O fundador-oráculo: quando a entrevista prevê o preço
Há um momento em que o fundador cripto deixa de vender o produto e passa a vender um número. Veja como ler a entrevista que virou previsão de preço, e porque quase nunca presta contas.
Há uma transição que se repete em quase todas as entrevistas de fundadores cripto e que raramente é nomeada. Começa pelo produto: a arquitetura, a comunidade, o problema que a equipa promete resolver. E depois, quase sempre a convite de quem faz as perguntas, o fundador muda de registo e dá-lhe um número. Um alvo de preço para o Bitcoin, que ronda os 74 mil euros quando escrevemos. Um patamar para o Ethereum. Uma data em que «tudo muda». A conversa deixou de ser sobre o que a empresa constrói e passou a ser sobre onde o mercado inteiro vai chegar.
Quando a entrevista deixa de vender um produto e passa a vender um número
Este é o fundador-oráculo, e é uma das mutações menos examinadas do género. Ao longo desta série mostrámos a entrevista como palco, como prova e como veículo de retórica, e olhámos até para a entrevista sem entrevistador, em que a própria máquina faz as perguntas. Faltava olhar para o momento em que a mensagem deixa de descrever um produto e passa a ser uma previsão. Porque a previsão obedece a regras diferentes das da promessa: falha de outra maneira e, sobretudo, quase nunca é confrontada com o que realmente aconteceu.
Convém separar isto de um tema anterior. Quando um fundador fala do seu próprio token e o preço desse token se mexe, estamos perante um acontecimento de mercado, potencialmente um caso de abuso. A previsão é outra coisa: é uma afirmação sobre o futuro de um mercado que ninguém controla, normalmente o Bitcoin ou o Ethereum. O produto pode amadurecer ou fracassar; entretanto, o fundador reinventa-se como comentador macro. Deixa de ser o responsável por um protocolo e passa a ser uma espécie de estratega, com uma opinião firme sobre a taxa de juro, a liquidez global e o próximo ciclo.
A tese deste texto é simples: um alvo de preço dito numa entrevista não é informação, é um artefacto de marketing com um autor interessado. Ler bem essa entrevista não é adivinhar se o número está certo. É perceber quem beneficia se acreditarmos nele, se a previsão pode sequer ser falsa e o que acontece a quem a fez quando o prazo passa e o número não aparece. Na maioria dos casos, a resposta a esta última pergunta é: não acontece nada.
Porque a conversa se transforma em profecia
A economia da atenção explica quase tudo. Uma entrevista de três horas reduz-se, na prática, a uma frase: «Fulano diz que o Bitcoin vai a X». O número é a unidade mais partilhável que existe, mais do que qualquer explicação técnica, porque cabe num título, num tweet e numa notificação. Um alvo de preço com uma data próxima gera partilhas independentemente de vir a concretizar-se. Para o fundador, prever é escalar a atenção para muito além da base de utilizadores do produto.
Há também um efeito de lisonja. Uma previsão ambiciosa diz ao público que ele está cedo, que faz parte de um grupo restrito que percebeu antes dos outros. E há a conveniência para quem entrevista: uma previsão dá manchete, enche o episódio e evita as perguntas difíceis sobre o negócio real. Um fundador que passa a hora a falar de um alvo de preço é um fundador a quem ninguém pergunta pelas contas, pelo modelo de receita ou pela sustentabilidade do rendimento prometido. A profecia é, muitas vezes, uma fuga confortável para os dois lados do microfone.
Há ainda um motivo mais desconfortável: às vezes a previsão ajuda a cumprir-se, pelo menos por instantes. Num mercado fino e aberto 24 horas por dia, sem os disjuntores das bolsas tradicionais, a frase certa dita pela pessoa certa move o preço no curto prazo, o suficiente para dar razão aparente a quem a disse. Essa reflexividade, o preço a reagir à narrativa que depois usa o preço como prova, é o combustível de que o fundador-oráculo precisa. Não confirma a previsão de longo prazo; apenas cria a ilusão momentânea de que o oráculo vê o que os outros não veem.
