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● Markets

Fluxos de ETF sob pressão: a Fed subiu, a lei caiu

Em 24 horas, a CLARITY caiu no Senado e a Fed subiu os juros; os ETF de Bitcoin perderam 746 milhões de dólares em dois dias. Um guia para ler os fluxos quando o mercado é posto à prova.

Houve semanas em que os fluxos dos ETF de Bitcoin foram uma nota de rodapé. A semana de 15 a 16 de setembro de 2026 não foi uma dessas. Em pouco mais de 24 horas, Washington entregou dois veredictos seguidos: na terça-feira, a moção de cloture da lei CLARITY falhou no Senado, e na quarta-feira a Reserva Federal subiu os juros pela primeira vez desde 2023. Entre os dois, os ETF de Bitcoin à vista nos Estados Unidos perderam cerca de 746 milhões de dólares em dois dias de sessão, segundo os dados compilados pelo Crypto Times. E, no entanto, o preço do Bitcoin caiu apenas cerca de 1,5%.

Esse contraste, saídas de centenas de milhões e uma cotação quase estável, é a melhor sala de aula que existe para perceber o que os fluxos de ETF são e, sobretudo, o que não são. Este artigo usa a semana da Fed e da CLARITY como caso prático para explicar a mecânica por trás dos números que aparecem todas as manhãs nos painéis, porque é que o dinheiro entra e sai, o que um resgate significa mesmo em bitcoins vendidos, e como um investidor em Portugal deve ler tudo isto sem confundir ruído com sinal. No momento em que escrevemos, o Bitcoin negoceia perto de 66 461 euros (cerca de 75 700 dólares), com uma capitalização a rondar 1,5 biliões de dólares e ainda cerca de 40% abaixo do máximo histórico de 126 198 dólares atingido a 6 de outubro de 2025, de acordo com a CoinGecko. O Ethereum troca por perto de 2 118 euros, mais de 50% abaixo do seu próprio recorde.

Afinal, o que é um «fluxo» de ETF

Um fluxo de ETF é o dinheiro líquido que entra ou sai do fundo num determinado período. Tecnicamente, é o valor das criações menos o valor dos resgates de participações, medido em dólares. Quando entra mais dinheiro do que sai, o fluxo é positivo (entradas líquidas); quando sai mais do que entra, é negativo (saídas líquidas). É um número de saldo, não um número bruto: um dia com 500 milhões de criações e 700 milhões de resgates aparece como uma saída líquida de 200 milhões, ainda que meio milhar de milhão de dinheiro novo tenha efetivamente entrado.

Aqui começa a maior fonte de confusão do público. O fluxo é frequentemente misturado com dois outros números que medem coisas diferentes. O primeiro é o AUM, os ativos sob gestão, que é o valor total do fundo num dado momento. O AUM mexe por duas razões ao mesmo tempo: pelos fluxos (dinheiro que entra e sai) e pelo preço do Bitcoin (o mesmo número de bitcoins vale mais ou menos consoante a cotação). O segundo é o número de bitcoins efetivamente em custódia, que só muda quando há criações ou resgates reais e é indiferente ao preço. Um dia de forte queda pode fazer o AUM encolher milhares de milhões sem que tenha saído um único cêntimo de fluxo, porque o que mudou foi o preço, não a titularidade.

MétricaO que medeO que a faz moverEsta semana
Fluxo líquidoCriações menos resgates, em dólares, num períodoSó entradas e saídas reais de dinheiroCerca de -746 M$ em dois dias
AUM (ativos sob gestão)Valor total do fundoFluxos e preço do Bitcoin, em simultâneoCerca de 96,1 mil M$ (17 set)
Bitcoin em custódiaNúmero de BTC detidos pelos fundosSó criações e resgates, nunca o preçoCerca de 1,26 milhões de BTC

A regra prática é simples: quando alguém diz que «os ETF perderam», convém perguntar sempre se está a falar de fluxo (dinheiro que saiu), de AUM (valor que encolheu, talvez só por causa do preço) ou de bitcoins em custódia (a fotografia estrutural). São três histórias distintas e, em dias de volatilidade, contam versões diferentes do mesmo acontecimento.

