A entrevista do fundador de jogos: vender o que ainda não existe
Os fundadores de jogos cripto não vendem um produto, vendem uma promessa. Da Axie Infinity à Otherside, como ler a entrevista que vende o jogo que ainda não existe.
Em 2024, numa entrevista sobre o futuro dos jogos em blockchain, Aleksander Larsen, cofundador da Sky Mavis (o estúdio por trás de Axie Infinity), descreveu a sua visão sem rodeios: o potencial dos jogos em blockchain era, disse, «to be a provider of jobs for hundreds of millions of people around the world». E, antecipando a acusação óbvia, acrescentou: «That is actually not dystopian to me.» A frase está registada numa entrevista à DL News.
Dois anos antes, essa promessa de emprego para centenas de milhões tinha-se transformado numa ironia difícil de superar. Em março de 2022, a Ronin, a rede que fazia funcionar Axie Infinity, foi drenada de cerca de 625 milhões de dólares (uns 540 milhões de euros), no que foi então o maior roubo da história da DeFi. O vetor de ataque? Um engenheiro sénior da própria Sky Mavis foi abordado com uma oferta de emprego falsa; um PDF com a suposta proposta instalou software espião que comprometeu os validadores da rede, segundo a BleepingComputer. O homem que vendia empregos ao mundo viu a sua empresa cair por causa de uma entrevista de emprego.
A HOGE Wire já dissecou a entrevista ao fundador de cripto por vários ângulos: o microfone que vira prova em tribunal, a entrevista de redenção, a captura do palco, a palavra que move o preço. Mas há um subgénero que funciona por regras próprias e que raramente é analisado como aquilo que realmente é: a entrevista ao fundador de jogos. Aqui, o fundador não vende um rendimento, uma corretora ou uma custódia. Vende um jogo que ainda não existe.
O género que vende um jogo que ainda não existe
Toda a entrevista de fundador é um documento de venda. A diferença está no objeto. O fundador de um protocolo DeFi vende um rendimento, uma percentagem anual que se pode comparar com a de um depósito. O fundador de uma corretora vende segurança e custódia, a garantia de que os fundos estão onde deviam estar. O fundador de jogos vende outra coisa completamente: um produto futuro. O roadmap, o trailer, a «experiência AAA» que está a caminho, a «true ownership» dos ativos digitais. A entrevista ao fundador de jogos é, na sua estrutura, um argumento de pré-venda.
Isto muda tudo na forma como deve ser lida. Quem lê a entrevista não está a avaliar um produto que existe e que pode testar; está a ser convidado a acreditar numa promessa. E o fundador de jogos usa dois chapéus ao mesmo tempo, o de designer criativo e o de emissor de um token, pelo que a entrevista mistura visão artística com proposta de investimento numa única voz. Esta dupla função é o coração do culto do builder, a ideia de que o fundador visionário merece confiança pela ambição, não pelo que já entregou. Num jogo tradicional, o pior que pode acontecer a quem acredita numa promessa é comprar um jogo mau. Num jogo cripto, quem acredita comprou também um token, e o token tem preço, mercado e a possibilidade de ir a zero.
Esta confusão de papéis não é acidental; é o modelo de negócio. Ao emitir um token, o estúdio troca a via difícil (vender cópias de um bom jogo, uma de cada vez) pela via rápida (vender um ativo cuja narrativa faz o preço subir). A entrevista torna-se, então, a ferramenta principal para alimentar essa narrativa, e o jogo passa a ser, em parte, o pretexto para o token. Nem sempre é assim, mas acontece com frequência suficiente para justificar a desconfiança de quem ouve.
Play-to-earn: quando o jogador se tornou investidor
O momento fundador deste género foi o «play-to-earn». A ideia inverteu a lógica dos videojogos: em vez de pagar para jogar, o jogador passava a extrair rendimento do tempo passado no jogo. O argumento de venda era irresistível na sua simplicidade: as tuas horas valem dinheiro. E foi nas Filipinas, durante os confinamentos da pandemia, que a promessa encontrou o seu público mais vulnerável.
