Oferta de ETH trancada: o cadeado aguenta um bug de cliente?
A oferta de ETH está trancada em staking, mas o cadeado depende de software e operadores concentrados. Um bug da Prysm já passou a 9% de uma perda de finalidade.
A oferta já está trancada. Falta saber se o cadeado aguenta.
Durante dois meses, a HOGE Wire contou esta história pelo lado da quantidade: quanta oferta de ETH está trancada, quem a tranca e o que sobra para vender. Em outubro de 2026, essa pergunta está praticamente resolvida. Cerca de 36% de todo o ETH vive em staking, as reservas em corretoras caíram para mínimos de vários anos e a política monetária do Ethereum ficou congelada depois de a proposta de corte de emissão EIP-8363 ter sido retirada da atualização Hegotá a 1 de outubro. A escassez deixou de ser um debate: é um facto de mercado.
Falta uma pergunta que nenhuma dessas peças fez: o cadeado que tranca a oferta é de confiança? As cerca de 43,8 milhões de ETH que sustentam a tese de escassez não estão guardadas num cofre. Estão espalhadas por software, máquinas e operadores, e a solidez do cadeado depende da qualidade de engenharia dessa camada. Em dezembro de 2025, pouco depois da atualização Fusaka, o Ethereum teve um ensaio a sério: um bug no cliente Prysm fez a participação dos validadores cair para 74,7%, e a rede chegou a 9 pontos percentuais de perder a finalidade. Falhou o cliente minoritário. Se tivesse falhado o maioritário, a conversa seria outra.
Este artigo faz um exame ao cadeado. A conclusão curta: a escassez do ETH é real, mas assenta numa infraestrutura de staking com três fissuras estruturais, a monocultura de clientes, o aperto ao staker solo e a consolidação de validadores, que a tornam mais frágil à medida que fica maior. Para quem investe na tese de que «a oferta só pode encolher», o risco relevante em 2026 já não é a emissão; é o cadeado partir.
O retrato da oferta de ETH em outubro de 2026
Antes do exame, o retrato. O ETH transaciona perto dos 2.146 EUR (cerca de 2.405 USD), com uma capitalização a rondar os 262 mil milhões de EUR. A oferta total está nos 122,1 milhões de ETH, segundo o ultrasound.money, e a emissão líquida mantém-se praticamente em zero na janela de sete dias, com uma tendência ligeiramente inflacionista desde a Dencun. O número que importa para esta análise é outro: a fatia em staking.
| Indicador | Valor (outubro de 2026) | Fonte |
|---|---|---|
| Preço do ETH | ~2.146 EUR (~2.405 USD) | CoinGecko |
| Capitalização | ~262 mil milhões EUR | CoinGecko |
| Oferta total | ~122,1 milhões de ETH | ultrasound.money |
| Em staking | ~43,8 milhões de ETH (~36%) | Gokhshtein / CoinCentral |
| Rendimento de staking | ~2,63% brutos (mínimo de três anos) | CoinCentral |
| Validadores ativos | ~868 mil (de ~1,1 milhão no pico de 2025) | CoinCentral |
| Reservas em corretoras | ~14,7 milhões de ETH (mínimo plurianual) | CryptoQuant |
| Emissão líquida | ~0% / levemente positiva | ultrasound.money |
Lido tudo, a leitura é a de sempre em 2026: a oferta disponível para venda está a secar. O que muda neste artigo é o foco. Em vez de medir o tamanho do cadeado, vamos testar a sua resistência.
O cadeado em números: 36% da oferta vive em staking
Para perceber o risco, há que perceber o que é o cadeado. Quando alguém faz staking de ETH, deposita no mínimo 32 ETH num contrato e passa a operar (ou a delegar) um validador que ajuda a propor e a confirmar blocos. Em troca recebe rendimento; em contrapartida, o ETH fica imobilizado e só regressa ao mercado através de uma fila de saída. É esse imobilizado, cerca de 43,8 milhões de ETH, 36% da oferta, que serve de alicerce à tese de escassez. Ao preço atual, são perto de 94 mil milhões de EUR fora de circulação só nesta camada.
Do outro lado, o que sobra para vender encolheu. As reservas de ETH em corretoras caíram para cerca de 14,7 milhões de ETH, um mínimo de vários anos, contra 21,1 milhões em julho de 2025, uma quebra de mais de 30% em pouco mais de um ano. A combinação é a essência do argumento de 2026: muito trancado, pouco à venda.