A máquina invisível: participantes autorizados, criação e resgate

Para perceber porque é que um fluxo negativo não é uma venda direta de Bitcoin, é preciso olhar para dentro da máquina. Um ETF à vista não vende participações ao investidor final diretamente; funciona através de intermediários chamados participantes autorizados, tipicamente bancos e criadores de mercado. Quando há procura por participações, um participante autorizado entrega valor ao emissor (dinheiro ou bitcoins) e recebe em troca blocos de participações novas, que coloca no mercado. É a chamada criação. Quando há mais oferta do que procura, o processo inverte-se: o participante autorizado devolve participações e recebe de volta valor, num resgate.

Este mecanismo existe por uma razão: manter o preço da participação colado ao valor líquido dos ativos do fundo (o NAV). Se as participações negociarem acima do NAV, os participantes autorizados criam e vendem até a diferença desaparecer; se negociarem abaixo, resgatam e compram. É uma arbitragem contínua que, na prática, transforma a procura dos investidores em criações e resgates. Os fluxos que vemos publicados são o resíduo agregado deste vaivém ao longo do dia.

Um detalhe técnico mudou a natureza deste processo. Até meados de 2025, a SEC obrigava a que criações e resgates fossem feitos apenas em dinheiro, o que forçava o emissor a comprar ou vender Bitcoin no mercado a cada movimento. Desde 29 de julho de 2025, a SEC passou a permitir criações e resgates em espécie para todos os ETP de Bitcoin e Ethereum à vista, conforme o comunicado oficial do regulador. Em espécie significa que o participante autorizado pode entregar ou receber bitcoins diretamente, em vez de dinheiro. É mais eficiente do ponto de vista fiscal e operacional, e reduz o atrito da arbitragem, mas também quebra a ligação direta entre um resgate e uma ordem de venda no mercado à vista.

Porque é que o dinheiro saiu nesta semana

Os fluxos são um agregado de decisões. Nenhum comité central ordena uma saída de 746 milhões; o número é a soma de muitas mesas de negociação a reduzir exposição mais ou menos ao mesmo tempo, por razões que se reforçam. Esta semana, duas dessas razões chegaram quase em simultâneo.

A primeira foi a política monetária. A 16 de setembro, a Reserva Federal subiu a taxa diretora em 0,25 pontos, para o intervalo de 3,75% a 4,00%, numa votação unânime de 12 a 0, a primeira subida desde julho de 2023, segundo a CNBC. Juros mais altos aumentam o custo de oportunidade de deter um ativo que não paga rendimento, como o Bitcoin: se um instrumento sem risco rende mais, a barra para justificar exposição a um ativo volátil sobe. A segunda foi regulatória: na véspera, a lei CLARITY, que prometia um enquadramento de estrutura de mercado nos Estados Unidos, falhou a votação de cloture no Senado. Um catalisador que muitos investidores tinham no calendário desapareceu de um dia para o outro.

Somadas, as duas notícias empurraram várias carteiras na mesma direção, e o resultado apareceu nos painéis de fluxos. Vale a pena sublinhar que o próprio movimento tinha começado a montar-se antes: no dia da votação da CLARITY, 15 de setembro, os ETF de Bitcoin já tinham registado saídas de cerca de 450 milhões de dólares, de novo com os maiores fundos a liderar, segundo o Crypto Times. Para quem quiser o guião de como a cripto costuma reagir a uma decisão de juros, a nossa análise da reação ao FOMC detalha os canais de transmissão passo a passo.