Como as Axies (as criaturas NFT necessárias para jogar) se tornaram caras demais, surgiram as guildas. Gabby Dizon, Beryl Li e um investidor conhecido apenas como Owl of Moistness cofundaram a Yield Guild Games, que comprava os NFT e os emprestava a novos jogadores, chamados «scholars», sem custo inicial, em troca de uma parte dos ganhos. No pico, as Filipinas chegaram a representar mais de um terço dos jogadores diários de Axie, e muitos «scholars» de famílias com rendimentos baixos chegavam a ganhar cerca de 200 dólares por mês, mais do que muitos ganhavam no trabalho tradicional.
Foi aqui que o género cometeu o seu pecado original: colapsou a fronteira entre jogar e investir. Quando o fundador diz que se pode «ganhar a vida a jogar», a entrevista deixa de ser marketing de um jogo e passa a ser a divulgação de um esquema de rendimento. E rendimentos que dependem de um token têm o hábito de desaparecer. O token SLP, a moeda que os «scholars» ganhavam, colapsou mais de 95% face ao máximo de 2021. Quando o Ronin foi pirateado, os jogadores filipinos que tinham tratado Axie como um salário viram esse rendimento evaporar-se em meses, e alguns ficaram endividados, depois de terem investido para jogar.
Axie Infinity: da liberdade económica à entrevista de emprego falsa
Nenhuma história ilustra melhor o género do que a da Sky Mavis. Os três nomes centrais, Trung Nguyen (CEO), Aleksander Larsen (cofundador e presidente) e Jeff Zirlin (cofundador), construíram o argumento de venda peça a peça. Numa entrevista à TokenPost, a mensagem era clara: «We are realizing economic freedom for the game community.» Zirlin dizia à TechCrunch, em 2022, que aquele seria «a year of building, shipping products, and delivering better and more accessible gameplay experiences». A promessa era a de um jogo que ia melhorar, de uma economia que ia amadurecer, de um futuro que valia a pena comprar hoje.
Os números do pico deram credibilidade à promessa. O token AXS atingiu um máximo histórico de 165,37 dólares (cerca de 142 euros) a 6 de novembro de 2021, segundo os dados da CoinGecko. O próprio Larsen recordaria, numa entrevista à DL News no Token2049, que o valor de mercado conjunto de AXS e SLP chegou aos 11 mil milhões de dólares (perto de 9,5 mil milhões de euros), com quase 2,7 milhões de jogadores diários. A Sky Mavis levantou uma ronda de 152 milhões de dólares (cerca de 131 milhões de euros) liderada pela a16z quando se aproximava dos 2 milhões de utilizadores diários. Tudo parecia confirmar a tese.
Depois veio o colapso. O ataque à Ronin, atribuído pelo Tesouro dos EUA ao grupo Lazarus da Coreia do Norte, ficou seis dias por detetar. AXS caiu 97% face ao pico e SLP perdeu 99%; os jogadores diários passaram de 2,7 milhões para cerca de 250 mil, números que o próprio Larsen citou na mesma entrevista. E foi aí que ele fez a admissão mais reveladora do género. Sobre o estado real dos jogos cripto, disse: «You’re basically competing with the AAA games of web2 without the benefits of web3 in any real tangible way.» Vindo do homem que se orgulha de que «Axie made this industry happen», é uma frase que resume a distância entre a entrevista e o produto.
A anatomia da promessa: o que venderam e o que entregaram
Os grandes nomes dos jogos cripto seguiram todos o mesmo guião: uma promessa ambiciosa na entrevista, um token que disparou e uma entrega que ficou muito aquém. A tabela abaixo compara cinco casos, do argumento de venda ao que efetivamente aconteceu.