Mas o cadeado tem duas chaves, não uma. A primeira é económica: enquanto o rendimento compensar, quem faz staking não sai. A segunda é técnica: o staking só tranca a oferta de forma fiável se a camada que o sustenta não falhar em bloco. É a segunda chave que quase ninguém olha, e é onde estão as fissuras. A fila de saída dá uma pista de quão apertado está o sistema: a 5 de outubro havia cerca de 786 mil ETH à espera de sair (perto de 14 dias), depois de um pico de 851 mil a 2 de outubro, desencadeado por um incidente de segurança na MetaMask, segundo a CoinCentral. Quando o nervosismo aperta, a saída não é instantânea; é uma bicha.
Primeira fissura: a monocultura de clientes
O Ethereum não corre num único programa. Cada validador usa dois tipos de software independentes: um cliente de execução (que processa transações) e um cliente de consenso (que trata da prova de participação). Existem vários de cada, precisamente para que um erro num deles não derrube a rede inteira. A regra de ouro da comunidade é simples: nenhum cliente deve ultrapassar um terço (33%) da quota. Acima disso, começa o perigo.
A realidade de outubro de 2026 viola a regra nas duas camadas. Segundo o clientdiversity.org, o Lighthouse domina o consenso com cerca de 50,7% e o Geth domina a execução com cerca de 50,1%. Dois programas, cada um responsável por metade da rede na sua camada.
| Cliente | Camada | Quota aproximada |
|---|---|---|
| Lighthouse | Consenso | 50,7% |
| Prysm | Consenso | 18,0% |
| Nimbus | Consenso | 14,7% |
| Teku | Consenso | 6,7% |
| Geth | Execução | 50,1% |
| Nethermind | Execução | 25,5% |
| Besu | Execução | 9,5% |
| Reth | Execução | 7,7% |
Porque é que 33% e 66% são os números críticos? Porque definem o que acontece quando um cliente tem um bug e se desvia para a sua própria versão da cadeia. Se o cliente defeituoso controlar mais de 33%, a rede não consegue finalizar (fica a produzir blocos sem os tornar economicamente irreversíveis). Se controlar mais de 66%, pode finalizar a sua cadeia errada, e os validadores que a seguiram já não conseguem voltar à cadeia correta sem serem penalizados por slashing. O primeiro limiar é uma paragem; o segundo é uma perda de fundos.
Há uma nota positiva, e Vitalik Buterin fez questão de a sublinhar. «Nenhum cliente de execução tem mais de 2/3 da quota de mercado. Ótimas notícias para a robustez da L1 do Ethereum», escreveu o cofundador. É verdade e é importante: nenhuma camada tem um cliente acima dos 66%, logo o cenário catastrófico (a finalização de uma cadeia errada) está, por agora, afastado. O problema é que ambas as camadas têm um cliente acima dos 33%. O risco de paragem de finalidade continua bem vivo, e foi exatamente esse que a rede roçou em dezembro.
O ensaio real: o bug da Prysm a 9% do abismo
Pouco depois de a Fusaka entrar em produção, em dezembro de 2025, a versão 7.0.0 do cliente Prysm revelou um defeito: processava atestações antigas de forma ineficiente, gerando estados desnecessários e esgotando os recursos dos nós afetados. «Gerava estados antigos sem necessidade ao processar atestações desatualizadas», explicou Terence Tsao, programador principal da Prysm, citado pela Cointelegraph. No epoch 411.448, a participação de voto caiu para 74,7% e a sincronização para 75%. Traduzido: a rede ficou a 9 pontos percentuais de perder a supermaioria de dois terços de que precisa para finalizar.
Desta vez houve sorte na escolha do culpado. Quem falhou foi a Prysm, que à data valia cerca de 18% do consenso. A rede recuperou para 99% de participação por volta do epoch 411.712 e não chegou a parar. A frase que ficou foi do educador Anthony Sassano: «se tivesse sido o Lighthouse a ter o bug, a rede teria perdido a finalização». O Lighthouse valia (e vale) mais de metade do consenso. O mesmo defeito no cliente maioritário não seria um susto de meia hora; seria a paragem que a teoria descreve.
