Funding dos perpétuos: o mapa do risco, de Bitcoin ao petróleo
O funding não é um número único: muda de Bitcoin para altcoins, memecoins, ações tokenizadas e até petróleo. Este é o mapa de onde a alavancagem é barata, cara ou uma armadilha.
Funding: o preço do risco, não um número único
Quem olha para a taxa de funding dos perpétuos costuma ver um só valor no topo do ecrã da corretora: mais 10% aqui, menos 3% ali, anualizado. É uma leitura cómoda e enganadora. O funding de um contrato perpétuo sobre Bitcoin e o funding de um perpétuo sobre um memecoin obscuro, ou sobre uma ação tokenizada, ou sobre petróleo, obedecem à mesma fórmula mas vivem em mundos de risco completamente diferentes. Tratá-los como a mesma coisa é o erro silencioso que custa dinheiro a muito trader de retalho.
Recapitulemos o essencial em três frases, para quem chega agora. Um perpétuo é um futuro sem data de vencimento; para o manter colado ao preço à vista, as corretoras obrigam os dois lados a trocar um pagamento periódico, o funding, normalmente de oito em oito horas. Quando o perpétuo negoceia acima do índice à vista (excesso de compradores alavancados), o funding é positivo e os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo, inverte-se, e são os shorts a pagar aos longs (Deribit).
A tese deste artigo é simples: o funding não é um número, é uma curva de risco. À medida que nos afastamos do núcleo (Bitcoin e Ethereum) para a periferia (altcoins, memecoins, ativos do mundo real tokenizados, matérias-primas), o funding fica mais alto, mais volátil, mais unilateral e, sobretudo, mais perigoso. Ler o funding corretamente é saber em que ponto da curva se está. O resto deste texto percorre essa curva, do centro civilizado até à borda onde o mesmo mecanismo que mantém o Bitcoin ancorado produz números que parecem absurdos.
Como o funding é calculado (e porque cada bolsa o faz à sua maneira)
A fórmula base é quase universal: funding igual ao índice de prémio mais o ajuste de uma taxa de juro de referência, tudo limitado por um intervalo máximo, o chamado clamp. O índice de prémio mede quão acima ou abaixo do índice à vista o perpétuo está a negociar; a componente de juro reflete o custo de financiamento da moeda de margem. A diferença está nos detalhes, e são esses detalhes que mudam o risco.
Na Binance e na Bybit, o período é de oito horas, a taxa de juro fixa ronda os 0,01% por período e o clamp aperta em torno de mais ou menos 0,05%. A Deribit não usa uma componente de juro separada, expressa o funding de forma contínua e trava-o num limite muito mais largo (Deribit). A Hyperliquid cobra funding de hora a hora, amostra o prémio a cada poucos segundos e, crucialmente, usa o preço do oráculo (não o preço de marcação da própria plataforma) para calcular o nocional, uma escolha de desenho com consequências diretas quando o livro fica fino (documentação da Hyperliquid). A dYdX deixa a governação do protocolo votar os parâmetros. Os valores concretos estão na documentação técnica de cada plataforma, mas o quadro abaixo resume o essencial.
| Bolsa | Periodicidade | Componente de juro | Limite (clamp / cap) | Preço no nocional |
|---|---|---|---|---|
| Binance / Bybit | 8 horas | ~0,01% por período (fixa) | cerca de mais ou menos 0,05% | preço de marcação |
| OKX | 8 horas (passa a horária se atingir o limite) | sim, média móvel ponderada | dinâmico | preço de marcação |
| Deribit | contínuo (expresso por 8h) | nenhuma componente separada | mais ou menos 0,5% BTC / 1% ETH | índice mais prémio |
| Hyperliquid | horária | 0,01% por 8h (cerca de 11,6% ao ano) | 4% por hora (extremo) | preço do oráculo |
| dYdX v4 | horária | via governação (cerca de 0,125 pb/hora) | ligado à margem (cerca de 12%/8h BTC) | preço do oráculo |
Porque é que isto importa para o risco? Porque o mesmo evento de mercado produz funding muito diferente consoante a bolsa. Um limite apertado protege o trader de picos absurdos mas atrasa a correção do desvio; um limite largo deixa o funding disparar em minutos. Usar o preço do oráculo em vez do preço interno dificulta a manipulação do funding, mas transfere o risco para a qualidade desse oráculo. Não há desenho perfeito, há compromissos, e cada compromisso define onde o risco se acumula.
