Ethena a fundo: o dólar sintético que fabrica o juro
A Ethena não importa juro de Bilhetes do Tesouro nem cobra comissões: fabrica-o com uma operação delta-neutral sobre perpétuos. Um rendimento de mercado, e os riscos que vêm com ele.
Esta semana, os dois bancos centrais que mais pesam na carteira de um investidor europeu apertam ao mesmo tempo. A Reserva Federal decide a 16 de setembro e o mercado atribui já mais de 80% de probabilidade a uma subida de 25 pontos base, segundo a ferramenta CME FedWatch (Yahoo Finance). O Banco Central Europeu subiu a taxa de depósito para 2,50% a 10 de setembro, e as novas taxas entram em vigor exatamente no mesmo dia (Euronews).
Para quase todo o rendimento da DeFi, isto é decisivo: a taxa base, o cupão dos Bilhetes do Tesouro norte-americano tokenizados, acompanha a Fed quase em tempo real. Há, porém, um rendimento que não nasce de nenhum banco central nem de nenhum título soberano. O sUSDe, o token de poupança da Ethena, fabrica o seu juro a partir do mercado de perpétuos. É o rendimento mais invulgar, e um dos mais vigiados, de toda a finança on-chain, e também o único que já levou um regulador europeu a mandar fechar a porta.
Três maneiras de gerar rendimento real
A expressão «rendimento real» ganhou forma no mercado em baixa de 2022, quando protocolos como a GMX, a Synthetix e a Gains começaram a distribuir aos seus utilizadores dinheiro que ganhavam mesmo (comissões, juros, funding) em vez de o pagarem com a emissão de novos tokens. O teste continua a ser simples: se o token do protocolo caísse a zero, o rendimento sobreviveria? Se a resposta for sim, é rendimento; se for não, é subsídio disfarçado, pago com inflação do próprio token.
Em 2026, o rendimento real chega por três vias distintas. A primeira é importado: alguém compra Bilhetes do Tesouro e passa o cupão para uma versão tokenizada, como faz a BlackRock com o BUIDL ou a Ondo com o USDY. A segunda é ganho: um protocolo cobra comissões reais e devolve parte aos detentores do token, como a Aave, a Uniswap ou a Hyperliquid. A terceira é fabricado, e é aqui que a Ethena vive: o rendimento não vem de fora nem de uma comissão, é manufaturado a partir de uma operação financeira montada de propósito. Perceber essa terceira via é perceber por que motivo a Ethena é, ao mesmo tempo, um dos produtos mais elogiados e mais contestados da cripto.
O que é o USDe: o dólar sintético explicado
O USDe é aquilo a que a própria Ethena chama um «dólar sintético». Não é um dólar-token no sentido do USDC ou do USDT, que guardam dólares e dívida de curto prazo num banco e prometem devolvê-los um a um. O USDe não tem dólares num cofre. Mantém a paridade com o dólar através de uma cobertura: para cada unidade de colateral em Ethereum, Bitcoin ou tokens de staking líquido que detém, a Ethena abre uma posição curta equivalente em futuros perpétuos. Se o colateral cai 10%, a posição curta ganha aproximadamente 10%, e o valor líquido mantém-se junto de um dólar.
Convém separar três coisas que muita gente confunde. O USDe é o dólar sintético, e não paga juro nenhum. O sUSDe é o USDe «em staking», o invólucro que acumula o rendimento (o seu preço de resgate sobe com o tempo). O ENA é o token de governação do protocolo. Guy Young, cofundador e diretor executivo da Ethena, descreve o sUSDe como o «Internet Bond», uma obrigação nativa da internet (Ethena), e não esconde a ambição: o USDe passou de zero a quase 15 mil milhões de dólares em dezoito meses, um dos crescimentos mais rápidos da história das stablecoins (Messari).
Vale a pena perceber por que motivo alguém constrói um dólar assim, em vez de simplesmente guardar dólares. A resposta é a censura e a dependência bancária: um dólar sintético vive on-chain, não precisa de uma conta num banco americano nem de acesso ao sistema de pagamentos tradicional, e é essa promessa de neutralidade que atrai capital que não quer depender da Circle ou da Tether. O preço a pagar é a complexidade: manter a paridade exige gerir posições em várias corretoras, financiar margens e reagir a movimentos bruscos, um trabalho que um cofre de Bilhetes do Tesouro não dá.
