Dois fundadores, duas versões: quando a entrevista vira acusação
Uma empresa cripto tem uma história, mas vários fundadores; quando se zangam, cada entrevista contradiz a outra. Da FTX à OKX, um guia para ler versões rivais.
Em abril de 2026, dois dos homens que construíram as maiores bolsas de criptomoedas do mundo passaram dias a chamar mentiroso um ao outro em público. O gatilho foi um livro: as memórias de Changpeng Zhao, o fundador da Binance. Nelas, CZ conta que, do nada, Star Xu, fundador da OKX, o teria acusado de falsificar um contrato quando trabalhou na OKCoin, por volta de 2015. Xu respondeu em direto, nas redes, com um vídeo que dizia mostrar «versões de contrato» contraditórias e uma frase afiada: «habitual liar». Para rematar, acrescentou que «after spending four months in prison, he continues to make false statements to the world». CZ negou ter falsificado o que quer que fosse e desafiou Xu para uma aposta de mil milhões de dólares sobre um detalhe lateral; Xu recusou, invocando as regras de uma bolsa regulada, como noticiou a CoinDesk.
Repare no que não aconteceu: ninguém se sentou numa cadeira neutra, com um jornalista a arbitrar. Em vez disso, houve duas entrevistas paralelas, cada uma com um autor interessado, cada uma a contar uma história incompatível sobre os mesmos factos. É um padrão que se repete tantas vezes na cripto que merece ser tratado como um género próprio. A maior parte desta série olhou para a entrevista do fundador como um documento com um único narrador, da entrevista de vitória ao fundador que se cala. Hoje viramos o pressuposto do avesso: e quando os narradores são dois, e se odeiam?
A pergunta que o leitor costuma fazer a uma entrevista é «este fundador está a mentir?». Quando há dois fundadores em guerra, a pergunta certa muda: «qual das versões se aguenta, e com que prova?». A entrevista deixa de ser testemunho e passa a ser defesa. E as entrevistas mais decisivas da história recente da cripto não foram dadas a podcasts: foram prestadas sob juramento, por sócios que viraram testemunhas contra o próprio fundador.
O mito do narrador único
A cripto quase nunca tem um só fundador. A Ethereum arrancou com oito cofundadores reconhecidos; a Terraform Labs teve dois; a Celsius, a FTX e quase todas as grandes plataformas nasceram de duplas ou trios. A estrutura importa, porque cada fundador acumula três coisas ao mesmo tempo: uma fatia do capital, um saco de tokens e uma versão dos acontecimentos. Enquanto o projeto sobe, as três alinham-se e produzem uma narrativa única e polida. Quando os interesses divergem, por causa de uma saída, de uma luta pelo controlo ou de um colapso, as versões separam-se e o leitor fica com várias histórias oficiais, todas na primeira pessoa.
Nada disto é exclusivo da cripto; sociedades desfazem-se em todas as indústrias. O que a cripto acrescenta é o token. Numa empresa tradicional, uma guerra de sócios resolve-se a portas fechadas, num tribunal de comércio, e o público só sabe o essencial no fim. Na cripto, cada fundador tem um megafone permanente (uma conta com centenas de milhares de seguidores) e um ativo líquido que reage, ao minuto, àquilo que ele diz. A disputa é pública por construção, e é cara. Como explorámos ao falar das duas almas do builder, o fundador cripto raramente é uma figura única e coerente; é um feixe de papéis que podem entrar em contradição, por vezes na mesma pessoa, muitas vezes entre sócios.
Daí a armadilha da entrevista individual. Sentar um fundador sozinho e ouvir a sua versão dá a ilusão de uma fonte única de verdade. Mas a empresa nunca teve uma fonte única; teve um comité que concordou em falar a uma só voz. A entrevista a solo esconde o comité. A disputa expõe-no, e obriga o leitor a fazer aquilo que o jornalista deixou de fazer: o contraditório.
