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● Predictions & Forecasts

Compressão de taxas nas L2: a previsão para 2026 e 2027

Depois do Fusaka e dos forks BPO, as taxas das L2 caíram para frações de cêntimo. Analisamos até onde pode ir a compressão e o que poderia inverter a tendência.

As taxas de transação nas redes Layer 2 (L2) do Ethereum deixaram de ser uma dor de cabeça para o utilizador comum. Em pouco mais de dois anos, o custo médio de uma operação nas três maiores L2, Arbitrum, Base e Optimism, caiu cerca de 99% e passou a medir-se em frações de cêntimo. Para o mercado de previsões, a pergunta já não é se as taxas descem, mas até onde podem descer e o que poderá travar ou inverter a tendência.

Depois da ativação do hard fork Fusaka, em dezembro de 2025, e de uma sequência de pequenos forks que multiplicaram o espaço de dados disponível, entrámos numa fase diferente. O preço dos dados deixou de ser o principal travão ao custo das L2; passaram a pesar mais a procura real, a economia dos sequencers e um novo piso técnico que impede as taxas de chegarem a zero. Esta análise traça a previsão da compressão de taxas para 2026 e 2027, com cenários e os sinais a vigiar.

Do Dencun ao Fusaka: como chegámos a taxas residuais

O ponto de viragem foi o EIP-4844, ativado no hard fork Dencun em março de 2024. Esta proposta introduziu as blob transactions, um espaço de dados temporário e barato onde as L2 publicam os seus lotes de transações sem competir diretamente pelo gas da camada base. O efeito foi imediato: os custos de publicação de dados caíram cerca de 10 vezes da noite para o dia.

Os números acumulados dão a dimensão da mudança. Segundo a CoinLaw, a taxa média das três L2 de maior volume caiu 99,16%, de cerca de 0,164 € no primeiro trimestre de 2024 para perto de 0,0014 € no primeiro trimestre de 2026 (valores convertidos a um câmbio aproximado de 1,10 dólares por euro). A maior parte da atividade do ecossistema Ethereum corre hoje fora da camada base.

O passo seguinte chegou com o Fusaka. A Ethereum Foundation confirmou a ativação na mainnet a 3 de dezembro de 2025, trazendo o PeerDAS, a tecnologia que permite aos nós verificarem a disponibilidade dos dados por amostragem em vez de descarregarem todos os blobs. É essa engenharia que torna seguro aumentar muito o número de blobs por bloco.

O mercado de blobs explicado sem jargão

Vale a pena perceber como se forma o preço. Cada transação numa L2 tem dois custos distintos: a execução dentro da própria L2, barata e controlada pelo sequencer, e a publicação dos dados na camada base do Ethereum, o componente que historicamente dominava a fatura. Os blobs criaram um mercado separado só para esses dados, com um mecanismo de preço dinâmico semelhante ao do EIP-1559.

Durante quase dois anos, esse mercado esteve subutilizado. Fora de picos pontuais, a blob base fee permaneceu colada ao mínimo simbólico de 1 wei, ou seja, praticamente grátis. Foi essa folga que permitiu às L2 transferir custos quase nulos para os utilizadores. O destino final desta arquitetura é o danksharding completo, em que o espaço de blobs escala de forma massiva e o custo unitário dos dados tende a colapsar.

BPO forks: a alavanca que multiplica o espaço de dados

A grande novidade de 2026 não é um único upgrade, mas uma série de ajustes chamados BPO (Blob Parameter Only) forks, formalizados no EIP-7892. A ideia é simples: alterar apenas os parâmetros dos blobs (o alvo e o máximo por bloco) sem mexer no resto do protocolo, o que permite escalar o espaço de dados de forma incremental e com menos risco.

O calendário foi agressivo. Segundo a CoinDesk, o BPO1, a 9 de dezembro de 2025, subiu o alvo e o máximo de blobs por bloco de 6 e 9 para 10 e 15; o BPO2, a 7 de janeiro de 2026, elevou-os para 14 e 21. Os programadores do núcleo já planeiam novos forks com a meta de 48 blobs por bloco a meio de 2026 e, no horizonte do danksharding completo, 128 blobs por slot.

Mais espaço de dados significa, em teoria, custos mais baixos por transação enquanto a procura não acompanhar a oferta. É aqui que a previsão se torna interessante, porque a oferta agora cresce aos saltos.

Quanto custa hoje uma transação nas principais L2

Os valores variam ao minuto, mas a ordem de grandeza é clara. A tabela seguinte resume o custo típico de operações comuns nas principais L2, com base em dados agregados do L2Fees (valores aproximados, convertidos para euros).

RedeTipo de rollupSwap típico (€)Transferência (€)Nota
Arbitrum OneOptimistic0,03 a 0,14menos de 0,01Timeboost para ordenação prioritária
BaseOptimistic (OP Stack)0,01 a 0,05menos de 0,01Maior receita de sequencer
OP MainnetOptimistic (OP Stack)0,02 a 0,09menos de 0,01Parte da Superchain
zkSync EraZK (validity)0,01 a 0,04menos de 0,01Custo de prova amortizado
StarknetZK (validity)0,01 a 0,05menos de 0,01Provas STARK

Para contexto, uma transferência simples que em 2021 podia custar vários euros na camada base do Ethereum corre hoje numa L2 por menos de um cêntimo. A compressão já aconteceu; o debate sério é sobre a sua sustentabilidade.

