Compressão de taxas nas L2: a previsão para 2026 e 2027
Depois da Fusaka e do salto na capacidade de blobs, as taxas das L2 caíram para frações de cêntimo. Analisamos até onde podem descer em 2026 e 2027 e o que pode travar a tendência.
As taxas de transação nas redes Layer 2 (L2) do Ethereum deixaram de ser o principal obstáculo à adoção. Quem usou a Arbitrum, a Base ou a Optimism nos últimos meses já reparou num detalhe: o custo de uma transferência simples raramente passa de uma fração de cêntimo. A questão que interessa aos leitores em Portugal não é se as taxas vão continuar a descer, mas até onde podem cair, a que ritmo e quem fica a ganhar com isso. Esta análise reúne os dados disponíveis, o impacto da atualização Fusaka e uma previsão concreta para 2026 e 2027.
O ponto de partida: porque as taxas das L2 colapsaram
Para perceber a previsão, é preciso recuar a março de 2024. A atualização Dencun introduziu os chamados blobs, um espaço de dados temporário e barato onde as L2 passaram a publicar as suas transações em lote, através da EIP-4844. Antes disso, cada rollup competia pelo mesmo espaço caro dos blocos do Ethereum; depois, passou a dispor de um mercado de dados próprio, separado e muito mais económico.
O efeito foi imediato. O custo médio de uma transação nas três maiores L2 (Arbitrum, Base e Optimism) desceu de cerca de 0,16 EUR no primeiro trimestre de 2024 para perto de 0,0013 EUR no primeiro trimestre de 2026, uma queda de aproximadamente 99 por cento, segundo dados agregados do setor. Não é um ajuste fino; é uma mudança de regime, e é a base sobre a qual assenta tudo o que se segue.
Fusaka e o salto de capacidade dos blobs
A segunda perna desta descida chegou a 3 de dezembro de 2025, com a atualização Fusaka. O seu componente central é o PeerDAS (Peer Data Availability Sampling), definido na EIP-7594: em vez de cada nó descarregar todos os blobs, passa a verificar a disponibilidade dos dados por amostragem, descarregando apenas uma fração. Na prática, a rede suporta muito mais dados sem sobrecarregar quem a mantém, como explica o anúncio da Ethereum Foundation.
O resultado mede-se em blobs por bloco. Logo após a Fusaka, duas alterações de parâmetros (conhecidas como BPO forks) elevaram o alvo e o máximo de blobs: a 9 de dezembro de 2025 para 10 e 15, e a 7 de janeiro de 2026 para 14 e 21. A CoinDesk noticiou que os analistas apontavam para reduções adicionais de taxas na ordem dos 40 a 60 por cento, consoante o ritmo a que as redes aproveitassem a nova capacidade.
Quanto custa hoje uma transação numa L2
Hoje, o custo deixou de ser um obstáculo e passou a ser quase impercetível. A tabela seguinte resume os valores médios aproximados, convertidos para euros às taxas de câmbio em vigor, de uma transação simples nas principais redes.
| Rede ou período | Custo médio aproximado (EUR) | Observações |
|---|---|---|
| Média das três maiores (T1 2024) | ~0,16 | Antes da Dencun |
| Média das três maiores (T1 2026) | ~0,0013 | Após a Fusaka, queda próxima de 99 por cento |
| Arbitrum One | ~0,004 | Transferência simples; sobe em operações DeFi |
| Base | menos de 0,009 | Foco em consumo e jogos |
| Optimism | ~0,00002 | Das mais baratas do mercado |
Os valores variam ao minuto e dependem da congestão e do tipo de operação (uma simples transferência custa menos do que uma troca em DeFi), mas a ordem de grandeza é clara. Quem quiser acompanhar em tempo real pode consultar agregadores como o L2Fees.info ou o L2BEAT. Há um detalhe técnico decisivo: segundo a Ethereum Foundation, os blobs estão, em média, apenas cerca de 30 por cento cheios, o que significa que existe folga considerável antes de a procura voltar a pressionar os preços.
Recorde-se que estas taxas são pagas em ETH e depois convertidas para euros. Com a ETH a transacionar perto de 1.400 EUR no final de junho de 2026, segundo a CoinGecko, mesmo oscilações relevantes no preço da moeda têm hoje um efeito marginal no custo final, em euros, de uma transação numa L2.
A previsão: até onde podem cair as taxas em 2026 e 2027
Com este enquadramento, eis a previsão central desta análise para o horizonte 2026 e 2027, organizada em três cenários.
- Cenário central (mais provável): para a maioria das L2 de uso geral, o custo de uma transferência simples estabiliza entre 0,0003 EUR e 0,002 EUR durante 2026, com subidas pontuais em momentos de procura intensa. Para o utilizador comum, a taxa arredonda a zero.
- Cenário otimista: se a capacidade dos blobs continuar a crescer mais depressa do que a procura, é plausível ver médias abaixo de 0,0002 EUR em várias redes ao longo de 2027, em linha com o que a Optimism já pratica.
- Cenário de pressão: o risco de subida não está eliminado. Se uma nova vaga de atividade (jogos on-chain, agentes de IA a transacionar, uma temporada de memecoins) encher os blobs acima dos 60 a 70 por cento de ocupação, o mercado de dados volta a ter preço e as taxas podem multiplicar-se por dez, ainda que partindo de uma base baixíssima.