A tese do dólar sintético exige confiança na equipa que a executa, um ponto que já explorámos em O crente é coautor: porque queremos acreditar no fundador. É um produto sofisticado, e a sofisticação esconde riscos que o investidor comum raramente vê.
Como se fabrica o juro: a operação delta-neutral
A operação chama-se «delta-neutral» porque anula a exposição ao preço (o «delta»). A Ethena detém colateral à vista (Bitcoin, Ethereum e tokens de staking líquido) e vende a descoberto uma quantidade equivalente de perpétuos sobre esses mesmos ativos. O que sobra, depois de anulado o risco de preço, são três fluxos de rendimento que se somam no sUSDe.
O primeiro é o funding: quem está comprado em perpétuos paga, na maioria dos períodos, um prémio a quem está vendido, e a Ethena está do lado vendido. O segundo é o rendimento de staking do colateral à vista, já que o Ethereum em staking rende juro de validação. O terceiro, cada vez mais relevante, é o rendimento de caixa e de ativos do mundo real: quando o funding aperta, a Ethena desloca parte do colateral para stablecoins e títulos de curto prazo que rendem perto da taxa dos Bilhetes do Tesouro (documentação da Ethena). A custódia do colateral fica fora das corretoras, através de soluções de liquidação fora de bolsa (OES) com nomes como a Copper e a Ceffu, para reduzir o risco de contraparte.
Porque é que o funding costuma pagar a quem está vendido? Porque o mercado de cripto tende a estar estruturalmente comprado: a maioria dos especuladores quer exposição de alavancagem à subida, e paga por isso. A Ethena senta-se do outro lado dessa multidão e cobra a renda. O problema, e é aqui que mora o risco, é a palavra «costuma»: quando o sentimento inverte e todos correm para o lado vendido, o funding fica negativo e a renda transforma-se em custo.
| Fonte do rendimento | De onde vem | De que depende |
|---|---|---|
| Funding dos perpétuos | Prémio pago pelos comprados aos vendidos | Sentimento do mercado; seca ou fica negativo nas quedas |
| Rendimento de staking | Juro de validação do Ethereum em staking | Taxa de staking do Ethereum (~3%) |
| Caixa e ativos do mundo real | Stablecoins e Bilhetes do Tesouro de curto prazo | Taxa da Fed e taxa base tokenizada |
É esta mistura que explica por que o sUSDe rendeu mais de 20% em 2024 e cerca de 5% hoje: quando o mercado está eufórico e muito comprado, o funding dispara e o rendimento sobe; quando arrefece, o funding encolhe e o rendimento cai para perto da taxa base. Ao contrário de um Bilhete do Tesouro, o cupão do sUSDe não está garantido, é o resultado de uma posição que tem de ser gerida todos os dias.
Porque o juro vive no sUSDe e não no USDe
Há uma razão regulamentar, e não apenas técnica, para o rendimento se acumular no sUSDe e não no próprio USDe. O Regulamento MiCA proíbe expressamente que os emitentes de stablecoins, tanto os «tokens de moeda eletrónica» como os «tokens referenciados a ativos», paguem juro ou qualquer remuneração ligada ao tempo de detenção (artigos 40.º e 50.º). É por isso que o USDC e o USDT ficam com o cupão dos Bilhetes do Tesouro que têm em reserva, em vez de o distribuírem: a Circle e a Tether embolsam milhares de milhões de dólares por ano em juros que não repassam aos utilizadores (Circle).
A engenharia da Ethena contorna esta parede de duas formas. Primeiro, separa a moeda (USDe, que não paga nada) do invólucro de poupança (sUSDe, que acumula o rendimento), tal como a Sky separa o USDS do sUSDS. Segundo, e mais polémico, a Ethena defende que o USDe nem sequer é um «token de moeda eletrónica» na aceção do MiCA, mas sim um dólar sintético, uma categoria que o regulamento não previu. É precisamente essa distinção que está no centro do braço-de-ferro com o supervisor alemão, e que faz do USDe um caso de estudo sobre os limites das regras europeias.