| Projeto (fundador) | A promessa na entrevista | Pico | O que aconteceu |
|---|---|---|---|
| Axie Infinity (Sky Mavis; Larsen, Nguyen) | «Liberdade económica»; empregos para centenas de milhões | AXS a 165 dólares; AXS+SLP em 11 mil milhões | Ronin drenada em ~625 M$; jogadores de 2,7 M para 250 mil; AXS -97% |
| Star Atlas (ATMTA; Michael Wagner) | MMO AAA na Solana, uma economia virtual completa | ATLAS no máximo de novembro de 2021 | ATLAS -99,5%; pessoal de 235 para 45; «Season Zero» ainda por chegar |
| Otherside (Yuga Labs; Greg Solano) | Um metaverso jogável para os Bored Apes | Venda de Otherdeeds: 305 ApeCoin cada; >150 M$ queimados em gas | Playtests sucessivos; tecnologia trazida «para dentro» em 2025 |
| Illuvium (Kieran Warwick) | Auto-battler AAA com mundo aberto na Immutable | ILV no máximo de 2021 | Beta aberta após anos de adiamentos; aposta no mobile em 2026 |
| Immutable (Robbie Ferguson) | «A melhor cadeia de jogos»; um mercado de 100 mil milhões | Série C com avaliação de 2,5 mil milhões (2022) | Fundo de 500 M$; reestruturação cortou equipas de jogos internas |
O roadmap como produto: a eterna promessa do early inning
Se há uma peça retórica que define o género, é o roadmap. O fundador de jogos não vende o jogo; vende o mapa do que o jogo vai ser. «Em breve», «no próximo trimestre», «Season Zero», «fase 2»: o futuro é permanente. E, quando a entrega atrasa (como quase sempre atrasa), há uma frase pronta para desarmar a crítica. Larsen ofereceu a versão canónica: «We’re just in a very, very early inning. It’s wrong to judge the games on where they are today without looking forward to what they will become.»
É o movimento central do género: julguem-nos pela promessa, não pelo produto. E funciona porque a economia da atenção premeia o trailer sobre a build jogável. Um vídeo cinematográfico gera manchetes e faz subir o token; um patch aborrecido não. O fundador com presença nas redes, o «founder mode» aplicado aos jogos, aprende depressa que a narrativa do futuro vende melhor do que o presente imperfeito. O problema é que o «early inning» não tem fim definido. Um jogo pode estar em «early innings» durante cinco anos, e o argumento continua a funcionar enquanto houver quem compre o token com base no que o jogo «vai ser».
A indústria tradicional já conhece esta dinâmica. Star Citizen, o jogo espacial que angariou mais de 500 milhões de dólares em financiamento coletivo, está em desenvolvimento há mais de uma década e ainda não teve um lançamento completo. Ninguém chama fraude a Star Citizen; chamam-lhe um projeto ambicioso e muito lento. Mas o precedente é instrutivo: um roadmap sedutor consegue financiar anos de desenvolvimento sem nunca prometer uma data firme. Nos jogos cripto, esse roadmap financia-se com a venda de um token, o que significa que o risco do atraso passa diretamente para quem comprou.
Star Atlas: o jogo AAA que está sempre a chegar
Poucos projetos encarnam melhor o roadmap-como-produto do que Star Atlas. O estúdio ATMTA, liderado por Michael Wagner, prometeu um MMO de ficção científica na Solana com uma economia virtual completa, dois tokens (ATLAS como moeda e POLIS para governação), naves, batalhas e um universo inteiro. Os trailers eram deslumbrantes. O jogo, esse, continua a chegar.
Os números da realidade são duros. O token ATLAS caiu até 99,5% face ao máximo de novembro de 2021. Pior: o estúdio angariou cerca de um terço do seu financiamento no seu próprio token ATLAS e não o converteu, pelo que a tesouraria afundou-se junto com a moeda. Perdeu 15 milhões de dólares no colapso da FTX e teve de pagar 30 milhões em impostos. O pessoal encolheu de um pico de 235 pessoas para 167 e depois para apenas 45, um corte de 73%, com o CEO a reduzir o próprio salário ao mínimo e cerca de 12 meses de liquidez em caixa. A equipa insiste que continua a construir, apesar do preço do token.
Um estúdio que guarda a tesouraria no seu próprio token está, na prática, a fazer uma aposta alavancada em si mesmo: quando o token cai, o dinheiro para acabar o jogo cai ao mesmo tempo. É exatamente o tipo de risco que analisamos ao ler uma tesouraria cripto. Wagner defende-se comparando Star Atlas a Star Citizen e a EVE Online, projetos que exigiram muitos anos e muito dinheiro, segundo declarou à CCN. É uma defesa legítima: fazer um jogo AAA demora. Mas quem comprou terras em NFT e ATLAS como investimento financiou uma década de desenvolvimento sem qualquer garantia de que o jogo chega ao fim.
