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● Culture & Long-reads

A entrevista de vitória: quando o fundador dá a guerra por ganha

Kris Marszalek declarou «já ganhámos» na mesma semana em que a CLARITY caiu no Senado. Lemos a entrevista de vitória do fundador cripto e o que ela esconde.

Na terça-feira, 15 de setembro de 2026, o Senado dos Estados Unidos recusou avançar a Digital Asset Market CLARITY Act. A moção de cloture ficou-se pelos 49 votos contra 50, muito longe dos 60 necessários, depois de a Câmara dos Representantes já ter aprovado o texto por 294 a 134 (CNBC). Era a peça que faltava para dar aos criptoativos uma estrutura de mercado federal: a repartição de competências entre a SEC e a CFTC que a indústria perseguia há anos. O Bitcoin, que negociava perto dos 80 mil dólares, recuou com a notícia (CoinDesk).

Dois dias depois, Kris Marszalek, fundador e presidente executivo da Crypto.com, falou à Fortune. Chamou à derrota um revés significativo e, na mesma frase, virou-a do avesso: «mesmo no meio desta desilusão, há um lado positivo para o ecossistema dos ativos digitais: já ganhámos» (Fortune). A lei tinha morrido na véspera; o fundador declarava a guerra por ganha.

Este é o formato dominante da cripto no fim de 2026: a entrevista de vitória. Depois de anos a falar como perseguidos, muitos fundadores passaram a falar como vencedores. E, tal como qualquer entrevista de fundador, a de vitória é um documento retórico com um autor interessado. Declarar uma guerra por terminada é, também ela, uma afirmação, e as afirmações testam-se. Este texto explica de onde vem a volta de vitória, o que ela esconde e como um leitor europeu, que já vive sob uma lei que os fundadores americanos ainda pedem, a deve ler.

O que mudou: da entrevista-cerco à entrevista de vitória

Entre 2021 e 2023, o fundador cripto falava em tom de cerco. O inimigo era o regulador «hostil», a imprensa que não percebia a tecnologia, a «FUD» dos céticos. Sam Bankman-Fried apresentava-se como o adulto responsável que ia domesticar o setor; Changpeng Zhao, o CZ da Binance, chegou a descrever os Estados Unidos como um ambiente hostil à inovação. O registo era defensivo: o inovador incompreendido a resistir a um sistema que o queria travar.

Em 2025 e 2026, o tom inverteu-se. Uma administração americana declaradamente pró-cripto, a GENIUS Act promulgada, um perdão presidencial para CZ, os ETF à vista de Bitcoin e de Ethereum, dinheiro institucional a entrar: o fundador deixou de pedir e passou a arrecadar. A entrevista deixou de ser uma defesa e tornou-se uma volta de honra. O vocabulário mudou de «deixem-nos existir» para «nós vencemos». É uma mudança de registo emocional tão grande como a que separa um réu de um campeão, e merece ser lida com o mesmo cuidado que dávamos à versão defensiva.

A volta de vitória não é, em si, desonesta. O problema é o que ela faz com a distância entre dois enunciados muito diferentes: «fizemos progressos reais» e «ganhámos». O triunfalismo colapsa essa distância. Recuperá-la é o trabalho de quem lê.

O gatilho: a CLARITY caiu e o fundador declarou vitória

Vale a pena olhar para o detalhe do que aconteceu, porque a dissonância é a história. A CLARITY Act (H.R. 3633) falhou a votação de cloture por 49 a 50 no dia 15 de setembro de 2026, onze votos abaixo dos 60 necessários para abrir o debate formal (CNBC). O coração do diploma, a divisão da supervisão entre a SEC e a CFTC, não era o problema. O que travou o texto foi a linguagem sobre conflitos de interesse: as regras para os detentores de cargos públicos, e as suas famílias, com posições em criptoativos.

