O currículo que não existe: as credenciais do fundador cripto
De tudo o que um fundador diz numa entrevista, o currículo é o mais persuasivo e o mais fácil de verificar. Da HyperVerse a Craig Wright: como ler as credenciais antes da visão.
Primeiro o crachá, depois a visão
Em 2021, a plataforma de criptoativos HyperVerse apresentou o seu novo diretor executivo num palco virtual. Chamava-se Steven Reece Lewis, era licenciado em Leeds, tinha um mestrado em Cambridge, passara pela Goldman Sachs e até vendera uma empresa de internet à Adobe. Era o currículo perfeito para tranquilizar quem hesitava em investir. Havia só um problema: Steven Reece Lewis não existia. Segundo a queixa da SEC de janeiro de 2024, os promotores contrataram um ator britânico, Steve Harrison, para ler guiões promocionais à câmara. A HyperVerse arrecadou mais de 1,7 mil milhões de dólares (cerca de 1,5 mil milhões de euros) de vítimas em todo o mundo. O rosto, o nome e o currículo do homem que lhes pedia confiança eram uma encenação paga.
De tudo o que um fundador diz numa entrevista, as afirmações sobre si próprio são, ao mesmo tempo, as mais persuasivas e as mais fáceis de verificar. Onde estudou, onde trabalhou, o que construiu, o que vendeu: é a parte do discurso que não depende de opinião nem de futuro, apenas de registo. E, no entanto, é quase sempre a parte que ninguém confirma em direto. O currículo faz o seu trabalho (desarmar o ceticismo) antes de a primeira pergunta difícil ser feita. Quando o microfone chega ao fundador, metade da venda já está concluída, e foi feita por um crachá.
Esta é uma análise sobre essa parte específica da entrevista do fundador. Não sobre o token, não sobre a visão grandiosa, não sobre a promessa de rendimento, temas que o fundador que desaparece tratou noutro ângulo. Aqui o foco é a biografia: o diploma, o emprego anterior, a patente, a tecnologia que o fundador diz ter inventado. É a afirmação mais falsificável que existe numa conversa e, por isso mesmo, a que menos se questiona. O paradoxo do currículo cripto é este: aquilo que seria trivial confirmar é precisamente aquilo que aceitamos sem confirmar.
Porque o currículo é o atalho de confiança
A medicina tem ordens profissionais, a advocacia tem exames de admissão, a contabilidade tem registos obrigatórios. A cripto não tem porteiro. Qualquer pessoa pode lançar um token, abrir um protocolo e dar uma entrevista na quinta-feira à tarde. Perante esse vazio de credenciação, o mercado improvisou o seu próprio sinal de confiança: a credencial importada de fora. «Ex-Goldman», «ex-Google», «doutorado pelo MIT», «já vendi uma startup». São atalhos que dizem ao ouvinte, sem o dizer, que alguém sério já validou esta pessoa.
O culto do fundador faz o resto. O ensaio «founder mode», de Paul Graham, em 2024, canonizou a ideia de que o fundador visionário vê o que os gestores não veem; aplicado à cripto, transforma-se em veneração. Numa entrevista, o anfitrião raramente interrompe para confirmar um diploma, e o público parassocial, que segue o fundador há meses, quer acreditar. Com o Bitcoin a rondar os 75 mil euros, há dinheiro real em cima da mesa, e quanto maior a aposta, mais o cérebro agarra qualquer motivo para confiar.
O currículo é esse motivo pronto a usar. É um atalho que permite saltar a diligência: se trabalhou no sítio certo e estudou na escola certa, deve saber o que faz. O problema dos atalhos é que são exatamente aquilo que um burlão otimiza primeiro. Quando a credencial substitui a verificação, inventar a credencial passa a ser o investimento com melhor retorno de toda a operação.
Há uma razão para as mesmas marcas aparecerem sempre. «Ex-Goldman», «ex-Google», «ex-Jane Street»: são nomes que o público reconhece sem conseguir verificar, o equilíbrio perfeito para quem quer impressionar sem ser conferido. Ninguém telefona à Goldman Sachs a meio de um podcast. E o crachá tem efeito composto: uma passagem prestigiada atrai outra, que atrai um investidor de nome, até a lista de credenciais se tornar um argumento circular em que cada peça valida a seguinte.
