena de modelos de linguagem concluiu que cerca de 45% das amostras de código geradas introduziam uma vulnerabilidade da lista OWASP Top 10, com algumas linguagens a falhar em mais de dois terços dos casos. Não é um detalhe: numa indústria onde um smart contract guarda milhões e não se pode corrigir depois de implantado, um erro em cada dois pedaços de código é uma máquina de acidentes.

O risco compõe-se porque a IA não escreve só mais depressa, escreve mais quantidade. Quanto mais barato é gerar código, mais código existe para auditar, e o número de auditores humanos capazes não cresce à mesma velocidade. A autópsia de um exploit, aquele exercício que a cripto copiou pela metade da aviação, torna-se mais frequente e mais difícil, porque muitas vezes nem o autor do contrato percebe totalmente o que a máquina escreveu em seu nome. Foi este o aviso de Karpathy quando falou de abstrações frágeis: a IA remove o esforço de escrever, mas não remove a necessidade de compreender. E compreender continua a ser humano, caro e escasso, ou seja, continua a ser a verdadeira fonte de prestígio, só que o retrato ainda não aprendeu a fotografá-la.

O que a veneração recompensa agora

Se os sinais antigos deixaram de significar o que significavam, quais é que ainda valem? A tabela seguinte contrapõe o que o género premiava com o motivo pelo qual esses indicadores falham em 2026.

Sinal antigoO que se supunha que mediaPorque falha em 2026
Muitos commitsTrabalho e competênciaA IA gera commits; o volume deixou de medir esforço
Repositório com muitas estrelasReconhecimento dos paresMarketing e airdrops inflacionam a métrica
«Solo dev que enviou X»Génio raro e escassoUma pessoa com IA faz o trabalho de uma equipa
Contrato «auditado»Segurança garantidaAuditar código de IA em massa é um problema por resolver

Por trás desta tabela está uma lei conhecida dos economistas, a lei de Goodhart: quando uma medida se torna um alvo, deixa de ser uma boa medida. Assim que os commits, as estrelas no repositório ou a quota de atenção passaram a ser aquilo que se recompensa, tornaram-se aquilo que se fabrica. O incentivo é antigo, e já houve quem multiplicasse identidades falsas de programador para inflacionar as métricas de um ecossistema inteiro; o que mudou foi a escala e o custo. Com a IA a gerar código, personas e conteúdo em série, fabricar a aparência de um builder produtivo ficou mais barato do que nunca. O sinal que sobrevive é o mais difícil de falsificar: a capacidade demonstrada de julgar código, não a de o produzir.

Para onde foi o dinheiro (e o talento)

Nada disto acontece no vácuo económico. Os números do trabalho de programação em cripto caíram a pique: segundo dados citados pela CoinDesk, os commits semanais de código cripto desceram cerca de 75% desde o início de 2025, e o número de programadores ativos encolheu mais de metade. No mesmo período, o GitHub adicionou dezenas de milhões de novos programadores no mundo inteiro; a diferença é que fugiram para repositórios de IA, não de blockchain. O talento não desapareceu, mudou de sala.

O dinheiro seguiu-o, e ao mesmo tempo tornou-se mais exigente. Do lado do capital de risco, a a16z crypto levantou um fundo de 2,2 mil milhões de dólares em maio de 2026 (cerca de 1,9 mil milhões de euros), mesmo com o setor mais frio, sinal de que há apetite, mas concentrado. Do lado dos bens públicos, o Retro Funding do Optimism, que durante anos foi a máquina emblemática de pagar a quem constrói, foi suspenso em janeiro de 2026 por pelo menos doze meses. Os incentivos para financiar quem constrói tornaram-se, ao mesmo tempo, mais escassos e mais seletivos. Quem quiser perceber, ao cêntimo, como se paga hoje a um construtor, tem o mapa completo no nosso texto sobre quem paga o builder. O resumo é que três dos quatro trilhos de financiamento apertaram, enquanto o quarto, o do construtor-solo com IA, rebentou pelas costuras.