O pormenor mais revelador: os próprios senadores democratas que passaram meses a negociar o texto, entre eles Gillibrand, Warner, Booker, Warnock, Gallego, Alsobrooks e Cortez Masto, votaram contra. Não foi uma emboscada de adversários; foi a rutura de quem tinha construído a ponte. Com a votação perdida, o trabalho legislativo sobre estrutura de mercado ficou parado no Senado em 2026, e a batalha desloca-se para as agências reguladoras, um terreno mais lento, contestável e reversível com a administração seguinte. É este o pano de fundo, uma derrota concreta e dispendiosa, sobre o qual o setor tem tentado ganhar as suas eleições (já escrevemos sobre como o voto entra no preço).

A resposta de Marszalek, dois dias volvidos, não tentou minimizar a derrota; fez algo mais interessante: declarou-a irrelevante. Argumentou que as pessoas comuns já escolheram a cripto pelo uso, e apoiou-se em números: transferências de stablecoins de cerca de 33 biliões de dólares no último ano, uma subida de 72 por cento; nomes como JPMorgan, Citi, Visa, Mastercard e Morgan Stanley a usar infraestrutura de ativos digitais; e o investimento de 400 milhões de dólares da Citadel Securities na Crypto.com, com uma avaliação de 20 mil milhões, em julho (Fortune). A tese: a adesão já aconteceu, por isso a lei é secundária. Reenquadrar uma derrota legislativa como prova de vitória é o género inteiro condensado numa só semana.

A retórica da vitória contra a letra da lei

Nenhuma das afirmações de uma volta de vitória costuma ser uma mentira pura. Cada uma carrega um núcleo verdadeiro; o triunfalismo trabalha precisamente aí, esticando um facto real até à conclusão maior que ele não sustenta. A tabela abaixo separa o que foi afirmado do que aconteceu de facto.

Afirmação de vitóriaO que aconteceu de factoFonte
«Já ganhámos», temos clareza regulatóriaA CLARITY falhou a cloture por 49 a 50 em 15 set. 2026; a estrutura de mercado ficou parada no SenadoCNBC
«As stablecoins são legais nos EUA»Verdade parcial: a GENIUS Act, só stablecoins de pagamento, foi promulgada em 18 jul. 2025; a estrutura para os restantes ativos não passouCasa Branca
«As instituições já cá estão todas»A Citadel Securities investiu 400 milhões de dólares na Crypto.com (avaliação de 20 mil milhões) em jul. 2026, a primeira ronda institucional da empresa em dez anosCoinDesk
«O capital está a voltar»CZ afirmou que o «dinheiro quente» rodava da IA para a cripto; é uma leitura de fluxos, não um dado auditadoYahoo Finance
«O ciclo de quatro anos morreu»O Bitcoin caiu de perto de 80 mil dólares por causa de um único voto no SenadoCoinDesk

Repare no padrão: a coluna do meio é quase sempre mais estreita e mais condicional do que a coluna da esquerda. «Progresso» transforma-se em «vitória»; «uma lei sobre stablecoins» torna-se «a cripto é legal»; «um investidor privado» vira «as instituições». O leitor crítico não precisa de chamar mentiroso ao fundador. Basta-lhe repor os advérbios que a volta de vitória apagou: em parte, ainda, por enquanto.

A vitória que existe mesmo

Seria desonesto tratar a euforia como puro delírio. Uma parte da vitória é real e vale a pena nomeá-la com precisão. A GENIUS Act, o primeiro enquadramento federal para stablecoins de pagamento nos Estados Unidos, foi promulgada em 18 de julho de 2025, depois de a Câmara a aprovar por 308 a 122 e o Senado por 68 a 30 (Casa Branca). É um marco genuíno: pela primeira vez, um tipo de criptoativo tem regras federais claras. Foi o fim de uma guerra concreta (escrevemos sobre o que significa cunhar um dólar sintético).

Há mais. Os ETF à vista de Bitcoin e de Ethereum abriram um canal regulado que institucionalizou o acesso. O perdão presidencial a CZ, em 23 de outubro de 2025, fechou um capítulo penal que parecia definir a década anterior (CNBC). E a entrada da Citadel Securities na Crypto.com, com 400 milhões de dólares e uma avaliação de 20 mil milhões, colocou uma das maiores criadoras de mercado do mundo dentro do setor (CoinDesk). O tom triunfal não nasce do nada: a cripto de 2026 tem poder político e infraestrutura de mercado que não tinha em 2022.