O que se verifica e o que raramente se verifica
Nem todas as afirmações biográficas têm o mesmo grau de dificuldade. Um diploma está a um telefonema da secretaria de uma universidade. Uma patente está numa base de dados pública. Um emprego anterior deixa rasto na imprensa e nos registos. Já «eu inventei esta tecnologia» é mais nebuloso, e «o meu património» é quase impossível de confirmar de forma independente. A tabela seguinte ordena as credenciais típicas pela facilidade de as verificar e pela frequência com que são infladas.
| Credencial | Onde se confirma | Dificuldade de verificar | Risco de inflação |
|---|---|---|---|
| Grau académico (licenciatura, mestrado, doutoramento) | Secretaria da universidade | Baixa | Média |
| Empregador anterior | Registos, imprensa, arquivo de LinkedIn | Baixa a média | Alta |
| «Inventei ou construí X» | Patentes, código público, arquivo técnico | Média a alta | Muito alta |
| Patentes | Bases públicas (USPTO, EPO) | Baixa | Média |
| Venda ou saída anterior | Registo comercial, imprensa | Média | Alta |
| Património declarado | Quase nenhuma fonte independente | Muito alta | Muito alta |
| Capa de revista ou prémio | Confirmar se foi conteúdo editorial ou pago | Média | Alta |
A pessoa inventada: o diretor executivo que era um ator
Voltemos à HyperVerse. O esquema HyperFund/HyperVerse, associado aos australianos Sam Lee e Ryan Xu, vendia «adesões» que prometiam ganhos diários de 0,5% a 1% até o investidor duplicar ou triplicar o capital, alegadamente com receitas de mineração em larga escala. A SEC e o Departamento de Justiça dos Estados Unidos apresentaram acusações em janeiro de 2024 contra Sam Lee e a promotora Brenda «Bitcoin Beutee» Chunga, descrevendo uma pirâmide e um esquema Ponzi.
A camada mais reveladora, porém, foi a biográfica. Uma investigação do Guardian em janeiro de 2024 não conseguiu confirmar nenhuma das credenciais do suposto diretor executivo: nem Leeds nem Cambridge tinham registo dele, a Goldman Sachs não o conhecia, não figurava no registo comercial britânico nem nos arquivos da SEC, e não tinha sequer um perfil de LinkedIn. O «CEO» era, na verdade, o ator Steve Harrison, contratado para o papel. Para reforçar a encenação, a operação exibia apoios de figuras como o cofundador da Apple Steve Wozniak, o ator Chuck Norris e o cantor Lance Bass.
A lição não é que houve uma mentira, mas que foi montada uma pessoa inteira a partir de marcas de prestígio. Cada credencial (Cambridge, Goldman, Adobe) foi escolhida por ser instantaneamente reconhecível e quase nunca verificada. O esquema sobreviveu meses porque nenhuma entrevista, nenhum vídeo promocional, parou para telefonar a uma secretaria de universidade. O crachá bastava.
Os apoios de celebridades funcionavam como uma segunda camada de credenciais emprestadas. Um investidor que não sabe avaliar mineração de criptoativos sabe quem é o cofundador da Apple; o nome famoso transporta uma autoridade que o esquema nunca ganhou por mérito próprio. É o mesmo mecanismo do diploma, apenas subcontratado: em vez de inventar uma passagem por Cambridge, aluga-se a reputação de alguém que o público já respeita. Quando a credencial e o endosso caem ao mesmo tempo, sobra apenas a promessa de retorno.
A autoria inventada: «eu sou o Satoshi»
A credencial máxima é dizer que se criou a própria coisa. Durante anos, Craig Wright afirmou ser Satoshi Nakamoto, o criador pseudónimo do Bitcoin. Usou essa alegação para processar programadores, licenciar «propriedade intelectual» e impor autoridade sobre o rumo da rede. Era a mais poderosa de todas as credenciais: não «trabalhei lá», mas «eu sou a origem».
No processo COPA contra Wright, o Tribunal Superior de Inglaterra, pela voz do juiz James Mellor, decidiu em março de 2024 que Wright não é Satoshi, com a sentença escrita completa publicada a 20 de maio de 2024. O juiz emitiu quatro declarações: Wright não é o autor do livro branco do Bitcoin, não operou sob o pseudónimo Satoshi Nakamoto entre 2008 e 2011, não criou o sistema Bitcoin e não escreveu as versões iniciais do software.