A anatomia de uma previsão de fundador
Nem todas as previsões são iguais, mas quase todas têm uma saída de emergência incorporada, um mecanismo que permite ao autor nunca estar verdadeiramente errado. Reconhecer o tipo de previsão é o primeiro passo para saber quanto peso lhe dar.
| Tipo de previsão | Como soa | A saída de emergência |
|---|---|---|
| Alvo com prazo | «100 mil dólares até ao fim do ano» | Rever a data quando o prazo se aproxima |
| Alvo sem prazo | «vai chegar aos milhões» | O horizonte é tão longo que nunca se confronta com nada |
| Supercycle ou quebra de padrão | «desta vez o ciclo parte-se» | «ainda vem, só não sei quando» |
| Modelo quantitativo | «o stock-to-flow aponta para X» | «funciona ao longo de ciclos, não mês a mês» |
| Previsão condicional | «se imprimirem dinheiro, então X» | A condição não se cumpriu, logo o número não conta |
| Previsão de retórica | «é inevitável» | Não há afirmação nenhuma que possa ser falsa |
Repare que a saída de emergência não é um acidente, é a característica que faz a previsão sobreviver. Quanto mais vaga a formulação, mais durável é a reputação de quem a faz. Um número redondo com uma data próxima é o que dá manchete; a saída de emergência é o que protege o autor quando essa data chega. Os melhores exemplos do género combinam as duas coisas na mesma frase.
Quando o oráculo e o fundador se tornam a mesma pessoa
O caso mais claro de 2026 é o de Tom Lee. Durante anos, Lee foi um estratega de Wall Street, cofundador da Fundstrat, conhecido por alvos persistentemente otimistas para as ações e, mais tarde, para o Bitcoin. Era, em teoria, um analista: alguém pago para prever o preço a partir de fora. Em junho de 2025, tornou-se presidente do conselho da BitMine Immersion, uma empresa cotada que Lee assumiu com o objetivo de criar «a MicroStrategy do Ethereum», transformando-a numa tesouraria de ETH.
A mudança foi imediata. A ação triplicou com o anúncio de uma colocação privada de 250 milhões de dólares, e a empresa acumulou, em poucos meses, mais de 13 mil milhões de dólares em Ethereum. Em dezembro, a CoinDesk incluiu Lee na sua lista de figuras mais influentes do ano. O analista que ganhava a vida a prever o preço passou a ser o fundador cuja empresa depende de esse preço subir.
É esta fusão que muda tudo. Quando Lee aparece numa entrevista a defender um alvo para o Ethereum, já não é um observador desinteressado: está a falar do seu próprio livro, e o livro é a previsão. A entrevista deixa de ser análise e passa a ser, na prática, uma apresentação de vendas de uma posição que ele detém. Isto não significa que esteja errado. Significa apenas que o incentivo para acreditar na previsão está do lado de quem a faz, e o leitor tem de descontar isso antes de mais nada.
Saylor e o número que não se pode verificar
Michael Saylor levou a previsão de fundador ao seu extremo lógico. No palco da conferência Bitcoin de 2024, em Nashville, apresentou como «base case» um Bitcoin a 13 milhões de dólares em 2045, o que implicaria um retorno anual de cerca de 29%, uma capitalização de 280 biliões de dólares e uma fatia de 7% de toda a riqueza mundial. É um número espetacular, e é por isso mesmo que funciona.
Um alvo a vinte anos não é falsificável dentro de qualquer horizonte útil para quem compra hoje. Ninguém vai voltar a Nashville em 2045 para conferir; entretanto, o número circula como se fosse uma âncora. É uma declaração de fé apresentada com a linguagem da análise. A Strategy, a empresa de Saylor, é a maior detentora empresarial de Bitcoin do mundo, o que torna a previsão indissociável da posição: o número defende o prémio a que a ação transaciona sobre o valor do Bitcoin que a empresa detém, um mecanismo que já explicámos ao ler as tesourarias e os alvos de preço face à Fed. Para prazos mais curtos, as previsões multiplicam-se, com a imprensa a atribuir-lhe alvos de 170 mil dólares e acima. O padrão é o mesmo: quanto mais longe o horizonte, mais seguro o autor.
CZ e o supercycle que foi escorregando
Em janeiro de 2026, em Davos e depois na CNBC, Changpeng Zhao, o fundador da Binance, afirmou ter fortes convicções de que 2026 seria um «supercycle», um ciclo que quebraria o padrão histórico de quatro anos ligado aos halvings, impulsionado pela viragem pró-cripto nos Estados Unidos. Era uma previsão forte, com uma tese por trás e uma data implícita.