Reconhecer isto é o que torna a crítica credível. Um texto que negasse qualquer progresso seria tão pouco fiável como a volta de vitória que critica. A questão não é se houve vitórias; é se «vitórias» equivale a «guerra ganha».

A vitória que ainda não existe

O outro lado do livro-razão é maior do que a euforia sugere. A CLARITY morreu para 2026, e a estrutura de mercado passa a depender de ação das agências, que é mais lenta, mais contestável em tribunal e mais fácil de desfazer na administração seguinte. Uma vitória por regulamento administrativo não é uma vitória por lei; é um empréstimo que a próxima maioria pode chamar.

E há o contrapeso que nenhuma volta de vitória menciona: as maiores condenações por fraude que o setor já produziu são recentes. Sam Bankman-Fried foi condenado a 25 anos de prisão e a uma perda de bens de cerca de 11 mil milhões de dólares (Departamento de Justiça). Do Kwon, da Terra, apanhou 15 anos; o juiz Paul Engelmayer descreveu o caso como uma fraude «de escala épica e geracional» (CoinDesk). Alex Mashinsky, da Celsius, cumpre 12 anos (CoinDesk).

É difícil declarar uma guerra ganha enquanto os seus maiores arguidos ainda estão a ser sentenciados. O «já ganhámos» e as penas de dois dígitos convivem no mesmo ano, e qualquer entrevista de vitória que só mostre o primeiro está a editar a fotografia.

O número que sustenta a vitória (e não traz rodapé)

Toda a volta de vitória se apoia num número grande, redondo e citável. No caso de Marszalek, foram os 33 biliões de dólares em transferências de stablecoins, mais 72 por cento num ano. É uma cifra impressionante. Também é uma cifra sem rodapé.

As perguntas certas são aborrecidas e por isso raramente aparecem no palco. Qual é o denominador? O total inclui movimentos internos das exchanges, transferências entre carteiras do mesmo dono, atividade de bots e de arbitragem que não representa procura económica real? Que metodologia produziu os 72 por cento, e comparados com que base? Uma avaliação de 20 mil milhões, vinda de um único investidor estratégico, é uma marca privada de uma ronda de financiamento, não um preço de mercado validado por muitos compradores e vendedores. O número pode estar certo e continuar a dizer muito menos do que parece.

O trabalho do leitor não é acreditar nem desmentir; é exigir o rodapé. Pedir a fonte, a definição e a comparação transforma um slogan numa afirmação verificável. Já dedicámos um texto inteiro a esta armadilha, a métrica que soa a prova mas não traz rodapé, porque é o mecanismo silencioso de quase todas as entrevistas triunfais.

Porque a vitória vende: a economia da atenção e o «founder mode»

Se declarar vitória é arriscado, porque é que tantos fundadores o fazem? Porque compensa. A economia da atenção premeia narrativas confiantes e inevitáveis. «Estamos a ganhar, entrem agora» é um gancho muito melhor do que «fizemos progressos regulatórios incrementais mas o quadro continua incompleto». O triunfalismo é otimizado para partilhas, para títulos e para o algoritmo, não para a exatidão.

Há também um enquadramento cultural que legitima o tom. Em 2024, o ensaio de Paul Graham sobre o «founder mode» elevou a figura do fundador singular, prático e que não delega, ao estatuto de arquétipo do sucesso (Fortune). A ideia é sedutora e, em parte, verdadeira; também dá cobertura a quem confunde convicção com competência e concentração de poder com visão.

Na cripto, há ainda um incentivo que não existe na tecnologia tradicional: o público da entrevista é, muitas vezes, o detentor do token. Quem ouve o fundador é ao mesmo tempo fã e investidor, e a sua crença tem preço. A volta de vitória funciona, então, em duas frentes ao mesmo tempo: é comunicação e é venda. Quando o «nós vencemos» se dirige a quem detém o ativo, o incentivo para exagerar deixa de ser um defeito de carácter e passa a ser estrutural.