Vale a pena fazer a conta uma vez. Um funding de 0,01% por período de oito horas parece minúsculo, mas repete-se três vezes por dia: 0,01% vezes três, vezes 365, dá cerca de 11% ao ano. É assim que um número aparentemente insignificante no ecrã se traduz num custo anual de dois dígitos para quem mantém a posição aberta, e é por isso que anualizar é o primeiro passo para comparar o funding com qualquer outra taxa.
Bitcoin e Ethereum: o funding domesticado
No núcleo do mercado, o funding comporta-se bem. Bitcoin e Ethereum têm os livros mais profundos, a arbitragem mais abundante e a maior densidade de mesas que ganham a vida a colar o perpétuo ao índice. Quando o prémio alarga, entra capital a vender perpétuo e a comprar à vista (ou o inverso), e o desvio fecha. O resultado é um funding que oscila em torno de zero, raramente muito acima de um dígito anualizado em regime normal, e que reverte à média.
Arthur Hayes, cofundador da BitMEX, que lançou o perpétuo moderno em 2016, descreveu a intuição original de forma crua: se o perpétuo tivesse negociado com um prémio médio de 1% sobre o preço à vista nas últimas oito horas, então os longs pagariam 1% aos shorts (BitMEX). É um termóstato, e no Bitcoin o termóstato funciona.
Isso não quer dizer que seja plano. No início de outubro de 2026, a taxa de funding agregada sobre Bitcoin subiu de cerca de 3% para perto de 10% anualizados, à medida que o preço empurrava para um máximo de nove meses perto dos 86.500 dólares (à volta de 75.000 euros), com o open interest dos futuros a passar de 626.000 para 653.000 BTC (CoinDesk). Foi leitura de alavancagem a reconstruir-se, não de euforia: 10% anualizados sobre Bitcoin é «morno», não sobrecarga, e o preço continuava cerca de 32% abaixo do pico histórico do outono de 2025. Para acompanhar este núcleo há índices dedicados, como o CF Bitcoin Kraken Perpetual Funding Rate Index, que converte o funding do perpétuo de Bitcoin da Kraken num valor anualizado comparável. Em termos práticos, o funding do Bitcoin é a cara perpétua da mesma base que se mede nos futuros com vencimento, um tema que tratámos em detalhe na análise sobre o que faria voltar a base dos futuros.
On-chain corre mais quente: Hyperliquid contra as bolsas centralizadas
Mesmo dentro do Bitcoin, o funding não é igual em todo o lado. A fronteira mais nítida de 2026 separa as bolsas centralizadas das plataformas on-chain, e a Hyperliquid é o caso central. O mesmo ativo, a mesma fórmula, mas um preço do risco diferente consoante onde se negoceia.
O relatório de derivados do segundo trimestre de 2026 da BitMEX, assinado pelo analista sénior Shang Wu, estima que o funding anualizado de Bitcoin na Hyperliquid corre perto de 14,6%, contra cerca de 7,4% na Binance, quase o dobro; o prémio é de mais 7,17 pontos percentuais no Bitcoin e mais 5,31 no Ethereum, e mantém-se unilateral em 95% dos dias no BTC e 89% no ETH (BitMEX). A explicação de Wu é direta: «Hyperliquid’s traders skew retail, on-chain and long-biased, degen traders that are happy to pay up for leverage, which pushes its funding higher» (os traders da Hyperliquid tendem a ser de retalho, on-chain e estruturalmente comprados, o que empurra o funding para cima).
A leitura não é consensual, e essa é a parte interessante. Uma análise da Coin Metrics, assinada por Cooper Duschang, chega quase ao contrário: numa média móvel de seis meses, o funding de Bitcoin na Hyperliquid foi o segundo mais baixo de três plataformas comparadas (Hyperliquid, Binance, Deribit), embora 1,95 vezes mais volátil do que o da Binance e 3,32 vezes mais do que o da Deribit. «While more volatile, over the last six months, Hyperliquid-BTC has the second lowest funding rate for long traders», escreveu Duschang (Coin Metrics). Medem janelas e métodos diferentes; a conclusão prática é a mesma, o funding on-chain mexe-se mais depressa e com mais força.