O fio condutor dos três cenários é estrutural: os blobs separaram o custo das L2 do preço do gas na L1. Enquanto a capacidade de dados crescer em degraus (cada BPO fork, cada atualização) e a procura subir de forma mais gradual, a tendência natural das taxas é para baixo. A previsão não é de queda infinita, mas de um patamar estruturalmente baixo, pontuado por picos curtos.
O que pode travar ou inverter a tendência
Nenhuma previsão desenha uma linha reta. Há fatores concretos capazes de interromper a compressão de taxas, e convém tê-los à vista.
- Procura acima da oferta: se a atividade crescer mais depressa do que a capacidade de blobs, o mercado de dados volta a ter leilão e os preços sobem.
- MEV: mesmo com taxas de base baixas, a extração de valor pela ordenação de transações (Maximal Extractable Value) pode encarecer operações sensíveis, sobretudo em DeFi.
- Centralização dos sequenciadores: a maioria das L2 ainda depende de um sequenciador único, o que é um risco de fiabilidade e, em teoria, de preço.
- Picos no gas da L1: parte do custo de uma L2 continua ligada à publicação de provas e de estados na mainnet do Ethereum; um pico prolongado no gas da camada base ainda se faz sentir.
Glamsterdam e o que vem depois
A trajetória de longo prazo depende do calendário de atualizações do Ethereum. A próxima grande etapa chama-se Glamsterdam, com ativação apontada para o segundo semestre de 2026, segundo o roteiro oficial. O seu destaque é o ePBS (separação imposta entre proponente e construtor de blocos), que alarga a janela de propagação de dados de cerca de 2 para 9 segundos e, com isso, abre espaço para futuras subidas da capacidade de blobs.
A Ethereum Foundation reorganizou as prioridades de 2026 em três frentes (escalar, melhorar a experiência de utilização e endurecer a L1), como detalha a sua atualização de prioridades. A leitura para as taxas é direta: cada incremento de capacidade que chega antes da procura correspondente empurra os preços para baixo. Depois da Glamsterdam, a atualização seguinte (com o nome de código Hegotá) deverá trazer mecanismos ligados à resistência à censura, como o FOCIL.
O ângulo gaming: micro-transações que passam a fazer sentido
Para um meio que cobre também jogos, esta é a parte mais interessante. Durante anos, o argumento contra os jogos on-chain foi económico: não fazia sentido pagar 2 EUR de taxa para trocar um item virtual de 0,50 EUR. Com taxas a rondar frações de cêntimo, esse argumento desaparece.
Redes orientadas para o consumo e para jogos, como a Base, a Arbitrum (com ecossistemas como o Xai e o Treasure) ou L2 dedicadas como a Immutable e a Ronin, passam a poder suportar economias de micro-transações reais: recompensas por ação, mercados de itens, bilhética e provas de propriedade que custam menos do que o IVA de um café. O gargalo deixa de ser a taxa e passa a ser o design do jogo. Para os estúdios europeus, isto altera o cálculo de viabilidade de qualquer projeto que envolva ativos digitais.
Enquadramento regulatório: MiCA, CMVM e o prazo de 1 de julho
Taxas baixas não resolvem a questão regulatória, que em 2026 atravessa um momento decisivo. O período transitório do regulamento MiCA termina a 1 de julho de 2026, sem prorrogação, como a ESMA confirmou em abril no seu portal sobre o regime. A partir dessa data, qualquer prestador de serviços de criptoativos (CASP) que opere na União Europeia sem licença deixa de poder invocar o regime transitório.
Em Portugal, a supervisão está repartida: o Banco de Portugal autoriza os CASP e supervisiona as stablecoins, enquanto a CMVM assume a supervisão comportamental do mercado, incluindo o combate ao abuso e o tratamento de conflitos com consumidores. Para quem opera em L2, a implicação prática é dupla: a plataforma usada para entrar e sair de cripto (a on-ramp) tem de estar licenciada, e a stablecoin com que se pagam taxas e se liquidam operações tem de cumprir as regras de reservas 1:1 do MiCA. Note-se que a maior stablecoin do mundo, a USDT da Tether (com capitalização acima de 180 mil milhões de dólares), continua sem aprovação europeia, o que condiciona a sua disponibilidade nas plataformas reguladas.
O que isto significa para o investidor e o utilizador em Portugal
Juntando as peças, a fotografia para os próximos dezoito meses é razoavelmente nítida, e pode resumir-se em quatro pontos.
- As taxas das L2 deixaram de ser um fator de decisão relevante para o utilizador comum; o custo aproxima-se de zero e deverá manter-se assim.
- A margem de segurança é grande: com os blobs a cerca de 30 por cento de ocupação e a capacidade a aumentar, seria preciso um choque de procura muito forte para inverter a tendência em 2026.
- O valor desloca-se: deixa de estar na taxa e passa a estar na experiência de utilização, na liquidez, na segurança de cada L2 e no cumprimento regulatório.
- Para quem está em Portugal, a variável crítica passa a ser de conformidade: usar plataformas licenciadas ao abrigo do MiCA e supervisionadas pela CMVM.
A previsão, em síntese: taxas estruturalmente baixas, com episódios de volatilidade, e uma indústria que terá de competir por motivos que não o preço por transação. Para os leitores, é uma boa notícia rara: a tecnologia que prometia tornar os pagamentos digitais acessíveis está, ao nível do custo, finalmente a cumprir. Falta resolver tudo o resto.
Por João Mendes, editor sénior de mercados e tecnologia da HOGE Wire.