O eco histórico: quando declarar vitória foi o último ato

A cripto tem uma memória curta e um arquivo longo. As declarações de triunfo mais confiantes da sua história antecederam, por vezes, os seus piores colapsos. Poucos dias antes de a FTX implodir, Bankman-Fried escreveu que «a FTX está bem. Os ativos estão bem», uma publicação depois apagada (Fortune). No palco do DealBook, garantiu: «nunca tentei cometer fraude contra ninguém» (CNBC).

Do Kwon, enquanto a stablecoin UST perdia a paridade, atirou um lacónico «steady lads» às tropas, dias antes de a Terra colapsar cerca de 96 por cento (U.Today). Mashinsky vendia certeza triunfal todas as semanas, com o slogan «unbank yourself», até a Celsius congelar os levantamentos (CoinDesk). Em todos os casos, a confiança foi máxima precisamente quando os alicerces já estavam a ceder.

É preciso cuidado com a lição, porque a lição fácil é errada. «Todo o fundador confiante é um aldrabão» é falso e injusto: a esmagadora maioria dos fundadores triunfais não são criminosos, e uma volta de vitória não é um crime. A lição verdadeira é mais estreita e mais robusta: uma declaração de vitória é uma afirmação, e a confiança nunca é prova. O mercado já pagou várias vezes para reaprender esta frase.

O documento vence o microfone (outra vez)

Há uma regra que a história da cripto confirma de forma quase monótona: quando o microfone e o documento discordam, o documento acaba por ganhar. Em novembro de 2022, o microfone dizia que a FTX estava bem. O documento dizia o contrário. Ian Allison e a CoinDesk publicaram, a 2 de novembro, o balanço da Alameda que tinha vazado: cerca de 14,6 mil milhões de dólares em ativos, fortemente concentrados no FTT, o token que a própria FTX emitia (CoinDesk). Poucos dias depois começou a corrida que derrubou o império.

O contraste com o jornalismo de acesso é instrutivo. Michael Lewis, que teve uma proximidade a Bankman-Fried que quase ninguém teve, descreveu a FTX como «um grande negócio real» (Protos). O acesso deu-lhe a cena; não lhe deu a verdade. A versão desta regra aplicada à volta de vitória é simples: teste a vitória contra a prova primária, o registo de votos, o texto do diploma, o comunicado, o fluxo on-chain, e não contra o enquadramento do fundador.

Nem por isso o acesso e o rigor são incompatíveis. Laura Shin, com o Unchained, mostrou durante anos que se pode entrevistar de perto e continuar a verificar (Unchained). O problema nunca foi ouvir o fundador; foi confundir tê-lo ouvido com tê-lo comprovado. Quando a entrevista deixa de descrever e passa a prever, o risco aumenta, e foi por isso que separámos a entrevista que prevê o preço da que o comprova.

A vitória vista de Lisboa: na UE a guerra acabou com uma lei

Há uma razão para a volta de vitória americana soar estranha a partir de Lisboa. A narrativa do «ganhámos a guerra» é culturalmente americana: uma luta adversarial contra reguladores «hostis», que se decide (ou não) num voto no Congresso. É uma guerra que se ganha em campanha, com lóbi, doações e maiorias, e que por isso nunca está verdadeiramente terminada, porque a próxima eleição pode revê-la.

Na União Europeia, a mesma guerra acabou de outra maneira, e mais cedo. Não terminou numa entrevista triunfal; terminou numa lei. A MiCA (o regulamento dos mercados de criptoativos) aplica-se aos prestadores de serviços de criptoativos e aos emitentes, e o seu regime de abuso de mercado, o Título VI, tem vindo a entrar em vigor por fases. A «clareza» que os fundadores americanos ainda pedem, a Europa legislou em 2023 e começou a aplicar em 2024. Isto não torna o quadro europeu perfeito, mas muda o significado de «vitória»: aqui, as regras já existem e não dependem de quem ganhar a próxima eleição.