Não foi o que aconteceu. Depois de um pico acima dos 126 mil dólares em outubro de 2025, o Bitcoin caiu para a zona dos 60 mil dólares na primeira metade de 2026. Confrontado com isso, CZ não abandonou a previsão: atribuiu o ano fraco a uma mistura de inteligência artificial, tensão geopolítica e do próprio ciclo de quatro anos que dizia estar prestes a quebrar. O supercycle continuava a vir, apenas sem data. É o arquétipo da previsão que escorrega: quando o prazo falha, muda-se o prazo; quando o mecanismo falha, culpa-se um fator externo. A afirmação nunca chega a ser falsa porque nunca chega a ser fixa.
Vale a pena guardar o critério que distingue uma previsão útil de uma profecia: uma previsão séria diz o que a provaria errada. «O Bitcoin fecha 2026 abaixo dos 60 mil euros» é falsificável, porque há uma data e um valor que ou se cumprem ou não. «Vem aí um supercycle» não é, porque não há nada que, acontecendo, obrigue o autor a admitir o erro. Quando um fundador se recusa a dizer o que o faria mudar de ideias, não está a partilhar uma análise; está a vender uma direção emocional.
O modelo que o próprio autor declarou invalidado
Se um número redondo parece um palpite, um modelo com um gráfico parece uma lei. Foi essa a força do stock-to-flow, o modelo popularizado pelo analista anónimo conhecido como PlanB, que tratava a escassez programada do Bitcoin como preditor do preço. Durante o mercado em alta de 2020 e 2021, a curva pareceu funcionar, e isso deu-lhe uma autoridade quase científica.
Depois falhou de forma espetacular. O modelo apontava para cerca de 98 mil dólares em novembro e 135 mil em dezembro de 2021, meses que o Bitcoin fechou perto de 57 mil e 47 mil, ou seja, com um desvio de mais de metade. O próprio PlanB chegou a declarar o modelo «invalidado», para depois argumentar que ele continua válido «ao longo de ciclos completos», e não mês a mês. Foi a saída de emergência clássica: um modelo que ignora a procura e sofre de problemas estatísticos conhecidos, que falhou, que o autor desautorizou e que, ainda assim, continua a ser citado para justificar novos alvos. O verniz de rigor é precisamente o que faz um palpite parecer inevitável.
O caso do stock-to-flow ensina uma outra coisa: a matemática pode ser usada como adereço. Um gráfico logarítmico com uma linha bem ajustada ao passado transmite uma sensação de inevitabilidade que uma frase nunca conseguiria, mesmo quando ignora a variável mais importante, a procura. É o mesmo truque de qualquer modelo que projeta o passado para a frente sem explicar porque é que a relação se manteria. Perante um modelo, a pergunta não é se a curva é bonita, mas se prevê algo que ainda não aconteceu e que possa falhar.
Quando até o banco persegue o preço
O problema não é exclusivo dos fundadores. Os bancos de investimento fazem o mesmo, só que com fatos melhores. Ao longo de 2026, o Standard Chartered, pela mão do analista Geoff Kendrick, reviu em baixa o alvo para o Bitcoin mais do que uma vez em poucos meses, de 300 mil dólares para 150 mil e depois para 100 mil, à medida que o preço caía. Uma previsão que é revista para acompanhar o mercado deixa de ser uma previsão: passa a ser um indicador atrasado vestido de análise.
Do lado dos fundadores, Arthur Hayes, cofundador da BitMEX e responsável pelo fundo Maelstrom, é talvez o comentador macro mais citado do sector. Entrou em 2026 com o que a CoinDesk descreveu como «almost maximum risk», risco quase máximo, e ao longo do ano publicou ensaios a prever que o Bitcoin iria «explodir» de volta aos 126 mil dólares e além. Hayes é um escritor brilhante, mas o fundo dele está posicionado exatamente para o cenário que descreve. É o mesmo conflito de Tom Lee e de Saylor, noutra escala: o ensaio é a tese, e a tese é a posição.
Porque quase nenhuma previsão presta contas
Aqui chegamos ao coração do problema. As previsões de fundadores e analistas quase nunca são confrontadas com o resultado, porque não existe um registo público que guarde o acerto de cada uma. E a investigação séria sobre previsões é implacável quanto ao que isso significa. O cientista político Philip Tetlock recolheu cerca de 28.000 previsões de 284 especialistas ao longo de quase duas décadas e concluiu que o especialista médio era «tão preciso como um chimpanzé a atirar dardos». Pior: os mais confiantes tendiam a ser os menos exatos, e a precisão aproximava-se do acaso a partir dos três a cinco anos de horizonte. É exatamente o perfil do fundador-oráculo: confiante, de horizonte longo e sem prestação de contas.
