h hoge.gg
Subscribe
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
BTC$67,432.18+2.34%ETH$3,521.44+1.08%SOL$178.62-0.62%BNB$612.30+0.41%XRP$0.6234-0.18%ADA$0.4521+3.12%DOGE$0.1623+1.86%AVAX$38.71-1.24%LINK$17.84+0.92%HOGE$0.00004120+4.21%
● Culture & Long-reads

O número sem rodapé: a métrica na entrevista do fundador

Um fundador diz um número numa entrevista e o mundo trata-o como facto. Mostramos porque nenhuma métrica dita ao vivo é prova e como verificar cada uma.

A cena repete-se todas as semanas. Um fundador senta-se num pódcast, num painel de conferência ou num Spaces do X e, a certa altura, diz um número. «Temos mil milhões em reservas.» «O rendimento é de 20 por cento.» «Os ativos estão bem.» O número sai da boca, atravessa o microfone e, poucos minutos depois, já corre em capturas de ecrã, manchetes e mensagens de grupo como se fosse um facto confirmado. Não é. É uma afirmação à espera de fonte.

Em quase todos os outros formatos de comunicação financeira, um número chega acompanhado da sua origem. Um prospeto tem notas de rodapé. Contas auditadas trazem o parecer assinado de um auditor. A earnings call de uma cotada é sustentada por um relatório que qualquer pessoa pode abrir e ler linha a linha. A entrevista ao fundador é o único sítio onde um número aparece despido, sem rodapé, sem referência, sem maneira imediata de o confirmar, e mesmo assim é recebido com a autoridade de um dado auditado. A distância entre esses dois mundos é a distância entre confiar e verificar.

Este texto é sobre essa distância. Vamos arrumar os números que um fundador cripto diz ao vivo em categorias, consoante quem os consegue confirmar; ver porque os três colapsos mais caros da história recente (FTX, Celsius e Terra) começaram todos com um número dito em público e desmentido por um documento; e perceber porque a lei europeia, através do MiCA e da supervisão da CMVM, já trata a entrevista como uma superfície de comunicação vigiada, e não como simples relações públicas. No fim, deixamos uma checklist: como transformar qualquer número dito ao microfone numa afirmação com morada.

A entrevista é o único sítio onde um número chega sem rodapé

Chamemos «rodapé» à cadeia que liga um número à realidade que ele descreve. Nas finanças tradicionais, essa cadeia é obrigatória e cara. Quando uma empresa cotada diz que teve mil milhões de euros de receita, esse número está amarrado a uma demonstração de resultados, a uma norma contabilística, a um auditor que arrisca a licença se assinar uma mentira e a um regulador que pode processar toda a gente envolvida. O número não vale pela boca de quem o diz; vale pela infraestrutura de responsabilização que o sustenta por baixo.

A entrevista corta essa cadeia. O fundador diz o número, o entrevistador raramente tem os dados para o contestar em tempo real, e a audiência não tem nada para consultar exceto o tom de voz de quem fala. O que faz o trabalho que devia ser feito pelo rodapé é a confiança para-social: a sensação de proximidade e de sinceridade que uma conversa longa e descontraída produz. Ouvimos duas horas de podcast, rimos das mesmas piadas e, no fim, tratamos o «temos reservas de sobra» como se tivéssemos visto o extrato bancário. Não vimos. Ouvimos alguém dizer que existe.

Isto não torna todo o fundador um mentiroso, nem toda a entrevista uma armadilha. Torna a entrevista um formato estruturalmente frágil para transportar factos numéricos. A pergunta útil não é «este fundador parece honesto?», mas sim «este número tem rodapé e, se tem, onde está?». A resposta a essa segunda pergunta divide todos os números ditos ao vivo em quatro famílias muito diferentes.

Quatro tipos de número que um fundador diz ao microfone

Nem todos os números são iguais perante a verificação. Alguns podem ser confirmados por terceiros independentes, outros por qualquer pessoa com um explorador de blocos, outros só pelo próprio fundador, e há os que não podem ser confirmados de todo porque descrevem o futuro. Confundir estas categorias é o erro central de quem ouve uma entrevista cripto. Um número auditado e uma projeção de mercado podem soar exatamente iguais na boca de quem fala, mas têm valores probatórios opostos.