Cinco formas de a sociedade se partir
Nem toda a divergência entre fundadores é igual, e o tipo de rutura diz-lhe que tipo de entrevista vai ouvir. A tabela seguinte mapeia as cinco formas mais comuns, o que cada uma produz no microfone e um caso que a ilustra.
| Tipo de rutura | O que se ouve na entrevista | Caso | O que verificar |
|---|---|---|---|
| Saída reescrita mais tarde | Duas histórias de origem educadas mas incompatíveis | Ethereum (2014) | Quem ganhou o quê na separação |
| Guerra de governação | Acusações de má gestão e de interesse próprio | Tezos (2017) | Quem controla a tesouraria e os votos |
| Repartir a culpa no colapso | «Eu já tinha saído», «a decisão não foi minha» | Terra (2022) | Datas de saída e de controlo operacional |
| Testemunha-cooperante | O insider confirma a fraude sob juramento | FTX, Celsius | Que pena e que incentivo tem a testemunha |
| Rivalidade reacesa | Memórias contra desmentido, ao vivo | OKX vs Binance (2026) | Que documento sustenta cada versão |
A entrevista mais decisiva é um depoimento: FTX
Em novembro de 2022, no palco da conferência DealBook do New York Times, Sam Bankman-Fried deu a entrevista que definiu a sua queda. Perguntado sobre a fraude, respondeu: «I didn’t ever try to commit fraud on anyone», como registou a CNBC. Era a versão do fundador, contada na primeira pessoa, com a confiança de quem domina o palco. Durou menos de um ano como narrativa dominante.
A versão que prevaleceu veio de dentro. O cofundador e diretor técnico da FTX, Gary Wang, o diretor de engenharia, Nishad Singh, e a CEO da Alameda Research, Caroline Ellison, declararam-se culpados e sentaram-se noutra cadeira, a de testemunha, para descrever como a fraude foi, no relato deles, deliberada e dirigida pelo topo. Não foram entrevistas num sentido jornalístico, mas cumpriram a mesma função social: foram relatos públicos, de pessoas que estavam lá, sobre o que realmente aconteceu. E contradiziam, ponto por ponto, o homem que tinha dito ao mundo que a FTX estava bem.
O júri acreditou nos insiders. É a lição central do género: quando quem construiu a coisa contradiz quem a vendeu, o peso da prova inclina-se para quem tinha as mãos no código e nos livros. Um fundador pode ensaiar uma frase; três pessoas que montaram o sistema, a descrevê-lo em detalhe e sob pena de perjúrio, são muito mais difíceis de desmentir. A entrevista a solo tinha um narrador; o tribunal tinha o comité inteiro.
O contraste com o jornalismo de acesso é cru. O livro «Going Infinite», de Michael Lewis, construído a partir de meses passados ao lado de Bankman-Fried, ofereceu a versão mais simpática do fundador, a ponto de descrever a FTX como um negócio real e sério; foi essa a narrativa de narrador único que pior envelheceu quando confrontada com o depoimento de quem lá trabalhava, como notou a Time. Quanto mais perto o autor está do fundador, mais a sua entrevista se parece com a defesa que o próprio fundador faria.
O preço de uma versão: a testemunha-cooperante
Há, porém, um senão que o leitor atento não pode ignorar. A testemunha-cooperante não é desinteressada: fala a troco de clemência. E as contas, no caso FTX, mostram quanto essa clemência vale. Caroline Ellison, cuja cooperação o juiz Lewis Kaplan descreveu como extraordinariamente substancial, foi condenada a dois anos de prisão. Nishad Singh não cumpriu pena, com o juiz a notar que o seu papel fora mais limitado. E Gary Wang, o cofundador, também escapou à prisão; Kaplan disse nunca ter visto nada parecido com o nível da sua cooperação.
Isto obriga a uma leitura dupla. Por um lado, a testemunha tem um incentivo poderoso para entregar o fundador; o seu depoimento beneficia-a diretamente. Por outro, continua a ser a pessoa que estava na sala, que assinou as transferências, que escreveu o código. Descartar o relato só porque a testemunha ganha com ele seria tão ingénuo como aceitá-lo sem reservas. A regra prática é esta: dê peso ao que o insider descreve e que pode ser corroborado por um documento, e desconfie do que é apenas interpretação de intenções alheias.
O mesmo guião repetiu-se na Celsius. Roni Cohen-Pavon, o antigo diretor de receitas, declarou-se culpado e aceitou cooperar contra o CEO e cofundador Alex Mashinsky, admitindo a manipulação do preço do token CEL, segundo a Bloomberg Law. A sua colaboração tornou-se pública pouco depois, e os procuradores acreditam que terá pesado na decisão do próprio Mashinsky de se declarar culpado antes do julgamento. Mashinsky cumpre hoje uma pena de doze anos de prisão. A entrevista que o afundou foi a do sócio.