Um rendimento de mercado, não administrado
A diferença mais importante entre a Ethena e a sua rival mais próxima, a Sky, não está no valor do rendimento, está em quem o fixa. A Sky define a sua taxa de poupança (o Sky Savings Rate, atualmente 3,75%) por voto de governação: é uma taxa administrada, que não sobe automaticamente quando a Fed sobe (sky.money). Comparámos os dois modelos em detalhe em Sky contra Ethena: o rendimento real das stablecoins. O sUSDe é o oposto da taxa administrada: ninguém decide o seu rendimento, ele resulta do que o mercado de funding paga a cada momento. A 15 de setembro, o sUSDe rendia cerca de 5% ao ano, segundo a Aavescan (Aavescan), depois de ter descido para perto dos 4% durante o verão e de recuperar à medida que o funding firmou.
| sUSDe (Ethena) | sUSDS (Sky) | T-bill tokenizado | |
|---|---|---|---|
| Como se fixa o rendimento | Mercado de funding | Voto de governação | Cupão do Tesouro dos EUA |
| Valor atual (aprox.) | ~5% | ~3,65% | ~3,7% |
| O que o faz mexer | Sentimento e posições compradas | Decisão do DAO | Decisões da Fed |
| Sobe sozinho com a Fed? | Não diretamente | Não | Sim |
Esta natureza de «rendimento de mercado» tem uma consequência prática: o sUSDe é a matéria-prima preferida dos mercados que negoceiam juro on-chain. A larga maioria do valor bloqueado na Pendle, o protocolo que separa e negoceia rendimento, assenta em USDe e sUSDe, um tema que detalhámos em Separar o rendimento: a Pendle e o mercado do juro on-chain. Quando um único protocolo se torna o colateral de meia DeFi, a sua saúde deixa de ser um assunto interno.
Outubro de 2025: o que quase partiu a máquina
Um rendimento que depende do funding tem um problema óbvio: e quando o funding desaparece? Foi o que aconteceu em outubro de 2025. O funding virou negativo (os vendidos passaram a pagar aos comprados) e um violento flash crash a 10 de outubro desencadeou uma cascata de liquidações em todo o mercado. O USDe afastou-se momentaneamente da paridade em plataformas com liquidez reduzida, e a oferta encolheu de um pico próximo dos 15 mil milhões de dólares para menos de 6 mil milhões ao longo dos meses seguintes (DefiLlama). Foi um episódio de desalavancagem, não uma implosão ao estilo da TerraUSD: o colateral existia, mas a procura alavancada que se tinha concentrado à volta do USDe desfez-se depressa.
A diferença face ao colapso da TerraUSD é crucial e merece ser sublinhada. O UST caiu porque a sua paridade dependia de um segundo token que ninguém era obrigado a comprar; quando a confiança fugiu, não havia nada por baixo. O USDe tem colateral real e coberto, e o que falhou em outubro de 2025 foi a procura, não o lastro. Ainda assim, uma desalavancagem violenta comprime o rendimento, obriga a fechar posições em pânico e pode arrastar os protocolos que usam sUSDe como garantia, por isso a distinção técnica não elimina a dor para quem lá está dentro.
A Ethena tem um Fundo de Reserva para absorver períodos de funding negativo, e a regra é deslocar mais colateral para stablecoins e títulos de curto prazo quando o funding aperta (fórum de governação da Ethena). Ainda assim, o dimensionamento desse fundo face à oferta total é uma das críticas recorrentes ao modelo. Quem quiser perceber a mecânica das cascatas que apanharam o USDe encontra-a em Quando o funding vira gasolina: a anatomia das liquidações. A lição prática é que o rendimento do sUSDe é mais alto justamente porque carrega este risco de cauda.
O caso BaFin: quando a Europa disse não
A 21 de março de 2025, o supervisor financeiro alemão, a BaFin, proibiu a Ethena GmbH de continuar a emitir USDe na União Europeia. No comunicado, a BaFin identificou «graves deficiências» na organização da empresa e infrações às exigências do MiCA, nomeadamente quanto à reserva de ativos e aos requisitos de fundos próprios (BaFin). Foi a primeira ação de execução do MiCA por parte de um regulador europeu, e por isso mesmo um precedente que qualquer outro emitente passou a estudar.
O desfecho foi rápido e severo. A Ethena GmbH retirou o pedido de autorização a 3 de abril; seguiu-se uma sanção pecuniária de 600 mil euros e uma proibição de disposição de ativos; e a 25 de junho de 2025 a BaFin abriu um processo de resgate, com uma janela de 42 dias (até 6 de agosto) para os detentores europeus reclamarem o valor do seu USDe, sob supervisão de um representante especial (BaFin). O USDe passou a ser emitido pela Ethena (BVI) Limited, fora da UE, e a negociação do token no mercado secundário europeu deixou de ser permitida.