Para o leitor português, a consequência é prática. Quando um fundador declara, num palco em Miami ou num podcast, que a guerra acabou, está a descrever um teatro regulatório que não é o seu. Em Portugal e no resto da UE, a mesma frase, dita sobre um ativo abrangido pela MiCA, cai dentro de um enquadramento jurídico que a trata como aquilo que ela é: uma comunicação.

Quando a vitória é comunicação supervisionada: MiCA, ESMA e o abuso de mercado

Este é o ponto que muda tudo para um leitor europeu. Uma afirmação triunfal de um fundador sobre um ativo abrangido pela MiCA não é apenas relações públicas; é uma comunicação supervisionada. As comunicações de marketing têm de ser corretas, claras e não enganosas, e têm de ser identificáveis como marketing, por força do artigo 7.º da MiCA (InnReg). Um «nós vencemos, entrem agora» que omita o risco não é neutro perante a lei.

A dentada mais forte está no regime de abuso de mercado. A disposição sobre manipulação de mercado, o artigo 91.º, abrange «qualquer pessoa» que difunda informação suscetível de dar sinais falsos ou enganosos sobre um criptoativo (MyComplianceOffice). Não é preciso ser executivo de uma exchange; um fundador, um promotor pago ou um influenciador cabe na definição. E as sanções não são simbólicas: ao abrigo do artigo 111.º, as coimas para pessoas singulares podem chegar aos 5 milhões de euros ou mais (KPMG Law).

A ESMA, o supervisor europeu dos mercados, já sinalizou o «uso intensivo das redes sociais» nas suas orientações para prevenir o abuso de mercado sob a MiCA (ESMA). E foi mais direta na sua ficha para «finfluencers»: promover um produto financeiro «não é como promover sapatos ou relógios» (ESMA). Traduzido para a volta de vitória: uma aparição promocional que anuncie o triunfo, esconda o risco ou omita quem a pagou pode deixar de ser marketing lícito e passar a ser aliciamento indevido ou manipulação.

Portugal: o que a CMVM e o Banco de Portugal já dizem

Em Portugal, a repartição é clara: a CMVM supervisiona a conduta de mercado e a proteção do investidor, enquanto o Banco de Portugal trata do registo dos prestadores e das stablecoins. O período transitório que permitia às antigas VASP operar até obterem a autorização plena de CASP terminou a 1 de julho de 2026 (a lei de execução nacional é a Lei n.º 69/2025). Por outras palavras: o regime já não é uma promessa, é uma exigência.

Em abril de 2026, a CMVM lançou um explicador sobre criptoativos com riscos, glossário, uma lista de prestadores autorizados (pouco mais de seis dezenas, à data) e uma secção sobre fraude. O aviso é sóbrio e vale a pena guardá-lo ao lado de qualquer volta de vitória: a autorização de um prestador «não elimina os riscos», e os criptoativos não têm «cobertura pelo sistema de indemnização aos investidores» (ECO; Portal do Investidor da CMVM).

A mensagem para quem vê a entrevista triunfal de um fundador é direta: a euforia é opcional, o aviso de risco não é, e uma licença não é uma garantia. Um ativo pode ser emitido por um prestador autorizado e continuar a poder perder todo o seu valor. «Ganhámos» e «pode perder tudo» não se anulam; convivem na mesma frase regulatória.

O contra-argumento: e se a euforia estiver a ler mal o momento?

O melhor teste ao «já ganhámos» não é retórico, é o próprio mercado. Se a guerra estivesse mesmo ganha, um único voto processual no Senado não deveria derrubar o preço do ativo principal. Mas derrubou: o Bitcoin recuou de perto de 80 mil dólares na sessão da CLARITY (CoinDesk). Um ativo maduro e imune à política não reage assim a uma notícia legislativa. A reação de preço traiu a fragilidade que a volta de vitória tenta esconder.

Há mais sinais de prudência. Vários analistas têm alertado para o risco de uma correção no quarto trimestre, e a política monetária continua a ser um fator: a subida de juros da Fed e a incerteza sobre o ritmo seguinte pesam sobre um mercado que agora está mais correlacionado com os ativos de risco tradicionais do que gostaria de admitir. Já discutimos esta tensão entre otimismo e cautela em se o inverno cripto acabou mesmo. Com o Bitcoin a rondar os 73 mil euros (CoinGecko), a distância entre o discurso e o gráfico é o dado mais honesto.