Otherside: o metaverso prometido e o segundo ato de Yuga
A Yuga Labs, a empresa por trás dos Bored Ape Yacht Club, vendeu a sua promessa de futuro com o nome de Otherside: um metaverso jogável onde os Apes ganhariam vida. A 30 de abril de 2022, a venda de terrenos Otherdeed foi o teste ao apetite do mercado. Foram 55 mil terrenos a 305 ApeCoin cada; a procura foi tão intensa que a mint desencadeou uma guerra de gas que queimou mais de 150 milhões de dólares em ETH, um dos maiores consumos de gas de sempre na Ethereum. Muitos utilizadores pagaram mais em taxas do que o próprio terreno custava, e a Yuga acabou por reembolsar as taxas das transações falhadas.
O que veio depois foi uma sequência de playtests e demonstrações, mas não o metaverso completo. Em agosto de 2025, o cofundador Greg Solano (conhecido como Gargamel) regressou ao cargo de CEO com planos renovados para a Otherside. Em dezembro de 2025, a Yuga anunciou a aquisição da plataforma criadora e do talento da Improbable, «bringing all the tech and talent under one roof», nas palavras de Solano, para acelerar o desenvolvimento. O CEO da Yuga já tinha resumido a lógica que sustenta o género: «this cycle is different». O metaverso prometido é uma promessa recorrente; a entrevista continua a vender o mesmo futuro, com uma nova camada de tinta a cada ciclo.
Immutable e a entrevista de captação: o mercado de 100 mil milhões
Há uma variante do género que não vende um jogo, mas a infraestrutura de todos os jogos. A Immutable, cofundada por Robbie Ferguson, construiu uma cadeia dedicada a videojogos (a Immutable X, uma L2 da Ethereum) e a sua entrevista é, acima de tudo, uma entrevista de captação de capital. O argumento é o do mercado endereçável: os tokens de jogos web3 valem hoje cerca de 21 mil milhões de dólares, um número que Ferguson acredita poder mais do que quadruplicar; e o mercado de jogos, com os seus 150 mil milhões de dólares, poderia valer biliões à medida que os jogadores ganham «verdadeira posse» dos seus ativos.
A captação foi real: a Immutable fechou uma Série C de 200 milhões de dólares liderada pela Temasek, com uma avaliação de 2,5 mil milhões de dólares (cerca de 2,15 mil milhões de euros) em março de 2022, e lançou um fundo de 500 milhões de dólares para financiar estúdios na sua plataforma. O modelo é o mesmo que estudamos ao ver como se financiam as tesourarias cripto: dinheiro que entra por rondas e por vendas de token. Mas a distância entre o argumento e a entrega apareceu também aqui: numa reestruturação descrita como «radical», a Immutable desmantelou as suas equipas internas de jogos para se concentrar na plataforma. A migração dos jogos para L2 dedicadas (Ronin, Immutable X) resolveu o problema das taxas, o mesmo movimento de fundo das taxas de L2 no piso, mas não resolveu o problema mais difícil: fazer jogos que as pessoas queiram jogar sem um incentivo financeiro. Na entrevista de captação, a métrica-estrela é o tamanho do mercado; a contagem de jogos entregues fica sempre para trás dos slides.
Quando a entrevista vira prospeto: MiCA, ESMA e o token de jogo
Há um momento exato em que a entrevista ao fundador de jogos deixa de ser marketing e passa a ser uma comunicação financeira regulada: quando promete retorno. «Ganha», «rendimento passivo», «vai valorizar»: cada uma destas palavras aproxima o token de jogo da fronteira do instrumento financeiro. E, desde 19 de março de 2025, a Europa tem regras claras sobre onde fica essa fronteira. A ESMA publicou orientações sobre as condições e os critérios para qualificar um cripto-ativo como instrumento financeiro, com esclarecimentos específicos sobre tokens de utilidade, NFT e tokens híbridos, incluindo os tokens usados dentro de jogos, consoante as suas características.