Anatomia dos 746 milhões: dois dias, seis fundos

Desmontar o número por fundo é revelador. No dia da Fed, 16 de setembro, as saídas líquidas totalizaram cerca de 296 milhões de dólares, e a distribuição seguiu a hierarquia habitual do mercado. O IBIT liderou as saídas com 144,1 milhões, seguido pelo ARKB da ARK 21Shares com 84,4 milhões e pelo FBTC da Fidelity com 52,7 milhões. O GBTC da Grayscale perdeu 18,2 milhões. O único produto com entradas foi o MSBT da Morgan Stanley, com uns modestos 3,5 milhões, de acordo com o apuramento do Crypto Times.

Fundo (emissor)Fluxo líquido, 16 de setembro
IBIT (BlackRock)-144,1 M$
ARKB (ARK 21Shares)-84,4 M$
FBTC (Fidelity)-52,7 M$
GBTC (Grayscale)-18,2 M$
MSBT (Morgan Stanley)+3,5 M$
Total do dia-296,0 M$
Total 15 a 16 de setembroCerca de -746 M$

Há duas lições nesta tabela. A primeira é que as saídas se concentram nos maiores fundos, o que é mecânico: quem tem mais participações emitidas tem, naturalmente, mais para resgatar. A segunda é que um único produto a nadar contra a corrente, mesmo com um valor pequeno, mostra que não há um botão coletivo de venda; há muitas carteiras distintas, com horizontes distintos. O lado do Ethereum acompanhou o do Bitcoin: no mesmo 16 de setembro, os ETF de ETH à vista perderam cerca de 224 milhões de dólares, com o ETHA da BlackRock a registar 110 milhões de saídas, o maior resgate de um único fundo do segmento nesse dia, segundo os dados da CoinGlass.

Um resgate não é uma venda de Bitcoin

Chegamos ao ponto que mais engana o leitor apressado. É tentador ler «746 milhões de saídas» como «746 milhões de Bitcoin vendidos no mercado», mas essa tradução é incorreta por vários motivos. Com o mecanismo em espécie, um resgate pode ser satisfeito com a entrega de bitcoins ao participante autorizado, sem qualquer ordem de venda à vista. O que o participante autorizado faz a seguir com esses bitcoins (guardá-los, emprestá-los, cobrir uma posição, vendê-los aos poucos) é uma decisão separada, que não aparece no número do fluxo.

Além disso, o fluxo de ETF é apenas uma fatia da procura total. A cada momento há compradores e vendedores à vista nas bolsas, mineradores a vender produção, tesourarias a acumular e traders de derivados a mover posições muito maiores do que os fundos. É por isso que a cotação pode divergir do fluxo: nesta semana, apesar das saídas, o Bitcoin recuou apenas cerca de 1,5%, o que sugere que do outro lado houve compra suficiente para absorver a pressão. Boa parte da volatilidade destes dias veio, aliás, da alavancagem e não do mercado à vista: quando o funding e as liquidações entram em cena, o preço pode oscilar muito mais do que os fluxos justificariam, com o mercado à vista a mover-se bem menos do que os painéis de derivados sugeririam.

A conclusão operacional é que o fluxo mede o comportamento de um canal específico, o do dinheiro que passa pelo invólucro do ETF, e não a oferta e a procura de Bitcoin no seu todo. É um termómetro importante, porque esse canal se tornou o principal veículo institucional, mas é um termómetro parcial.

IBIT, o íman que engole os fluxos

Nenhuma leitura de fluxos faz sentido sem perceber a concentração do mercado. O IBIT da BlackRock não é apenas o maior ETF de Bitcoin; é um íman que absorve a maioria dos fluxos, tanto na subida como na descida. A 17 de setembro, os ETF de Bitcoin à vista somavam cerca de 96,1 mil milhões de dólares em ativos e detinham 1 258 724 bitcoins, aproximadamente 5,99% dos 21 milhões que alguma vez existirão, de acordo com o rastreador da Bitbo. Só o IBIT respondia por 59,9 mil milhões desse total, cerca de 62% do mercado.

