Compressão de taxas nas L2: previsão para o resto de 2026
As taxas nas Layer 2 do Ethereum já se medem em cêntimos e a Fusaka acelerou a queda. Analisamos os dados de junho de 2026 e traçamos três cenários para o segundo semestre.
As taxas de transação nas redes Layer 2 do Ethereum caíram para valores que há poucos anos pareciam impensáveis. Hoje, uma transferência de stablecoin na Base ou na World Chain custa cerca de dois cêntimos de euro, e um swap simples raramente ultrapassa os cinco cêntimos. A pergunta que interessa aos leitores portugueses, tanto a quem investe como a quem joga on-chain, já não é se as taxas são baixas, mas até onde podem descer no resto de 2026 e o que ainda pode travar essa descida. Reunimos os dados mais recentes e traçamos três cenários para o segundo semestre.
O que significa compressão de taxas nas L2
A taxa que um utilizador paga numa rollup divide-se em duas partes. A primeira é o custo de execução na própria L2, que cobre o processamento da transação e costuma ser residual. A segunda, quase sempre a maior fatia, é o custo de disponibilidade de dados: o preço de publicar os dados da transação na camada base do Ethereum, para que qualquer pessoa os possa verificar. É esta segunda parcela que domina a fatura e que tem estado em queda constante.
Compressão de taxas é o nome dado a essa tendência descendente prolongada do custo total por transação. Não resulta de promoções nem de subsídios temporários das redes, mas de mudanças estruturais no Ethereum que baixam o preço da disponibilidade de dados. Perceber o mecanismo é essencial para qualquer previsão séria: enquanto o Ethereum continuar a aumentar a capacidade de dados que oferece às L2, a pressão sobre as taxas mantém-se em baixa.
De Dencun a Fusaka: como chegámos às taxas de cêntimos
O ponto de viragem foi a atualização Dencun, em março de 2024, que introduziu os blobs através da EIP-4844. Os blobs são um canal de dados dedicado e barato, dimensionado para as cargas das rollups, e cortaram as taxas nas L2 em cerca de uma ordem de grandeza de um dia para o outro. Antes disso, cada rollup competia pelo espaço caro dos blocos normais do Ethereum; depois, passou a ter uma via própria.
A atualização Pectra, em maio de 2025, subiu o alvo de blobs por bloco de três para seis e o máximo de seis para nove. O passo mais recente foi a atualização Fusaka, ativada na mainnet a 3 de dezembro de 2025, que trouxe o PeerDAS. Para as redes que assentam no Ethereum, o efeito foi imediato: a Optimism assinalou a chegada da Fusaka como um novo patamar de escala para a Superchain. O resultado acumulado destas três atualizações é a razão pela qual falamos hoje de taxas medidas em cêntimos, e não em euros.
Onde estão as taxas hoje
Em junho de 2026, os dados da growthepie e da L2BEAT mostram uma transferência de stablecoin abaixo de dois cêntimos de euro nas redes mais baratas. A tabela seguinte resume valores aproximados, convertidos a partir dos custos denominados em dólares que estas plataformas publicam; como as taxas oscilam com o preço dos blobs, devem ser lidos como ordens de grandeza, não como cotações fixas.
| Rede | Tipo | Transferência (aprox.) | Swap (aprox.) |
|---|---|---|---|
| Base | Optimistic rollup | 0,02 EUR | 0,01 a 0,05 EUR |
| World Chain | Optimistic rollup | 0,02 EUR | 0,02 a 0,05 EUR |
| Linea | ZK rollup | 0,04 EUR | 0,03 a 0,06 EUR |
| Arbitrum One | Optimistic rollup | 0,03 EUR | 0,02 a 0,20 EUR |
| OP Mainnet | Optimistic rollup | 0,05 EUR | 0,05 a 0,20 EUR |
| Ethereum (L1, referência) | Camada base | 0,40 a vários euros | 1 a 15 EUR ou mais |
Os valores são aproximados e convertidos de custos em dólares; para acompanhar as taxas em tempo real, tanto o l2fees.info como a growthepie publicam medianas atualizadas por rede. Dois padrões saltam à vista. Primeiro, a diferença entre a L1 e as L2 é agora de duas a três ordens de grandeza, o que torna a camada base pouco prática para o dia a dia. Segundo, a distância entre as próprias L2 estreitou-se: rollups optimistic e ZK convergiram para a mesma faixa de cêntimos, sinal de que o custo dominante, a disponibilidade de dados, é partilhado por todas.