Não é hipótese de laboratório. Em maio de 2023, a Beacon Chain já tinha perdido a finalidade por duas vezes em dois dias, durante cerca de 25 minutos no primeiro episódio, quando a Prysm e a Teku esgotaram recursos a processar atestações com um checkpoint antigo, de acordo com o post-mortem da Offchain Labs. As correções chegaram em dias, mas a lição ficou: clientes falham, e quando o que falha é grande, falham todos ao mesmo tempo.
Que tem isto a ver com a oferta? Tudo. Se um bug num cliente maioritário fizer a cadeia perder finalidade e bifurcar, a resolução passa por mecanismos que penalizam quem ficou no lado errado: inactivity leak (que vai drenando o stake dos validadores inativos) e, no limite, slashing. Por outras palavras, o único evento capaz de destrancar à força a oferta trancada, e de destruir parte dela, é precisamente uma falha correlacionada de clientes. O botão de emergência que costuma decidir os post-mortem em cripto, aqui, não existe: não há travão central que pare a sangria enquanto se corrige o código. A escassez do ETH tem, por isso, um risco de cauda muito concreto, e ele mora na camada de clientes.
Segunda fissura: o staker solo está a ser espremido
A defesa clássica contra a monocultura é o staker solo: milhares de pessoas a correr validadores em casa, cada uma a escolher o seu software, diluem a concentração. O problema é que, em 2026, a economia virou-se contra eles. O rendimento de staking caiu para cerca de 2,63% brutos ao ano, um mínimo de três anos, face a 2,8% em janeiro. Para um validador solo são 2,6%; via protocolo de staking líquido ficam cerca de 2,3% depois da comissão; e através de um ETF, perto de 1,9%.
Faça-se a conta pela ótica de quem está em casa. As 32 ETH mínimas custam, ao preço atual, cerca de 69 mil EUR. A 2,63%, rendem pouco mais de 1.800 EUR por ano, antes de eletricidade, hardware e do tempo de manutenção. Com as taxas sem risco em euros e, sobretudo, em dólares bem acima do rendimento do staking, o custo de oportunidade é evidente. O mesmo raciocínio vale para quem escolhe o caminho do ETF, onde a comissão não é o custo real: o rendimento de staking que o produto distribui já chega depois de uma mordedura que corrói boa parte dos 2,6% brutos.
O resultado aparece nos dados do inquérito de 2026 do EthStaker. A fatia de inquiridos que vê o staking solo como favorável para o protocolo caiu de 48% em 2024 para 38%, e só 22% o consideram favorável para si próprios. Os comentários são crus: «o rendimento do staking solo é pior do que o de uma conta bancária», escreveu um participante; outros falam de colegas «a sair e a vender o equipamento com prejuízo». A percentagem de quem tenciona ativamente aumentar a posição, sem planos de parar, caiu de 22% para 19%. Isto é recuo, não expansão.
A barreira das 32 ETH agrava tudo. Cerca de 25 comentários do inquérito pediram um mínimo mais baixo, entre 1 e 16 ETH, e muitos queixam-se de que montar um validador «ainda é demasiado complicado». Quando o staking caseiro fica caro e difícil, a oferta trancada não deixa de crescer; apenas muda de mãos, das casas para os grandes operadores.
O paradoxo: quem escolhe bem os clientes é quem está a sair
Aqui está a ironia que amarra as duas primeiras fissuras. Olhe-se para o software que os stakers solo dizem correr, no mesmo inquérito do EthStaker: na execução, o Nethermind ronda os 45%, o Geth os 33% e o Besu os 15%; no consenso, o Lighthouse fica nos 38%. É uma distribuição muito mais equilibrada do que a da rede como um todo. Quem faz staking em casa, por consciência, tende a fugir do cliente maioritário.
Ora, se os stakers solo correm clientes relativamente diversos, mas a rede inteira mostra Geth e Lighthouse acima dos 50%, a concentração tem de vir de outro lado: dos grandes operadores, corretoras e protocolos que, por comodidade e por historial de estabilidade, instalam o software dominante à escala de centenas de milhares de validadores. A monocultura não nasce nas casas; nasce nos armazéns.