A lição para o investidor português é direta: o mesmo produto que rende cerca de 5% ao ano foi considerado, por um regulador da própria zona euro, incompatível com as regras europeias de stablecoins. Não é um pormenor jurídico distante; é a razão pela qual o acesso ao USDe a partir da Europa passou a ser mais limitado e por que a Ethena reorientou grande parte da sua ambição para fora do perímetro do MiCA.
O mesmo juro, dois veredictos: MiCA contra o GENIUS Act
O contraste com os Estados Unidos não podia ser maior. A lei norte-americana das stablecoins, o GENIUS Act, também proíbe que as «stablecoins de pagamento» paguem juro. Mas o USDe escapa por uma porta que a lei não fechou: como não guarda dólares em reserva, não há emitente a pagar juro sobre reservas (que é o que a lei proíbe); há uma estratégia a gerar retorno e um token a repassá-lo, algo que o GENIUS Act simplesmente não previu (Forbes). Juristas já apelidaram esta lacuna de «buraco do rendimento» a resolver na era pós-GENIUS (CLS Blue Sky, Columbia Law School).
Este choque de veredictos não é um detalhe académico. Significa que o mesmo token pode ser, ao mesmo tempo, um produto institucional respeitável do outro lado do Atlântico e um instrumento sem autorização dentro da União Europeia. Para o regulador, é um lembrete de que as regras escritas para stablecoins tradicionais não apanham facilmente um dólar que se fabrica com derivados. Para o investidor europeu, é o sinal de que a proteção que o MiCA promete simplesmente não se aplica aqui, por muito que o rendimento seja tentador.
O resultado é uma das arbitragens regulatórias mais nítidas da cripto em 2026: a mesma característica, pagar rendimento, que fez a Europa expulsar o USDe é a que permite às instituições americanas adotá-lo. Para um euro-investidor, isto significa que o produto vive num limbo, tecnicamente acessível através de plataformas fora da UE, mas sem a proteção que o MiCA quis garantir. É preciso saber que se está a comprar um instrumento que a jurisdição do próprio investidor considera problemático.
A viragem institucional: iUSDe, Converge e o crédito com garantia
Empurrada para fora do perímetro europeu, a Ethena virou-se para o dinheiro institucional. Em 2026 lançou o iUSDe, uma versão do USDe com invólucros de conformidade, integrações de custódia e padrões de reporte, dirigida a gestoras de ativos e a fundos de crédito privado. E, com a Securitize, está a construir a Converge, uma blockchain de nível institucional pensada para juntar finança tradicional e DeFi, com o USDe e o USDtb (a stablecoin de Bilhetes do Tesouro da casa) no centro e o ENA a assegurar a rede (The Block).
A diversificação também mudou o motor do rendimento. A Ethena tem vindo a substituir parte da dependência do funding por crédito sobrecolateralizado e ativos do mundo real, incluindo uma linha de crédito com garantia montada com a FalconX. É a mesma lógica que analisámos em Crédito on-chain: quem gere o risco por trás dos juros: à medida que o rendimento deixa de ser puro funding e passa a incluir empréstimos, muda também o perfil de risco de quem detém o sUSDe. Trocar risco de funding por risco de crédito não elimina o risco, apenas o desloca.
Há uma ironia nesta viragem que não passa despercebida a quem acompanha a Ethena desde o início. Um projeto que nasceu para oferecer um dólar neutro e sem bancos está agora a montar invólucros de conformidade, custódia regulada e reporte para agradar a gestoras tradicionais. É a rota que quase todos os grandes protocolos acabam por percorrer quando o dinheiro institucional bate à porta, mas também é a que dilui a promessa original. Para o investidor, a pergunta certa é se está a comprar a tese cripto-nativa ou uma versão domesticada dela.
A taxa base como régua: quanto rende acima do sem-risco
Para saber se 5% é muito ou pouco, é preciso uma régua. Essa régua é a taxa base, o rendimento que se obtém sem correr risco de crédito nem de contraparte, hoje representado pelos Bilhetes do Tesouro norte-americano tokenizados. A 15 de setembro, esse mercado somava cerca de 15,65 mil milhões de dólares e rendia perto de 3,7% ao ano, um valor que firmou nos últimos dias à medida que os investidores anteciparam a subida da Fed (app.rwa.xyz).