O motor da descida: PeerDAS e os forks BPO
O PeerDAS, definido na EIP-7594, muda a forma como os nós verificam que os dados dos blobs foram publicados. Em vez de cada nó guardar todos os blobs, cada um recolhe apenas uma pequena fração aleatória dos dados (hoje, cerca de um oitavo) e confia numa amostragem coletiva para confirmar a disponibilidade. Essa fração pode descer para um dezasseis avos ou um trinta e dois avos, permitindo aumentar a capacidade de blobs sem obrigar cada nó a descarregar mais dados; é assim que o Ethereum escala a disponibilidade de dados sem sacrificar descentralização.
A capacidade maior não é ativada de uma só vez. A EIP-7892 criou os chamados forks BPO (Blob Parameter Only), atualizações leves que alteram apenas os parâmetros dos blobs (alvo, máximo e o fator de atualização da taxa base) sem exigir mudanças no código dos clientes. O calendário fala por si: a Fusaka arrancou com um alvo de seis blobs e máximo de nove; o BPO1, a 17 de dezembro de 2025, subiu para dez e quinze; o BPO2, a 7 de janeiro de 2026, para catorze e vinte e um. Cada incremento aumenta a oferta de espaço de dados e, tudo o resto igual, empurra as taxas para baixo.
Glamsterdam e o teto que ainda não conhecemos
A próxima grande atualização, a Glamsterdam, entrou na fase final de testes em meados de junho de 2026 e é apresentada por engenheiros da Ethereum Foundation como o maior fork desde a Merge. O foco não são diretamente os blobs, mas a produção de blocos (ePBS, uma reforma que redistribui o papel dos produtores de blocos e o tratamento do MEV) e o débito de execução (block-level access lists). Ainda assim, a janela mais longa de propagação que o ePBS abre cria espaço para futuros forks BPO com contagens de blobs mais altas.
Aqui entra a nota de cautela mais importante para qualquer previsão. Os programadores estão a segurar os incrementos seguintes, BPO3 e BPO4, à espera de uma revisão da telemetria dos dois primeiros, em vez de subir os parâmetros no calendário original. A ambição de longo prazo, referida com frequência, é chegar a 128 blobs por bloco, mas continua a ser um destino teórico, sem datas fechadas. Por outras palavras, o teto da compressão existe, mas ninguém sabe ainda a que altura fica.
Previsão: três cenários para o segundo semestre de 2026
Com estas peças em cima da mesa, a nossa leitura para o segundo semestre organiza-se em três cenários. O mais provável é uma continuação ordenada da descida; os extremos dependem de a Glamsterdam correr bem e de a procura não encher o novo espaço de blobs mais depressa do que ele cresce.
| Cenário | Principais gatilhos | Transferência mediana esperada | Leitura |
|---|---|---|---|
| Base (mais provável) | BPO3 e BPO4 avançam de forma gradual após a revisão de telemetria; procura estável | 0,01 EUR ou menos | A compressão continua, sem grandes sobressaltos |
| Aceleração | Glamsterdam a tempo; forks BPO mais agressivos; blobs acima de vinte e um por bloco | Frações de cêntimo | Micropagamentos e gaming on-chain tornam-se triviais |
| Travagem | Procura induzida enche o espaço de blobs; picos de congestão; BPO adiados | 0,03 a 0,10 EUR, com picos | A descida pausa ou inverte-se em momentos de pico |
O que pode travar a compressão
A descida das taxas não é garantida, e há três travões plausíveis. O primeiro é a procura induzida: taxas mais baixas atraem mais atividade, e se o número de transações crescer mais depressa do que o espaço de blobs, a taxa base dos blobs volta a subir nos picos. Já vimos episódios de disparo do preço dos blobs quando a procura ultrapassa o alvo por bloco, mesmo com muito espaço disponível.