A conclusão é desconfortável. As pessoas com maior probabilidade de escolher um cliente minoritário são precisamente as que a economia de 2026 está a expulsar. Cada staker solo que desliga a máquina devolve quota relativa aos grandes operadores, que correm o software maioritário. Dito de outra forma: espremer o staker solo não torna a oferta menos trancada, mas torna o cadeado mais frágil. E há atrito a prender ao Lighthouse quem fica, mesmo consciente do problema: mudar de cliente traz risco de slashing na migração, o software é fiável e, como resumiu um inquirido, «não era maioritário quando eu comecei».
Terceira fissura: a consolidação encolhe os validadores
A terceira fissura é mais recente e mais silenciosa. Desde a atualização Pectra, em maio de 2025, a norma EIP-7251 permite que cada validador acumule até 2.048 ETH de saldo efetivo, em vez das 32 ETH anteriores. O objetivo é legítimo: menos validadores a repetir a mesma mensagem reduz a carga de comunicação na camada de consenso. O efeito colateral é concentração.
Os números contam a história. O total de validadores ativos caiu para cerca de 868 mil em outubro, depois de um pico perto de 1,1 milhão em meados de 2025, e o saldo médio por validador subiu para cerca de 50 ETH. A Lido, sozinha, começou a 18 de setembro a fundir mais de 265 mil validadores em cerca de 4 mil, uma operação que deverá reduzir a contagem total da rede em cerca de um terço. Menos caixas, mais ETH dentro de cada uma.
É a mesma dinâmica que a HOGE Wire já tinha identificado noutro recanto do ecossistema, quando mostrou que a base do restaking encolheu e se concentrou em dois operadores. Consolidar é eficiente, mas cada ponto de falha passa a valer mais. Um erro de configuração, uma chave comprometida ou um bug num operador que gere 4 mil validadores gordos tem um impacto bem maior do que teria sobre 265 mil validadores magros. A oferta continua trancada; o cadeado é que tem cada vez menos dentes, e cada um deles aguenta mais peso.
DVT: o conserto que ainda cabe num dígito
Há uma solução de engenharia para as três fissuras ao mesmo tempo, e tem nome: Distributed Validator Technology, ou DVT. A ideia é partir a chave de um único validador por vários operadores, máquinas e até clientes diferentes, de modo que nenhum deles sozinho possa assinar (ou falhar) pela rede. Com DVT, um bug num cliente ou a queda de um operador deixam de derrubar o validador, porque os restantes nós do conjunto continuam a funcionar. É a resposta direta ao risco de falha correlacionada.
A tecnologia funciona; a adoção é que ainda é pequena. A Obol, uma das redes de validadores distribuídos, ultrapassou as 700 mil ETH, pouco menos de 2% de todo o ETH em staking. A própria Ethereum Foundation só colocou 72 mil ETH em validadores distribuídos (o chamado DVT-lite) em março de 2026. A SSV reporta um rasto maior, acima dos 4 milhões de ETH pela sua métrica, mas boa parte corresponde a infraestrutura usada por operadores únicos, e não a conjuntos verdadeiramente repartidos. O pano de fundo é claro no inquérito do EthStaker: 90% dos inquiridos corre um único nó, e só 7% usa uma configuração multi-nó.
Por outras palavras, o remédio existe, está testado e protege exatamente contra o cenário que assustou a rede em dezembro, mas cobre uma fatia de um só dígito do stake. Enquanto a esmagadora maioria dos validadores continuar a ser um único processo, numa única máquina, com um único cliente, a tese de escassez continua a assentar num cadeado que não está distribuído.
Glamsterdam mexe no MEV, não na monocultura
A pergunta óbvia é se a próxima atualização resolve alguma coisa. A Glamsterdam ativou na testnet Sepolia a 6 de outubro e está marcada para a Hoodi a 26 de outubro de 2026; a data de mainnet continua por fixar. Traz duas peças de fundo: a ePBS (separação forçada entre quem propõe e quem constrói blocos, na norma EIP-7732) e as listas de acesso ao nível do bloco (EIP-7928), além de um alvo de 200 milhões de unidades de gas.
A ePBS é boa notícia para outra forma de centralização: reduz a dependência dos relays externos de MEV-Boost, que hoje concentram a construção de blocos em meia dúzia de atores e levantam riscos de censura. É um progresso real na descentralização da produção de blocos. Mas não toca na monocultura de clientes. O validador continua a correr um Lighthouse ou um Geth; a ePBS muda quem monta o bloco, não o software que o valida.