Fundo (emissor)AUM (mil M$)BTC detidoComissãoQuota
IBIT (BlackRock)59,9784 5260,25%Cerca de 62%
FBTC (Fidelity)13,3173 7080,25%Cerca de 14%
GBTC (Grayscale)9,7127 5401,50%Cerca de 10%
BTC (Grayscale Mini)4,862 8740,15%Cerca de 5%
BITB (Bitwise)2,938 0290,20%Cerca de 3%
ARKB (ARK 21Shares)2,330 7530,21%Cerca de 2%
Total do mercado96,11 258 724n.a.100%

Os valores de AUM e de bitcoins detidos são da Bitbo; a tabela de comissões segue a compilação de referência da U.S. News. Um pormenor merece destaque: o IBIT domina os fluxos apesar de não ter a comissão mais baixa. O Grayscale Mini cobra 0,15% e o MSBT chegou a lançar-se a 0,14%, contra os 0,25% do IBIT, e mesmo assim é a marca da BlackRock, a liquidez das suas opções e a distribuição junto de consultores que atraem o dinheiro. Do outro lado do espetro, o GBTC mantém a comissão legada de 1,50%, seis vezes a dos rivais, e continua a perder ativos ano após ano. Explorámos essa economia de emissor, e o que ela significa para o rendimento real de quem investe, em quanto rende mesmo a IBIT.

A fotografia atual: AUM, bitcoins e o lado do Ethereum

Depois de dois dias de saídas, os ativos totais dos ETF de Bitcoin recuaram para cerca de 95 mil milhões de dólares, um recuo que combina o efeito dos resgates com a queda do preço. Convém distinguir o fluxo diário (a variação de curto prazo) do fluxo acumulado desde o arranque, em janeiro de 2024. Esse acumulado chegou a ser bem maior no máximo de outubro de 2025 e encolheu ao longo de 2026 à medida que o mercado corrigiu, mas continua a mostrar que a esmagadora maioria do dinheiro que entrou permaneceu investido. Por outras palavras, mesmo com semanas más, o balanço estrutural é de retenção, não de fuga.

No Ethereum, a fotografia é mais pequena mas segue a mesma lógica. Os ETF de ETH à vista rondavam os 15 mil milhões de dólares em ativos no início de setembro, segundo a CoinGlass, e viveram um verão de entradas fortes antes do sobressalto desta semana. O padrão é comum aos dois ativos: períodos de acumulação disciplinada interrompidos por episódios curtos de saídas em torno de eventos macro. Esse comportamento aproxima os ETF de cripto de qualquer outro fundo indexado a um ativo de risco, e afasta-os da imagem de um casino que muitos ainda lhes atribuem. Quem quiser ver o outro lado da custódia, note que o maior detentor de Bitcoin por trás destes produtos não é uma baleia anónima, mas um depositário institucional, um ponto que desenvolvemos em a maior baleia de 2026 é um depositário.

Vale a pena saber onde estes números nascem. Os fluxos diários que circulam nas redes sociais vêm de agregadores como a Farside Investors, a SoSoValue, a CoinGlass ou a Bitbo, que compilam os dados divulgados por cada emissor com um dia de desfasamento (o chamado T+1). É por isso que os valores publicados de manhã se referem à sessão anterior, e que dois painéis podem divergir ligeiramente: usam horas de corte diferentes, arredondam de maneira distinta e nem sempre tratam da mesma forma fundos legados como o GBTC. Para o leitor, a regra é simples: fixar uma fonte, perceber a sua metodologia e comparar sempre maçãs com maçãs, em vez de saltar entre painéis à procura do número mais dramático.

O sinal dentro do ruído: quando é que um fluxo importa

Se um único dia de saídas não conta a história toda, como distinguir o que importa? A regra que os analistas mais respeitados usam é olhar para regimes, não para dias. Um dia isolado de 300 milhões de saídas, num mercado com quase 100 mil milhões em ativos, é ruído estatístico. Uma sequência de semanas negativas, com o mesmo sinal em vários emissores e acompanhada por queda de volumes, já é um regime, e esse merece atenção. A pergunta certa não é «quanto saiu ontem», mas «há quanto tempo o sinal é consistente e quão largo é».