O mesmo Tetlock mostrou depois, no projeto que batizou de «superforecasters», que há quem preveja bem, mas por razões que raramente se veem numa entrevista de fundador: pensam em probabilidades e não em certezas, atualizam a estimativa quando os factos mudam, dividem o problema em partes e guardam registo dos próprios erros. O oráculo cripto faz o oposto: fala em certezas, nunca revê o número em voz alta e trata cada acerto como prova de génio e cada falha como azar. É a diferença entre quem quer acertar e quem quer parecer que acerta.
O resultado é um viés de sobrevivência. Lembramo-nos de quem acertou uma vez e esquecemos as dezenas que erraram, porque ninguém guarda a pontuação. A tabela abaixo reúne cinco das previsões mais repetidas do sector e o que lhes aconteceu de facto.
| Previsão | Autor | Prazo original | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| Bitcoin a 1 milhão de dólares | John McAfee | fim de 2020 | Nunca perto; o autor admitiu ser um ardil para atrair atenção |
| Bitcoin a 250 mil dólares | Tim Draper | 2022-2023 | Adiada várias vezes; aponta agora para 2028 |
| Stock-to-flow: 135 mil em dezembro de 2021 | PlanB | dezembro de 2021 | Fechou perto de 47 mil; o autor disse «invalidado» |
| Supercycle em 2026 | Changpeng Zhao (CZ) | 2026 | O preço caiu; «ainda vem, sem data» |
| Colapso abaixo de 20 mil dólares | Peter Schiff | recorrente há mais de uma década | Não aconteceu; admitiu que «não vai a zero» |
Os detalhes valem a pena. John McAfee prometeu um Bitcoin a um milhão de dólares até 2020 e chegou a apostar uma penhora corporal grotesca em como acertaria, para depois admitir que nunca acreditara e que a previsão fora um estratagema para levar as pessoas a interessarem-se por cripto. Tim Draper mantém o alvo de 250 mil dólares desde 2018, inicialmente para 2022 ou 2023; nunca chegou perto, mas em vez de o dar por falhado culpou o governo dos Estados Unidos e pediu mais tempo, empurrando a data para 2028. E do lado oposto, Peter Schiff, há mais de uma década que anuncia o colapso do Bitcoin, do «vai a 750 dólares» de 2018 ao «abaixo de 20 mil» de 2026, até admitir que afinal «não vai a zero». Nem os touros nem os ursos prestam contas: uns e outros continuam a ser convidados a prever, independentemente do histórico.
O que uma previsão esconde: o autor interessado
Se há uma pergunta que resume tudo, é esta: o que é que quem faz a previsão possui? Saylor detém Bitcoin através da Strategy; Tom Lee detém Ethereum através da BitMine; Hayes está posicionado no seu fundo. Em todos os casos, a previsão é o marketing que sustenta a posição. Não é preciso haver má-fé para o incentivo distorcer a mensagem: quem tem a carteira cheia do ativo que prevê subir tem todos os motivos para o dizer alto e com frequência.
Isto liga-se diretamente a uma pergunta que já explorámos: quem paga o microfone. Uma previsão pode ser uma posição paga disfarçada de opinião, tal como um episódio patrocinado pode ser publicidade disfarçada de jornalismo. A diferença entre uma análise e uma peça de marketing raramente está no tom; está em quem lucra se acreditarmos. Antes de pesar um alvo de preço, vale mais saber o que a pessoa que o diz tem na carteira do que discutir se o número é plausível.
No caso das tesourarias cotadas, o conflito é ainda mais direto. Empresas como a BitMine ou a Strategy vivem de transacionar acima do valor dos criptoativos que detêm, e esse prémio depende da convicção do mercado. Cada entrevista otimista ajuda a manter o prémio; cada prémio elevado permite emitir mais ações e comprar mais ativo. A previsão não é um comentário sobre a máquina, é uma peça da máquina. Quando o oráculo e o tesoureiro são a mesma pessoa, o alvo de preço deixa de ser opinião e passa a ser um instrumento de financiamento.