Pior: o salto para 200 milhões de gas por bloco exige máquinas mais capazes, o que eleva ainda mais o patamar de entrada para o staker caseiro, a mesma figura que já está em retirada. Vitalik Buterin já sinalizou que a Hegotá, prevista para 2027, será a última grande atualização de rotina, antes de a rede virar o foco para provas criptográficas e resistência quântica. Por outras palavras, a janela para corrigir a diversidade de clientes por via de protocolo é estreita, e a Glamsterdam não é essa correção.
Quem controla o cadeado: operadores e custódia
Há ainda uma concentração de dono, a par da concentração de software. Os dados de 2026 da CoinCentral mostram a Lido com cerca de 21,2% de todo o ETH em staking, a BitMine com 11,5%, a Coinbase com 10,9% e a Binance com 7,9%; no conjunto, a fatia institucional subiu de 25,9% para 35,3% do stake ao longo do ano. A maior parte do ETH dos ETF e de muitas tesourarias é, além disso, guardada por um punhado de custodiantes, com a Coinbase à cabeça.
O detalhe que mais inquieta os stakers não é sequer a Lido, cuja quota é pública e auditável. É o desconhecido. «A Lido tem levado com muita crítica, mas pelo menos sabemos exatamente quem gere quanto», escreveu um inquirido do EthStaker; «para o resto do stake, só temos uma ideia muito vaga». Quando a decisão sobre uma fatia enorme da oferta trancada depende de quem controla chaves e votos, a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser de governação, o mesmo plano B para quando o voto encrava que já discutimos a propósito das DAO. Um cadeado só é tão fiável quanto o processo que decide quem lhe mexe.
ETH trancado por incentivo, BTC disperso por inércia
Vale a pena contrastar com o Bitcoin, porque a diferença não é de grau, é de natureza. A escassez do Bitcoin é programada: um limite rígido de 21 milhões, inscrito no protocolo, que não depende de ninguém continuar a fazer nada. A posse tende a dispersar-se por inércia, porque não há rendimento a puxar as moedas para dentro de grandes operadores.
A escassez do ETH é de outra espécie: resulta de um comportamento (fazer staking) que é preciso manter e remunerar, e esse comportamento tem economias de escala que puxam o stake para os grandes operadores e para o software maioritário. A oferta do ETH tranca-se por incentivo e concentra-se por incentivo. É uma escassez mais profunda em percentagem, mas também mais ativa e mais dependente de infraestrutura do que a do Bitcoin. Como já argumentámos no debate sobre liquidez contra escassez no stock-to-flow do Bitcoin, o número que aparece no gráfico esconde quase sempre uma mecânica, e no caso do ETH a mecânica é um cadeado de software que precisa de manutenção constante.
Portugal: o staker, a CMVM e um risco que o imposto não cobre
Para o investidor português há duas camadas de risco, e só uma tem regulador. A Lei n.º 69/2025 pôs a supervisão de criptoativos num modelo de dois pilares: a CMVM trata da conduta de mercado e dos prestadores de serviços (as CASP), e o Banco de Portugal cuida do registo e dos aspetos prudenciais, com a MiCA por cima, ao nível europeu, desde o fim do período transitório a 1 de julho de 2026. Mas a MiCA e a CMVM supervisionam quem presta o serviço, não o protocolo nem os validadores. O risco de cliente e de concentração descrito neste artigo é, por definição, um risco que nenhum regulador europeu fiscaliza.
No imposto, a mecânica é clara. A Autoridade Tributária equipara o staking a um depósito, pelo que as recompensas entram como rendimentos de capitais na categoria E e são tributadas a 28% no momento do recebimento, sem a isenção dos 365 dias. Para as mais-valias da venda do próprio ETH, vale a regra dos 365 dias: abaixo de um ano, 28% no Anexo G; acima de um ano, isenção no Anexo G1. As trocas cripto-cripto não são tributadas, e a DAC8 entrou em vigor em 2026, o que significa mais partilha automática de informação entre administrações fiscais.
Junte-se a isto o custo de oportunidade. Com a taxa de depósito do BCE a remunerar liquidez sem risco bem acima de 2%, um rendimento de staking de 2,6% brutos, já de si no mínimo de três anos, torna-se ainda menos apetecível depois de 28% de imposto. É mais uma razão, do lado português, para o staker caseiro desligar a máquina, e mais uma força a empurrar a oferta trancada para as mãos dos grandes operadores.