Convém lembrar a simetria dos incentivos. Se a testemunha fala para reduzir a pena, o fundador fala para evitar a sua; o incentivo para negar é, no mínimo, tão forte como o incentivo para acusar. Por isso a pergunta útil não é «quem ganha com esta versão?», que se aplica aos dois lados, mas «qual das versões deixa um rasto verificável?». Historicamente, na FTX e na Celsius, foram os relatos dos insiders, e não as negações dos fundadores, que coincidiram com os documentos e resistiram em tribunal.
A guerra de governação: Tezos
Nem todas as disputas acabam em tribunal criminal. Algumas são lutas pelo controlo do dinheiro, travadas em comunicados e entrevistas, enquanto o projeto fica parado. O caso clássico é o da Tezos. No verão de 2017, Arthur e Kathleen Breitman angariaram cerca de 232 milhões de dólares (perto de 200 milhões de euros) numa das maiores ICO de sempre. O código era deles, através da Dynamic Ledger Solutions; o dinheiro ficou numa fundação suíça, presidida por Johann Gevers. A separação entre quem tinha o código e quem tinha o cofre foi a semente da guerra.
No outono de 2017, a disputa rebentou em público. Os Breitman acusaram Gevers de incompetência e de tentar aprovar para si próprio um bónus apresentado ao conselho por um valor muito inferior ao real; Gevers respondeu publicamente, rejeitando as acusações. Durante meses, investidores que já tinham posto dinheiro não sabiam quando (ou se) receberiam os seus tokens, porque os dois lados contavam versões opostas sobre quem estava a bloquear o quê. Gevers acabou por sair, em fevereiro de 2018, e a rede acabou por avançar.
A fatura das versões rivais pagou-se mais tarde. A fundação Tezos aceitou pagar 25 milhões de dólares (cerca de 21 milhões de euros) para encerrar uma ação coletiva que alegava a venda de um valor mobiliário não registado, segundo o Courthouse News. Para o leitor, a lição da Tezos é simples: quando a entrevista de um fundador descreve uma luta de governação, a pergunta útil não é quem tem razão moral, mas quem controla a tesouraria e os votos. O poder segue o cofre, não o microfone.
A história de origem que cada um conta à sua maneira
Às vezes a disputa não é sobre fraude nem sobre dinheiro roubado, mas sobre a propriedade da história. A Ethereum é o exemplo perfeito. O projeto teve oito cofundadores, e a decisão fundadora tomou-se numa casa em Zug, na Suíça, a 7 de junho de 2014. Em cima da mesa estava uma escolha: transformar a Ethereum numa empresa com fins lucrativos, com investimento de capital de risco, como defendia Charles Hoskinson, ou numa fundação sem fins lucrativos, como queria o núcleo de programadores à volta de Vitalik Buterin. Venceu a segunda via. Hoskinson saiu e foi fundar aquilo que viria a ser a Cardano.
Até aqui, a versão consensual. O interessante é que ela não é consensual. Joe Lubin, outro dos oito cofundadores e mais tarde fundador da ConsenSys, contesta diretamente o relato popular. «That wasn’t really what happened», disse à Cointelegraph, argumentando que «people were looking for a way to explain why these two people were bumped out of the project». Para Lubin, a questão foi menos de modelo lucrativo e mais de gestão e de política interna. Oito fundadores, oito ângulos possíveis sobre a mesma reunião, e nenhum obrigado a coincidir.
A Ethereum sobreviveu e prosperou, o que torna o caso instrutivo por outra razão: mostra que versões rivais sobre a origem podem conviver durante anos sem que nenhuma seja declarada «a» verdade oficial. Quando ouvir um fundador contar a história heroica da fundação, vale a pena perguntar quantas outras pessoas estiveram naquela sala, e o que diriam elas se tivessem o mesmo microfone à frente.
Quem é o responsável? Terra e as duas contabilidades
Quando um projeto implode, a disputa entre fundadores transforma-se numa questão jurídica precisa: quem estava ao comando quando a fraude aconteceu? A Terraform Labs, criada em 2018 por Do Kwon e por Daniel Shin, oferece o caso mais limpo de duas contabilidades da mesma empresa. O colapso da TerraUSD e da Luna, em maio de 2022, apagou dezenas de milhares de milhões de dólares. A pergunta seguinte foi inevitável: de quem é a culpa?