A tabela seguinte separa as quatro famílias. A coluna que importa é a terceira: quem, além do fundador, consegue dizer se o número é verdadeiro. Sempre que essa coluna diz «só o fundador», o número é uma promessa, por muito preciso que pareça.

Tipo de númeroExemplo típico numa entrevistaQuem o pode confirmarSinal de alarme
Auditado«As nossas reservas foram verificadas por um auditor»Auditor independente, se a independência for realNome do auditor omitido ou parecer nunca publicado
Verificável on-chain«Temos 800 milhões em garantias no protocolo»Qualquer pessoa, via endereços públicos e exploradoresRecusa em indicar os endereços a inspecionar
Autorreportado«Crescemos 40 por cento em utilizadores este trimestre»Só o fundador; ninguém tem os dados de origemMétrica sem definição (o que conta como utilizador?)
Infalsificável«Vamos ser a maior plataforma do mundo em dois anos»Ninguém; descreve o futuro, não o presenteDito com a mesma firmeza de um facto do presente

A maior parte do dano nasce da terceira linha. O número autorreportado é o mais perigoso precisamente porque parece concreto: tem casas decimais, tem um trimestre, tem uma percentagem. Mas ninguém fora da empresa tem a matéria-prima para o recalcular. É aqui que vivem os «utilizadores ativos» que incluem carteiras de teste, a «receita» que mistura emissão de tokens com dinheiro real e o «crescimento» medido a partir de uma base convenientemente escolhida.

«Os ativos estão bem»: quando o número contradiz o documento

A 7 de novembro de 2022, com a FTX já a sangrar levantamentos, Sam Bankman-Fried escreveu no Twitter uma frase que hoje é material de manual: «A FTX está bem. Os ativos estão bem.» O tweet foi mais tarde apagado (Fortune). Era um número disfarçado de garantia: «bem» significava, implicitamente, «temos ativos suficientes para cobrir os depósitos». Não tinha rodapé. Era a categoria autorreportada na sua forma mais pura, a solvência de uma empresa afirmada apenas pela boca do dono.

Poucos dias antes, a 2 de novembro, a CoinDesk publicara um documento: o balanço da Alameda Research, a casa de negociação irmã da FTX, revelava cerca de 14,6 mil milhões de dólares de ativos fortemente concentrados em FTT, o token que a própria FTX emitia (CoinDesk). O documento não precisava de acreditar em ninguém. Mostrava que o «bem» assentava num token que a casa criara do nada. Quatro dias depois, a Binance anunciou que ia vender o seu FTT, a corrida começou, e a distância entre o número dito e o número documentado tornou-se uma cratera de milhares de milhões.

Bankman-Fried continuou a falar. Na cimeira DealBook do New York Times, a 30 de novembro, entrevistado ao vivo por Andrew Ross Sorkin, afirmou «nunca tentei cometer fraude contra ninguém» (CNBC). Era outra afirmação sem rodapé e, desta vez, o rodapé viria de um júri: em março de 2024 foi condenado a 25 anos de prisão e a uma perda de bens de cerca de 11 mil milhões de dólares (Departamento de Justiça dos EUA). A lição não é «os fundadores mentem». É mais estreita e mais útil: quando o número dito ao microfone e o número escrito no documento não coincidem, ganha o documento, sempre. O microfone é rápido; o documento é verdadeiro.

O rendimento é um número que se pode desmontar

De todos os números que um fundador diz, o rendimento prometido é o que mais facilmente se desmonta com uma única pergunta: de onde vem? Um juro tem sempre uma origem; alguém, algures, tem de pagar aquilo que o depositante recebe. Quando o fundador não consegue apontar a fonte do rendimento, o rendimento é a fonte, ou seja, está a ser pago com o dinheiro de quem entra a seguir. Um número de juro sem uma origem clara não é um retorno, é um relógio a contar.

A Terra construiu um império sobre um único número: os cerca de 20 por cento ao ano que o protocolo Anchor pagava sobre a stablecoin UST. O problema estava na aritmética, não na retórica. A Anchor pagava muito mais aos depositantes do que gerava com os empréstimos que concedia, e a diferença saía das reservas do projeto, um subsídio com prazo de validade (Coinmonks). Quando os levantamentos aceleraram, não havia mercado para os absorver, e a UST perdeu a paridade a 8 de maio de 2022. Do Kwon respondera durante meses aos críticos com desdém público, tratando a insustentabilidade como inveja. Em dezembro de 2025 foi condenado a 15 anos de prisão, acima da recomendação da própria acusação (CoinDesk).

