O palco é do fundador: quem controla a entrevista cripto em 2026
A entrevista ao fundador cripto saiu da redação e mudou-se para o palco que o próprio controla. Em 2026, com a MiCA e a CMVM, a lei deixou de a tratar como simples conversa.
Em outubro de 2026, a entrevista mais comentada do setor não foi conduzida por um jornalista de investigação. Foi uma reportagem do New York Times que acompanhou Changpeng Zhao, o fundador da Binance, por Abu Dhabi, onde vive desde que saiu da prisão nos Estados Unidos. Perdoado pelo presidente Donald Trump em outubro de 2025, CZ aproveitou o palco para corrigir a sua própria lenda: a fortuna dele, garantiu, não chega aos cem mil milhões de dólares que a Forbes lhe atribui, fica algures entre dez e trinta mil milhões, e dez milhões bastariam para viver com conforto, disse ao jornal. Nenhum desses números foi auditado. Nenhuma pergunta o obrigou a mostrar um extrato. E, mesmo assim, foi essa a versão que correu o mundo.
A cena resume uma mudança que se consolidou nos últimos anos e que define o género em 2026: a entrevista ao fundador cripto deixou de pertencer à imprensa. O microfone mudou de dono. Quem faz as perguntas, quem decide o que fica no corte final e quem lucra com a atenção já raramente é um meio de comunicação independente; é, cada vez mais, o próprio fundador ou alguém pago para lhe segurar o microfone. Esta não é uma observação nostálgica sobre o jornalismo. É uma questão de poder: quem controla o palco controla a narrativa, e a narrativa, neste setor, move preços.
O palco mudou de dono
Durante décadas, a entrevista económica funcionou com uma divisão de trabalho simples. O protagonista falava; o jornalista escolhia as perguntas, controlava o seguimento e, sobretudo, controlava o corte. O entrevistado podia recusar temas, mas não podia apagar uma pergunta incómoda depois de ela ter sido feita diante de uma câmara que não era a dele. Essa fricção, o facto de o microfone pertencer a outra pessoa, era a fonte de credibilidade do formato.
No setor cripto, essa divisão de trabalho foi-se desfazendo. A primeira geração de fundadores percebeu depressa que não precisava de intermediários: tinha audiência própria, canais próprios e todos os incentivos para manter o controlo absoluto da mensagem. O resultado é um género híbrido, metade conversa, metade material de marketing, em que o entrevistado é também produtor, realizador e, muitas vezes, anunciante. A pergunta deixou de ser «o que é que o jornalista vai perguntar» e passou a ser «quem é que o fundador escolheu para lhe segurar o microfone».
Essa captura do palco tem consequências práticas. Uma afirmação feita num direto que o próprio projeto transmite, edita e arquiva não é equivalente a uma afirmação feita sob contraditório. A primeira parece uma entrevista, soa como uma entrevista e é consumida como uma entrevista, mas não tem nenhum dos mecanismos que tornam a entrevista fiável. É publicidade com a estética do jornalismo. E, durante muito tempo, foi tratada pela lei como simples conversa.
Da redação ao direto na cozinha
O exemplo mais puro da entrevista capturada é anterior à moda dos podcasts. Entre 2018 e junho de 2022, Alex Mashinsky, fundador da plataforma de crédito Celsius, transmitia todas as sextas-feiras um direto a que chamava «Ask Mashinsky Anything». Os clientes escreviam perguntas num chat; ele respondia ao vivo, muitas vezes a partir do apartamento em Nova Iorque a que chamava o «Crypto Castle». Até ao colapso da Celsius, tinha acumulado 179 episódios, arquivados no site da empresa e num canal de YouTube, segundo a ação do procurador-geral de Nova Iorque.