Vários especialistas de mercado de capitais reforçaram exatamente esta ideia ao longo de 2026. Eric Balchunas, analista sénior de ETF na Bloomberg Intelligence, descreveu episódios de saídas como «ruído» face à escala da adoção institucional em curso. Nate Geraci, cofundador do ETF Institute, foi na mesma linha ao chamar às saídas uma «gota no oceano», sublinhando que a larga maioria das entradas acumuladas continuava investida, o que apelidou de «mão firme». O aviso implícito destas leituras é útil para o pequeno investidor: reagir a cada painel diário é a receita para comprar caro e vender barato.

Há ainda a reflexividade a considerar. Os fluxos influenciam o preço e o preço influencia os fluxos, num ciclo que se retroalimenta. Uma semana antes deste episódio, a 3 de setembro, os mesmos ETF de Bitcoin registaram cerca de 730,9 milhões de dólares de entradas num único dia, o melhor registo em meses, com o Bitcoin a tocar os 82 000 dólares, segundo a HedgeCo. O mesmo canal que despejou 746 milhões em dois dias tinha atraído quase esse montante numa só sessão poucos dias antes. Os fluxos são bidirecionais e sensíveis ao contexto; extrapolar uma direção a partir de dois dias é um erro clássico.

Juros mais altos e o custo de oportunidade do Bitcoin

Voltemos ao primeiro gatilho da semana, porque é o que tende a definir o pano de fundo dos fluxos durante meses, não dias. A subida da Fed foi acompanhada de um tom duro. O presidente Kevin Warsh, que preside ao banco central desde maio, foi direto na conferência de imprensa: «A verdade simples é que a inflação está demasiado alta, e há demasiado tempo», e acrescentou que teria «dificuldade em descrever as condições financeiras amplas como restritivas», segundo o relato da CNN. O gráfico de pontos que acompanhou a decisão mostrou 16 dos 18 participantes a projetar pelo menos mais uma subida, o que mantém dezembro em aberto.

Para os fluxos, a mensagem é clara: o dinheiro tem alternativas com rendimento cada vez mais atrativas. Quando a taxa sem risco sobe, o custo de manter um ativo que não paga cupão nem dividendo aumenta, e a fronteira entre alocar ao Bitcoin ou a um instrumento monetário desloca-se. Do lado europeu, a pressão é simétrica: o Banco Central Europeu subiu as suas taxas a 10 de setembro, levando a taxa de depósito para 2,50%, a segunda subida de um ciclo de aperto que recomeçou este ano. Para o investidor da zona euro, isto significa que o custo de oportunidade de deter cripto também subiu em euros, não só em dólares. A relação entre a nova taxa base e o rendimento dos ativos digitais, incluindo o que se pode obter dentro da própria DeFi, foi o tema do nosso dia de decisão sobre o juro real.

A CLARITY que não passou: o catalisador que morreu

O segundo gatilho foi político. A lei CLARITY, que definiria a repartição de competências entre a SEC e a CFTC e daria ao setor a estrutura de mercado que reclamava há anos, precisava de 60 votos para avançar. A moção de cloture obteve 49 votos a favor contra 50, ficando não só aquém dos 60 necessários como sem sequer uma maioria simples, de acordo com a CoinDesk. Curiosamente, a queda não se deveu à arquitetura reguladora em si, mas ao braço de ferro em torno das regras de ética sobre participações em cripto de titulares de cargos públicos. O enquadramento que o setor queria continua por aprovar, e vários observadores dão-no como adiado por vários anos.