O decisivo é que foram os documentos, não o testemunho, a resolver a questão. Mellor concluiu que Wright se tinha envolvido em «falsificação à escala industrial» e na «produção deliberada de documentos falsos para sustentar alegações falsas», tendo usado os tribunais «como veículo para a fraude». A credencial mais grandiosa de toda a cripto desfez-se no instante em que alguém examinou o papel em vez de ouvir o homem. E a pergunta nunca morre de vez: em abril de 2026, uma longa investigação do New York Times apontou o criptógrafo Adam Back como provável Satoshi, e Back negou-o. Identidade e autoria são alegações, e uma alegação vale o que valem os seus documentos.
O currículo embelezado: «eu inventei o VoIP»
Entre a pessoa totalmente inventada e o currículo honesto fica o caso mais comum: o currículo embelezado, verdadeiro no esboço, inflacionado no detalhe. Alex Mashinsky, fundador da Celsius, é o exemplo de manual. Construiu de facto uma empresa real (a Arbinet) nos primórdios da telefonia pela internet, mas, em entrevistas, descrevia-se repetidamente como tendo inventado o VoIP e escrito «as patentes e protocolos originais» da tecnologia.
A atribuição é contestada: a paternidade do VoIP é difusa e há quem credite outras figuras, como Marian Croak, incluída no National Inventors Hall of Fame pelo avanço da tecnologia. Ao longo dos anos, Mashinsky reivindicou ainda ter inventado as finanças descentralizadas, ter concebido a ideia da Uber e ter tentado criar o Bitcoin antes de Satoshi. Um padrão, não um lapso.
O padrão importa mais do que qualquer afirmação isolada. O mesmo perfil da CoinDesk notava que, sempre que lhe faziam uma pergunta direta, Mashinsky a transformava numa recitação de glórias passadas e de patentes. A credencial tornou-se um escudo de conversa. A Celsius vendia rendimentos de quase dois dígitos ao som de «unbank yourself»; Mashinsky foi condenado a 12 anos de prisão e embolsara mais de 45 milhões de dólares. O currículo não causou a fraude, mas comprou a confiança de que a fraude precisava.
O formato ajudava. As sessões semanais «Ask Mashinsky Anything» eram desenhadas para parecer transparência (o fundador responde a tudo, ao vivo), mas, na prática, davam-lhe o palco para repetir o currículo sem contraditório. Cada pergunta sobre risco era devolvida com uma história sobre uma patente antiga. A credencial não comprava só confiança: estruturava a própria conversa, de modo que o passado inflacionado abafava sempre o presente incómodo.
A pedigree alugada: a «Dr.» e a capa paga
Também uma pedigree genuína pode ser transformada em arma. Ruja Ignatova, fundadora da OneCoin, a «Cryptoqueen», tinha um doutoramento verdadeiro em direito comercial internacional pela Universidade de Konstanz, obtido em 2005; a universidade viria a anulá-lo mais tarde por «comportamento indigno». O título de «Dr.» não era, à partida, falso. Foi o que se construiu à volta dele que o foi.
A persona foi inflacionada ponto por ponto: um mestrado em Oxford que fontes independentes nunca confirmaram, uma passagem reportada pela McKinsey e, acima de tudo, uma capa da Forbes. A capa da edição búlgara da revista foi paga, parte de uma cortina de fumo montada para legitimar o negócio. «Dr Ruja» percorreu o mundo a vender a OneCoin, uma «criptomoeda» que, na realidade, não tinha blockchain nenhuma. Desapareceu em 2017 e consta hoje da lista dos mais procurados do FBI.
A lição é desconfortável: até uma credencial autêntica serve de adereço. O título académico e a capa de revista fizeram mais trabalho persuasivo do que qualquer tecnologia, porque sinalizavam validação externa. Quando o comprador não consegue avaliar o produto (e quase nenhum comprador da OneCoin conseguia), recai sobre os crachás da pessoa; e o crachá era precisamente o que tinha sido fabricado.
A capa da Forbes merece um parênteses, porque parece o oposto de uma credencial inflacionada: parece validação independente. É exatamente aí que mora o truque. Há muito que certas capas e prémios se compram, e o leitor raramente distingue a capa editorial, ganha por mérito jornalístico, da capa publicitária, paga por quem nela aparece. O selo que devia significar escrutínio passou a significar, em certos casos, apenas orçamento, e um orçamento é coisa que qualquer esquema bem financiado tem de sobra.