| Referência (15 set. 2026) | Taxa (aprox.) | Quem a define |
|---|---|---|
| Taxa da Fed | 3,50%-3,75% | Reserva Federal (decisão a 16 set.) |
| Taxa de depósito do BCE | 2,50% | BCE (em vigor a 16 set.) |
| T-bill tokenizado (base) | ~3,7% | Mercado, via Fed |
| sUSDe (Ethena) | ~5% | Mercado de funding |
| Sky Savings Rate | 3,75% | Voto de governação |
Lida assim, a Ethena paga cerca de 1,3 pontos percentuais acima do sem-risco. Não é um prémio absurdo, e é isso que importa: esse spread é o pagamento por assumir o risco de funding, de contraparte e regulamentar que descrevemos acima. E há um segundo alerta macro. Depois do discurso duro de Kevin Warsh, presidente da Fed, em Jackson Hole (Reserva Federal), o cenário deixou de ser «a base desce» e passou a «a base pode subir». Se a taxa base sobe, o spread do sUSDe estreita a partir de baixo, mesmo que o funding não mude. O que a subida de 16 de setembro significa para a cripto foi o tema de Reação ao FOMC: o guião da cripto para a subida de setembro.
Este é o ponto que muita gente não interioriza: numa DeFi onde a taxa base rende quase 4% sem risco, um rendimento de 5% deixa de ser extraordinário. Em 2022, quando a taxa base era praticamente zero, os mesmos 5% pareciam ouro; em 2026, com o dinheiro a render sozinho na dívida pública, o prémio que a Ethena paga por todo o seu risco encolheu para pouco mais de um ponto percentual. É a compressão silenciosa que atravessa toda a finança on-chain, e é a razão pela qual perseguir o rendimento nominal, sem o comparar com a base, é um erro caro.
O euro contra o dólar sintético: a armadilha cambial
Aqui chega o ponto que os artigos em inglês costumam ignorar e que é decisivo para quem investe a partir de Portugal. O USDe é um dólar sintético: o seu valor, e o seu rendimento, estão denominados em dólares. Um investidor europeu que compre sUSDe está, na prática, a somar duas apostas: a de que a operação delta-neutral aguenta, e a de que o euro não se valoriza face ao dólar. A 15 de setembro, o EUR/USD estava em cerca de 1,1536 (Trading Economics).
A matemática é impiedosa. Se o sUSDe render 5% em dólares mas o euro se valorizar 5% face ao dólar ao longo do ano, o ganho para um europeu evapora-se por completo. Um movimento cambial de poucos pontos percentuais, coisa banal num ano, chega para anular todo o rendimento.
| Variação do EUR/USD no ano | Rendimento líquido em euros (sobre 5% em dólares) |
|---|---|
| Euro cai 5% | ~ +10% |
| Euro estável | ~ +5% |
| Euro sobe 3% | ~ +2% |
| Euro sobe 5% | ~ 0% |
| Euro sobe 8% | ~ -3% |
Este ano, o desenho é particular: não é o euro que está fraco, são os dois bancos centrais a apertar ao mesmo tempo. Christine Lagarde, presidente do BCE, classificou a subida de 10 de setembro como um «no brainer», decidida por unanimidade e «robusta» perante os três cenários que o banco traçou (Bloomberg). Com a Fed a subir no mesmo dia, o EUR/USD torna-se uma corrida entre dois bancos centrais, e ninguém sabe qual deles corre mais depressa. Cobrir o risco cambial é possível, mas o custo da cobertura aproxima-se da diferença de taxas entre as duas moedas, o que come boa parte do spread.
Rendimento mais alto não é mais seguro
Vale a pena arrumar os riscos num único mapa, porque a tentação de olhar apenas para os 5% é grande. Um rendimento mais alto do que a taxa base não é um almoço grátis, é uma fatura de risco que ainda não chegou.
| Risco | O que pode correr mal | Sinal a vigiar |
|---|---|---|
| Funding | Funding negativo prolongado esgota o rendimento e força a desalavancar | Taxas de funding negativas; queda da oferta |
| Contraparte e custódia | Falha de uma corretora ou custodiante onde está o colateral | Concentração de colateral; qualidade dos OES |
| Depeg | O USDe afasta-se do dólar num choque de liquidez (out. 2025) | Volume de resgates; profundidade dos livros de ordens |
| Regulatório | Novas restrições após o precedente BaFin | Ações de reguladores da UE |
| Concentração | Muita da procura vem de estratégias alavancadas (Pendle, Aave) | Quota de TVL em looping |
Nenhum destes riscos é hipotético: o de funding e o de depeg já se materializaram em outubro de 2025, o regulatório já se materializou no caso BaFin, e o de concentração é a razão pela qual uma sacudidela na Ethena se propaga a protocolos de crédito e de negociação de rendimento por toda a cadeia.