O impacto nos fluxos é indireto mas real. Muitos alocadores institucionais tinham a aprovação da CLARITY como uma condição para aumentar exposição; sem ela, o incentivo para adiar decisões cresce. Mark Connors, da Risk Dimensions, tinha avisado em agosto que a falta de progresso da lei até meados de setembro pressionaria os preços, num cenário em que definia um alvo de 180 mil dólares dependente de mais liquidez, segundo a CoinDesk. O aviso concretizou-se. Alice Liu, responsável de research na CoinMarketCap, resumiu a interação entre os dois choques ao notar que a cobertura que teria funcionado no início da semana se tornou pouco fiável, e que a reação ao FOMC podia ficar submersa pelo desfecho regulatório, em declarações citadas pela CoinDesk. Por outras palavras, os fluxos desta semana são difíceis de atribuir a uma só causa: macro e regulação chegaram entrelaçados. O que a votação significa para lá do mercado, incluindo as suas ramificações eleitorais, foi tratado em a lei cripto caiu no Senado.

Do outro lado do Atlântico: o europeu não compra o IBIT

Há um mal-entendido persistente entre leitores europeus: acompanham os fluxos do IBIT e do FBTC como se pudessem comprá-los na sua corretora. Em regra, não podem. Os ETF à vista norte-americanos não cumprem os requisitos de comercialização a retalho na União Europeia, faltando-lhes o documento de informação fundamental exigido pelo regime PRIIPs, e as regras UCITS impedem fundos concentrados num único ativo. O resultado é que estes produtos ficam, na prática, reservados a investidores profissionais ou fora do perímetro europeu.

O que existe na Europa é outra coisa: os ETP, produtos negociados em bolsa, tecnicamente notas garantidas por cripto físico, emitidos por casas como a 21Shares, a WisdomTree, a CoinShares ou a VanEck. Do ponto de vista do investidor, a exposição é semelhante à de um ETF norte-americano, mas o invólucro jurídico é distinto, e com ele mudam os riscos (risco de emitente e de contraparte, por exemplo) e o tratamento fiscal. A ironia é que, em vários casos, a Europa chegou primeiro: ETP de altcoins como Solana, XRP, Cardano ou Polkadot existiam no continente antes de os respetivos ETF surgirem nos Estados Unidos, ao abrigo das normas de listagem genéricas aprovadas pela SEC em setembro de 2025. A diferença entre os dois mercados está no invólucro, não no ativo subjacente.

Portugal na prática: CMVM, MiCA e o imposto

Para o investidor em Portugal, a supervisão desdobra-se por três níveis. A CMVM é a autoridade de conduta de mercado, o Banco de Portugal cuida do registo dos prestadores de serviços de criptoativos e das questões de stablecoins, e o regulamento europeu MiCA fornece o quadro comum. A lei que transpõe o MiCA para a ordem interna, a Lei n.º 69/2025, entrou em vigor a 27 de dezembro de 2025, e o período transitório para os prestadores portugueses termina a 1 de julho de 2026. Um ETP europeu comprado numa corretora regulada cai neste ecossistema; um ETF norte-americano, em regra, nem sequer está disponível ao retalho.

No plano fiscal, há uma distinção que convém não confundir. As mais-valias de criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas à taxa autónoma de 28%, ao passo que as de ativos detidos há 365 dias ou mais estão isentas para quem não age de forma profissional. Um ETF ou ETP, porém, é um valor mobiliário: segue o regime das mais-valias mobiliárias, também a 28%, mas sem a isenção dos 365 dias que se aplica ao Bitcoin comprado diretamente. Ou seja, a mesma exposição económica pode ter faturas diferentes consoante o invólucro escolhido. A diretiva DAC8 vai, além disso, alargar a troca automática de informação sobre estas posições a partir dos próximos anos. Em caso de dúvida, o passo prudente é confirmar o enquadramento com a Autoridade Tributária ou um contabilista certificado antes de decidir.