Quadro: o que disseram, o que o registo mostra
Postos lado a lado, os quatro casos desenham uma escala, da pessoa inteiramente inventada à credencial real usada como escudo. A última linha é a mais incómoda e serve de ponte para a secção seguinte.
| Fundador ou figura | Credencial alegada | O que o registo mostra |
|---|---|---|
| «Steven Reece Lewis» (HyperVerse) | Cambridge, Goldman Sachs, venda à Adobe | Pessoa inexistente; papel lido por um ator contratado |
| Craig Wright | «Sou Satoshi Nakamoto, criador do Bitcoin» | Tribunal britânico: não é Satoshi; «falsificação à escala industrial» |
| Alex Mashinsky (Celsius) | «Inventei o VoIP, o DeFi, a ideia da Uber» | Empreendedor real em VoIP (Arbinet); autoria da tecnologia contestada |
| Ruja Ignatova (OneCoin) | «Dr.», Oxford, McKinsey, capa da Forbes | Doutoramento depois anulado; Oxford não confirmado; capa paga |
| Sam Bankman-Fried (FTX) | MIT, Jane Street (verdadeiras) | Credenciais reais, fraude na mesma: a pedigree não prova honestidade |
Credencial não é competência
A última linha do quadro faz um ponto que custa admitir: as credenciais de Sam Bankman-Fried eram verdadeiras. Licenciatura em física no MIT, passagem pela Jane Street. A Sequoia chegou a publicar (e depois a apagar) um perfil deslumbrado que o tratava como um génio messiânico; a pedigree real desarmou a diligência de forma mais eficaz do que qualquer currículo falso o teria feito. Uma credencial é uma afirmação sobre o passado, não uma garantia sobre o caráter nem sobre a solvência.
E uma credencial também não é competência. O crachá diz «ex-Goldman»; a pergunta é se o fundador consegue explicar o próprio produto quando lhe fazem a segunda pergunta. A competência real aparece noutro sítio: no código entregue, num histórico verificável na cadeia, na capacidade de responder a «de onde vem exatamente este rendimento?» sem mudar de assunto. A diferença entre o investigador e o shipper mede-se por construção demonstrada, não por prestígio importado.
A inversão prática é esta: tratar a credencial como a informação menos útil da entrevista, e não a mais útil. Um fundador que começa pelo sítio onde trabalhou e passa por cima de como funciona o produto está a dizer-lhe, sem querer, qual das duas coisas preferia que o leitor examinasse.
Na prática, a pergunta que separa o currículo da competência é quase sempre a segunda. A primeira («onde trabalhou?») é respondida pelo crachá; a segunda («explique, passo a passo, de onde vem este rendimento e o que acontece se o mercado cair para metade?») é respondida pela compreensão, ou pela falta dela. Os fundadores que entendem o próprio produto descem ao detalhe com gosto; os que escondem um buraco mudam de registo e voltam à visão ou à biografia. O ouvinte não precisa de ser engenheiro para reparar na troca de assunto.
O documento vence o microfone
A boa notícia é que a credencial é a única parte do discurso que um leitor comum consegue verificar sem ser do ramo. Graus académicos confirmam-se junto da secretaria da universidade, que em muitos casos valida datas e frequência. Empregos anteriores deixam rasto no arquivo de imprensa, em documentos antigos e no histórico (não no perfil atual) do LinkedIn. Empresas e vendas confirmam-se nos registos comerciais: em Portugal, o registo comercial; nos Estados Unidos, o EDGAR da SEC; no Reino Unido, a Companies House. Patentes estão em bases públicas como a do USPTO ou a do Instituto Europeu de Patentes.
A cripto acrescenta uma ferramenta que outros setores não têm: o registo na cadeia e no código. Um fundador que diz ter construído algo deixou commits, contratos e implementações; investigadores pseudónimos como o ZachXBT fizeram profissão de cruzar alegações com a blockchain. Não é por acaso que as «entrevistas» mais decisivas da história recente da cripto não foram entrevistas, mas depoimentos de antigos sócios a testemunhar contra o fundador, como no caso da FTX.
A disciplina chama-se «o documento vence o microfone». Prefira-se o registo à recitação. Um historial de sete anos comprovado por dados vale mais do que uma frase sobre o passado, como mostrou a nossa análise ao carry do Bitcoin em prova. Quando uma alegação não pode ser documentada, deve ser tratada como marketing, não como facto.
O reverso de 2026: credenciais fabricadas à máquina
A HyperVerse construiu uma pessoa falsa à mão: um ator, vídeos encenados, apoios comprados. Em 2026, isso é barato e automático. A inteligência artificial gera retratos, clona vozes e escreve históricos de trabalho inteiros; um «antigo colega» inventado pode agora dar a cara numa videochamada para confirmar uma experiência que nunca existiu. O custo de fabricar um currículo convincente aproximou-se de zero.