Três cenários para o cadeado até 2027
A escassez do ETH está estabelecida. O que está em aberto é a resistência do cadeado. Em vez de três cenários de preço, fazem mais sentido três cenários de solidez, porque é a solidez que, no limite, valida ou invalida a tese de oferta.
| Cenário | O que acontece ao cadeado | Efeito na tese de escassez |
|---|---|---|
| Base (aguenta) | Diversidade de clientes estável, sem incidente grave; a consolidação continua e o DVT cresce devagar | Escassez intacta, mas com um risco de cauda latente por resolver |
| Reforço (endurece) | O DVT passa para dois dígitos do stake, Lighthouse e Geth descem abaixo dos 33% e o mínimo de entrada baixa | Escassez robusta e credível; o risco de cauda recua |
| Fratura (parte) | Um bug num cliente maioritário ou a falha de um grande operador provoca perda de finalidade e slashing | Choque de confiança, destrancagem forçada de parte do float e reavaliação brusca |
Para acompanhar qual dos três ganha terreno, há cinco mostradores a vigiar ao longo de 2026 e 2027: (1) a quota do Lighthouse e do Geth, e se algum desce abaixo dos 33%; (2) a fatia do stake coberta por DVT, hoje num só dígito; (3) a contagem de validadores e o ritmo de saída dos stakers solo; (4) o rendimento de staking face às taxas sem risco, que define a pressão económica sobre quem tranca; e (5) qualquer incidente de finalidade ou de slashing, que é o gatilho do cenário de fratura.
A síntese é esta. Em 2026, o Ethereum ganhou o debate da escassez e, ao mesmo tempo, aumentou a sua dependência de uma camada de staking cada vez mais concentrada em dois clientes, em poucos operadores e em validadores cada vez maiores. O susto da Prysm em dezembro mostrou que o sistema aguenta um tropeção do cliente minoritário. A pergunta a que ninguém pode responder com confiança, e que decide se a oferta trancada é um alicerce ou uma armadilha, é o que acontece no dia em que tropeçar o maioritário. Até lá, a escassez do ETH é real, mas o cadeado está por testar a sério.
Perguntas frequentes
Que percentagem do ETH está em staking em 2026?
Em outubro de 2026, cerca de 36% da oferta total, perto de 43,8 milhões de ETH, está em staking, segundo os dados da rede. Em paralelo, as reservas em corretoras caíram para cerca de 14,7 milhões de ETH, um mínimo de vários anos, o que reduz a oferta disponível para venda.
O que é a diversidade de clientes no Ethereum e porque importa?
Os validadores do Ethereum correm dois tipos de software independentes, clientes de execução e clientes de consenso, e a regra de segurança diz que nenhum deve ultrapassar 33% da quota. Em 2026, o Lighthouse vale cerca de 50% do consenso e o Geth cerca de 50% da execução, ambos acima do limiar, pelo que um bug no cliente maioritário poderia impedir a rede de finalizar blocos.
Fazer staking de ETH pode dar prejuízo?
Pode. Além do custo de oportunidade de um rendimento de cerca de 2,6% brutos, no mínimo de três anos, existe o risco de slashing e de inactivity leak numa falha correlacionada de clientes, que penaliza os validadores do lado errado de uma bifurcação. Em dezembro de 2025, um bug na Prysm deixou a rede a 9 pontos percentuais de perder a finalidade.
O que é a DVT (Distributed Validator Technology)?
A DVT, ou Distributed Validator Technology, reparte a chave de um validador por vários operadores, máquinas e clientes, de modo que nenhum sozinho possa assinar ou derrubar o validador. É a defesa direta contra a falha correlacionada, mas a adoção ainda é pequena: a Obol ronda 2% do stake e a Ethereum Foundation só colocou 72 mil ETH em validadores distribuídos em 2026.
Como são tributadas as recompensas de staking em Portugal?
A Autoridade Tributária equipara o staking a um depósito, pelo que as recompensas são rendimentos de capitais da categoria E, tributados a 28% no momento do recebimento, sem a isenção dos 365 dias. As mais-valias da venda do próprio ETH seguem a regra dos 365 dias: 28% abaixo de um ano e isenção acima de um ano.
Priya Reddy escreve sobre a oferta, o staking e a estrutura de mercado do Ethereum para a HOGE Wire.