| Plataforma | Leitura BitMEX (funding BTC anualizado) | Leitura Coin Metrics (seis meses) |
|---|---|---|
| Binance | cerca de 7,4% (referência) | base de comparação de volatilidade |
| Hyperliquid | cerca de 14,6% (quase o dobro) | 2.º mais baixo, mas 1,95x mais volátil que a Binance |
| Deribit | a mais estável do trio | a menos volátil (Hyperliquid 3,32x acima) |
Porque é que o on-chain corre mais quente, ou pelo menos mais nervoso? Porque a arbitragem institucional que suaviza o funding nas bolsas centralizadas esbarra em atrito on-chain: custódia própria, exigências de conformidade e, sobretudo, o risco de mover capital entre cadeias. Quando a arbitragem tem fricção para entrar, o desvio dura mais tempo e o funding fica mais caro. Esse atrito das pontes entre cadeias, que decide quem consegue mesmo arbitrar, é um tema por si só, como explicámos na guerra das bridges.
Há ainda uma camada que passa despercebida: o tipo de contrato. Um perpétuo inverso, margeado na própria cripto (como o histórico XBTUSD da BitMEX), e um perpétuo linear, margeado em stablecoin (XBTUSDT), não cobram o mesmo funding para o mesmo Bitcoin. O mesmo relatório da BitMEX nota que o diferencial médio entre os dois rondou os menos 3,93% e foi negativo em 94% das janelas de 90 dias (BitMEX), um lembrete de que até a moeda de margem molda o preço do risco.
Altcoins: funding mais alto, mais unilateral, menos arbitragem
Um passo para fora do núcleo e o terreno muda. Nas altcoins de média e pequena capitalização, os livros são mais finos, a profundidade à vista é menor e, sobretudo, há muito menos capital de arbitragem disposto a tomar o outro lado. O resultado é um funding que sobe mais, fica positivo (ou negativo) durante mais tempo e reverte à média com menos fiabilidade.
Há fundamento académico para isto. O Working Paper 1087 do Bank for International Settlements, «Crypto carry», de Maik Schmeling, Andreas Schrimpf e Karamfil Todorov, mostra que o carry das criptomoedas pode exceder os 40% ao ano (com picos perto dos 60%), impulsionado por dois fatores: pequenos investidores que perseguem tendência à procura de exposição alavancada, e capital de arbitragem limitado por fricções regulatórias e de margem (BIS). Os autores vão mais longe e avisam que «a high crypto carry predicts future price crashes», ou seja, um carry elevado antecipa quedas de preço. Por outras palavras, nas altcoins o funding alto não é só caro, é um sinal de fragilidade.
A mecânica reforça o problema. Numa altcoin, a mesma ordem move mais o preço, portanto o prémio do perpétuo abre mais e o funding dispara; mas como o livro é fino, uma reversão também é mais violenta. O trader que paga 50% ou 100% anualizados de funding por uma posição alavancada numa altcoin está a alugar risco a um preço que raramente compensa, e fá-lo precisamente no canto do mercado onde a porta de saída é mais estreita.
Memecoins: quando o funding e o ADL viram arma
Mais um passo para a periferia e o funding deixa de ser um termóstato para passar a ser uma arma. Nos memecoins, os livros são tão finos que o próprio mecanismo dos perpétuos pode ser usado para caçar posições, e o pagamento periódico é a menor das preocupações.
O caso mais claro de 2026 aconteceu a 9 de abril na Hyperliquid, com o memecoin FARTCOIN. Segundo a CoinDesk, duas carteiras construíram uma posição longa de 145,24 milhões de tokens através de ordens TWAP, a cerca de 0,248 e 0,205 dólares por token, empurrando o preço de aproximadamente 0,16 para 0,25 dólares. Depois o preço colapsou 50% numa única vela horária, de 0,2519 para 0,1244 dólares, e o autor da jogada perdeu cerca de 3 milhões de dólares (CoinDesk).
A parte reveladora foi o que aconteceu do outro lado. O colapso disparou o mecanismo de auto-deleveraging (ADL) da Hyperliquid: duas carteiras curtas foram fechadas à força e embolsaram, juntas, cerca de 849 mil dólares de lucro, sem pagar comissões (CoinDesk). O ADL é o mecanismo de último recurso que fecha posições rentáveis no lado oposto quando o fundo de seguro não chega para cobrir as perdas de uma liquidação; num memecoin, pode ser acionado numa questão de minutos.
A lição para a curva de risco é clara: num memecoin, não é só o funding que é extremo, é todo o encanamento. O desenho que usa o preço do oráculo para o nocional, útil contra manipulação direta do funding, não impede que um livro fino seja empurrado; e quando o livro cede, o ADL transfere risco de forma abrupta e silenciosa, muitas vezes para quem estava simplesmente a cobrir a posição certa no momento errado.