A Celsius vendeu o mesmo tipo de número por outra via. Alex Mashinsky transmitia semanalmente um direto chamado «Ask Mashinsky Anything», onde apresentava rendimentos de dois dígitos como se fossem seguros e de baixo risco, sob o lema «unbank yourself». Admitiu mais tarde ter dado aos clientes um «falso conforto» sobre uma aprovação regulatória que nunca existiu; foi condenado a 12 anos de prisão em maio de 2025, depois de se apurar que retirara mais de 45 milhões de dólares para si (CoinDesk). O padrão é sempre o mesmo: um número de rendimento dito com confiança, sem um rodapé que explique quem o paga. É por isso que vale a pena comparar qualquer promessa de juro com o rendimento real que um protocolo como a Aave gera e devolve, onde a origem do dinheiro está à vista na cadeia.

Quando o próprio rodapé é falso: o auditor capturado

Há uma objeção óbvia a tudo isto: e se o número for auditado? Um número com parecer de auditor devia estar no topo da hierarquia de confiança. Devia, se a independência do auditor for real. O caso da FTX mostra o que acontece quando não é.

A FTX tinha auditores. Um deles, a Prager Metis, começou a auditar as contas da exchange em fevereiro de 2021. Menos de dois anos depois, a FTX colapsou. Em setembro de 2023, a SEC acusou a Prager Metis de centenas de violações das regras de independência do auditor, incluindo cláusulas de indemnização em mais de 200 cartas de compromisso que a libertavam de responsabilidade por eventuais falsas declarações da gestão dos clientes (SEC). Um auditor que aceita ser indemnizado pelas mentiras do cliente deixou de ser auditor; passou a ser adereço. Em setembro de 2024, a Prager Metis aceitou pagar 1,95 milhões de dólares para encerrar os processos (CPA Practice Advisor).

A lição refina a anterior. Não basta perguntar «este número é auditado?». É preciso perguntar «quem auditou, e essa entidade tinha alguma coisa a perder se assinasse um número falso?». Um rodapé só vale o que vale a independência de quem o escreve. Um parecer de auditoria de uma firma capturada tem exatamente o mesmo valor probatório de uma frase dita ao microfone: nenhum. A palavra «auditado» é, ela própria, um número autorreportado enquanto não soubermos por quem.

Proof of reserves: a indústria tentou dar rodapé ao número

Depois da FTX, a indústria percebeu que «confiem em mim» tinha deixado de vender. A resposta foi o proof of reserves: exchanges como a Binance e a Kraken passaram a publicar provas criptográficas, tipicamente árvores de Merkle, que permitem a um cliente confirmar que o seu saldo está incluído no total de ativos declarado. Foi um progresso real. Pela primeira vez, o número de reservas de uma exchange ganhou uma forma de verificação que não dependia da palavra do fundador.

Mas é meio rodapé. Nic Carter, sócio da Castle Island Ventures e um dos maiores defensores do proof of reserves, é também claro sobre o seu limite: uma árvore de Merkle prova os ativos e prova que cada utilizador incluído está contado, mas não prova os passivos (Cointelegraph). Uma exchange pode simplesmente deixar de fora certas responsabilidades, e o utilizador cujo saldo foi omitido não tem folha nenhuma para verificar, por isso nunca dá pela falta. A prova limita os passivos que a exchange escolheu incluir, não os que escondeu. Provar passivos a sério exige um auditor a fazer uma avaliação completa, o que nos devolve ao problema da secção anterior.

O proof of reserves é, portanto, o estado da arte e uma armadilha ao mesmo tempo. Um fundador pode dizer numa entrevista «temos proof of reserves», e essa frase soa a rodapé completo quando é, na melhor das hipóteses, metade dele. A pergunta certa deixou de ser «tem prova de reservas?» e passou a ser «essa prova cobre os passivos, e quem garante que a lista de passivos está completa?». Carter espera que as provas de conhecimento zero venham a substituir as árvores de Merkle pela sua privacidade superior, mas nenhuma técnica resolve sozinha o problema dos passivos ocultos.

