Dia de decisão: o juro real da DeFi e a nova taxa base
Hoje a Fed e o BCE reiniciam a taxa base no mesmo dia. Um mapa de onde está cada fonte de juro real da DeFi e do que muda quando a régua sobe dos dois lados.
Há uma pergunta que atravessa toda a DeFi de 2026 e hoje ela tem um pano de fundo pouco habitual: os dois bancos centrais que definem o custo do dinheiro no Ocidente decidem no mesmo dia. Ao início da tarde de Lisboa, o Comité de Mercado Aberto da Reserva Federal anuncia a decisão de juros e, com ela, o Summary of Economic Projections, o famoso «dot-plot». Os mercados descontam uma subida de 25 pontos base, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, a primeira subida da Fed desde julho de 2023, com uma probabilidade que já ronda os 80% a 90%. Do outro lado do Atlântico, a subida que o Banco Central Europeu aprovou a 10 de setembro, e que levou a taxa de depósito para 2,50%, entra em vigor esta mesma semana.
Hoje a régua muda de tamanho
Porque é que isto interessa a quem procura rendimento on-chain? Porque a taxa base, o juro sem risco que um bilhete do Tesouro paga, é a régua com que se mede tudo o resto. Um rendimento de 5% num protocolo de DeFi só é «real», e só é interessante, na medida em que excede aquilo que se ganha sem risco de crédito. Quando a régua muda de tamanho, muda ao mesmo tempo a leitura de cada rendimento do ecossistema. E hoje a régua muda dos dois lados do Atlântico, no mesmo dia.
Este artigo não é uma previsão sobre o que a Fed vai fazer às 19h de Lisboa. É um mapa. Onde está cada fonte de juro real do sector, como cada uma reage a uma taxa base que sobe em vez de descer, e o que um investidor em euros deve vigiar quando o dot-plot aterrar. Ao longo do último ano, a história do juro real foi a de rendimentos a comprimir na direção de uma base estável. A novidade de hoje é outra: a base deixou de ser um chão fixo e passou a ser um teto que se levanta. Quem escreve tabelas de rendimento em setembro de 2026 tem de as reescrever esta tarde.
O que conta como juro real
Convém recuperar a definição, porque é dela que sai tudo o resto. Juro real (real yield) é o rendimento que vem da receita efetiva de um protocolo: comissões de troca, juros de quem pede emprestado, funding pago pelos perpétuos, MEV, ou os cupões de ativos do mundo real que estão por trás de uma stablecoin. Não é o rendimento que vem de imprimir mais tokens e distribuí-los a quem deposita, uma prática que inflaciona a oferta e transfere valor entre utilizadores em vez de o criar.
O teste é simples e implacável: o rendimento sobreviveria se o preço do token nativo do protocolo caísse para zero? Se sobrevive, porque assenta em comissões que os clientes pagam de facto, é juro real. Se desaparece, porque dependia da valorização do token que se emitia como incentivo, era subsídio disfarçado. O conceito nasceu no bear market de 2022, quando protocolos como a GMX e a Synthetix distinguiram o dinheiro que ganhavam do dinheiro que fabricavam. Em 2026 a distinção deixou de ser filosófica e passou a ser de marketing: quase toda a gente diz oferecer juro real, e por isso a tarefa de separar receita de emissão passou do investidor curioso para o investidor prudente.
Há uma razão para 2026 ser diferente de 2022. Naquele primeiro ciclo, o juro real era um nicho de traders de perpétuos; hoje é a espinha dorsal de stablecoins que movem milhares de milhões, de fundos de gestoras de Wall Street e de tesourarias de protocolos que recompram os próprios tokens. O rótulo passou de argumento de nicho a promessa de massas, e é precisamente quando toda a gente promete a mesma coisa que a palavra perde valor. Separar quem ganha dinheiro de quem o distribui a crédito tornou-se a competência básica de qualquer investidor sério em DeFi.
A taxa base é a régua de tudo
Se o juro real é receita, a taxa base é a vara com que se mede se essa receita compensa o risco. E a taxa base tem hoje uma expressão on-chain muito concreta: os bilhetes do Tesouro norte-americano tokenizados. Falamos de fundos que compram dívida pública de curto prazo e emitem um token que representa uma participação, com o cupão a chegar ao detentor. É, de longe, a maior fonte de rendimento com lastro real de toda a cripto: mais de 15 mil milhões de dólares em valor distribuído, repartidos por 105 produtos e cerca de 78 730 detentores, a render 3,29% em média a sete dias na véspera da decisão.