Os ingredientes estão todos disponíveis a custo quase nulo. Geradores de imagens produzem rostos de pessoas que nunca existiram, clonadores replicam uma voz a partir de alguns segundos de áudio e modelos de linguagem escrevem um percurso profissional coerente em segundos. Montar hoje um «Steven Reece Lewis» não exige um ator nem um estúdio, exige uma tarde. O que em 2021 pareceu uma operação extraordinária tornou-se, em 2026, trabalho de manual.
A versão industrial já chegou e, por enquanto, aponta sobretudo para dentro da indústria: uma vaga de falsos recrutadores e falsos fundos de risco com credenciais e históricos inventados. As autoridades de Singapura alertaram em agosto de 2026 para uma burla de falsas ofertas de emprego em cripto que causou 11,8 milhões de dólares em perdas, e operacionais norte-coreanos constroem perfis de recrutador falsos com currículos elaborados. É o espelho invertido do fundador que se inflaciona para fora, mas corre sobre o mesmo motor: biografia fabricada como serviço.
Há ainda um problema de segunda ordem, o «dividendo do mentiroso» que os juristas Chesney e Citron descreveram em 2019: quando as credenciais falsas estão em todo o lado, uma credencial verdadeira pode ser descartada como falsa. O artigo 50.º da Lei da IA da União Europeia, aplicável desde 2 de agosto de 2026, obriga a rotular conteúdo sintético, mas um ser humano que simplesmente mente sobre o seu diploma numa entrevista não produz conteúdo sintético, pelo que escapa à regra. A lei apanha a cara gerada por IA, não a mentira dita por uma pessoa real.
A lei quer um nome verdadeiro
Na União Europeia, a biografia do fundador deixou de ser apenas reputação para passar a ser matéria regulada. A MiCA está construída à volta de uma pessoa coletiva nomeada e identificável. O livro branco de uma oferta de criptoativos tem de identificar o emitente ou oferente e os seus responsáveis, com responsabilidade pessoal associada; uma identidade de gestão fabricada não pode legalmente oferecer nada ao público europeu.
Há mais. A autorização de um prestador de serviços de criptoativos exige que a gestão seja idónea, de boa reputação e competência comprovada. Um currículo inventado não é um deslize reputacional: é um impedimento direto à licença. As comunicações de marketing têm de ser «corretas, claras e não enganosas» (artigo 7.º), e uma afirmação biográfica falsa que sustente um token pode constituir manipulação de mercado, que a MiCA aplica a «qualquer pessoa» (artigo 91.º), com coimas até 5 milhões de euros para pessoas singulares (artigo 111.º).
A ESMA foi explícita ao dizer que promover um produto financeiro «não é como promover sapatos ou relógios», e que criadores sem as credenciais ou autorizações adequadas, ou que escondam conflitos, podem ser responsabilizados. A mensagem do regulador encaixa exatamente nesta análise: uma credencial é uma declaração, e uma declaração falsa numa promoção financeira não é folclore, é uma potencial infração.
A diferença entre as duas margens do Atlântico é instrutiva. Nos Estados Unidos, a credencial falsa costuma ser atacada depois do dano, como fraude, quando a SEC ou o Departamento de Justiça já têm vítimas a contar. Na Europa, a MiCA tenta agir antes, ao exigir a identificação e a idoneidade da gestão como condição de entrada, e não apenas como sanção posterior. Nenhum dos modelos é infalível, a HyperVerse operou em ambos, mas o europeu coloca o ónus de provar quem se é no princípio, não no fim.
Visto de Lisboa: a CMVM, a idoneidade e como ler o currículo
Para o leitor português, a âncora nacional chama-se idoneidade. A CMVM, enquanto supervisora da conduta de mercado, e o Banco de Portugal, para o registo de prestadores, avaliam a boa reputação e a adequação de quem dirige entidades supervisionadas; uma biografia fabricada falha esse teste antes de chegar ao público. O explicador de criptoativos que a CMVM lançou em abril de 2026 lista os prestadores autorizados (63 à data de 30 de março de 2026) e avisa que o registo «não elimina os riscos»; o período transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026. É o mesmo princípio que atravessa a aproximação da MiCA ao crédito DeFi: a lei quer saber quem responde.