A nova fronteira: perpétuos de ações tokenizadas e RWA
Em 2026 o funding colonizou um território que não era seu: ativos do mundo real. A porta de entrada foi a HIP-3 da Hyperliquid, o sistema que permite a qualquer construtor lançar o seu próprio mercado de perpétuos desde que bloqueie 500 mil tokens HYPE como garantia (cerca de 25 milhões de dólares), fique responsável pelo oráculo e pela margem e, em troca, fique com 50% fixos das comissões do mercado que criou. Estes mercados não são cobertos pelo cofre de liquidez nativo da Hyperliquid, portanto o risco recai inteiramente sobre o construtor (CoinGecko).
O efeito foi uma explosão de perpétuos sobre ações. A Trade.xyz tornou-se líder em ações e matérias-primas tokenizadas, com mais de 90% do open interest da HIP-3, lançando perpétuos sobre Tesla, Apple e Nvidia e até um índice sintético da Nasdaq; o open interest da HIP-3 chegou a 1,43 mil milhões de dólares em março de 2026 (CoinGecko).
Aqui o funding herda as distorções do subjacente. Uma ação paga dividendos, negoceia em horário de bolsa e fecha ao fim de semana; um perpétuo 24 horas por dia sobre essa ação tem de embutir tudo isso no funding, que passa a refletir não só a alavancagem mas também o custo de carregar um ativo que, no mundo real, só negoceia parte do tempo. Há ainda o caso dos perpétuos pré-IPO, contratos sobre a avaliação implícita de empresas privadas. Como resumiu Tanay Ved, da Coin Metrics, «Pre-IPO perpetual futures are synthetic derivative contracts designed to create a continuous market for the implied valuation or share price of a private company» (Coin Metrics). O funding é a cola que mantém esse mercado contínuo vivo, e reflete muito mais do que o entusiasmo dos traders.
Matérias-primas: o petróleo e o funding de -531%
O ponto mais extremo da curva talvez nem sequer seja cripto. A BitMEX lista perpétuos sobre matérias-primas, e o seu relatório do segundo trimestre de 2026 documenta um episódio que ilustra até onde o funding pode ir: o funding do perpétuo de petróleo WTI tocou perto de -531% anualizados durante a rolagem do índice em abril de 2026, uma distorção mecânica provocada pela backwardation do petróleo, sem qualquer relação com o sentimento dos traders (BitMEX). No mesmo relatório, o volume do perpétuo de petróleo ultrapassou os 6 mil milhões de dólares por semana durante o pico de tensão entre os Estados Unidos e o Irão no final de fevereiro de 2026.
Um funding de -531% não significa que o mercado estivesse ultra-pessimista; significa que a estrutura a prazo do petróleo (os contratos próximos mais caros do que os distantes) se traduziu, via mecanismo de funding, num número que parece absurdo. É o exemplo perfeito de porque é que o funding tem de ser lido com o ativo à frente dos olhos: o mesmo mecanismo que produz 10% civilizados no Bitcoin produz centenas de pontos percentuais negativos no petróleo, e nenhum dos dois quer dizer o que um leitor desprevenido pensaria.
Do outro lado da curva: Ethena e os colhedores de funding
Se há sempre alguém a pagar funding, há sempre alguém a recebê-lo. Do lado dos colhedores estão as mesas de arbitragem, os criadores de mercado e, de forma industrializada, a Ethena. O seu dólar sintético USDe é, no fundo, uma posição delta-neutra: compra o ativo à vista e vende o perpétuo em igual nocional, transformando o funding positivo num rendimento distribuído aos detentores. É a maior máquina de captura de funding do mercado, com uma oferta na casa dos milhares de milhões de dólares. O funding é, afinal, um jogo de soma zero: cada euro que um colhedor recebe é um euro que um long alavancado paga.