Este número, 3,29%, é a régua. Qualquer rendimento de DeFi tem de ser lido como um spread sobre ele: um protocolo que paga 5% oferece, na prática, um prémio de cerca de 1,7 pontos percentuais sobre o Tesouro, e é esse prémio, e não os 5% cheios, que remunera o risco de contrato inteligente, de contraparte e de liquidez. Repare-se no essencial: a taxa base a que estes fundos rendem segue o cupão da dívida de curto prazo, que por sua vez segue a política da Fed. Se hoje a Fed sobe para 3,75%-4,00%, o rendimento destes bilhetes tokenizados vai derivar para cima nas próximas semanas, líquido de comissões. A régua não fica onde estava.
Duas taxas base, não uma
Aqui entra a parte que quase nenhum guia em inglês trata, e que é decisiva para o leitor português: existem duas taxas base, não uma. O rendimento da esmagadora maioria das fontes de juro real está denominado em dólares e ancorado na taxa da Fed. Mas a alternativa sem risco de quem vive e poupa em euros não é a taxa da Fed, é a taxa do BCE. E hoje esses dois números divergem de forma pouco comum: a Fed a caminho dos 3,875% no ponto médio, o BCE nos 2,50%.
A consequência é contra-intuitiva. Um rendimento em dólares de 5% parece bater com folga tanto os 3,875% da Fed como os 2,50% do BCE. Mas o investidor em euros não recebe a diferença face à Fed, recebe a diferença face ao BCE menos o custo de trazer o dinheiro de volta a euros. E esse custo de cobertura cambial é, grosso modo, o próprio diferencial de juros entre as duas moedas. Por outras palavras, o mercado não deixa dinheiro em cima da mesa: cobrir o câmbio de um rendimento em dólares custa aproximadamente aquilo que a Fed paga a mais do que o BCE. Feita a conta, o rendimento em dólares coberto para euros tende a colapsar de novo para perto da taxa do BCE. É por isto que a subida do BCE de 10 de setembro, que a maior parte da cobertura cripto ignorou, importa tanto ao leitor de Lisboa como a decisão de Washington.
Do lado europeu, o tom também endureceu. Christine Lagarde, que preside ao BCE, classificou a subida de 10 de setembro como um «no brainer», uma decisão óbvia, e avisou que o choque energético deverá manter a inflação da zona euro bem acima do objetivo de 2% durante um período alargado. Para o aforrador português, a mensagem é dupla: a taxa sem risco em euros subiu para 2,50% e pode subir mais, o que torna cada ponto de juro em dólares menos especial depois de descontado o câmbio.
O sinal está no dot-plot, não na subida
Se há uma ideia para reter do dia de hoje é esta: para o juro real da DeFi, os 25 pontos base de hoje interessam menos do que o dot-plot que os acompanha. A razão é técnica mas simples. O rendimento de um bilhete do Tesouro a três ou seis meses não reflete apenas o juro de hoje, reflete a média esperada do juro ao longo da vida do título. É a trajetória, não o nível de um único dia, que fixa a base que ancora os rendimentos on-chain para o próximo ano.
Daí que os olhos estejam no Summary of Economic Projections. Em junho, a mediana apontava para 3,8% no fim de 2026, acima dos 3,4% projetados em março, e o mercado espera hoje que as medianas de fim de 2026 e de fim de 2027 subam acima de 4,0%. Há um pormenor que torna a leitura mais difícil: Kevin Warsh, que preside à Fed desde maio, é um crítico antigo da orientação prospetiva e, na sua primeira reunião como presidente, em junho, não submeteu sequer um ponto para o gráfico. Um dot-plot que aponte para juros mais altos e por mais tempo empurra a régua da DeFi para cima durante meses; um dot-plot que sugira que esta é a última subida do ciclo faz o contrário. Um inquérito da Reuters mostrava 85% dos economistas à espera da subida depois dos dados de inflação de agosto, quando uma semana antes dois terços ainda apostavam na manutenção. A convicção mudou depressa, e é essa convicção, projetada no futuro, que o dot-plot vai medir.
Vale a pena ouvir o próprio presidente da Fed. No discurso de Jackson Hole, a 28 de agosto, Kevin Warsh avisou que «a estabilidade de preços não se realiza por si só, nem a inflação regressa necessariamente à média». É uma frase que enterra a ideia de cortes automáticos, e que, traduzida para o juro real da DeFi, significa uma coisa só: a régua sem risco pode ficar alta durante mais tempo do que o mercado gostaria, e todo o prémio que os protocolos oferecem acima dela terá de ser ganho, não prometido.
