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● Predictions & Forecasts

Lei travada, juro em alta: o canal que move mesmo a cripto

Em 48 horas, o Senado enterrou a lei cripto e a Fed subiu os juros. Setembro mostrou qual dos canais eleitorais move mesmo o preço de uma carteira em euros: o dinheiro, não a lei.

Em menos de 48 horas, os dois relógios que a política americana controla sobre a cripto pararam à vista de todos. Na terça-feira, 15 de setembro, o plenário do Senado dos Estados Unidos recusou-se a avançar com a lei que a indústria esperava há mais de um ano: a moção de cloture do CLARITY Act ficou-se pelos 49 votos a favor e 50 contra, muito longe dos 60 necessários. No dia seguinte, 16 de setembro, a Reserva Federal fez aquilo que não fazia desde 2023, subiu a taxa diretora em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4%. Dois veredictos, dois canais, e uma lição incómoda para quem gere uma carteira em euros.

Estas duas decisões parecem pertencer a mundos separados, o do direito e o da macroeconomia. Na verdade, foram uma experiência natural sobre a mesma pergunta que este jornal persegue há meses: por que via é que uma eleição chega ao preço da cripto? Setembro respondeu ordenando os canais. O canal da lei, o mais direto e o mais discutido, falhou, e o mercado quase não se mexeu com a notícia em si. O canal do dinheiro, a consequência lenta e indireta de quem venceu em 2024, disparou, e foi esse que puxou o Bitcoin para baixo dos 76 mil dólares. Para um investidor português, a conclusão é contra-intuitiva: o canal que mais lhe mexe na carteira é aquele em que não vota.

Dois veredictos em 48 horas

O calendário fez o trabalho de um editorial. Colocou, em dois dias consecutivos, o teste mais direto ao poder legislativo da cripto e a consequência mais indireta da última eleição presidencial. O mercado tratou-os de forma reveladora. A notícia da lei falhada, por si só, provocou pouco mais do que um encolher de ombros: o Bitcoin já vinha a deslizar de perto dos 80 mil dólares e a rejeição apenas confirmou um desfecho que estava largamente descontado, como noticiou a cobertura em direto da CoinDesk.

Foi a combinação com a Fed que fez o estrago. Ao longo destas 48 horas o Bitcoin recuou cerca de 4%, para baixo dos 76 mil dólares, o equivalente a cerca de 66.100 euros ao câmbio atual, segundo os dados da CoinGecko. O Ether perdeu cerca de 4,6% e o XRP chegou a ceder mais de 9%, de acordo com a Benzinga. A capitalização do Bitcoin ronda hoje os 1,33 biliões de euros.

Vistos em conjunto, os dois veredictos funcionam como uma experiência controlada. Colocam lado a lado dois dos canais pelos quais uma eleição chega ao preço de um ativo: a via da lei, escrita no Congresso, e a via do dinheiro, gerida por quem foi nomeado depois das urnas. E deixam uma pergunta que interessa a qualquer carteira em euros: qual dos dois manda mesmo no preço? A resposta de setembro é clara, e não é a que a maior parte das manchetes sugere.

O canal da lei: o teste mais direto falhou

Se existe um teste puro ao poder político direto da indústria cripto, era este. O CLARITY Act nasceu para definir a fronteira entre a SEC e a CFTC, dar às fichas um estatuto claro de mercadoria ou de valor mobiliário e tirar o setor da zona cinzenta em que vive há anos. Tinha passado na Câmara dos Representantes por 294 votos contra 134 em 2025, saíra da Comissão de Banca do Senado por 15 a 9 e chegou a setembro como a peça legislativa mais ambiciosa alguma vez tentada para a estrutura do mercado cripto nos Estados Unidos.

Falhou por uma margem que é, ela própria, uma mensagem. Os 49-50 ficaram não só longe dos 60 votos da cloture como abaixo de uma maioria simples, como detalhou a CryptoTimes. Por outras palavras, mesmo que a regra fosse de maioria, a lei teria caído. A senadora Cynthia Lummis, republicana do Wyoming e uma das negociadoras do texto, tentou até ao fim: «Não deixem que este seja o dia em que entregámos o nosso futuro a outra pessoa por termos tido demasiado medo de terminar o que começámos. Votem sim», pediu no plenário. Horas depois, o veredicto era outro. «Acho que estamos feitos. Acabou», resumiu a própria Lummis.