Repare-se na arquitetura. Mashinsky escolhia as perguntas que lia, controlava o ritmo, não tinha contraditório e era dono do arquivo. Vendia a mensagem com slogans que ficaram célebres no setor, «unbank yourself» e «banks are not your friends», e prometia que o dinheiro estaria tão seguro numa conta cripto como num banco. Vários funcionários avisaram-no de que algumas afirmações eram falsas e enganosas; foram ignorados. O formato não era um acidente, era a infraestrutura de confiança da empresa.
A assimetria é também técnica. Numa redação, há um editor, um advogado e um padrão de prova; num direto do fundador, não há nenhuma dessas camadas. O que chega ao público não passou por ninguém que tivesse o dever e o poder de dizer não. Quando esse filtro desaparece, a única salvaguarda que resta é o próprio leitor, e a maioria dos leitores não tem o balanço à frente.
O que mudou desde então não foi a existência deste formato, mas o seu domínio. O direto do fundador, o AMA no X, a Spaces convocada à pressa numa noite de queda, o podcast «amigável» em que o anfitrião também é investidor no projeto: estes palcos passaram de curiosidade a norma. A entrevista de imprensa adversarial, aquela em que o jornalista pode interromper e insistir, tornou-se a exceção, reservada quase sempre para o momento em que já não há nada a vender e tudo a explicar.
Quem controla o quê: anatomia dos palcos
Nem todos os palcos são iguais. A diferença decisiva não é o tema nem a simpatia do anfitrião, é a distribuição do controlo: quem define as perguntas, quem faz a edição, quem recebe o dinheiro e, desde 2026, que exposição regulatória cada formato carrega. A tabela abaixo resume essa anatomia.
| Palco | Quem escolhe as perguntas | Quem faz a edição | Quem monetiza | Exposição regulatória (2026) |
|---|---|---|---|---|
| Entrevista de imprensa adversarial (ex.: DealBook) | O jornalista | A redação | O meio de comunicação | Baixa para o fundador; alta credibilidade |
| Podcast de acesso «amigável» | O anfitrião, muitas vezes alinhado | O anfitrião | Anfitrião e patrocínios | Média: regras finfluencer se houver promoção paga |
| AMA ou direto do fundador | O próprio fundador | O próprio fundador | O projeto | Alta: comunicação comercial e abuso de mercado |
| X Spaces e diretos em redes | Fundador ou moderador escolhido | Ninguém, ou o fundador na gravação | Projeto e engagement | Alta: informação privilegiada e manipulação |
| Perfil ou reportagem curada | Jornalista, com acesso negociado | A redação | O meio | Média: risco de captura por acesso |
| Slot pago ou publi-entrevista | O cliente, ou seja, o projeto | O cliente | O projeto | Alta: divulgação obrigatória e regras MiCA |
Lido assim, o padrão é claro: quanto mais o fundador controla o palco, menor é a fricção jornalística e maior é a exposição a regras de comunicação comercial e de abuso de mercado. O formato que parece mais íntimo e mais autêntico, o direto sem intermediários, é precisamente aquele que a lei passou a olhar com mais desconfiança.
DealBook: a última entrevista verdadeiramente hostil
Para perceber o que se perdeu, vale a pena recordar a exceção. A 30 de novembro de 2022, três semanas depois de a FTX ter colapsado, Sam Bankman-Fried apareceu em vídeo no DealBook Summit do New York Times, entrevistado por Andrew Ross Sorkin diante de uma plateia. Fê-lo contra o conselho explícito dos advogados, que lhe pediam silêncio. Durante cerca de uma hora, respondeu a perguntas que não escolheu, sobre a mistura de fundos de clientes com a casa de negociação Alameda Research, e disse a frase que o havia de perseguir: «I didn’t ever try to commit fraud», ou seja, «nunca tentei cometer fraude».
O que torna o momento DealBook histórico não é a frase, é o palco. Sorkin não era um anfitrião alinhado nem um moderador escolhido pelo próprio; insistiu, confrontou-o com documentos e não deixou a conversa escorregar para o terreno confortável. Foi uma entrevista no sentido antigo da palavra, com o microfone na mão de outra pessoa. Por isso mesmo, aquilo que SBF disse ali teve peso: não era um comunicado, era uma resposta sob pressão. Um ano depois, as suas declarações públicas seriam recordadas no julgamento que o condenou.