O estado do juro real na hora do veredicto
Antes de olhar para cada fonte em detalhe, vale a pena um retrato de conjunto. A tabela abaixo mostra onde estava cada rendimento na véspera da decisão e como cada um reage, na teoria, a uma taxa base que sobe. A coluna que interessa não é a do rendimento, é a da sensibilidade: nem todas as fontes reagem da mesma maneira quando a régua se levanta.
| Fonte | Rendimento (aprox.) | De onde vem | Reação a uma base que sobe |
|---|---|---|---|
| Bilhetes do Tesouro tokenizados | 3,29% | Cupão da dívida pública de curto prazo | Sobe (passa a subida ao detentor) |
| sUSDe (Ethena) | perto de 5% | Funding de perpétuos + staking | Ambígua (depende da base dos perpétuos) |
| sUSDS / Sky Savings Rate | 3,75% fixado, ~3,6% efetivo | Cupões de RWA + excedente do protocolo | Só sobe se a governação votar a subida |
| Staking de Ethereum | 2,7% a 3% | Emissão + comissões de prioridade + MEV | Cai em termos relativos (spread comprime) |
| Aave (depósitos) | variável | Juros de quem pede emprestado | Sobe se a procura de crédito aguentar |
| Hyperliquid (HYPE via buyback) | cíclico | Comissões de negociação de perpétuos | Depende do ciclo, não da base |
O padrão que salta da tabela é o que vamos desenvolver a seguir: uma única fonte ganha inequivocamente com a subida, outra fica presa a uma decisão política, uma terceira fabrica o juro à parte do Tesouro, e as que vivem de comissões dependem do apetite de risco do mercado, não da Fed.
Um caso merece nota à parte, porque foi durante anos a referência do sector: o staking de Ethereum. Hoje rende cerca de 2,7% a 3% juntando emissão, comissões de prioridade e MEV, com cerca de um terço de todo o ETH bloqueado em validadores. O detalhe incómodo é que esse número caiu abaixo da própria régua: um validador de Ethereum rende hoje menos do que um bilhete do Tesouro tokenizado. Não deixa de ser juro real, é dos mais puros que existem, mas ilustra melhor do que qualquer outro exemplo o que uma taxa base a subir faz ao resto: comprime o prémio até ele desaparecer.
Bilhetes do Tesouro tokenizados: o vencedor paradoxal
O paradoxo de um dia de subida de juros é que a fonte de juro real mais aborrecida de toda a DeFi é também a única que ganha de forma limpa. Os bilhetes do Tesouro tokenizados não têm de fazer nada de especial: são a base. Quando o cupão da dívida de curto prazo sobe, o rendimento do token sobe atrás, com um desfasamento de dias a semanas e descontadas as comissões do fundo. Enquanto os protocolos de DeFi que competem com o Tesouro vêem o seu prémio encolher, os fundos de Tesouro tokenizados limitam-se a repassar a boa notícia.
A liderança é de nomes que qualquer gestor tradicional reconhece. O BUIDL da BlackRock ronda os 2,68 mil milhões de dólares, o USYC da Circle os 2,60 mil milhões, o USDY da Ondo os 2,24 mil milhões, o iBENJI da Franklin Templeton os 1,70 mil milhões e o WTGXX da WisdomTree os 1,23 mil milhões. Mas há um senão que o leitor deve interiorizar: este rendimento é dolarizado até à raiz, e a custódia dos ativos vive em instituições reguladas fora da cadeia. Como já mostrámos ao acompanhar quem move de facto os grandes volumes on-chain, os maiores «detentores» destes produtos são muitas vezes depositários e mesas institucionais, não pequenos aforradores. Quem compra um cupão do Tesouro através de um token compra o rendimento e, com ele, o risco cambial de o receber em dólares.