Do lado da indústria, a leitura foi de frustração crua. «O Estado parece avariado. Dezoito meses de trabalho entre a nossa indústria, democratas e republicanos, e o CLARITY desfaz-se na linha das cinco jardas», escreveu Mike Novogratz, presidente executivo da Galaxy Digital, numa imagem de futebol americano que a Yahoo Finance registou. Vários analistas passaram a falar de um adiamento para 2029, quando um novo Congresso e um novo ciclo presidencial voltarem a abrir a janela, uma leitura que a CoinDesk partilhou ao dar o processo por encerrado para 2026. O mais notável, porém, foi o silêncio do gráfico: a falha da lei mais importante do ano quase não deixou marca no preço.

A aritmética do 49-50: quem travou e porquê

A contagem explica porque é que este canal está encravado. Todos os democratas votaram contra, e a eles juntaram-se quatro republicanos: Susan Collins, Josh Hawley, Jerry Moran e Thom Tillis. O caso de Tillis é técnico: votou não para poder, ao abrigo das regras do Senado, apresentar mais tarde uma moção de reconsideração como membro do lado vencedor, mantendo viva a hipótese de a liderança trazer a mesma questão de volta sem começar do zero.

O bloqueio democrata não foi sobre a substância cripto, foi sobre ética. O ponto de rutura é uma cláusula destinada a impedir que o presidente e altos cargos lucrem com o setor que estão a regular, numa referência direta aos interesses cripto de Donald Trump e da sua família. O senador Mark Warner, democrata da Virgínia, disse que as negociações «chegaram perto de resolver algumas das questões mais difíceis», mas que «a incapacidade de resolver este conflito de interesses fundamental tornou impossível apoiar o avanço». A senadora Elissa Slotkin classificou o pacote ético de «demasiado fino», nomeando Trump, os filhos e o secretário do Comércio, Howard Lutnick. Catherine Cortez Masto acusou a liderança republicana de ter «fechado as conversas no último minuto».

Vale a pena perceber porque é que este ponto foi intransponível. Para os democratas, uma lei que desse à indústria um quadro estável sem impedir, ao mesmo tempo, que o presidente e a sua família lucrassem com esse mesmo quadro era politicamente inaceitável. Para a liderança republicana, endurecer a cláusula ética ao ponto exigido era abrir uma guerra interna que preferia evitar. O resultado foi um impasse clássico: ninguém cedeu o suficiente, e uma lei tecnicamente quase pronta caiu por causa de uma questão que nada tem a ver com a mecânica dos mercados cripto. É a prova de que o canal da lei não falha por falta de substância, falha por política.

Nem todos os democratas queriam matar o texto. Ruben Gallego, um dos poucos que trabalhou o compromisso, lamentou o desfecho e insistiu que a estrutura de mercado precisa de lei, não só de regras. Mas a aritmética não deixou espaço. E é isto que distingue o canal da lei de todos os outros: fica refém de um combate sobre conflitos de interesse que só uma eleição, e não uma negociação de bastidores, pode desatar. Enquanto essa composição do Senado não mudar, não há redação do CLARITY que reúna 60 votos.

O canal do dinheiro: a subida que mexeu no preço

Vinte e quatro horas depois, o segundo veredicto. A Reserva Federal subiu a taxa diretora em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4%, numa decisão unânime, de 12 votos a zero. Foi a primeira subida desde julho de 2023, como sublinhou a Fox Business, e o culminar de um verão em que a inflação se recusou a colaborar: o índice de preços no consumidor de agosto, divulgado a 11 de setembro, mostrou uma variação homóloga de 3,4%, com a componente subjacente nos 2,4% e a energia a puxar o cabeçalho para cima, à boleia de uma subida de 3,9% nos combustíveis, segundo a CNBC.

O presidente da Fed, Kevin Warsh, não suavizou o tom. Disse que a inflação está «demasiado alta, e há demasiado tempo» e prometeu, segundo a cobertura da Yahoo Finance, um regresso mais atempado à meta de 2%. Foi este anúncio, e não a lei falhada na véspera, que selou a queda do preço. A razão é mecânica: o Bitcoin é um ativo de risco cotado em dólares, e quando o custo do dinheiro sobe e o dólar ganha força, a liquidez que alimenta os ativos de risco aperta. Para quem acompanha a transmissão da política monetária ao mercado cripto, o guião foi o previsto, e a nossa antevisão da reunião detalhou o mecanismo passo a passo.

Repare-se na assimetria. O canal da lei é o que a indústria financia, faz lóbi e discute em direto; e, no dia em que falhou, o preço mal reagiu à notícia. O canal do dinheiro é aquele sobre o qual ninguém no setor cripto tem voto; e foi esse que moveu a carteira. Um dos canais grita, o outro decide.