É tentador ver o episódio como um fundador imprudente a falar demais. Mas a lição mais útil é outra: a entrevista adversarial funcionou exatamente como devia. Expôs a distância entre a versão do protagonista e os factos conhecidos, e fê-lo em tempo real, sem corte de edição ao serviço do entrevistado. O problema de 2026 é que este tipo de palco se tornou raro, e os fundadores aprenderam a evitá-lo até ser tarde de mais. Há todo um subgénero, a entrevista que testa o fundador com perguntas técnicas a sério, que existe precisamente porque é hoje a exceção e não a regra.
A reportagem que ninguém pôde editar
Há uma ironia no caso FTX que diz tudo sobre o estado do género. Não foi uma entrevista que derrubou o império de Bankman-Fried; foi um documento. A 2 de novembro de 2022, o jornalista Ian Allison, da CoinDesk, publicou uma reportagem sobre o balanço da Alameda Research: de cerca de 14,6 mil milhões de dólares em ativos, perto de 5,8 mil milhões estavam ligados ao FTT, o token emitido pela própria FTX, mostrava o balanço. Uma casa de negociação cujo colateral era, em grande parte, a moeda da empresa ao lado.
A reação foi uma corrida. Em 72 horas, a FTX viu sair cerca de seis mil milhões de dólares; a 11 de novembro, pediu falência com mais de uma centena de entidades associadas. Repare-se no que funcionou e no que não funcionou. Meses de aparições simpáticas, diretos e perfis elogiosos não tinham revelado nada; uma única peça de jornalismo baseado em documentos, que não dependia do acesso ao fundador nem da sua boa vontade, revelou tudo.
A distinção é central para ler o género em 2026. O jornalismo de acesso troca cobertura favorável por proximidade ao protagonista; o jornalismo de responsabilização parte dos factos e dos documentos, e não precisa de ser convidado para a Spaces. A entrevista capturada é a forma máxima do primeiro: dá ao público a sensação de intimidade com o fundador sem nenhum dos riscos que a intimidade com os documentos acarreta para esse mesmo fundador.
Vale a pena reparar em quem chegou primeiro. Enquanto os grandes meios generalistas disputavam entrevistas e perfis de acesso, foi a imprensa especializada, a trabalhar a partir de documentos, que viu o problema. O acesso dá cenas de bastidores e citações exclusivas; raramente dá o balanço. Esta é a assimetria que o leitor deve interiorizar: a entrevista mais difícil de conseguir é quase sempre menos reveladora do que o documento mais aborrecido de ler.
Acesso contra responsabilização
O risco do acesso tem um rosto famoso: Michael Lewis, o autor de The Big Short e Moneyball. Lewis passou meses junto de Bankman-Fried enquanto escrevia Going Infinite e, na promoção do livro, no programa 60 Minutes, defendeu que a FTX tinha «a great real business», um negócio verdadeiro e excelente, e que, se ninguém tivesse lançado suspeitas e não houvesse uma corrida aos depósitos, a empresa ainda lá estaria a ganhar montes de dinheiro. A frase gerou uma reação dura: soava menos a análise do que a lealdade a um sujeito de quem o autor se aproximara demais.
O episódio Lewis é o aviso para toda a entrevista de acesso. A proximidade produz textura e detalhe, mas também produz identificação, e a identificação é o inimigo do contraditório. Quando o entrevistador passa a ver o mundo pelos olhos do fundador, a entrevista deixa de ser um teste e passa a ser um veículo. Não é preciso corrupção para isto acontecer; basta a gravidade natural do acesso continuado. É o mesmo mecanismo que leva o público a querer acreditar, e que faz do fundador carismático um péssimo objeto de escrutínio por parte de quem o admira.