O que vigiar a seguir

A semana deixou três fios por seguir. O primeiro é a própria Fed: com 16 dos 18 responsáveis a projetar mais aperto, a reunião de dezembro está viva, e cada dado de inflação até lá vai mexer com o custo de oportunidade que pressiona os fluxos. O segundo é o comportamento do canal ETF: importa ver se as saídas desta semana foram um sobressalto de dois dias ou o início de um regime, e a melhor forma de o saber é observar se o sinal se mantém consistente e largo ao longo de várias semanas, não de sessões isoladas.

O terceiro é estrutural. A cotação do Bitcoin defende um patamar próximo dos 75 000 dólares que já testou antes, e a questão é se a procura à vista continua a absorver os resgates com a mesma facilidade com que o fez esta semana, quando a queda ficou pelos 1,5%. Do lado europeu, o crescimento dos ETP e a clareza trazida pelo MiCA podem, com o tempo, tornar o mercado do continente menos dependente das manchetes de Washington. Até lá, a disciplina de leitura mantém-se: separar fluxo de AUM, resgate de venda, e um dia mau de um regime. Quem dominar essas três distinções vai ler os painéis da manhã com muito menos ansiedade do que a maioria.

Perguntas frequentes

O que são os fluxos de um ETF de Bitcoin?

São o dinheiro líquido que entra ou sai do fundo num período, ou seja, as criações menos os resgates de participações medidas em dólares. Diferem do AUM (o valor total do fundo, que também sobe e desce com o preço do Bitcoin) e do número de bitcoins em custódia (que só muda com criações e resgates reais). Um fluxo negativo significa que saíram mais participações do que entraram nesse dia.

Porque é que os ETF de Bitcoin registaram saídas a 15 e 16 de setembro de 2026?

Coincidiram dois veredictos: a 15 de setembro a moção de cloture da lei CLARITY falhou no Senado (49 votos a favor contra 50, longe dos 60 necessários) e a 16 de setembro a Reserva Federal subiu os juros pela primeira vez desde 2023, para 3,75% a 4,00%. Juros mais altos aumentam o custo de oportunidade de deter um ativo sem rendimento e a lei travada retirou um catalisador esperado, pelo que várias mesas reduziram exposição ao mesmo tempo; o saldo foram cerca de 746 milhões de dólares de saídas em dois dias.

Uma saída de um ETF é a mesma coisa que uma venda de Bitcoin?

Não necessariamente. Quando um investidor vende participações, é um participante autorizado que as resgata junto do emissor, e desde julho de 2025 esse resgate pode ser feito em espécie (entregando bitcoins em vez de dinheiro), o que não obriga a uma venda no mercado à vista. Por isso 746 milhões de dólares de saídas não equivalem a 746 milhões vendidos em bolsa, e nesta semana o preço do Bitcoin caiu apenas cerca de 1,5%.

Um europeu pode comprar o iShares Bitcoin Trust (IBIT) da BlackRock?

Em regra não. Os ETF à vista norte-americanos não têm o documento de informação fundamental (PRIIPs) exigido na União Europeia e as regras UCITS impedem fundos de um único ativo, pelo que não estão disponíveis para o investidor de retalho europeu. A exposição equivalente na Europa faz-se sobretudo através de ETP (produtos negociados em bolsa, fisicamente garantidos) de emitentes como a 21Shares, a WisdomTree ou a CoinShares; a diferença está no invólucro, não no ativo.

Como são tributadas em Portugal as mais-valias de cripto e de ETP?

As mais-valias de criptoativos detidos há menos de 365 dias são tributadas à taxa autónoma de 28%, enquanto as de ativos detidos há 365 dias ou mais estão isentas para quem não age de forma profissional. Um ETF ou ETP é um valor mobiliário e segue o regime das mais-valias mobiliárias, também a 28% mas sem a isenção dos 365 dias; a diretiva DAC8 vai alargar a troca automática de informação sobre estas posições. Em caso de dúvida, confirme com a Autoridade Tributária ou um contabilista certificado.

Liam Brennan é editor de mercados da HOGE Wire e acompanha os fluxos de capital institucional em criptoativos.

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