Porque a nomeação de 2024 valeu mais que a lei de 2026

Aqui está o elo que fecha a experiência. A subida de juros de 16 de setembro não caiu do céu: é a consequência, com quase dois anos de atraso, de uma decisão eleitoral. Kevin Warsh chegou à presidência da Fed porque foi nomeado depois da eleição de 2024 e confirmado pelo Senado por 54 votos a 45, em maio de 2026. O eleitorado americano não votou em «juros mais altos» em 2024; votou em quem escolhe quem define os juros. Dezoito meses depois, essa escolha materializou-se num aperto monetário que se sentiu em euros, em Lisboa, no Porto e em qualquer carteira que tenha exposição a Bitcoin.

É por isto que, para efeitos de preço, a nomeação vale mais do que a lei. Uma lei como o CLARITY é lenta, telegrafada e, quando falha, quase não surpreende. Uma nomeação muda a política com uma assinatura, produz efeitos em meses e é reversível ao ritmo dos mandatos. Já defendemos nestas páginas que uma carteira denominada em euros está muito mais exposta a Washington do que a Lisboa, precisamente porque a liquidez em dólares fixa o preço marginal. Setembro de 2026 deu a prova empírica: no braço-de-ferro entre a lei e o dinheiro, ganhou o dinheiro.

Não é que a lei seja irrelevante. É que o seu efeito é estrutural e lento, enquanto o do dinheiro é imediato e mensurável. Quem gere risco a semanas e meses tem de ordenar os canais por esta régua, não pela quantidade de manchetes que cada um gera. Uma nomeação bem colocada num banco central pesa mais, no gráfico, do que meio ano de audiências no Congresso.

Os quatro canais, reordenados por setembro

Vale a pena arrumar os quatro canais principais numa única grelha, ordenados não pela atenção que recebem mas pelo efeito que tiveram no preço em setembro.

CanalO que aconteceu em setembro de 2026Velocidade do efeitoExposição de uma carteira em eurosO eleitor em Portugal influencia?
Legislação (CLARITY Act)Cloture falhou 49-50AnosBaixa: a notícia da falha quase não moveu o preçoNão
Nomeações e política monetária (Fed)Subida de 25 pontos base para 3,75%-4%ImediataMuito alta: via dólar, juros e liquidez globalNão
Dinheiro de campanha (Fairshake e afins)193 milhões de dólares à espera de novembroMesesIndireta: molda o Congresso futuroNão
Mercados de previsão (Polymarket, Kalshi)Já davam probabilidade baixa ao CLARITYTempo realSinal, não motorAcesso bloqueado em Portugal

A leitura da última coluna é desconfortável para um investidor europeu: os canais que mais lhe mexem no preço são exatamente aqueles em que não tem voto. E o canal onde teria alguma voz, o europeu, é o que menos mexe, por razões que veremos adiante.

O que a Fed sinalizou para o resto do ano

Se o canal do dinheiro foi o que mandou, então o que a Fed disse sobre o futuro pesa mais do que qualquer sondagem sobre o próximo projeto de lei. E o que disse foi duro. As novas projeções económicas mostraram que 16 dos 18 participantes esperam pelo menos mais uma subida ainda este ano, e quatro admitem duas, segundo a leitura da CNBC ao chamado dot plot. O próprio Warsh optou por não submeter a sua projeção de taxa, um gesto invulgar que os mercados leram como recusa de se comprometer com um teto.

Para a cripto, a mensagem é que o vento macro contrário não é um evento pontual, é uma estação. Enquanto a inflação não ceder, a via monetária continuará a puxar no sentido oposto ao do risco, independentemente do que acontecer no Congresso ou nas agências. Um investidor que estivesse à espera de um catalisador regulatório para justificar exposição acabou setembro com a ordem de prioridades invertida: primeiro a Fed, depois tudo o resto. O calendário das reuniões seguintes passou a valer mais, no gráfico, do que o calendário das votações no Senado.

Historicamente, o Bitcoin comporta-se como um ativo de duração longa: sobe com força quando o dinheiro é barato e sofre quando as taxas sobem, porque o custo de oportunidade de deter um ativo que não paga juro aumenta. Foi essa a lógica que empurrou o preço para os máximos no ciclo de dinheiro fácil e que agora joga ao contrário. Para um detentor em euros, há ainda uma segunda camada: uma Fed mais dura tende a fortalecer o dólar, o que pressiona todos os ativos cotados nessa moeda e complica a vida a quem investe a partir da Europa. Não é preciso concordar com a Fed para respeitar o seu efeito no gráfico.