CMVM, Banco de Portugal e o fisco
Do lado português, a supervisão está repartida. O Banco de Portugal acompanha os emitentes de stablecoins (os «tokens referenciados a ativos» e os «tokens de moeda eletrónica») ao abrigo dos títulos III e IV do MiCA, enquanto a CMVM supervisiona a conduta de mercado e os prestadores de serviços de criptoativos. A lei que enquadra tudo isto em Portugal é a Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, que reparte competências entre as duas entidades e prevê coimas até 5 milhões de euros (Diário da República).
Há uma subtileza que interessa ao caso Ethena. A ESMA fixou, a 19 de março de 2025, orientações sobre quando um criptoativo é um instrumento financeiro e cai, por isso, fora do MiCA e dentro da DMIF II (ESMA). É essa fronteira que a Ethena tenta explorar ao classificar o USDe como dólar sintético e não como stablecoin de moeda eletrónica; foi também nessa fronteira que a BaFin discordou.
Quanto a impostos, o quadro em Portugal continua a distinguir dois regimes. Os rendimentos de capitais (Categoria E) são tributados a 28% no momento em que são recebidos, sem qualquer isenção por tempo de detenção; as mais-valias de criptoativos (Categoria G) são tributadas a 28%, mas ficam isentas se os ativos forem detidos mais de 365 dias antes da venda. A dúvida prática, ainda por esclarecer de forma definitiva, é como se enquadra um invólucro como o sUSDe, cujo valor sobe por acumulação em vez de pagar um juro explícito. Vale a pena confirmar o enquadramento com um contabilista antes de assumir o regime mais favorável.
Como avaliar o rendimento da Ethena: uma lista de verificação
Antes de perseguir os 5%, vale a pena passar o sUSDe por cinco perguntas simples.
- De onde vem o rendimento hoje? Se o funding secar, quanto do juro sobrevive à custa do staking e dos ativos do mundo real?
- Sobreviveria se o token ENA caísse a zero? A resposta é sim, e é isso que o distingue de um subsídio pago em emissões.
- Qual é o spread sobre a taxa base? Se são cerca de 1,3 pontos acima do sem-risco, esse é o preço do risco que está a assumir.
- Qual é o risco cambial? Um rendimento em dólares para uma carteira em euros pode desaparecer com o EUR/USD.
- Onde está o produto do ponto de vista regulatório? Depois do caso BaFin, o acesso a partir da UE é limitado e não tem a proteção do MiCA.
Se estas cinco respostas fizerem sentido para o seu perfil, o sUSDe é um rendimento real genuíno, fixado pelo mercado e transparente na origem. Se alguma delas o incomodar, provavelmente está a olhar para um risco que o spread de 1,3 pontos não chega para pagar.
Perguntas frequentes
O rendimento do sUSDe é rendimento real?
Sim. Vem de fluxos económicos verdadeiros (o funding dos perpétuos, o juro de staking e os cupões de títulos de curto prazo) e não da emissão de novos tokens. Sobreviveria mesmo que o token de governação ENA caísse a zero, que é o teste habitual do rendimento real.
Porque é que o USDe não paga juro, mas o sUSDe paga?
O MiCA proíbe as stablecoins de pagarem remuneração (artigos 40.º e 50.º), por isso o rendimento acumula-se no invólucro em staking, o sUSDe, e não na moeda, o USDe. É a mesma arquitetura que a Sky usa com o sUSDS.
Um investidor europeu pode comprar sUSDe?
O acesso é limitado. Depois de a BaFin ter mandado cessar a emissão de USDe na União Europeia em 2025, o token passou a ser emitido fora da União e a negociação no mercado secundário europeu deixou de ser permitida, pelo que não tem a proteção do MiCA.
Quanto rende o sUSDe e porque muda tanto?
A 15 de setembro de 2026 rendia cerca de 5% ao ano, mas já rendeu mais de 20% em 2024. É um rendimento de mercado que sobe quando o funding dos perpétuos aperta e cai quando o mercado arrefece.
Qual é o maior risco do sUSDe para quem investe em euros?
São dois. O risco de funding negativo, como em outubro de 2025, quando a oferta encolheu bruscamente, e o risco cambial, já que um rendimento denominado em dólares pode ser anulado por uma valorização do euro face ao dólar.
Por Yuki Tanaka, editor de mercados da HOGE Wire.