EIP-7918: o piso que impede a queda a zero

O Fusaka trouxe um detalhe técnico com consequências económicas reais. O EIP-7918 introduziu um piso para a blob base fee, ligando-a a uma fração da base fee de execução da camada base (na ordem de um quinze avos). Na prática, os blobs deixaram de poder ser quase grátis: o preço passou a refletir o custo real de recursos da rede.

O impacto foi visível. A blob base fee, que durante quase dois anos viveu colada ao mínimo de 1 wei, saltou várias ordens de magnitude assim que o mecanismo entrou em vigor. Em termos absolutos, para o utilizador, a diferença continua a medir-se em cêntimos, mas a lição estrutural é importante: existe agora um chão. Um piso também é saudável, porque protege a rede de abuso e de spam quando os blobs estão quase de graça. Para a previsão, a consequência é clara: a ideia de taxas a tender para zero deixou de ser realista, e o cenário central passa a ser de estabilização em frações muito pequenas de cêntimo.

Economia dos sequencers: quem aguenta a compressão

A compressão de taxas tem um lado menos divulgado: as L2 também ganham menos. O sequencer, a entidade que ordena e publica as transações, vive da diferença entre o que cobra aos utilizadores e o que paga à camada base. Quando as taxas comprimem, essa margem aperta, e nem todas as redes a conseguem absorver.

Os dados de 2026 mostram uma concentração clara. Segundo a CoinLaw, a Base gera uma receita diária média na ordem dos 168 000 €, contra cerca de 50 000 € da Arbitrum, com as priority fees a representarem a maior fatia. A Arbitrum lançou em abril de 2025 o Timeboost, um leilão de ordenação prioritária que procura criar uma fonte de receita ligada ao MEV, já com perto de 1,8 M € acumulados.

A leitura para a previsão é direta: num cenário de taxas cada vez mais baixas, sobrevivem as L2 com volume suficiente para compensar margens minúsculas, ou com receitas alternativas como o MEV capturado de forma ordenada. A Optimism aposta nessa escala através da Superchain. As redes sem volume nem diferenciação arriscam tornar-se peso morto.

Previsão: três cenários de taxas até 2027

Com estes fatores em cima da mesa, eis três cenários para o custo médio de uma transação numa L2 de topo em 2027. Não são garantias, mas balizas úteis para quem acompanha as previsões do mercado.

CenárioPressuposto principalTaxa média em 2027 (€)Probabilidade
CentralNovos BPO entregam capacidade e a procura cresce de forma gradual0,0005 a 0,002Alta
OtimistaDanksharding acelera, 48 ou mais blobs, pouca congestãomenos de 0,0005Média
PessimistaAdoção massiva satura o blobspace antes de a escala chegar0,10 a 0,46Baixa a média

O cenário central continua a ser de compressão, mas mais lenta e com um piso visível. O impulso mais provável vem do lado da oferta, com mais blobs; o maior risco está do lado da procura.

O risco de congestão pode inverter tudo

O ponto fraco da previsão otimista é a procura. Os blobs continuam a ser um recurso finito por bloco, e a relação entre oferta e procura não é linear: enquanto há folga, o preço fica no piso; quando a procura ultrapassa a oferta, dispara depressa.

Análises de mercado, incluindo investigação da Fidelity Digital Assets, alertam que basta a atividade dos rollups crescer cerca de 2,5 vezes para o espaço de blobs ficar congestionado. Nesse cenário, o custo médio por transação poderia subir para perto de 0,46 €, ou seja, centenas de vezes acima do valor atual. É precisamente por isso que os programadores correm para entregar mais blobs antes que a adoção os apanhe desprevenidos; a corrida é entre a oferta de dados e a procura que as próprias L2 ajudam a criar.

MiCA e CMVM: o enquadramento para o investidor português

Para o leitor em Portugal, a compressão de taxas chega num momento de maturação regulatória. O regulamento europeu MiCA, descrito pela ESMA, é aplicável desde 2025, e o período transitório termina a 1 de julho de 2026, data a partir da qual os prestadores de serviços de criptoativos sem autorização deixam de poder operar ao abrigo do regime antigo.

Em Portugal, a supervisão divide-se: o Banco de Portugal autoriza os prestadores e supervisiona as stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão comportamental e de mercado, incluindo a prevenção de abuso e o tratamento de reclamações. Para quem usa L2 no dia a dia, a relevância é prática: taxas residuais tornam viáveis micropagamentos e aplicações de consumo, mas a porta de entrada, corretoras e carteiras com serviços, passa a exigir conformidade MiCA, o que tende a favorecer plataformas reguladas em detrimento de operadores informais.

O que vigiar nos próximos meses

Para acompanhar a evolução desta previsão, há quatro indicadores que valem mais do que qualquer título de jornal:

  • A blob base fee: se sair do piso e ganhar volatilidade, é sinal de que a procura está finalmente a apertar.
  • O calendário dos próximos BPO forks e a contagem efetiva de blobs por bloco em cada um.
  • A receita dos sequencers, em especial fora da Base, como termómetro da sustentabilidade das L2 mais pequenas.
  • O fecho do período transitório do MiCA a 1 de julho de 2026 e os primeiros prestadores plenamente autorizados em Portugal.

A conclusão provável é menos espetacular do que os títulos sugerem. As taxas das L2 vão continuar muito baixas, mas a era da queda livre terminou; entrámos num equilíbrio em que a oferta de blobs e a procura real vão negociar um preço pequeno, porém diferente de zero. Para o utilizador, é a melhor notícia possível; para os sequencers mais fracos, o início de uma seleção natural.

Por João Mendes, editor sénior de mercados e infraestrutura na HOGE Wire.

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