Administrado contra automático
Nem todas as stablecoins de rendimento repassam a subida da mesma maneira, e a diferença é o coração da leitura de hoje. Há dois modelos. Um é o repasse automático: o BUIDL e os seus pares seguem o mercado monetário quase em tempo real, sem que ninguém tenha de decidir nada. O outro é a taxa administrada, e o exemplo maior é a Sky, o antigo MakerDAO. A Sky Savings Rate que remunera o sUSDS não é um repasse, é um parâmetro que a governação da DAO fixa por votação, hoje em 3,75%, com um rendimento efetivo perto de 3,6%. Se a Fed subir esta tarde, o rendimento do sUSDS não mexe um ponto base até que os detentores de token de governação votem para o mudar.
| Característica | Repasse automático (ex.: BUIDL) | Taxa administrada (ex.: Sky SSR) |
|---|---|---|
| Quem fixa o rendimento | O mercado monetário | Uma votação de governação |
| Reação a uma subida da Fed | Sobe em dias a semanas | Só sobe se for votada |
| Fonte do rendimento | Cupão do Tesouro | RWA + excedente + taxas de crédito cripto |
| Risco a vigiar | Custódia e resgate do fundo | Concentração de votos, mudança de política |
Nenhum modelo é melhor em abstrato. O repasse automático é transparente mas escravo do mercado; a taxa administrada dá estabilidade mas depende de quem controla os votos, e a concentração de poder em poucas carteiras é o seu ponto fraco conhecido. O leitor que persegue estabilidade deve saber que uma taxa administrada pode ficar para trás da base durante semanas depois de uma subida, e que essa demora é uma decisão humana, não um acidente de mercado.
O juro fabricado: Ethena e o funding
Existe uma terceira espécie de juro real que não é importada do Tesouro nem ganha em comissões: é fabricada. A Ethena constrói o rendimento do sUSDe com uma posição delta-neutra, longa em Ethereum em staking e curta em perpétuos de igual valor, de modo que o preço fica coberto e sobram o funding pago pelos perpétuos e o rendimento do staking. O cofundador Guy Young gosta de chamar ao resultado a «Internet Bond», uma obrigação nascida na cadeia. Na véspera da decisão, o sUSDe rendia perto de 5%, acima do Tesouro tokenizado, e a razão desse prémio é exatamente o risco que carrega: o funding pode virar negativo e o rendimento evaporar-se.
Como reage esta fonte a uma subida de juros? De forma ambígua, e é isso que a torna interessante. O sUSDe não segue a taxa da Fed, segue a base dos perpétuos, ou seja, o prémio a que os futuros negoceiam acima do preço à vista. Em fases de apetite de risco, essa base alarga e o funding sobe, o que empurra o rendimento do sUSDe para cima justamente quando a base do Tesouro também sobe. Mas se a subida da Fed travar o mercado e comprimir a alavancagem, o funding encolhe e o rendimento cai. Vale a pena recordar o que aconteceu no outono de 2025, quando o funding virou e a oferta de USDe encolheu de forma abrupta. Para quem quiser o mecanismo passo a passo, dedicámos-lhe uma análise a fundo do dólar sintético que fabrica o juro. O ponto para hoje é este: das fontes todas, o sUSDe é a única cujo rendimento pode subir ou descer com a decisão, consoante o que ela fizer ao apetite de alavancagem do mercado.
A receita que se ganha: buybacks, Hyperliquid e Aave
A quarta espécie de juro real é a que se ganha em comissões e regressa ao token através de recompras. É o modelo da Hyperliquid, cuja Assistance Fund canaliza cerca de 97% das comissões para comprar HYPE no mercado aberto e retirá-lo de circulação. Até 6 de setembro, o mecanismo já tinha retirado 48,42 milhões de HYPE, o equivalente a 4,84% da oferta máxima, a um ritmo médio próximo de um milhão de dólares por dia sobre cerca de 1,3 mil milhões de dólares de comissões anualizadas. É juro real puro: se o preço do HYPE fosse a zero, as comissões continuariam a entrar. Mas tem um calcanhar de Aquiles que não tem nada a ver com a Fed: os buybacks trimestrais têm vindo a recuar à medida que a HIP-3, os perpétuos permissionless lançados em outubro de 2025, passa a partilhar comissões com quem cria os mercados. A ameaça a esta fonte é a concorrência, não a taxa de juro.
A Aave representa a variante do crédito. Com a Aavenomics 3.0, o protocolo passou a fazer recompras automáticas e imutáveis de AAVE financiadas pela receita, na ordem das centenas de milhões de dólares anualizados. Aqui a subida de juros pode até ajudar, desde que a procura de crédito aguente: taxas mais altas nos empréstimos on-chain significam mais receita para o protocolo, contanto que os utilizadores continuem a pedir emprestado a esses preços. É a mesma tensão que descrevemos ao explicar quem gere o risco por trás dos juros do crédito on-chain. O problema de todo este bloco é a concentração: segundo os dados de receita para detentores, a Hyperliquid capta cerca de 38% de tudo o que a DeFi devolve a quem detém tokens, e os dez maiores protocolos concentram perto de 87%. Um sector que parece diversificado assenta, na prática, num punhado de motores.