Do outro lado do microfone está um público que quer acreditar. Quem detém o token tem um interesse financeiro em que a versão do fundador seja verdadeira, e por isso premeia o entrevistador simpático e castiga o cético. É uma economia de atenção que recompensa a cumplicidade: o direto que confirma a tese do detentor gera mais visualizações do que aquele que a desmonta. O resultado é um mercado de entrevistas que seleciona, naturalmente, as menos exigentes.
A questão de fundo é de responsabilização, e ultrapassa o jornalismo. Quem fiscaliza quem detém o poder e o capital de atenção? No mundo das organizações autónomas descentralizadas, essa pergunta tornou-se um drama de governação por direito próprio. No mundo das entrevistas, a resposta de 2026 é cada vez mais regulatória: se a imprensa não pode ou não quer segurar o microfone com firmeza, a lei trata a conversa como aquilo que ela materialmente é.
Do microfone ao banco dos réus
Três das aparições mais consequentes da história recente do setor acabaram a ser recordadas em tribunal. Não porque falar seja crime, mas porque aquilo que estes fundadores afirmaram publicamente contrastava com o que os documentos mostravam. A tabela reúne quatro percursos, do palco ao desfecho judicial.
| Fundador (projeto) | Palco-assinatura | A marca verbal | Desfecho |
|---|---|---|---|
| Sam Bankman-Fried (FTX) | DealBook Summit, 30 nov. 2022, com Andrew Ross Sorkin | «I didn’t ever try to commit fraud» | 25 anos de prisão e perda de cerca de 11 mil milhões de dólares (março de 2024) |
| Alex Mashinsky (Celsius) | «Ask Mashinsky Anything», direto semanal, 179 episódios | «Unbank yourself» | 12 anos de prisão (maio de 2025); encaixou mais de 45 milhões de dólares |
| Do Kwon (Terraform) | Entrevistas e redes durante o colapso da UST e da LUNA | A promessa de um «dólar» algorítmico estável | 15 anos de prisão (dezembro de 2025) e perda de mais de 19 milhões de dólares |
| Changpeng Zhao (Binance) | AMAs e redes; depois, perfil pós-perdão | «Funds are safu» | 4 meses de prisão (2024); perdão presidencial (outubro de 2025) |
O caso de Changpeng Zhao é o contraste instrutivo. Cumpriu quatro meses de prisão em 2024 por não manter um programa adequado de combate ao branqueamento de capitais, a Binance pagou um acordo de 4,3 mil milhões de dólares e ele próprio uma multa de 50 milhões; mas não foi condenado por fraude e, em 2025, recebeu o perdão presidencial. A diferença entre a sua trajetória e a dos outros três não está no palco que usaram, está no que os documentos revelaram por trás das palavras.
O regresso: a entrevista de reabilitação
Há um palco que só existe depois do desfecho: a entrevista de reabilitação. É o perfil generoso, o regresso às redes, a longa conversa num podcast simpático em que o fundador, já fora do pior, reescreve a sua própria história. A reportagem do New York Times sobre Zhao em Abu Dhabi é o exemplo de 2026: um homem que saiu da prisão, foi perdoado e agora disputa publicamente a dimensão da sua fortuna, insistindo que vale muito menos do que os rankings dizem. No X, agradeceu o perdão com um «deeply grateful», profundamente grato.
Nem todos têm direito a este palco. A entrevista de reabilitação pressupõe um protagonista que ainda pode falar e cuja presença ainda gera atenção. Do Kwon não a terá tão cedo: em dezembro de 2025, o juiz Paul Engelmayer condenou-o a 15 anos de prisão pelo colapso de cerca de 40 mil milhões de dólares da UST e da LUNA, classificando como «unreasonably lenient», absurdamente branda, a recomendação de 12 anos da acusação. A entrevista de reabilitação é, no limite, um privilégio concedido a quem o sistema deixou de fora da prisão.