Setembro em números

Reunidos, os números de setembro contam a história de um mês em que a macro pesou mais do que a política legislativa. Cada linha traz a fonte, porque nenhuma destas peças deve ser aceite sem prova.

IndicadorValorDataFonte
IPC homólogo (EUA)3,4%11 setCNBC
IPC subjacente (EUA)2,4%11 setCNBC
Taxa diretora da Fed3,75%-4% (+25 pb)16 setFox Business
Votação do CLARITY (cloture)49-5015 setCryptoTimes
Bitcoin (reação)abaixo de 76.000 USD / ~66.100 EUR16 setCoinGecko
Ether (reação)cerca de -4,6%16 setYahoo Finance
XRP (reação)cerca de -9,4%15-16 setBenzinga

Como o veredicto chega a uma carteira em euros

Falta traduzir tudo isto para a realidade de quem investe a partir de Portugal. O caminho é indireto, mas curto. O preço marginal do Bitcoin faz-se em dólares, nas mesas e nas plataformas onde corre a maior parte da liquidez. Quando a Fed sobe os juros, o dólar tende a ganhar e a liquidez global aperta; o ativo de risco cai em dólares e, mesmo depois de convertido para euros, ao câmbio de cerca de 1,15 dólares por euro, a queda passa quase intacta para a carteira nacional. Foi o que se viu nos cerca de 66.100 euros a que o Bitcoin negoceia hoje.

Do lado europeu, o canal político está praticamente selado. Com o fim do período transitório do MiCA a 1 de julho de 2026, o regime aplicável a quem presta serviços de cripto no espaço europeu ficou fixado, e a margem de manobra política de curto prazo é reduzida, uma expectativa que a ESMA já tinha deixado clara. Em Portugal, a supervisão reparte-se entre a CMVM, para a conduta de mercado, e o Banco de Portugal, para stablecoins e requisitos prudenciais, ao abrigo da Lei 69/2025. O que Lisboa decide toca sobretudo em impostos e em conduta, não no preço: as mais-valias detidas há menos de 365 dias continuam tributadas a 28%, as coimas por operar sem registo podem chegar aos 5 milhões de euros, e os derivados como os perpétuos são tratados como CFD, com alavancagem retalhista limitada a 2:1 ao abrigo da DMIF II. Até o termómetro político mais imediato, os mercados de previsão, está fora de alcance: o regulador do jogo bloqueou o acesso à Polymarket em Portugal.

A consequência prática é clara. A parte da política que um eleitor português pode influenciar, a europeia, quase não mexe no preço; a parte que mexe no preço, a monetária americana, é aquela em que não vota. Compreender esta assimetria é metade do trabalho de gerir o risco político de uma carteira. A outra metade é perceber por onde a macro entra: seja pela taxa base que hoje remunera a DeFi, que se move ao ritmo da Fed, seja pelos fluxos de custódia e de ETF que transportam o dinheiro institucional para dentro e para fora do mercado. Quando a taxa sem risco em dólares sobe, o rendimento exigido a tudo o resto sobe com ela, e a cripto não é exceção.

Agora só as urnas reabrem o canal da lei

Fechado o canal da lei para 2026, resta perguntar quando reabre. A resposta honesta é: só através das urnas. Sem uma maioria diferente, o CLARITY não volta a ter 60 votos, e vários analistas já apontam para 2029 como o horizonte realista de uma nova tentativa séria. Isso transforma as intercalares de 3 de novembro de 2026 no verdadeiro botão de reset do canal legislativo.

É aqui que entra o dinheiro de campanha. O super PAC Fairshake e as suas duas estruturas afiliadas entram nas intercalares com mais de 193 milhões de dólares em caixa, incluindo 25 milhões da Coinbase, 25 milhões da Ripple e 24 milhões da a16z, cerca de 60 milhões acima do que o grupo gastou em 2024, segundo a Axios e a CoinDesk. A arquitetura tem três veículos: o Fairshake, que financia candidatos dos dois partidos, o Protect Progress, virado para democratas, e o Defend American Jobs, virado para republicanos. O registo de voto de 15 de setembro passa, de um dia para o outro, a matéria-prima de campanha: quem bloqueou, quem apoiou, e a que preço. Já explorámos noutro texto como essa lista de votos se converte em alvo eleitoral.