O segundo é a prudência dos programadores. Como a documentação sobre a Fusaka deixa claro, cada aumento de parâmetros só avança depois de confirmada a saúde da rede; segurar o BPO3 e o BPO4 é exatamente o tipo de decisão que pode adiar a próxima descida por meses. O terceiro travão é físico: a amostragem do PeerDAS tem limites de descentralização, e empurrar a fração amostrada demasiado depressa levantaria riscos que a comunidade não vai correr de ânimo leve. Nenhum destes fatores inverte a tendência de fundo, mas qualquer um deles pode achatar a curva durante um trimestre.
Enquadramento regulatório: MiCA, CMVM e o fim do período transitório
Há uma coincidência de calendário que os leitores portugueses não devem ignorar: é precisamente hoje, 1 de julho de 2026, que termina o período transitório do MiCA em Portugal, fixado pela Lei n.º 69/2025, de 22 de dezembro. As entidades que a 30 de dezembro de 2024 estavam registadas junto do Banco de Portugal podiam continuar a operar até esta data ou até verem a autorização MiCA concedida ou recusada. A partir de agora, quem não tiver autorização deixa de poder prestar serviços de criptoativos na União Europeia.
A supervisão está repartida. O Banco de Portugal é a autoridade competente para os títulos III e IV do regulamento (tokens referenciados a ativos e de moeda eletrónica, além dos aspetos prudenciais dos prestadores), enquanto a CMVM supervisiona a conduta de mercado, incluindo o capítulo 3 do título V e os artigos 66.º e 70.º a 72.º. Convém recordar que o MiCA cobre os criptoativos à vista e os respetivos prestadores; os derivados de criptoativos (futuros e perpétuos) continuam a ser instrumentos financeiros ao abrigo da MiFID II, supervisionados pela CMVM enquanto regulador de mercado.
A ligação com o tema das taxas é direta. Taxas quase nulas convidam a mais transações e a plataformas novas; escolher uma que esteja de facto autorizada ao abrigo do MiCA é, a partir de hoje, a diferença entre um prestador legal e um que deixou de o poder ser. Prestar estes serviços sem autorização é, em Portugal, contraordenação muito grave, sujeita a coimas que podem chegar aos milhões de euros.
O que muda para utilizadores e para o gaming em Portugal
Quando uma transferência custa menos de um cêntimo, abrem-se casos de uso que antes não faziam sentido. Micropagamentos, cunhagem de itens de jogo, recompensas em tempo real e ações frequentes de DeFi passam a ser económicas mesmo em valores pequenos. Não é por acaso que a Base, uma das redes mais baratas, se tornou um dos centros de gaming e aplicações sociais on-chain: a taxas de cêntimos, pagar por uma jogada ou por um item deixa de doer.
Fica um aviso, porém. Taxas próximas de zero reduzem o atrito técnico, não as obrigações fiscais nem os cuidados de segurança. As mais-valias em criptoativos continuam a ter tratamento fiscal em Portugal, e a facilidade de transacionar não altera o dever de registar operações. Para o resto de 2026, a nossa aposta é clara: a compressão continua, provavelmente até frações de cêntimo nas redes mais eficientes, com pausas sempre que a procura apertar ou os programadores travarem os parâmetros. Para quem usa L2 no dia a dia, o custo por transação vai deixar de ser um fator de decisão; a segurança da rede e a conformidade da plataforma é que passam a mandar.
Por Tiago Marques, editor de mercados e Web3 da HOGE Wire.