Uma previsão pode ser uma recomendação de investimento
Na Europa, isto não é apenas uma questão de bom senso; é, em parte, uma questão de lei. Ao abrigo do Regulamento sobre Abuso de Mercado e do Regulamento Delegado (UE) 2016/958, uma sugestão sobre uma estratégia de investimento relativa a um instrumento financeiro é uma «recomendação de investimento», e tem de ser apresentada de forma objetiva e divulgar conflitos de interesse. Quem se apresenta como perito deve ainda indicar a metodologia, o horizonte, avisos de risco e posições relevantes. A ESMA já avisou que as recomendações difundidas nas redes sociais estão sujeitas a estas regras, e a sua ficha para finfluencers lembra que promover um produto financeiro «não é o mesmo que promover sapatos ou relógios», e que conflitos não divulgados podem constituir abuso de mercado.
A fronteira é subtil e vale a pena entendê-la. Uma previsão sobre o preço à vista do Bitcoin cai numa zona cinzenta, porque o Bitcoin em si não é um instrumento financeiro. Mas a partir do momento em que a previsão incide sobre uma ação cotada como a da BitMine ou da Strategy, sobre um derivado (sob a DMIF II) ou sobre um token admitido à negociação, as regras aplicam-se com força. E se o fundador previr o preço do seu próprio token de forma enganadora, entra no Título VI da MiCA sobre abuso de mercado, cujo artigo 91.º alcança «qualquer pessoa» que difunda informação falsa ou enganadora, com coimas até 5 milhões de euros para pessoas singulares. A ESMA reforçou-o com orientações que sublinham a natureza transfronteiriça e o uso intensivo das redes sociais no cripto.
A dificuldade está na aplicação. Muitos oráculos falam a partir de fora da UE, alguns por trás de um pseudónimo, e um podcast de três horas é quase impossível de fiscalizar frase a frase. A lei existe e alcança «qualquer pessoa», mas a distância entre a regra e a coima é enorme quando o autor está noutra jurisdição e o «conselho» vem embrulhado em opinião. Para o leitor, a lição prática não é esperar que o regulador intervenha, é aplicar ele próprio o teste que a lei exige aos profissionais: há método, há horizonte, há divulgação de conflitos?
Portugal, a CMVM e o leitor
Para o leitor português, a supervisão de conduta de mercado cabe à CMVM, com o Banco de Portugal a tratar do registo dos prestadores e das stablecoins. Em abril de 2026, a CMVM publicou o explicador «Criptoativos: o que precisa de saber», com riscos, glossário, lista de prestadores autorizados e uma secção sobre fraude. O aviso central é seco: investir em criptoativos, lê-se, «não elimina os riscos associados, em particular a elevada volatilidade e a ausência de cobertura pelo sistema de indemnização aos investidores».
Na prática, isto dá ao leitor uma sequência simples perante uma previsão. Primeiro, verificar se quem fala é um prestador autorizado, consultando a lista da CMVM através do portal do investidor, já com 63 entidades registadas a 30 de março de 2026. Depois, perguntar se aquilo é, na prática, uma recomendação, e se há divulgação de conflitos. Por fim, lembrar que o período transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026, e que os derivados de cripto são supervisionados sob a DMIF II, não sob a MiCA. Um alvo de preço dito num podcast não é aconselhamento; e ninguém o cobre se correr mal.
O contraste: quando o número é mesmo verificável
A crítica à previsão de fundador não é que os números sejam maus. É que há números que se pedem para acreditar e números que se podem conferir, e vale a pena preferir os segundos. Um mercado de previsão como o Polymarket ou o Kalshi liquida uma probabilidade contra um resultado real: a afirmação é falsificável e fica registada. É o oposto do alvo de entrevista, que quase nunca é confrontado com o desfecho.
O mesmo se aplica ao rendimento. Quando um fundador promete uma percentagem, isso é uma afirmação sobre o futuro. Quando um protocolo gera receita e a distribui, isso é um número que se lê na cadeia, como mostrámos ao auditar o rendimento real da Aave e as suas recompras. A diferença é toda: um é uma promessa, o outro é um facto verificável. Perante uma entrevista, a pergunta útil não é «será que ele tem razão?», mas sim «este número existe em mais algum lado onde eu o possa conferir?». Se a resposta for não, está a lidar com fé, não com informação.
Há uma razão de fundo para preferir estes números. Um mercado de previsão agrega milhares de apostas com dinheiro real e ajusta-se a cada nova informação, o que o torna difícil de enganar de forma consistente. Um rendimento na cadeia é auditável por qualquer pessoa, a qualquer hora, sem pedir licença. Nenhum dos dois depende da reputação de quem fala. O alvo de entrevista depende apenas disso: da autoridade do rosto e da confiança da voz. Trocar a confiança pela verificação é, no fundo, tudo o que este guia pede.