O ponto para o investidor não é torcer por um lado. É reconhecer que o único caminho que reabre o canal legislativo passa por uma composição diferente do Congresso, e que essa composição se decide em novembro e, depois, em 2028. Até lá, a lei está fora de jogo, e apostar num catalisador legislativo de curto prazo é apostar contra a aritmética que acabámos de ver.

O plano B da indústria: regular sem lei

Se a lei está fora de jogo, a indústria tem um plano B, e ele já estava em marcha antes do voto de 15 de setembro. Chama-se regulação por via administrativa. Em vez de esperar pelo Congresso, o setor passa a depender das agências: a SEC, que em agosto avançou com uma proposta de regulamento próprio para ativos cripto, com o período de comentários a decorrer até outubro; a CFTC, para as fichas classificadas como mercadorias; o Tesouro e o OCC, para as stablecoins ao abrigo do GENIUS Act, já em vigor; e até o organismo de normas contabilísticas, para o tratamento em balanço. O presidente da SEC, Paul Atkins, tem defendido esta via, embora reconheça que, sem suporte legislativo, as regras dificilmente serão duradouras.

E é exatamente aqui que o plano B se dobra sobre a tese deste artigo. Uma regra de agência não é uma lei: pode ser reescrita por uma nova administração com uma canetada, um ponto que a crypto.news sublinhou ao mapear o novo mosaico regulatório. Ou seja, a regulação por via administrativa não escapa ao canal eleitoral, apenas muda de porta: em vez de passar pela legislação, passa pelas nomeações. Quem controla a Casa Branca controla quem preside à SEC, à CFTC e ao Tesouro, e portanto controla regras que podem durar apenas um mandato.

O analista Ray Salmond notou, no rescaldo do voto, que a história regulatória se desloca agora da legislação para a regulamentação. O que essa observação não sublinha é que a deslocação torna a política cripto ainda mais dependente de quem ganha, não menos. Matar a lei não retirou a política da equação. Empurrou-a para o canal mais rápido e mais reversível de todos, que é, mais uma vez, o das nomeações.

O mundo não parou em Washington

Nada disto é exclusivo dos Estados Unidos, mas os pesos mudam de país para país. No Brasil, onde a primeira volta decorreu a 4 de outubro e a segunda a 25, o canal da lei e o do dinheiro de campanha estão praticamente desligados: a doação de cripto a campanhas é proibida e os mercados de previsão sobre política foram restringidos, pelo que o voto chega ao preço sobretudo pela via macro, a Selic e o real, e pela regulação dos prestadores de serviços. Na Argentina, a caminho das presidenciais de 2027, o canal dominante é outro ainda, o da adoção: com a maior parte do volume cripto em pesos a passar por stablecoins, o eleitorado dolarizou-se por baixo antes de qualquer lei o consagrar. Na Nigéria, o Estado inverteu a política cripto sem sequer precisar de uma eleição, empurrado pela queda da moeda.

Para uma carteira em euros, porém, a hierarquia mantém-se. Nenhum destes mercados fixa o preço marginal do Bitcoin como a Fed o faz. São canais regionais, decisivos para quem vive e investe nesses países, mas periféricos para quem mede o risco a partir de Lisboa. A régua de setembro, ordenar os canais pelo efeito no preço e não pela atenção mediática, aplica-se em todo o lado; muda apenas a ordem consoante o país. Num sítio manda a adoção, noutro a regulação local, mas para o euro-preço manda quase sempre o dólar.

Há ainda um efeito de segunda ordem que liga tudo isto: o dólar. Quando a Fed aperta, moedas emergentes como o peso argentino, o real brasileiro ou o naira nigeriano tendem a sofrer, e é justamente nesses momentos que a procura por stablecoins em dólares dispara nesses países. Ou seja, a mesma decisão que faz o Bitcoin cair em euros pode, ao mesmo tempo, acelerar a adoção de cripto onde a moeda local se desvaloriza. O canal monetário americano não se limita a mover o preço; molda também a geografia da procura.

O que vigiar até novembro

O calendário das próximas semanas dá para testar a tese em tempo real. Cada data ativa um canal diferente, e a intensidade da reação de cada um vai confirmar ou desmentir a hierarquia que setembro sugeriu.