O problema é que estar estruturalmente do lado curto da curva de funding só funciona enquanto o funding é positivo. Quando o carry caiu abaixo da taxa sem risco em 2026, até a maior casa de carry rodou parte do colateral para ativos do mundo real e reservas em dólares, reduzindo a dependência da perna de perpétuos. O rendimento do sUSDe, outrora muito generoso, comprimiu-se para um único dígito à medida que o funding arrefeceu. Quando o funding é positivo e estável, a máquina ronrona; quando vira negativo, é o colhedor que passa a pagar, e uma estratégia vendida de volatilidade transforma-se numa posição que sangra até o regime mudar. Para quem recebe um recibo de rendimento, convém perceber de onde vem esse rendimento e o que acontece quando a fonte seca, uma questão que explorámos a propósito de de quem é o recibo do teu ETH. Nos extremos da curva, o colhedor que parecia estar a ganhar dinheiro de graça descobre que estava, afinal, a vender seguro contra uma reversão que um dia chega.
O que a curva de risco diz a quem investe
Juntando tudo, o funding desenha um mapa. O quadro seguinte resume a curva de risco, da classe de ativo mais domesticada à mais selvagem.
| Classe de ativo | Comportamento típico do funding | Risco dominante | O que vigiar |
|---|---|---|---|
| Bitcoin / Ethereum | baixo, reverte à média, um dígito anualizado em regime normal | sobreaquecimento gradual da alavancagem | picos persistentes acima de 0,03% por 8h |
| Altcoins | mais alto, mais unilateral, reversão pouco fiável | arbitragem escassa; carry alto antecede quedas | funding de dois dígitos a prazo e livro fino |
| Memecoins | extremo e manipulável | manipulação e auto-deleveraging (ADL) | profundidade do livro e risco de ADL |
| Ações tokenizadas / RWA (HIP-3) | distorcido por dividendos e horário de bolsa | risco do construtor (sem cofre nativo) | quem é o construtor e o oráculo |
| Matérias-primas (ex.: petróleo) | distorções mecânicas enormes (backwardation) | estrutura a prazo, não sentimento | datas de rolagem do índice |
A leitura prática: no núcleo, o funding diz-lhe sobretudo quão cheio está o barco; na periferia, diz-lhe se há barco sequer. Quanto mais fundo na curva, menos o funding é um sinal de sentimento e mais é um sinal de estrutura, de desenho e de fragilidade. Um funding de 10% sobre Bitcoin é informação; o mesmo 10% sobre um memecoin obscuro é um convite.
Na prática, há três eixos a ler ao mesmo tempo. O primeiro é o ativo: onde estamos na curva de risco. O segundo é a plataforma: a mesma posição custa funding diferente numa bolsa centralizada ou on-chain. O terceiro é o macro: a taxa sem risco que concorre com o funding. Dez por cento sobre Bitcoin numa bolsa profunda, com a taxa de referência perto de 4%, conta uma história; os mesmos dez por cento sobre um memecoin numa plataforma fina, no mesmo ambiente macro, contam outra completamente diferente.
Funding contra a taxa sem risco: o pano de fundo de outubro
Há um segundo eixo que corta toda a curva: o custo de oportunidade. Os perpétuos de cripto são maioritariamente margeados em dólares, por isso a taxa sem risco em dólares é a concorrente natural do funding. A Reserva Federal voltou a subir a sua taxa diretora para perto de 4% em setembro de 2026, a primeira subida em vários anos, e o mercado entra na reunião de 27 e 28 de outubro a descontar sobretudo uma pausa. O calendário de decisões que o mercado já negoceia está resumido na nossa contagem regulatória.
Isto reaperta a matemática. Se um colhedor de funding ganha 10% anualizados a vender perpétuo mas pode ganhar cerca de 4% sem risco em dívida pública, o prémio real encolheu para 6%; se ganha 50% num memecoin, mas com risco de ADL e de reversão violenta, a conta é bem outra. Quanto mais sobe a taxa sem risco, mais caro fica carregar alavancagem e menos atrativo fica o fundo da curva de risco. O pano de fundo macro, com a inflação a reacender e dezembro a reapertar, pesa sobre todo o espectro, como discutimos nos alvos de preço para 2026.
Portugal e a UE: como a lei trata estes perpétuos
Para um investidor em Portugal, há uma distinção jurídica que muda tudo. Um perpétuo é, em termos europeus, um contrato por diferenças (CFD), e portanto um instrumento financeiro sob a diretiva DMIF II (MiFID II), não um criptoativo à vista sob o regulamento MiCA. Quem supervisiona não é o regime cripto, é a CMVM enquanto autoridade de conduta de mercado.