O número que pode mesmo verificar: on-chain e receita real

Nem tudo é sombrio. A cripto tem uma propriedade que as finanças tradicionais invejam: uma parte substancial da sua atividade acontece em livros-razão públicos, onde qualquer pessoa pode ler o número na fonte, sem pedir licença a ninguém. Quando um protocolo diz que tem mil milhões em garantias, muitas vezes é possível abrir o contrato, ler o saldo e confirmar em segundos. Esse é o número da segunda família da nossa tabela e é o mais próximo que a cripto tem de um facto sem intermediário.

A receita de protocolo é o exemplo mais limpo. Quando a Uniswap ativou o seu mecanismo de comissões, o rendimento que passou a fluir para os detentores do token deixou de ser uma promessa de apresentação e tornou-se um número que se lê na cadeia, taxa a taxa (como analisámos ao destrinçar o rendimento real do UNI). É a diferença entre um fundador dizer «somos muito usados» e qualquer pessoa poder somar as comissões efetivamente pagas. Um número verificável on-chain não é imune a interpretação, mas é imune à invenção: existe, ou não existe, no endereço que indicam.

A regra prática que daqui sai é simples: prefira sempre o número que consegue verificar por si mesmo ao número que lhe foi dito. Se um fundador cita uma métrica que, por natureza, vive na cadeia (garantias, receita, tokens em circulação, endereços ativos), a resposta correta não é acreditar nem duvidar, é ir ver. E se ele cita uma métrica on-chain mas não indica onde a confirmar, essa recusa é, por si só, a informação mais importante da entrevista.

A métrica de vaidade: o número verdadeiro que engana à mesma

Há uma última torção, a mais subtil de todas. Um número pode ser verdadeiro, verificável, on-chain, e mesmo assim enganar. Chama-se métrica de vaidade: um dado real que sugere uma conclusão falsa. O volume é o exemplo clássico. Uma exchange pode ter, de facto, mil milhões de volume diário, e esse volume ser em boa parte wash trading, a mesma entidade a negociar consigo própria para fabricar a aparência de liquidez.

O leitor treinado separa o número bruto daquilo que ele implica. Já explicámos, ao mostrar como ler o volume, do número bruto ao sinal de negociação, que um volume alto não é sinónimo de mercado profundo, e que a TVL de um protocolo pode contar o mesmo euro várias vezes à medida que ele salta entre camadas. O mesmo vale para «utilizadores»: uma métrica sem definição pode incluir bots, contas duplicadas ou carteiras criadas para uma campanha de airdrop. O número é real; a implicação é falsa.

É aqui que a leitura on-chain se torna uma competência, não um gesto. Observar os grandes fluxos, por exemplo, ajuda a perceber se um número reflete atividade genuína ou coreografia, como quando as próprias baleias negoceiam já a pensar em quem as observa. A conclusão para quem ouve uma entrevista: não chega perguntar «este número é verdadeiro?». É preciso perguntar «mesmo que seja verdadeiro, o que é que ele realmente mede?».

Porque acreditamos no número dito com convicção

Se um número dito ao vivo é estruturalmente fraco, porque é que lhe damos tanto crédito? A resposta está na psicologia, não na contabilidade. Um número dito com firmeza, num tom calmo, por alguém que domina o vocabulário técnico, ativa um atalho mental: confundimos fluência com veracidade. A convicção de quem fala substitui a fonte que falta. Quanto mais longa e íntima a conversa, mais forte o efeito; duas horas de podcast constroem uma relação para-social em que duvidar do convidado passa a parecer indelicadeza.

A cultura cripto amplifica isto com a mística do fundador visionário, aquele cuja intuição alegadamente justifica dispensar as verificações que se exigiriam a qualquer outra pessoa. É um terreno fértil para que um número dito com carisma valha, na cabeça do ouvinte, mais do que um número escrito num documento aborrecido. Já explorámos como a entrevista do fundador chega a funcionar como previsão de preço, com o mercado a mover-se ao ritmo de uma frase; o mecanismo é o mesmo, a convicção a fazer o trabalho da prova.

O antídoto não é o cinismo, é o procedimento. Um leitor que decide, antes de ouvir qualquer entrevista, que vai tratar todos os números como afirmações não verificadas até prova em contrário, fica imune ao tom de voz. A convicção deixa de ser um dado e volta a ser o que sempre foi: uma escolha de encenação. O número ou tem morada, ou não tem, e a firmeza com que é dito não muda uma linha dessa resposta.