| Protocolo | Mecanismo | Sensibilidade à taxa base | Risco principal |
|---|---|---|---|
| Hyperliquid | Recompra de HYPE com comissões | Baixa (segue o ciclo de negociação) | Concorrência e concentração |
| Aave | Recompra de AAVE com receita de crédito | Positiva se a procura aguentar | Contração do crédito |
| Uniswap | Parte das comissões compra e queima UNI | Neutra | Volume de negociação |
A armadilha cambial: o euro come o spread
Chegamos ao ponto que mais interessa a quem lê de Portugal, e o que torna esta decisão de juros diferente das anteriores. Todo o juro real que descrevemos, à exceção de uma futura versão em euros, está denominado em dólares. Na véspera da decisão, o EUR/USD estava em 1,1540, com o euro perto do valor mais baixo de um mês, sustentado pela expetativa da subida da Fed. Um dólar mais forte hoje ajuda quem já tem rendimento em dólares; mas a moeda oscila, e é aí que o spread do juro real desaparece.
A aritmética é brutal. Suponha-se um rendimento em dólares de 4% ao ano. Basta o euro valorizar-se 4% face ao dólar ao longo do ano para que o ganho cambial negativo apague o juro por inteiro. A tabela seguinte, meramente ilustrativa, mostra como um movimento cambial modesto domina um spread de juro real que raramente passa de dois ou três pontos.
| Rendimento em dólares | Variação do EUR/USD no ano | Retorno efetivo em euros (aprox.) |
|---|---|---|
| 4% | Euro estável | ~4% |
| 4% | Euro sobe 3% | ~1% |
| 4% | Euro sobe 5% | ~-1% (perda) |
| 4% | Euro desce 3% | ~7% |
É por isto que a divergência de hoje é uma faca de dois gumes. Se o dot-plot da Fed for agressivo e o dólar continuar forte, o rendimento em dólares valoriza para o investidor europeu. Mas o BCE também subiu e o mercado já aposta em mais subidas europeias, com a taxa de depósito a caminho de perto de 2,9% até dezembro. Dois bancos centrais a apertar ao mesmo tempo mantêm o câmbio numa gangorra que pode virar a qualquer momento. O leitor sensato não persegue o rendimento nominal mais alto em dólares; desconta primeiro o câmbio e a taxa do BCE, e só depois compara.
O que vigiar quando o dot-plot aterrar
Um dia de decisão precisa de uma lista de verificação, não de adivinhação. Quando os números saírem esta tarde, e quando o presidente Warsh falar à imprensa meia hora depois, há sinais concretos que dizem para onde vai a régua do juro real nas próximas semanas. Estes são os que importam:
- A mediana de 2027 no dot-plot. Mais do que a subida de hoje, é a projeção para o próximo ano que fixa a base que ancora os bilhetes do Tesouro tokenizados. Uma mediana acima de 4,0% mantém a régua alta durante meses.
- O tom de Warsh sobre a orientação prospetiva. Um presidente que se recusa a comprometer com uma trajetória deixa o mercado a adivinhar, e a incerteza alarga os prémios de risco em toda a DeFi.
- O rendimento a sete dias dos fundos de Tesouro tokenizados. Nos dias seguintes, veja se o 3,29% começa a subir; é o primeiro termómetro do repasse da subida à cadeia.
- O funding dos perpétuos. Se a decisão travar o apetite de alavancagem, o funding cai e o rendimento do sUSDe segue-o para baixo; se o mercado festejar, acontece o contrário.
- O EUR/USD nas horas seguintes. É o número que decide se o seu rendimento em dólares vale mais ou menos em euros, e move-se mais depressa do que qualquer taxa de protocolo.
Para o enquadramento de mercado, minuto a minuto, do que a cripto costuma fazer numa tarde destas, vale a pena reler o nosso guião de reação ao FOMC para a subida de setembro. E para perceber como o próprio mercado já cota a trajetória futura dos juros, através dos rendimentos que se compram e vendem em separado, fica a nossa leitura de como a Pendle transformou o juro on-chain num mercado.