A lógica é a seguinte. Se um token de jogo qualificar como instrumento financeiro (por exemplo, um valor mobiliário), fica fora do MiCA e passa a ser governado pela MiFID II, com todas as obrigações que isso acarreta. Se for um cripto-ativo abrangido pelo MiCA, o emissor deve publicar um white paper com divulgações de risco obrigatórias, segundo explica a Deloitte. Um token puramente consumível (comprar um item cosmético) é o caso mais leve; um token vendido como fonte de rendimento ou investimento é o mais pesado. O design do «play-to-earn» colocou, deliberadamente, um token fungível, transacionável e feito para valorizar no centro da jogabilidade, que é precisamente o que o empurra para a linha do instrumento financeiro. A entrevista que promete «ganhar a vida a jogar» é, em termos europeus, a promoção de um produto financeiro.
O jogador português e a supervisão: CMVM e Banco de Portugal
Em Portugal, o mesmo jogo tem dois supervisores. A dimensão do token como investimento cabe à CMVM (conduta de mercado e proteção do investidor) e ao Banco de Portugal (registo de prestadores de serviços de cripto-ativos e stablecoins), ao abrigo do MiCA e da Lei n.º 69/2025, em vigor desde 27 de dezembro de 2025, cujo período transitório de VASP para CASP terminou a 1 de julho de 2026. A dimensão do jogador como consumidor (caixas de recompensa, compras dentro do jogo) cai sobretudo no direito do consumo. A CMVM tem, no seu portal do investidor, uma área dedicada aos riscos dos cripto-ativos, e lançou em 2026 um explicador com glossário, lista de prestadores autorizados e uma secção sobre fraude.
Traduzido para o concreto: o adolescente português que comprou AXS depois de ver uma entrevista entusiasmada de um fundador não estava a comprar um jogo. Estava a comprar um token não cotado, altamente volátil e sem nenhuma das proteções de um instrumento regulado. O MiCA obriga agora muitos tokens de jogo a ter um white paper e regras de conduta, o que é um avanço real. Mas nenhuma regulação torna o jogo bom, o roadmap verdadeiro ou a promessa cumprível. A supervisão pode garantir que o risco é divulgado; não pode garantir que o jogo chega a existir.
Nem toda a promessa é fraude, mas toda a promessa é uma aposta
É importante não cair no extremo oposto do hype: nem toda a promessa falhada é um crime. A maior parte dos jogos atrasados não é fraude. Fazer videojogos é genuinamente difícil, os projetos ambiciosos escorregam, e Star Citizen não é um esquema, é apenas um desenvolvimento longuíssimo. Michael Wagner não é Do Kwon; um roadmap não cumprido não é o mesmo que um balanço falsificado. As falhas deste género são, na sua maioria, falhas de hype e de execução, não de intenção criminosa.
Mas há uma verdade incómoda que sobrevive a esta nuance: uma promessa sobre o futuro é uma aposta, e a entrevista ao fundador de jogos pede-te que financies essa aposta comprando hoje um token ou um NFT. A ambição honesta, o vaporware sobrevalorizado e a fraude pura usam exatamente a mesma forma retórica, o roadmap, o trailer, o «early inning», e é por isso que a entrevista é tão difícil de ler. A competência que o leitor precisa de desenvolver não é a de detetar fraude (essa é rara e, muitas vezes, só visível em tribunal). É a de avaliar o preço de uma promessa: quanto vale, hoje, uma versão de um jogo que talvez nunca chegue, vendida por alguém que também é o emissor da moeda com que a pagas?
Como ler a entrevista do fundador de jogos
A boa notícia é que os sinais são consistentes. Ao longo de um ciclo inteiro de jogos cripto, os mesmos padrões separam as promessas saudáveis das armadilhas. A tabela seguinte resume o que ouvir com atenção.
| Sinal de alarme | Sinal saudável |
|---|---|
| Fala mais do token e do preço do que do jogo | Mostra uma build jogável, não só trailers e renders |
| «Ganha a vida a jogar», rendimento passivo, valorização garantida | Fala primeiro de diversão e retenção, e só depois de economia |
| Roadmap feito só de «em breve» e trimestres vagos | Datas anteriores cumpridas; historial de entregas |
| O estúdio guarda a tesouraria no seu próprio token | Tesouraria diversificada e transparente |
| A métrica-estrela é o valor de mercado | A métrica-estrela são jogadores que ficam sem incentivo financeiro |
| Evita ou ridiculariza perguntas sobre atrasos | Assume as falhas e publica post-mortems |
| A entrevista é bela demais para ser verdade | O fundador e as afirmações são verificáveis |
A última linha ganhou uma relevância nova. Numa era em que já não se pode assumir que a cara no ecrã é real, verificar a autenticidade da própria entrevista tornou-se parte do trabalho, um tema que aprofundámos ao analisar o fundador sintético e os deepfakes. Mas, mesmo quando o fundador é genuíno, o teste principal mantém-se: separar o jogo do token. Se a entrevista passa mais tempo a explicar por que o token vai subir do que a mostrar por que o jogo é divertido, já respondeu à pergunta mais importante.