A entrevista é uma superfície regulada: MiCA e o Artigo 91

Há uma ideia persistente de que uma entrevista é só conversa, um espaço informal onde nada do que se diz tem peso legal. Na Europa, para um ativo abrangido pelo regulamento, isso deixou de ser verdade. O MiCA, no seu Título VI, importou para os criptoativos o regime de abuso de mercado que já se aplicava aos instrumentos financeiros tradicionais.

O Artigo 91 proíbe a manipulação de mercado, e a definição é explícita quanto à palavra dita: constitui manipulação difundir informação, por qualquer meio, que dê ou seja suscetível de dar sinais falsos ou enganosos sobre a oferta, a procura ou o preço de um criptoativo, quando quem difunde sabe, ou devia saber, que a informação é falsa (ESMA). «Por qualquer meio» inclui um podcast, um painel de conferência, um Spaces. O mesmo artigo trata ainda o caso de quem emite opinião sobre um ativo nos media tendo já uma posição nesse ativo, sem revelar o conflito. Por outras palavras, um número dito numa entrevista sobre um token abrangido não é um espaço livre de lei; é uma comunicação supervisionada.

A ESMA tem vindo a reforçar a mensagem para o público através da figura do finfluencer. Na sua ficha informativa sobre criadores de conteúdo financeiro, o supervisor europeu lembra que promover um produto financeiro «não é como promover sapatos ou relógios», que é obrigatório avisar da possibilidade de perda total e que quem promove sem credenciais pode ser responsabilizado (FMA). As coimas por abuso de mercado ao abrigo do regime europeu podem chegar aos 5 milhões de euros para pessoas singulares. O número dito ao microfone tornou-se, para quem o diz, um risco jurídico; para quem o ouve, isso é uma razão a mais para o tratar como afirmação, e não como facto.

Portugal, a CMVM e o número que ninguém audita

Para um investidor em Portugal, esta arquitetura tem nomes concretos. A CMVM é o supervisor de conduta de mercado; o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores de serviços de criptoativos e das stablecoins. O MiCA aplica-se ao nível europeu e a lei nacional que o executa, a Lei n.º 69/2025, entrou em vigor no final de dezembro de 2025, com o período de transição dos antigos VASP para o novo estatuto de CASP a terminar a 1 de julho de 2026. Os derivados de cripto, note-se, não caem no MiCA, mas na DMIF II, supervisionados enquanto instrumentos financeiros.

Em abril de 2026, a CMVM lançou um explicador de criptoativos com uma secção de riscos, um glossário, a lista de prestadores autorizados e uma área dedicada à fraude (ECO). Para o tema deste texto, a lista de prestadores autorizados é a ferramenta mais útil de todas: antes de dar crédito a qualquer número dito por um fundador sobre a sua plataforma, o investidor português pode confirmar se essa plataforma está sequer autorizada a operar em Portugal. Um número impecável dito por uma entidade não registada é um número que não devia sair do sítio.

O enquadramento não muda com o preço do mercado, mas convém situá-lo. No momento em que escrevemos, o Bitcoin ronda os 74 mil euros (CoinGecko) e a Ethereum anda à volta dos 2.370 euros (CoinGecko). Estes dois números têm rodapé: são preços de mercado, agregados de milhares de transações verificáveis, não afirmações de um fundador. A distinção é exatamente essa. Há números que o mercado escreve e há números que uma pessoa diz, e só os primeiros chegam com origem incorporada.

Como ler o número na entrevista: uma checklist prática

Tudo o que vimos condensa-se em cinco perguntas. Não exigem conhecimentos técnicos, exigem disciplina: fazê-las sempre, mesmo quando o fundador é simpático, sobretudo quando o número é impressionante. Aplique-as a cada métrica que ouvir numa entrevista, antes de a repetir a alguém.

PerguntaO que procurarBandeira vermelha
Qual é a fonte?Um documento, um auditor, um endereço on-chainA única fonte é a frase que acabou de ouvir
Consigo verificá-lo eu?Um link, um contrato, um relatório público«Confiem em mim» ou dados apenas «internos»
De que tipo é o número?Auditado, on-chain, autorreportado ou infalsificávelUma projeção dita com a firmeza de um facto
Quem ganha se eu acreditar?O incentivo de quem fala e de quem paga o palcoQuem diz o número lucra diretamente com a sua difusão
O que diria o documento?Contas, dados on-chain ou registo do reguladorNão existe documento, ou o documento contradiz a frase

A quarta pergunta merece destaque porque é a mais esquecida. Um número não vive no vácuo; vive dentro de um incentivo. Vale a pena lembrar quem paga o microfone onde o fundador se senta, porque o palco raramente é neutro, e a métrica que é conveniente para quem financia a conversa tem uma probabilidade maior de ser dita e uma probabilidade menor de ser contestada. Nenhuma destas cinco perguntas exige que se acredite ou se descreia. Exigem apenas que se adie o juízo até o número ter morada.