As respostas divergem consoante quem fala. Em abril de 2023, a justiça sul-coreana acusou Daniel Shin e vários outros de fraude, abuso de confiança e violação da lei dos mercados de capitais, alegando que o esquema manipulou os preços desde o arranque, em 2018, com lucros ilícitos da equipa a rondar os 462,9 mil milhões de won (cerca de 354 milhões de dólares, perto de 300 milhões de euros). Shin, por seu lado, rejeita as acusações e sustenta, através dos seus advogados, que se afastou do negócio em 2020, antes do colapso. Do Kwon nega tudo. Um tribunal sul-coreano chegou a recusar o pedido de detenção de Shin, enquanto Do Kwon era detido no estrangeiro.
Repare na mecânica das versões: uma centra-se na data de saída («eu já não estava lá»), a outra na data de arranque da alegada manipulação («o esquema nasceu torto»). As duas podem até ser factualmente verdadeiras ao mesmo tempo, e ainda assim levar a conclusões opostas sobre a responsabilidade. Para o leitor, a lição é desconfiar de qualquer entrevista de colapso que ofereça uma data conveniente sem a ancorar num documento: um registo de administração, uma assinatura numa carteira, uma ata de reunião.
Quem disse o quê: um mapa de versões rivais
Reunidos, os casos desenham um padrão. Em cada linha, a mesma empresa gera pelo menos duas narrativas incompatíveis, e aquilo que acaba por decidir raramente é uma terceira entrevista.
| Empresa | Uma versão | A versão rival | O que decidiu (ou não) |
|---|---|---|---|
| FTX | SBF: «não tentei cometer fraude» | Wang, Singh, Ellison: fraude dirigida pelo topo | Depoimento dos insiders; condenação |
| Celsius | Mashinsky: o negócio era sólido | Cohen-Pavon: manipulação do token CEL | Cooperação; confissão de Mashinsky |
| Tezos | Breitman: Gevers em interesse próprio | Gevers: acusações infundadas | Saída de Gevers; acordo de 25 M USD |
| Ethereum | Relato popular: lucro vs sem fins lucrativos | Lubin: «não foi bem isso» | Por decidir; versões convivem |
| Terra | Shin: saí em 2020 | Acusação: esquema torto desde 2018 | Nos tribunais |
| OKX vs Binance | CZ: nunca falsifiquei contratos | Xu: «habitual liar» | Por decidir; vídeo e memórias |
Quando a entrevista deixa de ser testemunho e passa a ser defesa
Há um momento, em toda a disputa entre fundadores, em que a entrevista muda de natureza. Enquanto o projeto corre bem, o fundador fala para informar e para seduzir. A partir do instante em que há um litígio, cada aparição pública passa a ser moldada por advogados, por participações em jogo, por processos pendentes e pela ânsia de salvar o legado. Deixa de ser testemunho e passa a ser alegação. O problema é que o formato não muda: continua a ter o aspeto de uma conversa franca.
As memórias de um fundador são a forma extrema deste fenómeno: um relato integralmente controlado pelo autor, sem contraditório, publicado para fixar uma versão na história. Foi exatamente isso que reacendeu a guerra entre CZ e Star Xu; o livro de um deles funcionou como depoimento unilateral, e a resposta do outro como contra-alegação. O leitor que queira a verdade não pode ler só uma das peças. Tem de as cruzar, e tem de perceber que ambas foram escritas para persuadir, não para informar.
É também por aqui que a cultura do «founder mode», a ideia de que o fundador genial deve mandar sozinho, se torna perigosa. Um narrador único e confiante vende bem na economia da atenção, mas uma disputa prova que a empresa nunca foi uma só voz. Como vimos ao analisar a métrica sem rodapé, o número impressionante que um fundador atira numa entrevista raramente traz a fonte; numa guerra de versões, cada lado traz os seus números, e nenhum traz o rodapé.