Convém não confundir reabilitação com contrição. A entrevista em que o fundador pede desculpa é um género próprio, com a sua gramática de arrependimento encenado, e nem sempre é o que parece; a entrevista de contrição que não é desculpa é já um clássico do setor. O regresso é outra coisa: não pede perdão, reivindica normalidade. E, feito no palco certo, consegue transformar uma condenação ou um acordo milionário num mero capítulo de uma biografia de superação.
O contraste entre os quatro é, no fundo, uma questão de quem ainda tem palco. Changpeng Zhao recuperou o seu quase na íntegra; os três condenados por fraude trocaram o microfone por um número de recluso. A entrevista de reabilitação não é um direito adquirido com a saída da prisão, é um recurso que o mercado da atenção concede a quem continua a valer cliques. É por isso que vale a pena perguntar, sempre que um fundador regressa ao palco, o que foi que o trouxe de volta: o arrependimento, a inocência ou apenas a procura.
2026: o ano em que a lei entrou no estúdio
Durante anos, a defesa de qualquer afirmação exagerada num direto foi a mesma: era só uma conversa, uma opinião, entretenimento. Em 2026, esse argumento ficou mais fraco. Desde 28 de julho de 2026, aplicam-se por inteiro as regras de abuso de mercado do Título VI do regulamento europeu MiCA (artigos 86.º a 92.º), que proíbem o abuso de informação privilegiada, a divulgação ilícita de informação privilegiada e a manipulação de mercado em criptoativos. As orientações da ESMA que acompanham o regime pedem às autoridades que vigiem não só as empresas reguladas, mas também indivíduos, incluindo fundadores e influenciadores que possam aceder a informação material não pública.
Traduzido para o estúdio: se um fundador anuncia numa Spaces uma futura listagem, uma parceria ou uma recompra de tokens antes de a informação ser pública, isso pode ser divulgação ilícita de informação privilegiada. Se faz afirmações que sabe serem falsas para mover o preço do seu token, isso aproxima-se da manipulação de mercado. A entrevista deixou de ser um espaço imune; passou a ser uma superfície de conduta, sujeita às mesmas perguntas que qualquer outra comunicação ao mercado.
A fiscalização tem mecânica concreta. A partir de 28 de julho de 2026, as equipas de negociação, vigilância e produto das entidades reguladas passaram a ter de reconhecer sinais de alerta e a reportá-los em comunicações de ordens e transações suspeitas, os chamados STOR. As orientações da ESMA dão exemplos nada abstratos: validadores que se antecipam a transações, ou funcionários de plataformas que vazam informação sobre futuras listagens. Uma pista lançada numa Spaces pode, nesse enquadramento, tornar-se um caso de supervisão.
Isto não transforma toda a opinião em crime. O fundador continua livre de ter visões, de discordar dos analistas, de defender o seu projeto. A diferença é que a forma, entrevista, direto ou publicação, deixou de ser uma defesa. O conteúdo é avaliado pelo que afirma e pelo efeito previsível que tem sobre o preço, e não pelo facto de ter sido dito num tom casual a um anfitrião simpático. É o fim de uma velha imunidade. Quem quiser aprofundar o modo como a leitura do mercado se faz hoje, com ou sem a palavra dos fundadores, encontra um bom ponto de partida nos modelos por trás dos alvos de preço.
A entrevista paga e o fator finfluencer
O segundo golpe de 2026 atingiu o palco do podcast pago. Em janeiro, a ESMA publicou uma ficha informativa para finfluencers, os criadores que falam de produtos financeiros nas redes. A mensagem é direta: o finfluencer é responsável pelo conteúdo que publica, esse conteúdo tem de ser verdadeiro, claro e não enganoso, e qualquer promoção paga tem de ser identificada como tal. E, ponto decisivo para o género, a ESMA afirma que rótulos como «não é aconselhamento financeiro» ou «NFA» não eliminam a responsabilidade legal de quem, na prática, diz aos seguidores o que comprar, vender ou manter.