Mas a regulação é lenta e transfronteiriça; o «CEO» da HyperVerse e a «Dr Ruja» operaram em várias jurisdições e, quando uma autoridade age, o dinheiro já desapareceu. A defesa do leitor é mais rápida do que a do regulador: verificar o currículo antes de o capital se mover. A tabela seguinte resume como ler cada sinal.
| Sinal na entrevista | Como testar | Bandeira vermelha |
|---|---|---|
| «Estudei em X, trabalhei na Y» | Confirmar na secretaria, no registo ou no arquivo de imprensa | Datas vagas, nenhum antigo colega confirma, sem rasto anterior |
| «Inventei ou construí Z» | Pedir o código, a patente ou o contrato na cadeia | Muda de assunto e volta às glórias passadas |
| «Vendi uma empresa, fiz um exit» | Registo comercial e imprensa da época | O comprador nega ou não há registo nenhum |
| «Capa de revista ou prémio» | Verificar se foi conteúdo editorial ou pago | Patrocínio disfarçado de reconhecimento independente |
| «Conselheiros e apoios famosos» | Confirmar junto do próprio alegado apoiante | Apoios que os nomeados nunca confirmaram |
| Qualquer credencial | Pesar o historial verificável acima da biografia | A pessoa lidera pelo crachá e foge do produto |
A entrevista do fundador vai continuar a ser um palco onde o currículo é recitado e aceite. Mas a biografia é a única alegação que o leitor pode confirmar, e os casos aqui reunidos (uma pessoa inventada, uma autoria inventada, um currículo embelezado, uma pedigree alugada) partilham todos o mesmo sinal: a credencial fez a persuasão e ninguém a auditou. A maioria dos fundadores tem um currículo honesto; o problema é a assimetria, porque o crachá convence muitos e é verificado por poucos. Leia-se o crachá antes da visão; e, quando o registo e a recitação não coincidem, confie-se no registo.
Perguntas frequentes
Como posso verificar as credenciais de um fundador de criptomoedas?
Confirme o grau académico junto da secretaria da universidade, o emprego anterior no arquivo de imprensa e nos registos públicos, as empresas e vendas no registo comercial (o EDGAR nos Estados Unidos, a Companies House no Reino Unido) e as patentes nas bases do USPTO ou do Instituto Europeu de Patentes. Na cripto, cruze ainda o que o fundador diz ter construído com o código e o historial na cadeia. Se uma alegação não puder ser documentada, trate-a como marketing, não como facto.
O que foi o caso do falso CEO da HyperVerse?
A HyperVerse apresentou como diretor executivo um tal «Steven Reece Lewis», com um currículo que incluía Cambridge, a Goldman Sachs e uma venda à Adobe. Segundo a queixa da SEC de janeiro de 2024, a pessoa não existia: o papel foi lido por um ator britânico contratado. O esquema, ligado a Sam Lee, arrecadou mais de 1,7 mil milhões de dólares (cerca de 1,5 mil milhões de euros) junto de vítimas em todo o mundo.
Craig Wright é Satoshi Nakamoto?
Não. Em março de 2024, o Tribunal Superior de Inglaterra, no processo COPA contra Wright, decidiu que Craig Wright não é Satoshi Nakamoto nem o criador do Bitcoin. O juiz James Mellor concluiu que Wright se tinha envolvido em «falsificação à escala industrial» e na produção deliberada de documentos falsos, usando os tribunais como veículo para a fraude.
Ter um bom currículo significa que um fundador é de confiança?
Não. Uma credencial é uma afirmação sobre o passado, não uma garantia sobre o caráter ou a solvência. Sam Bankman-Fried tinha credenciais verdadeiras (MIT, Jane Street) e cometeu fraude na mesma. A credencial também não é competência: o que importa é se o fundador consegue explicar e demonstrar o próprio produto, não onde estudou.
O que diz a lei europeia sobre credenciais falsas de fundadores?
A MiCA exige que o emitente seja uma pessoa coletiva identificada e que a gestão seja idónea; o marketing tem de ser correto, claro e não enganoso (artigo 7.º), e divulgar informação falsa pode ser manipulação de mercado, aplicável a qualquer pessoa (artigo 91.º), com coimas até 5 milhões de euros (artigo 111.º). Em Portugal, a CMVM e o Banco de Portugal avaliam a idoneidade de quem dirige prestadores autorizados.
Marcus Okafor é editor de investigação da HOGE Wire e escreve sobre a cultura, os mercados e a regulação das criptomoedas.