A ESMA foi explícita numa declaração de 24 de fevereiro de 2026: um perpétuo é um CFD independentemente do nome comercial, e o próprio mecanismo de funding, tal como salvaguardas voluntárias como os fundos de seguro, não altera essa classificação (ESMA). Isso significa, para o investidor de retalho, limite de alavancagem de 2:1 nos CFD sobre cripto, proteção contra saldo negativo, fecho automático por margem e aviso de risco obrigatório. Os números explicam a prudência: segundo dados citados pela própria CMVM e pela ESMA, entre 74% (Irlanda) e 89% (França) dos investidores não profissionais em CFD perdem dinheiro, com perdas médias entre 1.600 e 29.000 euros (Jornal Económico).
Os perpétuos de ações tokenizadas complicam ainda mais o quadro: além de serem CFD alavancados, o subjacente é um valor mobiliário, portanto acumulam uma segunda camada de supervisão de mercados. E as plataformas on-chain sem KYC e não custodiais ficam, por desenho, fora do perímetro autorizado; o investidor português que as usa não tem recurso. O período transitório do MiCA em Portugal terminou a 1 de julho de 2026, ao abrigo da Lei n.º 69/2025, com a supervisão repartida entre o Banco de Portugal (prudencial e stablecoins) e a CMVM (conduta de mercado).
Como ler o funding sem se queimar
Posto o mapa, ficam cinco hábitos práticos que valem para qualquer ponto da curva.
- Pergunte primeiro «que ativo é este?». O mesmo valor de funding diz coisas diferentes no Bitcoin, numa altcoin ou num memecoin.
- Olhe para o período e o limite da bolsa, não só para o valor. Um funding de 0,01% por hora não é o mesmo que 0,01% por oito horas.
- Anualize para comparar. 0,01% por 8 horas equivale a cerca de 11% ao ano; é assim que se compara com os cerca de 4% da taxa sem risco.
- Desconfie de funding de dois dígitos persistente fora do núcleo. Carry alto antecede quedas, sobretudo onde a arbitragem é escassa.
- Verifique o encanamento: profundidade do livro, risco de ADL, quem controla o oráculo e, no caso da HIP-3, quem é o construtor por detrás do mercado.
O funding é uma das métricas mais honestas do mercado de cripto, porque é um pagamento real entre participantes reais, não uma opinião. Mas é honesto ponto a ponto, não em média. O erro é ler um único número; a competência é ler a curva inteira.
Perguntas frequentes
O que é a taxa de funding de um perpétuo?
É um pagamento periódico (normalmente de oito em oito horas) trocado entre os detentores de posições longas e curtas de um contrato perpétuo, para manter o seu preço colado ao preço à vista. Quando o perpétuo negoceia acima do índice, os longs pagam aos shorts; quando negoceia abaixo, os shorts pagam aos longs.
Porque é que o funding é diferente em cada criptomoeda?
Porque depende da profundidade do livro e da quantidade de capital de arbitragem disposto a tomar o outro lado. No Bitcoin, com livros profundos e muita arbitragem, o funding mantém-se baixo e reverte à média; nas altcoins e nos memecoins, com livros finos e pouca arbitragem, sobe mais, fica unilateral durante mais tempo e torna-se um sinal de fragilidade.
O funding alto é sempre mau sinal?
Não necessariamente, mas depende de onde está na curva de risco. No Bitcoin, um funding na casa dos 10% anualizados costuma indicar apenas alavancagem a reconstruir-se. Fora do núcleo, um funding persistente de dois dígitos costuma anteceder correções, porque reflete posicionamento unilateral que a arbitragem não consegue corrigir.
O que é o auto-deleveraging (ADL) e porque é que importa nos memecoins?
O ADL é o mecanismo de último recurso de uma bolsa que fecha à força posições rentáveis do lado oposto quando o fundo de seguro não chega para cobrir as perdas de uma liquidação. Nos memecoins, com livros muito finos, pode ser acionado em minutos e transferir risco de forma abrupta, como aconteceu no caso FARTCOIN de abril de 2026.
Como são tratados os perpétuos de cripto em Portugal?
Como contratos por diferenças (CFD), ou seja, instrumentos financeiros sob a DMIF II supervisionados pela CMVM, e não como criptoativos à vista sob o MiCA. Para o retalho aplicam-se o limite de alavancagem de 2:1, a proteção contra saldo negativo e o aviso de risco; as plataformas sem KYC e não custodiais ficam fora do perímetro autorizado, sem recurso para o investidor.
Liam Brennan escreve sobre mercados e derivados de criptoativos para a HOGE Wire.