O documento vence o microfone, outra vez
Se duas entrevistas se contradizem, o desempate não vem de uma terceira entrevista. Vem do documento e da cadeia. Foi assim que a própria FTX caiu: não por causa de uma declaração, mas de um balanço. A 2 de novembro de 2022, Ian Allison e a CoinDesk publicaram o balanço da Alameda, que mostrava uma dependência enorme do FTT, o token emitido pela própria FTX. Nenhuma entrevista do fundador conseguiu desmentir aquela folha de cálculo.
Na cripto, o leitor tem uma vantagem que não existe na maioria das disputas empresariais: grande parte da prova está on-chain. Investigadores pseudónimos como o ZachXBT construíram reputações inteiras a mostrar que os movimentos de carteiras resolvem perguntas que as entrevistas deixam em aberto. Quando dois fundadores discutem quem controlava o quê, o histórico de transações, as atas, os registos societários e os autos judiciais valem mais do que qualquer tom de voz. A regra é sempre a mesma: verificar, não arbitrar pela simpatia.
A versão move o preço
Uma disputa entre fundadores não é só drama; é informação sensível ao preço. Numa indústria que negoceia 24 horas por dia, sem travões de sessão e com liquidez muitas vezes fina, a acusação de um fundador pode mover um token em minutos. O precedente mais citado é o próprio CZ: um tweet seu em novembro de 2022, a anunciar que a Binance venderia o seu FTT, acelerou a corrida que afundou a FTX, como lembrou a Cointelegraph ao citar o testemunho de Caroline Ellison. Uma frase, num feed, pode valer milhares de milhões.
Do lado oposto, a negação confiante também move mercados, até ao momento em que deixa de o fazer. Do Kwon respondia às dúvidas sobre a Luna com bravata («steady lads»), dias antes de a moeda cair mais de 96 por cento. Uma guerra de versões entre cofundadores, um vídeo de «contratos contraditórios» ou uma votação de governação disputada são todos eventos de mercado. Quem segue estes episódios como quem vê uma telenovela esquece que, do outro lado do ecrã, a multidão com posições alavancadas é o alvo, um tema que desenvolvemos no posicionamento em derivados. Com a Bitcoin a rondar os 74 mil euros, segundo a CoinGecko, a sensibilidade do mercado a uma única frase não é um detalhe; é o jogo.
Comunicação supervisionada: o que a lei diz sobre versões rivais
Na Europa, uma disputa pública entre fundadores sobre um criptoativo não é apenas espetáculo: é uma superfície de comunicação supervisionada. O regime MiCA foi construído em torno de um princípio simples que, por acaso, é o antídoto para o problema das versões rivais: tem de haver um autor responsável. O artigo 6.º exige que o emitente de um criptoativo seja uma pessoa coletiva, com nome, forma jurídica e responsáveis identificados no white paper. Por mais que os fundadores discordem entre si, a lei quer saber quem assina.
O resto do regime fecha o cerco. O artigo 7.º obriga a que qualquer comunicação de marketing seja leal, clara e não enganosa, e coerente com o white paper. O artigo 91.º proíbe a manipulação de mercado por «qualquer pessoa», o que inclui um fundador que divulgue informação falsa sobre um token admitido à negociação, seja para atacar um rival, seja para defender o seu projeto. E o artigo 111.º prevê coimas que, para pessoas singulares, podem chegar aos 5 milhões de euros. A ESMA já avisou que a cripto exige atenção especial pelo «uso intensivo das redes sociais», nas suas orientações sobre abuso de mercado, e lembrou aos criadores de conteúdo que promover um produto financeiro não é como promover sapatos ou relógios.
Há, no entanto, um limite prático que o leitor europeu deve conhecer: a lei pressupõe um autor que se consiga alcançar. Muitos fundadores operam a partir de jurisdições fora do alcance imediato do supervisor, ou por detrás de estruturas que diluem a responsabilidade, e uma disputa travada nas redes entre duas figuras sediadas noutros continentes pode escapar, na prática, a qualquer coima europeia. O artigo 6.º resolve o problema no papel (exige um nome), mas o leitor não pode esperar que a aplicação da lei chegue sempre a tempo; a verificação individual continua a ser a primeira linha de defesa.