Builders lusófonos e a fronteira da IA

Vista de Lisboa, esta reescrita tem uma leitura menos fatalista. A barreira que a IA derruba não é só a da sintaxe, é também a da língua e do acesso. Um programador em Lisboa, no Porto ou em São Paulo passou a poder descrever o que quer em português e obter código, documentação e testes sem depender do inglês perfeito que antes separava quem estava dentro de quem ficava à porta. Para ecossistemas fora do eixo anglo-saxónico, a fábrica sem código é tanto ameaça como oportunidade.

Portugal tem uma prova de conceito antiga. A Utrust, fundada por volta de 2017 por uma equipa que incluía Nuno Correia, no setor desde 2011, foi das primeiras a oferecer pagamentos em cripto com proteção do comprador; acabou comprada pela Elrond (hoje MultiversX) em janeiro de 2022 e renasceu como xMoney, com registo junto do Banco de Portugal. Lisboa consolidou-se, entretanto, como praça de builders: acolhe a ETHGlobal, a semana Onchain e recebe, em novembro de 2026, mais uma edição do Web Summit. A pergunta que esta viragem coloca à cena lusófona não é se haverá construtores, é se serão pessoas a orquestrar máquinas ou apenas máquinas a orquestrar pessoas.

A CMVM, a MiCA e o AI Act

E o regulador, onde entra? A resposta desconfortável é que quase não entra na figura do builder, entra nos serviços. Em Portugal, a CMVM supervisiona a conduta de mercado e o Banco de Portugal mantém o registo dos prestadores de serviços de criptoativos, ao abrigo do regime da MiCA, cujo período transitório para os prestadores portugueses termina a 1 de julho de 2026. Mas a MiCA regula quem oferece serviços (exchanges, custódia, emissão de stablecoins), não quem escreve o código; um programador que publica um contrato não é, por esse ato, um prestador regulado. Os derivados de cripto, recorde-se, caem na DMIF II e não na MiCA.

Do lado da inteligência artificial, a novidade é o Regulamento Europeu de IA, o AI Act, em vigor desde agosto de 2024. As obrigações para os modelos de uso geral aplicam-se desde 2 de agosto de 2025, e as regras de transparência do artigo 50, que incluem a marcação de conteúdos gerados por IA, entraram em vigor a 2 de agosto de 2026. Continua, no entanto, a não existir uma norma que diga «este código foi escrito por uma máquina, audita-o duas vezes». A responsabilidade recai, como sempre, sobre quem opera o serviço, não sobre quem carregou no prompt. Para quem constrói na Europa, a lição repete a que demos noutro texto: o que move a sua cripto vem muitas vezes de Washington e não de Lisboa, e o mesmo se aplica às regras que moldam a IA que agora escreve o código.

Como ler um builder em 2026

Se os sinais antigos enganam, o leitor precisa de uma grelha nova. Não para desconfiar de toda a gente, mas para calibrar a admiração. Ao ler o próximo perfil de builder, valem mais estas perguntas do que a contagem de commits:

  • A pessoa percebe o código que enviou? Procure explicações de decisões e de compromissos, não descrições de funcionalidades; quem só sabe descrever o produto pode ter deixado a máquina escrever tudo.
  • Quem são os utilizadores reais, humanos ou agentes? Um produto pensado para agentes vive de rendimento verificável e integrações, não de comunidade; um pensado para humanos vive do contrário. Confundir os dois é o erro mais comum do momento.
  • O solo é mesmo solo? Uma pessoa com IA pode fazer o trabalho de uma equipa, mas também esconder a ausência de revisão. Pergunte quem auditou, quem reviu, quem apanha o erro quando a máquina o comete.
  • Há prova de julgamento, não só de produção? A competência que a IA não replica é a de decidir o que não construir. Um bom builder distingue-se tanto pelo que recusou fazer como pelo que enviou.
  • A que trilho de financiamento pertence? Grant, token, capital de risco ou receita própria mudam radicalmente os incentivos; um construtor pago em fichas com desbloqueios futuros não constrói para o mesmo horizonte de quem vive de receita real.