A leitura equilibrada não é cínica: a cripto de 2026 é, de facto, mais institucional e mais legal do que a de 2022, e também mais exposta a reversões de política e a choques macro. «Nós vencemos» e «isto ainda pode desfazer-se» são ambas verdadeiras. Uma entrevista de vitória só se torna perigosa quando apaga a segunda.

Como ler uma entrevista de vitória

Não é preciso desconfiar de tudo nem descartar o entusiasmo. É preciso ter um método. A tabela seguinte resume seis sinais recorrentes numa volta de vitória, a pergunta que os desarma e o sítio onde se confirma a resposta.

Sinal na entrevistaA pergunta a fazerOnde verificar
«Já ganhámos», a guerra acabouGanhámos o quê, exatamente, e quem decidiu?O registo de votos, o texto do diploma
Um número enorme e redondoQual é o denominador, a definição e a metodologia?O relatório-fonte, os dados on-chain
«As instituições estão todas cá»É preço de mercado ou marca de um só investidor?O comunicado da ronda de financiamento
«O ciclo morreu», vem um supercicloO que faz o preço quando sai uma má notícia?A reação a um único evento, como um voto
Otimismo sem risco mencionadoOnde está o aviso de perda e o conflito de interesse?Artigo 7.º da MiCA, aviso da CMVM
Vitória políticaÉ lei durável ou depende da próxima eleição?Estado legislativo contra ação de agência

O fio condutor é sempre o mesmo. A confiança do fundador não é o inimigo; o rodapé em falta é. Leia a volta de vitória como aquilo que ela é, uma afirmação, datada e verificável, e confronte-a com o voto, o comunicado e os dados. A guerra da cripto pode acabar um dia. Não acabará porque alguém o disse num palco.

Perguntas frequentes

O que é uma «entrevista de vitória» na cripto?

É a entrevista em que um fundador declara a batalha regulatória, política ou cultural essencialmente ganha, muitas vezes apesar de um revés concreto. O exemplo de 2026 é Kris Marszalek, da Crypto.com, a dizer «já ganhámos» dois dias depois de a CLARITY Act falhar no Senado dos Estados Unidos.

A cripto «ganhou» mesmo a guerra regulatória em 2026?

Em parte. A GENIUS Act, sobre stablecoins de pagamento, foi promulgada em julho de 2025, os ETF à vista existem e há adesão institucional real. Mas a estrutura de mercado, a CLARITY, falhou a cloture por 49 a 50 em 15 de setembro de 2026, e as maiores condenações por fraude do setor, de Bankman-Fried a Do Kwon e Mashinsky, são recentes. «Progresso» não é o mesmo que «guerra ganha».

Porque é que um fundador declara vitória logo depois de perder uma votação?

Porque a economia da atenção premeia narrativas confiantes e inevitáveis, e porque o detentor do token é também público-alvo. Reenquadrar uma derrota como prova de que o mercado «já decidiu» mantém a história otimista e serve quem beneficia de que o leitor acredite que a guerra acabou.

Na Europa, um fundador pode dizer o que quiser numa entrevista?

Não sobre um ativo abrangido pela MiCA. As comunicações de marketing têm de ser claras e não enganosas (artigo 7.º), a manipulação de mercado abrange «qualquer pessoa» que difunda sinais falsos (artigo 91.º) e as coimas podem chegar aos 5 milhões de euros (artigo 111.º). A ESMA e a CMVM já tratam uma aparição promocional como comunicação supervisionada.

Como distingo uma vitória real de uma volta de vitória?

Date a afirmação e verifique-a contra a fonte primária: o registo de votos, o texto da lei, o comunicado e os dados on-chain. Pergunte «ganhámos o quê, exatamente?», exija o rodapé de cada número grande e distinga lei durável (a GENIUS) de trabalho que falhou (a CLARITY).

Marcus Okafor é editor de investigação da HOGE Wire e escreve sobre a cultura, a retórica e a regulação dos mercados de criptoativos.

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