A consequência para a entrevista ao fundador é imediata. Quando um anfitrião recebe para entrevistar um fundador e o resultado é uma peça elogiosa que empurra os ouvintes para um token, isso não é uma conversa, é comunicação comercial, e tem de ser divulgada. O disclaimer murmurado no início do episódio, o clássico «isto não é aconselhamento», deixou de servir de escudo. A economia da entrevista paga, que o setor normalizou durante anos, passou a ter uma etiqueta de risco colada.
Para os incumpridores, as sanções não são simbólicas. Ao nível europeu, a moldura prevê coimas que podem chegar a vários milhões de euros, e o regime português, como veremos, fixa tetos na mesma ordem de grandeza. A pergunta que o ouvinte deve fazer a cada episódio mudou: já não é «gosto deste anfitrião», é «quem pagou para eu estar a ouvir isto».
Portugal: a CMVM e o fim do regime transitório
Em Portugal, estas regras ganharam nome e morada. A MiCA foi transposta pela Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro, que aprovou o Regime dos Mercados de Criptoativos. O diploma distribui competências: cabe ao Banco de Portugal a autorização e a supervisão prudencial dos prestadores de serviços de criptoativos, e à CMVM a supervisão da conduta, das ofertas públicas de criptoativos e do abuso de mercado, segundo o texto publicado em Diário da República. Por outras palavras, é a CMVM que fica responsável por olhar para aquilo que um fundador diz ao mercado português.
A data a reter é 1 de julho de 2026. Foi quando terminou o regime transitório: a partir daí, as entidades que não obtiveram autorização MiCA deixaram de poder prestar serviços de criptoativos na União Europeia, e as regras entraram plenamente em vigor em Portugal com a CMVM e o Banco de Portugal como supervisores, prevendo coimas até cinco milhões de euros para as empresas incumpridoras. O faz-de-conta acabou: já não há um limbo em que a comunicação de um projeto escapa a qualquer supervisor identificado.
Há ainda uma peça que muda o papel da entrevista. A MiCA criou um documento formal de divulgação, o white paper de criptoativos, pelo qual o emitente é responsável e que passa a ser a fonte primária de informação sobre um projeto. Durante anos, a entrevista ao fundador foi o substituto informal desse documento que não existia; agora que existe, a conversa num direto deixa de poder fazer de prospeto. Quando o fundador contradiz o seu próprio white paper num podcast, a diferença entre os dois textos é, por si só, informação relevante.
Para o leitor português, a mudança é concreta. Se um fundador vem a um direto falar de um token oferecido a investidores em Portugal e faz afirmações enganosas ou revela informação privilegiada, há agora uma autoridade nacional com mandato explícito sobre essa conduta. A entrevista continua a ser conteúdo; mas, quando toca num criptoativo com público em Portugal, é também matéria de supervisão. O microfone do fundador passou a estar, pelo menos em teoria, no raio de visão da CMVM.
Como ler uma entrevista de fundador em 2026
Nada disto obriga o leitor a desconfiar de tudo. Obriga, sim, a ler o palco antes de ler as palavras. Antes de aceitar a versão de um fundador, vale a pena passar a conversa por um pequeno crivo:
- Quem é dono do palco? Um direto que o projeto transmite, edita e arquiva não tem o mesmo valor que uma entrevista sob contraditório numa redação independente.
- Quem escolheu o entrevistador? Se o anfitrião foi convidado, pago ou é investidor no projeto, a ausência de perguntas difíceis não é sorte, é desenho.
- Isto foi pago? Procure a identificação de promoção. A falta dela, num episódio claramente promocional, é um sinal de alerta por si só.
- Há um número sem rodapé? Rendimentos, reservas, utilizadores: qualquer métrica forte deve remeter para uma fonte verificável, não para a palavra do fundador.
- A afirmação é sensível ao preço? Anúncios de listagens, parcerias ou recompras feitos num palco informal podem ser informação privilegiada ou promessa interessada.