Síntese: o obreiro no meio da máquina

O builder não morreu, a definição é que se partiu ao meio. Durante uma década, o prestígio residia em quem conseguia escrever o código; a partir de 2026, desliza para quem consegue julgá-lo e distribuí-lo. A escassez mudou de sítio: já não é raro produzir software, é raro perceber o que o software faz e conseguir levá-lo a quem, ou ao quê, o vai usar. O retrato do builder continuará a fotografar a obra, mas o valor está a migrar para uma competência que a fotografia não capta.

Talvez o caso que melhor anuncia o futuro seja o do dinamarquês Rune Christensen, fundador do que era a MakerDAO e é hoje a Sky. O seu projeto Atlas propõe codificar as regras de governação num documento gigantesco, legível por máquinas, e emparelhá-lo com uma ferramenta de IA de governação que ajude a interpretar e a aplicar essas regras ao longo do tempo. É, por enquanto, um desenho declarado e não uma realidade a funcionar, mas aponta para onde a corda estica: se a IA escreve o código por baixo e usa o produto por cima, o passo seguinte é ela ajudar a governar a própria organização no meio. Quando esse dia chegar, o perfil do builder deixará de ser o retrato de um obreiro e passará a ser o retrato de quem soube dizer à máquina o que valia a pena construir. Essa pessoa continuará a merecer a nossa atenção; só não será, exatamente, aquilo que os perfis de hoje juram fotografar.

Perguntas frequentes

O que é vibe coding?

Vibe coding é a prática de gerar software descrevendo em linguagem natural o que se pretende e deixando um modelo de IA escrever o código. O termo foi popularizado por Andrej Karpathy em fevereiro de 2025 e eleito palavra do ano pelo Collins Dictionary em novembro de 2025. Baixa drasticamente a barreira de entrada, mas o código gerado tende a conter mais vulnerabilidades e a exigir revisão humana.

A inteligência artificial vai substituir os programadores de cripto?

Mais do que substituir, a IA está a redistribuir. Os commits de código cripto caíram cerca de 75% desde o início de 2025 e muito talento migrou para projetos de IA, mas o programador que percebe de sistemas ganha um multiplicador de produtividade. A competência que a IA não replica, decidir a arquitetura, auditar e julgar o que não construir, torna-se mais valiosa, não menos.

O que é o x402 e porque importa para os builders?

O x402 é um padrão de pagamento, proposto pela Coinbase e hoje gerido pela Linux Foundation, que permite a agentes de IA pagar por dados e serviços diretamente em stablecoins, sem conta nem chave de API, usando o código HTTP 402. Importa porque transforma os agentes autónomos em clientes, o que muda o desenho dos produtos: passa a construir-se para máquinas, não só para pessoas.

Como sei se um builder percebe mesmo o que construiu?

Procure explicações de decisões e de compromissos técnicos, não descrições de funcionalidades. Quem domina o que enviou fala de pontos de falha, de porque escolheu uma abordagem em vez de outra e de quem auditou o código. Um perfil que só enumera lançamentos e métricas de atividade pode estar a fotografar a produção da máquina, não o juízo da pessoa.

A MiCA ou o AI Act regulam quem constrói cripto?

Nem a MiCA nem o AI Act regulam diretamente o ato de escrever código. A MiCA, supervisionada em Portugal pela CMVM e pelo Banco de Portugal, regula serviços de criptoativos como exchanges e custódia. O AI Act impõe transparência aos sistemas de IA, incluindo a marcação de conteúdos gerados, desde agosto de 2026. A responsabilidade legal recai sobre quem opera o serviço, não sobre quem carregou no prompt.

Marcus Okafor escreve sobre cultura cripto, mercados e a economia dos builders na HOGE Wire.

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