O que a próxima entrevista vai vender
O argumento do próximo ciclo já está a formar-se. Jogos gerados por inteligência artificial, «mundos autónomos», NPC controlados por agentes, e a grande ponte da web2 para a web3 com editoras tradicionais, com parcerias como a que a Immutable anunciou com a Ubisoft. O roadmap nunca termina; a promessa apenas troca de vocabulário. Onde antes se dizia «play-to-earn», agora diz-se «true ownership» e «AI-native gaming», mas a estrutura da entrevista é a mesma: um futuro sedutor, vendido hoje, financiado por um token.
O trabalho do leitor também não muda. Quando um fundador te fala de um jogo que ainda não existe, lembra-te de que não és um jogador a ouvir sobre um passatempo; és um investidor a ouvir um argumento de venda, e deves comportar-te como tal. Pede a build. Verifica as datas anteriores. Pergunta onde está a tesouraria. Distingue a ambição honesta do vaporware, e o vaporware da fraude. O microfone continua a vender o futuro com a mesma eloquência de sempre. Cabe a quem ouve pôr-lhe um preço.
Perguntas frequentes
O que é uma entrevista de fundador de jogos cripto e porque é diferente?
É uma entrevista em que o fundador vende, ao mesmo tempo, um jogo futuro e um token. Ao contrário do fundador de um protocolo DeFi ou de uma corretora, que vende um serviço que já existe, o fundador de jogos vende sobretudo um roadmap, uma promessa de produto. Deve ser lida como um argumento de pré-venda, não como a análise de um produto acabado, porque quem acredita compra também um ativo com preço de mercado.
O modelo play-to-earn foi um esquema?
Não necessariamente uma fraude no sentido legal, mas colapsou a fronteira entre jogar e investir. Quando os tokens caíram (o SLP da Axie perdeu mais de 95% e a Ronin foi drenada em cerca de 625 milhões de dólares), muitos jogadores que tratavam o jogo como rendimento perderam dinheiro, e alguns ficaram endividados. A maior parte do fracasso do play-to-earn foi hype e tokenomics insustentável, não fraude provada.
Os tokens de jogos são regulados na União Europeia e em Portugal?
Depende do token. As orientações da ESMA de 19 de março de 2025 definem quando um cripto-ativo, incluindo tokens de jogo, é um instrumento financeiro sob a MiFID II ou um cripto-ativo abrangido pelo MiCA. Em Portugal, a CMVM e o Banco de Portugal supervisionam ao abrigo do MiCA e da Lei n.º 69/2025; a vertente do jogador como consumidor cabe sobretudo ao direito do consumo.
Como reconheço vaporware numa entrevista de fundador de jogos?
Sinais de alarme: fala mais do token do que do jogo, promete «ganhar a vida a jogar», apresenta roadmaps só com «em breve», guarda a tesouraria no próprio token, usa o valor de mercado como métrica-estrela e evita perguntas sobre atrasos. Sinais saudáveis: builds jogáveis, datas cumpridas, tesouraria diversificada e a publicação honesta de post-mortems quando algo corre mal.
O que aconteceu à Axie Infinity e à Sky Mavis?
O token AXS atingiu cerca de 165 dólares em novembro de 2021 e o valor conjunto de AXS e SLP chegou aos 11 mil milhões de dólares. O ataque à Ronin (cerca de 625 milhões de dólares, através de uma entrevista de emprego falsa) e o colapso dos tokens (AXS -97%, SLP -99%) reduziram os jogadores de 2,7 milhões para cerca de 250 mil. A Sky Mavis reembolsou os utilizadores e continua a operar; Larsen afirma que «Axie made this industry happen».
Marcus Okafor cobre a cultura, o poder e o dinheiro da cripto e dos videojogos na HOGE Wire.