CMVM, Banco de Portugal e o fisco
Falta a camada que o leitor europeu não pode ignorar: a regulação. Há uma razão estrutural para o juro real da DeFi viver quase sempre num «wrapper», o sUSDS ou o sUSDe, e nunca na stablecoin em si. O regulamento MiCA, nos seus artigos 40.º e 50.º, proíbe pagar juro pela simples detenção de tokens de moeda eletrónica ou referenciados a ativos. É por isso que a USDC e a USDT não distribuem o cupão dos Tesouros que têm em reserva, e que o rendimento é empurrado para um token de poupança à parte. Não é um detalhe técnico, é a arquitetura legal que molda todo o sector na Europa.
Em Portugal, a supervisão está repartida pela Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025: o Banco de Portugal cuida das stablecoins e do registo de prestadores, a CMVM zela pela conduta de mercado e pelo abuso de mercado, com coimas que podem chegar aos cinco milhões de euros. Convém ainda lembrar que muitos destes produtos, sobretudo os fundos de Tesouro tokenizados, podem qualificar-se como instrumentos financeiros sob a DMIF II, e não como criptoativos sob o MiCA, uma fronteira que a ESMA traçou nas suas orientações de março de 2025. No plano fiscal, a regra portuguesa distingue naturezas: juros e rendimentos de capitais tendem a cair na Categoria E, tributada a 28% e sem o período de detenção de 365 dias; as mais-valias na venda de criptoativos caem na Categoria G, também a 28%, mas com isenção para ativos detidos há mais de um ano. O tratamento de wrappers que acumulam valor em vez de distribuir ainda não está totalmente assente, pelo que cada caso merece a confirmação de um contabilista.
No fim, a decisão de hoje devolve ao juro real da DeFi a sua pergunta mais honesta. Durante o ano, o debate foi «isto é real ou é subsídio?». A partir desta tarde, com a régua a subir dos dois lados do Atlântico, a pergunta passa a ser mais dura: «este rendimento paga-me o suficiente acima do que ganho sem risco, depois do câmbio e do imposto, para justificar o risco que corro?». Quem responder a essa pergunta com números, e não com marketing, atravessa bem qualquer dia de decisão.
Perguntas frequentes
O que é o juro real (real yield) na DeFi?
O juro real é o rendimento que vem da receita efetiva de um protocolo, comissões de troca, juros de empréstimos, funding de perpétuos ou cupões de ativos do mundo real, e não da emissão de novos tokens. O teste simples é perguntar se o rendimento sobreviveria caso o preço do token do protocolo caísse para zero. Se sobrevive, é juro real; se desaparece, era subsídio.
Uma subida de juros da Fed é boa ou má para o juro real da DeFi?
Depende da fonte. Uma taxa base mais alta puxa diretamente para cima os rendimentos dos bilhetes do Tesouro tokenizados, que passam a subida quase toda ao detentor, por isso beneficia essa fonte. Mas comprime o prémio dos rendimentos que competem com o Tesouro, como o staking de Ethereum, e torna mais exigente qualquer promessa de juro elevado. O sinal decisivo não é a subida de hoje, é a trajetória que o dot-plot desenha para os próximos anos.
Qual é a diferença entre o rendimento do sUSDe e o do sUSDS?
O sUSDe, da Ethena, fabrica o rendimento com uma posição delta-neutra que capta o funding dos perpétuos e o staking de Ethereum, por isso o juro flutua com o mercado e pode cair quando o funding fica negativo. O sUSDS, da Sky, paga a Sky Savings Rate, uma taxa administrada que a governação fixa por votação e que não sobe automaticamente quando a Fed sobe. Um é preço de mercado, o outro é parâmetro político.
Vale a pena um investidor em euros perseguir um rendimento em dólares?
Só depois de descontar duas coisas: o câmbio e a taxa sem risco em euros. O rendimento da maioria das fontes de juro real está em dólares, e uma valorização de 4% a 5% do euro face ao dólar pode apagar um ano inteiro de juro. Além disso, a alternativa sem risco de quem vive em euros não é a taxa da Fed, é a taxa do BCE, hoje em 2,50%. É esse o número que o rendimento em dólares tem de bater depois de coberto o câmbio.
Como se paga imposto sobre o rendimento de DeFi em Portugal?
A regra depende da natureza do rendimento. Juros e rendimentos de capitais tendem a cair na Categoria E, tributada a 28%, sem o período de detenção de 365 dias. As mais-valias na venda de criptoativos caem na Categoria G, também a 28%, mas com isenção quando o ativo é detido há mais de 365 dias. O enquadramento de wrappers que acumulam valor, como o sUSDS, ainda não está totalmente assente, pelo que convém confirmar cada caso com um contabilista.
Por Yuki Tanaka, redação da HOGE Wire. Análise informativa, não constitui aconselhamento de investimento.