A vista de Lisboa: a CMVM e o investidor português
Para o leitor português, a tradução prática é direta. A conduta de mercado é supervisionada pela CMVM, e os derivados de cripto (futuros e perpétuos) caem sob a DMIF II, não sob o MiCA, que cobre os criptoativos à vista e os prestadores de serviços. Em abril de 2026, a CMVM lançou um explicador de criptoativos, com riscos, glossário, uma lista de prestadores autorizados e uma secção de fraude, sublinhando que registar-se junto do regulador «não elimina os riscos associados, em particular a elevada volatilidade e a ausência de cobertura pelo sistema de indemnização aos investidores».
A sequência sensata, perante uma guerra de versões entre fundadores, é não escolher um lado pela simpatia. É consultar o portal do investidor da CMVM, verificar se a entidade está na lista de prestadores autorizados (o período transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026) e lembrar que nenhuma entrevista, de nenhum dos lados, substitui essa verificação. Num trimestre marcado por volatilidade, como já notámos nas perspetivas de fim de ano, o ruído de uma disputa pública é exatamente o tipo de sinal que convém ler com frieza.
Como ler versões rivais: uma grelha
Quando dois fundadores contam histórias opostas, o leitor não precisa de escolher o mais simpático. Precisa de uma grelha. A tabela seguinte resume as perguntas que separam a defesa do testemunho.
| Pergunta | Porque importa |
|---|---|
| Quantos fundadores havia, e quem fala agora? | Uma voz única esconde o comité que concordou em calar-se |
| Quem tem incentivo legal ou financeiro nesta versão? | Advogados e participações moldam o relato |
| Há documento ou cadeia que decida o facto? | Balanços, atas e transações vencem o tom de voz |
| A testemunha também construiu a coisa? | O insider cooperante sabe mais, mas ganha com o relato |
| Algum regulador já se pronunciou? | Uma acusação formal muda o peso das versões |
| Consegue separar a pessoa do token? | A sua carteira não devia depender de quem lhe é simpático |
A entrevista do fundador, neste cenário, continua a ter valor. Só muda de estatuto. Deixa de ser o veredicto e passa a ser uma peça de prova, uma entre várias, a ser confrontada com as outras. A verdade, numa guerra de cofundadores, não sai de uma cadeira; sai do cruzamento de várias. E a melhor notícia para o leitor é que, na cripto, boa parte desse cruzamento está disponível: nos registos públicos, nos autos, na própria cadeia. O fundador fala para fixar a sua versão. Cabe ao leitor recusar que uma versão, só porque foi dita com confiança, se torne automaticamente a história.
Perguntas frequentes
Porque é que os cofundadores cripto dão versões contraditórias da mesma empresa?
Porque uma startup cripto costuma ter vários fundadores com participações, tokens e responsabilidades diferentes; quando os interesses divergem (uma saída, uma disputa de governação ou um colapso), cada um usa a entrevista para fixar a sua própria versão oficial. A entrevista deixa de ser testemunho e passa a ser defesa.
Os executivos da FTX testemunharam contra Sam Bankman-Fried?
Sim. O cofundador e diretor técnico Gary Wang, o diretor de engenharia Nishad Singh e a antiga CEO da Alameda, Caroline Ellison, declararam-se culpados e testemunharam para a acusação. Ellison foi condenada a dois anos de prisão; Wang e Singh não cumpriram pena, graças à cooperação.
Como ler uma entrevista quando dois fundadores se contradizem?
Não escolha um lado pela simpatia. Veja quem tem incentivo legal ou financeiro em cada versão, procure o documento ou a cadeia on-chain que decide o facto, e dê mais peso a quem construiu a coisa do que a quem apenas a promove. A verdade sai do cruzamento, não de uma cadeira.
Uma disputa pública entre fundadores pode mover o preço de um token?
Pode. Em mercados abertos 24 horas, com liquidez fina e sem travões, a acusação de um fundador, um vídeo de contratos ou uma votação de governação são informação sensível ao preço. Sob o MiCA, uma afirmação pública falsa sobre um token admitido à negociação pode configurar abuso de mercado.
O que diz a lei europeia sobre afirmações de fundadores sobre criptoativos?
O MiCA exige um emitente com nome e forma jurídica (artigo 6.º), obriga o marketing a ser claro e não enganoso (artigo 7.º) e proíbe a manipulação por qualquer pessoa (artigo 91.º), com coimas até 5 milhões de euros para pessoas singulares (artigo 111.º). Em Portugal, a conduta de mercado é supervisionada pela CMVM.
Marcus Okafor é editor de investigação na HOGE Wire.