- Existe um documento por trás? O balanço da Alameda estava num documento, não numa entrevista. A pergunta decisiva é sempre «onde está o papel».
É o mesmo ceticismo que um analista aplica ao ler o mercado ao fim de um ano em que o Bitcoin negoceia à volta dos 73 mil euros, cerca de um terço abaixo do seu máximo histórico, segundo a CoinGecko: a narrativa é sedutora, mas os números só valem com a sua proveniência.
O próximo palco: deepfakes e o fundador sintético
Se o controlo do palco é a história da última década, a fronteira seguinte é o controlo da própria imagem. Já circulam diretos falsos no YouTube com deepfakes de figuras como Elon Musk e Vitalik Buterin a promover falsos sorteios de cripto, montagens que imitam entrevistas e transmissões reais para drenar carteiras. A tecnologia que permite clonar a voz e o rosto de um fundador transforma a entrevista sintética na forma extrema da entrevista capturada: nem sequer é preciso que o fundador fale.
Para o regulador, isto abre uma frente nova. Uma afirmação falsa atribuída a um fundador, gerada por inteligência artificial e desenhada para mover um preço, é manipulação de mercado e fraude ao mesmo tempo, independentemente de quem carregou no botão. Para o leitor, a defesa volta a ser a mesma pergunta antiga, agora ainda mais urgente: qual é a fonte, quem controla o canal, onde está o documento. A autenticidade deixou de se poder presumir a partir do rosto no ecrã.
A entrevista ao fundador não vai desaparecer; é demasiado útil, para o fundador e para o público. Mas 2026 marcou o fim da sua inocência jurídica. O palco continua a ser do fundador; a diferença é que, pela primeira vez, há alguém de fora, a ESMA, a CMVM, o Banco de Portugal, com mandato para perguntar o que foi dito, quem pagou e se os números batem certo. O microfone mudou de dono há muito tempo. A novidade é que, finalmente, deixou de estar fora da lei.
Perguntas frequentes
Porque é que a entrevista ao fundador cripto é tão importante para o preço?
Porque em muitos projetos a confiança substitui a informação auditada. Sem demonstrações financeiras verificadas, a palavra do fundador num direto ou num podcast funciona como documento de referência e move o preço do token. É também por isso que a lei passou a tratá-la como comunicação ao mercado.
A MiCA regula o que um fundador diz numa entrevista?
Indiretamente, sim. A MiCA não regula o jornalismo, mas o seu Título VI sobre abuso de mercado, em vigor pleno desde 28 de julho de 2026, proíbe a divulgação ilícita de informação privilegiada e a manipulação de mercado em criptoativos. Uma afirmação feita numa entrevista pode cair nessas proibições, qualquer que seja o palco.
Quem supervisiona estas regras em Portugal?
A Lei n.º 69/2025 atribui ao Banco de Portugal a autorização e a supervisão prudencial dos prestadores de serviços, e à CMVM a supervisão da conduta, das ofertas públicas de criptoativos e do abuso de mercado. É a CMVM que olha para a comunicação de um projeto ao mercado português.
O que muda com as regras da ESMA para finfluencers?
A ficha informativa da ESMA de janeiro de 2026 deixa claro que quem promove produtos financeiros é responsável pelo conteúdo, que a promoção paga tem de ser identificada e que rótulos como «não é aconselhamento financeiro» não eliminam a responsabilidade legal. Uma entrevista paga e elogiosa a um fundador passa a ser comunicação comercial sujeita a estas regras.
Como posso saber se uma entrevista a um fundador é de confiança?
Comece pelo palco: veja quem controla as perguntas, quem faz a edição e quem paga. Desconfie de métricas sem fonte, verifique se há promoção identificada e procure sempre o documento por trás de cada número. Uma afirmação sensível ao preço feita num palco informal merece mais ceticismo, não menos.
Por Marcus Okafor, HOGE Wire, Cultura e Long-reads.