2026: prova ZK, dashboards e o rodapé que é seu

A direção da tecnologia é encorajadora e insuficiente ao mesmo tempo. As provas de reservas caminham para o conhecimento zero, que permite confirmar a solvência sem expor cada saldo individual; os dashboards on-chain em tempo real tornam trivial ler garantias e receita que há cinco anos exigiam um analista dedicado. Cada vez mais, o número que um fundador diz pode ser confrontado com o número que a cadeia mostra, ao vivo, enquanto ele ainda fala.

Mas o mesmo 2026 trouxe a torção inversa. Com deepfakes cada vez mais convincentes, um fundador pode agora repudiar um número que disse mesmo, alegando que o vídeo é falso, aquilo a que se chama o «dividendo do mentiroso». A prova deixou de servir só para nos defender da invenção; passou a ser precisa também para ancorar aquilo que foi genuinamente dito. O trabalho de documentação independente, como o que faz Molly White ao catalogar a distância entre as promessas da cripto e os seus resultados numa publicação com o nome apropriadíssimo de «Citation Needed» (mollywhite.net), nunca foi tão necessário.

No fim, a responsabilidade regressa a um sítio inesperado: o ouvinte. Numa entrevista cripto, o rodapé é seu. É a si que cabe perguntar de onde vem o número, ir ao explorador de blocos confirmar, procurar o registo na CMVM, distinguir a métrica auditada da projeção encenada. Não é um fardo injusto, é a única postura coerente perante um formato que entrega números sem fonte. Trate cada número dito ao vivo como aquilo que ele é, uma afirmação à espera de prova, e a entrevista volta a ser o que devia ter sido sempre: um ponto de partida para a verificação, nunca o seu substituto.

Perguntas frequentes

Porque é que um número dito numa entrevista não conta como prova?

Porque chega sem fonte. Ao contrário de um prospeto, de contas auditadas ou de um dado on-chain, um número dito ao vivo não tem forma imediata de ser confirmado; é uma afirmação sustentada apenas pela confiança de quem ouve, não por um documento que qualquer pessoa possa verificar.

Como posso verificar uma métrica que um fundador cripto menciona?

Comece por identificar o tipo de número: se é on-chain (garantias, receita, tokens), procure o endereço público e leia-o num explorador; se é autorreportado (utilizadores, crescimento), peça a definição e a fonte; se é auditado, confirme quem auditou e se o parecer foi publicado. Uma métrica que não indica onde a confirmar deve ser tratada como não verificada.

O proof of reserves prova que uma exchange é solvente?

Não por si só. Uma prova de reservas em árvore de Merkle demonstra os ativos e a inclusão dos saldos, mas não prova os passivos: a exchange pode omitir responsabilidades, e o utilizador deixado de fora não tem nada para verificar. Solvência é ativos menos passivos, por isso uma prova só de ativos é, na melhor das hipóteses, metade da resposta.

O que diz o MiCA sobre declarações falsas numa entrevista?

O Artigo 91 do MiCA proíbe a manipulação de mercado, incluindo difundir por qualquer meio informação que dê sinais falsos ou enganosos sobre a oferta, a procura ou o preço de um criptoativo. Uma entrevista está abrangida por «qualquer meio», pelo que uma declaração falsa sobre um ativo abrangido pode configurar abuso de mercado, com coimas que na Europa chegam aos 5 milhões de euros para pessoas singulares.

Como confirmo se uma plataforma cripto está autorizada em Portugal?

A CMVM disponibiliza um explicador de criptoativos com a lista de prestadores autorizados, além de um glossário e de uma área sobre fraude. Antes de dar crédito a qualquer número que um fundador cite sobre a sua plataforma, confirme nessa lista se a entidade está sequer autorizada a operar; um número impecável dito por uma entidade não registada é um sinal de alarme por si só.

Por Marcus Okafor, editor sénior da HOGE Wire.

Share 𝕏 Post Telegram