DataEventoCanal ativadoPorque importa para o preço
OutubroFecho do período de comentários à proposta da SECRegulamentação / nomeaçõesDefine o alcance do plano B sem lei
25 de outubroSegunda volta das eleições no BrasilRegionalMacro e regulação locais, efeito limitado no euro-preço
Final de outubroPróxima reunião da FedMonetárioO canal que mais mexeu; vigiar o tom sobre novas subidas
3 de novembroIntercalares nos Estados UnidosLegislação / urnasÚnico caminho que pode reabrir o canal da lei
DezembroReunião da Fed com novas projeçõesMonetárioConfirma ou desmente a trajetória de subidas

Se a tese de setembro estiver certa, os dias a marcar a vermelho são os da Fed, não os do Congresso, por mais que as manchetes sugiram o contrário. E a única data legislativa que pode voltar a mudar tudo não está no calendário das votações; está no das urnas.

O risco de ler setembro a mais

Convém não transformar um mês numa lei da física. Há pelo menos três razões para segurar a conclusão. A primeira: o facto de o preço quase não ter reagido à queda do CLARITY pode significar apenas que a falha estava descontada, não que a lei seja irrelevante; uma aprovação surpresa teria, muito provavelmente, feito subir o mercado. O canal da lei pode estar adormecido, não morto. A segunda: a subida da Fed e a queda da lei aconteceram na mesma janela de 48 horas, o que torna a atribuição imperfeita; parte da queda do dia 16 misturou os dois eventos, e desemaranhá-los ao cêntimo é impossível. A terceira: a alavancagem exagera tudo. Quando o XRP perde mais de 9% num par de sessões, boa parte do movimento é liquidação forçada de posições alavancadas, um amplificador que faz um choque macro parecer maior do que o seu impacto fundamental, e a anatomia dessas cascatas merece um texto só para ela.

Há ainda o cenário que virava a tese do avesso: se um Congresso reconfigurado aprovar a estrutura de mercado em 2027 ou 2029, o canal da lei volta a rugir, e a hierarquia de setembro deixa de valer. A tese não é «a lei nunca conta». É «neste regime, e para um horizonte de semanas a meses, o dinheiro conta mais». É uma régua para gerir risco, não um dogma. E, como qualquer régua, deve ser recalibrada quando os dados mudarem. Por agora, os dados de setembro dizem uma coisa só: para o preço, o voto que mais pesou foi o que aconteceu na Fed, não o que falhou no Senado.

Perguntas frequentes

Porque é que o CLARITY Act falhou no Senado em setembro de 2026?

A moção de cloture ficou-se pelos 49 votos a favor e 50 contra, longe dos 60 necessários e até abaixo de uma maioria simples. Todos os democratas votaram contra, juntamente com quatro republicanos (Susan Collins, Josh Hawley, Jerry Moran e Thom Tillis), sobretudo por causa de uma cláusula ética destinada a impedir que o presidente e a sua família lucrem com o setor. Na prática, o resultado congela o trabalho sobre a estrutura de mercado cripto no Senado durante 2026.

A Reserva Federal subiu os juros em setembro de 2026?

Sim. A 16 de setembro, a Fed subiu a taxa diretora em 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4%, numa decisão unânime e na primeira subida desde 2023. As projeções divulgadas mostraram que a maioria dos responsáveis espera pelo menos mais uma subida ainda este ano, um sinal claramente restritivo.

Como é que as eleições americanas afetam o preço da cripto em euros?

Sobretudo pela via monetária, não pela via da lei. Quem vence a eleição nomeia quem define os juros, e é essa política de juros, transmitida pelo dólar e pela liquidez global, que fixa o preço marginal do Bitcoin sentido também em euros. O canal legislativo americano, por muito mediático que seja, teve em setembro um efeito quase nulo no preço.

O que acontece à regulação da cripto agora que o CLARITY caiu?

O centro de gravidade desloca-se para a regulação por via administrativa: a SEC, a CFTC, o Tesouro e o OCC passam a definir as regras, com as stablecoins já cobertas pelo GENIUS Act. A desvantagem é que uma regra de agência pode ser revertida por uma nova administração, ao contrário de uma lei, o que torna o quadro mais dependente de quem ganha as eleições.

As intercalares de novembro de 2026 podem mudar isto?

Podem reabrir o canal da lei, que é hoje o único caminho para ressuscitar a estrutura de mercado. Um Senado com outra composição poderia voltar a votar o CLARITY, e o super PAC Fairshake entra na corrida com mais de 193 milhões de dólares. Ainda assim, mesmo com uma nova lei, o canal monetário continuaria a ser o que mais mexe no preço de curto prazo.

Tomás Almeida escreve sobre política monetária, regulação e mercados de cripto para a HOGE Wire.

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