Como ler a entrevista de previsão
Junte-se tudo numa grelha de leitura. Nenhuma destas perguntas exige conhecimentos técnicos; todas exigem apenas o hábito de tratar um alvo de preço como um anúncio, e não como um dado.
| Pergunta | Porque importa |
|---|---|
| Há um valor E uma data? | Sem data, a previsão nunca pode ser confrontada com o resultado |
| Há um mecanismo, não só um número? | Um número sem «porquê» é retórica, não análise |
| Esta pessoa tem um histórico verificado? | Sem registo do que acertou e errou, não há prestação de contas |
| O que é que quem fala possui? | Quem prevê costuma deter aquilo que sobe se acreditarmos |
| É, na prática, uma recomendação? | A lei da UE exige apresentação objetiva e divulgação de conflitos |
| Posso verificar o número noutro lado? | Um mercado que liquida ou um fluxo auditável valem mais do que fé |
O fundador-oráculo não está necessariamente a mentir. O problema é estrutural. O formato premeia números confiantes, não falsificáveis e nunca confrontados com o resultado, e quem lhe dá o número costuma ser dono daquilo de que o número trata. Não é preciso saber se o Bitcoin vai a 74 mil ou a 740 mil euros para ler bem uma entrevista. Basta lembrar que uma previsão dita ao microfone é a coisa mais barata de produzir e a mais cara de acreditar, e tratá-la como aquilo que é: publicidade com a forma de profecia.
Perguntas frequentes
O que é uma previsão de fundador e porque é diferente de uma promessa de produto?
Uma previsão de fundador é o momento em que o responsável por um projeto deixa de descrever o que constrói e passa a dizer onde o mercado vai chegar, normalmente com um número: um alvo de preço para o Bitcoin ou para o Ethereum. É diferente de uma promessa de produto porque não descreve algo que a equipa controla, mas sim o futuro de um mercado que ninguém controla. A promessa pode ser verificada com o tempo; a previsão costuma ser vaga o suficiente para nunca ser confrontada com o resultado.
As previsões de preço dos fundadores cripto costumam acertar?
Raramente de forma verificável. Muitas não têm data, outras adiam o prazo sempre que ele se aproxima e quase nenhuma fica registada num histórico público. O cientista político Philip Tetlock mostrou que, em média, os especialistas que vivem de fazer previsões são pouco mais precisos do que o acaso, e que os mais confiantes tendem a ser os menos exatos. Como no cripto ninguém volta atrás para confrontar cada previsão com o resultado, quem errou continua a ser convidado a prever de novo.
Um fundador pode ser responsabilizado por uma previsão de preço na UE?
Depende do que prevê. Uma previsão sobre o preço à vista do Bitcoin cai numa zona cinzenta, porque o Bitcoin não é, em si, um instrumento financeiro. Mas quando a previsão incide sobre uma ação cotada, um derivado ou um token admitido à negociação, aplicam-se as regras da UE sobre recomendações de investimento e abuso de mercado, que exigem apresentação objetiva e divulgação de conflitos, com coimas que podem chegar aos 5 milhões de euros para pessoas singulares.
Porque é que a mesma pessoa que errou continua a ser convidada para prever?
Porque a economia da atenção premeia a confiança, não a exatidão. Um número grande e uma data próxima geram partilhas, títulos e visualizações, independentemente do resultado. Como não há um registo que guarde os falhanços, funciona um viés de sobrevivência: lembramo-nos de quem acertou uma vez e esquecemos as dezenas que erraram. Muitas vezes quem faz a previsão também detém aquilo que sobe se acreditarmos nela, por isso tem todo o incentivo em repeti-la.
Como distingo um número em que posso confiar de um número que me pedem para acreditar?
Pergunte se o número pode ser verificado noutro lado. Um mercado de previsão que liquida uma probabilidade e um rendimento de protocolo que se lê na cadeia são falsificáveis e podem ser conferidos; um alvo de preço dito numa entrevista pede-lhe apenas fé. Verifique também se há prazo e mecanismo, qual é o histórico verificado de quem fala e o que essa pessoa possui. Prefira sempre o número que pode conferir ao número que lhe pedem para acreditar.
Marcus Okafor é editor de investigação na HOGE Wire e escreve sobre a cultura, a economia e a regulação das criptomoedas.